CAPÍTULO 29
Augusto Encalhado
Anteriormente em "A Fogueira das Paixões 2: REFLEXOS"...
Numa conversa com o professor Ipcs, Hermione descobre que, conforme os frascos são abertos e Ted fica mais fraco, Kleiton fica mais forte...
-Quando recuperamos nossas qualidades, ajudamos Kleiton Huggins a deixar o espelho?
-Exatamente. E aproximam Ted Bacon da destruição... Não há maneira de destruir os dois, Mione. Quando o ciclo lunar se completar, se você e suas amigas não recuperarem todas as qualidades, Ted morre e Kleiton deixa o espelho. Se lutarem e abrirem todos os frascos, vocês recuperam suas qualidades, Ted permanece vivo, Kleiton volta a ser apenas uma sombra perdida no espelho... Kleiton ou Ted, Ted ou Kleiton. A questão é: no fim, qual dos dois você e as Encalhadas preferem enfrentar? (Cap. 28)
Ted Bacon consegue entrar em Hogwarts, infiltrando-se entre os assistentes da professora Christtinnah Bernard, consegue recuperar os frascos com as qualidades das Encalhadas e aprisiona Lanísia e Marjorie, acertando Rony no caminho...
-Aguarde aqui, Marjorie, eu já volto com os brincos – disse Rony, correndo para a escada circular que conduzia ao dormitório.
Estava perto da porta do dormitório quando recebeu o impacto na cabeça e desmaiou antes que registrasse o rosto do agressor... (Cap. 28)
...Joyce descobre que Ted está em Hogwarts e fala ao pai...
-Primeiro quero me certificar de que Lanísia e meu filho estão bem. Joyce, ouça: aguarde dez minutos. Se eu não voltar com Lanísia, avise a Minerva que há um homem desconhecido aqui dentro e que pensamos que é Ted Bacon.
-Pai, você não pode ir atrás dele sozinho... – murmurou Joyce, mas Augusto já atravessava o pátio, se afastando dela. (Cap. 28)
...Augusto chega para resgatar Lanísia no momento em que Kleiton Huggins se esforça para impedir que Ted vá embora com os frascos que, se conservados, poderão lhe trazer à vida. Kleiton derruba um vaso de cristal e atinge os corpos de Lanísia, Marjorie e Ted...
(Augusto) Não podia ver o que havia acontecido com Lanísia, mas Marjorie ergueu o rosto e olhou para ele. De sua bochecha, projetava-se um pedaço comprido de cristal que, fincado à pele, criara uma trilha de sangue pegajoso...
Marjorie berrou.
O que houve depois que Kleiton os atacou com os cacos de cristal num arroubo de fúria? Nesse ponto, começa o 29º capítulo de "Reflexos"...
Augusto, ainda correndo, apontou a varinha e rompeu a corda que unia Lanísia e Marjorie pelos pulsos. Assustada com o clarão, Marjorie tropeçou ao recuar com extrema rapidez e caiu sentada sobre o piso do corredor.
Augusto olhou para Ted, que estava desacordado em meio à uma poça de sangue. Em seguida, abraçou Lanísia, que chorava e tremia, nervosa.
-Tudo bem com você? Está machucada? Diga,diga o que está sentindo... – ele tropeçava nas palavras, olhando assustado para os respingos de sangue no corpo da garota.
-Muita dor... – ela respondeu, erguendo o braço direito e lhe mostrando o cotovelo, onde um caco de cristal estava fincado em sua pele.
-Fique calma, vamos dar um jeito nisso... Está doendo em outros lugares?
-Minhas pernas... E na minha barriga também... Augusto, estou preocupada com o bebê...
-Não aconteceu nada, não pode ter acontecido, vamos ver isso...
Enquanto Augusto verificava o estado de Lanísia, Marjorie ergueu dedos titubeantes até o rosto. Uma dor lancinante espraiava-se de sua bochecha, crescendo sem parar. Vinha acompanhada de um ardor que queimava sua face internamente. Quando seus dedos tocaram a pele, uma pontada mais aguda de dor se espalhou; sua mão cobriu-se de umidade pegajosa. Ela estremeceu e olhou para a mão; o sangue se infiltrara nas bordas das unhas, preenchendo o espaço entre os dedos... Pelo canto do olho, conseguia ver a ponta do cristal, projetando-se imóvel, mantendo-se firme dentro dela, usando seus músculos dilacerados como apoio.
Quanto sangue... quanto sangue...
Ela notou que sentia uma trilha pegajosa também na outra mão. Ficou intrigada; de onde viria aquele fluxo? Suspirou, desolada, antes de criar coragem de descobrir a origem do ferimento. Olhou diretamente para o dedo indicador, onde o ardor era mais intenso. Viu primeiro que era dali que o sangue se espalhava para então cobrir a mão por inteiro; e depois, assustada, registrou duas coisas ao mesmo tempo – seu dedo indicador havia desaparecido, deixando em seu lugar apenas um pedaço de osso – e, acima do espaço deixado por ele, ela conseguia ver o piso do corredor onde, a alguns metros, estava o seu dedo, inteiro, pequenino, seu dedo que fora decepado. De forma bizarra, ela percebeu que a unha postiça continuava firme no dedo perdido...
Tornou-se consciente do significado que as inúmeras dores que sentia pelo corpo podiam representar. Precisava verificar o corpo por inteiro.
Baixou os olhos e viu um pedaço de cristal grudado ao seu quadril. Arrancou-o com facilidade.
Augusto continuava ajudando Lanísia, e não percebeu quando Ted Bacon levantou-se. Marjorie viu que ele tinha um caco de cristal preso à coxa; ele arrancou-o com determinação, sem hesitar. Com a arma improvisada na mão, Ted avançou até o casal.
Lanísia estava de cabeça baixa, observando Augusto que, cuidadosamente, limpava o corte que a havia atingido ao lado do umbigo.
Sem impedimentos, Ted manquejava, o caco afiado de cristal preso entre os dedos putrefatos...
Augusto levantou-se, sorrindo para Lanísia:
-Está tudo bem, meu amor.
Ao olhar, aliviada, para o rosto dele, ela viu Ted a centímetros de distância, erguendo o cristal para fincá-lo ao pescoço de Augusto. Lanísia gritou tarde demais – o golpe de Ted atingiu Augusto acima da espinha.
Lanísia registrou a surpresa no rosto de Augusto, tão próximo do seu, enquanto Ted enfiava o cristal o mais fundo que podia, depositando toda a sua força; em seguida, a surpresa cedeu espaço à dor e, finalmente, o rosto do professor foi tomado pelo terror. Augusto revirou os olhos e, com um resfolegar sufocado, desabou diante de Lanísia com o cristal preso ao corpo.
Ela ajoelhou-se ao lado de Augusto, sem conter as lágrimas. Esqueceu-se de Ted e do perigo que corria ali – tudo o que importava era ajudar o homem que amava.
-Isso, minha querida, homenageie o seu professor enquanto pode. Quando levá-la até o seu futuro lar, não vou deixar a minha bela mulher ir até o cemitério visitar o túmulo de Augusto Welch.
Marjorie acompanhou tudo calada, imóvel, fraca demais para se mover. Achava que Ted, de posse dos frascos e da mulher que desejava, agarraria Lanísia e deixaria o castelo mas, para seu espanto, ele virou-se para ela e riu, expondo os dentes podres enfileirados no lado da face destruído pela Maldição do Aprisionamento.
-Parece que não sou mais o único deformado por aqui – debochou, começando a se aproximar.
Agachada, Marjorie recuou.
-Quero garantir que você se torne um monstro, exatamente o que a sua mãe sempre quis que eu me tornasse...
-Não, Ted, me deixe em paz... Leve a Lanísia, é ela que você quer...
Ele não ligou para os seus apelos; Ted segurou o cristal que estava preso ao rosto de Marjorie e puxou-o, não para arrancá-lo, mas sim movendo na vertical, rasgando ainda mais a pele. Marjorie urrou, de dor e de desespero. Deleitando-se, Ted falou, aos risos:
-Acho que assim conseguimos garantir uma bela cicatriz... – e puxou o cristal outra vez, em seguida arrancando-o da face dela sem a menor delicadeza.
Marjorie caiu para trás, chorando copiosamente; amorteceu a queda com as mãos. Com o rosto voltado para baixo, o sangue pingava do queixo para o piso, respingando na mão em que agora lhe faltava o dedo indicador...
Como estaria o seu rosto? Ela temia encarar o próprio reflexo depois disso...
Ted agarrou o braço de Lanísia e ergueu-a do chão.
-Vamos!
-Não, eu não posso ir, Augusto precisa de ajuda...
-A vida dele não importa mais pra você. Nunca mais vai pôr os olhos nele, quer ele viva ou morra, é indiferente...
-Não pode me levar...
-Devia ter corrido enquanto eu cuidava de deixar algumas lembrancinhas na Marjorie. Por que não foi pedir ajuda? Admita, no fundo a perspectiva de deitar-se comigo a deixa bem excitada...
-Jamais ia deixar o Augusto sozinho com um psicopata igual a você.
-Oh, quer dizer que até em situações de perigo você se preocupa mais com o professor do que com você mesma? Que bobagem... Confesse: no fundo eu te excito um bocado!
-Pra alguém igual a você é inaceitável alguém fazer loucuras por outra pessoa, não é? Você não sabe o que é agir por amor...
-Eu só conheço os meus próprios interesses – ele estirou a língua e lambeu a boca de Lanísia. A jovem sentiu o estômago revirar-se. – Você é um deles.
Apertando o braço de Lanísia, avançou pelo corredor, ansioso para deixar o castelo ao lado do objeto de seu desejo...
-O que vai fazer com essa vagabunda?
Ao ouvir a pergunta, Lanísia sentiu que agora não havia escapatória. Das sombras logo à frente surgiu Rebecca Lambert...
Marjorie deixou o corredor pelo outro lado e desceu as escadas. Não parou até chegar ao pátio, onde o ensaio para a noite do baile continuava. Havia sempre, no palco, um espelho comprido usado por Celine para os ensaios. Querendo ver nitidamente os danos causados ao rosto, Marjorie subiu as escadinhas até o palco, ouvindo as palavras de Celine, enquanto os alunos mais próximos afastavam-se, horrorizados, olhando-a enojados.
-Um item fundamental para que a garota vença como Rainha do Baile é a beleza. Não basta ser inteligente, nem dançar muito bem, se a beleza não estiver em harmonia com o conjunto.
Ela precisava ser bela para ganhar aquele concurso, claro; precisava ser bela para atingir o topo que tanto almejava.
Marjorie correu até o espelho e quase desmaiou ao deparar-se com seu reflexo. Seu rosto brilhava, recoberto de sangue pegajoso. Pedaços flácidos de pele pendiam sobre o líquido vermelho...
Celine continuou o seu discurso, as palavras ferindo a garota a cada sílaba:
-Não digo que é proposto um padrão único de beleza. É indiferente o perfil físico; alta, baixa, magrinha, encorpada, não importa. Mas um título tão importante quanto o de Rainha do Baile exige um cuidado especial, principalmente no rosto – ao ouvir isso, Marjorie ergueu a mão e tocou levemente no corte aberto em sua face. – Uma pele bem cuidada, sedosa, encimada por cabelos escovados e brilhantes... São requisitos levados em conta na hora da votação – sua bochecha estava aberta em um corte profundo; teria uma pele sedosa outra vez?
Não...
Desolada, Marjorie olhou para a professora, que permanecia de costas, na beirada do palco. Queria saber se conseguiria competir, se ainda havia chances; cambaleou, atravessando o pátio.
Um refletor foi direcionado para ela. Assim que a iluminação destacou-a, um murmúrio de assombro espalhou-se pela plateia.
-Eu não estou horrível, não estou... – choramingou Marjorie, caminhando até a professora.
-A beleza conta mais pontos do que qualquer outro requisito, portanto tomem cuidado, ou o cetro e o glamour da realeza do Baile de Formatura podem ir para outra pessoa.
Marjorie andou pela passarela que cruzava o palco, registrando os olhares de repulsa.
-Será uma noite inesquecível para a mulher mais linda e poderosa da noite, aquela que entrará para a história de Hogwarts! Andará pela passarela recebendo olhares de admiração, assovios, aplausos... Uma noite de sonho!
Uma garota gritou, apontando para a mão em que, agora, Marjorie só tinha quatro dedos.
Ela tropeçou, caindo sentada sobre a passarela.
Celine finalmente viu o que estava acontecendo.
Sob a luz do refletor, Marjorie chorava, ciente de que aquilo era o mais perto que chegaria da realeza do baile...
-Marjorie, o que aconteceu? – perguntou a professora de dança.
-Ted Bacon... Ted Bacon está aqui...
Foi um pandemônio. Alunos começaram a disparar para todos os lados, temendo um ataque, afoitos por um esconderijo.
No meio da confusão, Alone, Mione, Joyce e Serena conseguiram se reunir.
-Cadê a Lanísia? – perguntou Mione. – Com Ted aqui ela fica muito ameaçada...
-Meu pai foi atrás dela e ainda não voltou – respondeu Joyce. – Será que eles encontraram o Ted?
-Você já sabia que ele estava aqui? – perguntou Alone.
-Sim, meu pai pediu para que eu não contasse a ninguém, que ia resolver sozinho, mas foi um erro...
-Precisamos ir atrás deles antes que nos impeçam de circular pelo castelo – disse Mione. – Vamos!
-Becca... Não seja ingênua! Quantas vezes nós transamos brincando que você era essa vadia aqui e eu era o pomposo Augusto? Sabe o quanto eu quero possuir a ninfeta, assim como você se revira todas as noites, doida pra sentir a virilidade do Augusto outra vez...
-Então arraste a Lanísia pra uma dessas salas, se satisfaça e vá embora de uma vez! Logo alguém pode descobrir que você está aqui!
-Não vou dormir com ela aqui na escola, não, minhas intenções vão além... Se você pudesse, trocaria uma vida inteira por uma mísera rapidinha? Porque, vamos combinar, a primeira será muito rápida, considerando o quanto sou louco por essa mulher... – ele cheirou os cabelos escuros de Lanísia.
-Vida inteira? Ted, acha mesmo que isso é necessário?
-Sim. Agora que a tenho, pretendo me esconder no exterior, sumir no mundo. Encontrar um esconderijo confortável em que possa viver com a Lanísia pelo resto da vida.
-E eu? Você... Não vai me contar onde vai se esconder? Vai descartar a minha companhia?
Ted revirou os olhos, impaciente.
-Péssimo momento para discutir a relação... Becca, Becca, você sempre foi um passatempo... Tínhamos o mesmo objetivo, separar a ninfeta do professor, e agora que conseguimos o nosso contato naturalmente vai diminuir. Mas sempre haverá espaço pra você. Lanísia não é ciumenta, não vai se importar! Talvez até consiga colocar as duas na cama, já pensou? Seria muito divertido...
Rebecca adiantou-se, fitando os olhos de Ted.
-Vai ficar naquele país, na casa da...
-Isso, lá mesmo, naquela mansão abandonada onde usamos as correntes do calabouço em nossas brincadeirinhas... – Ted gargalhou e falou com Lanísia. – Você vai adorar o calabouço. O ambiente fétido e sombrio é enlouquecedor na hora do prazer...
-Vai embora sem levar os frascos? – indagou Rebecca. – Veio até aqui para encontrá-los. Não pode deixar os frascos aqui...
-Eles estão comigo. Marjorie apareceu no salão comunal da Grifinória com o Rony Weasley enquanto eu capturava a Lanísia, a vadia estava no lugar certo, na hora exata... Nunca tive tanta sorte, Becca... Eu venci as Encalhadas, venci o maldito ritual que ia me destruir!
-Onde estão Marjorie e Rony?
Ted deu uma risada, lambendo os lábios putrefatos.
-O ruivo recebeu uma pancada na cabeça lá no salão comunal mesmo, e a...
Rebecca o interrompeu, alarmada:
-Ele pode avisar a diretora! Você fica aqui, parado, se vangloriando enquanto deixou uma fileira de testemunhas para trás... Precisa sair daqui agora mesmo! – Rebecca caminhou até o armário de vassouras no corredor, destrancou-o com uma de suas chaves e passou uma vassoura velha para Ted. – Vá, antes que alguém descubra que está aqui!
Rebecca voltou a atenção para Lanísia, o ódio que sempre emanava de seu olhar ainda mais intenso.
-Nos vemos em breve, Lanísia. Comporte-se como a boa vagabunda que você sempre foi.
Imóvel nos braços de Ted, Lanísia cuspiu no rosto de Rebecca.
-Nós temos definições diferentes para "vagabunda", Rebecca.
A inspetora limpava o rosto com a manga das vestes, sem erguer os olhos, quando Ted colocou Lanísia sobre a vassoura e montou em seguida. Agarrando a cintura de Lanísia, atravessou a janela aberta e precipitou-se no ar. Rebecca viu as duas silhuetas afastando-se, até o momento em que, ao cruzar os limites do castelo, desapareceram.
Houve uma movimentação no corredor. Rebecca virou-se.
Joyce, Alone, Hermione e Serena aproximaram-se, os rostos pálidos e assustados.
-Rebecca... Onde está o Ted? – perguntou Mione. – Sei que você odeia a Lanísia, mas não pode permitir que um assassino faça mal a uma aluna de Hogwarts...
-Posso sim, desde que a aluna em questão tenha roubado os dois homens que eu mais desejei na vida – respondeu a inspetora, amargamente.
-Vai se prejudicar por ajudá-lo – ameaçou Joyce.
-Não corro esse risco. Ted não precisa da minha ajuda para fazer tudo o que ele mais deseja com a amiguinha de vocês.
-Se não contar onde eles estão, nós... – iniciou Serena.
-Eles já foram embora – replicou Rebecca, sorrindo.
-O quê?
-Isso mesmo. Ted já levou Lanísia para bem longe daqui. À essa altura já deve estar levando-a para a alcova. A amiga de vocês terá uma noite adorável. Ted manda tão bem na cama, nem se preocupem com ela...
-Precisamos comunicar a diretora – falou Serena, ignorando as provocações da inspetora. – Talvez consigam pegar o Ted antes que ele saia...
-Não adianta, suas tontas – disse Rebecca. – Ele já desaparatou, levando Lanísia e o rebento de Augusto. Vocês não podem fazer nada. Perderam a amiga de vocês para sempre.
Houve um momento de desesperado silêncio, em que as quatro Encalhadas se olhavam sem saber o que fazer a seguir. A perspectiva de jamais encontrarem Lanísia novamente, de viver para sempre com a consciência de que a amiga estava aprisionada em algum lugar, sofrendo nas mãos de Ted Bacon, era perturbadora...
-Lanísia...
Ao ouvirem a voz, elas se voltaram. Augusto cambaleava, meio curvado, com um pedaço de cristal projetando-se das costas. Seu rosto estava congestionado, molhado de suor. Joyce sentiu o coração disparar e correu na direção do pai.
-Meu Deus, o que fizeram com você? – ela envolveu a cabeça dele com as mãos, preocupada.
-Não importa... Lanísia... Ted queria levá-la, não podemos deixar...
-Ele já fez isso, pai... – Joyce começou a chorar, encarando os olhos de Augusto. – Sinto muito. Ted desaparatou com a Lanísia, agora é... É tarde demais...
-Não, não pode ser – Augusto desvencilhou-se dos braços de Joyce, mas estava ferido demais, de modo que acabou tropeçando, incapaz de progredir. A sensação de impotência fez com que estremecesse em desespero, ansioso por agir. – LANÍSIA! LANÍSIA! VOLTE, VOLTE PRA MIM!
-Pai, acalme-se, nós vamos tentar fazer alguma coisa para encontrá-la, mas não grite...
-BECCA! REBECCA! – Augusto berrou. A inspetora ergueu uma sobrancelha, mas não olhou diretamente para ele. – Não me faça tão infeliz. Você deve saber para onde ele a levou, fale pra mim...
-Não conheço Ted Bacon, nunca estive com ele – disse Rebecca, de nariz empinado, sem olhar diretamente para Augusto. – Não posso ajudá-lo.
-Rebecca, não faça isso. Pense em quanto já me amou um dia, me ajude a trazer Lanísia de volta...
-Eu até faria isso, Augusto, se soubesse para onde ela foi levada, mas... – o tom cínico na voz dela incomodou as Encalhadas. – Eu não faço ideia! Torço para que tenha sorte e um dia consiga reencontrá-la... Fico chateada pelo bebê. Ouvi Ted prometer que ia matá-lo, pois não quer ter um bastardinho dentro de casa... O pai da criança com certeza vai sofrer muito – Rebecca suspirou de maneira exagerada. – Por sorte o filho não é seu, não é? Agora me deixe ajudá-lo, Augusto, você precisa ir para a ala hospitalar.
-Eu não quero.
-Não seja ridículo, se não receber cuidados médicos vai morrer aqui mesmo...
-Eu preciso salvar a Lanísia!
-Encare os fatos. Você nunca mais vai vê-la na vida.
-Desgraçada! – vociferou Augusto, tentando avançar para Rebecca, mas perdendo as forças e escapando da queda pelas mãos de Joyce.
Rindo, Rebecca conjurou uma maca e, com a varinha, conduziu Augusto para cima dela, fazendo-o deitar-se com as costas projetadas para cima.
-Vou aproveitar e comunicar à direção que perdemos uma aluna – disse Rebecca, provocando. – Aliás, não sei se interessa a vocês, meninas, mas ouvi Ted dizer que havia conseguido pegar uns tais frascos...
Ela afastou-se, a maca de Augusto levitando ao seu lado. Joyce, preocupada com o pai, seguiu perto dele.
Mione, Alone e Serena ficaram paradas, digerindo a informação.
-Ótimo. Agora serei uma piranha para sempre – suspirou Mione, andando na direção contrária.
-Minha mãe convive muito bem com essa realidade – disse Alone.
Elas alcançaram o corredor do confronto, onde os cacos estilhaçados espalhavam-se pelo chão entre poças de sangue.
-Olha, agora estão vendendo dedos postiços! – exclamou Serena, apontando para o dedo largado no piso do corredor. – Que ideia genial, ele já vem com unha super fashion! – ela agarrou o dedo e ergueu-o, mostrando para as amigas.
-Serena, esse dedo foi decepado da mão de Marjorie, é dedo de verdade.
-AAAAH! – ela gritou, arremessando o dedo para longe. – Quem arrancou o dedo dela?
-Kleiton Huggins, o irmão – respondeu Mione, olhando para os estilhaços de cristal espalhados pelo corredor. – Ele deve ter tentado evitar que Ted deixasse o castelo com os frascos. Enlouqueceu e acabou atingindo a própria irmã.
-Kleiton, o cara que se move pelos espelhos... É irmão da Marjorie? – indagou Serena, limpando a mão, enojada.
-Isso. Vou contar tudo a vocês. Mas antes precisamos descobrir como resgatar a Lanísia.
-Vamos até a ala hospitalar – disse Alone. – Joyce e Augusto devem estar precisando da gente...
Na ala hospitalar, Madame Pomfrey removeu o cristal da pele de Augusto, que estava deitado de barriga para baixo na maca. O professor arquejou, urrando de dor.
-Fique calmo, Augusto – pediu a enfermeira. – Já vou limpar o ferimento. Preciso tirar a sua camisa...
O professor não se deu conta dos riscos que corria. Joyce, por sua vez, olhou horrorizada para as amigas:
-Não quero nem ver...
-Não pode olhar para o torso desnudo do papai?
-Não é isso, Serena! Esqueceram que ele e Lanísia utilizaram cera derretida de vela há poucos dias?
Antes que qualquer uma delas fizesse um comentário, ouviu-se a exclamação de espanto de Madame Pomfrey. Naquele instante, a diretora Minerva cruzava as portas da enfermaria e se deparava com a pele de Augusto coberta por finas trilhas vermelhas. Minerva ajeitou os óculos, intrigada, e indagou:
-Que marcas são essas, Augusto?
Só então o professor recordou-se das lembranças impregnadas em sua pele, daquela noite tão perfeita que poderia ter sido a última. Amor incandescente unindo os corpos, velas ardentes ao redor, o toque febril e intenso da cera, uma mistura intrigante de dor e prazer...
Ele começou a pensar rápido, buscando uma resposta, até ponderar melhor e considerar a situação. Não havia mais nada a perder; Lanísia havia sido levada por Ted, e ele faria o possível para encontrá-la.
Não ia mais mentir.
-Essas marcas foram provocadas por...
-Ted! – completou Joyce, intrometendo-se. – Claro que foi o Ted! Não foi ele, pai? – ela parou ao lado de Augusto, encarando-o com olhos súplices.
-Joyce, entenda, eu não quero mais...
Ela aproximou-se do rosto dele e sussurrou-lhe:
-Sei que a tensão é enorme, mas precisa parar pra pensar antes de agir!
Sem se preocupar em manter a voz baixa, ele respondeu:
-Não estou mais me importando com o que vão pensar...
-Fale baixo comigo, por favor, e me escute, antes de qualquer coisa! – ele parou de se mexer sobre a maca. – Nós vamos dar um jeito de resgatar a Lanísia. Se conseguirmos trazê-la de volta, as coisas não voltarão ao normal se você revelar que se relaciona com ela! Ela voltaria para Hogwarts e não o encontraria por aqui. É isso que você quer? Perder seu cargo e ficar longe da mulher que ama? Contando a verdade você não vai tê-la de volta de maneira nenhuma.
-Eu preciso deixar o castelo para procurá-la – ele respondeu, agora sussurrando também.
-Não será preciso quando a única pessoa que conhece o paradeiro de Ted está exatamente aqui dentro.
-Rebecca não vai nos contar.
-Sempre tem um jeito de persuadi-la. Eu e as meninas vamos conseguir.
Ela beijou-o no rosto e acariciou-lhe os cabelos. Levantou-se e sorriu para a diretora.
-Homens se envergonham por bobagens... Acreditam que meu pai estava com vergonha de admitir que tomou uma surra do Ted?
-Mas são marcas de queimadura, não são hematomas – disse Serena, recebendo um pontapé bem aplicado por Mione.
-É, a mim também parecem queimaduras... – falou Minerva, observando.
-Bom, o Torresmo acendeu a ponta da varinha e utilizou as faíscas para queimar o corpo do meu pai.
-O Torresmo? – indagou Madame Pomfrey.
-Não, o Linguicinha – Joyce corrigiu-se. – Desculpe, eu sempre me confundo na hora de falar o sobrenome do Filé...
-Linguicinha? – perguntou Minerva.
-Filé? – indagou a enfermeira.
-BACON! – exclamou Alone.
"BLURGH"
Todas pararam ao ouvir aquele som. Serena, acariciando a barriga, revelou a origem do ruído:
-Ih, foi mal, meu estômago roncou... Mas é que todo esse papo sobre comida me deixou com fome...
-Bom, então foi o Bacon quem marcou a pele do professor – disse Madame Pomfrey, caminhando até uma prateleira.
-E marcou a minha também – falou Serena, erguendo o rosto para a diretora. – Está vendo esses cravos aqui na minha testa? Andei comendo muito bacon, meu rosto está um pouco oleoso...
-Meninas, se querem ficar aqui, permaneçam em silêncio! – ordenou a enfermeira.
Enquanto observavam, um grupo de curandeiros do Hospital Boucetah chegou e imediatamente fechou as cortinas ao redor do leito de Marjorie. Elas viam apenas as sombras mexendo-se com rapidez, e escutavam os gritos da garota:
-Me ajudem, por favor... Eu não posso ficar com uma cicatriz... Façam o melhor possível, eu aguento qualquer coisa, mas não posso ter marcas no rosto quando sair daqui...
As Encalhadas se entreolharam; mesmo conhecendo o caráter de Marjorie, era impossível ficar indiferente diante da angústia que aqueles gritos carregavam...
Madame Pomfrey concluiu o curativo em Augusto e dispensou-o.
-Aplique a pomada no ferimento por três dias, é o suficiente. Vai precisar de repouso, por isso, Minerva, peço que o dispense das aulas por esses três dias.
-Tudo bem... Consegue se levantar sozinho, Augusto?
-Sim, Minerva, obrigado. Quero apenas ir para o meu quarto... Meninas, vocês me acompanham?
-Claro, pai – disse Joyce. – Precisamos mesmo conversar...
No outro leito, Rony Weasley recebia um curativo na cabeça.
Olhava preocupado para o local em que Marjorie recebia os cuidados médicos. Aquela visão, de algum modo, deixou Mione magoada antes de deixar a ala hospitalar com as amigas.
Ted levou Lanísia até uma mansão abandonada. Aparataram em meio a um saguão sujo e sombrio, erguendo nuvens de poeira com o deslocamento de ar provocado pela materialização. O piso tinha um brasão enorme, formado por ladrilhos azuis. O símbolo exibia um escudo, entrecortado por uma varinha e uma espada de ouro, cujo centro trazia uma enorme letra B. O brasão da família que um dia havia morado ali há muitos anos, pensou Lanísia.
Um lustre coberto de grossas teias de aranha e camadas de pó estava exatamente sobre a sua cabeça. Erguendo o rosto ela reparou no patamar superior, que podia ser acessado através de uma escadaria cujos degraus eram recobertos por tecido vermelho ou através de um elevador.
A despeito de tanto luxo empoeirado, quase não havia mobília, apenas uma mesa e um sofá. Não havia quadros nas paredes, tão tradicionais em mansões de famílias bruxas.
Ted arrancou a mordaça da boca de Lanísia e perguntou:
-O que achou da sua nova casa?
Lanísia fechou os olhos e concentrou-se, tentando desaparatar. Ted riu de sua tentativa frustrada.
-Acha mesmo que eu seria tão tolo a esse ponto? Minha querida, ninguém pode desaparatar aqui dentro, apenas aparatar... Mas não precisamos nos preocupar com isso, não é verdade? Você não vai mais a lugar algum, vai morar aqui, comigo, para sempre.
-Não, não vou... – ela sacudiu a cabeça. – Você não pode me obrigar!
-Hum, é mesmo? Você não tem escolha! Aceite a situação! Está em outro país, bem longe de Hogwarts, do seu professor e das suas amigas! Não pode desaparatar! Não tem como fugir!
Ele acompanhou o olhar dela, que cruzou rapidamente as enormes janelas espalhadas pelo saguão.
-Não será tão fácil assim, delícia – debochou Ted, agarrando o braço dela outra vez, fechando os dedos apodrecidos com firmeza.
-Ted, pra onde está me levando? Não precisa ser tão radical. Eu não vou tentar fugir, prometo...
-Dormirei mais tranquilo se você estiver bem segura em seus novos aposentos... – ele passou direto pela escada e pelo elevador, carregando-a até um corredor.
Ali, Ted abriu a porta com uma chave, escancarou-a e empurrou Lanísia para dentro, ordenando:
-Desça as escadas!
A garota apoiou-se no corrimão decrépito para não cair. Respirando fundo, desceu os degraus, avançando até as trevas do porão. Estava acabado, pensou, descendo com o coração partido em mil pedaços. Quando sairia daquele lugar? Talvez nunca mais...
Ainda assim, esquecia-se dos tormentos que a esperavam, e a dor de nunca deixar aquele lugar existia por estar atrelada à ausência permanente de Augusto.
Fechou os olhos, recordando-se do rosto dele. Ainda estava bem nítido em sua mente, em seu coração. Queria conservá-lo dessa forma; mesmo distante fisicamente, Augusto continuaria sempre vivo dentro dela.
Os degraus terminaram; ela chegou ao porão no instante em que Ted, com a varinha, acendeu quatro lampiões pendurados nas paredes. Espantada, Lanísia viu que o local estava preparado para receber uma hóspede; havia uma espaçosa cama em um canto, uma mesinha e um armário. O resto do porão era uma confusão de tralhas e caixotes de papelão, mas todos bem afastados das "acomodações". Com um estremecimento, ela viu um compartimento gradeado, semelhante à uma prisão, com correntes de ferro projetando-se das paredes. Recordou-se, então, de Rebecca mencionando um calabouço.
-Não parece tão confortável, mas vou ensiná-la a apreciar o lado podre da vida.
-Ted, eu não posso ficar num lugar desses... – ela fitou-o, súplice. – Estou grávida, não há condições de permanecer aqui...
-Você não estará grávida muito em breve... – Ted sorriu desagradavelmente.
-Não pode tirar o meu bebê.
-Eu já disse, você vai se recuperar logo. Vamos fazer outro rapidinho...
-Não quero outro! QUERO ESTE!
-Pra quê? Pra ter uma lembrancinha daquele professor estúpido?
-Ted, não é isso... Entenda, é uma vida crescendo dentro de mim, eu já amo essa criança...
-Criança? Tem poucos meses, nem pode ser considerado uma vida...
-Não pode fazer uma monstruosidade dessas...
Ted enfiou a mão por baixo do vestido de Lanísia e apertou-lhe a coxa. A jovem calou-se no mesmo instante.
-Está difícil de entender que aqui eu dito as regras e você apenas obedece?
Ted agarrou-lhe o braço e jogou-a sobre a cama.
-Para poupar os meus ouvidos, vamos acabar logo com esse bastardinho do Augusto... – ele revirou os olhos. – Nem a sua gostosura vai conseguir me excitar com esse papo furado sobre o bebê... – dito isso, Ted caminhou até o armário e abriu-o.
Lanísia começou a chorar. Encolhida sobre o sofá, viu Ted arrancar da escuridão do armário um instrumento de prata afiado e pavoroso.
Ele mesmo ia arrancar o feto...
Num gesto impulsivo provocado pelo pânico, Lanísia atravessou o porão e subiu as escadas. Tentou abrir a porta, mas era inútil; estava trancada. Chutou-a, esmurrou-a, jogou o corpo contra a madeira, mas não conseguia derrubá-la.
Estremeceu quando sentiu a mão de Ted pousar em seu ombro.
-Não precisa ficar tão nervosa. Vou lhe dar uma poção para que não sinta dor alguma...
-Ted, por favor...
-Nada mais importa – ele sussurrou. – Agora somos só nós dois...
Segurando firme em seu braço, ela a conduziu de volta à cama. Lanísia encolheu-se, aos prantos, enquanto Ted voltava ao armário para preparar o aborto.
Ela olhou para a cabeceira da cama e viu um vidrinho cheio de poção alaranjada. O rótulo indicava que era a poção anestésica citada por Ted. Aproveitando que ele estava distraído, Lanísia abriu o vidrinho e tomou três goles, engolindo rapidamente e recolocando a poção na cabeceira.
Deu um beliscão no braço e não sentiu nada. Perdera a sensibilidade do corpo...
Observando Ted ajeitar os instrumentos para o aborto improvisado, ela recordou-se das palavras ditas por ele:
Nem a sua gostosura vai conseguir me excitar com esse papo furado sobre o bebê...
Talvez houvesse uma chance de ao menos retardar o aborto, permitindo que ela pensasse melhor e tentasse armar um plano para deixar aquela prisão. Ela beliscou a perna; mais uma vez não sentiu dor, sequer o contato. Não havia sensações. Ted não perceberia esse detalhe se ela fosse cuidadosa...
Ajoelhando-se sobre o sofá, Lanísia abriu o vestido. Livrou-se apressadamente da lingerie, de modo que, quando Ted virou-se, viu-a inteiramente nua.
-Já que não tenho mais opções, acho que devo aprender a apreciar a minha nova vida – disse, empinando os seios e acariciando os mamilos. – Quero conhecer o corpo do meu novo homem.
Perplexo, Ted largou os instrumentos cirúrgicos sem olhar para trás. Sorriu enviesado, enquanto os olhos percorriam o corpo de Lanísia, concentrando-se nos seios fartos e descendo para a virilha. Olhando para a calça dele, Lanísia viu a excitação aumentar gradualmente, até um ponto em que o tecido chegou a estufar-se. Ela estremeceu de pavor, mas procurou se controlar, descendo a mão e acariciando o ventre.
Farei o possível para não perdê-lo, meu filho... Farei o possível...
De gatinhas, ela ficou de costas para Ted.
Ele a admirou, aproximando-se da cama. Os cabelos negros caíam em cascata quase até o bumbum cheio e perfeito. Dali, ele conseguia visualizar muito bem a fenda que conduzia para dentro de Lanísia, o lugar onde ele sempre ansiara visitar...
Enlouquecido, sentindo o suor começar a porejar a testa, Ted arrancou a capa que roubara do auxiliar de Christtinnah. Assustada com o que ia ver, Lanísia virou-se para encarar o
(monstro)
homem.
Era bizarro ver Ted nu naquela situação. A destruição provocada pela Magia do Aprisionamento era mais intensa no rosto, no braço e no tórax. A perna e o pé do lado dilacerado pareciam ter sofrido queimaduras, não chegavam a expor músculos e veias. O órgão sexual, situado entre as duas metades, não fora atingido pelo ritual.
Lentamente, Ted subiu na cama e beijou-lhe os pés. Lanísia sentiu as lágrimas formando-se...
(não posso chorar, vou estragar tudo, não posso, preciso me controlar)
Conforme Ted subia, aplicando beijos nas suas pernas, ela imaginava a carne apodrecida, os tendões do rosto dele, roçando em sua pele. Por sorte, não sentia nada; a poção anestésica não permitia sensação alguma.
Ainda assim, ter aquele monstro tocando-a era horrível; dar prazer àquele psicopata a enojava.
Surpreendeu Ted olhando ansiosamente para o seu rosto, como se esperasse uma reação. Precisou olhar para perceber que ele enfiara a mão em sua intimidade e a explorava com os dedos. Lanísia fingiu que gemia prazerosamente.
-Sua danada, eu sabia que ia gostar... Mas você quer mais, não quer? Isso não é muito pouco pra você? Não é apenas uma migalha para uma vagabunda tão assanhada?
-Sim... É sim...
Ted então agarrou-lhe os cabelos e puxou com firmeza. Como devia doer um bocado, ela gemeu para satisfazê-lo. Sentiu os dentes dele fechando-se em torno de um mamilo, mordiscando; isso vai doer depois que a anestesia passar, pensou.
Ela gemia e ofegava, deixando Ted perder-se na emoção do momento. Ele então empurrou-a com tudo contra os travesseiros enfileirados no espaldar da cama, afastou-lhe as pernas sem a menor delicadeza e jogou-se contra ela.
É agora...
Quando Ted penetrou-lhe, as lágrimas contidas escorreram por seu rosto. Não havia sensação alguma, mas ela via o rosto dele, tão perto do seu, seus olhos vidrados, os dentes cerrados enquanto arremetia enlouquecidamente. Ted apertava suas bochechas, agarrava seus cabelos com tanta força que chegou a arrancar tufos de fios negros, dava beliscões em seus mamilos, em seu pescoço, tapas violentos nas suas coxas...
Horrorizada, ela esqueceu-se dos falsos gemidos, e ficou apenas chorando. Ted não se importou; nem pareceu se dar conta de que ela não gemia de prazer. Simplesmente se satisfazia, pouco se importando com a satisfação dela.
Sou apenas um receptáculo para ele extravasar os seus desejos.
Um receptáculo que ele queria muito, mas apenas isto; o prazer que importava era o dele, e ele o arrancava através da brutalidade dos gestos e do vocabulário...
-Sua vaca... Adora receber um ferro bem duro lá no fundo, não é? Vadia, vou lhe dar o que merece todas as noites... Chora de dor, é claro, aquele professor engomadinho deve ter uma ferramenta que não faz nem cócegas em você...
Ele se satisfazia com as lágrimas, e pronto. Talvez seja isso, concluiu Lanísia; lágrimas são ainda melhores para ele. São a expressão máxima da dor que, é visível, ele adora causar...
E já que podia chorar, foi o que ela fez, em todas as vezes que transaram naquela primeira noite. Ela chorava pensando em Augusto e no filho, e torcendo para que sua obediência fosse suficiente para que Ted desistisse do aborto.
As lágrimas eram bem-vindas para o psicopata.
Tudo o que precisava era que ele não soubesse o motivo da sua dor, a verdadeira dor, pior que a física...
A dor do coração.
No quarto, Augusto estava sentado em sua cama, pensando em Lanísia. Alone, Joyce, Mione e Serena estavam paradas diante dele, com os braços cruzados, em silêncio.
-Rebecca mantém contato com Ted, deve conversar com ele através da lareira, aqui mesmo, no castelo – disse Mione. – Se ao menos tivéssemos a chance de ouvir uma dessas conversas, talvez encontrássemos alguma pista...
-Podemos encantar conchas e transformá-las em escutas – disse Augusto. – Sei fazer isso. Basta colocar uma no quarto da Rebecca.
-Ela não ia receber a gente – falou Serena.
-Eu posso ir – falou Augusto.
-Não, pai, você precisa de repouso – replicou Joyce. – Eu e as meninas vamos colocar essa escuta no quarto da Rebecca. Só enfeitice as conchas e deixe com a gente!
-Mas... Vocês disseram que ela não ia recebê-las...
-Será diferente se uma de nós for um Augusto!
Lanísia cochilava sobre o sofá. Estava exausta, mas não conseguia mergulhar em um sono tranquilo. A todo instante rememorava os momentos de pânico em Hogwarts e pensava em Augusto. Para piorar, o efeito da poção anestésica se diluía gradualmente, e ela começava a sentir dores onde Ted a havia apertado e mordido.
A porta do porão abriu-se. Ela achou que era Ted, mas quem surgiu foi Rebecca. Apressada, Lanísia cobriu-se com o lençol; estava de lingerie, mas as peças eram muito curtas.
-Hum, parece que Ted não perdeu tempo... – zombou a inspetora. – Teve uma noite gostosa?
-Como está Augusto? Ele está bem? O ferimento não foi profundo?
-Eu deveria deixá-la sem saber a verdade, mas sim, ele está bem. Louco para encontrá-la, mas nós sabemos que isso não vai acontecer... O bebê ainda está dentro de você?
-Não houve tempo para o aborto – aquela declaração fez Rebecca erguer a sobrancelha e assumir uma expressão de desagrado.
Ela está pensando em tudo o que eu e Ted fizemos e isso a incomoda...
Lanísia teve uma ideia. Ela pôs o lençol de lado e fez uma carícia nas marcas ao redor do seio, gemendo prazerosamente:
-Hum... Ted é insaciável. Fez coisas que eu jamais imaginei... Não sabia que a violência podia gerar tanto prazer...
-Vocês... – Rebecca engoliu em seco. – Vocês fizeram amor por muito tempo?
-Amor? – Lanísia riu. – Não sei se podemos chamar de amor. Com Ted eu fiz apenas ódio, delírio, selvageria... – mordeu o lábio. – Viu se ele está lá fora? Quero me entregar novamente!
-Está blefando... Quer o quê? Me convencer que esqueceu Augusto de uma hora para a outra? Ted pegou-a à força, você nunca quis se entregar a ele...
-Ah é? Será que foi à força mesmo? Pergunte pra ele, se todas essas marquinhas no meu corpo não forem respostas suficientes pra você...
Rebecca fitava Lanísia com ódio quando Ted abriu a porta do porão e entrou, falante, sem perceber a presença da inspetora de Hogwarts.
-Mandei o elfo doméstico comprar doces e pães saborosos pra você, vou lhe dar um café da manhã especial, em comemoração à nossa primeira noite e à sua entrega e prazer... – sem reparar em Rebecca, Ted correu até a cama, curvou-se e beijou os lábios de Lanísia que, esperta, estendeu a mão e apertou-lhe o membro sobre a calça. – Opa, você não se satisfaz nunca?
-Então combinamos perfeitamente. Você já está um pouco excitado, eu senti.
-Acho que nunca conseguirei ficar em repouso vivendo ao seu lado... – quando se virou para colocar a sacola sobre a mesa, Ted viu Rebecca. – Becca, por aqui tão cedo?
-Prefiro vir pela manhã. Tenho que ser mais cuidadosa agora... – enquanto falava, ela examinava o rosto de Ted com atenção.
-Quer tomar café da manhã conosco?
-Não... Na verdade, estava pensando em um pouco de diversão matinal... – ela chegou por trás dele e beijou-o no pescoço. – Usarmos algumas correntes, chicotes...
-Não, agora não – disse Ted, desvencilhando-se. – Estou muito cansado... – ele sorriu. – Lanísia não dorme no ponto. Transamos cinco vezes, sem parar.
-Claro, depois de forçá-la...
-Está enganada, Becca. Lanísia me recepcionou de bom grado, não reclamou por um segundo... Não subestime a minha virilidade – ele riu, orgulhoso. – Sou irresistível.
Rebecca olhou de soslaio para Lanísia, com os olhos marejados de lágrimas de ódio. A jovem estava fitando Ted desejosamente, sentada de pernas cruzadas sobre a cama. Seu corpo voluptuoso, cheio de curvas, jovem e sedoso, era perfeito de uma forma que o corpo de Rebecca jamais seria novamente... Lanísia extravasava juventude no corpo, mas tinha gestos e olhares sedutores de mulher...
-Você me escutou, Ted? – insistiu Rebecca. – Vamos usar as correntes! Pode me bater com o chicote, puxar meus cabelos... Vamos nos amar daquele jeito imoral que só nós sabemos. A ninfeta não participa dos seus joguinhos...
-Mas vai participar. Ela gostou muito dos meus apertões, me fez delirar chorando de dor e cedendo ao mesmo tempo... Só vou descansar um pouquinho e já vou introduzi-la ao nosso adorável calabouço.
-Mas... Não podemos nos divertir antes disso? – indagou Rebecca, pegando o único croissant da sacola.
-Foi mal, Becca, mas preciso guardar todo o meu vigor para Lanísia. Ela é tão bem disposta e insaciável... Volte daqui a umas três semanas. Aí poderemos praticar um belo ménage-a-tròis...
-Nós três... Ao mesmo tempo?
-Sim. Será muito divertido! – exclamou Ted, mordiscando um pedaço de pão coberto por uma camada de açúcar. – Lanísia, o que você prefere comer?
-Humm... Trouxe um croissant?
-Sim, está quentinho!
-Oba, traga pra mim, por favor!
Ted tirou o salgado das mãos de Rebecca.
-Depois eu compro um ainda melhor pra você – disse ele, caminhando até a cama e entregando o croissant para Lanísia.
-Quero um pouco de suco de abóbora.
-Claro, minha diva, faço tudo o que quiser! – falou Ted, disparando para fora do porão, disposto a atender ao pedido de Lanísia o quanto antes.
Olhando satisfeita para Rebecca, ela partiu um pedaço minúsculo de croissant e estendeu a mão:
-Pegue, Becca... Anda! Vamos, não seja orgulhosa! Já devia estar acostumada a se contentar com os restos que eu jogo pra você...
Lanísia arremessou o pedaço de pão, que caiu diante da inspetora.
-Primeiro Augusto... Você não conseguiu mais nada com ele depois que eu entrei no jogo, não é? Nem mesmo um rápido revival, relembrando os velhos tempos... Não sobrou nem os restos... E agora, Ted... – Lanísia jogou outro pedaço de croissant, que foi bater no rosto da inspetora antes de cair sobre o piso. Lanísia gargalhou; Rebecca fechou os olhos, contraindo os lábios. – Para você, somente as sobras. Eu pego os homens que você ama e deseja, eles ficam vidrados em mim, e só lhe restam as migalhas...
Rebecca secou uma lágrima com o dorso da mão.
-Monstro da luxúria... Devoradora de homens... – disse, olhando para Lanísia. – Você é um ritual ambulante, um feitiço que encanta a todos que eu desejo... Meu karma... Mas isso não vai ficar assim...
Nervosa, Rebecca começou a subir as escadas do porão.
-Fique um pouco mais, Becca! Preciso de umas dicas para aproveitar melhor o calabouço com o Ted!
A porta bateu com estrépito, chacoalhando a escada. Lanísia acariciou o ventre e falou com o filho:
-Vamos ver se ela cairá na armadilha do orgulho e vai me ajudar a sair daqui...
Mione abriu o alçapão, surgindo diante das amigas com um sorriso no rosto.
-Expliquei a situação ao Professor Ipcs e ele me deu a Poção Polissuco!
-Ótimo, agora poderemos levar nosso plano adiante! – exclamou Serena. – Pegou o esperma do Augusto?
-Não, sua nojenta, vamos preparar a poção com fios do cabelo dele – disse Mione.
-Bom, eu não considero o processo para obter o esperma tão nojento assim, poderia ter dado uma mãozinha pro professor... – lamentou Serena.
-Precisamos estabelecer quem se transformará em Augusto – disse Alone.
-Nada mais justo que um sorteio – falou Joyce, pegando um pedaço de pergaminho e dividindo-o em quatro. – Pronto... – disse, depois de anotar os nomes. – Serena, pegue um papel na minha mão.
-Ok... – Serena adiantou-se, ansiosa. – Vejamos... "Serena Bennet" – leu. – Sou eu! Eu! Eu serei Augusto!
-Não esqueça, o objetivo é colocar uma escuta no quarto da Rebecca – lembrou Joyce. –Terá uma hora de transformação, portanto não desperdice o tempo!
-Serei o Augusto mais sexy que essa escola já viu! – falou Serena, cheia de orgulho. – Me passa essa poção, Mione.
Serena bebeu, fazendo uma careta ao sentir o gosto da poção cor de lama.
-A essência de Augusto Welch deveria ser mais gostosa, mané – observou Alone, notando o desagrado da amiga.
De repente, o corpo de Serena esticou-se, e a graciosidade feminina desapareceu. A barriga reta e a cinturinha fina de Serena, expostas pela blusinha curta usada pela garota, se alargaram e transformaram-se num abdômen trincado e com ralos fios negros. Os ombros graciosos também ficaram largos, as mãos cresceram e uma barba rala brotou do nada. Os cabelos curtos e dourados caíram sobre a testa, ganharam volume e escureceram
Em segundos, uma versão de Augusto Welch surgiu diante das meninas, grotescamente usando uma blusinha que rasgara com o crescimento repentino e uma saia curta que parecia a ponto de explodir diante do súbito aumento dos quadris.
-Impressionante! – exclamou Serena, olhando para o próprio corpo. – Só estou sentindo falta de alguma coisa... – ela levou a mão à virilha e tocou, com receio. – Oh, está aqui! Meu pênis está aqui! O estranho é que ele não pesa nada! Sempre achei que era um fardo carregar um pedaço de carne entre as pernas, mas nem sinto... Ainda mais um pedação desses...
-Podemos ver? – perguntou Mione.
-Não, sua abusada! Essa bilonga pertence ao professor Augusto, só peguei emprestada! Não vou deixar que viole a privacidade dele!
Serena deu uma volta pela sala.
-Como estou?
-Bizarra – respondeu Alone. – Essa roupa está totalmente inadequada... Joyce, você trouxe a sacola com as roupas do Augusto?
-Sim, estão ali no canto, vou buscar...
-Ótimo, porque essa calcinha está apertando minhas novas bolas... – reclamou Serena, tentando ajeitar. – Preciso de uma cueca com urgência!
-Cuecas, cuecas... – murmurou Joyce, vasculhando a sacola de roupas. – Aqui, usa essa verde-clara! – ela lançou a cueca para a amiga.
-Valeu... – Serena ia descer a saia, mas Joyce gritou:
-Pode parar!
-Por quê?
-Não quero que veja o meu pai pelado!
-Desculpe, mas perdi o pudor que me restava desde que me transformei num homem de quase 2 metros usando minissaia!
-Vista a cueca por baixo, não precisa tirar! Depois que estiver de cueca, você coloca a calça.
Serena virou os olhos.
-Está bem, Joyce... – ela se agachou e começou a tirar a calcinha.
-É uma daquelas coisas que eu nunca imaginei que chegaria a ver – suspirou Mione. – Augusto Welch tirando uma calcinha...
-Não me surpreende – disse Alone.
-Harry e Colin fazem muito isso, não é? – debochou Joyce. – Não tem como estranhar mais!
Alone pegou uma das camisetas de Augusto e jogou na cara da amiga, irritada.
-Ih, não é que a cueca ficou confortável? – comentou Serena enquanto descia a minissaia. Riu ao olhar para a cueca. – É engraçado, como se tivesse um pacote de feijõezinhos de todos os sabores escondido aqui dentro!
-Se feijõezinhos fossem desse jeito eu compraria todos os dias, amiga – disse Joyce. – Coloque essa calça aqui.
-Não... – Serena sacudiu a cabeça. – É muito comprida.
-Não dá pra usar minissaia no corpo do Augusto! – replicou Mione.
-Mas posso colocar uma bermuda... – e foi de cueca e blusinha curta até a sacola de roupas. – Aqui! Essa bermuda é ótima!
-Augusto nunca usa isso em público! – disse Alone.
-Pois deveria. Roupa demais sufoca... – observou Serena, vestindo a bermuda. – Quero uma camiseta leve também... Essa aqui ficará perfeita! – pegou uma branca sem mangas.
-Meu pai só usa essa pra pintar! – disse Joyce.
-Mas hoje ele usará para seduzir a inspetora... Confie em mim, ficarei muito mais atraente nesse estilo despojado... – Serena vestiu a camiseta. – Pô, que adianta ter uns braços malhados assim e cobri-los com vestes compridas? – ela apertou os bíceps do professor. – Ui, como é gostoso...
-Não toque no meu pai!
-Eu tenho o direito de me acariciar. Todo homem faz isso!
-Agora dê o fora, Serena, já perdeu muito tempo aqui! – disse Mione, consultando o relógio. – Não é melhor vestir outra coisa? Sei que você adora andar pelada ultimamente, mas está no corpo do Augusto...
-Se andar com muita roupa vou me sentir desconfortável, só topo participar do plano se puder andar assim...
-Está bem – suspirou Mione.
-Rebecca não vai resistir aos meus encantos... – disse Serena, rebolando no corpo de Augusto até o alçapão; antes de agachar-se para deixar o esconderijo, tirou uma mecha do cabelo do professor que caía sobre a testa num movimento gracioso.
As meninas suspiraram.
-Que bichona... – disse Mione.
-Isso não vai funcionar, mané – falou Alone.
-Droga! Está muito fresco? – indagou Serena, enquanto descia a escadinha. – O que eu preciso fazer pra me tornar mais masculina?
-Precisamos da ajuda de um homem – disse Mione.
-O Harry e o Colin podem ajudar! – sugeriu Alone.
-Ótimo, aí a bichona deste Augusto aqui poderá ensinar a Rebecca a tricotar! – zombou Joyce. – Precisamos de uma ajuda bem máscula!
-Bom, Rony está com raiva da Mione, Augusto de cama, nos resta Lewis e Juca – disse Serena, coçando a barba de Augusto. – Isso é muito chato, como ele aguenta ficar com esses pelos na cara?
-Não vá inventar de se barbear – falou Alone. – Vou trazer Lewis e Juca até aqui, esperem!
Na sala secreta, Lewis e Juca terminavam de ensinar as meninas a se comportarem como um homem. Serena, já transformada em Augusto, dava uma volta pela sala, seguindo as instruções dos garotos.
-Você ainda está rebolando demais – disse Juca.
-Tá certo que o professor tem um bundão, mas não precisa de tanto exibicionismo – intrometeu-se Mione.
-É o meu jeito de andar... – Serena suspirou. – Alguma dica pra que eu consiga mudar isso? – indagou, mordendo a unha e cruzando as pernas.
-Ai, tá tão baitola... – Lewis coçou os cabelos louros. – Pense no seu pênis! Isso! Concentre-se nele! Comece a andar como se quisesse exibi-lo para o mundo!
Serena endireitou os ombros e começou a andar com as pernas mais abertas, o corpo empinado para a frente.
-Só relaxe um pouco mais... Isso, muito bom – avaliou Lewis. – Sua bilonga é sua vida, não se esqueça disso.
Serena deu uma volta e parou.
-Ficou bom, não ficou? Já estou aprendendo a lidar com esse novo acessório!
-Não se empolgue muito, só o meu acessório no nosso namoro já está ótimo – replicou Lewis.
-Outra coisa que nós fazemos muito é dar uma coçada no saco de vez em quando – aconselhou Juca.
-Não vou fazer isso quando for a minha vez, eu não quero ficar tocando nas intimidades do meu pai – falou Joyce.
-Bom, quando for ao banheiro neste corpo, terá que fazer coisa pior, como sacudir o peru depois do xixi – observou Juca. – Não adianta, uma hora terá que se tocar.
Serena fechou os olhos e passou as pontas dos dedos sobre a virilha.
-Tá bom assim?
-Serena, não é do mesmo jeito que você faz quando está me acariciando – ralhou Lewis. – É o seu saco, tem que coçar com vontade! Enche a mão, aperta e coça!
-Mas aí todo mundo vai olhar pra mim!
-A intenção é essa – disse Juca. – Sua bilonga é sua vida.
-Claro, esqueci o lema... – ela levou a mão à virilha e coçou com vontade, apertando com força.
-Não aperta muito, não vai querer que o Augusto fique infértil – observou Alone.
-Tá, assim está bom?
-Isso! – apoiou Mione. – Só acho que pode dispensar essa cara psicótica, parece que está matando alguém!
-Estou matando a dignidade do professor – lamentou-se.
-Uma coisa que não pode esquecer: a partir de agora, não pode esconder a sua excitação – avisou Lewis. – Se ficar excitada, a sua bilonga vai reagir e começar a crescer daquele jeito que você já conhece.
-Nosso corpo é muito dedo-duro – disse Juca. – Se ficar animadinha, sua bilonga vai lhe dedurar.
-Portanto, não tenha pensamentos impuros enquanto estiver no corpo do professor – orientou Lewis.
-Se eu tivesse me transformado em meu pai, não correria esse risco – falou Joyce. – Ultimamente ando sem fogo algum...
-Pra mim, né...
-Juca, agora não! Já disse que o problema não é com você. Eu não consigo dar pra cara nenhum!
-Vamos parar com essa discussão! – interpôs-se Alone. – Daqui a pouco toca o sinal para a primeira aula, não temos muito tempo!
-Sim... Eu vou atrair a atenção da Rebecca e deixá-la distraída o suficiente para que vocês coloquem a escuta – disse Serena, flexionando os braços de Augusto como um guerreiro indo para a batalha.
-Mantenha a postura! Boa sorte, amiga! – desejou Mione.
Serena desceu até o Salão Principal sem problemas ou interrupções. Atravessou o Salão em direção à Rebecca, que estava parada perto da mesa dos professores. A inspetora ergueu os olhos escuros, desconfiada.
À mesa da Grifinória, as outras Encalhadas observavam.
-Serena está andando com as pernas abertas demais – comentou Alone.
-Parece que está com dor de barriga – disse Joyce.
-Ela vai pôr o nosso plano a perder... – lamentou-se Mione.
Serena chegou perto de Rebecca e curvou-se diante dela, flexionando os braços de Augusto, fazendo com que os músculos saltassem.
-Bom dia, Augusto – a inspetora o cumprimentou. – Pelo que vejo, já se recuperou muito bem dos ferimentos...
-Pra um homem com esse corpo, aquele caquinho de cristal nem doeu...
-E o ferimento no coração? Eu sei bem do quanto Lanísia era uma aluna especial para você... Aposto que este ainda está doendo...
Serena preferiu ignorar a provocação.
-Eu queria conversar com você... A sós...
-Imagino que vai querer saber o paradeiro da ninfeta em troca – disse Rebecca, bebendo o suco de abóbora.
-Não... – Serena estendeu a mão de Augusto e acariciou o rosto da inspetora. – Sobre nós dois... Tem alguns minutos para mim?
Rebecca tentou disfarçar, mas seu olhar entregava todo o interesse no convite...
-Sim, vamos para o meu quarto...
Elas deixaram o Salão. As Encalhadas aguardaram alguns segundos antes de começarem a seguir Rebecca e Serena em sua versão Augusto.
A inspetora e o vice-diretor entraram no quarto.
-Espero que seja algo realmente importante... – falou Rebecca, inserindo a chave na fechadura.
-REBECCA! – berrou Serena, tentando impedir que ela trancasse.
-Que susto, Augusto... Oh...
Serena arrancou a camisa. Em seguida, desceu a calça. Ficou de cueca na frente da inspetora.
-Uau, como ele é delicioso... – comentou Serena, olhando para baixo.
-Ele?
-É... Ele... O meu corpo... Sou um pouco narcisista... – ela chamou Rebecca com a mão. – Vem pra cá, mais pertinho, meu bem! ISSO, BECCA, CHEGUE BEM PERTO! – Serena elevou a voz grave de Augusto para que as amigas escutassem do lado de fora.
A porta abriu lentamente.
-Quer ver o que escondo embaixo da cueca?
-Sim...
-Ótimo, porque eu também quero ver! – disse Serena, olhando por dentro da cueca. – Rapaz, é por isso que você me quer até hoje...
-Mostra pra mim também... – pediu Rebecca.
-Não, não pode pôr as mãos no doce tão rápido, perde a graça... – Serena viu Hermione e Alone entrando no quarto e colocando as escutas no chão, atrás de uma poltrona. – E... Nós... Precisamos de sensualidade... Eu quero fazer um stripa pra você.
-Stripa?
-É, ficar rebolando, ameaçando tirar a roupa, tira-não-tira, tira-não-tira. Eu sei que você faz um stripa bacana, agora é minha vez...
-Strip, Augusto... E não me lembro de ter feito um pra você.
-Mas faz direto na... – ela pigarreou; Mione e Alone, perto da porta, faziam gestos para que ela se calasse antes de falar "Mansão Linguiça", local onde Rebecca fazia danças sensuais. – Faz direto nos meus sonhos... É.
-Então você nunca me esqueceu... – Rebecca tocou no braço dele. – Quer fazer mais que um strip pra mim? A falta da ninfeta o fez acordar para os verdadeiros prazeres da vida?
-Na verdade eu ia fazer só o strip, mas talvez façamos até um filho aqui, se demorarem muito... – lançou um discreto olhar de esguelha para Mione e Alone, que olhavam para o seu corpo.
-Muito o quê?
-Para... Para tocar o sinal... – ela sacudiu os ombros largos do professor.
Mione e Alone saíram. Enquanto as amigas fechavam a porta lentamente, Serena começou a vestir-se.
-O que está fazendo, Augusto?
-Um strip às avessas... Vou embora, preciso descansar...
-Mas... Então era o que eu imaginava! Me trouxe aqui só para me enganar. Seu verdadeiro objetivo é descobrir onde está aquela garota ridícula e inexperiente... Mas saiba, saiba que eu nunca vou lhe revelar onde ela está!
Serena encarou-a firmemente.
-Pois está cometendo um grande erro! Só por isso nunca mais vai pôr as mãos nesse corpo aqui! E eu... Bom, vou aproveitar dele enquanto posso... – ela enfiou a mão por baixo da camisa e acariciou a barriga de Augusto. – Até logo, Rebecca!
E saiu batendo a porta para aumentar a dramaticidade do momento.
Quando Serena chegou à sala sobre o alçapão, as amigas já estavam reunidas em torno da concha, de onde saía, não muito alta, mas perfeitamente audível, a voz de Rebecca.
-Não me digam que...
-Ela resolveu bater um papinho com Ted através da lareira logo depois que você saiu! – disse Mione, entusiasmada.
Serena deitou-se ao lado das amigas. A voz de Rebecca era carregada de melancolia...
-Augusto não quer mais saber de mim, mas é capaz de qualquer coisa para recuperar a Lanísia... Isso me frustra, Ted. Mesmo quando começamos a namorar, quando Augusto parecia gostar de mim, não havia tanta paixão...
-Becca, essas coisas acontecem... Ninguém escolhe por quem vai se apaixonar. Você devia ter esquecido o Augusto há muito tempo, mas não consegue...
-A minha sorte foi ter encontrado você. O prazer que me proporciona, Ted, é tão intenso que supre a carência por afeto...
-Fico feliz, Becca, mas preciso de mais tempo a sós com a Lanísia. Estamos fazendo coisas incríveis, ela se comporta de uma maneira surpreendente!
-Ela está enganando você. Não esqueceria Augusto tão facilmente...
-Eu não fiz o seu prazer físico superar o que sente por ele? Por que não posso fazer o mesmo com Lanísia? Talvez o prazer físico tenha suprido o amor outra vez. Sabendo que nunca mais vai ver o professor, Lanísia se entregou de vez às delícias de sua prisão...
Houve um momento de silêncio. Rebecca parecia estar digerindo o que acabara de ouvir.
-Ted...
-Oi?
-Se você não estivesse escondido na casa da Florence, se eu não tivesse arranjado esse esconderijo pra você... Você teria desaparecido?
-Becca, o que quer...
-Está me suportando apenas por eu saber onde você se esconde? É isso o que eu quero saber...
Ted não respondeu. Deu uma risadinha e mudou o rumo da conversa:
-Acredita que Lanísia nem reparou no brasão dos Bennet? Não faz a menor ideia de que está escondida em uma das mansões da família de Serena...
O Augusto que estava deitado ao lado das meninas levantou-se abruptamente.
-Mas também... Faz tempo que ninguém aluga esta casa – continuou a voz de Ted vinda da concha. – E os Bennet são podres de rico, tantas propriedades, espalhadas por tantos países...
-Não estaria tão abandonada se Florence estivesse viva. Ela adorava essa casa...
O sinal tocou, encerrando a conversa entre Ted e a inspetora. Alone, Mione e Joyce levantaram-se, deixando a concha de lado, e aproximaram-se de Serena, que havia recuado até o fundo da sala.
-Como... Como Rebecca pode saber do que minha mãe gostava? – indagou a jovem. – Elas não se conheciam...
-Isso é o que você imaginava até agora, mané – replicou Alone.
-Por um lado, isso é ótimo – observou Mione. – Agora temos uma chance de encontrar a Lanísia! Serena, você tem ideia de todas as casas que seus pais possuíam?
-Não, eu preciso visitar a nossa mansão, vasculhar os documentos...
-E se Rebecca levou Ted para uma delas, teremos nossa amiga de volta! – falou Joyce.
-Enquanto isso, precisaremos de mais um Augusto para visitar a Rebecca... – disse Mione.
-Mas já conseguimos colocar a escuta no quarto dela – falou Alone.
-Sim. Acontece que consegui perceber qual é o jogo que Lanísia está fazendo... – Mione sorriu, pensando na astúcia da amiga. – Ela vai fingir que está interessada no Ted para irritar Rebecca. Assim, fará a nossa adorável inspetora se arrepender e ajudá-la a escapar. Afinal, com Lanísia fora do caminho, Rebecca consegue ir para a cama com Ted; com Augusto, de um jeito ou de outro, é impossível... Portanto, melhor se contentar com Ted do que perder os dois.
-Então o próximo Augusto deve fazer Rebecca acreditar nisso – disse Alone.
-Exatamente – falou Mione.
-Pode deixar comigo! – exclamou Joyce. – Eu serei o próximo Augusto!
-Joyce, não cruze as pernas dessa maneira – avisou Mione, enquanto caminhavam pelos corredores na hora do jantar.
-Ih, foi mal, é que estou apertada... Mal me transformei em um homem e já preciso ir ao banheiro.
-Legal! Você vai fazer xixi em pé! – comemorou Alone.
-Claro, eu tenho um pênis! Eu tenho um pênis! – cantarolou Joyce.
-Augusto não pode sentar no vaso? – perguntou Serena.
-Homens não precisam fazer isso, é só apontar a torneirinha pro lugar certo! – disse Mione.
-Ah, achei que eles sentavam e apontavam a torneirinha pra baixo – falou Serena.
-Que nada, é muito mais prático! – falou Joyce, feliz.
-Vamos acompanhá-la, depois você já vai até o quarto de Rebecca – disse Mione. – Temos só mais um pouco de Poção Polissuco, o que não nos dá muito tempo.
O grupo caminhou até um dos banheiros da escola. Juca e Lewis, que haviam repassado as instruções sobre como se comportar como um homem para Joyce, entraram com a garota, deixando-a dentro de um boxe.
-Meninos, é fácil de controlar a bilonga na hora de urinar? – perguntou Mione.
-Sim, Mione, não vai querer que a gente treine a Joyce em "mijar em pé" – respondeu Lewis.
-Vocês vivem com esse troço pendurado desde que nasceram e nunca acertam o buraco do vaso! – disse Alone. – Não deve ser tão fácil assim manusear o bichinho.
-Tudo bem aí dentro, Joyce? – indagou Serena.
-Sim – respondeu a voz de Augusto. – Mas é fantástico, meninas! Eu posso guiar o jato pra onde eu quiser! Acabei de escrever uma letra J na parede.
-Eca! – fizeram Alone e Mione, enojadas.
-Poxa, meninos, além de ser mais prático, vocês ainda podem fazer pichações com ele! – disse Serena, invejosa.
Ouviu-se o barulho da descarga. Em seguida, a porta se abriu e o Augusto efeminado saiu em direção às pias, examinando o rosto.
-Queria aplicar um corretivo pra suavizar essas rugas de expressão – falou Joyce.
-Já está emboiolando de novo! – reclamou Mione. – Concentre-se e pare de pensar como mulher!
-Tem razão, Mione... A partir de agora sou um homem muito viril... Devo ter orgulho desses pelos nos braços e daqueles que teimam em sair por cima da camisa... E... Eu tenho um pênis!
O grupo deixou o banheiro. No corredor, Mione passou as instruções:
-Joyce, você precisa convencer a Rebecca de que é melhor revelar o esconderijo de Ted do que perdê-lo para Lanísia! Faça o que for preciso. Eu, Alone e Serena ficaremos nos arredores para ajudá-la se surgir algum problema.
-E eu e Lewis? – perguntou Juca.
-Vocês estão dispensados.
-Ainda podemos ajudar...
-Não, Lewis, a parte estratégica quem comanda melhor somos nós, mulheres – replicou Serena.
-Não liga não, Lewis – falou Juca. – É sempre assim! Elas aprendem a viver como homens e depois nos ignoram!
-Machistas... – retorquiu Alone enquanto os dois se afastavam.
Elas passaram pelo pátio. Joyce baixou a cabeça para que ninguém notasse a presença de Augusto, mas Lorenzo, que desmontava a decoração do palco junto com seus assistentes, assoviou assim que viu o vice-diretor passando.
-E agora? – perguntou Joyce às amigas.
-Vá falar com ele! – disse Mione.
Joyce subiu no palco, enquanto as outras Encalhadas agruparam-se no pátio, aguardando.
-Horrível o que aconteceu ontem, Augusto – comentou Lorenzo, secando o suor do peitoral. – Desculpe a falta de trajes, professor, mas está tão quente aqui dentro... Meus assistentes também estão assim.
-Tudo bem... Oh... – gemeu Joyce, engolindo em seco.
Ela ficou olhando um assistente ruivo que passou, sem camisa, carregando uma escada.
Sentada perto do palco, Mione arregalou os olhos para a calça usada por Joyce.
-Ih... Temos um probleminha.
-Qual? – perguntou Serena.
-Alerta-macho! O nosso professor Augusto está ficando empolgado vendo outro homem!
-Ai, Merlim, espero que ninguém repare – disse Alone. – Joyce não pode se controlar?
Lorenzo percebeu que o Augusto à sua frente não estava prestando atenção no que ele dizia.
-...torço para que a encontrem logo e... Está tudo bem, professor?
Joyce esfregou os olhos, tentando esquecer o ruivo.
-E-está, claro... Só... Estou sentindo algo estranho me pressionando aqui embaixo... Coisas de homem, né... – ela desceu a mão para coçar os testículos, e então esbarrou no volume rígido.
Tentou fechar as pernas, mas, ao olhar para Lorenzo, viu que o bruxo estava visivelmente constrangido, olhando dele para o ruivo, intrigado.
-Não é nada que você está pensando... – Joyce tocou a barriga de Lorenzo e sentiu a excitação crescer ainda mais. – Eu... Eu...
-Nem se preocupe, professor – disse Lorenzo, afastando a mão que o tocava. – Já vi muita coisa nessa vida, não estranho mais nada...
-É que... Sabe como é... Eu tenho um pênis.
-Eu estou vendo que tem – disse Lorenzo, sorrindo, constrangido.
-Professor Augusto, precisamos conversar com você! – disse Mione, subindo no palco, correndo em socorro da amiga.
-Cara, que pintão... – balbuciou Serena, nada discreta, arregalando os olhos.
-Venha... Com licença, Lorenzo... – pediu Mione.
Elas sentiram que a situação ia piorar quando, ao virar, deram de cara com Juca Slooper.
-Mas que palhaçada é essa? – indagou, apontando para o volume do professor. – Comigo não tem fogo nenhum, mas já animou tudo com os caras descamisados?
-Juquinha... – disse Joyce. – Eu posso te explicar...
-Não precisa. Essa protuberância aí explica tudo!
-Não tenho culpa! Só me animei um pouquinho e já ficou assim... Como vocês controlam isso? Ergue por qualquer bobagem!
-Aposto que mesmo que eu agarrasse ele, não ia levantar de jeito nenhum! É por isso que eu digo: nosso relacionamento está por um fio! Pra mim não tem nada enquanto pros outros homens, você fica... fica endurecendo por aí... Esse seu corpo masculino me faz confirmar tudo o que eu já suspeitava!
-Juquinha, volta aqui... Eu endureço por você também... Juquinha, lindo...
Juca deixou o pátio. Mione, Serena e Alone olhavam para o chão, querendo que ele abrisse aos seus pés.
-Uau... É uma relação entre sogro e genro que eu nunca vi igual... – comentou Lorenzo. – Meninas, Joyce sabe disso?
-Depois nós explicamos... – disse Mione. – Prometo...
Ela, Serena e Alone correram para evitar que Augusto e Juca chegassem até o Salão Principal "discutindo a relação".
-Augusto Welch... – Lorenzo sacudiu a cabeça. – Quem diria...
Rebecca ia aproveitar o tempo livre antes do jantar para visitar Ted. Antes de sair, vestiu um baby-doll roxo que ficou bem escondido por baixo das vestes. Ajeitou os cabelos, deixou seu quarto e saiu de Hogwarts.
Assim que atravessou os portões, desaparatou. Aparatou na mansão abandonada e já abriu as vestes. Parada em meio ao saguão, chamou:
-Ted! Ted, venha até aqui! Tenho uma surpresa pra você!
-Ele não vai gostar...
Rebecca sobressaltou-se e olhou para trás.
Lanísia estava deitada sobre a mesa de jantar com uma taça de vinho nas mãos. Usava uma calcinha preta minúscula. Os seios estavam à mostra, livres, cobertos apenas pelos cabelos escuros.
-Como conseguiu sair do porão? – Rebecca elevou a voz. – TED! TED! LANÍSIA CONSEGUIU ESCAPAR! TED!
Lanísia riu, bebericando o vinho. Esticou sobre a mesa as pernas longas e torneadas, recobertas por meia-calças.
-Como é inocente... Não reparou ainda na minha roupa? Ted me presenteou depois de mais uma tarde de puro prazer...
-Ele... Ele deixou que você saísse do porão...?
-Claro. Se eu sou praticamente a mulher dele, não poderia ficar restrita àquele lugar... Ele atendeu o meu pedido, como sempre vai me conceder tudo o que eu quiser... Hum, esse vinho é divino! Quer beber um pouco?
Rebecca negou com a cabeça.
-É melhor aproveitar, porque daqui a pouco você não poderá mais entrar aqui...
-O que está querendo dizer?
-Acha mesmo que há espaço para nós duas? Becca, vamos encarar os fatos! Eu sempre fui a mulher dos sonhos para o Ted e você uma distração momentânea... – Lanísia fez uma pausa para rir. – Infelizmente, ele é um foragido da justiça e você conhece o esconderijo dele. Por isso o Ted vai fingir que ainda tem interesse em você, vai topar uma ou outra brincadeirinha, mas posso te contar um segredo? Ele faz tudo a contragosto...
-Está tentando me enlouquecer, mas você não vai conseguir...
-Está com ciúmes? Sinto muito, mas ele só pensa em mim agora! Devia ter escolhido outra roupa... Estou vendo as suas estrias daqui...
Rebecca, preocupada, pegou as vestes e cobriu-se rapidamente, envergonhada. Subiu as escadas, ouvindo as gargalhadas irritantes de Lanísia ao fundo.
Abriu o primeiro quarto à esquerda, o local onde Ted guardava os frascos roubados.
-Ele vai se arrepender de ter confiado tanto nessa garota estúpida... Essa verdadeira vadia que se aproveita de todas as situações e tira a concentração dos homens que eu desejo... – ela abriu um armário. – Ela não terá tempo de roubar o Ted... Não, não serei desprezada por ele, humilhada, pisada, do mesmo jeito que o Augusto faz... Vou colocar um ponto final nisso.
Encontrou a caixa que procurava.
-Confiança... É, a falta de confiança abala qualquer relacionamento, principalmente no início... Ele vai achar que Lanísia quer destruí-lo – ela abriu um largo sorriso. – O clima de lua-de-mel está por um fio.
Deitada na ala hospitalar, com o rosto enfaixado, Marjorie tinha diante de si a bandeja branca com o jantar. Aaron estava sentado ao seu lado, observando-a com preocupação.
-Não quer ajuda pra comer?
-Não... Estou sem fome...
-Marjorie, eu sei que é difícil de se conformar. Mas você também nem sabe como vai ficar seu rosto, talvez não fique tão ruim...
-Ted fez questão de perfurá-lo ainda mais... Eu não tenho a menor chance de ter meu rosto de volta... Perdi os frascos, perdi a chance de ganhar o baile... Estou arruinada...
-Deve existir outro meio de chegar ao topo... Vamos conseguir, juntos.
-Não existe sucesso pra gente feia, Aaron. Deformação é fracasso...
-Mas você já tem muito dinheiro, que conseguiu roubar da Serena... Grana atrai status! Você não está sozinha, tem em mim um verdadeiro aliado. Vou ajudá-la no que for preciso. E talvez nem precise mais se vingar das Encalhadas...
Marjorie, de repente, sorriu.
-Eu posso ter aliados e me vingar... Eu posso ter as duas coisas...
Aaron franziu a testa.
-Não entendi... Marjorie, não, não faz isso, pare com isso...
Ela começou a desenfaixar a mão. Não parou até tirar o curativo e expor a ferida aberta pelo dedo perdido, recém-costurada pelos curandeiros. Curvando-se até a mesinha, pegou uma pinça.
-Marjorie... Não pode fazer isso... Oh, não...
Ela enfiou a pinça no ferimento, abrindo-o, com movimentos determinados. O sangue esguichou. Ela despejou-o sobre a bandeja branca, olhando-o espalhar-se, ignorando os chamados de Aaron.
Em seguida, estirou o dedo indicador e começou a escrever na bandeja, utilizando o sangue como tinta.
-O que isso significa? – perguntou Aaron, olhando para a palavra que nascia a partir do dedo ensanguentado de Marjorie.
-Você não sabe? Pois algo me diz que em questão de dias todos os alunos de Hogwarts saberão... Querido, gostaria que chamasse algumas pessoas para me visitar, poderia fazer isso?
Serena e Lewis tinham acabado de aparatar na mansão dos Bennet. Estavam no quarto de Brian e Florence, vasculhando uma caixa de documentos. O quarto do casal tinha paredes em tons pasteis, a cama era ornada de dourado, reluzente, e o lustre cravejado de pedras preciosas.
Agachados sobre o tapete, os dois buscavam os registros dos imóveis.
-Não posso acreditar que mamãe tenha sido amiga da Rebecca...
-Talvez não fossem amigas de infância... Conversassem apenas casualmente...
-É verdade... Até porque minha mãe não teria motivo para esconder essa amizade... – disse Serena, tentando convencer a si mesma.
A verdade era que aquele assunto a intrigava.
Ali, no quarto dos pais, com o retrato de Florence Bennet nas mãos, pensava no quão pouco conhecia da vida dos dois. Colocara o pai num pedestal por tanto tempo e, depois da sua morte, não descobrira que fora capaz de manipular Frieda para se dar bem em Hogwarts? Será que, se vasculhasse o passado da mãe, encontraria coisas indesejáveis?
Uma ligação com Rebecca não sinalizava algo muito bom...
-Será que as duas conversavam sobre você, Lewis?
-Sobre mim?
-É... Talvez minha mãe tivesse curiosidade em saber a respeito do filho bastardo do marido e tenha se aproximado da Rebecca por isso... Afinal, ela é sua prima, uma Lambert.
-Serena, não temos certeza se os seus pais sabiam que eu era seu irmão.
-O pior é que todos aqueles para quem podíamos perguntar estão mortos – disse Serena. – Sua mãe e meus pais...
-Nos resta Rebecca...
-Depender dela pra encontrar Lanísia já está nos custando um preço alto demais... Não dá pra esperar ajuda daquela megera.
-Vocês não, mas eu sou primo dela. Pode deixar que eu pergunto na primeira oportunidade.
Ela beijou-o.
-Não é estranho nos beijarmos aqui? Debaixo desse teto, onde nossos nomes devem ter citados tantas vezes... Os irmãos separados pelas circunstâncias...
-Não acredito que eles soubessem. Teriam falado pra você. Seus pais eram pessoas melhores que a minha mãe.
-Meu pai levou sua mãe pra cama por interesse.
-Minha mãe conspirou para matar o pai do Ted Bacon.
Serena fez uma careta.
-É, dona Frieda ganhou no ranking da maldade...
Os dois riram.
Serena abriu um baú e encontrou inúmeros documentos.
-Lewis, veja isso aqui... – ela esperou o irmão se aproximar. – São registros de residências em várias partes do mundo. Como você sabe, eu recebi tudo por ser a única herdeira natural de meus pais, mas nunca parei para analisar os papeis, deixei tudo aos cuidados do nosso amigo Leon, que é especialista em Direito em Magia. Veja só os locais... Nova York, Mônaco, Portugal... Temos todas as informações que precisamos! Visitamos cada uma das casas até encontrar aquela onde Lanísia está!
-Não, será preciso encontrar apenas uma delas. A que está nesta foto... – disse Lewis, puxando uma fotografia do meio dos papéis.
-O quê? – Serena tirou a foto das mãos dele.
Na imagem, um grupo de mulheres se reunia diante de uma mansão, rindo, animadas. Estavam sentadas ao redor de uma mesa repleta de doces.
-Essa mulher ao lado da minha mãe...
-É Rebecca.
Rebecca voltou para Hogwarts e trancou-se em seu quarto. Pendurou a bolsa com seu conteúdo precioso na escrivaninha e começou a abrir as vestes para tirar o baby doll.
Alguém bateu à porta.
Impaciente, ela abriu. Era Augusto.
-O que está fazendo aqui?
-Fiquei com saudades de você... Sabe como é... Eu tenho um pênis...
Rebecca olhou-o de cima a baixo.
-Sim, Augusto, eu sei. Além do mais, temos uma filha juntos.
-É, você já viu tudo... – Joyce forçou um sorriso malicioso. – Tem alguma bebidinha aí?
-Tenho sim... – ela abriu passagem para Joyce. – Como vão as coisas? Está se adaptando bem?
-É meio estranho, ainda estou me acostumando com minha bilonga novinha, mas acho que logo... – ela parou de falar ao ver que Rebecca havia parado, atônita. – O que foi?
-Bilonga nova?
Joyce engoliu em seco.
-Eu queria saber se você está se adaptando à vida sem a Lanísia em Hogwarts... Que conversa é essa de bilonga?
Joyce respirou fundo e gaguejou:
-É... Eu... Eu... Fiz um implante de três centímetros...
-Implante na bilonga?
-Sim... Vocês não colocam implante nos seios? Eu quis colocar na bilonga...
-Não sabia que existia isso...
-É, um procedimento novo, criado agora... digo, criado há um tempinho... Fui uma das cobaias...
-Não precisava. Você tem mais de vinte centímetros, isso já é muita coisa...
-EU TENHO MAIS DE VINTE CENTÍMETROS? – berrou Joyce, a voz de Augusto saindo com uma pontada de irritação. – Olha só, e a danada da Lanísia nunca me contou, traidora!
-Fala como se fosse uma surpresa.
-Não, claro que não é... Eu ando com uma fita métrica no bolso para medir o bichinho sempre que eu posso! Eu quis dizer que a Lanísia nunca fez questão de contar os centímetros dele. Fez pouco caso do meu implante...
-Acho que agora ela está mais interessada nas intimidades do Ted... – Rebecca despejou dois cubos de gelo nos copos de cerveja amanteigada. – Precisava ver o quanto eles estão próximos...
Rebecca passou o copo para Joyce e acariciou-lhe os cabelos.
-Consigo ver o sofrimento em seus olhos. Como eu gostaria de receber o seu amor, ser capaz de tocá-lo dessa maneira... Às vezes penso no que nos separou... Acho que foi a falta de diálogo. Eu nunca soube muito bem do seu passado.
-Claro que soube!
-Não, não... Por exemplo: nunca me contou do seu tempo em Hogwarts, quando fundou aquele clube de estudos com os colegas.
-Ah! O clube de estudos... – Joyce bebeu um longo gole, pensando no que responder. – Bom, o clube era maravilhoso... Fazíamos coisas comuns de garotos...
-O quê? Eu sempre tive curiosidade em saber o que os jovens fazem quando estão juntos...
-É, eu também...
-Hum?
-Nada... Nós... Dormíamos todos de cueca...
-De cueca?
-É! Muitas vezes na mesma cama, abraçados com nossos ursinhos de pelúcia. E lá contávamos histórias sobre nossas paixões, trocávamos segredinhos...
Rebecca franziu a testa, mas não retrucou.
-Quando começamos a nos desenvolver, comparávamos o tamanho de nossas bilongas. Trocávamos as cuecas favoritas...
-Iam ao banheiro juntos também?
-Claro! O banheiro era o lugar em que saíam as fofocas mais quentes! – exclamou Joyce, toda empolgada no corpo de Augusto, balançando os enormes pés do professor.
-Hum... Que clube másculo...
-Ih, senti um toque de ironia... Não é muito másculo tudo o que acabei de dizer?
Rebecca deu-lhe tapinhas nos ombros.
-O que importa é que você virou esse homem incrível depois de tudo isso...
Joyce desvencilhou-se do toque dela.
-Becca, não...
-Dê mais uma chance pra mim, Augusto.
-Isso é impossível. Só quero que traga Lanísia de volta. Com ela aqui, ou sem ela, é indiferente! Nunca vou amar outra mulher, nunca vou voltar pra você, precisa entender isso!
-Não vou falar onde ela está!
-Você vai acabar perdendo o Tender!
-Quem?
-O Tender! Não tem mais ninguém aqui, podemos falar abertamente sobre o Tender...
-Mas... Que Tender?
-Não é Tender? Ted Tender?
-Bacon, Augusto! Não é momento pra gracinhas, e não, eu não vou perdê-lo!
-Lanísia é muito sedutora. Logo Ted não vai querer mais saber de você! Vai se mandar pra algum esconderijo que você desconheça!
-Ele não fará isso comigo... Eu não vou deixar.
-Não pode impedir.
-Posso sim! Conheço uma forma de azedar de vez a relação dos dois e, se quer saber, já tomei as providências necessárias para que isso aconteça... – ela pegou a bolsa e puxou um frasco.
Joyce perdeu o fôlego.
Dentro do recipiente, uma fumaça escura flutuava, rodopiando. Na etiqueta, ela leu o seu nome: "JOYCE MEADOWES".
Sua qualidade estava ali...
-Não estou entendendo...
-Deixei um frasco falso, aberto, idêntico a este, com a etiqueta e tudo, na sala da mansão em que Ted está escondido. Ele vai imaginar que a ninfetinha tentou passar a perna nele, e pronto, o clima de romance vai terminar...
Joyce engoliu em seco.
-Becca, acho melhor não fazer isso...
Mas Rebecca não lhe deu ouvidos.
-Eu não posso ter você, Augusto, mas não quero que você seja feliz com a ninfetinha. E pode acreditar, Ted agora vai acabar com ela... Talvez quando ela estiver morta, você consiga se conformar...
Rebecca desarrolhou o frasco e liberou a fumaça espiralada.
-NÃO! – berrou Joyce, tarde demais.
A fumaça voou de encontro ao corpo dela, lançando-a de uma só vez contra a parede do quarto.
-Augusto! – gritou Rebecca, assustada, vendo o ex-marido cair, estonteado, no chão.
Ted descia as escadas, nu, com um chicote na mão. Lanísia, sobre a mesa, bebeu um pouco mais do vinho, onde misturara a poção anestésica.
-Está na hora de incluirmos mais selvageria nas nossas brincadeiras, Lanísia...
De repente, Ted parou. O corpo dele ergueu-se no ar, sendo transpassado por um feixe luminoso de luz.
Diante dos olhos assustados de Lanísia, a pele putrefata secou ainda mais. Na metade até então incólume, os tendões ficaram expostos. Ela podia ouvir, no silêncio da mansão, o ruído da carne se desfazendo...
A transformação terminou. Ted foi jogado no chão e rolou pelos degraus até parar no piso do saguão.
Estava inteiramente deformado. O corpo inteiro exposto em carne-viva, putrefato, expondo músculos e ligamentos. Um verdadeiro monstro.
Largado no chão, Ted deu um urro de revolta.
Ele então ergueu o rosto e seus olhos maníacos cravaram-se em Lanísia.
-Foi você...
-Eu não fiz nada, eu... – Lanísia seguiu a direção do olhar de Ted e viu o frasco aberto caído aos seus pés. – Ted, eu não tenho nada a ver com isso, nem tinha reparado que o frasco estava aqui...
Ele ergueu-se, gritando outra vez. Avançou na direção dela. Lanísia pulou da mesa, mas Ted foi mais rápido e a agarrou, segurando-a pelo pescoço.
Ele ergueu-a no ar, as mãos cadavéricas pressionando-lhe a garganta.
-Devia ter aproveitado melhor a única oportunidade que teve para me destruir. Não caio mais nos seus joguinhos de sedução... Acabou! Agora será tratada como uma verdadeira prisioneira.
Ele soltou o pescoço dela e começou a arrastá-la para fora da sala, segurando-a pelo braço.
-É hora de dar adeus ao seu filhinho...
-NÃO! NÃO! POR FAVOR, NÃO! ME SOLTA! – Lanísia começou a gritar.
Suas unhas arranhavam o chão, tentando encontrar uma maneira de lutar contra Ted, mas ele continuava puxando-a, sem parar.
-Será uma ótima lição para você aprender a me respeitar...
-NÃO, NÃO FAZ ISSO, NÃO... – ela tentou segurar-se ao batente da porta; estremecia nas mãos dele, tentando desvencilhar-se. – PELO AMOR DE DEUS, NÃO...
-Devia ter pensado nisso antes de tentar me matar!
-NÃO! NÃO, NÃO FIZ NADA... NÃO MATE O MEU FILHO... NÃO!
A porta do porão bateu, fechando os dois na escuridão.
N/A: Novidades para o leitor fiel de "A Fogueira das Paixões"! Acesse WWW . AFOGUEIRADASPAIXOES . BLOGSPOT . COM [só eliminar os espaços] e confira!
Qual será o novo plano de Marjorie? As Encalhadas conseguirão encontrar o esconderijo de Ted a tempo? Muitas emoções no próximo capítulo, até mais! Mandem reviews, por favor! Abraço!
