Abalado e meio fora de si, Jared se afastou correndo dali. Subiu as escadas às pressas e entrou em seu antigo quarto. As malas dele e de Jensen já haviam sido desfeitas por algum criado. Mais que depressa, Jared jogou as malas abertas sobre a cama e começou a tirar as roupas do closet e guardá-las de volta. Não sabia direito o que fazer. Só sabia que não ficaria ali vendo Jeffrey lhe roubar Jensen. Jeffrey podia lhe tirar tudo: Suzy, Sandy e até Alicia, mas não Jensen. De Jensen, Jared não abriria mão. Amava Alicia como se fosse sua segunda mãe e lhe devia toda gratidão e respeito, mas não poderia ficar nem mais um minuto ali ou perderia Jensen. Tinha que sair dali. Tinha que pegar Jensen e voltar rápido para Vancouver onde os dois eram felizes e se amavam.

Estava terminando de fechar a mala de Jensen quando ouviu o ranger da porta do quarto ao ser aberta. Olhou para trás e viu o namorado o observando com curiosidade. Seus olhos verdes estavam molhados e suas faces estavam coradas.

– O que está fazendo? – Jensen perguntou em voz baixa e rouca.

– Estamos indo embora. – Jared anunciou colocando as malas no chão. – Agora.

– Pensei que queria se despedir de Alicia...

– Já me despedi. Agora quero ir embora.

– Certo. – Jensen disse.

– Certo?! – Jared estava surpreso. Fácil assim? Aquele beijando Jeffrey no escritório havia sido mesmo Jensen? – Você vai embora comigo agora? – Jared perguntou para ter certeza.

– Eu vou embora agora sim. – Jensen disse num tom estranho. – Com você... Bem, isso é outra história.

Jared gelou. Jensen estava dizendo que iria ficar com Jeffrey? Era isso?

– Antes de ir, Jared, você precisa escutar o que eu tenho a dizer.

– Eu não quero escutar nada. – Jared disse meio desesperado. – Eu não quero ouvir que você e meu pai estão juntos. – As lágrimas rolavam. – Eu não quero ouvir que você quer me deixar.

– Depois do que eu disser, é você quem vai querer me deixar, Jared. – Jensen disse. Seus olhos verdes estavam repletos de dor e medo. Mas medo de quê? – Sente-se, por favor, Jared.

– Não! Eu não quero ouvir nada. Eu quero ir embora agora e você vai comigo.

– Não haja como uma criança birrenta! – A voz de Jensen foi firme o bastante para fazer Jared sentar-se imediatamente. – Eu vou falar e você vai ouvir em silêncio, sem fazer uma única interrupção. Quando eu terminar, você pode fazer o que quiser: me xingar ou até mesmo me bater. Mas agora você vai me ouvir.

Jared engoliu em seco. Algo lhe dizia que aquela conversa faria um estrago em seu peito.

– Acho que não preciso lhe dizer que o Jeffrey é o meu amor de Los Angeles do qual eu fugi após ele ter me deixado por outro alguém... – A voz de Jensen voltava ao seu tom calmo de sempre. – Quando a Alicia ficou doente, Jeffrey disse que estava comigo só por que eu me parecia com ela. Disse que ela era o grande amor da vida dele e que eu tinha sido um tipo de substituto. Isso acabou comigo. Eu me senti tão arrasado, tão humilhado e usado que tudo o que queria era provocar em Jeffrey uma dor tão grande quanto a minha. Mas como? Nem mesmo tendo perdido o Jeffrey para Alicia, eu seria capaz de fazer algo contra uma moribunda. Então, me lembrei de você.

– O quê?! – Jared arregalou os olhos. Do que Jensen estava falando?

– Eu não sabia muito sobre você. Tudo o que eu sabia era que você era um rapaz mimado e que não se importava em ferir os outros. Igualzinho ao seu pai. E, embora, não conversasse com Jeffrey, ainda era a paixão da vida dele.

Jensen começou a andar pelo quarto como se procurasse palavras para contar tudo a Jared.

– O caso com Sandy era prova suficiente de que você era um canalha. Foi o que pensei... Mas na verdade, foi um mal entendido das duas partes. Eu só soube disso depois daquela conversa na sua casa. A Sandy era, de fato, uma atriz, mas tomou trauma do palco após presenciar um acidente que matou e feriu dezenas de crianças que assistiam a uma peça em que ela era a protagonista. A Lauren estava envolvida no acidente, embora não fosse a responsável. A Sandy veio a Los Angeles com a intenção de fazer a Lauren pagar uma indenização. Ela não sabia que você era filho do Jeffrey, mas seu pai não acreditou nisso e tentou afastá-la de você. Em vão. Ela te amava, mas não contou nada por que teve medo de que você também pensasse como Jeffrey. No fim, seu pai se compadeceu das vítimas do acidente e passou um cheque para Sandy entregar para os sobreviventes. Isso foi um dia antes do casamento. Durante o jantar, ela contou ao Jeffrey que estava esperando um filho seu.

– O quê?! – Jared sentiu as pernas tremerem. Sandy tinha tido um filho dele?

– Quando você a abandonou no altar, a Sandy sofreu um aborto e perdeu o bebê. Sinto muito...

Jared balançou a cabeça incrédulo. Aquilo não podia ser verdade. Sandy não era a vigarista que acreditara? Ele havia abandonado Sandy no altar por causa de nada e ainda a havia feito perder o filho deles?

– Eu gostaria de lhe dar um tempo para digerir essa história, mas acho que é melhor seguir em frente. – Jensen disse como se pedisse desculpas. – Como eu estava dizendo, para mim você não passava de um cretino. Sendo assim, por que não te usar para atingir seu pai? Eu sabia que você valorizava muito sua liberdade em Vancouver, sua namorada, sua casa, seu emprego e seu melhor amigo, Chad. Então, decidi tirar tudo de você.

A boca de Jared se abriu. Jensen estava dizendo mesmo aquilo?

– Foi tudo planejado minuciosamente: primeiro a namorada. Aquele lance com Cassidy... Tudo armação. Eu só não esperava que você já não estivesse apaixonado pela Genevieve. E quem diria que você se apaixonaria por mim? Decidi aproveitar a oportunidade e assim facilitar as coisas. Para minha total surpresa, também me apaixonei por você e teria desistido da vingança se Tom não tivesse me contado que, assim como seu pai, você amava Alicia.

Jensen sorriu sem o menor humor. Um sorriso amargo que causava quase uma ferida em seu rosto corado.

– Eu me senti usado de novo. Então decidi que te destruiria não só pelo seu pai, mas também por você ter me usado exatamente como ele. Eu cuidei para que os juros da sua casa fossem aumentados de um modo que você não pudesse pagar. Mas assim que vi seu desespero ao estar prestes a perder a casa, meu amor por você falou mais alto e eu tentei voltar atrás, consertar as coisas, porém era tarde demais.

Jared voltou a balançar a cabeça. Mesmo que Jensen tivesse lhe dado permissão para falar, Jared não conseguiria dizer nada. Estava sem palavras.

– Quando te chamei para morar comigo, eu estava sendo sincero. Eu realmente te queria comigo, mas... Mas o fantasma da Alicia estava sempre entre nós. Você até sonhava com ela... Acabei me convencendo de que o único modo de te ter para mim, de não te perder para ela como perdi seu pai, era te fazer completamente dependente de mim. Então segui em frente com meus planos. Forcei Rosenbaum a roubar o projeto de Chad e colocar no seu armário. Quando sua saída já não era tão prejudicial para a Vitória, armei para que Beaver encontrasse o projeto roubado. Tudo ocorreu como o esperado. Você perdeu seu emprego, seu melhor amigo e sua independência de uma vez só.

Jensen se aproximou de Jared e o olhou de um modo que denunciava todo o seu amor e todo o seu arrependimento.

– E, então, você era meu. Todo meu... Você dependia de mim, precisava de mim e me amava cada dia mais. E mesmo sabendo que estava errado, eu estava tão feliz ao seu lado que nem me importei se estava te machucando.

As lágrimas escorriam dos olhos verdes de Jensen. Jared também chorava em silêncio. Os poucos segundos que se passaram após a confissão de Jensen foram o bastante para que Jared assimilasse suas palavras e entendesse tudo.

– E agora Alicia morreu e meu pai quer você de volta.

Jared desviou o olhar. Não suportaria olhar para Jensen por nem mais um segundo. Por que olhar para ele era criar uma bagunça em seu peito, pois ele queria beijá-lo e socá-lo ao mesmo tempo.

– Jeffrey disse que mentiu quanto a amar Alicia e não me amar.

– Que bom para você! – Jared foi sarcástico. Não sabia de quem tinha mais raiva, se de Jensen por tê-lo enganado e ter ferrado com sua vida ou de si mesmo por ainda amá-lo mesmo após ouvir toda a verdade.

– A casa... Seu pai a comprou e já a colocou no seu nome. Rosenbaum assumiu a culpa pelo roubo do projeto, mas eu já passei um fax a Beaver e a Chad explicando a história toda. Infelizmente não sei como consertar as coisas com a Genevieve, mas...

– E você acha que assim tudo se resolve, como uma porcelana quebrada que basta colar os cacos e está nova em folha?

– Não. Eu não acho. – Jensen admitiu. – Eu não mereço e nem espero o seu perdão.

– Quer saber de uma coisa, Jensen? – Jared estava tão machucado que não conseguiu refrear o súbito desejo de machucar Jensen também. – Tom é um idiota. O que eu sentia pela Alicia era amor de um filho pela mãe. Quando mais jovem, eu confundi as coisas, mas desde que você entrou em minha vida, meus sentimentos ficaram bem claros. Era você quem eu amava. Só você. Alicia nunca foi uma ameaça para você. Nunca... Você foi o único a destruir o que eu sentia por você.

Jensen o encarou de boca aberta, mas estava sem palavras. Jared pôde ver a surpresa e a angústia em seus olhos. Uma dolorosa satisfação traçou um sorriso áspero em seus lábios amargos. Jensen desviou o rosto e mais lágrimas escorreram de seus olhos cansados de tanto chorar.

– Eu nunca vou me perdoar pelo que fiz a você, Jared. – Disse sem encará-lo. – E nunca vou esquecê-lo. Mas não irei atormentá-lo com minha presença. Não vou voltar para Vancouver. Vou sumir da sua vida para sempre.

– Vai fugir de novo? Por que não estou surpreso...? – Jared debochou. A dor o tornava cruel como nunca havia sido antes.

– Como pode ver, eu sou um grande covarde. – Jensen, de cabeça baixa, foi até junto à cama e apanhou sua mala. Não arriscou um único olhar para Jared. – Eu sinto muito.

Foi tudo o que disse antes de sair do quarto deixando a porta aberta. Jared continuou sentado na beirada da cama. As lágrimas escorriam livremente pelo seu rosto e ainda que metade de seu peito gritasse que ele deveria correr atrás de Jensen e não deixá-lo partir, a outra metade, a metade mais forte, estava quebrada em tantos pedaços que Jared não conseguia sair do lugar. Sabia que estava perdendo Jensen, mas também tinha consciência de que o homem que ele amava e julgara conhecer não existia de verdade. Aquele Jensen era uma mentira.

Quando Jeffrey entrou no quarto e parou diante dele, Jared mal o reconheceu. Sabia que aquele homem, de alguma forma, era querido e odiado em seu coração, mas não sabia ao certo quem era ele ou por que o queria e, ao mesmo tempo, o repudiava. Quando seus olhos se encontraram, os soluços de Jared encheram o quarto. Jeffrey sentou-se ao seu lado e o abraçou.

– Vai ficar tudo bem, filho... – Jeffrey sussurrou. – Vai ficar tudo bem...

Não muito longe dali, Jensen tomava um vôo para Dallas. De volta ao começo. Estava cansado de fugir das coisas. Era hora de voltar para casa e encarar seu passado.