7VERSE : REALIDADE 5

EPILOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO

CAPÍTULO 26

AMOR ETERNO

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CRETA

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Enquanto aguardava as malas aparecerem na esteira, Hércules agilizava os procedimentos para alugar um carro. Estava, no entanto, inconformado porque nenhuma das locadoras do aeroporto trabalhava com modelos esportivos.

Não bastava ter sido obrigado a viajar de classe econômica num avião de plástico. Teria que passar pela humilhação de alugar um carro popular.

Ele, Hρακλῆς, o filho favorito de Ζεύς.

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Olhando ao redor, era impossível não notar que os funcionários do aeroporto estavam agitados. Havia uma tensão quase palpável no ar. Algo estava errado e as pessoas pareciam pressentir.

Sem saber que Hércules dominava a língua local, dois carregadores de bagagem falavam assustados de testemunhos da volta de antigos deuses, de uma batalha entre deuses que estaria acontecendo naquele exato momento nas montanhas e que a assustadora tempestade que estava prestes a cair sobre a cidade seria o prenúncio do fim do mundo.

Ao buscar informações sobre as condições da estrada para Anogeia, Hércules soube no balcão da companhia aérea que uma rádio acabara de noticiar que todo o tráfego da capital para todo o sul da ilha estava interrompido.

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LOS ANGELES

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– Sam, acabou de dar no noticiário. Uma série de estranhos fenômenos em Creta. Não pode ser mera coincidência.

– Estou abrindo o laptop. Que tipo de fenômenos, Bobby?

– Os mais visíveis são meteorológicos. Uma enorme nuvem de tempestade que se formou de repente. As imagens de satélite são impressionantes. Uma terrível tempestade elétrica castiga a ilha. E ventos. Ventos fortíssimos causando todo tipo de destruição.

– Acha que pode ser coisa do Calaïs?

– É uma hipótese que não pode ser descartada. Mas, parece ter começado duas horas antes do horário previsto para a chegada do vôo.

– Não quer dizer que não tenha o dedo dele. Que eu saiba, ele não precisa do avião para nada.

– Ele não. Mas, o Hércules precisa. Acha que o Calaïs arriscaria as vidas das pessoas a bordo?

– Espero sinceramente que não. Quero muito acreditar nisso. Estou entrando no site da companhia aérea

– E então?

– Droga, já esperava por isso. Simplesmente não há como acompanhar pelo site os horários reais de pousos e decolagens. Segundo esse outro site, o aeroporto de Creta está, neste exato momento, fechado para pousos e decolagens. Os vôos que chegam estão sendo desviados para Atenas. Não temos nem mesmo como saber se eles realmente pousaram em Creta.

– E parece que tem muito mais coisas acontecendo.

– Que tipo de coisa?

– O nosso tipo de coisas. Deu também no noticiário que, desde o início do dia, estão circulando boatos desencontrados na ilha sobre fim do mundo e de que uma batalha entre deuses que estaria acontecendo nas montanhas. As pessoas estão assustadas. A TV mostrou o vídeo que um turista japonês colocou na web. O vídeo mostra um gigante azul de dez braços, cheio de armas, na entrada da tal caverna que o Hércules disse ser a entrada para o Hades.

– Yeah! Este parece ser o assunto do dia. Está em todos os sites. Em alguns, as notícias estão sendo atualizadas quase que minuto a minuto. Parece que neste exato momento o tal gigante azul está sendo atacado pelo grupo de homens que testemunhas afirmam ter desaparecido de pontos diversos da ilha umas poucas horas antes. Aqui fala que existe um vídeo de um destes desaparecimentos.

– Encontrou o tal vídeo?

– Encontrei o do gigante azul. Estou abrindo.

– Impressionante. Acha que é real?

– Somando isso, Jasão, os boatos e a tempestade? Pela nossa experiência, eu diria que tem grandes chances de ser.

– Droga. Tudo isso acontecendo, e nós aqui, de mãos atadas.

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IDAION ANTRON

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Calaïs tomou distância e correu na direção da entrada da caverna. E, enquanto corria, ia passando para a forma de tornado.

Lá fora ventava muito, mas não eram seus irmãos. Eles não eram loucos de se aproximarem de anjos. Os elementos em fúria respondiam a Kälï, como deusa da natureza que era.

No plano material, anjos estão sujeitos às leis da natureza. Kälï estava usando a natureza contra a legião celeste. Os fortes ventos desestabilizavam seu vôo. A forte chuva os fustigava. A devastadora chuva de granizo derrubara alguns.

Eles eram muitos, mas não tantos quanto os clones do demônio Raktabija, nascidos do sangue derramado do original. Cada gota de sangue demoníaco que tocava o chão fazia surgir um novo demônio, idêntico ao original em forma e poder. Inclusive o de gerar novas cópias de si mesmo. Kälï superara a inferioridade numérica avassaladora e matara todas as cópias, uma a uma, bebendo todo o sangue de cada uma das cópias.

Armada das espadas capturadas de Uriel e de Anna, Kälï não tardou a fazer vítimas. Os dezesseis anjos logo se tornaram doze. Agora, eram oito. Rafael ainda não participara ativamente da luta. Buscava descobrir o que Kälï tentava proteger na caverna, mas não conseguia quebrar as proteções místicas. O traidor Gabriel repartira com demônios os símbolos mais sagrados da fraternidade celeste. Nem Lúcifer jamais ousara a tanto.

Rafael não detectara Calaïs quando este entrara na caverna pouco antes na forma de aragem. Agora, era surpreendido com sua saída inesperada na forma de tornado.

Calaïs não se transformava em tornado há muito tempo. Não desde que Zetes tomara as dores de Necker e o abandonara. Tantos anos separados. E agora talvez jamais se reencontrassem. A única esperança era ambos sobreviverem às batalhas que estavam travando. Usou todo o seu sentimento pelo irmão para ganhar velocidade e formar um tornado devastador.

O tornado vivo segue na direção de cada anjo, capturando-os no turbilhão. Capturou seis, deixando os demais a cargo de Kälï. Então, arremeteu para cima, cada vez mais alto. A nuvem criada por Kälï se estendia até a estratosfera, onde o ar era extremamente rarefeito e atravessava camadas onde a temperatura era negativa. Não tinha certeza, mas acreditava que os receptáculos humanos ainda precisassem respirar. Se fossem deixados nas camadas superiores da estratosfera, estariam em maus lençóis.

Os fortes ventos criados por Kälï forçaram os anjos a testarem diferentes estratégias de vôo. Os anjos sobreviventes eram justamente os que tiveram mais sucesso. Zauriel fecha as asas e as mantém coladas ao corpo. Com isso, embora preso ao vórtex, recupera sua capacidade de ação. Aponta sua espada flamejante para o centro do vórtex e dispara. Ao mesmo tempo, usa a voz para gerar um estrondo sônico. Os demais seguem seu exemplo.

O aquecimento do ar rarefeito do centro do tornado perturba o delicado equilíbrio de pressões que permitia a existência do tornado. O vórtex se rompe, lançando os anjos para longe. Estavam atordoados, e precisariam de alguns minutos para se recuperar, mas estavam novamente livres.

Atordoado pelo som, Calaïs tem dificuldade crescente em manter-se na forma de tornado. Sua essência se dispersa na atmosfera rarefeita da estratosfera, incapaz de preencher o vácuo. Seus pensamentos ficam mais e mais desconexos e ele mergulha na escuridão.

Seu último pensamento coerente foi: 'Me perdoa, irmão. Eu falhei com você'.

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INFERNO

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A matéria que forma o Inferno é como barro nas mãos de um artesão experiente. E Nathalie Helms aprendera moldá-la, tal como Palemon fazia no Hades. Bem, não exatamente da mesma forma, mas com os mesmos resultados.

Palemon usava sua força de vontade para criar construtos no Hades, uma dimensão habitada por espectros sem memórias, identidades ou desejos. Espectros sem vontades, e, portanto, incapazes de reunir força de vontade, por mínima que fosse, para transformar seu mundo. O Hades é tão fluido quanto o Inferno, mas não há ali ninguém capaz de moldá-lo.

No Inferno, o poder vem do mal. Sua matéria se dobra ao desejo de causar sofrimento e dor. E esse é o elemento que iguala a todos que lá habitam. Mesmo os insetos e as feras infernais não agem somente para satisfazer as suas necessidades básicas ou mero instinto de sobrevivência. São agentes ativos do mal e também eles transformam o ambiente. Não é necessário um desejo consciente de uma mente racional, embora isso ajude. A impiedade e o sadismo são os melhores catalisadores de mudança.

O chão rochoso se ergue e se retorce formando uma gaiola de pedra maciça ao redor de Gabriel. O que seria o equivalente às barras de uma gaiola formava um padrão elegante. Uma armadilha para anjos. Gabriel não poderia escapar mesmo que estivesse de posse de todos os seus poderes. De suas paredes internas, surgem pontas em lento processo de crescimento. Muitas e em todas as direções. Não havia com fugir. Ele teria seu corpo espiritual transpassado pelas pontas. Era apenas questão de tempo. Não morreria, já que o Inferno foi criado originalmente como uma prisão para anjos e prisão alguma dá aos condenados o direito de usarem a morte como meio de fuga. Mas, seria certamente doloroso. Extremamente doloroso.

Já Idmon, graças à sua presciência, estava prevenido e não se deixou prender. Os padrões da sua quase prisão eram diferentes, mas também o deixariam indefeso se tivesse sido apanhado. Um anulador de magia, da esquecida tecnomagia atlante, da qual Nathalie era a única detentora viva nos últimos três milênios. Desde quando seduziu e assassinou o arqui-bruxo atlante que se vangloriava de ter afundado a ilha-continente nas águas do Atlântico e ter lançado o feitiço que fez o mundo esquecer de sua existência. Se alguém lhe perguntasse, ela diria que aconteceu num castelo a beira-mar na Bretanha francesa, mas a memória a estaria traindo. Aconteceu nas terras altas da Escócia. O arqui-bruxo adquirira fobia de oceano.

Embora um poderoso feitiço deixasse a bruxa invisível até mesmo da visão profética de Idmon, a presença dela não passava inteiramente despercebida. Idmon estava tão acostumado a vivenciar dois momentos distintos do tempo que podia ver sutis mudanças no ambiente causadas pela movimentação da bruxa, como alguém veria mudanças de padrão na fumaça de uma sala fechada totalmente esfumaçada.

Como precisava mais do nunca de luz para fazer frente à bruxa, era natural que Idmon a atacasse com fogo. Uma parede de fogo avançando em todas as direções a pegaria, não importa onde estivesse, mesmo que se mantivesse invisível.

A bruxa era experiente em batalhas místicas. Não era somente o ambiente que ela podia manipular. No Inferno, ela também podia mudar facilmente sua forma e aparência. Ao ver a parede de fogo se aproximando, a bruxa assumiu a forma de um imenso dragão vermelho e inspirou o fogo para dentro de si. E, então, pondo-se em pé sobre as patas traseiras, ela abriu suas gigantescas asas de morcego e aproximou o comprido pescoço do minúsculo inimigo. E soprou de volta o fogo.

O hálito de fogo envolveu completamente Idmon. Como a chama de um maçarico de oxiacetileno usado para cortar aço, a chama era branco-azulada. Devastadora. Longos minutos depois, onde antes estava Idmon, agora havia uma forma rochosa fumegante, que lembrava vagamente uma figura humana encolhida, numa tentativa inútil de proteção. Não muito diferente das infelizes vítimas do Vesúvio encontradas nas ruínas da antiga Pompéia.

A bruxa volta à forma humana e, livrando-se da capa, apresenta-se para Jasão em sua magnífica nudez. Marido e mulher, cara a cara, num acerto definitivo de contas.

– Você está linda, esposa. Mais ainda que em minhas lembranças. Mais do que qualquer mulher que eu já tenha visto ou com quem tenha sonhado. Você é perfeita. É única.

– Já você, Jasão, está envelhecido e só. Sem reino. Sem súditos. Sem comandados. Sem amigos. Sem descendentes. Sem amores. Sem nada. Eu sou a única pessoa que ainda lhe resta. Aqui no Inferno, somos agora só você e eu. Marido e mulher.

– O que diz é verdade. Eu sou hoje uma sombra daquele homem que chegou orgulhoso à Cólquida e se incendiou de desejo pela sua bela e decidida princesa, ainda quase menina. Vejo agora com clareza. É por isso que digo que conquistar você, Μηδεια, valeu todos os sacrifícios. Valeu a vida de todos os companheiros que morreram na expedição.

– Até daqueles que o seguiram nesta nova jornada patética?

– Se alguém me perguntasse isso antes deste momento, em que vejo você assim, magnífica, a mais bela das mulheres, eu diria que minha lealdade estava com eles, com meus companheiros. E eu estaria dizendo a verdade. Mas, agora, com você aqui, na minha frente, eu me dou conta que, comparado a você, tudo perde a importância. Você, e não o Velocino de Ouro, foi o grande prêmio que eu conquistei. Minha maior glória. Vendo você eu redescubro um desejo tão grande que me faria sacrificar o mundo inteiro para saciá-lo. Μηδεια, o seu amor vale as vidas de todos os habitantes do planeta.

– Esqueceria aquele por quem iniciou essa busca, deixaria seus companheiros para trás, trairia a todos que lhe confiaram suas vidas e me seguiria cegamente por toda a eternidade?

– Sem pestanejar. Você é tudo que me importa, esposa. Terá de mim sempre tudo o que desejar. O que quer de mim? Basta pedir e farei.

– Quero que cumpra sua promessa. Você me prometeu seu amor eterno.

– E você o terá.

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12.02.2015