SONHOS

"O sonho e a esperança são dois calmantes

que a natureza concede ao homem."

Frederico, o Grande.

Capítulo 58

Scully move-se lentamente dentro do apartamento. Como sempre, seu dia fôra péssimo. Cheio de problemas e complicações.

Um tremor mais forte ela sente dentro de suas entranhas. Esboça um tênue sorriso.

Sabe que seu bebê deve estar abrindo e fechando as pequenas mãozinhas, neste instante.

Embora nesse estado tão delicado para uma mulher, ela acabara de convalescer de um abalo em seu organismo, com o estranho virus que invadira seu corpo e que a fizera sofrer um forte trauma físico.

Mas a vida de seu filho Deus havia preservado.

E ela sente-se, mais uma vez, grata a Ele por isso.

Agora, sentindo-o dentro de si, acha interessante e fantástico, quando seu bebê resolve dar uma esticadinha nas pernas. Talvez se espreguiçando.

Dana passa lentamente os dedos sobre a pele já bem distendida de seu ventre.

O tremor novamente faz-se sentir em sua carne.

— Meu filhinho! Agora você só responde ao meu toque com um movimento assim. Mas estou esperando ansiosa o dia em que vou ver seu rostinho lindo olhando pra mim, num meigo sorriso de inocência... meu amorzinho... bem da minha vida tão atribulada...! Eu quero logo estar debruçada sobre você, brincando com seus pezinhos, suas pequeninas mãos tocando-me o rosto... meu bebê!

Dana pára de falar e põe-se a meditar:

Dirige-se à janela.

Enquanto enxerga o movimento da rua lá fora, lembra do penúltimo dia em que teve o seu amado junto a si.

Ele havia comentado sobre o bebê de Thereza Hoese e dissera:

— Sabe, Scully, tudo o que você tentou fazer... sem ter conseguido nada...

— Sobre o que você está falando?

— ... aquelas... experiências de fertilização, que não deram certo.

— Ah, Mulder, - ela suspirou profundamente - não gosto de lembrar aquela ocasião cheia de ansiedade e de espera... eu sofri muito... a decepção foi imensa!

— Eu sei, eu sei... mas eu, Scully, sou um sujeito que nunca recebo um não sem ter a certeza de que, realmente, não há jeito...

Eles ainda estavam deitados naquela cama do hotel em Bellefleur.

Naquele momento ambos sentiam-se tristes e infelizes. Pairava uma intensa suspeita no ar. Uma cruel dúvida: os alienígenas estariam querendo levar a quem? A ele ou a ela? Essa dúvida atroz os intrigava, pois não havia uma certeza total.

Mas não a comentavam entre si. E sofriam. Mas disfarçavam o sofrimento conversando a respeito de outro importante para os dois: o desejo frustrado de Scully de tornar-se mãe.

— O que eu quero dizer é que sempre existe uma esperança. - completou ele.

— Para o meu caso não, Mulder!

Ele esquadrinhou o fundo dos amados olhos azuis:

— Você nunca se deve render à derrota, Scully!- segurou-lhe o queixo para ver seus olhos lacrimejantes buscando os dele - Certo, Scully?

E Dana assentira. Balançara suavemente a cabeça, confirmando que acreditava nas palavras dele.

"Mulder sempre tivera certeza de coisas que eu julgava fantasiosas em sua mente. Hoje vejo que ele sempre teve razão. Sempre devemos ter uma fé, uma certeza, uma esperança. E com esse sentimento podemos nos fazer fortes, corajosos e convictos de que há uma resposta positiva sempre à espera de nossos ideais, nossos sonhos.

Mas e ele? Mulder? Não pôde ficar pra ver... pra ver seu filhinho que geramos juntos, com nosso amor...

Mulder!"

Os pensamentos de Dana a perturbam.

Um cansaço amortece-lhe o corpo, fazendo-lhe pesar os seus menbros como peças de chumbo.

Dirige-se para a mesa.

Debruça-se nela, colocando a cabeça sobre os braços dobrados.

"Ah, se pudesse falar com Mulder, vê-lo, senti-lo um pouquinho, alguns segundos que fosse!"

Ela ouve um leve ruído ao seu lado.

— Estou aqui.

Ela levanta a cabeça.

— Você? Está aqui mesmo? De verdade?

Dana não sabe se ri ou se chora.

— Mulder? - ela pára, repentinamente - É você?

— Sim, Scully. - a voz dele é em tom muito baixo e fraco.

Ela levanta-se, ansiosa.

— Mas como não posso ver seu rosto, Mulder? Por que?

— Mas sou eu mesmo. Vim procurar você... que é a minha vida... a minha própria existência...!

— Mulder, me abraça! - pede.

Ele a abraça, suavemente.

Ela o sente com as carnes frias; não como costuma ser, ardente, abrasador.

— Mulder, eu preciso saber...

— O que?

— Você está bem?

— Estou... - a voz é cansada e denota tristeza.

— Não... não posso acreditar que esteja bem; você está... Mulder... você está cansado! Sua respiração...

— Sim!

— Mas por que não posso ver seu rosto, Mulder?

— Ainda não, Scully!

— Por que? Por que? - a voz está aflita - Ainda não...? O que quer dizer com isso? Me explica! O que falta? O que houve? Mulder! Me responde!

— Scully eu estou chegando...

— ... chegando de onde?

— ... eu virei, Scully, ainda... eu virei... me espera... eu virei.

— É por isso que não posso ver seu rosto, Mulder?

— Sim.

— E depois?

— Eu voltarei pra você.

— Mulder, me fala o que eu preciso saber! Por favor! O que está acontecendo? Onde você está? Você não está aqui, agora, então?

— Não... estou ainda distante de você... preciso de sua força, Scully, pra poder viver... pra poder resistir... me ajuda!

A voz dele soa chorosa e angustiada.

Dana está comovida.

— Oh, Mulder! Eu quero ajudá-lo! Mas, meu Deus, como posso fazê-lo? Como?

— Só me espere... me dê forças, Scully! Eu quero... voltar... me ajuda!

Dana sente vir brotando do âmago do seu ser, dilacerando-lhe as forças, um soluço dolorido e profundo.

Ela percebe pelo tremor do corpo de Mulder, que nele também os soluços de dor e angústia estão saindo de seu peito alquebrado.

Estão abraçados e choram. Sentidos. Infelizes. Carentes.

Dana sente que seu peito parece que vai estourar, tamanho é o desespero em que se encontra.

Uma explosão de dor em que seu corpo se despedaçaria em milhões de fragmentos sanguinolentos, que voariam pelo espaço.

Dá um grito.

Levanta, rapidamente, a cabeça de sobre os braços, angustiada.

Sabe, tem certeza, então, de que tudo fôra um sonho ao adormecer por alguns momentos.

Mas as palavras que ele lhe falara eram como um pedido de socorro.

Como poderia ajuda-lo? Como?

— Oh, Mulder! - levanta-se, rosto voltado para o alto, as mãos segurando a cabeça - Você está precisando de ajuda, Mulder! - soluça - E eu não posso fazer nada! Não posso!

Pára, por instantes. Concentra os pensamentos.

— Ele disse que voltará! - balbucia - Ele vai voltar! E eu tenho que crer nisso! Nossos pensamentos estão unidos! Nossos corações tentam comunicar-se! Eu preciso crer nisso! Eu preciso... eu preciso...!

Súbito, um tremor mais forte, novamente a faz voltar à realidade e voltar-se para seu filho.

"Meu filho sente-se abalado com as minhas emoções. E eu não posso deixá-lo sentir isso. Não devo."

Dirige-se ao quarto, agora.

Abre o guarda-roupa. Dele retira uma pilha de roupinhas de bebê.

Ajoelha-se ao lado da cama. Dispõe as peças espalhadas sobre a colcha, alisando uma a uma as delicadas roupinhas.

Deseja curtir o seu sonho. Do seu ideal há tanto almejado.

Sobre toda a cama está o enxoval do bebê que deverá chegar dentro de mais alguns meses.

Entre os dois extremos de seus sentimentos há um coração repleto de esperança.

Dois extremos indiscutivelmente contrastantes.

A felicidade de ter o sonho realizado: estar grávida e ser mãe.

A angustiante dor de saber o seu amado distante, perdido, morto... quem sabe?

Mas o desejo de tê-los ali, a seu lado, é o seu sonho mais forte. Mais dominante. Invencível.

"Aquilo que desejamos com ardor,

facilmente imaginamos em nossas mãos."

Edward Young