Nota da autora: Peço desculpas desde já por este capítulo ridiculamente longo. O tamanho? Trinta e seis páginas no Word. Não pude dividir em dois capítulos, eu realmente acho que é mais efetivo que um. E não se apavorem. Este NÃO É o último capítulo. O título deste capítulo é "Dor", e o próximo se chama "Consolo". E, se quiser saber, o relacionamento deles será consumado no próximo.
Obrigada desde já por ler e comentar, e espero não desapontar,
The Maven :)
In a Different Light
Capítulo 28: Dor
Autora: The Maven
Tradutora: Analoguec/Shampoo-chan
Beta: Dóks
Rin relutantemente viu da sacada do segundo andar o lorde sair para a patrulha das fronteiras mais uma vez. Ela solenemente ficou enrolada nas vestes, observando de cima o jardim e os estábulos na parte de trás da propriedade enquanto Ah-Un saltava para o escuro céu cinza-azulado, com Sesshoumaru e Jaken montados nele. Rin suspirou e afastou os cabelos levantados pelo vento do rosto, a flor de magnólia de Bokuseno ainda presa nas tranças dela. Surpreendentemente ainda, ela não murchou nos dois dias que ela a teve no cabelo. Ainda estava tão branca, tão brilhante e tão vibrante como nunca, mas mesmo assim aquilo falhou em levantar a moral do espírito dela. Era realmente uma bobagem. Ela sabia que não demoraria – quatro dias no máximo – mas considerando todo o tempo que passaram juntos nos últimos três meses, em geral, e nas últimas duas semanas, em específico, ela não conseguiu deixar de se sentir um pouco solitária.
Sim, havia os servos no castelo, que eram bastante amigáveis e devidamente respeitosos para com ela. E, é claro, havia Mestre Li e Mestra Sumida, mas… não era a mesma coisa.
Inclinou-se para frente contra o parapeito, cruzando os braços em cima da balaustrada. Há curtos três meses eles saíram do castelo juntos, carregados de suprimentos, com o itinerário estabelecido, os caminhos certos, fazendo a segurança das Terras do Oeste como objetivo primário. E agora eles partiam como das outras tantas vezes, deixando uma do grupo para trás. Ela sabia que era melhor em termos de tempo e para a própria segurança, mas... Ela ficara tão feliz quando Sesshoumaru a chamou daquela vez. Havia anos que ela viajara com ele, e embora gostasse da pausa e do tempo para resolver os próprios assuntos... Havia algo em estar com eles que não se comparava a mais nada.
Ah-Un era dócil e amigável, uma excelente montaria e protetor. Jaken era rabugento e irritadinho, achava-se importante e envolvente... Mas com quem era teria conversando em anos anteriores senão com ele? Ele era ótimo para fazer rir de vez em quando – tropeçando ou caindo, esbarrando nas coisas, e ela nunca se cansava em vê-lo se jogando aos pés de Sesshoumaru. O pequeno sapo era frequentemente a coisa mais engraçada quando estava nos momentos mais sérios. E havia o lorde...
Suspirou de novo, mantendo os olhos nos céus, observando o dragão de duas cabeças e os dois passageiros dele ficarem cada vez menores e finalmente desaparecerem num aterro de nuvens cinzentas.
Neve, Rin pensou quando um princípio de vento de inverno passou pelos cabelos dela. O ar estava fresco e frio, o sol nebuloso e sem brilho enquanto no alto do horizonte, o brilho obscurecido por nuvens espessas e cinzentas enquanto um vento cortante soprava as folhas secas da paisagem... Poderia existir tempo mais perfeito para sentar em frente ao fogo, enrolada no braço do amado, tomando uma xícara de chá, dividindo um instante de silêncio enquanto uma tempestade de inverno ameaçava lá fora?
Suspirou mais uma vez. Deuses, ela estava ficando patética. Ele mal saiu há dez minutos e ela já estava suspirando por ele. Mas como evitar? No reencontro depois separação forçada, ela passou dois dias praticamente grudada nele. Eles viajaram mesmo à noite, e ela só dormiu cerca de quatro horas por dia. No primeiro dia, eles pararam depois de três horas viajando depois de saírem da floresta de Bokuseno. Ela não deixou Sesshoumaru se movimentando muito, então mandou Jaken ir caçar algo para eles enquanto ela cuidava do ferimento e do cabelo dele. A conversa era limitada, mas a companhia era boa. Ela estava com o companheiro dela, afinal de contas, o que poderia ser errado nisso?
Sesshoumaru e ela sozinhos numa clareira no meio de um bosque isolado – o amanhecer prestes a surgir, uma fogueira crepitante para mantê-los aquecidos, Jaken e Ah-Un perto o suficiente para protegê-los, mas longe o bastante para não perturbá-los... O lorde estava, é claro, muito ferido para tentar qualquer coisa extenuante nessa hora, mas era ótimo apenas dormir ao lado dele novamente.
No segundo dia, Sesshoumaru estava decididamente mais ativo. Eles dormiram juntos, sentaram juntos, comeram juntos... tomaram banho juntos. E quando eles começaram a viajar de novo, ele a deixou sentar na frente dele em Ah-Un.
Suavemente ela riu para si, as bochechas ficando levemente vermelhas. Como o corpo dele bloqueava completamente da visão de Jaken, ele aproveitou a oportunidade em se familiarizar novamente com a forma dela com roupas.
O sorriso dela se alargou. Os toques deles a distraíam tanto em alguns momentos que se ele não a estivesse segurando, ela teria caído da sela... e isso não seria nada bom.
Quem diria que o lorde seria tão… travesso?
Não que ela estivesse reclamando.
"Segure bem as rédeas e mantenha os olhos focados à sua frente."
Respirou fundo e soltou o ar, o ar frio da manhã queimando nos pulmões e dando mais cor ao rosto dela. Ela conseguia sentir ainda o calor do hálito dele soprando na orelha e pelo lado esquerdo do rosto dela.
"E por que eu deveria fazer isso?", ela perguntou.
Ele deslizou as rédeas na mão dela e a segurou pela cintura, puxando o traseiro dela contra a pélvis dele.
"Porque é o que eu desejo."
Quando ela sentiu aquela familiar dureza roçando contra ela, sabia que seria uma bela viagem.
"Quatro dias", sussurrou ele. "Assim que a deixarmos no castelo, serão quatro dias até nos vermos de novo." Ele correu a mão pela coxa dela. "Eu meramente desejo ter algo seu para recordar."
Depois do choque e embaraço inicial daquela proposta, ela se ajustou contra ele e entregou-se completamente. Manter os olhos à frente a ajudou a se equilibrar, segurar as rédeas ocupava as mãos. Com o vento cortante para abafar os gemidos as palavras de paixão e devoção sussurradas por Sesshoumaru, Jaken não tinha ideia do que acontecia, literalmente, na frente dele.
Foi realmente muito excitante, ela sorriu para si. Mas… tão logo havia começado acabou. Eles atravessaram a barreira de proteção do castelo, Ah-Un aterrissou nos fundos da propriedade, e o lorde ordenou que ela entrasse… o que a trouxe ao lugar onde estava agora – com frio, sozinha e frustrada.
-Irmãzinha.
Rin se virou para ver Mestra Sumida em pé à porta, descansando as costas contra o segundo patamar. Em lugar do usual uniforme de treinamento preto, ela estava da cabeça aos pés de branco num quimono com obi sem enfeites. O cabelo preto e liso estava amarrado num rabo de cavalo com um simples laço branco. O rosto normalmente cor de bronze estava meio pálido e os olhos negros pareciam vazios e... cansados.
-Mestra Sumida. – ela uniu as mãos como numa pose de oração e curvou-se – Está... tudo bem?
-Tudo está como deveria ser. – ela inclinou a cabeça ligeiramente para frente e deu um pequeno sorriso – Eu não queria me intrometer, mas Rei disse que você estava de volta, e Mestre Li está chamando você.
-Mestre Li?
A mulher mais velha assentiu, as feições solenes, os olhos não entregando nada.
-Tudo bem. – Rin assentiu – Vamos vê-lo, então. – lançou um olhar final aos céus, depois adentrou com Mestra Sumida no segundo andar.
Havia três andares no castelo. A entrada principal era o primeiro. A larga porta de madeira abria um espaçoso vestíbulo, completado com bancos estofados. Direto pelo vestíbulo havia o Grande Salão e o acesso a tudo mais do primeiro andar; de cada lado do vestíbulo havia uma escada. A escada da direita levava ao segundo andar; a da esquerda ao terceiro. O primeiro andar consistia do Grande Salão, da Sala de Jantar, a cozinha, o covil, sala de armas, casa de banho e os aposentos dos empregados. O segundo era dividido em quatro alas: Norte, Sul, Leste e Oeste. Rin e Sesshoumaru dividiam a Ala Norte, que abrigava os quartos de cada um, o escritório de Sesshoumaru e a sala de espera de Rin. A Ala Sul era reservada para a visita de nobres e das famílias destes. A Ala Oeste continha os aposentos de Mestra Sumida, o dojo e a sala de armas particular de Sesshoumaru. A Ala Oeste guardava a sacada do segundo andar. Se olhassem diretamente para baixo do patamar, podia-se ver o Grande Salão com o trono de respaldo alto, a tapeçaria feita à mão, uma grande lareira, sofás de veludo e de linho, e vários pedestais e mesas que guardavam vasos de porcelana chinesa e algumas jarras que Mestra Sumida e ela fizeram.
O terceiro andar inteiro era dedicado a ser uma biblioteca. Abrigava volumes de livros e pergaminhos de séculos atrás, contendo conhecimento em matemática, história (tanto de humanos quanto de demônios), literatura, astrologia, filosofia e medicina; haiku e poesia épica, aventuras e romances; feitiços variados, maldições e encantamentos; diários, relatos e cartas dos ancestrais de Sesshoumaru; mapas de terras, planos de batalha, ações e tratados militares. Rin fazia parte das lições escolares na biblioteca, e Sesshoumaru clamava ter lido todos os itens arquivados no terceiro andar.
Rin e Mestra Sumida foram pelo caminho passando pela Ala Sul, pinturas dos antigos lordes e senhoras do Oeste adornando as paredes enquanto se dirigiam à escada que levava ao primeiro andar.
-Então… - Rin começou – Rei contou que eu estava aqui.
Mestra Sumida assentiu.
-Ela disse que você estava um pouco apressada.
Rin assentiu timidamente.
-Receio ter sido um pouco rude com ela. Estava com um pouco de pressa para chegar à sacada e vê-lo partir, então minha saudação foi um pouco abrupta. Eu meio que... joguei minhas roupas sujas para ela e corri até a Ala Oeste.
-Entendo. Então as suas viagens foram boas?
-Muito boas. – Rin sorriu – Nós… Digo, meu lorde e eu chegamos a um entendimento.
A mulher mais velha torceu uma sobrancelha à aluna.
-Um entendimento? A que tipo de entendimento pessoas como vocês dois podem chegar?
-A um bastante amigável. – Rin sorriu – Ele decidiu me tomar como esposa dele, e eu decidi aceitar.
Mestra Sumida deu um sorriso gentil.
-Que… notícias maravilhosas, irmãzinha. Tenho certeza de que vocês serão muito... felizes juntos e serão abençoados com muitos filhos fortes e filhas eloquentes e lindas.
Rin percebeu um ligeiro… tremor na voz normalmente suave da mestra.
-Alguma coisa está errada. O que é?
A mestra assentiu.
-Há algo que precisa saber, embora eu pense que Mestre Li preferiria informá-la pessoalmente.
Rin franziu a testa.
-O que é? Alguma coisa errada?
Seguiram abaixo pela escada artisticamente esculpida em madeira.
-Nada está "errado", irmãzinha. Está simplesmente na hora de Mestre Li se mudar.
-Mudar? – ela repetiu – Ele está indo embora? Ele não quer mais me ensinar?
A mestra esboçou um pequeno sorriso.
-Eu tenho certeza se Mestre Li desse um jeito, ele jamais deixaria o seu lado, e ele passaria alegremente o resto da eternidade instruindo você nos caminhos dele.
-Então por que ele está indo embora? – ela perguntou, impossivelmente confusa.
O sorriso da outra desapareceu, os olhos escuros ficaram nublados.
-Humanos não têm a eternidade, irmãzinha. Mestre Li está morrendo.
-Mo-Morrendo? – ela gaguejou – Mas ele é tão... cheio de vida. Ele está sempre se mexendo, cuidando do jardim, caminhando pela floresta, ensinando-me novas técnicas. Ele...
-Ele tem 83 anos, Rin.
O coração dela parou.
-Essa idade? – Rin perguntou – Eu pensei que ele tinha só 60.
A mestra assentiu.
-Ele está numa excelente forma para um homem da idade dele. Mas, apesar da força espiritual, o corpo dele está velho e cansado, e está finalmente começando a desistir. Ele está enfraquecendo cada vez mais nos últimos meses.
-Desde que viajamos? – ela perguntou.
-Não. – a mestra replicou – Há mais tempo que isso.
-Ele está doente? – ela perguntou – Ele está morrendo por causa de alguma doença?
-Não. – Mestra Sumida falou suavemente – O corpo dele é... simplesmente incapaz de suportar mais tempo. Até ontem, ele era ainda capaz de se mexer com um pouco de ajuda. Esta manhã ele… eu tive que ajudá-lo a se sentar na cama esta manhã. Ele me disse que estava muito fraco para levantar-se, e ele... pediu desculpas por não poder me acompanhar na nossa costumeira caminhada matinal pelas árvores.
Rin assentiu, o coração ficando cada vez mais pesado ao entender. Ela depois ergueu uma sobrancelha à mestra yogi quando ela abriu a porta da frente.
-"Costumeira" caminhada matinal pelas árvores? – ela questionou – Vocês costumeiramente passam as manhãs me treinando.
-É verdade. – ela concordou – Mas quando você partiu em viagem com Lorde Sesshoumaru deixou nossas manhãs livres. Nós dois sendo os únicos estrangeiros no castelo, pensamos que poderíamos passar o tempo juntos na ausência do nosso lorde.
-Vocês dois estão aqui há anos. – Rin a lembrou – Não há razão para não se sentirem seguros no castelo mesmo quando nosso lorde está ausente.
-Não é uma questão de segurança; é uma questão de conforto, irmãzinha. Eu sei que sou muito bem-vinda nessas muralhas, tendo sido amiga próxima de Lady Sora, mas eu nunca me sentirei tão confortável aqui quanto na minha terra ou mesmo quando eu ando pela floresta. E Mestre Li sente o mesmo… É simplesmente algo a ver com estar entre os da sua própria espécie.
-E o que é da sua própria espécie? – Rin perguntou.
-Eu não quero ofender, irmãzinha.
-Bem, eu devo esperar que não. Mestre Li é tão humano quanto eu.
-Estou ciente disso, irmãzinha. Ele é humano, e você é humana. Mas enquanto ele se recusa a pôr os pés no castelo e se protege com barreiras num dojo cercado de sutras, você se sente bastante confortável em andar pelo complexo sendo você mesma.
-E por que eu não deveria ser? – Rin perguntou – Passei maior parte da minha vida aqui. Eu conheço todos os servos pelo nome. Eu gosto deles e os respeito, e eles me tratam da mesma maneira.
-Porque eles são da sua espécie. – a mestra concluiu – Muito embora você seja humana e eles youkais, você se dá bem com eles, pacificamente.
-É a minha casa.
-Mas não é minha verdadeira casa, nem a de Mestre Li. A questão não é eu estar num palácio cheio de demônios ou num vilarejo cheio de humanos. Enquanto eu estiver no Japão, eu me sentirei fora do lugar. Minha alma sabe que este não é o lugar ao qual pertenço... Mas ter outro aqui com quem dividir meus sentimentos é um consolo.
Rin franziu a testa.
-Você vai embora também, não vai? Depois que Mestre Li se for, você vai pedir para meu lorde se pode voltar para casa. Voltar para as montanhas no Tibet.
-Eu pensei nisso. – a demônio assentiu – Mas parece injusto abandonar você quando nós duas parecemos gostar tanto uma da outra.
-Gostar? – Rin repetiu – Você disse "gostar" e não "apegadas".
-Algo errado com isso?
-Não. – Rin balançou a cabeça para os lados – Nem um pouco. Só é algo que não estou acostumada a ouvir.
Percorreram o caminho de pedras no gramado da parte dianteira; era ladeado por sebes altas em cada lado levando ao portão da frente.
A mestra assentiu.
-Pode-se viver assim num castelo cheio de demônio. Não somos exatamente as criaturas mais próximas quando se trata dos nossos sentimentos. – ela voltou a cabeça e recebeu o olhar da jovem aluna – Mas fica melhor com a idade.
Rin riu para si mesma, de novo voltando o olhar para os céus.
-Está parecendo que vai nevar.
-Vai nevar.
Rin deu um suspiro.
-A primeira queda de neve da estação, e ele está longe patrulhando as fronteiras.
Mestra Sumida deu um sorriso aparentemente triste.
-Pelo menos você sabe que ele vai voltar.
O que é isso? Rin se perguntou. Será que Mestra Sumida sente falta de alguém, também?
Tirou aquele pensamento da cabeça. Não. Ela me contou há dois anos quando conversávamos sobre homens e garotos que havia apenas um homem por quem ela sentiu outra coisa além de desejo... E ela negou para sempre a companhia dele. O que significava que ele tinha morrido, certo?
Saíram pelo portão principal e se dirigiram ao dojo de Mestre Li, a cem metros à direita. Era uma construção de um único andar com telhado pontiagudo, construído especialmente para Mestre Li treinar Rin. Havia uma horta e um jardim ao lado do imóvel e um jardim de meditação aos fundos. Ele se recusou absolutamente a pôr os pés nas terras do castelo e protegia o espaço pessoal com uma barreira sagrada. Mestra Sumida mencionara mais de uma vez que Mestre Li abominava todos os demônios igualmente, independente de sexo, posição social ou patente. Ele havia concordado em ir até lá para reparar um débito vital para com Mestra Sumida. Rin nunca perguntou as especificidades de como Mestra Sumida salvou a vida de Mestre Li, e Mestra Sumida nunca se dispôs a dar a informação.
Rin só pôde presumir que isso tornava a situação tensa, considerando as posições sociais de ambos, poderes e divergências filosóficas sobre as relações de humanos/demônios. Mestre Li sempre presumiu que Rin era apenas uma serva humana favorecida no castelo, e sendo assim estava perto o bastante do que ela concebia como relacionamento com Sesshoumaru como sendo, ela nunca se importou de adicionar ou desvirtuar a suposição dele. Ele ensinou autodefesa sem armas porque era para o que ele fora contratado, mas começou a treiná-la com espada na esperança de ajudá-la numa eventual fuga. Ele estava sempre preocupado com a segurança dela e tentava de vez em quando passar a ela um sutra sagrado.
"Você nunca sabe o que esses machos estão pensando", dissera ele para ela. "Você ainda é inocente, mas assim que um desses diabos puser os olhos em você, estará condenada. Ponha um desses na sua porta, e pelo menos estará protegida enquanto dorme."
Riu dos avisos do Mestre, não querendo desrespeitar, mas porque era similar ao que Sesshoumaru havia dito a ela. Principalmente sobre os sutras… e ambos pensavam que humanos e demônios eram muito diferentes.
Estava tão absorta nos próprios pensamentos que quase falhou em notar que Mestra Sumida passou sem ser afetada pela barreira de Mestre Li.
-Mestra? – ela ergueu uma sobrancelha questionadora à acompanhante youkai.
-O corpo de Mestre Li não tem mais habilidade de manter a barreira mística. Acho já um milagre que ele tenha conseguido sobreviver nessa atual forma. – ela deslizou a porta para o lado para abri-la e adentrar na antessala. Diretamente acima estava a sala de exercícios separada da entrada principal por um corredor iluminado por tochas. No fundo do corredor à esquerda eram os aposentos de Mestre Li.
Devido ao tempo com nuvens pesadas do lado de fora, o interior do dojo estava mal iluminado, o fogo da tocha refletido contra as paredes de papel-arroz dando um assustador brilho amarelo-alaranjado. Elas andaram pelo corredor até a porta aberta no final.
Mestra Sumida pousou uma das mãos no ombro de Rin.
-Espere aqui, irmãzinha.
Rin assentiu enquanto a mulher mais velha desaparecia para dentro do quarto de Mestre Li. Daquele lugar, ela não pôde ver Mestre Li ou a lamparina que obviamente lançava uma luz branca nas tábuas do assoalho de carvalho, mantendo o tom laranja que infestava o resto do dojo até o lado de fora da sala.
-Ah, Sumida, você voltou.
Rin sorriu para si mesma. Soava como o Mestre Li de sempre: tão calmo, tão experiente, tão sábio, caprichoso e iluminado... E era estranho ouvir alguém chamar Mestra Sumida pelo nome. Até Sesshoumaru a chamava de "Mestra".
-Onde mais você esperava que eu estivesse? – ela perguntou com um óbvio sorriso na voz – Eu prometi que sempre estaria aqui por você, e aqui estou eu.
Rin não pôde ver os rostos dele, mas sabia como se sentiria se alguém expressasse tal sentimento a ela. E os instintos pareciam estar corretos quando nada além de silêncio veio da sala em frente... O que implorava a questão: que tipo de relacionamento Mestra Sumida tinha com Mestre Li?
Sim, ambos eram mestres nas respectivas artes, e Mestre Li estava de certa forma pagando a Mestra Sumida por um favor que quase custou a vida dele em alguma época do passado... Mas o que significava tudo aquilo? Principalmente com a declaração de Mestra Sumida e Mestre Li parecendo aceitar o que Rin chamaria de palavras "sinceras".
-Nossa valiosa aluna finalmente retornou, Shen.
Shen? Rin se perguntou. Era aquele o primeiro nome de Mestre Li?
-Minha Grila de Jade? – Mestre Li falou alegremente – Onde está ela?
-Irmãzinha. – Mestra Sumida falou – Entre.
Rin respirou fundo e engoliu em seco, insegura do que exatamente veria quando entrasse no quarto.
-Ah, entre. – ela ouviu Mestre Li chamar.
Adentrou numa sala de tamanho médio, retangular, e foi em direção à voz. Como suspeitava, havia uma enorme lanterna pendurada no teto, criando um círculo iluminado por velas no chão. O quarto era duas vezes maior e largo, e não havia móveis, com exceção de um futon e uma pilha de almofadas que serviam de assento. Ali, no fundo do quarto, Mestre Li estava sentado nos brancos lençóis do futon, as costas apoiadas contra a parede. Mestra Sumida estava ao lado dele, sentada sobre as pernas dobradas.
Mestre Li parecia o mesmo, da mesma forma como o deixara há três meses. Ele tinha os mesmos olhos negros; a mesma área sem cabelo no topo da cabeça, e a mesma trança longa e cinzenta às costas. A pele dele não estava como ela chamaria de enrugada; mas parecia flácida nas bochechas e abaixo do queixo. Havia algumas linhas ao redor dos olhos, mas ela sempre as atribuiu à excessiva risada e o contagiante bom humor... Sem dúvida quando elaficasse mais velha, teria as mesmas linhas similares com relação aos olhos. Vê-lo sentado ali e saber que tipo de homem ele era, não via as finas linhas mais que um produto do envelhecimento, prova de que viveu bem uma vida e a aproveitou bastante. E com Sesshoumaru ao lado dela, como a vida dela seria diferente?
Mestre Li simplesmente não parecia ter 83.
-Sente-se ao meu lado. – Mestre Li pediu.
Pegando uma almofada branca da pilha perto da parede, ela dobrou as pernas e sentou-se em cima delas enquanto tirava as duas espadas da faixa e as colocava ao lado.
-Uma espada nova? – Mestre Li perguntou.
Rin assentiu.
-Meu lorde me deu.
-Deu? – o mestre repetiu – Como um presente?
Rin assentiu novamente.
-Sim. Ele gosta de me dar coisas.
-Criança, só por um motivo um youkai macho daria a uma humana alguma coisa. Ele está tentando comprar você: ou a sua cooperação ou o seu silêncio. Ou ele quer levar você para a cama, e espera que presentes possam agir a favor dele, ou ele já a levou para a cama, e espera que os presentes possam ajudar a manter seu silêncio sobre o assunto.
Rin franziu a testa, indignação e constrangimento colorindo o rosto.
-É do lorde deste castelo de quem estamos falando, certo? Simplesmente não daria certo se fosse pego gostando de uma das servas dele… Ele está tentando transformar você numa meretriz, garota? Para desculpar o próprio comportamento? Vamos, pode me contar. Eu sei que você é uma boa garota, que sempre faz a coisa certa.
-Mestre Li. – Rin começou com um tom educadamente forçado.
-Shen. – Mestra Sumida disse gentilmente – Lorde Sesshoumaru quer tomar Rin como esposa, e ela aceitou.
-Absurdo. – ele meio-riu, meio-tossiu – Tais relacionamentos são abomináveis... Independente dos indivíduos envolvidos. Humanos e demônios não devem ficar juntos nessa capacidade. Vai contra tudo nos céus e na terra. Você é humana. Já esqueceu isso?
-Não. – Rin replicou – Não esqueci.
-Então se não esqueceu, você sabe o que significa ser uma humana: o fardo, a benção, a responsabilidade. E você não pode simplesmente… furtar-se dessa responsabilidade porque você deseja as coisas de outro modo. Demônios foram enviados somente para nos atormentar, para nos distrair e nos manter afastados do verdadeiro caminho do Tao.
Mestra Sumida zombou.
-Não escute o que ele diz, irmãzinha. Ele só é um velho muito absorto nos velhos caminhos para perceber que o modo dele de olhar as coisas não é necessariamente a certa.
-Essa maneira de pensar me serviu bem a minha vida inteira, e eu não vou virar as costas para isso nos meus últimos dias. Minha pequena Grila, você faria bem em lembrar as palavras deste mestre: a única coisa que se ganha desse tipo de relacionamento com um demônio é perda.
-Perda? – Rin repetiu.
-Perda de consciência, perda de decência, perda de equilíbrio. É tão fácil se perder, esquecer de si mesmo quando está na presença deles... Eles a levam para um caminho diferente do seu, e você não pode evitar senão seguir.
-Absurdo. – Mestra Sumida disse – Só os fracos realmente renunciariam à vontade deles para seguir outros cujas crenças são estritamente opostas às deles. E, Shen, eu não sinto espírito fraco algum neste quarto.
-A criança é jovem, facilmente convencível.
-Rin é muito inteligente e conhece o próprio coração muito bem. Ela não tem vergonha dos sentimentos e não procura escondê-los atrás da fachada da humanidade.
-Ela é livre para tal. Mas ela é a serva humana do lorde demônio, e embora eu estremeça só de pensar, ela provavelmente perdeu o caminho dela há muito tempo.
Mestra Sumida zombou.
-Mas apesar disso, ela ainda é uma boa garota e tem um talento muito natural. Eu, por outro lado, sou um monge taoista. Eu não vivo por mim. É meu trabalho, é meu propósito servir a humanidade e orientá-los no caminho apropriado. – os olhos negros dele pareciam focados em Mestra Sumida – Eu não posso guiar os outros se eu me permitir ficar perdido.
-Quem? – a mulher demônio perguntou – Quem está aqui para guiar você? Rin é apenas sua aluna, e você já determinou que ela está "perdida" e aparentemente fora desse caminho.
O que está acontecendo aqui? Rin se perguntava.
-Eu não a perdi ainda. – o velho mestre insistiu – Ele não marcou você ainda, ou já?
-Não. – Rin replicou – Ainda não.
-Mas você o quer, não é? Você quer que o mundo saiba que não há mais ninguém com quem queira passar o resto da sua vida, correto?
Rin simplesmente assentiu.
-Você põe palavras na boca da menina. – Mestre Li riu levemente.
-Se não fossem verdadeiras, ela poderia refutá-las.
Mas o que significou tudo isso? Principalmente com a declaração da Mestra Sumida e a aparente aceitação de Mestre Li do que Rin chamaria de palavras "sinceras".
Se havia uma coisa que Rin aprendera em termos de comunicação com Sesshoumaru, era que o silêncio equivalia à aquiescência. Se não falar nada e dizer que algo estava errado, então tudo deveria estar bem.
-Eu nunca soube que essa criança tenha discordado de nenhuma palavra que alguém tenha dito. Como nós sabemos realmente que ela deseja de verdade este "lorde" demônio? Talvez ele tenha se forçado para cima dela e ela simplesmente não teve o coração para dizer "não" a ele. Ela é muito gentil, como sabe, e demônios não são nada mais que encarnações físicas de perda, dor e desespero... Ela sente pena da pobre criatura, e ela o deixa fazer o que ele quer. Mesmo sabendo que é errado.
Mestra Sumida ficou em pé.
-Com licença. – ela girou nos calcanhares e deixou o quarto.
-Isso não é verdade. – Rin falou – O que o senhor disse, isso não é verdade. Meu lorde nunca se forçaria para cima de ninguém, muito menos de mim. Se ele tomou alguma coisa para si foi porque foi livremente oferecido. E por que o senhor está dizendo essas coisas tão ruins a Mestra Sumida? Eu nunca o escutei ser tão deliberadamente... rude com ninguém nos dois anos que eu o conheço. Mestra Sumida é minha amiga e professora. Meu lorde é… mais do que posso traduzir em palavras. E todos os demônios neste castelo fizeram de tudo dentro das habilidades deles para eu me sentir em casa.
-Ruim? – o mestre repetiu – Você acha que estou sendo "ruim" com Sumida?
Rin assentiu, as mãos ainda no colo, mas um franzir contorcendo o rosto.
-"A Natureza não é gentil", minha pequena Grila. "Ela trata todas as coisas imparcialmente. Sábio não é gentil, e trata todas as pessoas imparcialmente."
-O quê?
-Não posso favorecer uma pessoa sobre a outra. Eu apenas comentei as coisas de como eu as vejo. E para os seus acompanhantes demônios, minha Grila de Jade, eu temo que eles estão enganando você. – Mestre Li concluiu – Eles não se importam com você; simplesmente obedecem ao seu lorde e mestre.
-Então eu deveria estar agradecida por ele se importar tanto com meu conforto e bem-estar… Nem todos os demônios são maus, como sabe.
-Você sabe o que é um demônio, minha Grila de Jade?
-Criaturas místicas com grande poder que pode afetar o mundo para o bem ou para o mal.
O mestre deu uma risada.
-E quem ensinou essa definição a você?
-Ninguém me ensinou. – disse ela – É algo que eu aprendi sozinha. – Rin suspirou – Sabe, Mestre Li, eu não sou uma serva humana no castelo. Não há servos humanos no castelo, ponto final.
-Oh?
-Meu lorde me salvou de um violento ataque de lobos quando eu tinha seis anos. Ele também me salvou de uma vida de solidão e crueldade nas mãos das pessoas do meu vilarejo, um vilarejo de humanos, devo acrescentar.
-Sim, pode haver grande maldade no coração do homem.
-E dos demônios, também. – ela adicionou – Não nego isso. Há bons e maus demônios tanto quanto há bons e maus seres humanos.
-Demônios são maus por definição. – o mestre apontou, a luz branca da lanterna refletindo na parte sem cabelo na frente da cabeça – Demônios são definidos como "espíritos malignos".
-Demônio pode ser usado para se referir também a uma pessoa cruel, ruim e desumana.
-Eu posso ver o quão isso é verdadeiro. Ser um humano por definição é ter compaixão, ser gentil e misericordioso, coisas que faltam em todos os demônios.
-Mestra Sumida não mostrou compaixão quando salvou sua vida? – ela perguntou – Digo, não sei os detalhes do ocorrido...
O mestre foi lento para responder.
-Ela salvou-me de uma avalanche. – ele disse finalmente – Eu era um jovem de 25 anos viajando com meus irmãos do templo numa peregrinação pelas montanhas do Tibet. Uma súbita tempestade de neve surgiu, houve uma avalanche e... eu sobrevivi, enquanto que os outros não. – ele deu uma risada fraca, triste – Eu estava fraco, então... Destreinado e despreparado. Deitado sob um monte de neve e pedras, senti a morte chegando até mim, e eu chorei. Eu choraminguei como um recém-nascido e rezei para que eu pudesse ter outra chance nesta vida. Eu não tinha sido grande devoto nos meus estudos, nas meditações e exercícios, mas... Eu prometi que iria melhorar se me fosse dada outra chance.
-E você conseguiu. – disse Rin – Você conseguiu outra chance.
-A avalanche nos trouxe para perto do vilarejo de Sumida. Aparentemente, ela estava levando os alunos dela a uma caminhada pela natureza.
-Durante uma tempestade de neve? – ela perguntou, um pouco admirada.
-Eles eram alunos de nível avançado. Ela os ensinava a focar as mentes para que os corpos pudessem funcionar em qualquer ambiente.
-Focar em si mesmo em oposição ao ambiente.
-Ou abraçar o ambiente como parte de si. Como é dito, "quem distingue si mesmo do mundo pode ser dado o mundo, mas quem se considera como mundo pode aceitar o mundo". Eu era jovem e não havia aprendido tais coisas. O frio e a dor penetravam em meus ossos, e não havia existência para mim com exceção dessa alternativa.
-Você deve estar agradecido por ter sido resgatado, então.
-Eu não estava ciente dos meus salvadores. Fiquei inconsciente na hora, e fiquei desse jeito por vários dias depois. Quando eu acordei, eu estava sozinho e com ataduras praticamente da cabeça aos pés. Eu pude perceber que estava dentro de uma sala e que estava quente, claro e aparentemente seguro. Mas mesmo na minha jovem idade, despreparado como eu era, pude ainda detectar uma vasta quantidade de youki na área. Eu tive uma estranha… pontada de cima a baixo na coluna, e eu sabia que algo não estava muito certo.
-Eu tive isso! – Rin disse excessivamente animada – Eu tive essa pontada. Toda vez que há uma grande fonte de energia mística, seja youki ou outra coisa, eu a sinto. Mas precisa ser uma fonte muito forte, ou eu deixo passar completamente.
-Você tem um talento natural então, porque eu não comecei a treinar você em tais práticas místicas. Talvez você seja a melhor escolha para isto, afinal de contas.
-Melhor escolha para o quê? – Rin perguntou.
O velho mestre sorriu para ela, causando rugas na testa normalmente lida.
-Quem aceita o fluxo da natureza torna-se apreciado. Sendo apreciado torna-se imparcial. Sendo imparcial torna-se magnânimo. Sendo magnânimo torna-se natural. Sendo natural torna-se um só com o Caminho. Sendo um só com o Caminho torna-se imortal. Embora o corpo pereça, o Caminho não vai.
Rin assentiu.
-Mestra Sumida me contou que o senhor está morrendo.
-É, porém, um descanso. Depois de uma longa estada, é natural desejar se aposentar. Mas eu discordo. Eu não posso descansar em paz sem saber que meus ensinamentos estão sendo usados para o bem. Para o meu conhecimento, ninguém na minha época chegou a esse nível de equilíbrio, harmonia e paz, este estado de unidade com o mundo à volta.
-É por isso que o senhor pode mover montanhas? – Rin perguntou.
-Eu sou uma montanha. – disse ele simplesmente – Se eu desejar mover, eu simplesmente o faço.
-Então o senhor é a montanha, e a montanha é o senhor.
O mestre assentiu.
-Eu quis que você ficasse ao meu lado até o final, minha Grila de Jade. Não seria bom para meus ensinamentos ficarem perdidos para sempre no mundo depois da minha ida. Desejo que continue no meu lugar.
-O quê? Eu… eu não posso fazer isso. Eu não sou uma monja... Ou uma freira. Eu não quero...
-Ser como eu. – o mestre concluiu – Velho e sozinho, sem família para dizer que é sua.
Rin curvou a cabeça.
-Eu não quis ofender, Mestre, mas… eu amo o meu lorde. Não há nada mais que eu queira além de ficar ao lado dele. E o senhor fala de ser imparcial e servir ao homem e... – ela balançou a cabeça, mordendo o lábio inferior – Isso não é o que eu sou.
-Quem realmente conhece seu próprio potencial? – Mestre Li perguntou.
-Eu… eu não consigo fingir saber o futuro. – ela falou meio incerta – Mas eu sei o que eu quero, e eu sei o que eu não quero. Não quero desapontá-lo, Mestre. Eu sei que o senhor fez uma jornada a sua vida inteira para chegar a este ponto, e que gostaria de levar muitos outros a ele. Com o seu... descanso tão próximo, o senhor precisa de mim para ajudá-lo a fazer isso. Mas... eu não posso abandonar meu lorde por nada. Eu não posso negar que o seu poder seria de grande uso para mim, principalmente considerando o caminho pelo qual escolhi andar... Mas eu sei que o senhor consideraria perversão dos seus ensinamentos usar minhas habilidades de tal maneira. E desde que eu sei que seria essa a forma que eu as usaria, então acho que seria melhor que suas habilidades morressem com o senhor.
-Não. – o mestre falou – Eu não posso forçar meus ensinamentos sobre você, e não posso controlar a forma como os usaria na vida, mas... – ele estendeu a mão e a pousou sobre a de Rin, cujas mãos ainda estavam sobre o colo – O que é certo para mim pode não ser certo para você. Embora nós andemos, tenhamos andado em caminhos parecidos, nossas jornadas são decididamente diferentes. A minha está quase no final, e você ainda está no meio da sua. Já fui longe demais para voltar. Você tem muitas opções à sua frente.
"Não estou pedindo para "abandonar" o seu lorde. Eu não estou dizendo que não pode ficar com ele. Essa escolha é sua. Mas, como minha aluna, eu peço que me deixe continuar treinando você até o momento da minha morte."
O mestre apertou gentilmente a mão dela, fazendo com que ela olhasse o semblante tranquilo dele, os olhos escuros brilhando intensamente, transbordando de esperança e confiança.
-Rin?
Ela engoliu em seco.
-O senhor não vai tentar influenciar mais ainda a minha decisão de uma forma ou de outra? Só quer que eu fique aqui e continue treinando com o senhor?
-Foi meu entendimento que você já tomou sua decisão com relação ao lorde demônio.
-Já tomei. – ela assentiu.
-Então que efeito posso eu ter sobre você? – ele perguntou.
-Um negativo. – ela replicou honestamente – Embora eu não possa negar que haja certas similaridades entre Mestra Sumida e o senhor mesmo, e meu lorde e eu, eu me recuso a terminar morrendo velha e sozinha enquanto ele pacientemente fica ao meu lado na esperança de eu lançar a ele uma palavra gentil.
-Você acha que é simples. – disse ele – Acha que já tem a situação completamente imaginada.
-Eu não ousaria fazer essa suposição, Mestre, mas, como o senhor disse, "eu só posso comentar sobre as coisas como eu as vejo".
Ele pousou de novo a mão no futon e assentiu.
-Eu vou ficar. – disse Rin – Seria errado negar a um homem moribundo o último desejo. E se o amor que guardo por meu lorde não é forte o bastante para aguentar algumas palavras escolhidas por um homem que não sabe nada sobre ele, então realmente eu nunca o mereci desde o princípio.
-Então estamos de acordo. – o mestre falou – Você vai ficar aqui comigo no dojo até minha partida. Depois disso você pode fazer o que quiser.
Rin uniu as mãos em oração e curvou a cabeça.
Três dias nunca pareceram tão longos e tão curtos ao mesmo tempo. Nevou naquele dia, e a neve cobriu os chãos do castelo e os telhados numa fina camada branca. Mestra Sumida estendeu um futon para Rin dormir na sala de treinamento e trouxe lençóis e cobertores do castelo para mantê-la aquecida. Além disso, eles mantiveram uma fogueira constantemente acesa na lareira da sala de treinamento para afastar o crescente frio. Mestra Sumida ficou ao lado de Mestre Li o tempo todo, e Rin observava a interação entre os dois com uma crescente fascinação.
Se ela fosse fazer uma comparação adequada entre Sesshoumaru e ela, e Mestre Li e Mestra Sumida, apesar da diferença de idades e espécies, ela diria que Mestre Li se assemelhava mais a Sesshoumaru em atitude e postura, e ela estava mais em sintonia com a forma de pensar de Mestra Sumida. Qual diferença fazia quem eles eram enquanto dividiam algo genuíno e verdadeiro? Tinha importância se Mestre Li era humano e ela não era? Aquilo era realmente um… pecado?
No primeiro dia, Rin achou que talvez tivesse algo mais a ver com os deveres religiosos de Mestre Li e menos com a natureza demoníaca de Mestra Sumida. Monges são podiam casar e procriar, afinal de contas. Mas Mestra Sumida esclareceu o contrário para ela enquanto as duas faziam as posturas de ioga.
-O Tao é a infinita força da natureza, irmãzinha, o caminho do coração ou simplesmente "o Caminho". O Caminho é o equilíbrio, a harmonia e a paz perfeita. Sexo é parte da natureza. Negar isso é negar o Caminho.
-Oh? Então… até monges fazem isso? – Rin perguntou.
A mestra assentiu na Pose da Árvore.
- Taoistas veem a sexualidade como uma fonte primária de poder depois do amor. Mas, é claro, pode-se exagerar quando é algo bom. Indulgência é desencorajada em muitos níveis. O propósito do sexo não é completar o ego com desejos insaciáveis, mas acalmar o ego e a mente sob uma primeira observação, e depois cultivar as energias do corpo.
Rin deu uma risada.
-Em outras palavras, se você não se engaja nesse tipo de comportamento, suas energias vão retroceder, e você ficará sem equilíbrio.
-Frustração sexual é uma coisa ruim em muitos níveis, irmãzinha.
A risada dela aumentou, um forte rubor se formando nas bochechas.
-Você acha que estou brincando.
-Nem um pouco. – disse Rin.
-Atração sexual traz uma enorme quantidade de energia, irmãzinha. Se mantê-la, reprimi-la e guardá-la, irá deixá-la passando mal, deixá-la deprimida, colocá-la em conflito com o resto do mundo. Quando você a libera… no jeito apropriado, devo adicionar, você adquire paz, equilíbrio e harmonia: uma personificação vivente e cheia de fôlego do Tao.
Rin gargalhou de novo.
A Mestra deu um sorriso sábio.
-Olhe só quão mais feliz você está agora.
O rubor dela aprofundou.
-E tal contentamento vem com nenhum custo.
O segundo dia foi decididamente mais cansativo. Sabendo que a rejeição por Mestra Sumida era meramente baseada na ascendência demoníaca, a opinião de Rin por ele decaiu em muitos níveis. Ela sempre respeitou os pontos de vista, a paciência e as habilidades deles. Mas ele estava tão enganado a respeito daquilo. Como ele não conseguia ver isso? Como alguém tão sábio podia ser tão cego?
O dia começou com ioga com Mestra Sumida e depois mudou para o treino de Tai Chi. Mestra Sumida o moveu para a sala de treinamento, e porque não conseguia se mexer, Mestre Li simplesmente assentia enquanto ela trabalha da maneira dela vários exercícios. Estivesse ele bem, ela não teria que pedir a ele se poderia treiná-la para usar as duas espadas em vez de apenas uma. Mas como estava assim…
-Armas são ferramentas de violência, não de sabedoria. O homem as usa apenas quando não há opção, e depois, calmamente, e com tato, pois ele não encontra beleza nelas. Quem encontra beleza em armas se delicia na matança de homens, e quem se delicia em matanças não pode se contentar com a paz.
Parecia que o mestre tinha uma citação para tudo, e agora estava determinado a ensinar tudo a ela. No começo, ele ficou contente em ensiná-la apenas simples orações de agradecimento ou orações pelos que haviam morrido recentemente, mas agora ele desejava que ela memorizasse os ensinamentos de Lao Tsé. O que tratava a respeito de armas como sendo "ferramentas da violência" era parte do capítulo 31 dos ensinamentos dele. Lao Tsé era o fundador do Taoismo.
Algumas das palavras dele eram muito poéticas e atingiam um acorde da verdade dentro dela. Como o capítulo 68: Compaixão. "A compaixão é a mais elegante arma e a melhor defesa. Se estabelecer harmonia, compaixão deve cercar você como uma fortaleza. Portanto, um bom soldado não inspira medo; um bom lutador não mostra agressividade; um bom conquistador não se engaja em batalha; um bom líder não exerce autoridade. Este é o valor da "desimportância"; assim é como se ganha a cooperação dos outros; assim é como se constrói a mesma harmonia que está na natureza."
E outra que ela achou intrigante estava no capítulo 71: Limitação. "Quem reconhece suas limitações está saudável; quem ignora suas limitações está doente. O sábio reconhece essa doença como uma limitação. E assim torna-se imune". Capítulo 74 sobre Destino trazia bons pontos, e capítulo 78 sobre Ceder amarrava com perfeição as lições dela em Tai Chi – "Nada neste mundo é tão suave e cede tanto quanto a água, ainda que nada possa melhor superar a dureza e a força, pois eles não podem controlá-la e destruí-la."
Na verdade, todos os capítulos tinham seus méritos e alguns bons pontos, mas o favorito dela até então era o capítulo 41 sobre Seguir:
Quando o grande homem aprende o Caminho, ele o segue com diligência;
Quando o homem comum aprende o Caminho, ele o segue ocasionalmente;
Quando o homem sério aprende o Caminho, ele ri dele;
Aqueles que não riem, não aprendem tudo.
Portanto, é dito:
Quem aprende o Caminho parece tolo;
Quem progride no caminho parece falhar;
Quem segue o Caminho parece estar à deriva.
Pois a mais delicada harmonia parece plana;
A mais brilhante verdade aparece colorida;
A mais rica personagem aparece incompleta;
O mais bravo coração aparece manso;
A mais simples natureza aparece inconstante.
O quadrado, perfeito, não tem lados;
A música, aperfeiçoada, não tem melodia;
O amor, aperfeiçoado, não tem clímax;
A Arte, aperfeiçoada, não tem significado;
O caminho não pode ser sentido nem conhecido:
Ele transmite sensações e transcende conhecimento.
-Talvez…
-Talvez o quê? – Mestra Sumida perguntou. Elas haviam enfrentado a neve do dojo ao castelo para se limparem na casa de banho do primeiro andar. Elas já tinham se ensaboado e se limpado na sala adjacente e estavam no momento mergulhadas até o pescoço na água quente, imersas na banheira de mármore que era grande o bastante para a vila inteira de InuYasha se banhar.
Rin balançou a cabeça.
-Eu não sei se devo dizer. Não é da minha conta.
A mestra suspirou.
-Apenas diga. Estou ficando cada vez mais cansada de pessoas escondendo coisas de mim. Isso não é saudável.
Rin assentiu, tirando do rosto o cabelo úmido.
-O Amor, aperfeiçoado, não tem clímax.
A mestra virou o rosto para encará-la, os olhos negros irritados e apáticos.
-Eu… eu sei que não é a mesma cosia que estávamos falando, sobre sexualidade como fonte primária de poder depois do amor e... liberando-a da forma apropriada para ganhar paz, equilíbrio e harmonia. Mas… ninguém ama da mesma maneira.
Mestra Sumida baixou a cabeça n'água e emergiu, com a água escorrendo pelo rosto e pingando nas pontas dos cabelos.
-Levou três meses para ele ser civil comigo. – disse com o menor dos sorrisos – Ele estava ferido da cabeça aos pés, não podia se alimentar sozinho, trocar as ataduras ou coçar a ponta do nariz, e ainda assim quando ele recobrou a consciência, ele se recusou a deixar qualquer um chegar perto dele sem tentar nos purificar antes.
Rin esboçou um sorriso.
-É claro, ele estava destreinado e ferido, tudo que ele conseguia fazer conosco era dar um choquezinho. Mas ainda assim era o bastante para irritar meus alunos, e eles diziam que ele podia morrer de fome ou de infecção que eles não dariam a mínima. Eles não o deixariam dar choques neles o tempo todo quando tudo que eles queriam fazer era ajudar. Então eu sobrei para cuidar dele. Ele era minha responsabilidade, afinal de contas. Eu o salvei, então a vida dele estava em minhas mãos. É… um estranho vínculo que você forma com alguém quando passa por algo do tipo. Não são todos que fazem o possível para socorrer alguém, como sabe.
-Por que fez, então?
-"Suportar e cuidar, criar sem ser dono, dar sem exigir, isso é harmonia."
-Isso vem dos ensinamentos de Lao Tsé, não é?
Mestra Sumida assentiu.
-Eu ouvi pela primeira vez esses sentimentos expressos quando Shen os recitou para mim, embora meu povo tenha sempre vivido em tal maneira. Nós compartilhamos tudo em meu vilarejo. Tudo é feito em benefício de todos, não apenas para a vantagem de poucos. – a mestra sorriu – Eu nunca pensei que um humano pudesse abraçar esse estilo de vida. Eles sempre me pareceram seres muito orgulhosos e cheios de ganância.
-Eu sei. – Rin assentiu.
-Mas ouvi-lo falar, saber que essas palavras foram pensadas por outro homem…
-Não deveria nos deixar tão mal.
-Bem, eu nunca pensei que a humanidade como um todo era algo ruim. Eu vivi muito perto de alguns vilarejos humanos, e eles nunca nos deram problemas. De fato, quando nós o salvamos, pensei que ele era um desses aldeões. Fiquei bastante surpresa ao descobrir que ele era de Qingdan, às margens do Rio Amarelo, e que era um monge taoista. Você sabe qual é a distância de Qingdan até onde eu vivo?
-Não. – Rin balançou a cabeça.
-Mil setecentos e cinquenta milhas. Ele e os outros monges viajaram 20 milhas por dia por quase 88 dias direto para procurar a iluminação de Gedun Truppa, a Grande Joia.
-A Grande Joia?
-O Dalai Lama.
A expressão de Rin permanecia em branco.
A mestra sorriu.
-Eu esqueço que você não é budista. O Dalai Lama é o líder espiritual do Tibet, a segunda encarnação do Buda da Compaixão, Chenrezig.
-Chenrezig?
-O senhor dos "Olhos que Veem". Ele é a deidade patrona do Tibet.
-Então esse… Dalai Lama é um descendente dos deuses, como o Imperador.
-Algo do tipo, embora o Imperador seja um líder político, um que deseja salvar a nação. O Dalai Lama é um líder espiritual. Ele quer salvar a sua alma.
-Você já o viu?
A mestra riu.
-Alguém com as habilidades dele? Está brincando? Eu sou um demônio, eu não posso nem chegar perto do lugar. Eles presumiriam que eu vim para causá-los o mal e não... – a risada dela morreu e o rosto ficou subitamente sombrio depois de algumas risadas sinceras – Tais coisas simplesmente não são possíveis, irmãzinha. Como eu disse, eles presumiriam que eu viria para machucá-lo e... não para alcançar a iluminação que todos os seguidores dele desejam.
-Você é budista, Mestra Sumida?
-Não seja absurda, irmãzinha. Seria tolice um demônio seguir qualquer prática religiosa. Como Shen, seu Mestre Li, disse, o único propósito que um demônio tem em religião é para atormentar o correto e aterrorizá-lo para que se comporte apropriadamente.
-Mas você sabe sobre o… Dalai Lama. Você sabe quem ele é, você sabe qual é o propósito dele.
-Só porque eu sou uma amante do conhecimento, e ele tem algumas filosofias bastante interessantes. Verdade seja dita, eu adoraria conhecer um homem assim. Shen e eu adoramos ter vigorosos debates filosóficos, e eu acho que o Lama poderia me apresentar um desafio.
-Então Mestre Li saiu para encontrar o Dalai Lama, e acabou encontrando você.
A mestra assentiu.
-Isso foi há 58 anos quando o Lama fundou o primeiro Mosteiro de Zhaxilhunbo. É claro, ele não era o Lama da época, era apenas um dos três grandes discípulos de Tsongkhapa. Ele recebeu o título de Dalai Lama algum tempo depois da morte dele.
-Entendo. – disse Rin – Você conhece todas essas coisas sobre pessoas de quem eu nunca ouvi falar. Você é budista.
-Eu não sou budista. Simplesmente sou "velha" e tenho uma queda por filosofia.
-Exatamente quantos anos você tem, Mestra Sumida? Se não se importar com a pergunta.
Ela deu uma rápida risada e depois sorriu para a jovem aluna.
-Adivinhe.
-Adivinhar? – ela riu.
A mestra assentiu.
-Eu posso fazer uma brincadeira agora, então vamos lá. Quantos anos acha que eu tenho?
-Eu não sei nem quantos anos o meu lorde tem, exceto que ele tem mais de 60.
-Eu sou mais velha que ele.
-Você é mais velha que o meu lorde?
-Em 253 anos.
Rin ficou pasma.
-Duzentos e cinquenta e três anos...
Mestra Sumida assentiu.
-Essa não é a minha idade, é claro. Só quantos anos eu sou mais velha que o seu lorde. Eu vim visitar Lady Sora quando ele nasceu.
-Lady Sora era a mãe dele?
A outra deu mais um assentimento.
-Uma infeliz mulher se eu já tiver conhecido uma.
-Você acha que… ela teria gostado de mim?
-Não. – ela balançou a cabeça – Ela teria escolhido para o filho alguém como os pais dela escolheram para ela: alguém da posição social dele e linhagem. Ele teria relações por política e não por amor.
Rin suspirou. Mais outro voto contra ela.
-Mas o pai dele teria gostado de você. Ele era muito bom para julgar caráter. Mas tais coisas sempre vêm com a idade. Você verá coisas mais claramente com um par de olhos mais velhos.
-Então… depois que Mestre Li parou de tentar purificar você, o que aconteceu?
Então Mestra Sumida contou a Rin o lado dela das coisas. Ela cuidou de Mestre Li até que voltasse a ter saúde, depois o guiou até o tempo na área de Xiagze. Ele levou seis meses para se recuperar completamente dos ferimentos causados na avalanche e alguns dias para viajar até o templo. Durante esse tempo eles conheceram um ao outro. Mestre Li era o mais novo de uma família de nove pessoas, e o pai dele o empurrou para a vida monástica quando ele tinha apenas 12 anos. Mas já então ele tinha uma aptidão para os estudos espirituais, e os outros monges declaram que ele era natural. Mas, apesar da habilidade natural, Mestra Sumida clamava que Mestre Li lutava contra cada passo do caminho com os estudos. Ele não queria ser monge; queria ser poeta e erudito. Mas tais coisas eram para os abastados e não para o filho mais novo de um camponês analfabeto.
E assim ele se tornou um monge, e eles o ensinaram a ler e a escrever, e ele teve a chance de se tornar o homem erudito que sempre quis ser. Fez o melhor para seguir os preceitos do monastério, e foi muito bem nos estudos de artes marciais... Mas ele não queria ser um monge.
Para falar a verdade, seguindo o Caminho, não havia nada para ser negado a ele, com exceção de bens materiais, nos quais ele não tinha interesse, e uma vida fora do monastério, no que ele tinha interesse. Então, quando a oportunidade de ir numa peregrinação ao Tibet e estudar no novo templo se apresentou em si, ele foi.
Mestra Sumida, nessa época, já era uma mestra yogi há vários séculos. Ela não tinha reclamações com relação à vida dela. Tudo era como tinha que ser. Como Mestre Li dissera, ela estava treinando alguns ao ar livre alguns alunos de nível avançado quando eles enfrentaram uma avalanche durante uma tempestade. A visibilidade era precária, mas eles conseguiram achar cinco corpos. Dois estavam mortos quase eles os encontraram, os corpos deles esmagados debaixo de rochas e neve.
O grupo levou os três sobreviventes para o vilarejo. Assim como o castelo de Sesshoumaru, o assentamento de Mestra Sumida era protegido por uma barreira para servir de escudo contra olhos curiosos e potenciais agressores. A barreira também protegia das intempéries e selava o calor. Eles colocaram os três monges juntos numa cabana e os observou. Um morreu em dois dias, o outro em uma semana. Mestre Li foi o único que sobreviveu.
Mestra Sumida afirmou que Mestre Li disse que eram 15 monges viajando juntos, grande parte da idade dele e jovem. Mestre Li tinha 25 naquela época. O mais jovem viajando com ele tinha 16, o mais velho 36. Todos faziam a viagem em busca de iluminação.
Quando Mestre Li, ou como Mestre Sumida veio a conhecê-lo, Shen recobrou a consciência, ele fez diversas perguntas, todas as quais Mestra Sumida respondeu. Onde estava ele? Onde estavam os irmãos dele? Por que ele não conseguia se mexer? Estava ele no Inferno? Ela veio para atormentá-lo pelas falhas dele no domínio espiritual?
A mestra respondeu:
-Você está seguro. Eles estão mortos. Você está ferido. Sim, não, e isso precisa ser analisado.
Mestra Sumida supôs que a última resposta foi o que causou a ele repetidamente tentar purificar tanto a ela quanto aos seguidores dela.
Entre o povo de Mestra Sumida, havia uma escassez de machos – uma severa escassez. Havia 20 fêmeas para cada 1 macho, então muito embora ele fosse humano, as fêmeas mais novas estavas muito ansiosas para dar uma espiada nele, e elas se voluntariaram para ajudar a cuidar dele. E eles receberam choques de purificação pelas tentativas. A princípio, elas acharam divertido, e ficaram maravilhadas pelas brincadeiras do humano, mas logo a fascinação por ele desapareceu e a irritação por ele cresceu. Elas queriam que ele fosse embora do assentamento. Ele estava começando a causar "mal cheiro", como diziam.
Mestra Sumida não era exatamente a mais velha do vilarejo, mas ainda tinha muito bons amigos com ela. O mais velho dissera que Shen poderia ficar, mas não na cabana comunal... Então a mestra o levou para a própria cabana, e ele deu nela um choque muito forte quando ela fez isso. Ele estava recobrando as forças, mas, devido à falta de treinamento, ele ainda era incapaz de concentrar a maior parte do poder dele. Se ele pudesse, poderia tê-la matado. Mas porque não podia, ele meramente deixou uns chamuscados nela, que sararam pelo menos uma hora depois.
Depois ele parou de dar choques e se acostumou com o método dela de cuidado, ele começou a conversar com ela. E ela… conversava também.
-Havia tão poucos machos entre os da minha espécie, eles não tinham tempo para fazer uma visita a alguém e conversar. Se tivesse um homem em sua companhia, ele estaria lá por um único motivo… procriação. Se você não está no cio e não há chances de produzir uma criança, o macho nem vai olhar para você. E isso está perfeitamente bem. Fêmeas conseguem se divertir muito bem nessa capacidade
Rin ergueu uma sobrancelha para ela.
-Eu tive muitos amantes na minha época, irmãzinha, e apenas dois deles foram machos. E eu tive exatamente duas crianças para provar isso: duas meninas completamente crescidas.
-O que é "completamente crescido" para um demônio?
-Fisicamente, nós alcançamos a idade adulta por volta dos 25. Intelectualmente, nós continuamos a crescer enquanto lemos e estudamos mais o mundo à nossa volta. Emocionalmente… - ela de uma ligeira risada – Não somos completamente adultos até chegar aos 625 anos.
-Se-Seiscentos e vinte e cinco anos?
A mestra assentiu.
-Some ou subtraia uma ou duas décadas.
-Então, você tem idade o suficiente para ter filhos que tem 625 anos!
-Não. – ela balançou a cabeça – Digo, sim, eu tenho idade suficiente para ter filhos dessa idade, mas elas não têm.
-Quantos anos elas têm?
-Quinhentos e vinte e nove e 516.
Rin ficou pasma.
-Pelos deuses, quantos anos você tem?
-Já falei para adivinhar.
Rin encarou a indescritível jovem mestra e apertou os olhos.
-Bem, se você é 253 anos mais velha que o meu lorde, e se a sua filha mais nova tem 516...
-Isso é minha filha e não o seu lorde, lembre-se disso. Você não pode ter minha idade simplesmente somando dois números.
-Mas ainda assim...
-Sim, eu sou muito velha para ospadrões de vocês, mas eu sou ainda uma jovem adulta pelos padrões dos demônios.
Rin olhou as mãos dela e notou o quão franzidas e enrugadas elas estavam de tanto tempo que estavam n'água.
-Acho que é hora de eu sair. – ela disse – Olhe só as minhas mãos.
A mestra assentiu com um sorriso triste.
-Vocês humanos mudam tão depressa, irmãzinha. – ela ergueu-se da água, enrolando uma toalha seca ao redor dela – Ele era tão jovem e vivo naquela época. Uma mente tão brilhante aberta a infinitas possibilidades... E ele era tão atraente... Cabelo negro, pele macia, uma adorável voz de tenor... E agora ele vai me deixar.
Enquanto se vestiam, a mestra continuou com a história, contando como eles se acostumaram com a companhia um do outro e descobriram surpreendentes semelhanças nas filosofias individuais. Quando os ferimentos da cabeça dele sararam o suficiente, ela começou a treiná-lo em ioga e ele a ensinou alguns movimentos básicos em Tai Chi... E depois chegou a hora de ele ir embora, de fazer a jornada ao templo. Sem confiar que ele encontraria o caminho sozinho, Mestra Sumida o acompanhou.
No caminho, eles conversaram mais. Falaram de viagens, sabedoria, família. O porquê de abraçarem certa forma de pensamento em oposição a outro. O que os inspirou a se tornarem amantes do conhecimento. O porquê de ele voltar ao templo quando ele poderia facilmente fingir que morreu com os irmãos na avalanche. O porquê de ela o seguir quando ele era completamente capaz de cuidar de si mesmo.
Quando eles chegaram perto da barreira da montanha onde se situava o templo, Mestra Sumida parou.
Shen se voltou para olhar para ela.
-Eu não posso ir além. As barreiras não vão me deixar passar.
O jovem olhou para os postes, as alas e os sutras.
-A iluminação que procura está aí dentro. Vá. – ela insistiu com ele – Torne-se um grande estudioso. Mergulhe no Caminho.
Ele deu um passo para frente e depois parou, voltando-se para encará-la.
-Eu não sou um budista. Eu não queria ser um monge.
E então eles saíram de lá e retornaram ao vilarejo de Mestra Sumida.
-Eu me sentiria como um tolo me aproximando de um grande homem sem meus irmãos. Eu tenho certeza de que ele olharia para mim e veria minha iniquidade na mesma hora.
-Iniquidade? – Sumida repetiu.
-Na montanha, em vez de orar por uma passagem pacífica desta vida para a próxima, eu implorei por uma segunda chance. Eu… fiquei apegado demais aos caminhos deste mundo, Sumida. Eu não consigo ver nada além disso. Eu professo que sigo o Caminho, mas estou completamente perdido. Eu não quero ir para o Inferno, mas eu temo que será onde eu irei terminar.
"Eu não posso professar que entendo este… medo humano de morrer, este… medo de ser julgado e ser considerado indigno de uma vida depois da morte ou uma outra. Mas eu tenho estudado as suas crenças. E o capítulo 16 sobre Queda e Renovação diz que "Esvazie o seu eu completamente; abrace a paz perfeita. O mundo se erguerá e se mexerá; veja-o voltar para descansar. Todas as coisas prósperas vão retornar às suas fontes. Este retorno é pacífico; é o fluir da natureza, uma eterna queda e renovação. Aceitar isto traz iluminação, ignorar isto é trazer infelicidade."
-Mas o que o fez mudar? – Rin perguntou – Parece que ele desconfiava de você no começo, e depois passou a depender de você como um amigo.
As duas mulheres terminaram de secar o cabelo e depois vestiram roupas secas. Os servos haviam entrado e deixado as roupas delas. Ambas estavam usando branco desta vez.
-Ele pensou que estava condenado. – Mestra Sumida replicou – Que tinha cometido muitos erros para ser perdoado. Ele estava muito apegado ao mundo físico. Ele enganou todos os monges de um monastério. Ele não tinha desejo de servir a humanidade numa capacidade espiritual, ele só queria uma educação gratuita. Ele pensava que era um irmão devotado, um da espécie dele, quando de fato, ele estava apenas fingindo caminhar por ela. E... ele gostava de mim, ele me considerava como… amiga, sentia-se confortável comigo.
A única explicação dele não sentir-se tão ameaçado por minha presença era que ele era tão… imundo e corrupto quanto eu era. – a mestra forçou um sorriso enquanto tomava um lugar no banco de pedra – Não era possível que ele estivesse enganado a respeito de mim e da minha espécie. Não era possível que o único propósito da existência de um demônio não fosse o de atormentar os seres humanos. Não era possível que eu fosse uma pessoa com minha vida e meus sentimentos.
Ele nunca me viu como uma pessoa, percebi. Eu era apenas uma coisa... uma coisa "imunda, corrupta" para passar o tempo. E não podia ser que ele… estivesse apaixonado por mim, e que, portanto, todo o resto fosse irrelevante. Era… E o caminho dele ou nenhum. E o caminho dele determinava que ele estava condenado, e portanto era "imundo e corrupto" como eu. – ela respirou fundo e soltou o ar, esfregando a têmpora com a ponta dos dedos.
-Não é uma coisa boa a se dizer a alguém, não é?
-Shen nunca foi notado pela gentileza dele para com os outros. Mesmo depois de se "resgatar" e verdadeiramente começar a seguir o Caminho.
Rin sentou-se ao lado dela.
-Então ele estava com você, e depois se afastou de você.
A mestra assentiu.
-Eu senti pena dele. É claro, havia outras coisas que sentia por ele também... Mas, naquela época, ele era absurdamente lamentável. Ele estava completamente convencido de que estava condenado pelo resto da eternidade e, portanto, se isolou de tudo e de todos que ele conhecia e amava: a casa dele, família, amigos monges, mesmo a própria natureza. "Que fracasso eu me tornei," ele murmurou para mim.
E, porque eu salvei a vida dele, eu me senti responsável. Eu me senti responsável pela infelicidade dele, as dúvidas e a confusão. Eu era a razão por ele se sentir tão perdido e sozinho. Se ele tivesse simplesmente morrido, se eu tivesse deixado que ele morresse, ele não teria sofrido. Então… eu tomei isso para mim para aliviar o sofrimento dele. Ele precisava de algum lugar para pertencer, então eu fiz que ele pertencesse a mim.
Os olhos de Rin ficaram arregalados.
-Vocês casaram!
-Fomos. – a mestra replicou – A minha marca nele foi... purificada. É como um divórcio.
-Por quê? – Rin perguntou.
-Quando os primeiros peregrinos falharam, eles mandaram outro grupo alguns anos depois. Aconteceu de nós estarmos no lugar errado na hora errada, e ele foi visto. Eles pensaram que eu o havia raptado e que o estava... usando contra a vontade dele, e eles me atacaram e o levaram. – a mestra não escondeu as lágrimas – Eu fiquei muito ferida e, sinceramente, muito perto da morte. Além da minha própria dor, por causa da marca e da nossa união, eu pude sentir a dor dele. Ele estava assustado, preocupado, com raiva, confuso e… envergonhado. Ele ficou com vergonha que eles o tivessem visto assim, que o tivessem visto comigo, tivessem visto a minha marca nele.
Quando você está ligado com alguém, irmãzinha, não há dor pior que a da separação... Eu pensei que morreria com as alas e os sutras e os bastões sagrados. Mas não. Eles levaram Shen para o templo em Xiagze, e eu sabia que ele estava lá; Eu pude sentir a dor dele, sentir a luta dele, mas não podia fazer nada. Tudo que eu pude fazer foi ficar do lado de fora da barreira e esperar ter um vislumbre dele.
A mestra fungou.
-Podiam pensar que depois de tanto tempo, a pessoa simplesmente cansa de esperar. Fica com fome ou com sede, com frio ou ensopado, com raiva e frustrado e... Você não pode ir embora. É essa força. Eu estava fixa naquele ponto até eu vê-lo de novo.
-E você o viu?
-Não depois de muitos anos, seis, eu acho. Ele estudou naquele tempo por seis anos, e quando eu o vi, ele havia envelhecido. Ele tinha 28 quando o levaram. Ele tinha 34 quando ele… retornou, eu acho.
Eu notei mais ou menos um ano depois que ele foi levado que eu parei de receber coisas da conexão dele. Por um momento eu pensei… - ela perdeu a voz por um momento e simplesmente ficou sentada e chorou – Por um momento... – ela continuou – Eu pensei que ele havia morrido. Eu senti uma dor muito aguda e severa vinda dele e depois... nada. Mas… eu não o senti partir. Eu não senti como se ele tivesse se afastado de mim. Na verdade, eu não senti mais nada vindo dele, mas eu sabia que ele estava lá.
Então, eu esperei.
-Por seis anos. – Rin disse, um pouco espantada – Sem comida, sem água, sem abrigo, sem dormir.
-Youkais são criaturas resistentes, irmãzinha. Nós precisamos de muito pouco em termos de sobrevivência. E quando você casa, a prioridade principal é sempre o seu companheiro. O resto é... insignificante.
-Então você o viu e ele estava mais velho.
A mestra assentiu.
-Eu corri até ele para ver se ele estava bem, e… ele estava mudado. Eles o haviam mudado. A marca dele foi purificada, e ele disse… - as lágrimas recomeçaram – Ele disse que tinha sido absolvido por viver uma existência tão pecaminosa! Ele disse que tinha sido perdoado e que agora estava no caminho correto, o caminho reto, o caminho em linha estreita! Ele era agora um só com o "Caminho", e que ele NÃO precisava mais de mim.
As lágrimas haviam cessado, os antes sombrios olhos negros queimavam de raiva.
-Se você achou que o que ele disse hoje a mim foi rude… - Mestra Sumida zombou, uma profunda carranca estragando as feições normalmente plácidas – Você deveria ter ouvido as coisas que ele disse naquele dia. Eu queria matar aqueles monges, depois matá-lo… e depois morrer, também. – ela respirou muito profundamente e exalou, o rosto começando novamente a parecer o dela – Eu o deixei ir. Por direito, eu podia simplesmente marcá-lo de novo. Para dizer a verdade, não existe "divórcio" numa união de youkais. Uma vez que o macho é seu ou a fêmea é sua, eles são seus para sempre. A marca é um símbolo e uma união mística, mas... você não precisa da marca para saber do seu companheiro. Você não precisa da união para saber realmente como eles se sentem.
Rin ficou em silêncio por um instante, absorvendo a nova informação.
-O meu lorde… disse algo parecido com isso. Eu o conheço melhor do jeito que as coisas estão agora.
A mestra assentiu.
-Um youkai conhece a companheira pelo cheiro. Isso não inclui as uniões arranjadas e as similares, mas quando um demônio encontra a que nasceu para passar o resto da vida com ele, eles sabem.
-O nariz sabe. – Rin deu uma risada.
-Sim. – a mais velha sorriu – Algo parecido com isso. Então, havia uma parte de mim naquela montanha que sabia que eu tinha que salvá-lo porque, instintivamente, eu sabia que era ele.
-Mas acabou tão mal. – Rin disse.
-Não acabou ainda. Eu não podia realmente deixar isso antes, e não vou deixar acabar agora. Quando eu libertei Shen do nosso vínculo, eu o uni a outro juramento. Eu disse a ele que ele me devia a vida, e isso não poderia ser dispensado ou expurgado por motivo algum. Quando eu o chamasse ele deveria vir, a qualquer hora, a qualquer lugar, por qualquer motivo. Se ele falhasse em cumprir essa obrigação antes da morte dele, ele iria renascer a meu serviço.
-E foi assim que ele chegou aqui.
A mestra assentiu.
-Você quis vê-lo de novo ou...
-Mesmo agora eu ainda o quero. Caminha pelas árvores com ele faz parecer os velhos tempos. Quero o passado de volta, eu o quero de volta. Eu quero que ele pare de ser um maldito covarde e seja o que ele deve ser, o que ele era sempre para ser. – a seiyuuki youkai ficou em pé e se dirigiu à saída da casa de banho.
-Mestra? – Rin ficou em pé e a seguiu – O que era para ele ser?
A mestra se voltou, piscou algumas vezes, depois sorriu para ela.
-Meu, é claro. – ela voltou-se para a saída e continuou o caminho.
No terceiro dia, Mestre Li piorou e não foi capaz de se sentar, mesmo com ajuda. Mestra Sumida o levou para a sala de treinamento, para ele poder se aquecer perto do fogo na imobilidade dele.
-Estude os ensinamentos de Lao Tsé. – o velho mestre insistiu com ela, a voz mal passando de um sussurro – Siga o meu caminho. Não esqueça quem você é.
No quarto dia, como prometido, Sesshoumaru retornou. Ela estava no meio da meditação dela – sentada, pernas cruzadas, olhos fechados, lábios ligeiramente separados, polegar e dedo indicador unidos, enquanto o do meio, o anelar e o mindinho permaneciam estendidos. E ela o sentiu. Quente, sólido e… um pouco imponente.
Ela abriu os olhos e voltou-se para Mestra Sumida.
-Vá, irmãzinha. Eu cuidarei de Shen enquanto estiver longe.
Rin sorriu e ficou em pé, tirando a poeira do uniforme branco, correndo em direção da saída.
-Mas volte depressa. – a mestra instruiu – Eu sei que você e o seu lorde têm... assuntos a tratar, irmãzinha. Mas agora não é hora, e eu humildemente peço que se lembre da sua promessa a Mestre Li.
Rin uniu as mãos em oração e se curvou.
Fazia três horas desde o retorno do lorde, e, como ele havia pedido, Rin esperou pacientemente por ele no quarto dela. Depois que ele fez o pedido, ela retornou ao dojo de Mestre Li e declarou as intenções do que faria a Mestra Sumida.
-Apenas volte depressa. – ela disse, agachando-se ao lado de Mestre Li – Eu não sei quanto tempo ele vai durar. E ele precisa que você esteja aqui para o último instante.
Rin assentiu e se curvou, e agora estava esperando, um pouco nervosa, pelo lorde fazer a aparição dele.
Era estranho estar de volta ao quarto dela depois de ter estado tanto tempo fora. Parecia peculiar querer dormir numa cama de dossel com lençóis de seda em tom pastel e debaixo de um edredom de plumas em cetim depois de passar tantas noites dormindo apenas debaixo das estrelas. Sentiu-se ligeiramente desconfortável guardando as coisas dela num armário de carvalho ou numa cômoda quando estava tão acostumada a carregar tudo numa bolsa às costas. E ela certamente estava tendo que se acostumar com a sensação de madeira dura sob os pés em lugar da terra macia. Mas… Aquela era a casa dela, o quarto dela, afinal de contas. Ela saiu de lá três meses atrás e não pôs os pés lá desde então. Mesmo depois de retornar, ela não teve tempo de ver o velho espaço de dormir. Até Sesshoumaru ir embora, Mestra Sumida chegou e a levou direto para Mestre Li, e ela ficou lá desde então.
Mas ali foi onde começara no castelo de Sesshoumaru. Ela se sentiu tão perdida na cama de casal na primeira noite que se deitou para dormir. Era simplesmente grande demais para alguém tão pequena quanto ela... E então descobriu o quarto de Sesshoumaru atravessando o corredor e se arrastou para a cama dele. A cama era maior, é claro, mas com duas pessoas parecia um pouco mais aconchegante que a dela. Vendo que ela não gostava de dormir sozinha, Sesshoumaru comprou uma verdadeira coleção de bonecas para que dividissem o espaço com ela. Elas eram de porcelana, importadas, caras e… altamente quebráveis.
Rin abafou uma risada, lembrando-se de diversas manhãs em que acordou com menos "amigas" do que quando foi para a cama com elas. E, pelos deuses, como doía quando ela acidentalmente pisava no que restava delas. Mas eventualmente ela aperfeiçoou a arte de dormir com coisas tão frágeis. No momento, ela tinha 22 bonecas amontoadas na cama dela. Parecia bobo que alguém tão "velha" quanto ela ainda brincasse com bonecas, mas... Elas não eram "bonecas"; eram filhas, as filhas dela. E ela tinha um excelente cuidado com cada uma delas.
Havia Rei, Kaiya, Michiko, Sora, Kameko, Kumiko, Maeko, Mina, Sumiko, Yumi, Yuka, Mitsuko, Sachiko, Imari, Fujiko, Yuki, Aneko, Kimiko, Ai, Ayumi, Sakura e Hana. Ela deu nome a todas, exceto a Sora e Mitsuko; Sesshoumaru batizara essas duas. Ela recebeu Sora no primeiro aniversário dela com ele.
Sinceramente ela não sabia quando era o aniversário dela, então celebravam no dia em que ele a reviveu. Ela recebeu Mitsuko alguns meses depois do aniversário dela de 17 anos. Ela ficou feliz, e honestamente surpresa, que ele não tivesse dito a ela que estava velha demais para brincar com essas coisas agora.
Mas, em adição às bonecas, ela tinha alguns pentes para o cabelo que ela guardava na cômoda, duas jarras de flores que ela mantinha perto da janela, e alguns quadros em aquarelas que ela pintara pendurados nas paredes. Agora, pensando nisso, ela realmente gostava do quarto dela. Era perfeito para ela.
Houve uma leve batida à porta do quarto dela.
Estava tão distraída com os próprios pensamentos que nem percebeu a aproximação dele. Foi a mesma coisa que antes. Mestre Li estava certo, com treino e estudo dos ensinamentos de Lao Tsé, os sentidos dela estavam ficando mais nítidos, mais refinados. Ela conseguia senti-lo parado do outro lado das portas dupla como se ele estivesse lá antes dela – quente, sólido, dominante... Mas havia algo de diferente nele agora. Diferente de quando ela detectou o retorno dele ao castelo. Havia uma urgência na aura dele que não havia antes, como se ele não pudesse esperar passar pela porta do quarto dela.
Certamente ela sentiu o aumento nos ânimos dele quando Ah-Un novamente tocou os chãos do castelo, e aquela sensação aumentou quando ele a saudou no Grande Salão e pediu para que ela esperasse por ele ali. Mas agora… o aumento que detectou não estava no ânimo dele.
Um nós se alojou na garganta, mas ela o forçou a descer.
-Entre. – ela ficou em pé ao lado da cama e caminhou até a janela. Ainda nevava lá for a, e ela tinha uma vista maravilhosa dos topos de árvore da floresta cobertos de neve contra o fundo negro do céu noturno.
A porta direita abriu e o lorde entrou, a luz do lustre refletindo a prata dos cabelos dele. Ele estava claramente vestido para ir para a cama, usando apenas uma veste de seda vermelha que ia até a metade das pernas e um par de chinelos pretos.
Lançou a ele um olhar casual por cima do ombro, mentalmente jurando que ela ficaria para sempre encantada com as marcas de demônio dele. Ela conseguia ver as do rosto, conhecia já as do pulso, e pôde ver a dos tornozelos. As que ela não conseguia ver, mas sabia que de fato estavam lá, eram as dos lisos, elegantes e esbeltos quadris.
E tudo que ela tinha que fazer era erguer a barra da veste dele e...
Não, ela repreendeu-se. Lembre-se do que prometeu a Mestre Li. Lembre-se do que prometeu a Mestre Li. Lembre-se do que prometeu a Mestre Li.
-Hoje à noite não. – ela deixou escapar, de costas para ele, o reflexo dele parcialmente visível no vidro escuro.
Mesmo no vidro, ela pôde vê-lo erguer uma sobrancelha a ela.
-Hoje à noite não. – ele repetiu.
Rin concordou com a cabeça.
-Hoje à noite não.
-Não pode olhar para mim quando fala comigo? – ele estava parado ao pé da cama dela, menos de dez passos de onde ela estava.
Rin mordeu o lábio inferior e virou-se para encará-lo, os olhos voltados para baixo.
-Eu prometi a Mestre Li que não demoraria muito.
-Você treina com ele pela parte da manhã, não à noite. Por que não está me olhando nos olhos?
-Porque eu vou querer ficar depois, e eu não posso.
-Não pode? – ele deu um passo até ela – Ou não vai?
-Não posso. – ela insistiu – Mestre Li está morrendo, e eu prometi que não me sairia do lado dele até ele ir.
-Você já deixou o lado dele. Você está aqui.
-Mas ele sabe que eu estou aqui. E ele sabe que eu vou voltar.
Ele deu outro passo até ela.
-Se você retornar para ele agora ou pela manhã...
-Não! – ela o cortou – Eu prometi.
Ele rosnou no fundo da garganta.
-Eu sei que você não gosta de ser interrompido, e eu peço desculpas, mas eu não vou ceder. Hoje à noite não.
-Então quando?
Três passos. Ele estava a três passos de distância dela.
-E-Eu não sei.
-Você não sabe?
-Não. – ela balançou a cabeça – Eu não sei. Eu não sei quando ele vai morrer. Eu não sei quando nós poderemos... – ela sentiu um rubor aumentar no rosto, uma risada fraca subindo do fundo da garganta, um calor úmido tomando lugar no meio das pernas dela.
-Por que me rejeita quando isso não é o que você deseja? – outro passo mais perto.
-Porque eu prometi que faria isto por ele.
Ele estendeu a mão e correu a ponta do dedo pela bochecha direita dela.
-Você prometeu a mim antes de prometer a ele… Ou esqueceu?
Rin engoliu em seco, o calor entre as pernas aumentando, um ligeiro... formigamento se formando na ponta um pouco acima da entrada feminina.
-Nós estamos no castelo agora, minha Rin, e eu tenho todo o desejo de clamar completamente o que já é meu.
Um agradável tremor correu pela espinha dela enquanto o dedo dele trilhava pelo pescoço dela e se arrastou para baixo da gola do uniforme de treinamento dela, acariciando a junção entre o pescoço e o ombro.
-Eu quero…
Ele não deu espaço para o "mas" dela ao remover a mão da gola e deslizá-la pela cintura dela, puxando a graciosa forma dela rente a ele.
-Você vai me acompanhar aos meus aposentos, e vamos nos divertir juntos.
As duas últimas palavras que ele falou foram pronunciadas como uma carícia verbal no ouvido dela:
-Minha mulher.
Rin gemeu suavemente sentindo aquela familiar dureza pressionada contra o ventre dela, a mão dele esfregando círculos lentos na parte inferior das costas.
-Vai me recusar agora, minha Rin? Vai me mandar de volta aos meus aposentos sozinho e insatisfeito? – levou os lábios ameaçadoramente perto dos dela, o hálito quente dele soprando docemente pela boca seca dela.
-Eu…
-Sim?
Ela apoiou as palmas contra o peito dele e o empurrou.
-Eu não posso.
É claro, o empurrão fraquinho não teve efeito sobre o lorde, mas ele afrouxou o abraço na cintura dela.
-Rin.
-Eu não posso! – ela o empurrou de novo, e desta vez ele a soltou – Mestre Li está morrendo e eu prometi, eu prometi, Sesshoumaru, eu prometi que continuaria treinando com ele até o momento da morte dele. Quando. Ele. Morrer. Eu farei o que quiser. Até lá, meu tempo não é meu, e eu não posso ficar com você esta noite.
O lorde deu alguns passos para trás e a observou de longe.
-Você me rejeita. – disse simplesmente.
-Eu… - ela não o estava rejeitando, apenas não ia ficar com ele naquela noite.
-Você me rejeita a favor de um monge fraco e humano.
-Eu não sou a favor de ninguém. "A Natureza não é gentil. Ela trata todas as coisas imparcialmente. Sábio não é gentil, e trata todas as pessoas imparcialmente."
Sesshoumaru franziu o cenho.
Maldição, ela praguejou internamente. Não tinha ideia de onde viera aquilo. Jorrar filosofia taoista não era certamente a forma para ganhar o respeito do lorde.
- Taoismo? – ele questionou – Está procurando "iluminação", minha Rin? Quer se tornar uma só com "o Caminho"?
-Não. – ela balançou a cabeça – Digo, eu só estou fazendo o que Mestre Li diz agora. Ele fala para estudar Lao Tsé, e eu estou estudando.
-E se ele dissesse para me matar enquanto durmo, você o faria também?
-Não!
Sesshoumaru virou-se para sair embora, não se importando em lançar para trás um olhar a ela.
–Eu devo deixá-la para o seu mestre, Rin. Este Sesshoumaru não vai implorar pelos favores a nenhuma mulher, e ele não vai se repetir.
-O que isso significa? – ela perguntou.
Ele não respondeu. Pôs os pés no corredor e fechou a porta atrás de si.
Rin franziu a testa, os olhos ligeiramente ficando nublados. Isso significava… que ele não ia mais me convidar para os aposentos dele de novo? Ele não vai mais me buscar? Ele… não me quer mais?
No quinto dia, depois de muita conversa e debate filosófico Mestra Sumida e Mestre Li se reconciliaram. Chegaram a um acordo. Mestra Sumida aceitou concordar com a combinação do capítulo 3, do capítulo 7 e com o fragmento que Rin citou do capítulo 41.
Capítulo 3: Sem Ação lê-se:
Sem Ação
Não elogiar o digno previne a contenção,
Não estimar o valor previne o roubo,
Não exibir a beleza previne o desejo.
Desta maneira o sábio governa as pessoas:
Esvaziando-lhes as mentes,
Enchendo-lhes as barrigas,
Enfraquecendo-lhes as ambições,
E fortalecendo-lhes os ossos.
Se às pessoas faltam conhecimento e desejo
Então elas não podem agir
Se ações não são tomadas
A harmonia permanece.
Capítulo 7: Completo lê-se:
A Natureza é completa porque não serve a si mesma.
O sábio se coloca depois e encontra a si mesmo antes;
Ignora seus desejos e encontra-se contente.
Ele é completo porque não serve a si mesmo.
E, é claro, o trecho do capítulo 41, que foi o seguinte: "O Amor, aperfeiçoado, não tem clímax".
Então, o argumento de Mestre Li era de que ele estava pagando a ela o maior dos elogios por nunca ter a elogiado. Não era como se ele não a quisesse; simplesmente não estava em posição de querê-la. Ele desgraçou a si mesmo, ao monastério, a família dele, e a ela por se tornar demais indulgente nos próprios caprichos, focado demais nas próprias necessidades, nos próprios desejos. E nesse processo ele perdeu a visão das pessoas, dos lugares e coisas bem debaixo do nariz.
Embora a separação de Sumida tenha sido dolorosa, ela foi necessária. Foi necessária para que ele a libertasse enquanto ele se libertava de si mesmo. Eles simplesmente não estavam destinados a andarem no mesmo caminho juntos nesta vida.
Mestra Sumida fez o único argumento várias e várias vezes do capítulo 73: Destino.
O Destino não ataca, porém todas as coisas são conquistadas por ele;
Ele não pergunta, porém todas as coisas são respondidas por ele;
Ele não chama, porém todas as coisas são encontradas por ele;
Ele não planeja, porém todas as coisas são determinadas por ele.
A rede do Destino é vasta e sua malha é grossa,
Porém ninguém escapa dele.
-Nós estamos destinados a ficar juntos, Shen. Nosso encontro não foi mera coincidência. Um youkai conhece seu parceiro pelo cheiro. Eu soube no momento que eu encontrei você caído naquele monte de neve que eu tinha que salvá-lo. Você é ele. Meus instintos não mentem. Você deixou Qingdan procurando iluminação e eu encontrei você. Doeria tanto olhar o mundo com olhos diferentes? "A rede do Destino é vasta e sua malha é grossa, porém ninguém escapa dele."
-Você não pode escapar do seu destino. Você não pode escapar de mim. Você não pode me deixar. Você é meu.
Cedo na manhã do sexto dia, Mestre Li morreu. As palavras finais dele foram do capítulo 70 dos ensinamentos de Lao Tsé. O título do capítulo era "Individualidade".
Minhas palavras são fáceis de entender
E minhas ações fáceis de executar
Porém ninguém pode entendê-las ou executá-las.
Minhas palavras têm sentido; minhas ações têm razão;
Porém elas não porem ser conhecidas e eu não posso ser conhecido.
Cada um de nós é único, e, portanto, valiosos;
Embora o sábio use roupas grossas, o coração dele é de jade.
Após o falecimento dele, Mestra Sumida posicionou as mãos em oração e curvou a cabeça, pressionando a testa no peito dele.
-Eu o verei em breve, Shen. Os Destinos me dizem isso. Você vai voltar para mim.
Rin derramou algumas lágrimas. Algumas delas de alegria, outras tristes, e mais algumas simplesmente porque não sabia mais o que fazer.
-Chegou a hora, irmãzinha. – Mestra Sumida agarrou a mão ela e colocou-a em cima do peito de Mestre Li. Pôs a palma da outra mão de Rin na testa dele – Você deve fazer isso enquanto o corpo ainda está quente. Ele quis que você tivesse as habilidades dele. Ele quis que você as herdasse e fizesse bom uso delas.
Rin assentiu, fechou os olhos e se concentrou.
-Sim, irmãzinha, deixe os poderes dele despertarem os seus.
Mas… para despertar completamente os seus próprios poderes você deve ser uma só com o Caminho.
-Você está conseguindo, irmãzinha. Continue assim. Está indo muito bem.
Durante a transferência, Rin relembrou o capítulo 28: Tornar-se.
Usando o homem, sendo mulher,
Sendo a entrada do mundo;
Você abraça a harmonia
E se torna um recém-nascido.
Usando força, sendo fraco,
Sendo a raiz do mundo,
Você completa harmonia
E se torna como madeira disforme.
Usando a luz, sendo escuro,
Sendo o mundo,
Você aperfeiçoa a harmonia
E retorna ao Caminho.
-Entendo. – Rin disse calmamente – Eu compreendo.
-Irmãzinha?
Rin respirou rápido e agudamente quando o coração dela parou e uma luz branca e brilhante passou diante dos olhos dela.
-Irmã?
O corpo dela foi puxado de perto do de Mestre Li, atirado contra as paredes de papel-arroz.
-Rin!
Ela abriu os olhos e os fechou. Tudo parecia tão mais claro agora. E o lorde dela, ele estava vindo para ela. Ele estava… preocupado. Não… assustado. Assustado que ela o deixasse. Assustado que ela estava indo para algum lugar onde ele não pudesse alcançar. Assustado que nunca mais a visse de novo. Assustado que ela estivesse… morrendo.
Mas a morte não deveria ser assim tão… boa. Ela não podia estar morrendo. Ela se lembrava de morrer. A Morte era dor, sofrimento, negra e sangrenta. Aquilo era… agradável. Era quente, brilhante, e ela podia sentir o quanto todos a AMAVAM.
Era assim que Mestre Li se sentia o tempo todo? Era esse "o Caminho"?
Ou era o que Mestra Sumida parecia pensar? Ela estava morrendo?
Mas e se ela estivesse? Aquilo era… celestial. Nada podia possivelmente ser melhor que isso.
Rin respirou profundamente e deixou soltar o ar num único e longo suspiro de contentamento.
Abriu os olhos de novo e não respirou mais.
De algum lugar, ela ouviu Mestra Sumida gritar.
-Rin! Não vá! Você não deve ir com ele!
Nota da tradutora: Minha beta Doks mandou o capítulo revisado e já estou postando. Quando ela mandar outro eu atualizado... hihihi.
Mais três capítulos e chegamos ao final :( O que acharam do capítulo de 36 páginas? Do Sesshoumaru "rejeitado"? Da história da Mestra Sumida e do Mestre Li juntos?
Quem tiver gostado dos ensinamentos de Lao Tsé pode facilmente encontrar no Google os livros para leitura. Quem tiver interesse ou não conseguir encontrar, é só avisar que passo o link direitinho.
Obrigada a todo mundo que comenta... tem como alguns "anônimos" deixarem o email nos comentários (tipo o meu: analoguec11 at gmail ponto com) para eu respondê-los?
Até o capítulo 29... Para isso, que tal alcançarmos a meta de 20 reviews? ;)
Analoguec
