Capítulo 29 – Samael: o líder do submundo

O pequeno relógio do quarto de motel onde os Winchester's descansavam marcava oito e quarenta da manhã. Sam não conseguia dormir; tudo que fez foi cochilar por alguns minutos, talvez por meia hora. Mas continuava inquieto demais. Resolveu, então, sair para caminhar. Como percebeu que Dean tinha um sono profundo e tranqüilo, colocou sal em todas as frestas – atrás de cada porta e janela; além disso, fez armadilhas para impedir que anjos e demônios adentrassem o cômodo. Assim, pôde deixá-lo em segurança; não queria ir à rua e, ao voltar para lá, se deparar com o irmão em apuros.

Andava apressado, sem saber direito para onde se dirigia. Os passos eram rápidos. Decidiu, então, sentar um pouco e tomar um café na lanchonete que foi com Dean na noite anterior; quem sabe ao sorver algo quente, se sentisse melhor. Ao entrar, se deparou com a atendente que os servira ontem.

– Olá! – disse ela, em um sorriso franco. – Por aqui tão cedo?

– Costumo não dormir muito... Sou um tanto agitado. Tudo bem com você? – perguntou, o tom amigável.

– Tudo ok sim. O que vai querer hoje?

– Apenas uma xícara de café bem quente, por favor.

– É pra já! – exclamou, indo em direção aos fundos do local, para preparar o que lhe foi solicitado.

– Espere, por favor – interrompeu ele. – Por acaso você pode me ajudar? – a olhou nervoso.

– Claro! O que foi? É sobre as investigações?

– Na verdade... Não... – gaguejou. – Quando meu irmão e eu estávamos aqui ontem, um homem alto adentrou o local, certo? Lembra-se disso? – ela assentiu. – Ótimo... Você sabe o nome dele?

– Sim, e como não! O sujeito era muito gentil! Só estranhei que se chamava Samael.

– Ah, e sabe de onde ele veio? ... Qual direção tomou depois?

– Não, eu lamento; apesar de ser muito educado, era de poucas palavras. O Sr. O conhece?

– Menos do que gostaria – balbuciou, mais para si do que para a interlocutora.

– Perdão senhor, o que disse? – questionou, surpresa com o que achava que tinha escutado.

– Nada – falou, assustado com o que comentara antes. – Traga meu café, ok?

– Sim, pode deixar – respondeu.

Embora tentasse entender o porquê, Sam estava chateado com o fato de que Lúcifer entrara no estabelecimento comercial sem sequer conversar com ele ou com Dean. Logo, porém, pensou que tudo que sentia era bobagem; deveria, apenas, se concentrar em arranjar um jeito de não retornar ao Inferno e de acabar com Kasbeel.

Em poucos minutos a atendente voltou com o que lhe fora pedido. Após colocar a xícara em frente ao rapaz, saiu respeitosamente. O Winchester mais novo bebia o líquido com calma, mas teve um sobressalto ao vislumbrar uma criatura horrenda; só pela energia, sabia que não era algo bom, ainda que estivesse bem trajado. E quando viu os olhos totalmente vermelhos do demônio, obteve a temível certeza.

– Moça – gritou, em uma tentativa inútil de chamar a garçonete. – Ei... Moça! Precisa ir... – foi interrompido com uma violenta pancada nas costas. O baque foi tão forte, que a mesa e a xícara voaram longe.

– Ora ora! Se não é o menino superdotado! – disse o homem, de maneira sarcástica.

– Belial! – cuspiu, como se o nome do oponente o fizesse mal.

– Exatamente! – exclamou, jogando diversas cadeiras em cima do jovem que, como último recurso, desviava das mesmas com as habilidades que treinara dias antes.

– Que bagunça é essa aqui... – a atendente, que ouvira tamanho barulho, parou de falar, perplexa, pois avistou os olhos vermelhos do sujeito.

– Cale a boca vadia! – uma mesa voou em direção a ela e derrubou a moça ao chão.

– Deixe-a em paz... A garota não tem nada a ver com essa disputa – disse Sam. – Isso é só entre nós, está bem?

– Ora Sammy, você não precisa ser tão gentil quanto quem o treinou, pode usar suas habilidades contra mim! – o demônio fez com que o restante das mesas girasse no ar, o que deixou a moça apavorada.

– Não levante... Fique onde está, ok? – gritou o Winchester mais novo.

– Ta bem, ficarei! Meu Deus... O que é isso! – disse, atônita.

– Diga-me, rapaz, confia mesmo em Lúcifer?

– Não tenho de falar nada disso com você, cretino! – Sam o encarava com visível rancor.

– Ah não? Que pena! Achei que teríamos um momento introdutório – uma mesa atingiu o caçador na cabeça. – Se bem que isso é um privilégio dele, não é, Sammy?

– Não... Me... Chame... De Sammy, seu babaca! – exclamou, furioso.

– Ah! Esse é outro dos privilégios de meu ex-comandante – desdenhou. – Vamos ver até onde isso...

– Até onde isso vai, Belial? – perguntou Samael, que o interrompera com um profundo corte no ombro. – Essa questão não é da sua conta, demônio sujo!

– Pode deixar, eu o mato...

– Não, tudo bem; ajude a moça – Sam assentiu e foi até ela.

Os dois seres das trevas permaneceram sozinhos na lanchonete. Eles se encaravam com raiva e ódio, mediam forças de maneira assustadora, embora não se agredissem fisicamente. Após respirar fundo e limpar a espada, que ficara suja com o sangue do inimigo, o ex-rebelde questionou:

– Por que está aqui, Belial?

– Kasbeel me convocou. Vim para matar aquela cretina de olhos...

– Eu sei, seu grande idiota, fui eu que o impedi de fazê-lo.

– O quê! – o demônio estava enfurecido. – Lilith foi aniquilada por Samuel Winchester; não deve estar aqui!

– Pode até ser, mas como recuperei minha graça, posso gerar vida. Não considero isso uma vantagem, já que só tenho tal capacidade por uma vez; depois, só daqui a cem anos.

– Desgraçado! Ela vai ficar do seu lado... Seja lá de qual lado você estiver... Filho da puta!

Lúcifer o olhou e sorriu desdenhosamente. Em seguida, o atingiu com um forte e veloz soco na boca.

– Limpe as frases antes de se dirigir a mim – recomendou. – Posso aniquilá-lo aqui mesmo.

– Faça, maldito! – bradou o maligno ser. – Eu apenas serei um a menos... Mestre Kasbeel já iniciou o processo de destruição, então tudo está encaminhado!

– Pretendia trazer você para o lado mais conveniente da batalha, mas já fez sua escolha, não é? – a fala do anjo caído era serena ao extremo.

– Sim – Belial respondeu convicto.

– Então me enfrente – alcançou-lhe uma espada reserva que trazia consigo, a qual o demônio pegou de pronto.

– Não acredito... Está me dando a chance de matar você?

– Na verdade quero um desafio... Ver até onde você pode ir – concluiu, com um ar de deboche.

Com um ímpeto digno de dois habitantes do Inferno, eles iniciaram um sangrento duelo. As espadas cortavam o ar com grande agilidade e insanidade. Os combatentes escapavam da maioria dos golpes que desferiam. Somente alguns deles os atingiam gravemente. Lúcifer tinha ferimentos no braço esquerdo – o que usava para segurar a arma de guerra –, e na perna direita. Belial, por outro lado, fora atingido no tórax. Eles, entretanto, se mantinham firmes no propósito de ir até o fim.

A luta prosseguia. Como bom guerreiro que era, o demônio não dava trégua alguma ao ex-rebelde, que continuava a se defender. Pensou, então, em utilizar toda a inteligência que carregava em si, desde quando habitava o Céu, a fim de encurralá-lo. De maneira lenta, começou a se mover para um canto da lanchonete, sem que o oponente percebesse que objetivava esmagá-lo a uma parede. Quando já estava bem perto dela, anunciou:

– Isso é o que acontece com aqueles que não me seguem; ainda sou o líder do submundo, maldito! – e, assim, Belial, um dos servos mais leais a ele na época da rebelião, sucumbira frente à força e ao preparo de Samael Estrela da Manhã para estratégias de guerra.

Exaurido pelo esforço feito, sequer notou que Sam não regressara. Quando se deu por conta desse importante fato, desapareceu no ar; era preciso achá-lo o quanto antes. Afinal de contas, Dean acordaria e, de imediato, iria atrás do irmão. Pensou, então, que seria melhor ir até onde o loiro se encontrava. Descobriu o endereço do motel – que por sinal não ficava longe da lanchonete –, e se dirigiu até lá. Quando chegou no local, se deparou com o Winchester mais velho a ligar o Impala.

– Ei – gritou Lúcifer. – Tem carona? – brincou, em um sorriso fraterno.

– Claro! – Dean abriu a porta do carro. – Diga-me que sabe onde Sammy está, por favor? – a pergunta soou de maneira preocupada.

– Infelizmente não até o momento – o caçador bufou. – Mas fique calmo, vamos encontrá-lo rápido – garantiu, após sentar no banco de trás e fechar a porta.

Enquanto o loiro guiava o veículo, o ex-rebelde o colocava a par dos últimos acontecimentos. Contara-lhe, inclusive, sobre o retorno de Lilith. Apesar de entender tudo e de se mostrar atento à fala do outro, o Winchester não compreendeu como a demônia regressara à vida. O anjo caído explicou-lhe, então, que poderia reviver apenas uma pessoa, e que escolhera ela. Assim, tranqüilizou Dean com a seguinte frase:

– Não se preocupe; você não voltará ao Inferno com o retorno dela. Eu quis fazer isso porque sabia que Lilith não concordaria em se aliar a Kasbeel. E foi exatamente o que houve.

– Por isso você se afastou da casa de Bobby sem avisar?

– Sim, eu não poderia fazer algo do tipo por lá; Sammy a mataria de novo.

– É, tem toda razão. Agora que me contou isso tudo, poderei conversar com meu irmão junto com você. O que acha?

– Ótima idéia! Então quer dizer que acredita em mim?

– Sim, por mais que desconfie, começo a ver alguma credibilidade em suas palavras.

– Obrigado – falou, contente por ter o apoio de alguém tão justo.

– De nada... – Dean ficou quieto; vislumbrou, ao longe, Sam ser carregado pela mesma mulher alta que o ajudara no dia anterior. – Ela é a ... A Lilith? – perguntou, um olhar de espanto.

– Sim, por que essa cara?

– É que ... Ela não era assim antes – Samael riu.

– A trouxe de volta em sua essência; esse é o corpo dela. É como era antes de se unir a mim – explicou. – Não achei correto lhe dar a vida sem lhe garantir o direito de escolha.

O loiro realmente escutara palavras tão amigáveis por parte de um ser conhecido como diabo? ... Ele sabia que aquele era Lúcifer, o temido chefe do Inferno; mas estava convicto, ao ouvi-lo, que algo se modificara na essência do anjo caído.

– Entendo. Então quer dizer que a mulher poderá escolher... Redimir-se e voltar a ter uma vida normal, ou continuar lá no andar debaixo?

– É, você pescou a idéia – disse, após abrir a porta do carro, que parara há alguns instantes. – Como ele está? – perguntou para Lilith, apontando para o jovem caçador.

– Ele é um Winchester com treinamento vigoroso, Samael. Vai ficar bem. Posso sentar e seguir viagem, Dean? – o caçador pensou se seria bom levá-la consigo. Decidiu, por fim, permitir que ela fosse até o motel.

– O que houve com meu irmão? Por que ele está desacordado?

– Samuel auxiliou uma moça a ir até a casa dela; assim que saiu de lá, foi abordado por muitos capetinhas – Lilith sorriu e continuou: – Lutou bravamente, mas perdeu as forças; foi quando eu o ajudei.

– Nossa... Você me salvou ontem; e deu uma força e tanto para meu irmão hoje... Valeu!

– De nada! – exclamou. Em seguida, deteve seus negros olhos em Samael; verificou, atônita, os dois graves ferimentos no corpo dele. – O que houve?

– Duelei contra Belial, ele não vai mais tentar matar você, fique calma.

– Obrigada! Assim poderei auxiliar vocês na árdua luta que terão!

– Quer mesmo fazer isso? – perguntou Dean.

– Sim, caso vocês me permitam...

– Olhe, não me leve a mal, pelo amor de Deus... Mas eu tive de lidar com sensações estranhas ao aceitá-lo – apontou para Samael. – Porque, afinal de contas, o apocalipse e aquela merda toda foi por causa dele! E, agora, me aparece você! Que me queria longe de Sam, que me queria no Inferno... É muita coisa para lidar! Mas acho que consigo – concluiu, em baixo tom.

– Mesmo? Posso ir embora se quiser...

– Não, imagina, fique, ta bem? – o loiro não parava de olhar para ela. Como sempre usara corpos de garotas que possuía, nunca a viu desse modo deslumbrante.

– Samuel já sabe quem sou eu? – Lilith perguntou para Lúcifer.

– Não, falarei com ele depois.

– Menos mal – suspirou aliviada. – Não quero morrer de novo.

– Não vai – responderam ambos. – Explicaremos tudo a Sam, fique tranqüila – Dean comentou.

E assim a viagem seguiu até o motel. Quando lá chegaram, deitaram o jovem caçador em uma cama. Como não havia nada de bom para comer, o loiro decidiu sair para comprar hambúrgueres, e insistiu que Lilith fosse com ele. Não apenas porque queria conversar com ela, mas também, e principalmente, porque pretendia que o ex-rebelde e seu irmão conversassem com o máximo de privacidade possível. E, sabedora desse fato relevante, a mulher seguiu o Winchester mais velho.