No dia seguinte, Kurt foi até o quarto de Finn. Bateu na porta e entrou, sem esperar a resposta, fechando-a ao passar. Já passava de meio-dia, mas Finn ainda estava deitado na cama, remoendo os fatos da noite anterior. Quinn havia perdido a coroa e estava morrendo de raiva dele. Terminou o namoro novamente através de uma mensagem de celular, que dizia apenas:
"ESQUECE QUE EU EXISTO!"
Finn não precisou de mais para saber que o namoro havia ido para o espaço mais uma vez. Mas não deva a mínima. Pelo contrário, era como se fosse um problema a menos para se resolver. Ele só conseguia pensar mesmo era em como Rachel devia estar culpando-o também, por estragar a festa dela.
Apertou os olhos, desanimado, ao ver Kurt entrar em seu quarto. Lá vinha bronca por aí.
– Não estou exatamente com humor para isso, Kurt.
Kurt parou no meio do quarto de Finn e cruzou os braços.
– Para quê?
– Para que você venha reclamar de mim pela noite de ontem e me dizer que eu arruinei a festa da Rachel. – Finn estava deitado na cama, olhando para o teto, enquanto falava. – Já sei de tudo isso.
– Eu não vim aqui para isso. – Kurt disse. – Porque eu sei que você já sabe. Vim para falar sobre você e Rachel, simplesmente.
Finn finalmente virou a cabeça na direção dele.
– Como assim?
Kurt foi até a cama de Finn e se sentou ao lado dos pés dele.
– Finn... – começou, com um tom de voz calmo. – Eu fiz uma pergunta a você ontem e você não me respondeu.
– Que pergunta?
– Você sabe do que estou falando. – Kurt deu uma pequena pausa, antes de continuar. – Eu te conheço, Finn. Eu sei que você não tá legal com tudo isso. Eu sei que você já se deu conta de que seus sentimentos mudaram... Eu te vi com a Quinn ontem e te vi com a Rachel. Você não tem mais paciência com as futilidades da Quinn e está olhando para Rachel de um jeito diferente. – Kurt falava, mas Finn não dizia nada e também não se mexia. – Estou falando bobagem? – nenhuma resposta. – Me diz. – nada ainda. – Fala alguma coisa logo! – Kurt deu um tapa no pé de Finn.
– Tá, tá, tá legal! Eu confesso! – Finn se sentou na cama e se encostou na parede, de cara feia, fazendo birra. – Está feliz? Era o que queria ouvir? – ele perguntou a Kurt. – Eu gosto dela e ela não está mais nem aí para mim!
Kurt ficou olhando para Finn, incrédulo com a confissão, ainda que fosse isso o que desconfiava. Ouvir da boca dele, no entanto, era outra história. Mas então, depois de passado uns segundos e da informação penetrar sua mente, ele começou a gargalhar descontroladamente.
Finn ficou insultado.
– Mas que droga, Kurt! – exclamou, irritado. – Também não precisa ficar rindo da minha cara, né?
– Ai, meu Deus, Finn... – Kurt tentava parar de rir, mas não conseguia. – Não estou acreditando...
– Bom, pode rir de mim fora do meu quarto, pelo menos?
Kurt colocou a mão na barriga e tentou voltar ao normal. Depois de um tempo, ele conseguiu se controlar mais um pouco, apesar de que a expressão de ofendido no rosto de Finn tornava a tarefa ainda mais difícil.
– Ai, Finn, você é tão imbecil!
Finn ficou boquiaberto com a falta de solidariedade de seu próprio irmão.
– Ah, muito obrigado por me xingar, além de rir da minha cara. Me ajudou muito.
– Rachel é louca por você! – Kurt declarou, sem poder esperar nem um minuto a mais. Já tinha feito tudo o que podia por aqueles dois e eles não tinham chegado aonde deviam, portanto, medidas mais extremas se fizeram necessárias. – Para de ser cego de uma vez!
Se antes Finn estava boquiaberto, agora ele não tinha ideia de como seu queixo não estava encostando na cama.
Rachel era louca por ele? Mas... Como? Quando? Finn estava abismado. Completamente surpreso.
– O que...? – foi a única coisa que conseguiu sair pela garganta dele, e num fraco sussurro ainda mais.
Kurt rolou os olhos, balançando a cabeça.
– Deixa de ser tapado, Finn! Rachel é louca por você. – ratificou.
Ainda confuso, Finn colocou o dedo indicador entre os dentes e mordeu, perdido em pensamentos que não faziam sentido.
– Mas e o Jesse?
– O que tem o Jesse?
– Ela não está com ele?
– Claro que não! – Kurt negou. – Eles são amigos. Ele gosta dela, é verdade, mas Rachel não quer nada com Jesse, nunca quis.
Finn tirou o dedo da boca e passou a mão pelos cabelos, ainda tentando absorver o que Kurt havia revelado.
– Tem certeza disso? – perguntou, com a testa franzida e olhos semicerrados. Queria ter certeza que aquilo não era nenhum tipo de pegadinha de irmão.
– Claro que tenho, eu conheço Rachel há muito tempo, esqueceu?
– É verdade...
– E ela gosta de você há muuuuito tempo, desde que eu me entendo por gente.
Foi então que Finn pareceu se dar conta do que Kurt havia dito.
– Espera. Revelar um segredo assim de sua melhor amiga não é contra as regras da amizade, ou algo desse tipo?
– Bem, é, é... Mais ou menos... – Kurt coçou o queixo. – Mas parecia que vocês não iriam progredir se não houvesse uma intervenção. E, além do mais, só estou te falando porque você gosta dela também, se não fosse assim, não falaria nada.
– Foi por isso que você não falou nada até agora? Porque não sabia que eu gostava dela?
– Uhum. – Kurt confirmou.
– Sei...
De repente, Finn começou a ter uma perspectiva totalmente diferente dos fatos a partir da nova informação. Então era por isso que, desde o começo, ela não se incomodava quando ele a beijava e a abraçava. Era por isso que ela retribuía? Finn havia chegado à conclusão de que Rachel começara a gostar dele também, por isso o beijava de volta com a mesma intensidade. Porém, na cabeça dele, isso passara a ocorrer há pouco tempo. Mas não era assim, ela já gostava dele desde muito antes. Não foi isso que Kurt acabara de dizer?
– Espera um pouco... Escutei errado, ou você disse que ela gosta de mim há muuuuito tempo?
Kurt fez que sim com a cabeça.
– Sim, eu disse.
Finn ficava cada instante mais surpreendido. Será que ele havia sido mesmo tão cego a ponto de não reparar nem que fosse um pouco?
– Então... – Finn começou a dizer, intrigado. – Então por que ela quis me ajudar com a Quinn?
– Ela não quis isso, só aceitou o plano porque queria ter uma chance de que vocês pudessem se conhecer melhor. Ela sabia que sem isso você nunca iria notá-la.
– Sério? – e Finn que achava que as surpresas já haviam acabado. – Ela planejou tudo isso?
Kurt negou.
– Bom, não exatamente. Eu que planejei.
Finn passou as duas mãos pelo rosto, tentando clarear as ideias.
– Espera aí, espera aí! Você que planejou? Kurt, explica direito a história toda. Do começo.
Depois de ouvir o pedido de Finn, Kurt respirou fundo para tomar fôlego. Tinha uma longa história para contar.
Rachel abriu a porta de sua casa e ficou surpresa com o que viu. Não conseguiu dizer nada por alguns instantes. Havia um rapaz parado de pé na porta dela, com um buquê de flores na frente do rosto.
– Jesse?
Tirando o buquê da frente de seu rosto, ele sorriu.
– Surpresa.
Rachel não pôde evitar sorrir também.
– O que é isso?
– Isso... – ele falou, olhando para as flores. – É um pedido de desculpas. – Jesse entregou o buquê para Rachel e ela pegou. – Pelo que aconteceu ontem. Apesar de não achar que a culpa tenha sido minha. Eu estava tranquilamente dançando com você, quando Hudson resolveu atrapalhar.
Rachel enterrou o rosto entre as flores e aspirou a fragrância.
– Está tudo bem. – disse. – Não foi mesmo culpa sua.
Jesse respirou aliviado e colocou a mão no peito, mas de um jeito brincalhão.
– Ainda bem. Estava preocupado.
– Não precisava.
– Eu sei que estraguei sua noite.
Rachel fez um gesto abanando a mão, como que para tirar importância do assunto.
– Esquece. Eu me diverti muito ontem, apesar daquilo. – ela não queria prolongar muito aquela conversa, pois não queria falar de Finn.
– Então... – Jesse colocou as mãos nos bolsos e começou a desenhar no chão com um pé. – Nós estamos tudo bem, não é?
Rachel confirmou.
– Tão bem quanto estávamos antes.
– Ou seja. – Jesse falou, meio desanimado. – Que continuamos sendo amigos. – ele fez uma pausa. – E apenas amigos, certo?
– Certo.
Ele encolheu os ombros, ainda com as mãos nos bolsos.
– Bom... Eu disse mesmo que ia esperar o tempo que fosse preciso, não disse?
Rachel apenas respondeu com um aceno de cabeça. De certa forma, sentia-se mal por Jesse continuar alimentando esperanças, mas não parecia que ele iria desistir tão cedo, por mais que ela falasse que o via apenas como amigo.
– O que você fez depois que eu fui expulso? – Jesse indagou.
– Vim para casa. Eu, Kurt e Mercedes saímos e voltamos para casa. Já estava tarde mesmo.
– Foi uma droga. – Jesse lamentou. – Eu tinha planejado dançar com você noite adentro. E fomos obrigados a ir embora. – Jesse também havia planejado cantar algumas músicas românticas no ouvido dela durante as danças. Um método infalível, que já funcionara diversas vezes antes com outras garotas.
Rachel cheirou as flores mais uma vez.
– Pelos menos serviu para que eu ganhasse flores. Essa é a primeira vez que ganho um buquê de flores, sabia?
– É mesmo?
– Uhum.
– Bom, se é assim, fico feliz pelo acontecido ter me possibilitado ser o primeiro.
– Eu adorei. De verdade, obrigada, Jesse. – Rachel ficou nas pontas dos pés e beijou o rosto do rapaz.
Jesse sorriu de canto e pôs a mão na bochecha, onde ela havia beijado.
– Um beijo no rosto... É, acho que terei que me contentar com isso, por agora. – adicionou e, antes que Rachel pudesse falar qualquer coisa, perguntou: – Por acaso você vai me deixar aqui plantado do lado de fora para sempre?
Rachel se deu conta de que não o convidara para entrar.
– Ai, meu Deus. Que mal-educada eu sou. – ela saiu do caminho da porta, para dar espaço a ele. – Entra, pode entrar. Eu vou colocar as flores num vaso.
– Então ela e o imbecil do St. James não vão para Nova York como um casal?
– Claro que não. – Kurt esclareceu a Finn. – Rachel não está interessada no Jesse, quantas vezes tenho que dizer isso?
– Mas eu perguntei e ela me disse que ia. – Finn acabara de ouvir toda a história sobre Rachel e o plano e também tudo o que envolvia Jesse St. James. Ainda tentava absorver tudo, mas começara a entender um pouco melhor.
– Tem certeza? – Kurt perguntou. – Rachel me contou a conversa que vocês tiveram no auditório e ela não confirmou que estava com o Jesse.
Finn tentou lembrar mais ou menos o que ele e Rachel haviam falado naquele dia.
– Pode ser, mas também não negou.
– Ela estava chateada e achando que não te devia explicações. Sério, Finn, você acha mesmo que ela devia continuar a te tratar super bem, mesmo depois de você ter escolhido a Quinn?
Finn ficou calado, sentindo-se incomodado. Ter escolhido Quinn era algo que até ele mesmo estava achando absurdo. E a lembrança disso o deixava mal, fazia com que ele visse o quanto podia ser idiota. Deixara-se levar por motivos sem importância. Deixara-se cegar por coisas que não valiam realmente a pena. A popularidade era bom, mas o ensino médio não durava a vida toda. Os sentimentos, o carinho, a afeição... O amor. Todas essas coisas podiam durar a vida toda, se fossem bem cuidados.
Mas ele havia sido infantil e imaturo demais para ver além. E tomara o futebol como desculpa para tentar justificar os próprios atos. Finn sabia que, por mais que alguns jogadores ali não gostassem de certas escolhas que ele fizesse, a treinadora Bieste tinha pulso o suficiente para colocá-los em seus lugares. E, no mais, os outros jogadores precisavam do futebol tanto quanto o próprio Finn precisava para chegassem realmente ao ponto de tomar medidas mais drásticas.
Porém, Finn havia se negado a ver isso. Havia se negado a abandonar sua zona de conforto, achando que assim seria mais fácil. Mas foi apenas até ele se dar conta de que nem sempre o mais fácil é o melhor, ou é o que vai te fazer mais feliz.
Chegou a pensar que havia percebido tudo tarde de mais, mas agora talvez as chances dele ainda não estivessem totalmente perdidas.
– O que você vai fazer com tudo o que sabe agora, Finn? – Kurt quis saber. – Eu te contei segredos que fiz pacto de sangue que nunca contaria a ninguém, principalmente a você. Mas eu quero ver a Rachel feliz e, se contei tudo, foi porque decidi que correr o risco valia a pena. No entanto, se você não fizer o que eu achei que faria, que é querer ficar com a Rachel... – neste ponto, Kurt fez uma cara de preocupado. – Então eu estou realmente em problemas.
Eu resolvi deixar a cargo da imaginação de vocês decidir quem foi rei e quem foi rainha do baile, já que não é uma informação realmente relevante. A única coisa que se precisa saber é que não foi nenhum dos personagens principais, como já ficou explicado na própria fic.
