Capítulo 28 – O Sentimento Amizade

- Você está pegando pesado demais com ela. – Disse Gleed em tom de reprovação.

- Não, sei bem como é o jeito dela. Ela aprende rápido e quer ultrapassar a si mesma sempre. É uma combinação perigosa. O desafio precisa ser duro, ou não prende a atenção dela. E além do mais, se alguma coisa acontecer, eu intervenho.

Spark respondeu compenetrado, observando a cena da qual falavam. Ele e Gleed supervisionavam um treinamento de alguns soldados em Astenes. E alguns segundos antes, Spark havia incitado dois enormes ursos com pedrinhas, e os guiado até o grupo, diretamente para Renee. Uma vez próximo a ela, Spark desapareceu nas sombras, e os ursos a atacaram. Renee rolou a tempo de esquivar de uma patada de um urso, mas o segundo se jogou por cima dela, tentando morder seu rosto. Segurando e empurrando o mais forte que pôde, tentava manter os longos dentes fora de alcance. Um enorme machado acertou o animal em um flanco, e ele caiu sobre a vail. O primeiro urso então se atirou contra o guerreiro que empunhava o machado. Com enorme custo, Renee se arrastou de baixo do urso e caído e, com suas garras, retribuiu o favor do parceiro de treino, matando o urso sobre ele.

- Viu, acho que vou provocar quatro da próxima vez... Dois foi muito fácil. – Disse Spark para Gleed, que apenas sacudiu negativamente a cabeça.

Quando se preparava para atrair mais alguns ursos, ouviu a voz de Bolt chamar por eles. O assassino de cabelos vermelhos chegou perto dos outros dois e disse rápido.

- Gleed, Spark, e aí, como está o treino? Olha, sendo objetivo, tem uma pessoa te procurando Spark, e é importante. É uma possível membro para a guilda, mas pediu, se, por gentileza, a entrevista dela para entrar fosse feita por você. Boris está conversando com ela agora.

- E por que exatamente eu tenho que ir lá?

- Tem algo nela que é diferente. Ela não aparenta, mas não sei dizer... Tem algo realmente diferente nela. O olhar dela é...

- Já entendi, é diferente. Gleed, você segura a barra aqui?

- Claro, posso lidar com isso sozinha.

- Também vou ficar para revezar com você. – Disse Bolt com um sorriso torto, retribuído pela assassina.

- Certo, então vou já para Starfumos. Boa sorte. Expliquem para eles.

Com um rápido aceno para Renee, Spark se pôs em corrida. Saltou a encosta da montanha que estavam e escorregou até a trilha. Correu veloz pelo caminho acidentado até a vila, e de lá até o Forte de Arena. Em pouquíssimo tempo já havia cruzado metade da distância. Spark possuía uma velocidade assustadora normalmente, mas quando estava curioso era inda mais rápido. Atravessou a trilha e passou correndo em frente ao templo de Aidion. Em poucos minutos estava em Starfumos. Não tardou avistar Boris sentado no parapeito do monumento central da cidade. Conversando com o general, estava uma vail. Era claramente mulher, suas curvas bem definidas davam a ela um corpo belíssimo. Trajava uma armadura leve, que deixava parte de sua barriga a mostra. Uma brilhante e longa adaga repousava em uma bainha na sua cintura. Seu cabelo negro, preso em longas tranças, escapava por baixo do capacete. Ainda conversando com Boris, ela virou o rosto, e de canto de olho observou a aproximação de Spark. O assassino cumprimentou-os e disse.

- Fiquei sabendo que queria me ver. Aparentemente você sabe quem eu sou, mas eu não sei quem é você. Poderia retirar o capacete?

- Ahh, creio que você sabe. Podemos falar em um lugar mais tranquilo? Boris, foi um prazer lhe conhecer. Certamente nos veremos por aí. – Disse a vail com voz áspera, porém tranquila.

- O prazer foi meu, pode acreditar. – Respondeu o caçador, se pondo de pé e fazendo uma mesura com o punho em frente ao peito.

Spark estranhou, mas diante da reação do amigo, decidiu levar a vail até a porta de sua casa. Uma vez que entraram, Spark encostou a porta. A vail andou pelo corredor retirando o capacete, e entrou na sala. O assassino a seguiu. Quando ela se virou e deixou a luz iluminar seu rosto, Spark de fato reconheceu os olhos castanhos e o rosto rígido da vail. Era Tâmara, uma dos Grandes Sábios. A única dos seis que não era afiliada a nenhuma guilda ou partido, e a mais popular entre eles. Diferente dos outros dois vail anciões, que pareciam velhos como Spark se lembrava ser o oráculo que a muito lhe ajudou com o caso de Gleed, Tâmara era jovem, mais que muitos de sua própria raça. Seu sorriso jovial precedeu sua voz.

- Eu imaginei que me conhecesse.

- Sim, você é Tâmara. Só me perdi aqui. Não é muito comum ter um Grande Sábio me procurando. Aconteceu alguma coisa?

- Não exatamente... Soube que teve um contato estranho com Crush há um tempo atrás. Você o retirou da Re-Connect por quebrar uma regra? Mesmo ele sendo um Grande Sábio?

- Então... Essa história é confusa. Não fui culpa dele. Ok, ele é ingênuo para um Grande Sábio, mas sim, foi complicado. Mas ele entendeu.

- Eu já fiquei sabendo do que houve. Achei uma atitude interessante. Qualquer outra guilda teria mantido ele por perto. Afinal, querendo ou não, o nome de um Grande Sábio traz atenção. E falando em chamar atenção, justamente por isso, o nome de vocês me chamou atenção.

- Como assim? – Perguntou Spark se sentando em uma cadeira de frente para o sofá onde a vail havia se sentado.

- Não é de hoje que ouço falar de vocês. Muitos soldados que me procuraram por auxilio me disseram que algum de vocês já o havia ajudado antes. Descobri que a Re-Connect resolveu muitos dos problemas que antes eu teria que resolver. E agora esse caso. Vocês me mostraram uma coisa que não vejo há muito, muito tempo. Confiabilidade.

- Obrigado Tâmara, é uma honra. Mas ainda não entendo aonde quer chegar.

- Eu gostaria de fazer parte da Re-Connect. Fui informada por Boris que precisava ser entrevistada para tal. Ele me fez algumas perguntas, mas queria te conhecer pessoalmente. Então, pergunte, tudo que quiser saber.

Durante quase uma hora Spark fez perguntas pertinentes ao comportamento dela, ao qual ela se manteve sempre calma e concisa. Spark já a aceitaria, mas uma curiosidade lhe arremeteu. Seu primeiro contato com um Grande Sábio havia sido com um oráculo extremamente velho, o que é estranho para um elfo. Imaginava que todos seriam assim. Mas após ver Crush e Tâmara, começou a duvidar disso. Decidiu perguntar.

- Tâmara, uma última pergunta, e mais pessoal que as demais. Não quero ser muito invasivo, mas, certa vez conversei com um dos anciões, um oráculo. Ele me parecia velho, idoso, como os humanos, e você e Crush parecem tão jovens. Para você é até normal, mas para Crush é também estranho, tendo em vista que ele é nordein. O que pode me falar sobre isso?

- Humm, você não conhece então das tentativas de sua mãe de vencer a guerra? Parece que não... Bom, o caso de Crush é rápido e fácil de explicar. Ele não é puro nordein, ele é filho de vail. Possui sangue imortal correndo nas veias. E até notável pela aparência dele. Já o caso de Arduin, o Grande Sábio oráculo que comentou, é mais complicado. Assim como eu, ele foi um dos primeiros de nossa raça. Por que essa cara de surpresa? Sim, sou mais antiga do que você imagina. Logo quando a guerra estava se iniciando a Deusa sua mãe imaginou que, se possuísse mais força de influência que a Deusa da Luz, ela poderia cobrir o mundo com escuridão. Então, ela bolou o plano de sugar a vitalidade e o poder dos vails, na esperança de se fortalecer. A maioria morreu. Os mais fortes ficaram com aquela aparência, e com pouquíssimo poder. Foi um golpe baixo, que não rendeu resultado.

Spark ficou perplexo. Podia jurar que sentiu o calor da risada da Deusa em sua alma, mas esperava estar enganado. Estava tremendo de raiva. A Grande Sábia apenas continuou sua narrativa.

- Eu escapei desse fardo. Ainda possuo nossa vitalidade. E gosto de pensar que ainda possuo o senso de justiça de nossos antepassados dumianas. Os vails de hoje estão mais parecidos com sua mãe do que no passado.

- Quantos planos sem sucesso minha "mãe" teve antes? – Spark disse mãe com uma careta de contragosto.

- Dois. Acredite, você não vai querer saber do segundo. Mas não fique assim tão irritado. A Deusa da Luz não é melhor, também já usou de certos meios nada ortodoxos para tentar sobrepor o poder das trevas. No fim das contas, ambas são a mesma Deusa. Só disfarçam bem.

Um raio partiu o horizonte, e o vento soprou forte. Tâmara fechou os olhos e sorriu, e com um tom de voz baixíssimo sussurrou um "desculpe, mas ele precisa saber". E o tempo voltou a se acalmar. Voltou a encarar o assassino e perguntou.

- Mais perguntas?

- Não, para mim está bom. Aliás, só uma curiosidade. Fazer parte da Re-Connect não vai te complicar de alguma forma?

- Não. Vocês já fazem o mesmo trabalho que eu há algum tempo. Agora só é oficial.

Spark a estendeu uma bandeira e a recitou as regras da guilda. Tâmara sorriu, prendeu sua bandeira à ombreira de sua armadura e se levantou. Com um sorriso e uma reverencia, disse.

- Se me dá licença agora, preciso resolver alguns assuntos... Meu líder.

- Apenas Spark está bom, Tâmara. – Disse o assassino rindo.

A Grande Sábia riu, e Spark notou que ela havia sido sarcástica. Ele riu, então ficou sério novamente, e voltou a rir. Percebeu que não havia entendido a piada. Guiou Tâmara até a porta, se despediram e ela partiu. Spark notou os olhares dos soldados para a bandeira da Re-Connect na ombreira de Tâmara e os cochichos seguidos. Não deixou de rir. Mal sabia ele que em questão de horas, a Re-Connect ficaria ainda mais em evidência.

No dia seguinte, os generais se encontraram na casa dos irmãos. As notícias voavam. A Grande Sábia Tâmara havia se juntado a uma guilda. A deles. Spark contou aos outros generais o que houve. Quase toda a conversa. A parte sobre a Deusa e seus planos preferiu compartilhar apenas com Bolt. Aproveitando a ocasião, o assassino perguntou.

- Bom, aproveitando que estamos todos aqui, gostaria de saber, o que acham de mais um general?

- Acho que estamos bem finalmente, estamos nos revezando sem sobrecarregar ninguém. Você tem algum nome em mente? – Perguntou Gleed.

- Talvez. Nenhum em evidência. Comentei com Bolt há algumas semanas atrás que Ryuza seria a melhor escolha, mas não está pronta ainda. – Respondeu Spark.

- Concordo. – Disse Bolt.

- Eu também. – Concordou Kang.

- Eu e Ryfalin começamos há pouco tempo, mas não achei difícil. Não tivemos dificuldade nenhuma. – Disse Boris dando de ombros.

- Sim, para colocar alguém só por ter vagas é besteira. Melhor deixar como está. – Disse Gleed.

- Então assunto posto de fora da pauta. Falta um ainda. – Disse Bolt se pondo de pé.

- Qual? – Perguntou Spark.

- Kang, trouxe os itens? Obrigado. Veja, temos alguns itens valiosos da Facção da Luz. Pretende honrar o acordo com a Order Draconis? – Disse Bolt abrindo um saco e mostrando algumas armaduras de humanos.

- Pretendo, mas não tenho contato com nenhum deles há semanas.

- Vá ao mercado negro e mande um mensageiro. Sempre tem alguns por lá querendo lucrar. – Sugeriu Ryfalin dando de ombros.

- Ótimo. Farei isso hoje. Alguém conhece o caminho até lá?

Todos os outros cinco levantaram a mão, e Spark piscou algumas vezes. Por que só ele não sabia como chegar? Boris se levantou e disse.

- Vamos lá garoto das unhas grandes, vou com você até Iris. Quem chegar por último é o grande perdedor, entre os grandes perdedores.

Os generais riram, Spark apenas sacudiu a cabeça, e sorriu, sabendo que de uma maneira ou de outra acabaria apostando corrida com Boris. Então se levantou e, junto do caçador, foi para fora.

Imaginou que haveria de esperar por horas por uma resposta, mas estava enganado. Pouco mais de meia hora depois, o pequeno garoto elfo entrou na escura e suja taberna, e procurou por Spark. O assassino havia despachado o garoto com uma mensagem para Andrius, perguntando quando podiam se encontrar para honrar o acordo, e esperava uma resposta pelo mesmo mensageiro. Pegou o bilhete que o garoto lhe estendeu e lhe entregou uma moeda de ouro. Abriu o papel e leu a seguinte mensagem.

"Salve Spark, fico feliz com seu contato. Eu e Carlus estamos ocupados em algumas questões da guilda e não sei quando ficaremos livres. Entretanto, dois dos meus generais estarão próximos da fronteira treinando um aprendiz amanhã à tarde. Mika e Eruanon, lembra-se deles? Direi a eles para encontrar com você na clareira das larvas, próximo à represa de Karis, logo após o almoço. É um local deserto, será seguro. Darei a eles todos os itens para a troca. Boa sorte."

Spark se lembrava deles. Eruanon era o mago de rosto presunçoso, e Mika era a guardiã misteriosa. Ambos estavam presentes no dia que fundaram o acordo. Sentiu-se ansioso. Guardou o bilhete assinado por Andrius, o lutador líder da Order Draconis, e se dirigiu para a saída da taberna escura.

A manhã seguinte começou cedo para Bolt. Cede demais. Ainda estava escuro quando se pôs de pé e vestiu uma camisa de algodão e a calça negra e vermelha de sua armadura. Esfregou os olhos azuis escuros, bocejou e sacudiu os cabelos. Sentou-se na beirada da cama e apanhou suas grevas negras. Após afivelá-las, calçou as botas negras com detalhes vermelhos. Foi até o suporte de armadura e ficou apenas olhando. Ao lado do peitoral negro e vermelho de aço e ferro jazia uma cota de couro cor de cobre, sua antiga armadura de pagão que fez questão de recuperar. Alisou o couro rapidamente e sorriu. Agarrou o peitoral negro de aço e o apoiou contra o próprio peito. Com agilidade, prendeu as fivelas e apertou firme. Respirou fundo e mexeu os ombros sob o peso do ferro. Com um suspiro, se direcionou até seu armário de objetos para negociar. Estava abarrotado. Pegou uma bolsa em um canto e começou a escolher o que levaria a Iris. Após certo tempo, começou a separar algumas espadas de humanos para Spark levar à fronteira aquela tarde. Deixou em cima da cama, com um bilhete rabiscado. Apanhou sua bolsa e partiu rumo à Iris sob uma fraca luz de sol que começava a nascer através do céu escurecido da União da Fúria.

Spark pegou o bilhete, riu e o amaçou. Apanhou as espadas e as colocou na grande sacola que Kang havia deixado, junto com algumas partes de armaduras e umas gemas de energia, os Lapis. Jogou os cabelos cor de gelo para trás e colocou seu capacete negro na cabeça. O protetor de queixo subia até seu nariz, e apenas seus olhos verdes ficaram visíveis. Olhou pela janela e constatou que o sol já estava quase a pino. Precisava se apressar, já era quase o horário que os humanos chamavam de almoço.

Spark foi recebido pelo grande general do castelo de Raigo com muito respeito. Os poucos dias de Tâmara com sua bandeira haviam espalhado o nome da guilda como areia ao vento. O enorme nordein veterano disse que a fronteira estava tranquila, nenhum esquadrão ou batedor da Luz havia sido visto. "Ótimo, isso facilita" pensou Spark, mas não disse, apenas agradeceu. Saiu em correria pelos portões, deixando um rastro de poeira. Assim que deixou o vale pelas trilhas de marcha dos exércitos, se precipitou para o rio, e o começou a subir pela borda de seu leito. Não demorou muito para avistar a represa do castelo de Karis, a fortaleza da Luz. Subiu a colina e se precipitou para uma pequena clareira de uns 20 metros quadrados. Era camuflada pelas colinas e por grandes árvores aos lados, e pelo paredão da represa acima e atrás. Algumas larvas gigantes faziam ninho nas sombras do paredão e das árvores, o que dava o apelido do lugar. Spark sentou-se por ali longe de uma das larvas que se arrastava pelo chão. Não tardou a ouvir passos se aproximando. Por garantia, se misturou as sombras, e desapareceu de vista.

- Há! Ganhei Mika, ele ainda não chegou. – Disse o mago louro de vestes brancas chamado Eruanon.

A lutadora apoiou o enorme escudo no chão e, com um suspiro, levou a mão à cintura e retirou do cinto uma pequena bolsa de couro. Retirou dela uma moeda de ouro e entregou ao mago, que guardou em um bolso do robe branco. Mas, nesse momento, Spark se fez visível sentado próximo a eles.

- Se estão falando de mim, estou bem aqui. – Disse Spark sorrindo.

Eruanon tirou o sorriso do rosto, e foi a vez de Mika rir. Era um riso contido. Ela estendeu a mão para o mago, que retirou a moeda dada pela lutadora de seu robe e a devolveu.

- Está faltando alguma coisa aqui, não acha? – Perguntou sorrindo a lutadora.

Suspirando e olhando novamente para Spark com desgosto, o elfo deu uma segunda moeda para a lutadora, que as guardou em sua bolsinha de couro.

- Não podia esperar uns cinco minutos para aparecer? – Ralhou o mago.

Spark apenas riu e se pôs de pé. Cumprimentou-os e foi retribuído por mesuras educadas de ambos. Mika retirou seu capacete e Spark enfim descobriu como era seu rosto. Ela possuía cabelos negros curtos e olhos puxados. A lutadora corou ao perceber que o assassino olhava diretamente para ela. Eruanon então riu, e disse com voz arrastada.

- Então... Andrius disse para virmos para cá antes dos compromissos do dia. Trouxemos alguns itens da facção de vocês. Essa sacola com você é o que eu imagino que é?

- Imagino que sim, são espadas e peças de armadura, e alguns Lapis. – Disse o assassino arrastando a sacola até os pés dos dois generais da Order Draconis.

- Você disse espadas? – Perguntou Mika já abrindo o saco e se pondo a revirar os objetos lá dentro.

Spark apanhou a bolsa entregue pelo mago e olhou seu interior. Algumas adagas, algumas luvas e peitorais de armaduras de vails estavam por ali. Notou uma lâmina de machado desencabado também. Fechou o saco e o pôs ao seu lado. Então ele e o elfo mago passaram a encarar com curiosidade a lutadora agachada ao lado da grande sacola revirando os itens e colocando espadas para fora. Eruanon então riu e cutucou Spark com o cotovelo e disse sussurrando.

- Acho que você fez uma criança feliz... Adiantou o aniversário dela!

Spark riu, e foi seguido pelo elfo. Mika levantou os olhos e encarou os dois rindo.

- O que foi?

- Nada! – Respondeu o elfo mago forçando uma cara de inocência.

- Non, de você eu não duvido de nada, e nem adianta fazer essa cara inocente!

- Já disse pra não me chamar de "Non" na frente dos outros! – Disse o elfo perdendo o sorriso. E foi a vez de Spark e Mika rirem.

O assassino ficou por alguns segundos olhando para eles. Nenhum dos três havia se precipitado para sair até então, estavam só parados ali. Será que por educação estavam esperando que ele partisse? Resolveu pegar a própria sacola e se despedir, perguntando por educação.

- Bom, terminamos aqui?

- Creio que sim. – Respondeu o mago.

- Então acho que vou indo. Vocês ainda vão ficar por aqui?

- Sim, Mika e eu tínhamos três tarefas hoje, vir encontrar você, ajudar um novato a treinar e coletar alguns Lapis para a guilda. Dai eu tive a brilhante ideia de fazer as três coisas no mesmo lugar. Vê as larvas? Elas fazem seus ninhos com algumas gemas preciosas do rio e do solo. Se procurar vai encontrar alguns Lapis. E como as pinças delas ainda não oferecem perigo real, vamos usá-las para treinar o novato. Fazemos as três coisas num lugar só! Sim, eu sei, sou um gênio.

- Tirando a parte que fui eu quem tive a ideia. – Disse Mika sacudindo a cabeça.

- Detalhes, detalhes.

Spark riu, colocou a sacola nas costas e imaginou o que aconteceria se o novato tivesse decidido se adiantar e aparecido antes dos generais na clareira. A coisa teria ficado feia... Mas então... Uma nova ideia começou a se formar em sua cabeça e a repuxar seu sorriso torto e sádico. Largou novamente a sacola no chão e perguntou com o sorriso repuxado.

- Ele vai demorar muito a chegar? Ou já está chegando?

Eruanon olhou curioso para o assassino, mas rapidamente começou a mostrar um sorriso maníaco semelhante ao de Spark. E ambos começaram a rir. Haviam criado algum tipo de comunicação silenciosa.

- Isso vai ser épico! – Disse o mago e começou a gargalhar, seguido por Spark.

- O que vai ser épico? Não estou entendendo? O que vocês dois estão aprontando? Spark, não dessa ao nível dele, por favor! – Disse Mika se colocando de pé e fazendo uma cara séria, na tentativa frustrada de controlar os dois.

- Você vigia, quando ele estiver chegando você me avisa, eu me disfarço nas sombras e apareço perto de vocês! – Disse o assassino para o mago.

- Sim, aparece do lado dele! Vai ser muito épico! – Respondeu o mago ainda mais empolgado.

- Ai meus deuses... Sério, eu não mereço vocês! – Suspirou a lutadora massageando as têmporas.

Dito e feito, não demorou muito para o mago dar um sinal que foi entendido por Spark, que imediatamente se misturou às sombras. Mika apenas sacudiu a cabeça em contradição, mas em seu íntimo também queria assistir à pegadinha. Eruanon retornou à clareira com um elfo ranger novato em seu encalço. Timidamente ele se colocou entre os dois generais, fez uma profunda reverência e perguntou.

- Vocês têm certeza que é seguro treinar aqui? E se algum soldado da Fúria aparecer?

- Relaxe, nada vai aparecer por aqui, é completamente seguro! – Disse Eruanon segurando o riso em um tom de voz calma.

- Não precisa ter medo, o que quer que aconteça, não tenha medo. Nada de ruim vai acontecer. – Soou Mika maternalmente enquanto pisava no pé de Eruanon.

Com uma sacudida de cabeça curta em concordância, o ranger se distanciou e se posicionou ao lado de uma larva esperando ordens dos generais. Mas então, uma voz profunda falou próximo de seu ouvido.

- Ora, ora, o que temos aqui... Um soldado da Luz perdido, muito longe de casa.

Ao se virar, os olhos do ranger se arregalaram. Deu de cara com um assassino imponente a poucos centímetros dele, armado e sorrindo. Por alguns segundos o novato sentiu seu sangue congelar e não teve reação. O assassino então se mexeu rapidamente dizendo.

- Buh!

O ranger se virou e correu aos tropeços, sem rumo aparente. Spark o seguiu, mantendo-se próximo dele. Poderia facilmente alcança-lo se quisesse, mas o objetivo era apenas o susto. O elfo fugia desesperadamente. Em puro pânico, tentou escalar a parede sólida e vertical da represa. Obviamente sem sucesso. Olhou por sobre o ombro e viu o assassino se aproximando. Apenas se encolheu no chão e escondeu o rosto. Foi então que sentiu uma mão agarrar seu braço e o puxar para cima. Estava tremendo. Com muito custo abriu os olhos. O assassino ria e o segurava amigavelmente pelo braço e disse em seu dialeto.

- Você deixou cair isso. – Spark estendeu uma adaga curva e brilhante ao jovem elfo.

Eruanon rolava pelo chão apertando a barriga às gargalhadas. Mika deu um novo pisão nele e um tapa na cabeça de Spark. Passou o braço pelo ombro do jovem elfo e explicou a brincadeira e quem era Spark. O assassino deu uma piscadela e um aceno com a cabeça para ele. Mas o ranger passou a manter distância do assassino. Mika tentava ajuda-lo com o treino, pois Eruanon não conseguia parar de rir. Mas era em vão, o ranger o tinha atenção fixa na movimentação de Spark. Em certo momento, Eruanon sussurrou.

- Ei, Spark... Finge me atacar com a garra. Faz cara de mau.

Spark entendeu, segurou o riso e, sacando as garras, deu um grito e se jogou contra o mago. Eruanon caiu no chão com o assassino sobre ele, com as garras presas aos lados. O elfo mago soltou um enorme grito de dor, falso obviamente, enquanto Spark brandia suas garras fingindo empalar o amigo. O novato deu um pulo para trás e gritou.

- Ele não é amigo! ELE MATOU O ERUANON!

Antes que Mika pudesse segurá-lo, o ranger já estava a meio caminho dos portões do castelo Karis em uma correria desesperada. Mika andou calmamente até os dois amigos que rolavam de rir pelo chão.

- Estão satisfeitos? Vocês provavelmente traumatizaram o garoto. Isso era mesmo necessário? Parem de rir!

- Ahh vai, admita, foi épico! Você viu o rosto dele? – Disse o mago em meio às gargalhadas.

- Ok, foi um pouco engraçado, mas coitado, ele queria ajuda! – Respondeu a lutadora em tom culpado.

- Eu o ajudo mais tarde nos calabouços do covil de Cloron. – Disse Eruanon.

Spark se arrumou, aos poucos foi conseguindo deixar o riso de lado. Foi divertido, mas também começou a sentir pena do pequeno elfo. Ficou olhando para o rio que seguia seu leito por alguns segundos, e finalmente disse se dirigindo à lutadora.

- Mika, tome. Leve isso para ele, diga que é um presente, diga para que ele treine duro para honrá-las.

O assassino apanhou suas garras de dente de dragão e soltou-as das presilhas. Estendeu-as à lutadora que as segurou e assentiu com a cabeça. Eruanon ergueu uma sobrancelha e sorriu. Despediram-se amigavelmente e Spark desceu até o rio com a sacola nas costas, seguindo seu leito em direção ao castelo de Raigo, e às terras da União.

Durante o caminho, ouvindo o som da água sobre as pedras, do vento na copa das árvores, não pôde deixar de notar que se sentia bem. Dar suas garras era algo diferente. Tinha muito carinho com elas, ela havia sido instrumento de muitas glórias em suas mãos. Mas estranhamente, pareceu correto dá-las ao jovem ranger. E ainda mais estranho, se sentia bem com isso. Riu de si mesmo e sacudiu a cabeça. Estava amolecendo.