Rosie abriu os olhos, o corpo doía, sentia-se fraca, sua mente rodopiava com as lembranças de ter sido atingida por um jorro de luz verde e depois a escuridão total. Por um breve momento achou que tivesse morrido, mas então sentiu o calor dos lábios de Severus. Fixou o olhar no quarto a sua volta, reconheceu a mobília, as paredes, era o aposento de Snape em Hogwarts. Ouviu um som abafado vindo da peça contígua e viu a figura do marido surgir no limiar da porta. Ele estacou no mesmo instante, seus olhos brilharam. Ela lhe deu um sorriso e ele se aproximou tão rápido que não houve tempo para palavras. Seus lábios se encontraram num longo beijo apaixonado, as mãos de Severus escorregaram pelos seus cabelos castanhos, desceram até o rosto dela, prendendo-o entre os dedos para que não fugisse. Ficaram assim durante algum tempo, que pareceu infinito, os corpos juntos, a sensação de se pertencerem, era tudo o que precisavam sentir.
– Vai precisar mais do que isso para me tirar de sua vida, professor - disse com desdém.
– Tive medo, Rosie, medo de te perder - ele sorriu amarelo enquanto a fitava.
– Obrigada - ela murmurou, seus olhos brilharam.
Snape a abraçou com carinho, era tão bom poder senti-la viva entre seus braços, ver seu sorriso de novo. Era como se uma brisa quente de verão entrasse pela janela e tocasse seu rosto com suavidade. Snape deitou-a sobre seu tórax, acariciou seus cabelos com ternura e Rosie adormeceu aconchegada em seus braços. Lembrou com carinho do dia em que a conheceu, no vagão do expresso de Hogwarts, Rosie derrubara seu livro e suas defesas naquele dia. Conversara com ele, seus olhos eram tão cheios de vida, e ele não teve como não se deixar envolver pela menina de 11 anos, inteligente e sensível. Não havia nada que ele conseguisse esconder por muito tempo de Rosie, por isso quando seus sentimentos se tornaram intensos, se afastou.
Foi tirado dessas lembranças por uma batida na porta, Snape se levantou deitando Rosie nos travesseiros, e foi até a porta. Abriu-a, dando passagem para a Diretora da escola, que lhe deu um sorriso breve.
– Bom dia, Professor - disse com suavidade. - Como está a senhora Snape?
– Fora de perigo, Diretora - crispou os lábios. - Obrigada por sua preocupação.
– Severus - falou com voz firme -, acredito que talvez já saiba que Lord Voldemort foi derrotado - o fitou esperançosa de alguma resposta, mas esta não veio, ela continuou: - Seus seguidores estão sendo presos e mandados para Azkaban.
Severus, atordoado, a encarou, levantou a manga esquerda da blusa e pôde constatar a veracidade das palavras da bruxa. A Marca Negra desaparecera, em seu lugar havia uma leve cicatriz. Minerva o encarou por detrás dos óculos quadrados.
– Bom, Professor - falou com calma -, sabe melhor do que eu o que deve fazer nesse momento. Arthur está esperando-o no Ministério. Vamos! Leve as lembranças de Dumbledore. Rufus está a sua espera também.
Snape olhou da Diretora para a cama onde Rosie dormia serena e virou-se para Minerva novamente. Não precisou pedir nada.
– Fique tranqüilo, ficarei aqui até você voltar, professor - sorriu bondosa. - É uma bela moça. Aonde a conheceu? - imaginou se não tinha ultrapassado o limite da cordialidade com o professor. Ele analisou a situação, pegou sua capa, um frasco com algo prateado dentro do seu armário e ao se dirigir para porta, virou-se momentaneamente para a diretora.
– Rosana é filha de Dumbledore - e se retirou do quarto.
Snape aparatou perto do Ministério e ao entrar pôde ver a figura de Arthur Weasley, que o esperava no saguão. Eles atravessaram os corredores e entraram numa sala com várias cadeiras dispostas envolta de uma mesa de madeira. Nelas estava sentado praticamente todo o corpo de Aurores do Ministério e atrás da mesa de madeira, o Ministro, Rufus Scrimgeour. Caminhou até o centro da sala, lugar onde havia a única cadeira vazia, e sentou. Sob a mesa em frente ao Ministro, havia uma bacia de pedra, similar a usada por Dumbledore. Rufus então se dirigiu até ele.
– Severus Tobias Snape - a voz era clara e firme. - Você foi chamado aqui para apresentar as provas de sua inocência diante deste júri. Caso sejam suficientes será absolvido das acusações que lhe foram imputadas, do contrário, será levado a julgamento aberto. Está ciente disso, professor?
– Sim - disse seco.
Rufus passou às mãos de Severo o vidro contendo as memórias do Diretor de Hogwarts. O Ministro despejou um a um o conteúdo na penseira. Após fazê-lo todos os presentes se revezaram em frente ao objeto de pedra, analisando passo a passo cada uma das memórias. Esse procedimento durou cerca de duas horas, e todo aquele tempo Snape se mexeu frequentemente na cadeira. Por fim, todos retornaram aos seus lugares e as memórias foram devolvidas ao recipiente de vidro. Scrimgeour quis saber dos presentes se gostariam de fazer alguma pergunta pertinente ao assunto, porém todos balançaram negativamente as cabeças. Ele pediu então a Severus que esperasse fora da sala até o final da deliberação do júri. Snape saiu e se juntou ao senhor Weasley. Não trocaram nenhuma palavra, a angústia de Severus era latente. Ao cabo de uma hora depois, a porta se abriu, ele foi convidado a entrar.
– Esse júri torna público hoje, o veredicto de Inocente de qualquer acusação que lhe pese - ele pigarreou -, o senhor Severus Tobias Snape, aqui presente.
Um misto de alívio e satisfação passou pelos olhos de Severus. O Ministro se levantou, apertou a mão do professor de Poções, e Snape teve que aturar uma fila de Aurores apertando amigavelmente sua mão. Ele poderia apostar que muitos ali gostariam de ver sua cabeça servida numa bandeja de prata. "Graças a Albus estava livre, graças a ele também tinha a mulher mais maravilhosa do mundo!" , pensou. Já estava de saída quando ouviu Arthur lhe perguntar:
– O que pretende fazer agora, professor? - sorriu.
– Me enterrar no deserto - e devolveu o sorriso, crispando os lábios.
Deixou a sala num farfalhar de vestes negras.
