Disclaimer: Copyright Jo-Ro.
Anteriormente: A Inglaterra enfrenta uma seca. James começou a namorar Carlotta, mas, apesar da insistência dos outros Marotos, ele ainda não contou a Lily. Lily, Donna, Marlene, os Marotos, o primo de James, Sam, Frank, Alice e mais algumas pessoas vão ao Ministério protestar contra Egbert Dearborn – o novo chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, que é irmão de Sam – e sua política de admitir apenas dois nascidos-trouxas em Hogwarts por ano. Frank adentra o Ministério e é perseguido por uma espécie de capanga, então Alice, James e Lily o seguem sob a Capa da Invisibilidade (que estava guardada no chapéu de James), mas quando seguidos por um bruxo suspeito chamado Falstaff, James revela sua localização para ele.
Chapter 29- "Old, New, Ballroom, and Blue"
Or
"Fire and Rain"
*Fogo e Chuva
"Eu tenho um plano." James olhou para as duas. "Vocês confiam em mim?"
Alice assentiu lentamente, e ele olhou para Lily. Ela hesitou por um momento, e depois também assentiu. "Eu confio em você. Então, qual é o plano?"
"Fantástico." Com isso, ele tirou a capa e enfiou-a no chapéu, junto com o canivete de Sirius e sua própria varinha. "Com licença..." Então, o Maroto abriu a porta, entrou no corredor, dando de cara com os bruxos do Ministério, e ergueu as mãos em redenção. "Tudo bem, vocês nos pegaram."
(Cerca de Dez Horas Atrás)
"Então, aqui é onde Vossa Alteza passa os verões..."
"A gente estava bebendo!"
"É só que... tem sido um dia muito... intenso..."
"Eu sinto muito... eu só... eu não posso..."
Eles não se beijaram.
Eles não se beijaram.
"Eu sou uma garota disposta a tentar qualquer coisa... Suponho que isso se aplique a um relacionamento de verdade também..."
Vozes e imagens inundaram a cabeça de James, fazendo a caminhada até a porta de Lily Evans parecer mais longa do que era de fato. Quando finalmente subiu os degraus da frente, o rapaz hesitou antes de tocar a campainha.
Estava tudo bem. De verdade.
Carlotta era... ótima. E excelente. E maravilhosamente descomplicada, em termos comparativos.
Não seria estranho. Sério... ele não deixaria que fosse estranho. Tinha uma namorada agora, e conseguiria superar Evans, que obviamente não tinha sentimentos por ele. Ela era uma garota – uma garota adorável, maluca e completamente fantástica, mas, mesmo assim, apenas um ser humano. E, do ponto de vista evolutivo, o ser humano foi construído para lidar com a rejeição de seus semelhantes (mesmo daqueles adoráveis, malucos e completamente fantásticos). Não ia ser estranho. Superara Lily Evans completamente.
James tocou a campainha.
Uma eternidade depois, Lily abriu a porta. Ela usava um roupão azul e uma camiseta amarela gigante que cobria o essencial e nada mais. Seus olhos se alargaram ao avistá-lo e a ruiva apressou-se em fechar o roupão de banho.
"Camiseta legal," disse James quase automaticamente.
"Chapéu legal," retrucou ela na bucha.
E foi quando ele se deu conta.
Ou seja, que seria muito mais complicado do que pensara.
Droga.
(Cerca de Oito Horas Depois)
Egbert Dearborn estava mais do que insatisfeito. A placa retangular (e o antigo ocupante de sua mesa) que carregava o nome de seu antecessor estava na lixeira, rindo de sua derrota, e o homem se sentia sem forças para impedir aquilo.
Bem, não era exatamente uma derrota ainda. A Suprema Corte decidiria amanhã. No entanto, só existiam duas opções para Dearborn – retirar-se do cargo de chefe de D.E.L.M. ou admitir o término de sua carreira política.
Os trouxas eram os verdadeiros culpados: os trouxas imbecis e imundos, cuja ganância por magia impediu-lhes de ver (ou de se importar) com o dano que causaram. E eles se amontoavam no Átrio do Ministério da Magia, tentando forçar os outros a aceitá-los... tentando fazê-lo ser despedido...
Dearborn era um ideólogo. Nunca tinha sido uma questão de poder para ele. Crescera em uma casa onde o sentimento de elitismo puro-sangue, para não dizer anti-trouxa, reinava. E agora, em seu breve mandato como chefe do D.E.L.M., estava tentando dar continuidade a essa tradição: a grande tradição. Comensais da Morte e... e seu líder... eram uma reação – uma reação violenta, terrível e que devia ser abominada, certamente, mas era uma reação a uma injustiça social. Se o Ministério pudesse implementar de forma lenta e sutil um plano melhor para os puros-sangues, sem ignorar o problema dos trouxas, mas tentando regulá-lo, então, Vol... bem... os Comensais da Morte se desintegrariam por conta própria, sem um monte de aurores se precipitando pelo país toda vez que alguém via uma figura encapuzada (ou, mais recentemente, uma névoa verde no céu).
Uma batida na porta do escritório de Dearborn lhe disse que o bruxo que chamara havia chegado, e ele respondeu com um estridente: "Entre".
Alastor Moody entrou.
Os dois homens não poderiam ser mais diferentes – Moody, um bruxo grande e robusto, com cabelos selvagens e um rosto marcado pelas batalhas, e Dearborn, um político magro e bem vestido, com uma manicure tão impecável quanto seu pedigree. Egbert não gostava muito do auror.
"O senhor queria me ver?" o chefe dos aurores grunhiu, e Dearborn não sabia se imaginara uma pontada irônica no uso da palavra "Senhor".
"Queria sim, Alastor," respondeu Dearborn, levantando-se de sua mesa. "Eu quero saber onde todos os seus aurores se meteram."
"Eles estão em missão, senhor," disse Moody. "Quero dizer... aqueles que não foram escalados para fazer sua segurança, senhor. Mas está ciente de tudo isso, senhor. Não faz nem duas horas que lhe mostrei os nossos registros."
"Nenhum deles voltou?" indagou Dearborn. "Isso é um absurdo! Estiveram 'em missão' o dia todo. São sete horas da noite, e eles... eles deveriam ter retornado!"
"Mas, Sr. Dearborn... o senhor está no comando deste departamento há algumas semanas. Certamente sabe que é bastante comum meus aurores ficarem fora por dias."
Dearborn corou e tornou a se sentar. "Bem, convoque alguns de volta."
"Sr. Dearborn," disse Moody, e agora soava quase perigoso, "houve um ataque em Birmingham há duas horas. Quinze trouxas testemunharam e há três mortos... é uma situação prioritária."
"Mas todos os seus aurores estão em situações prioritárias?" criticou Dearborn.
"Há quatro em sua guarda," prosseguiu Moody. "Há um que o senhor designou para uma tarefa, e sete estão na casa em Bromley".
"Na casa em Bromley, sim... chame-os de volta! Se não encontraram nada até agora..."
"Há fortes suspeitas em relação à casa," interrompeu o auror. "Há até uma possibilidade de identificarem dois Comensais da Morte. Bom, Sr. Dearborn, imagino que se o senhor os chamasse de volta agora, e a evidência fosse... perdida... não seria o tipo de mancha que gostaria de ter em seu currículo... especialmente agora que está prestes a ser anunciado como chefe permanente da D.E.L.M." Moody franziu a testa. "Posso garantir-lhe, Sr. Dearborn, que os aurores na casa em Bromley estão bastante ocupados no momento, e chamá-los de volta agora seria um... erro inoportuno e insensato."
(A Casa em Bromley)
"Droga, Kingsley," xingou Edgar Bones, quando o cavaleiro de Kingsley Shacklebolt esmagou a rainha de Bones.
"Eu lhe disse que sou o melhor," disse Kingsley, sorrindo. "Sua vez."
A porta da cozinha abandonada se abriu e Lathe, cuja face estava coberta de terra, passou por ela. Ele colocou a varinha sobre a pia e ligou a torneira, espirrando água no rosto.
"Como foi?" perguntou Kingsley, enquanto Bones examinava o tabuleiro de xadrez entre eles. "Sem baixas?"
"Alarme falso," respondeu Lathe. "Não havia nenhum Comensal lá, mas metade do telhado caiu, então..." Ele gesticulou para seu atual estado desgrenhado e sentou-se na cadeira vazia na mesa da cozinha. "Halliday também torceu o tornozelo. Ela está se trocando lá em cima agora. Alguma ideia de quanto tempo precisamos ficar por aqui?"
"Não está se queixando, está?"
"Merlin, não. É melhor que perder tempo com cem pessoas sentadas junto a uma fonte".
"Trezentas," corrigiu Edgar, ainda estudando o tabuleiro de xadrez. "Dearborn acha mesmo que estamos vasculhando esta casa atrás de pistas há quase nove horas?"
"Dearborn não tem instrução suficiente acerca do que um auror faz," disse Kingsley. "Cá entre nós, espero que a Suprema Corte ouça as duzentas pessoas sentadas junto à fonte".
"Trezentas," Edgar corrigiu novamente.
"Ei, ei," interrompeu Lathe. "Alguma notícia de Birmingham?"
"Não," respondeu Bones. "Mas Eckles também foi. Ah, não por nada importante. Eles queriam alguém que manipulasse a imprensa; o pessoal do Profeta fica inquieto quando não consegue com os aurores. Mas não houve nenhum avanço."
Lathe assentiu. Ele observava o tabuleiro de xadrez intensamente e, depois de cerca de um minuto, falou novamente. "Bones, você também pode desistir. Kingsley só está brincando com você. Ele vai te dar um xeque-mate com mais três movimentos".
Edgar olhou para Kingsley, que assentiu.
"Droga, Kingsley."
(O Escritório de Falstaff)
Um laço invisível tinha sido usado para amarrar as mãos deles atrás das costas, e Lily, James e Alice marchavam apressadamente pelo corredor. Além de Falstaff, havia outros três bruxos, um dos quais usava um distintivo de auror.
Eles foram levados ao escritório da Falstaff, que ficava no final do corredor. Era uma sala simples, com paredes bege e sem quadros, e uma mesa de carvalho grande. Tinha uma coruja empoleirada em uma gaiola com um cadeado aberto ao canto, e as persianas sobre a janela atrás da mesa estavam fechadas. Em cima da mesa, uma pena assinava por conta própria uma das muitas folhas de pergaminho empilhadas. Os três receberam ordem de um dos bruxos para ficarem enfileirados sobre o degrau abaixo da mesa, e ficaram lá – as mãos amarradas – como se estivessem diante de um pelotão de fuzilamento.
"Mais três, hã?" murmurou Falstaff. "De vermelho, assim como os idiotas no Átrio."
"Aquela ali," murmurou o auror, meneando a cabeça em direção a Alice. "Seu nome é Griffiths. Ela está no A.T."
Falstaff revirou seus grandes olhos castanhos e pálidos, e aproximou-se da garota, tocando o distintivo em suas vestes. "Evidentemente," murmurou. "E os outros dois?"
O auror simplesmente balançou a cabeça, e os dois outros bruxos seguiram o exemplo. Falstaff aproximou-se de James, olhando-o com atenção.
"Eu já vi você em algum lugar."
"Eu sou onipresente," disse James.
Falstaff começou a dizer alguma coisa, mas então se deteve. Ele se virou para os outros três bruxos e dirigiu-se aos que não usavam distintivo de auror.
"Recolham as varinhas," murmurou, e os outros obedeceram. O homem encarregado de pegar a de Lily era um bruxo baixo e calvo, de cerca de trinta anos, e ele piscou para ela enquanto tateava em busca do objeto.
"No bolso traseiro," retrucou a ruiva. Ele se aproximou, sorrindo, e localizou a varinha. Foi necessária toda a paciência da ruiva para não chutá-lo. O outro bruxo pegou as varinhas de James e Alice e as ofereceu a Falstaff, que balançou a cabeça e apontou para o auror. Elas foram entregues a ele em vez disso, e então Falstaff emitiu outra ordem.
"Encontrem Svilt."
"Svilt está com o outro em sua..."
"Encontre-o e conte-lhe sobre isso."
Os dois bruxos se foram. Enquanto isso, Falstaff ergueu a varinha e dirigiu-a primeiro a Lily.
"Sente-se," ordenou, e, ao lado dela, Lily podia sentir a tensão de James. Ela sentou-se no degrau, e Falstaff apontou a varinha para seus pés. Ele a acenou uma vez, e a garota sentiu os músculos das pernas emperrarem e os tornozelos ficarem presos, como acontecera com seus pulsos antes. Eles estavam presos. "Sente-se," disse Falstaff a James, e ele também obedeceu. Falstaff repetiu o feitiço no jovem. Sem precisar ser ordenada, Alice também se sentou, mas Falstaff balançou a cabeça.
"Acho que não, senhorita A.T.," disse ele com um sorrisinho. "Você..." Falstaff olhou para o auror, e Lily achou ser bastante intencional que não estivesse se referindo a ele pelo nome (o que era igualmente encorajador e desconcertante, pois parecia significar que havia chance de que os três pudessem posteriormente repetir qualquer coisa que descobrissem). "Os A.T. estão em recesso. Ela não tem o que fazer aqui. Você a acompanhará até a saída do prédio."
O auror assentiu, e, agarrando Alice pelo braço, a conduziu – sem gentileza – em direção à porta. Falstaff fez menção de segui-los, mas virou-se e olhou para Lily e James, sorrindo novamente.
"Não saiam," disse ele, sabendo que aquilo era pouco provável. "Eu voltarei em um instante. Não se importam se eu trancá-los, não é?"
"Espere," disse Alice depressa e em voz alta, de perto da porta, onde se encontrava. Ela se soltou do aperto do auror e estava do lado de James antes que alguém pudesse reagir. A bruxa se inclinou e beijou-o no rosto, assim que o auror a alcançou e a guiou de volta para a porta. O auror foi mais rude desta vez ao escoltá-la para fora do escritório.
"Namorada, hã?" Falstaff zombou de James. "Pessoalmente, pensei que você combinasse mais com a ruiva." Ele seguiu o auror e Alice. A porta se fechou, e então houve um clique adicional, enquanto Falstaff evidentemente a trancava do lado de fora.
Lily e James ficaram sozinhos. Houve um momento de silêncio, antes de James falar.
"O.k., Snaps..." começou ele, mas Lily já lutava para passar os braços por baixo dela, de modo que não estivessem mais atrás de suas costas. Levou dez segundos para conseguir, e James ficou impressionado. O rapaz estava prestes a comentar, mas foi distraído pelo fato de ela agora estar batendo em seu braço com a lateral de seus punhos amarrados.
"ESTE... ERA... O... SEU... PLANO?"
"Ai! Pare... pare com isso! Evans!" James tentou se afastar, mas suas mãos ainda estavam atrás das costas e suas pernas eram inúteis, então não era fácil. "Eu nunca disse que era um bom plano!"
Lily parou de batê-lo. "Está de brincadeira, seu IDIOTA?" Ela começou a acertá-lo novamente.
"AI! Lily! Por favor! Não temos muito tempo!"
Lily mais uma vez cessou o ataque, permitindo que ele tirasse as mãos de trás das costas. Mas a ruiva continuou a examiná-lo com ar de suspeita.
"Este era o seu plano?" bradou novamente.
"Provavelmente não foi o melhor que já tive..." admitiu James.
"Foi o seu pior?"
"Eu não acho que isso seja relevante".
"Isso real e verdadeiramente me aterroriza, James".
Mas James já estava ocupado trabalhando. Ele tirou o chapéu e disse: "Moony, Wormtail, Padfoot e Prongs," e só então que Lily percebeu algo.
"Sua varinha – você a colocou no chapéu. Então, o que foi que eles pegaram?"
"Uma imitação. Eu sempre disse que varinhas falsas eram sem graça, mas na situação correta..." Ele colocou cuidadosamente o chapéu entre os joelhos e levantou a aba para que pudesse localizar o que escondera lá mais cedo.
"Por que estava carregando uma varinha falsa?" indagou Lily, enquanto ele revirava o chapéu.
"Eu não sei o que possuiu Sirius para trazê-las," admitiu o Maroto. "Mas ele, Remus, Pete e eu tiramos uma do chapéu dele quando decidimos entrar na rede da Fênix. Aqui está..."
James localizou sua varinha e apontou para as pernas de Lily, murmurando o contrafeitiço para o encantamento das pernas presas. "Eu não sei o feitiço que usaram em nossas mãos," acrescentou ele, olhando para ela com esperança.
"Tente finite incantatum. Geralmente funciona para coisas assim, não é?"
James tentou, e, felizmente, funcionou. Ele libertou as próprias pernas, e então entregou a varinha à ruiva para que soltasse seus pulsos. Lily hesitou.
"Não tem graça, Snaps".
"Está bem, mas você merecia. Finite Incantatum."
Totalmente livre agora, James pegou a varinha de volta e apontou para dentro do chapéu novamente. "Eu te disse que era um chapéu legal," acrescentou, e Lily revirou os olhos. "Accio espelho."
O espelho de comunicação voou para fora do chapéu e ele o pegou.
"Não devíamos sair daqui primeiro?" perguntou Lily, esfregando os pulsos machucados.
"Isso primeiro," murmurou James. "Não sabemos quando ele voltará, pode não haver tempo suficiente para escapar. E isso é mais importante. Sirius Black!" Ele disse alto para o espelho. Nada aconteceu, e o espelho permaneceu escuro.
"Por que precisa falar com Sirius?"
"Alice me contou o que Frank precisava dizer a Moody."
Algo clicou no cérebro de Lily. "Quando ela te beijou. Ah, Merlin, isso faz muito mais sentido". Ela estava meio que esperando um, "O que foi? Ficou com ciúmes?" de James, mas ele não disse nada, a não ser repetir o nome para o espelho.
"Deveria estar no chapéu dele. Por que não está respondendo?" murmurou James. "Sirius! Sirius Black!"
Os dois pairaram sobre o espelho, ouvindo e observando, mas ninguém apareceu. Houve um som abafado que poderia ter sido uma voz, mas nenhum deles conseguiu distinguir qualquer palavra com nitidez.
"Vamos, vamos," sussurrou Lily para ninguém em particular. "Tem certeza de que está com ele?"
"Sim, ele o usou esta manhã – lembra?"
"Sim."
"Sirius!"
Ainda assim, nenhuma resposta.
"Qual era a mensagem de Frank, então?" perguntou Lily enquanto esperavam.
James franziu a testa. "Ele deveria dizer a Moody que 'mande-os entrar.'"
"Mande-os entrar?" repetiu Lily. "O que exatamente Alice disse?"
"Ela disse 'Vance diz a Moody para mandá-los entrar.'"
"Mandá-los entrar... mandá-los entrar..." murmurou a ruiva, R recostando-se na mesa atrás dela, enquanto James continuava sua batalha com o espelho de comunicação. "Acha que ela se referia aos aurores?"
"Eu não sei. Por que Vance ia querer trazer os aurores?"
Lily franziu a testa pensativamente. "Talvez... talvez ele queira que todos sejam capturados pelos aurores!" concluiu ela. O rapaz arqueou uma sobrancelha. "Por que não? Qual é a pena? Uma multa, talvez? Se Vance acha que os bruxos do esquadrão sob o comando de Dearborn vão fazer algo ilegal, interrogar as pessoas ou algo assim, talvez ele queira que os aurores entrem e lidem com eles, porque este cara de Moody está no comando, e ele vai registrar tudo."
James assentiu lentamente. "Isso realmente faz sentido. Sirius idiota Black!"
Mas além do som vago e abafado, continuou a não haver resposta alguma. Lily suspirou, olhando ansiosamente para a porta.
"Falstaff pode voltar a qualquer momento, James. Fale a mensagem... talvez ele escute..."
"Acho que não tenho muita escolha. Padfoot, é James," falou ele com bastante clareza, como que se referindo a uma criança. "Estamos no segundo andar... no D.E.L.M. No escritório de um cara chamado Falstaff. Estamos eu e Lily... Alice está sendo escoltada para fora do prédio, pois a reconheceram como A.T. Vance disse a Frank para mandar os aurores entrarem, mas você precisa dizer a Vance que a mensagem não foi entregue, e ele precisa encontrar outra maneira de entrar em contato com os aurores. Repetindo, caso você seja um babaca: a mensagem de Vance não foi entregue. Achamos que Frank foi interceptado..."
"E está com um cara chamado Svilt!" acrescentou Lily.
Eles pararam e aguardaram, esperando ouvir algum tipo de resposta. O que ouviram, porém, foram passos no corredor.
"Merda," xingou James. "Espero que ele tenha ouvido." Mas o rapaz já estava jogando o espelho e a varinha dentro do chapéu, antes de fechar prontamente a aba e recolocá-lo sobre a cabeça. Ele e Lily retomaram às posições que estavam antes de escapar dos laços, mas enquanto os passos se aproximavam, James agarrou o ombro dela de repente, virando-a para encará-lo. "Se eles perguntarem seu nome, diga que é... diga que é Felicity McKinnon."
"Por quê?"
"Sangue-puro. Eles liberaram Alice porque achavam que ela era muito bem relacionada, e se souberem que você é nascida trouxa, terão muito menos cuidado com seu bem-estar. Está bem?"
Lily assentiu.
"Fantástico."
A fechadura abriu-se magicamente, e James retomara a posição de falso cativo quando a porta se abriu.
Falstaff entrou, sozinho desta vez. Ele fechou a porta e caminhou até os adolescentes, agachando-se na frente deles para ficar no mesmo nível. "Agora," começou com uma voz suave, "você, garoto, como se chama?"
"Quem está perguntando?" retrucou James.
Falstaff cutucou seu pescoço com a varinha. "Seu nome," repetiu, a falsa cordialidade desaparecendo.
"Tom Baker."
Custou cada grama de força em Lily não olhar para James naquele instante. Do que, em nome de Merlin, ele estava brincando?
"Não conheço nenhum 'Baker.'"
"É de se esperar. Minha família é trouxa."
Falstaff o encarou por um momento, como se o medisse, e então se virou para Lily. "E você?"
Felicity McKinnon, James havia dito. Felicity McKinnon.
"Lily," disse ela. "Lily... Deslauriers."
"E eu conheço algum Deslauriers?" perguntou Falstaff.
"Você conhece algum florista da East End?"
"Nascida-trouxa."
"O que um sangue puro estaria fazendo protestando pelos direitos dos trouxas?"
Falstaff bufou e depois endireitou-se. "Você ficaria surpresa," murmurou. Ele começou a andar, e quando estava de costas para os dois adolescentes, James lançou um olhar furioso na direção de Lily, e ela o chutou.
"A pergunta, é claro," disse Falstaff, circulando-os, de modo que os dois tiveram que retomar suas posições e expressões neutras, "é o que exatamente vocês estão fazendo aqui?" Seus olhos deslizaram de Lily para James e voltaram para Lily novamente. "Senhorita Deslauriers?"
Com o máximo de habilidade, Lily escondeu o fato de estar engolindo seco e de repente desejou ter combinado uma história com James nos breves momentos em que estiveram a sós. No final, ela optou pela quase verdade. "Estávamos procurando nosso amigo."
"O Sr. Longbottom," disse Falstaff com ar de quem sabe das coisas, então, talvez Frank tivesse sido levado. "Uma grande perda de tempo, minha querida. Seu amigo não está correndo risco conosco. Somos o Ministério da Magia. Estamos aqui para proteger."
"Mesmo depois do expediente?" questionou a ruiva. Falstaff não respondeu. Ele continuou a fitá-la com curiosidade.
"Como vocês dois passaram pelos portões no Átrio?"
"Feitiço de Desilusão," improvisou Lily.
"E para onde estavam indo?"
"Resgatar nosso amigo, já lhe dissemos."
"E o que ele estava fazendo nos escritórios?"
"Como eu vou saber? Só o vi sair e ser seguido. Não perguntei o motivo."
Falstaff vacilou antes de fazer outra pergunta. "Eu não acredito que alguns adolescentes entraram no Ministério atrás do amigo sem saber o porquê."
"Nós vimos seu colega com o rabo de cavalo segui-lo," disse James. "Algumas pessoas na multidão sabiam que ele era amigo de Dearborn. Dois mais dois."
"E o que têm contra Dearborn?"
"O que ele tem contra os nascidos-trouxas?" indagou Lily. Falstaff arqueou as sobrancelhas.
"Senhorita Deslauriers," começou ele, "você estava invadindo o Ministério. Eu poderia tê-la prendido."
"Poderia e deveria. Por que não prendeu?"
"Porque tenho perguntas a fazer primeiro."
"Que perguntas?"
"Como foi que conseguiram passar pelo guarda no portão?"
"Ela já lhe contou," disse James. "Deixe-a em paz, está bem?"
"Você dificilmente entregaria a verdade tão facilmente."
"Eu sou muito verdadeira."
Falstaff hesitou. O castanho em seus grandes olhos era tão pálido, que era quase bege, e havia algo desconcertante em ser observada por eles. "Quem vazou a Lei de Proteção à População Mágica para O Profeta Diário?"
Lily não teve que fingir surpresa com a pergunta. "Como eu iria saber? Eu só descobri tudo lendo o jornal, como todo mundo."
"Eu não acredito em você".
"Bem, é a verdade!"
"Você acredita que todos que estavam no Átrio hoje sabem a resposta para essa pergunta?" interveio James. "Ou que alguém sabe? Sério, acha mesmo? Porque se achar, deve ser mais burro do que eu pensava."
"Tom," bradou Lily em advertência, e ela queria chutá-lo novamente, mas Falstaff teria visto
"Sr. Baker," começou Falstaff friamente. "Não tenho ideia do que você sabe. Mas vou descobrir, e não será difícil."
"Devemos acreditar que você vai nos torturar?" perguntou James com ironia, e Lily observou a reação do bruxo mais velho com atenção. Infelizmente, ele sorriu.
"Claro que não," disse Falstaff. "Mas meu amigo, Sr. Svilt, é muito mais criativo do que eu em seus métodos de interrogatório. Mais uma vez..." Ele falou com James, mas apontou a varinha para Lily: "quem vazou a Lei de Proteção à População Mágica para O Profeta Diário?"
Desta vez, James hesitou antes de responder, e Lily teve tempo suficiente para murmurar, muito rapidamente: "Ele-não-atacará. Ele-vai-chamar-Svilt."
"Silêncio," ordenou Falstaff, empurrando a varinha violentamente contra a testa da garota. Lily tentou não parecer completamente aterrorizada. "Sr. Baker?"
"Nenhum de nós sabe," respondeu James. "Honestamente, estávamos apenas procurando por nosso amigo."
Falstaff analisou o bruxo diante dele. Sem retirar a varinha da testa de Lily, ele estendeu a outra mão e pegou o chapéu de James. "É um chapéu muito legal," zombou, girando-o desajeitadamente com uma mão. "Agora, pela última vez... quem, Sr. Baker?"
"Eu não sei," disse James com dureza.
Embora a intenção fosse, sem dúvida, irritar James, Falstaff não tinha noção de como preocupou os adolescentes ao colocar o chapéu em sua cabeça. Sua varinha ainda estava sobre Lily, e ele murmurou algo em voz baixa enquanto a acenava.
A cem milhas de distância, a voz de James falou o nome de Lily, mas o mundo escureceu para ela. Antes de a inconsciência a dominar inteiramente, dois pensamentos percorreram sua mente: primeiro, o reconhecimento do fato de que tinha sido estuporada; segundo, que sinceramente esperava que James não se esquecesse de agir como se suas mãos e pernas estivessem presos.
Lily despertou, e James suspirou aliviado. "Graças a Merlin," murmurou ele quando os olhos dela se abriram. "Você está bem? Pelo amor de Agrippa... o que ele estava pensando, estuporando alguém àquela distância? Você poderia estar seriamente..."
"Suas mãos," murmurou Lily com a voz rouca, pois James estava – o mais gentilmente possível – ajudando-a a se sentar. Ele a encostou contra a mesa.
"Quê? Ah, Falstaff ainda não voltou," explicou, olhando em reflexo para a porta do escritório.
"Faz quanto tempo?" Lily esfregou a testa cautelosamente.
"Cerca de dez minutos. Acho que ele foi buscar Svilt. Aliás, você tinha razão: Falstaff é covarde demais para fazer qualquer coisa. Ele é... qual é o problema?"
Pois Lily agora o olhava com uma luz bastante intimidante em seus olhos.
"Está zangada porque eu não disse a verdade quando ele estava com a varinha apontada para você?" adivinhou James com preocupação. "Escute, eu..."
"Você estava tentando se livrar de mim," interrompeu ela.
"Hum." James franziu a testa. "Está bem, é óbvio que não funcionou direito, e... você vai me bater de novo, ou vai me deixar explicar?"
"Explicar? Explicar o quê, TOM IDIOTA BAKER?"
"O.k., eu entendo o motivo de estar brava..."
"Brava?" rugiu Lily, levantando-se. "Eu estava brava há vinte minutos! Estou furiosa. Eu quero te matar!"
"Você precisa se acalmar e me ouvir," disse James. "Há..."
"Não diga para eu me acalmar. Não fale como se eu fosse uma criança, especialmente não depois desse golpe. Se sairmos dessa, nunca mais vou falar com você de novo. E sabe por quê?"
"É..."
"Porque você estará morto, e eu não falo com gente morta!"
"Por princípios ou apenas por hábito?" perguntou James, também se levantando.
"Não venha com gracinha para sair dessa. Eu vou mesmo te matar."
"É mesmo, Senhorita Deslauriers? Falando nisso... Lily Deslauriers? E seus parentes são floristas de East End? Estou surpreso que ele não tenha percebido de cara! Não podia dizer 'Smith' ou 'Jones' como qualquer ser humano normal faria?"
"Bem, me perdoe por ter imaginação!"
"Bem, me perdoe por tentar tirar você disso sem uma prisão em sua ficha!"
"Bem, eu te perdoo!"
"Bem, está ótimo!"
E então ambos se calaram.
"Não posso acreditar que ele pegou meu chapéu."
"Será que conseguirão ter acesso a ele?"
"Duvido que tentem," murmurou James. "Falstaff só pegou para me irritar. Mas mesmo que eles deem uma olhada, é preciso uma senha para abri-lo."
"Moony, Wormtail, Padfoot e Prongs," Lily deu-se conta, lembrando do que ele dissera mais cedo. James assentiu. A garota suspirou, cruzando os braços. "Precisamos encontrar uma forma de sair daqui. Alguma ideia de quanto tempo nós temos?"
"Não," respondeu ele, claramente ainda muito irritado com a perda do chapéu. "Achei que ele já devia ter voltado."
"Onde exatamente ele foi?"
"Chamar esse tal de Svilt, eu acho," disse James. Ele começou a andar e não foi até a porta, então Lily presumiu que já deveria ter feito isso enquanto ela ainda estava inconsciente.
"Svilt está com Frank," murmurou Lily para si. "Talvez precise encontrar alguém para ficar com ele enquanto usa Svilt conosco."
"Talvez. Mas por que não liberariam Frank, como fizeram com Alice? Ele também está usando as vestes de A.T."
Mas Lily não tinha uma resposta adequada para aquilo. Ambos ficaram calados por um tempo. James vasculhou as gavetas da mesa, possivelmente procurando uma varinha extra ou algo que pudessem usar para fugir. Infelizmente, o escritório parecia não ter nada útil.
"Ouça, Snaps," começou ele, tornando a se sentar no degrau. Lily olhou para ele, as sobrancelhas erguidas. "Quando Falstaff voltar... você pode... pode simplesmente dizer que seu nome é Felicity McKinnon?"
"É um pouco tarde para isso," retrucou Lily, irritada.
"Bem... bem, então podemos fazer parecer que estou te delatando ou algo assim."
"Potter..."
"Não, escute... se ele tiver com nós dois, pode usar um contra o outro, e..."
"James, relaxe – aposto dez galões que o pior que podem fazer conosco é nos dar um gole de Veritaserum. É mais seguro e eficaz, de qualquer maneira."
O bruxo não pensara nisso. "Mesmo assim," murmurou ele, "Eu me sentirei extremamente culpado se você tiver danos cerebrais por ser estuporada daquela forma, e seria tudo minha culpa, porque..."
"Não é culpa sua," interrompeu Lily. "Está bem? Eu fiz você me trazer, e eu assumi os riscos. Então, mais uma vez, pare de me tratar como uma criança, e vamos fazer algo um pouco mais produtivo."
"Como o quê?"
"Bolar um novo plano, para começar."
"Bem, me livrar de você era uma espécie de Plano B para mim."
"Muito obrigada," disse Lily, revirando os olhos. "E qual era exatamente seu plano A? Ficarmos trancado em um escritório?"
"Bem, eu meio que torci para que nos jogassem com Frank, assim ao menos alcançaríamos nosso objetivo de encontrá-lo, não é?"
"Bem, não jogaram."
"Já admiti que não foi meu melhor plano, Snaps."
"O.k."
O tempo passou; Lily não sabia quanto passara, mas foi o suficiente para gerar a sensação de que o retorno de Falstaff estava próximo. Eles estavam no escritório por cerca de uma hora quando a ruiva fez a pergunta que mais a incomodava.
"Você não acha que algo aconteceu, não é?"
"Com Falstaff?"
"Não, com Frank."
"Por que acha que aconteceu algo com Frank?"
"Eu não acho. Mas..."
"Bem, então, não vamos falar sobre isso".
"Está bem."
Lily sentou-se na cadeira, as pernas apoiadas na superfície da mesa, e James inclinou-se contra a mesa, de costas para ela; podia sentir seus olhos sobre ele e gostaria que não tivesse levantado a possibilidade de algo estar acontecendo com Frank. Aquilo o fez se sentir ainda mais inútil, sentado ali daquela forma.
Era cerca de sete e meia agora. Alice dissera que nesse momento o Átrio ficaria suficientemente vazio para que o esquadrão agisse (se aquele fosse, de fato, o plano deles). É claro que fora um dia cheio... e talvez houvesse mais tempo. Ou talvez Sirius tivesse ouvido a mensagem, e os aurores viriam...
"Então, como foi na Casa de Praia?" perguntou Lily de repente.
James olhou sem acreditar para ela. "Está falando sério, Evans?"
"Bem, o que mais temos para fazer? Nossas varinhas e seu chapéu se foram, a porta está enfeitiçada, e acho que você está sem planos."
James suspirou pesadamente. "Tudo bem. Foi bom."
"Só isso? Bom?"
"Bom, adorável, fantástico... o que você quer de mim?"
Ele se levantou e cruzou os braços, voltando a andar de um lado para o outro. Lily o observou, franzindo a testa.
"Está zangado comigo?" perguntou ela por fim, mais por curiosidade do que qualquer outra coisa.
"Não."
"Bom, está mentindo."
"Eu não estou zangado com você."
"Está claramente irritado."
"A gente pode não fazer isso agora?"
"Fazer o quê? Eu não sei o que estamos fazendo! Você está mal-humorado e ansioso, como esteve o dia inteiro ao meu lado, e eu não tenho a menor ideia do porquê, pois pelo que eu saiba, foi você quem pulou diante das pessoas que supostamente estavam nos perseguindo e disse: 'Tudo bem, vocês nos pegaram.'"
James abriu a boca para responder, mas se deteve. Ele parou e suspirou. Ela tinha razão. "Você está certa. Desculpe. Eu só estava..." ele parou de falar, perguntando o que exatamente estava fazendo. "Me desculpe," repetiu. "As férias foram... muito legais. Fantásticas, de verdade. E as suas? Como esteve desde..." (um momento de desconforto, ambos admitiram) "...o casamento da sua irmã?"
"Bem, eu acho," murmurou ela, pensando brevemente em um sonho que agora tivera duas vezes com um James sem camisa. "Nada muito emocionante. Ah..." ela se lembrou, "fui nomeada monitora-chefe."
James ergueu os olhos, mas não parecia surpreso. "Sim, Remus me disse. Isso é... ótimo..."
"Eu não sei se é, na verdade".
"Por quê?"
Lily deu de ombros. "Não sei. Estou ansiosa com relação ao monitor-chefe."
Confuso, James levantou as sobrancelhas. Ela já sabia? "O que quer dizer?"
"Bem, não é Remus. Eu esperava que fosse ele. Mas não é, e não é o monitor da Corvinal – eu o escrevi para perguntar – e perguntei a Benjy Fenwick hoje, e ele disse que não recebeu o distintivo, então não sei quem mais poderia ser, exceto o monitor da Sonserina. E é Snape."
"Ah. Hum... Evans..."
"Eu sei," interrompeu ela. "Não parece provável, mas o monitor-chefe é sempre um monitor, e ele é o único que resta! E não quero trabalhar com Snape. Não quero... pensar nele ou olhar para ele ou... ter que lidar com o fato de que, durante anos, ele foi meu melhor amigo, e agora ele é..." Ela parou de repente. "Eu não posso acreditar que achei que poderia me reconciliar com ele, ou salvá-lo ou sei lá o quê. Eu pensei que..." mas, mais uma vez, ela parou. "Enfim, acabou, e não quero mais ter que enfrentá-lo. O que é... quero dizer, é incrivelmente egoísta. Se ele merece ser monitor-chefe, ele merece, e eu não deveria desejar-lhe mal, só porque não suporto mais ficar perto dele. Entende?"
"Chocantemente, sim," murmurou James, engolindo em seco.
"De qualquer forma, suponho que ele mereça," prosseguiu a ruiva. "Apesar de suas falhas, ele é bastante inteligente. Certamente não consigo pensar em alguém que merece mais..."
"Snaps..."
"E se ele foi escolhido, ele foi escolhido, e não há nada que eu possa fazer, não é?"
"Mas, Evans..."
"Eu só... acho que estou com medo de que trabalhar com ele me faça começar a sentir que posso... sei lá... resgatá-lo, de alguma forma, o que eu sei que é errado, mas..."
"Eu sou o monitor-chefe," confessou James quando achou que não conseguiria ouvir qualquer outra palavra do discurso da garota. Ela olhou para ele, confusa.
"Quê?"
"Eu sou o monitor-chefe."
Ela suspirou. "James, você tem sempre que fazer gracinha?
"Não, eu sou mesmo o monitor-chefe."
Lily levantou as sobrancelhas.
"Não. Sério," repetiu com seriedade. "Eu sou monitor-chefe. Eu não... não faço ideia de como ou por quê, mas recebi o distintivo com minha carta de Hogwarts. Eu sou... eu sou o monitor-chefe."
Por alguns segundos, Lily não acreditou nele. Então, ela acreditou. A ruiva colocou a mão sobre a boca. "Ah-meu-deus-eu-sinto-muito!"
E, por algum motivo, James achou aquilo extremamente engraçado. Ele começou a rir, e Lily também, embora estivesse cobrindo o rosto com as mãos com vergonha enquanto fazia isso.
"Eu sinto... sinto muito," sussurrou ela. "Eu... nunca pensei..."
"Que alguém à beira da expulsão seria monitor-chefe?" indagou James. "Sim, eu também não. Não faz sentido..."
"Não, é... faz sentido..."
"Ah, pare de tentar salvar a situação," zombou James, divertido. "É claro que não faz sentido! Não faço o tipo monitor-chefe! Sou um depravado obcecado por quadribol que quebrou praticamente todas as regras que existem. Isso não faz absolutamente sentido nenhum, e você sabe disso."
"Pare de romantizar seu mau comportamento," repreendeu Lily. "Você salvou Snape no ano passado, provavelmente por isso que foi nomeado."
James deu de ombros. "Ou Dumbledore está rindo da minha cara, o idiota," disse ele, revirando os olhos. Ele tentou mais uma vez abrir a porta trancada, sabendo que era inútil, e então encostou-se nela, as mãos nos bolsos e as pernas cruzadas sobre os tornozelos. Ali, James estava bem de frente a Lily, que tirara as pernas da mesa e agora sentava mais normalmente na cadeira. "Queria estar com meu chapéu," murmurou ele, sem motivo algum, exceto que aquilo lhe ocorreu.
Lily assentiu, a melancolia retornando. Ela deslizou sobre a mesa, o queixo sobre a palma da mão. "Vamos torcer para que Sirius tenha recebido a mensagem."
"Sei não," prosseguiu James, mais para si. "Talvez eu pudesse derrubar a porta... especialmente se Falstaff não estiver voltando logo".
"Com o feitiço de tranca?" perguntou Lily com ironia. "Pouco provável."
"Não sei se ele usou um feitiço de tranca," disse James, virando-se para examinar a porta. "Ele pode apenas tê-la trancado. Eu só ouvi o clique."
Lily levantou-se da mesa. "Ele não usou... por que não usaria um feitiço?"
"Ele pensou que estávamos imobilizados," lembrou James. Lily pegou-o de surpresa ao aparecer de repente ao seu lado. "Talvez pudéssemos usar a mesa para empurrá-la... ou, ei, você não disse que sua primeira magia acidental foi fazer uma porta voar das dobradiças? Será que pode fazer isso por querer?" Ele olhou para ela, sorrindo, mas a expressão de Lily era pensativa. "O que foi? Você consegue?"
"Posso conseguir," respondeu ela. "Mas não da maneira que você está pensando."
Ela se virou e voltou depressa para a mesa.
"Eu já olhei aí," lembrou James. "Não há nada além de tintas, pergaminho e livros."
Lily abriu cada gaveta, afastando o conteúdo em busca de algo que o rapaz não sabia do que se tratava. Por fim, sem encontrar o que fosse que procurava, a ruiva se endireitou, afastando o cabelo do rosto em frustração.
"Preciso de algo como uma... uma chave de fenda..."
"Uma o quê?"
"Uma chave de fenda."
James enviou-lhe um olhar confuso.
"Sabe... ferramenta de trouxa. Cabo de plástico ou madeira, bastão de metal longo, com uma cabeça... você usa para arrancar ou desenroscar coisas... não? Não frequentou estudo dos trouxas?"
"Não estudamos todas as quinquilharias trouxas, Snaps."
"Bem, o.k., se eu tivesse algo com uma cabeça plana e estreita, eu poderia..." Ela parou de falar quando seus olhos pousaram em algo que James não conseguia ver de seu ângulo. Ele se juntou a ela atrás da mesa, seguindo seu olhar.
"O quê?"
Lily apontou para o puxador da gaveta, que consistia em uma faixa de metal, com cerca de meio centímetro de largura nas extremidades, mas mais larga no meio. A garota, porém, parecia mais preocupada com as bordas; ela se ajoelhou, examinando-as com cuidado e depois olhou para James.
"Você é mais forte do que eu, não é?"
James revirou os olhos. "Já olhou bem para você, Twig?"
"Agora não," retrucou Lily. "Eu desloquei o maxilar de Nick Mulciber uma vez, caso não se lembre."
"Não seja boazinha," respondeu James friamente. "Do que precisa?"
"Acha que consegue arrancar uma dessas maçanetas?"
"Acho que, sim... por quê? Isso não é uma não-sei-o-que-lá, é?"
"Pode funcionar."
James suspirou e se ajoelhou ao lado dela. Ele puxou todos os idênticos puxadores da gaveta, descobrindo que o de cima parecia um pouco mais frouxo do que os outros. Eles esvaziaram as a gaveta e a retiraram da mesa.
Demorou alguns minutos para o rapaz conseguir tirar o puxador, e apesar de ter puxado a bainha da camisa para cobrir sua pele em contato com o metal, quando, por fim, a maçaneta se soltou, sua mão estava vermelha e com bolhas.
"Desculpa," murmurou Lily, que ficara observando atentamente a porta. Se Falstaff voltasse agora, James não sabia como explicariam que as ataduras das pernas e dos punhos haviam sido retiradas há tempos.
"Sem problemas... embora possa me dizer o que exatamente está planejando fazer com isso..."
Lily revirou os olhos. "O que foi? Não confia em mim?"
"Muito engraçado."
James entregou-lhe o puxador de bronze e a ruiva correu para a porta do escritório novamente.
"Espere um minuto," disse ela. "Eu preciso de algo para bater no puxador. Como um martelo. Você sabe o que é um martelo, não é?"
"Tem algo a ver com eletricidade, não é?" replicou James sarcasticamente. "Sim, eu sei o que é um martelo. Aqui..." Ele correu até a gaiola da coruja na parte de trás do escritório e puxou o cadeado desabotoado da porta. Era grande e pesado, e ele entregou à garota, que observou o objeto por um instante.
"Pode funcionar," murmurou ela. A coruja na gaiola deu um pio alto, e Lily posicionou a extremidade estreita da maçaneta contra a dobradiça superior da porta. James se aproximou para ver exatamente o que estava fazendo, e ela colocara o puxador entre o pino da dobradiça e a parte superior dela. "É melhor se afastar," disse ela, e enquanto segurava o puxador com a mão esquerda, erguia o cadeado com a direita. A ruiva bateu o cadeado no puxador com toda sua força, e o pino da dobradiça saltou para cima.
"Onde aprendeu a fazer isso?" indagou James.
"Meu pai remodelou nossa cozinha no verão após o segundo ano," respondeu ela. "As dobradiças da porta antiga não combinavam com a decoração, então ele teve que trocá-las. Eu fiquei observando."
"Deus o abençoe," murmurou James, e Lily bufou. Ela continuou a bater no puxador com o cadeado como um martelo batendo no prego, até o pino soltar bastante. Porém foi um processo ruidoso, e ela parava a cada instante para escutar, mas... além da agitação da coruja na gaiola... tudo estava em silêncio.
Quando o primeiro parafuso estava solto o suficiente, James estendeu a mão e o tirou da dobradiça. A porta permaneceu segura, mas Lily foi para o segundo. Em alguns minutos, o segundo também foi removido. A porta balançou.
"Segure ela, o.k.?" pediu Lily. "Era para eu ter feito o de baixo primeiro. Papai me disse isso, droga."
"Não se puna por isso," disse James. "Está prestes a nos tirar daqui."
"Não vamos colocar a carroça na frente dos bois," respondeu a ruiva, sentando-se no chão para começar a trabalhar na última dobradiça. "Se Falstaff voltar..."
"Jogaremos a porta nele," brincou James, e Lily sorriu ao bater o cadeado contra a maçaneta mais uma vez.
Finalmente, o último parafuso foi removido. James ficaria impressionado, se não estivesse tão ocupado sentindo-se aliviado. O garoto não removeu a porta de imediato. "Antes de irmos, é melhor decidirmos para onde iremos."
"Precisamos de nossas varinhas."
"Preciso do meu chapéu."
"Certo. Onde, em nome de Merlin, você acha que estão? Nós estamos no escritório de Falstaff, e ele não os deixou aqui."
"Talvez no escritório do tal Svilt?" sugeriu James. "Aposto que é lá onde Frank está, se não o liberaram assim que passaram a ter dois 'nascidos-trouxa' para interrogar."
"Mas, onde fica? Por onde começaríamos a procurar?"
Eles ponderaram por um minuto; Lily massageava as palmas das mãos e os pulsos, que estavam bastante irritados. "Espero que minha mãe não tenha ligado para casa," murmurou vagamente. "Ela ficará preocupada por eu ainda não estar em casa..."
E isso deu uma ideia a James. "Segure a porta, está bem?"
Lily assentiu. Ela se levantou e firmou a porta, enquanto James se afastava, voltando para os fundos do escritório. Ele pegou um pedaço de pergaminho da mesa de Falstaff e dobrou-o em um quadrado. O rapaz pegou a pena que deixara de escrever por conta própria há algum tempo e encontrou tinta em uma das gavetas que ainda tinha puxador. Na frente do pergaminho, rabiscou uma palavra. Então, abriu a gaiola da coruja, e o pássaro deixou escapar outro barulho ruidoso. Lily arqueou as sobrancelhas.
"Vamos enviar um memorando para ele," disse James. Ele ergueu o pergaminho, no qual havia o nome "Svilt" escrito.
"E vamos seguir o pássaro," concluiu Lily. "Isso é... um tanto brilhante".
"Eu tenho algumas boas ideias."
"Vai logo."
"Certo. Mova a porta, o.k.?"
A coruja, pensou Lily, realmente era uma boa ideia. Quando a porta foi removida, o pássaro foi facilmente convencido a entregar sua "mensagem" ao escritório apropriado, e os adolescentes partiram atrás dele. Infelizmente, o processo de seguir o pássaro pelos corredores acabou sendo uma das experiências mais desesperadoras dos dezessete anos de Lily.
O corredor do lado de fora do escritório de Falstaff felizmente (e inexplicavelmente) estava vazio, mas a cada esquina, a ruiva esperava que alguém pulasse na frente deles. Sem a capa da invisibilidade, claro, podiam andar depressa e conseguiam acompanhar a coruja de Falstaff, mas, ao mesmo tempo, velocidade significava visibilidade e barulho.
O pássaro voou, e os dois correram atrás dele pelos corredores. Para um observador, pode ter parecido engraçado, mas os perseguidores não tiveram oportunidade de se divertir. O escritório de Svilt não ficava no segundo nível, o que Lily já imaginava, uma vez que Alice sequer tinha mencionado que ele tivesse um, e a coruja foi na direção do elevador, voando em pequenos círculos enquanto esperava que chegasse.
Lily começou a virar a esquina para o corredor que dava para o elevador, mas James agarrou sua mão.
"Caso alguém venha saindo," explicou ele, segurando-a, e Lily assentiu. Ela voltou à esquina, olhando para a coruja por cima do ombro dele; o rapaz ainda não soltara sua mão.
O elevador chegou vazio (devia ser enfeitiçado para abrir até mesmo para corujas), e, quando as portas abriram, o pássaro de Falstaff entrou. Lily e James correram para embarcar antes que fechassem. Já do lado de dentro, James notou que estivera segurando a mão de Lily o tempo todo, e a soltou depressa.
"Que foi? Nenhum comentário embaraçoso?" provocou a ruiva quando as portas se fecharam e o elevador começou a subir.
"Suas unhas estão roxas," observou James.
"É esmalte."
"E você disse que meu chapéu era ridículo."
"Idiota."
"Metida."
A coruja desembarcou quando o elevador parou no nível quatro, Departamento para Regulação e Controle das Criaturas Mágicas, ou, como era mais conhecido: D.R.C.C.M. O salão estava vazio, e um relógio na parede mostrava ser doze para as oito.
"Alice disse que o Átrio estaria vazio por volta das sete e meia, oito horas, não é?" perguntou Lily, enquanto caminhava atrás de James e da coruja.
"Isso mesmo."
"Espero que Sirius tenha recebido aquela mensagem."
Eles pararam na esquina, espiando para garantir que a barra estivesse limpa antes de seguirem a coruja novamente.
"Mas quem sabe?" murmurou James. "Talvez os outros já tenham ido embora..."
"Você ouviu Dory... ela não vai a lugar algum. E depois dessa interpretação excitante de 'Seven Drunken Nights', tenho certeza de que os espíritos estão bastante elevados..."
James sorriu e eles entraram no corredor. O pássaro já estava na metade do caminho, mas logo se virou, batendo as asas freneticamente, e correndo para uma das portas. O pergaminho no seu bico caiu em uma caixa de memorandos conectada à porta, e quando o pássaro entregou a carta, seu bico bateu contra a caixa de madeira, que evidentemente fora projetada especificamente para aquele propósito.
Com a missão concluída, a coruja de Falstaff virou-se para retornar à sua gaiola. Mas Lily puxou James de volta, e ambos esperaram para ver se alguém abria a porta. No entanto, ninguém abriu.
"E agora?" perguntou a ruiva em voz alta. Ambos se encostaram na parede às suas costas, James batendo a cabeça contra ela, pensativo. Por fim, ele se virou para encarar a garota por sobre o ombro.
"Snaps..."
"Hum?"
"Você confia em mim?"
Lily bateu no braço dele. "Não, eu não confio em você! Você está maluco?"
"Snaps, nada disso vai dar certo se não confiarmos um no outro..."
"Foi por isso que você tentou me enganar para me tirar daqui?"
"Eu já pedi desculpas por isso!"
"Sim, mas... mas... Droga." Ela suspirou e revirou os olhos. "Merlin nos ajude: faça o que tiver de fazer."
Aquilo era, evidentemente, bom o bastante. Ele virou-se e caminhou em direção ao escritório silencioso de Svilt. Uma placa ao lado da porta tinha quatro nomes, incluindo Antoine Svilt, e dizia: "Escritório de Orientação sobre Pragas."
James franziu a testa. "Droga," sussurrou. "Ele é um EOP?"
"O que é um Eop?" perguntou Lily, imitando seu sussurrar.
James apontou para o sinal. "Escritório de Orientação sobre Pragas. EOPs são basicamente nada."
"Bem, talvez considerem adolescentes como pragas," sugeriu Lily, e James bufou. Ele estendeu a mão e bateu na porta. Por alguns segundos esperaram, mas o escritório permaneceu em silêncio.
"Onde foi todo mundo?" indagou Lily. James encolheu os ombros. Ele agarrou a maçaneta da porta e girou.
"Eu deveria saber que vocês estariam envolvidos em tudo isso," disse uma voz por trás deles.
Lily e James congelaram.
(Aproximadamente Trinta e Cinco Minutos Mais Cedo)
O desafio para Alice tinha sido encontrar uma rede de flu que estivesse diretamente conectada ao escritório dos aurores. Ela não tinha ideia de onde os Shacklebolt viviam, nem nenhum dos outros aurores com quem estava familiarizada, e apenas os aurores podiam ter lareiras diretamente conectadas ao escritório.
Desde que o auror de Falstaff e seu amigo a deixaram no Caldeirão Furado, devolvendo-lhe a varinha e sorrindo maliciosamente para ela, a jovem tentava descobrir como voltar ao Ministério da Magia.
"E o outro A.T.?" perguntara o auror a Falstaff, enquanto a levavam ao escritório de Dearborn (não que ela tivesse ideia de seu destino na ocasião). "Agora que temos os outros dois, não precisamos ficar com ele."
"Fique com ele enquanto aguardamos a poção de Svilt," respondera Falstaff. "Os outros são praticamente crianças. Podem não saber de nada."
E, então, Alice aguardara no Caldeirão Furado (Tom estava trabalhando sozinho) para o caso de Frank aparecer. Mas ele não apareceu. Passaram-se vinte e cinco minutos, e a lareira permaneceu inerte. Tom trouxe sua cerveja amanteigada, a qual não conseguiu tomar. E foi quando Alice concluiu que precisava voltar ao Ministério.
Sendo apenas uma Auror Treinee, a rede de flu de Alice não era conectada ao departamento, e rapidamente decidiu que a seção de aurores seria o lugar mais seguro para entrar no Ministério. Fora levada ao Caldeirão Furado pela lareira do escritório de Dearborn, mas isso não ajudava em nada, e não podia voltar pelo Átrio, pois Dearborn certamente mandara os guardas impedirem o pessoal de retornar pelos níveis inferiores. Mas talvez Alastor Moody estivesse no escritório (Vance certamente pensou que ele estava lá mais cedo), e ela alcançaria dois objetivos: um, comunicar a mensagem ao chefe dos aurores, e dois, entrando no prédio onde Frank estava detido.
A questão de como entrar naquele terminal de flu a atormentou por algum tempo, antes de ela perceber que Caradoc Dearborn poderia ter uma conexão. Ele não atuava como auror, mas treinava os A.T.s e trabalhava regularmente com o departamento, então era possível que tivesse; o melhor de tudo era que Alice tinha seu endereço. Ou, pelo menos, sua mãe tinha.
Assim, Alice estava sentada na cozinha de Caradoc Dearborn, derramando no pires o chá que ele lhe oferecera, enquanto sacrificava completamente as tentativas de explicar a situação.
Doc Dearborn era bem diferente do irmão mais novo, Sam. Em primeiro lugar, ele era quase dez anos mais velho, usava óculos, tinha cabelos escuros e feições simpáticas. Sua personalidade era mais calma e tranquila, mas mantinha uma relação amigável com o irmão mais novo, bem como uma desconfiança distinta quanto à política do irmão mais velho, Egbert. Alice estava prestes a descobrir quão profunda era essa desconfiança, quando ele respondeu ao pedido de usar sua rede de flu.
"Sabe que eu me encrencaria se permitisse que você a utilizasse," disse Caradoc lentamente.
"Poderia dizer que eu invadi," argumentou Alice com entusiasmo. "Posso quebrar uma janela, se quiser."
Doc sorriu. "Não será necessário. A lareira é por aqui."
Alice sentiu-se grata por uma desculpa para soltar a xícara de chá, e o seguiu. Dearborn pegou um jarro com pó de flu e colocou um pouco na palma da jovem.
"Diga 'Escritório dos Aurores,'" falou Dearborn enquanto ela entrava na lareira.
"Muito obrigada."
Caradoc deu de ombros. "Mande lembranças a Sam."
"Caramba, eu mando seus cartões de aniversário para ele se quiser depois disso." Sorrindo, ela jogou o pó de flu e falou o destino.
Alice estivera na seção de aurores várias vezes, mas nunca a vira vazia. Na verdade, tivera a impressão de que nunca estava vazia, pois, nos últimos dias, muitos aurores foram chamados para fazer plantão. Mas agora, embora os escritórios estivessem iluminados e prontos para o uso, não se via ninguém na sala.
Era preocupante. Ela entrou cautelosamente no corredor do nível dois e pensou brevemente em ir ao escritório de Falstaff. Mas não sabia se Lily e James ainda estavam lá, e, honestamente, o fato de os dois estarem juntos lhes dava mais chances. Frank, onde quer que estivesse, aparentemente estava sozinho, e ela tinha que encontrá-lo primeiro.
Alice sabia que Svilt trabalhava no nível quatro, e achou ter ouvido alguém se referir a ele como um EOP, mas não sabia se ele tinha um escritório lá ou em algum lugar. Ainda assim, era o melhor plano que podia seguir, e, assim, segurando a varinha, encontrou o elevador mais próximo e foi para o nível quatro.
A jovem encontrou duas secretárias ao sair do elevador, mas elas apenas a cumprimentaram com um aceno de cabeça, antes de voltarem a conversar. Alice caminhou com a cabeça erguida, exalando uma confiança fingida a cada passo, caso encontrasse alguém que desconhecesse sua invasão.
Ela explorara metade do andar desta maneira antes de finalmente localizar uma placa na parede que apontava para as seções dos EOP. Era em um corredor estreito, com três portas de um lado da parede e janelas enfeitiçadas do outro. Havia placas com nomes ao lado de cada porta, mas a garota não precisava lê-las. Soube imediatamente qual escritório continha suas respostas, pois vozes emanavam da porta da única sala que parecia estar acesa.
Ela desacelerou os passos, ouvindo atentamente os sons que vinham de dentro.
"E os outros dois?" bradou uma voz masculina, e, embora familiar, Alice não conseguiu distinguir quem falava. "Ainda estão no seu escritório?"
"Sim, é claro."
"Você simplesmente os deixou lá, Falstaff?"
"Com as pernas presas e num escritório trancado," falou a segunda pessoa, também do sexo masculino. "O que vão fazer? Explodir tudo? Não devia estar me repreendendo. A culpa é sua..."
"Temos que encontrá-lo. Só Merlin sabe o que ele pode estar tramando..."
"Taft e os outros estão cuidando disso..."
"É melhor voltar para os adolescentes, então..."
"Que utilidade isso terá? Você não tem mais a poção..."
"Poderíamos usar o Imperius. Dearborn disse que o que precisássemos..."
"Se isso vazar, Svilt... Está disposto a arriscar tudo por Dearborn..."
"Psiu... se alguém ouvir..."
Eles se calaram por um instante; Alice não moveu um músculo. Então, Falstaff e Svilt retomaram o diálogo, mas a garota mal conseguiu distinguir as palavras, já que falavam em tom mais baixo agora. Por fim, as palavras cessaram, e ela sabia o que estava por vir. A jovem apontou a varinha para o escritório escuro mais próximo e sussurrou: "Alohamora."
A tranca clicou, e ela praticamente se jogou na sala escura. Alice não soltou a maçaneta da porta, de modo que não houve o clique de fechamento. O que foi sorte sua, pois um segundo depois ela ouviu alguns passos no corredor. Eles não passaram pelo escritório em que ela tinha se escondido, pareciam estar indo na direção oposta, até que lentamente desapareceram. Ela esperou mais alguns segundos e depois abriu a porta o suficiente para enfiar a cabeça.
O corredor estava vazio.
Alice saiu do escritório, trancou-o, e depois foi até a porta do meio, da qual Falstaff e Svilt tinham emergido. A luz ainda estava acesa, mas a sala estava completamente silenciosa. Ela ergueu a varinha e procurou a maçaneta da porta.
A garota abriu a porta com tanta energia, que ela rebateu, atingindo a parede que ficava por trás. A sala também estava vazia. Olhando à volta, Alice entrou.
Era um escritório grande e bem iluminado, com quatro mesas, duas de cada lado, e um corredor no meio. Havia uma coruja empoleirada na parede dos fundos e uma cadeira embaixo da gaiola. Restos de corda estavam jogados sobre o espaldar da cadeira, e Alice engoliu temerosa. A mesa na parte de trás tinha uma placa de identificação contendo "A. Svilt" e estava coberta por papéis. Também havia uma varinha, que a jovem pensou que poderia ser de Lily. Ela a pegou e colocou no bolso das vestes, antes de ir até a cadeira com as cordas.
Parecia que não haviam sido cortadas, mas estavam dispostas de forma terrivelmente bagunçada: muito provavelmente tinham sido desatadas. Alice franziu a testa para a cena, sem saber o que extrair dela.
"Temos que encontrá-lo," dissera Svilt. Estavam falando de Frank? Mas a quem mais poderiam estar se referindo? Será que ele escapou? Mas como raios ele faria isso sem uma varinha?
Alice colocou o cabelo para trás e apoiou a outra mão no quadril enquanto examinava o escritório e tentava descobrir o que fazer a seguir. Ela ficou ali por alguns segundos, antes que seus olhos pousassem sobre algo brilhante em uma das outras mesas. Ela caminhou e pegou o pequeno objeto.
Era um crachá com as letras "A.T." gravadas nele.
O crachá de Frank.
De repente, teve certeza disso.
Alice o colocou no bolso e rumou para a porta, quando ouviu uma batida. A bruxa congelou, o coração disparando enquanto tentava decidir o que fazer. Passaram-se alguns segundos, e a batida não se repetiu. Assim, Alice foi depressa para detrás de uma das mesas. Ela se ajoelhou lá, rezando silenciosamente, mas a sala e o corredor permaneceram em silêncio.
Um ou dois minutos se passaram em silêncio, e a jovem ficou impaciente. Ela tornou a se levantar, ainda escutando atentamente, mas não ouviu nada. Então, quando rumou para a porta de novo, houve uma segunda batida, e ela distinguiu vozes no corredor. Não teve tempo para se esconder desta vez; a maçaneta de bronze estremeceu quando alguém a agarrou, e Alice preparou a varinha.
Mas a porta não abriu. Soltaram a maçaneta, e a garota ouviu, confusa, alguém tornar a falar. Era uma voz masculina, mas sua mente estava atrapalhada, e por um momento não conseguiu entender as palavras.
Ela se aproximou da porta.
"Eu deveria saber que vocês estariam envolvidos em tudo isso," sussurrou uma voz masculina atrás deles, e James soltou a maçaneta da porta. Os dois ficaram congelados por quase um segundo, até que Lily registrou a quem aquela voz pertencia. "Honestamente, Evans, você procura problemas."
Ela exalou pesadamente e virou-se para encarar o bruxo, cruzando os braços ao fazê-lo.
"Já estava na hora de você aparecer," retrucou ela, e Lathe – o dono da referida voz – revirou os olhos, sorrindo.
"Eu pensei que estivessem no escritório de Falstaff," disse ele, quando James também se virou. "Ou foram vocês que tiraram a porta das dobradiças?"
"Foi ela," disse James. "Lathe, certo?"
"Potter, não é?" respondeu o auror, e ambos assentiram.
"Como chegou tão de mansinho?" indagou James. "Você... não ouvimos nada."
"Rastreamento e discrição," respondeu Lathe, como se fosse óbvio. "É uma das primeiras coisas em que se é treinado como A.T. Além disso, eu era bem magricela na escola..." Ele gesticulou vagamente, "obtive muita prática me escondendo do pessoal mais velho." Ele sorriu. "Então... vamos?"
"Vamos o quê?" perguntou Lily.
"Ir embora," disse o auror, como se fosse óbvio. "É o que vocês queriam fazer, não é?"
"Espere," disse James depressa. "Estávamos atrás de Frank. E Vance tinha uma mensagem para Moody..."
"Mande os aurores entrarem; sim, eu sei."
"Quer dizer que Frank entregou a mensagem?" perguntou Lily. "Ele está bem?"
"Frank Longbottom?" indagou Lathe. "Ah, ele está bem. Quero dizer, está desaparecido no momento, mas Svilt e Falstaff não sabem onde ele está, então deve estar bem."
A porta do escritório atrás de Lily e James abriu, e todos se viraram imediatamente. Lathe até ergueu a varinha, mas a figura presente no escritório era Alice Griffiths.
"O que você quer dizer com 'ele está desaparecido?'", perguntou ela, saindo para o corredor e fechando a porta ao passar. "Olá, Lily, James."
"Alice!" suspirou Lily, aliviada. "Você fugiu deles também?"
"Não, mas voltei. Desculpe, mas, Lathe... o que você quer dizer, Frank está desaparecido?"
"Taft foi um pouco vago," admitiu o bruxo. "Principalmente por estar envergonhado, eu acho. Mas alguns deles estavam 'de olho' em Longbottom no escritório de Svilt e... de alguma forma ele conseguiu se libertar, derrubou um deles e pegou uma varinha... que usou para roubar um lote inteiro de Veritaserum que pretendiam usar nele... e muito provavelmente em vocês dois também."
"Então, não foi Frank que te entregou a mensagem de Vance?" perguntou Lily. "Estou tão confusa."
"Por que Frank me entregaria a mensagem?"
"Essa era a razão de estarmos aqui," disse James. "Vance mandou Frank ir até Moody para dizer que 'mandasse-os entrar.'"
"Que nós pensávamos se referir os aurores," acrescentou Lily.
"E estavam certos," confirmou Alice.
"Mas Frank não voltou," disse James. "Então o seguimos até aqui, mas fomos pegos..."
Alice e Lily pigarrearam de forma significativa. James revirou os olhos.
"Nós fomos pegos," repetiu ele, "e então eles soltaram Alice e..."
"Espere um minuto," interrompeu a ruiva. "Os aurores. Há bruxos do esquadrão no Átrio, e Victor Vance disse..."
"Não, não, eu sei sobre tudo isso," disse Lathe depressa. "Essa era a mensagem. Há meia dúzia de aurores lá embaixo com o pessoal de vocês agora, e Bones está no comando, então não têm com que se preocupar. Vocês três, por outro lado, foram reconhecidos por Dearborn e eu fui designado para cuidar de vocês. Bem, não, Taft que deve cuidar de vocês, mas se eu pegasse vocês primeiro – o que acabei de fazer – então, eu que deveria fazê-lo."
"Cuidar da gente?" perguntou James com desconfiança.
"Bem," disse Lathe, "Taft tem ordem para levá-los a Dearborn – descobrir o que estavam 'realmente' fazendo aqui e tudo mais. Mas não recebi oficialmente essa ordem, então se eu cruzasse com três transgressores depois do horário, só me sentiria obrigado a... escoltá-los para fora daqui."
"Não poderia nos acompanhar de volta ao Átrio?" sugeriu James.
"Receio que não."
"Mas e Frank?" insistiu Alice. "Ele pode estar em apuros."
"Ele deu conta de três bruxos estando amarrado a uma cadeira e sem varinha," disse Lathe. "Tenho certeza que vai ficar bem."
"Mas se ele não entregou a mensagem de Vance," começou Lily pensativamente, "provavelmente não sabe que foi recebida. Ele pode ter descido para tentar encontrar Moody."
"Moody não está lá embaixo," disse Alice.
"Está sim," Lathe a contradisse.
"Ele não estava lá há quinze minutos..."
"Você não deve tê-lo encontrado, então," disse o auror. "Ele certamente está lá embaixo agora."
"Bem, não podemos checar se Frank está lá agora?" perguntou Alice ansiosamente. "Só levará alguns minutos..."
"Halliday e Eckles estão lá embaixo com Moody agora," respondeu Lathe, e os nomes poderiam ter significado algo para Alice, mas não significaram nada para Lily e James. "Ele ficará bem."
"Mas não podemos verificar?" implorou a bruxa novamente. "Se ele não estiver lá, você pode nos levar pelo terminal dos aurores, afinal..."
"Ou eu poderia levá-los por qualquer outro terminal, que não esteja localizado no mesmo andar que Egbert Dearborn, o que é, portanto, uma solução muito mais lógica."
"Por favor," pressionou Alice. "Eu saio de mansinho... já fiz isso antes."
"Eu também," concordou James.
"Provavelmente vou para casa e tomarei banho," disse Lily. James a encarou. "Eu só estava sendo sincera."
Lathe suspirou e esfregou a testa. "Tudo bem," disse por fim. "Mas se encontrarmos alguém, vamos dizer que estou prendendo os três. Ficou claro?"
"Sim," disseram em uníssono.
"Ah!" lembrou-se Alice, tirando uma varinha do bolso. Ela a estendeu. "É de algum de vocês?"
"É minha!" disse Lily, agarrando-a. "Graças a Merlin!"
"Você não viu meu chapéu, não é?" perguntou James, mas Alice disse que não vira.
"Venham," falou Lathe. "Não temos a noite toda. Vão na minha frente, o.k.?"
Eles não encontraram ninguém no quarto andar, mas, quando chegaram ao elevador, uma bruxa de cabelos curtos saiu dele. Ela era familiar para James, mas levou um momento até o rapaz lembrar que era a bruxa que fora a Hogwarts no início do ano passado, antes de Lathe.
Ele tentou lembrar o nome dela, mas antes de conseguir, Lathe o pronunciou como uma saudação com evidente aversão: "Sra. Drake."
"Sr. Lathe," respondeu a bruxa friamente. Ela observou os três com desconfiança. "O que eles estão fazendo aqui?"
"São os que Taft está procurando," disse Lathe, bastante calmo. A bruxa, Drake, franziu a testa.
"Não pode ser."
"Mas são."
"Deve haver algum engano. Sr. Falstaff disse que apenas um deles..." Seus olhos pestanejaram na direção de James, e de repente ele percebeu seu dilema. Ela o reconheceu do interrogatório acerca do acidente com Carlotta na sala comunal em setembro. A bruxa sabia quem ele era, e sabia que não era 'Tom Baker' algum. "Não pode ser eles," reiterou ela com rigidez.
"Podem," corrigiu Lathe.
"Quê?"
"Não 'podem' ser eles. Para ficar correto, deve usar 'podem.'" Drake o entendeu por fim e, furiosa, começou a dizer algo, mas o auror a cortou. "Desculpe-me, mas a senhora tinha assuntos a tratar neste andar? Porque eu preciso pegar o próximo elevador... deveres a cumprir e tudo mais." Ele sorriu encantadoramente para ela, e ela bufou.
"O Sr. Dearborn gostaria de falar com eles," disse ela. "Em seu escritório."
"Ele disse isso? Quero dizer, ele deu essa ordem?"
"Bem, ele..."
"Porque o Sr. Moody mandou que eu os levasse à seção de aurores, então a menos que haja uma ordem específica em sentido contrário..."
"Sr. Lathe, deve lembrar que sou sua superior agora..."
"Lembro-me de que Dearborn a promoveu há dois dias, sim. Mas sou um auror, Sra. Drake, e respondo ao chefe dos aurores, exceto em circunstâncias especiais. Estamos em cadeias de comando totalmente diferentes."
Ela não podia discordar. "Eu vou acompanhá-lo, então."
"De forma alguma," disse Lathe. "Tenho certeza de que posso lidar com alguns adolescentes e, afinal, como subchefe júnior de D.E.L.M., você deve ter negócios muito importantes para estar vagando no nível quatro às oito horas da noite."
Drake fez careta, mas assentiu bruscamente. "Vou reportar sua descoberta ao Sr. Dearborn assim que terminar aqui."
"Isso seria muito cortês e bastante útil de sua parte, Sra. Drake."
Com uma olhada final para o grupo, Drake caminhou bruscamente, e Lathe conduziu os três para o elevador. Quando as portas fecharam e eles começaram a descer ao nível dois novamente, ele suspirou.
"Bem, que ótimo. Agora eu não sei o que vamos fazer."
"O que quer dizer?" perguntou Alice.
"Espero que possamos tirar vocês daqui antes que ela vá até Dearborn," disse Lathe.
"Mas nós não queremos ir embora," argumentou James.
"Bem, sigam seu caminho, então," respondeu o auror de forma casual. "Mas tenho que perguntar: o que acham das celas?"
"Do tipo com barras, chaves e fechaduras?" perguntou Lily.
"Isso mesmo."
"Geralmente são algo ruim," disse James.
"Foi o que pensei."
Eles chegaram ao nível dois, que agora estava mais agitado do que há dez minutos, quando Lily e James passaram pelos corredores. Não havia ninguém visível quando eles saíram do elevador, mas podia-se ouvir vozes e movimento em um corredor próximo, que estava completamente iluminado.
"Quando vocês chegaram?" perguntou Lily a Lathe, expressando a dúvida de James.
"Há alguns minutos," respondeu ele. "Chegamos pelas lareiras no Átrio. Mas Eckles e Halliday desceram para cá." Ele os levou aos escritórios dos aurores. "Andem logo."
O escritório agora estava magicamente iluminado, e Lathe fez gesto para que entrassem, olhando rapidamente à volta enquanto isso. No escritório, uma bruxa e um bruxo estavam sentados em duas das mesas. A bruxa tinha uns trinta anos, com cabelos pretos brilhosos na altura dos ombros, e o bruxo era mais velho, com aproximadamente quarenta anos, um nariz de gancho e a cabeça raspada.
"Bem, eu os peguei," disse Lathe, sentando-se em cima de uma mesa, enquanto os três adolescentes ficaram ali sem jeito. A bruxa se levantou.
"Você os pegou?" indagou ela, surpresa. "Como os encontrou? Falstaff procurou em todo canto."
"Ele está procurando o outro," respondeu Lathe.
"Ah, não, nós o pegamos," disse a bruxa.
"Vocês estão com Frank?" perguntou Alice em voz alta. "Onde?"
"Lá atrás," disse o bruxo, ainda sentado. "Eu sou Eckles, aliás," apresentou-se a Lily e James. "Essa é Halliday."
"Lá atrás?" questionou Alice, antes que James ou Lily pudessem responder. "Por que ele está lá atrás?"
"O que há lá atrás?" murmurou a ruiva para James, mas ele encolheu os ombros.
"Dearborn apareceu e viu que estávamos com ele," explicou Eckles. "Parece que não achou ser profissional permitir que um cativo sentasse no sofá, então o colocamos em uma cela. Não se preocupem... Moody está lá com ele."
James notou a citada mobília ao canto. "Por que têm um sofá aqui?"
"Isso é o que você resolve perguntar?" murmurou Lily, levantando as sobrancelhas.
"É bastante confortável," respondeu Lathe, casualmente. "Eu deixaria você sentar nele, mas aparentemente não seria profissional. O que vamos fazer com vocês, então? Drake nos viu," acrescentou ele para Halliday e Eckles. "Ela estará tagarelando maliciosamente as novidades para Dearborn enquanto estamos aqui."
"Isso vai demorar um pouco," disse Eckles. "Dearborn acabou de subir, foi falar com os aurores. Isso vai ser engraçado."
"Poderíamos colocá-los na cela," sugeriu Halliday, a bruxa, referindo-se aos adolescentes novamente. "Ouvir dizer que é algo bastante profissional a se fazer."
"Posso ver Frank, por favor?" pediu Alice.
"Daqui a pouco," disse Lathe, "temos que decidir o que fazer com vocês primeiro."
"Você vai nos prender?" perguntou James com curiosidade.
"Particularmente, eu não quero fazer isso," respondeu Lathe. "Muita papelada. Mas deveriam ir se sentar na cela."
"Eu sinceramente prefiro não fazer isso," disse James. "Quer dizer, se você pudesse evitar."
"Não será tão ruim," disse Halliday. "E assim Dearborn não verá vocês."
James imaginou Egbert Dearborn jogando-o contra uma parede de barras de ferro. Era uma imagem divertida, mas mesmo assim...
"Talvez não devessem estar falando com a porta aberta?" sugeriu uma nova voz, quando um bruxo alto e negro entrou no escritório.
"Kingsley," cumprimentou Lathe, e Kingsley Shacklebolt fechou e trancou a porta ao passar. Ele colocou a varinha e uma mochila sobre a mesa.
"Lathe, Eckles, Halliday," respondeu Kingsley meneando a cabeça para cada um. O auror observou Alice, Lily e James. "Claro que seria Potter. Olá, Senhoritas Evans, Griffiths."
"Olá, Kingsley," disseram as duas, e James assentiu.
"Como foi em Kent?" perguntou Lathe.
"Não havia nada lá," respondeu ele. "Outro alarme falso... algumas crianças acharam que fogos de artifício dos trouxas eram a marca..." Ele parou de falar, como se percebendo que não deveria estar discutindo essas coisas agora. "Recebi sua mensagem."
"Evidentemente. Estava lá em cima, então?"
"No Átrio? Sim. Dearborn estava terminando o delírio."
"Hã?"
Kingsley assentiu. "Não foi nada particularmente digno."
"Não é de admirar que ele esteja prestes a perder o emprego," disse Halliday.
"Bata na madeira," murmurou Lathe. Ele voltou-se para Lily, Alice e James. "Tudo bem, vocês três... decidam. Ou eu mando vocês para fora daqui, digo a Dearborn que aplicamos uma multa por transgressão, que vocês prometeram não voltar e que está tudo resolvido... ou vão para uma cela, enquanto fingimos interrogá-los, para que pareça que foram presos e Dearborn não despeça todos nós."
"O que acontece depois de irmos para a cela?" indagou Alice.
"Não faço ideia. Moody vai ter que elaborar a segunda parte do plano," disse Lathe. "Não é uma boa ideia, para começo de conversa. Quero dizer, é muito mais fácil para nós, porque significa que não precisamos nos incomodar com a chata da Drake, mas, em geral, para vocês, eu recomendo o primeiro plano. Celas não são nada confortáveis. " Ele não pareceu perturbado com nada daquilo. "Então, o que vai ser?"
"Eu vou ficar," afirmou Alice.
Lily olhou para James e James para ela, e ele já decidira, mas não sabia se ela também já o fizera. Depois de um segundo ou dois segundos, a ruiva suspirou.
"Marlene está lá em cima," disse ela, mais para si do que para alguém.
A sala dos fundos da seção dos aurores era menor do que a da frente, e cerca de dois terços dela eram ocupados por duas celas de ferro gigantes – gaiolas enormes, na verdade – fora das quais havia um bruxo de ombros largos em vestes marrons. A garota vira fotos no Profeta, mas Lily nunca imaginou que Alastor Moody seria mais assustador pessoalmente.
Seu cabelo era longo e ligeiramente grisalho, o rosto envelhecido e maltratado, e o brilho nos olhos era voraz.
Quando Alice, Lily, James e Lathe adentraram a sala dos fundos, ele conversava com Frank, que estava na porta de entrada de uma das celas, ouvindo o que Moody tinha a dizer com atenção. Frank usava um chapéu preto. Com a chegada dos outros quatro, Moody contraiu a mão que segurava a varinha, mas permaneceu calmo, sentado no banco contra a parede mais distante das celas, e não se dirigiu a eles de imediato.
"...vai ter que dar um jeito nisso," concluiu o auror sem rodeios. "De qualquer forma, é algo a se pensar." Moody voltou-se para os recém-chegados, ficando de pé. "Sr. Lathe. Sr. Potter. Senhorita Griffiths." Seus olhos se voltaram para Lily, e ela se sentiu diminuir. "Quem é você?" ele quase latiu.
"Lily Evans," disse Lathe. "Ela é do grupo lá de cima. Evans... este é Alastor Moody."
"Tem certeza de que é Lily Evans?" perguntou Moody.
"Absoluta."
"Não é um impostor?"
"Claro que é Lily," disse James. "Estive com ela o dia todo."
"Mas como vou saber que você é o verdadeiro Potter?" grunhiu Moody.
"Você me conhece desde os quatro anos," respondeu James, encolhendo os ombros. "Pergunte o que quiser."
Lily pensou se tratar de uma proposta retórica, mas o auror a aceitou. "Quando te conheci, Potter, eu te dei uma coisa. O que foi?"
"Chocolate," disse James. "Literalmente, o chocolate mais repugnante que já comi."
"Te ensine a não aceitar doces de ninguém."
"Eu tinha quatro anos, e aquilo me fez adoecer."
"A mãe dele não ficou satisfeita," divagou Moody, e, por um momento, Lily pensou que ele estava brincando. Então, seus olhos se estreitaram para ela, e ele tornou a se dirigir a James: "Teste a Sra. Evans, Potter. Eu não a conheço, você terá que fazer isso."
"Hum."
Lily cruzou os braços, enquanto James, sem jeito, passava a mão pelos cabelos. "Suponho que posso..." (Frank e Alice trocaram olhares significativos que Lily não estava interessada em interpretar). "No último Halloween," disse o rapaz, lembrando de algo. "O que aconteceu?"
A bruxa ponderou; várias coisas aconteceram. Ela fizera dupla com James na aula de Defesa, confrontara Frank sobre contar a verdade a Alice, tinha certeza de que estava chovendo naquele dia – mas, além disso tudo, a ruiva sabia a que acontecimento James se referia.
"Nós nos tornamos amigos," disse ela, sorrindo. "Potencialmente."
Por um instante, James imitou o sorriso dela, e então se virou para Moody, assentindo. "Não que houvesse qualquer chance do contrário, já que estivemos juntos desde que saímos do Átrio, mas sim... é a verdadeira Evans."
Frank testou Alice quanto à sua música favorita, e então Moody ficou satisfeito.
"Bem, isso foi divertido," disse Lathe. "Mas Dearborn chegará a qualquer momento, então: vamos aos negócios."
"Se vão ficar em uma cela," começou Frank, "eu sugiro essa aqui. É muito mais confortável."
James olhou para o ex-monitor-chefe, as sobrancelhas arqueadas. "Aquilo é o meu chapéu?" perguntou, entrando na cela atrás de Frank e Alice.
"É sim. Eu o reconheci no escritório de Svilt, então peguei. Coloquei três garrafas de Veritaserum nele, espero que não se importe..."
Lily hesitou. "Meu instinto de autopreservação está me dizendo que não deveria simplesmente entrar em uma cela," disse ela aos aurores.
"É para o seu próprio bem, Evans," disse Moody bruscamente.
Lathe encostou-se nas grades, os braços cruzados. "Não se preocupe. Vou interrogá-la em alemão, será esplêndido."
Lily revirou os olhos, mas entrou na cela. Moody fechou a porta atrás dela; ele não a trancou, e a ruiva imaginou que se trancaria sozinha.
"Tudo bem," disse Lathe, agora em tom profissional; "Dearborn vai querer saber o que estão fazendo aqui. Melhor não deixar transparecer que sabem demais, e, sejamos sinceros, vocês são um bando de adolescentes, não vai ser difícil fazê-lo acreditar nisso."
A porta dos escritórios da frente abriu, e Halliday colocou a cabeça para dentro. "Dearborn está descendo," disse ela, antes de desaparecer mais uma vez.
"Tudo bem, rapaz," disse Moody a Lathe. "Agora veremos se está realmente apto para esse trabalho."
"Três anos não provaram minha capacidade?"
"Falaremos sobre isso quando fizer trinta anos."
"Mas estarei velho."
"Cuidado, garoto."
Eles saíram e, quando a porta se fechou, Alice jogou os braços ao redor do pescoço de Frank e o beijou.
Lily e James de repente sentiram-se bastante desconfortáveis. Quase um minuto de beijos se passou, até James limpar a garganta alto. Alice se afastou, mas só um pouquinho; seus antebraços ainda descansavam nos ombros do namorado, a mãos entrelaçadas atrás de sua cabeça.
"Eu te disse para não descer para cá..."
"Você não devia ter me seguido..."
"...se alguma coisa acontecesse com você..."
"...muito perigoso..."
"...foi sorte Moody te encontrar..."
"...se esgueirando aqui embaixo dessa forma..."
"...completamente sem noção..."
"...só Merlin sabe o que poderia ter acontecido..."
"...absolutamente maluco..."
"...o que estava pensando...?"
"...isso é um hematoma, Francis Longbottom?"
James limpou a garganta novamente, e, dessa vez, Frank olhou para ele e Alice olhou por cima do ombro.
"O que foi, Longbottom?" perguntou o Maroto secamente. "Eu não ganho um beijinho?"
Alice revirou os olhos, mas se afastou para ficar ao lado do namorado, abraçando-lhe pela cintura agora, enquanto ele lhe abraçava pelos ombros.
"Bem?" disse Lily. "Parece que há esclarecimentos a serem feitos."
Por fim, Frank reconheceu que era verdade. "Eu ouvi Svilt e um dos outros dizendo que tinham pego outra A.T. e a levado ao Beco Diagonal; eles mencionaram que havia outros com Falstaff, mas eu não sabia que eram você dois..." Ele olhou para James e Lily. "Como fugiram?"
"Evans tirou uma porta das dobradiças," respondeu James, com uma pontada de orgulho. "Depois nós fomos te procurar, mas encontramos Alice no escritório de Svilt..."
"Eu voltei por outra rede de flu," explicou Alice. "Mas a seção de aurores estava vazia."
"Você falou com Moody, então?" perguntou Lily a Frank. Ele balançou a cabeça. "Então, quem foi? A menos que tenha sido Sirius..."
"Por que teria sido Sirius?" indagou Alice.
"A gente pode ou não ter conseguido falar com ele," disse James. "É uma longa história, mas não sabemos se ele recebeu a mensagem."
"Espere... como é que vocês sabiam da mensagem?" perguntou Frank.
James parecia sem jeito.
"Eu disse a ele," respondeu Alice, revirando os olhos. "Não seja babaca, James. Não é grande coisa."
"O que não é grande coisa?"
"Eles tiveram um caso," disse Lily.
"Valeu, Snaps."
"Estou muito confuso..."
"Falstaff acha que eles estão namorando."
"Gostaria de sair agora, Evans?"
Alice tornou a revirar os olhos. Ela olhou para Frank e disse com simplicidade: "Eu beijei James para conseguir passar a mensagem que ele deveria dar a Moody, já que eu estava sendo levada embora. Lily só está sendo graciosa."
A ruiva sorriu com o comentário, e Frank pareceu impassível. "Conclusão: preciso bater em alguém?"
"Não, eu acho que não."
"Viu?" disse James para Lily, "Você ri, mas sou eu que apanho."
"Ah, francamente, James..."
A porta se abriu e todos ficaram calados. Frank e Alice se separaram antes que o recém-chegado ficasse inteiramente visível.
Era um bruxo, e ele entrou, ladeado por Moody e Halliday; ele trajava vestes cinza-escuro com um colarinho mandarim fechado até a garganta. Tinha cabelo e olhos castanhos, e um rosto longo e fino que combinava com sua estrutura magra. O bruxo – Egbert Dearborn – olhou para cada um dos quatro bruxos na cela e franziu a testa quando seus olhos pousaram sobre um deles.
"James", murmurou ele com receio, soando como se fosse desmaiar; a voz não combinava com a aparência. Todos também se voltaram para o jovem. "Meu caro rapaz, certamente houve algum engano."
"Engano algum, primo," respondeu James, quase de modo doce.
"É claro," disse Dearborn, agora em um tom mais moderado – ele quase murmurou: "Vou enviá-lo para casa neste instante. Gracie deve estar muito preocupada."
"Que adorável!" disse James alegremente. "Os outros bruxos maiores de idade aqui também serão levados para suas mamães em casa, não é?"
Dearborn hesitou. "James, você compreende que existem certos protocolos..."
"Os mesmos protocolos se aplicam a todos nós, certo?"
"É diferente, meu garoto. Eu conheço você."
"Tenho certeza de que há alguém por aí que conhece os demais."
"É claro," disse Dearborn calorosamente. "Frank e Alice têm todo o direito de estar aqui..." Lily supôs, pelos olhares surpresos trocados pelo casal, que eles não tinham nenhuma noção de que Dearborn sabia seus nomes.
"E Lily?" perguntou James.
"Meu querido primo... Eu não sei nada sobre sua amiga, a Senhorita Evans."
James se aproximou e sussurrou para ela: "Está vendo o que eu disse, Deslauriers?"
"Cala a boca, Baker."
"Eu não vou embora sem ela," disse James, no que deve ter tentado ser um tom moderado.
"James, não é uma questão do que você quer... Senhorita Holiday, por favor..."
Halliday fez uma careta para a pronúncia errada, mas dirigiu-se à cela.
"Se me levarem para casa, eu vou voltar," disse James depressa. "E, então, terão que me prender de novo."
"Sr. Dearborn," disse Moody, "eu recomendo manter os jovens presos durante a noite. Para ensinar uma lição."
"Mas eles querem ficar presos," sibilou Dearborn.
"Eles não tiveram que dormir naquele banco ainda," apontou Halliday.
Dearborn ponderou por um longo momento. Quando finalmente chegou a uma conclusão, cruzou as mãos atrás das costas e ergueu o queixo, tornando a falar com Halliday: "Senhorita Holiday, leve a Senhorita Evans ao meu escritório. Quero falar com ela." James abriu a boca para protestar, "...isso é, se não se opuser, Senhorita Evans."
Lily não sabia o que dizer. Considerando as opções que tinha, não parecia haver muito o que falar, e então ela sacudiu a cabeça. "Não me oponho."
Holliday abriu a porta da cela.
"Evans..."
"Eu vou ficar bem, James," disse ela. "Caso contrário, vou colocar a culpa em você."
"Em mim?"
"Aham, por me trazer aqui, para começo de conversa." Ela piscou o olho e caminhou com Halliday e Dearborn até a seção de aurores.
"Sr. Moody," disse Alice bruscamente, antes de ele também partir.
"Eu sei, eu sei," respondeu o auror. "Vou ficar de olho nela."
Então, a porta se fechou, e os três ficaram sozinhos novamente. Frank e Alice se aproximaram mais uma vez.
"Dearborn não vai machucá-la," disse Frank com confiança. Alice olhou para ele.
"O que te faz ter tanta certeza?"
"Ele não tem coragem."
Alice parecia cética, mas James, cujas costas estavam para eles ao se recostar nas grades da cela, assentiu e disse: "Ele tem razão. Dearborn não faria nada. Especialmente se achar que ela tem contatos."
"Por que ele acharia isso?" perguntou Alice.
"Porque ela está aqui com nós três."
(O Ideólogo)
O escritório de Dearborn era bastante longe do de Falstaff. A sala era mais espaçosa, a mesa era maior, a cadeira mais confortável, o visual mais organizado e as paredes revestidas com inúmeros livros. Um candelabro elegante ficava próximo a uma janela com uma falsa paisagem noturna, e havia uma espécie de lounge quadrado feito de madeira em um canto, que parecia muito confortável.
Lily não foi arrastada até lá, mas caminhou ao lado de Halliday com Dearborn atrás delas. Quando entraram na sala, o bruxou mandou que Halliday retornasse a seus "afazeres" e fechou a porta. Ele sacou a varinha, sacudiu-a duas vezes, e uma cadeira que estava num canto da sala saltou para frente e colocou-se diante de sua mesa. Dearborn a ofereceu a Lily e sentou-se do outro lado da mesa. Eles não falaram imediatamente, mas foi o homem que quebrou o silêncio.
"Seu nome é Lily Evans," disse ele. "Você é nascida-trouxa."
Lily assentiu, porque não havia sentindo algum em negar isso agora. Não sabia como ele descobrira, mas não era surpresa que o tivesse feito.
"Você estuda em Hogwarts com James."
Lily assentiu novamente.
"O que você quer?"
Isso a surpreendeu. A garota não sabia a que ele se referia, e então, disse, meio vacilante: "Eu, James e Alice fomos atrás de Frank..."
Dearborn ignorou aquilo. "O que você quer de mim?" perguntou ele, e foi a coisa mais estranha – ele estava quase lhe implorando. Talvez devido a ser tão tarde, mas o bruxo pareceu subitamente esgotado. As linhas ao redor de seus olhos ficaram mais pronunciadas, e sua feição parecia mais desesperada.
"O senhor está aceitando pedidos?" perguntou Lily desnorteada.
Dearborn tornou a ignorar sua resposta. Ele se levantou da mesa e começou a andar de um lado para o outro. "Sua espécie é... é graciosamente recebida no mundo mágico... bem recebida, recebe uma varinha... a ingratidão... o desrespeito por nós – pelos puros-sangues..."
Sua voz tremeu; Lily começou a entender o que ele realmente queria ao levá-la ao seu escritório...
"...a audácia e a... arrogância são... incompreensíveis. Você ousar entrar neste estabelecimento... Eu nunca fiz nada a não ser o que era de interesse do mundo mágico, e você, vestida como uma trouxa comum, ousa criticar..."
A ruiva estava quase disposta a sentir pena dele quando entrou no escritório, mas...
"...E depois de tudo; essa guerra, os Comensais da Morte... os bruxos que foram mortos por sua causa..."
Ele estava divagando, sem realmente falar com ela. E como poderia? Dearborn não a conhecia...
"Eu gostaria de voltar à cela, Sr. Dearborn," interrompeu Lily delicadamente. Ele se assustou com o som de sua voz.
"Eu gostaria de uma resposta," respondeu Dearborn friamente depois de um momento.
Lily hesitou. Ela encarou o bruxo por longos segundos antes de responder. "Vocês não me receberam no mundo mágico, Sr. Dearborn. Meus pais, comuns e trouxas, fizeram isso dezessete anos antes de o senhor ouvir falar de mim. E o senhor não me deu uma varinha: eu comprei na loja do Sr. Ollivander, como todos os outros bruxos e bruxas da minha idade. Eu não peguei nada seu, senhor, e não quero nada."
(Carlotta na cela)
Não fazia nem dez minutos que Lily se fora quando Moody entrou novamente na sala dos fundos e pediu para dar uma palavrinha com Frank. O auror abriu a grade da cela e o jovem o seguiu até o escritório; Alice e James ficaram sozinhos. Ele sentou-se no banco solitário da cela – um pequeno pedaço de ferro, mas que lhe permitia sentar minimamente confortável com as costas contra a parede.
"Então, como você está?" perguntou a garota sem rodeios, juntando-se a ele no banco.
"Ah, estou bem, suponho, dada a nossa atual localização." Ele tirou o chapéu e o girou à toa em uma mão. "Como você está?"
Alice encolheu os ombros.
"Como está o treinamento, então?"
Desta vez, a bruxa sorriu. "É realmente brilhante. Eu não esperava que fosse assim, mas... é... é fantástico." Ela olhou para ele. "Deveria considerar."
James balançou a cabeça, os olhos fixos no chapéu. "Não, obrigado."
"Por que não?"
"Não sei. Apenas não estou interessado."
"O que você quer fazer?" perguntou Alice. "Jogar quadribol?"
"Sim."
"Ah."
"Você falou para zombar, não foi? "
"Não..."
"Eu sou bom o suficiente, sabe."
"Eu sei."
"Aposto que poderia jogar, se quisesse."
"Tenho certeza disso."
James inclinou a cabeça para um lado. "Então, o que foi?"
"Nada..."
"Você não acha que eu deveria jogar quadribol," insistiu o bruxo. "Entendi."
"Não, não é isso," respondeu Alice. "Você... deve fazer o que acha que vai te fazer mais feliz."
"Que é quadribol," disse James com firmeza. A jovem assentiu.
"Tudo bem, então."
E ambos ficaram em silêncio por quase um minuto, enquanto James refletia sobre o que ela acabara de dizer. O que ele achava que o faria mais feliz...
"Estou saindo com Carlotta," disse ele subitamente.
Os olhos de Alice se arregalaram; ela se virou para encará-lo. "Você... você está... saindo com ela? Quer dizer... está transando com ela?"
"Quero dizer que estou... namorando ela." Ele mediu a reação de Alice com cuidado. Ela parecia estar absorvendo tudo. Diversas emoções passaram por seu rosto antes que falasse, e quando o fez, ela sorria.
"Sabe como eu sei que superei completamente o desastre Frank-e-Carlotta de 1975?" perguntou suavemente. "Porque essa foi a primeira vez que alguém disse o nome dela na minha frente desde o ocorrido e que eu não pensei instintivamente 'aquela vadia!'" James sorriu e balançou a cabeça; Alice se virou um pouco mais reflexiva. "Mas como foi que isso aconteceu?"
"Ah... nós... hum... nós meio que... ficamos... há algumas semanas..."
Alice lançou-lhe um olhar de quem sabe das coisas. "No verão passado, Frank ficou na casa da praia da sua família..."
"Certo."
"Foi lá...?"
"Sim."
"Clássico."
"Alice..."
A garota balançou a mão para ele. "Eu te disse, isso não me incomoda. Só estou pensando... espere um minuto... ela sabe?" Havia pouca dúvida quanto a quem ela se referia. Mesmo assim...
"Carlotta? Sim, acho que ela já descobriu."
"Você sabe a quem me refiro, James. Lily sabe?" Ele não respondeu, mas baixou a cabeça um pouco, e Alice entendeu a mensagem. "Como é que ela não sabe?"
"Eu só a encontrei ontem, e não surgiu..."
"Você deveria contar..."
"Por que todo mundo fica dizendo isso?"
"Porque você deveria."
"Mas por quê?"
"Porque ela vai ficar magoada se não contar."
James tornou a encará-la. "O que quer dizer?"
"Não tenho como explicar isso melhor," respondeu a garota, encolhendo os ombros. "Mas ela vai ficar magoada se você mesmo não contar."
"Mas por quê?" repetiu James.
"Bem, por que não conta?"
Ela tinha razão. "Porque... porque Lily não gosta de Carlotta. Vai ser estranho."
Alice ergueu as sobrancelhas com ceticismo. "Com um empurrãozinho, Lily gosta de todo mundo. E você tem certeza de que esse é o motivo?"
"O que isso quer dizer?"
"Só que eu não tenho certeza se você quer que Lily goste de Carlotta."
"Isso é um tanto maldoso."
Alice encolheu os ombros. "Você está enfrentando seis anos de evidências, Potter, e fez algumas coisas bem malucas para fazer aquela bruxa te notar..."
James pareceu bastante ofendido. "Acha que eu estou saindo com Carlotta para fazer ciúmes a Lily?"
"Bem, parece meio sórdido quando colocado dessa maneira..."
"Não estou fazendo isso."
"Então por que está saindo com ela?"
James cruzou os braços com petulância. "Não pode imaginar um motivo para alguém querer namorar Carlotta Meloni, exceto fazer ciúmes a outra garota?"
"Claro que posso. Mas não você."
"Por que não eu?"
"Porque você é apaixonado por Lily Evans desde os onze anos," respondeu Alice. "Ah, sim, eu disse isso em voz alta; não tenho medo de você. Não faça essa cara de espanto."
James recostou-se na parede, bufando impaciente. "Eu não sou mais apaixonado por ela."
Alice bufou.
"Cuidado, Griffiths."
"Então, conte a ela sobre Carlotta."
"Vou contar, eu só..."
"James."
"Está bem."
"Hoje."
"Vou contar."
"Bom. Porque não vou fazer isso por você."
James ergueu as sobrancelhas. "O que quer dizer?"
"Ah, não dê uma de espertinho, Potter," riu Alice. "Eu sei perfeitamente bem que foi por isso que me contou... esperando que eu sutilmente dissesse a Lily. Garotas não são fofoqueiras, sabia?"
"E garotos não são universalmente covardes," retrucou James. "Esse não era o meu plano. Eu só... eu não sei... achei que você estaria interessada em saber. Por causa do Frank."
"Ah, eu não me importo com isso," disse Alice.
"Nem um pouco?"
Ela deu de ombros. "Frank não liga mais para Carlotta."
Era certamente algo rude de perguntar, mas James, de alguma forma, não pôde evitar, pois a confiança com a qual ela declarou aquilo o interessou um pouco: "Tem certeza?"
"Aham."
Ele pensou na conversa que teve com um Frank embriagado na Torre de Astronomia há alguns meses. Era divertido pensar que a Carlotta a que se referiam naquela conversa era a mesma pessoa que ele agora chamava de namorada. "Eu acho que você está certa quanto a isso."
Alice sorriu maliciosamente. "O que te faz dizer isso?"
"Uma vez tomei uma ouvindo ele falar sobre isso."
"Sério? Deve ter sido uma história interessante."
"Muito interessante. Você estava flertando com meu melhor amigo na época."
A bruxa começou a rir com isso. "Tem sido um ano muito estranho, não é?"
James estava inclinado a concordar.
"Você vai contar a Lily sobre Carlotta, não vai, Potter?"
"S-sim."
"Ótimo."
"Embora eu ainda não veja que diferença isso faz."
"Você só precisa confiar em mim," disse Alice.
Aparentemente, Lathe foi chamado para pegar Lily no escritório de Dearborn, pois foi ele quem a acompanhou de volta à cela, e foi seguido por Frank. O rosto da ruiva parecia mais pálido, mais sombrio, quando voltou, e James e Alice se levantaram do banco enquanto o auror a recolocava na cela.
"O que ele queria?" perguntou Alice. "Você está bem?"
Lily assentiu rapidamente. "Ah, eu estou bem. Mas Dearborn poderia dormir um pouco. Ele parece um pouco... exausto."
"O que ele disse?" questionou James, desconfiado.
A bruxa deu de ombros, mascarando alguma emoção com um gesto inocente. "Nada demais. Ele só queria saber o que eu queria."
"O que você queria?" repetiram James e Alice, mas não conseguiram interrogá-la mais, pois Lathe os interrompeu.
"Tudo bem, escutem," começou o auror, cansado, "Dearborn quer que levemos você para casa," (Isso para James). "Ele quer tomar chá com vocês dois..." ele indicou Frank e Alice, "e é para você ficar na cela." A última era, claro, Lily.
"Acho que não," disse James friamente.
"Moody está vendo o que pode fazer," concordou Lathe. "Eu não me preocuparia muito com vocês... é com seus amigos que devem se preocupar."
"O que quer dizer?" perguntou Alice depressa.
"Quando Dearborn subiu ao Átrio, mandou que os bruxos do esquadrão prendessem todos," disse Frank, suspirando.
"Mas não conseguiram movê-los," explicou Lathe. "A rede enfeitiçada, suponho, e Dearborn ficou furioso."
"O que você acha que ele vai fazer?" indagou Lily.
"Nada de bom," respondeu o auror.
"Você deveria falar com Vance," disse James. "Ou com Tilda Figg."
"Eles não iriam embora, nem Dorcas, Sam ou Em..." disse Frank com o ar de quem sabe das coisas. "Mesmo que estivessem em perigo. Eu disse a Moody que eu não seria capaz de convencê-los."
Todos refletiram sobre aquele fato lastimável por um tempo. De repente, Lathe riu baixinho.
"Eu não vejo graça," resmungou Alice.
"Não é isso," admitiu o bruxo; ele se recostou nas grades. "Só estou imaginando a cara de Dearborn quando chegou ao Átrio. Freeman... ela trabalha no departamento e estava lá. Ela disse que Dearborn estava praticamente histérico, agitando os braços e tudo o mais..."
"Aposto que aquela repórter fez um belo trabalho de campo," disse Lily, lembrando-se da bruxa loira que entrara na rede da Fênix com os outros. "Isso é, se ela conseguir publicar..."
"Que repórter?" perguntou Lathe.
"Tem uma bruxa do Profeta Diário lá em cima," explicou a ruiva. "Ela está presa na rede como os outros."
Houve um momento de silêncio e então Lathe franziu a testa, pensativo. "Acho que tenho uma ideia," disse ele. "Esperem aqui um momento."
"Para onde iríamos?" replicou James, revirando os olhos, enquanto o bruxo saía do cômodo mais uma vez.
Ele não retornou.
Minutos se passaram. Frank e Alice se sentaram no banco, a garota apoiando a cabeça no ombro do namorado; eles deram as mãos e não disseram nada. Enquanto isso, James sentou-se no chão perto da porta, onde Lily se juntou a ele.
"Então, o que aconteceu com Dearborn?" perguntou ele.
Lily gesticulou vagamente; "Nada demais, na verdade."
James franziu a testa, perplexo. "Eu não... o que quer dizer?"
"Nenhum grande evento interessante aconteceu durante o tempo que fiquei no escritório do referido bruxo," disse Lily secamente.
"Gracinha."
"Eu tento."
"Bem, o que ele te disse? E não se atreva a dar de ombros..."
Lily fez uma careta. "Ele só... só discutiu ideologia comigo. Não foi muito interessante."
"Ele foi... ele foi cruel?"
"É uma pergunta engraçada."
"Sabe o que eu quero dizer." O silêncio de Lily sobre o assunto, porém, deixou espaço para interpretações abrangentes: "Ele... ele te chamou de... sabe...?"
"James..." Lily suspirou.
"Ele chamou, não foi?! Aquele imbecil..."
"Ele é seu primo..."
"Distante," disse James, acenando despreocupadamente com a mão. "Ele é chefe do D.E.L.M., não tem permissão para usar esse tipo de linguajar, especialmente com bruxas de dezessete anos de idade!"
A cor começou a voltar ao rosto de Lily, e, embora estivesse achando graça da raiva dele, James estava feliz com aquilo pelo menos. Mesmo assim, ele prosseguiu falando por uns cinco minutos, antes de ela implorar para que mudasse de assunto. Por um tempo, eles especularam – com bastante ansiedade – sobre o que estava acontecendo nas outras partes do Ministério, e Lily tentou mais uma vez desvendar o mistério de como Lathe e os aurores tinham sido convocados.
"Lembre-me de perguntar na próxima vez que eles estiverem aqui, o.k.?" disse ela, aborrecida consigo mesma por ter se esquecido de novo.
Minutos se passaram; o diálogo cessou. Frank e Alice, do outro lado da cela, começaram a conversar em sussurros, e James sabia que a oportunidade havia chegado.
"Snaps," começou ele, quando ambos ficaram em silêncio por alguns minutos.
"Hum?"
"Tem... na verdade, tem algo que eu queria te falar..."
Lily olhou para ele. "Você não está chateado com aquilo de monitor-chefe, não é?" perguntou ela ironicamente. "Eu já me desculpei e..."
"Não, não é isso," interrompeu James, e havia certo nervosismo em sua risada que despertou o interesse de Lily. "Não, é..."
Mas Halliday entrou no escritório naquele momento, chamando a atenção de todos.
"Longbottom, Griffiths," começou ela, destrancando a porta da cela. "Dearborn quer falar com vocês."
Frank e Alice trocaram olhares nervosos, mas assentiram e se levantaram, seguindo Halliday até os escritórios. James e Lily agora estavam sozinhos.
"O que você acha que ele quer falar com eles?" perguntou Lily. "Não vão ser expulsos do programa de aurores, não é?"
"Não faço ideia," admitiu James bastante sério.
Lily suspirou fundo. "Acho que logo mais vão te levar também."
"Não se eu tiver escolha."
"James, se eles vierem te buscar... não faça nada idiota."
"Idiota? Eu?" Ele parecia um pouco ofendido. "Quando foi que eu fiz algo idiota?"
"Não consegue pensar em nada, não é, Tom Baker? Escolha interessante de nome, por falar nisso..."
"Foi a primeira coisa que surgiu na minha cabeça."
"A questão é, Potter: por favor, não faça nada idiota... especialmente por minha conta. Vá para casa e durma um pouco. Eu vou ficar bem."
"Não pode garantir isso."
"Bem, não posso ficar pior do que estou com você bolando planos."
"Você está fazendo piada de algo que é muito sério," repreendeu James, mas a ruiva apenas sorriu.
"Olha quem está falando." Eles ficaram calados um tempo, e então Lily se lembrou da conversa que estavam tendo antes da interrupção de Halliday. "Sinto muito; você estava dizendo alguma coisa..."
"Dizendo o quê?"
"Você disse que tinha algo que queria me falar? Antes de Frank e Alice saírem..."
"Ah. Certo." Afobado, James assentiu. "Algo, sim. Eu queria falar com você sobre... uma coisa..."
Mas o destino tinha outros planos.
A porta do escritório mais uma vez se abriu, batendo contra a parede com um estrondo e admitindo – não outro auror –, mas Sirius Black.
"Padfoot?"
"Sirius?"
Os dois na cela se levantaram, enquanto Sirius entrava, de forma bastante casual, sorrindo ao vê-los. "Ah, fantástico, vocês dois estão bem. Eu quase não acreditei neles, sabe?"
"O que está fazendo aqui?" perguntou Lily, mas o rapaz não respondeu, pois depois dele entrou o auror Eckles, após quem, por sua vez, entraram mais bruxas e bruxos. Remus, Peter, Sam Dearborn, Dorcas Meadowes, Emmeline e Victor Vance, Marlene e mais outro que Lily não conhecia, mas reconheceu do Átrio.
Eles totalizaram quase trinta pessoas quando a procissão cessou, sendo que os dois últimos a chegarem foram Moody e Lathe. Todos tagarelavam alto e o espaço fora das celas estava lotado de gente se movimentando. Sirius e os Marotos – sendo os primeiros a entrar – estavam pressionados contra as grades.
"O que está acontecendo, Padfoot?" perguntou James em voz alta.
"Oi, cara... é algo brilhante... mas espere um minuto..."
Lathe abriu caminho em meio à multidão, pegando as chaves do bolso no processo e destrancando a segunda cela, até então desocupada.
"Metade de vocês aqui dentro!" ordenou Moody em voz alta, e aqueles que estavam à frente, incluindo os outros três Marotos, entraram obedientemente.
"Ei, Padfoot!" reclamou James, revirando os olhos. "Cela errada! Vem para cá..."
Enquanto Moody destrancava a porta da primeira cela, James conseguiu se espremer para fora e entrar na outra, antes que Lathe o trancasse novamente. Lily se sentiu um pouco excluída, até Marlene e Sam estarem entre a metade do grupo que entrou em sua cela.
"O.k., o que está acontecendo?" perguntou a ruiva a eles, já que os outros pareciam estar conversando alegremente para quem tinha acabado de ser detido.
"Ah, meu Merlin, você deveria ter visto Dearborn!" disse-lhe Marlene, radiante. "Eu fiquei envergonhada por ele!"
"O que aconteceu?" insistiu Lily, impaciente.
"Egbert foi ao Átrio para mandar os aurores nos prenderem," começou Sam, "isso foi há... o quê? Meia hora? Vinte minutos atrás? Mas os aurores disseram que precisavam de autorização de Alastor Moody..."
"Então, ele – quer dizer, Dearborn – começou a gritar com eles, e depois começou a gritar conosco," continuou Marlene, "e eu estava ao lado daquela repórter – Rita Não-sei-das-quantas, que estava fazendo mil perguntas – ah, não, você também perdeu isso. Longa história. A questão é que eu nunca vi ninguém tão empolgado. Ela parecia uma criança de cinco anos no Natal... ou Donna quando tira nota máxima no dever de casa..."
"Então, avançando uns quinze minutos ou mais," continuou Sam, "Eg foi embora, mas Moody e Lathe subiram e pediram para conversar com os Vance..."
"E nós estávamos lá, ou não teríamos escutado nada..."
"Black estava quase tendo um ataque de pânico, então ele se certificou de manter os ouvidos atentos para o caso de ouvir alguma coisa sobre você e James..."
"Então, aquele tal de Moody disse a Victor e a Emmeline que eles, essencialmente, tinham duas opções: ficar no Átrio a noite toda, ou deixar alguns de nós serem jogados aqui para passar a noite. É claro que Victor disse que não se importava em ficar no Átrio..."
"Mas Moody apontou que, se alguns de nós ficassem no Átrio, todos nós ficaríamos. Inclusive a repórter do Profeta, que provavelmente ia preferir elaborar a manchete para a edição da manhã."
Lily começou a entender. "Ah, não..."
"Sim," disse Sam orgulhosamente. "Gid e Fabian finalmente se convenceram a desfazer a rede, Lathe levou quem se voluntariou a ficar aqui em cima... fez parecer que não queríamos ir, é claro, e depois nos trouxe. Os demais foram 'escoltados' para fora, inclusive aquela bruxa do Profeta Diário."
"Seu irmão vai parecer um idiota quando ela escrever a matéria," apontou Lily. Sam deu de ombros.
"E daí? Ele é um idiota e ele precisa do emprego, nem vai ficar desamparado sem ele, ou algo do tipo."
"O.k., então."
Marlene arqueou as sobrancelhas em surpresa. "Você não quer que ele seja demitido, Lily? Se fosse por Dearborn, nunca teríamos sido aceitas em Hogwarts."
"Se fosse por ele, os puros-sangues não teriam qualquer contato com vocês," concordou Sam.
"É isso, suponho," ponderou Lily. "Ele real e honestamente acredita nisso. É quase... lamentável. Claro que eu não quero que ele se torne chefe permanente do D.E.L.M. ou que sua Lei de Proteção à População Mágica passe, mas eu... eu ainda posso sentir pena dele, não é?"
"Você é maluca," disse Sam baixinho. "Eg está bem. Agora, acham que eles nos deixarão sair para usar o banheiro? Eu não vou desde esta tarde, sabe..."
"Eu não vou," disse James a Lathe obstinadamente, pois agora que estava cercado por Sirius, Remus e Peter, recusava-se completamente a ser levado para casa.
"Por que raios você iria querer ficar?" questionou o auror. "Não vai ser divertido. Vai ser uma porcaria."
"Então, diga a Dearborn que me levou para casa," falou James. "Ele não vai saber a verdade."
"Mas e se ele vier checar?"
"Acho que ele terá muita coisa na cabeça," disse Sirius. "Tipo trinta presos culpados de perturbar a paz na detenção."
"Perturbar a paz?" repetiu James, confuso.
Marlene, que agora estava ao lado deles, mas do outro lado das grades que separavam as duas celas, sorriu. "Depois de Seven Drunken Nights, podemos ter ficado um pouco empolgados com canções de bar."
"Eu pagaria caro para ver isso," comentou Lily ao lado de Marlene.
"Eu sigo ordens," disse Lathe, impotente.
James encostou-se nas grades. "Com medo de se encrencar com a mamãe, é?" provocou. Lathe franziu o cenho.
"Acha que isso vai funcionar? Atacar minha coragem? Eu sou um auror, Potter. Tenho todos os tipos de treinamento para resistir a muitos, muitos tipos diferentes de persuasão. Isso não vai funcionar."
"Bem," suspirou James, resignado. "Eu não gostaria de colocar o grande e assustador auror em apuros com o chefe..."
"Não vai funcionar."
Todos os Marotos olhavam para ele com ceticismo. Lathe o encarou desafiadoramente.
"Não vai funcionar."
Mas funcionou.
"Maldição... se ele entrar aqui, você vai se esconder nos fundos, está me ouvindo, Potter?"
Lily não sabia quando tinha se oferecido para passar a noite na cela, mas o fato de todos os outros trinta terem feito literalmente a mesma coisa fez com que relutasse em apontar isso.
As horas se passaram, e ela começou a sentir cada vez mais, de modo que, quando suas pernas começaram a doer por estar há muito tempo em pé, a ruiva encontrou um lugar aos fundos onde o chão estava livre, e se sentou. Ela encostou a cabeça na parede, os braços apoiados nos joelhos, enquanto considerava tirar um cochilo.
"Cansada, ruiva?"
Sam sentou-se ao lado dela.
"Exausta," confessou. "Foi um dia bem maluco."
"Você vai ter que explicar como foi a segunda parte," respondeu o bruxo. "Está com machucados nos pulsos."
Ele tinha razão; Lily não percebera.
"Eu arranquei uma porta das dobradiças," disse ela.
"Como?"
"Com um trinco de gaveta."
Sam ergueu as sobrancelhas. "Deve ter sido uma experiência interessante".
"Vou registrar no diário assim que chegar em casa," disse Lily secamente.
"Você é uma garota de diário, hã?"
"Receio que seja meu ponto fraco."
"Claro que é. Você deveria dormir, está acabada."
"Se todos vão ficar acordados, é melhor eu ficar também."
Sam deu de ombros. "Como queira," disse ele. "Mas aposto que vai adormecer."
Ele mesmo dormiu no ombro de Lily meia hora depois.
"Que bom encontrá-la aqui," veio a voz de Sirius Black, e Lily olhou para cima, exatamente quando Sirius, na cela adjacente, sentou-se no chão ao lado dela. Eles estavam separados pelas grades, mas isso não impediu a conversa nem, na verdade, o compartilhamento. Sirius tirou o chapéu prateado e levantou a aba, resmungando ao fazê-lo: "Não pretendo fazer nada de bom". De dentro do chapéu, ele produziu uma sacola de batatas fritas – de uma marca trouxa – que, ao abrir, ofereceu a Lily.
"Quer se casar comigo?" perguntou ela seriamente, pegando uma batata (e depois várias outras) avidamente.
"Eu não sou pra casar," respondeu Sirius preguiçosamente. "Vejo que você e Sam estão se dando bem." Ele acenou para o bruxo adormecido no ombro da garota.
"Ele é um cara divertido, não é?" disse ela baixinho para não acordá-lo. "Não é nada como o irmão."
"Prongs mencionou que você conheceu o velho Dearborn..."
"Brevemente, sim." Lily pegou outra batata. "Ele também não é o que eu esperava... para alguém que nasceu e se criou como puro-sangue, quero dizer. A maneira como as pessoas falam sobre eles..."
Sirius bufou. "Algum de nós é?"
"Talvez não."
Sirius sorriu, com um quê de amargura, colocando outra batata na boca. "Eu falo francês, sabia? "
"Não, não sabia," respondeu Lily, surpresa.
"Sim. E Prongs sabe um pouco de grego... essa foi a língua que a mãe dele quis que ele aprendesse. Mas os Black sempre aprendem francês. E também dança de salão... por alguma razão, todos nós aprendemos dança de salão. E quadribol e Galope dos Duendes, que é um jogo de cartas que você nunca ouviu falar, e a árvore genealógica da família... nós memorizamos nossas árvores genealógicas..." Sirius se calou. Por um momento, Lily achou que o Maroto esquecera que ela estava ali, mas depois ele tornou a falar. "Há muitas tradições que as antigas famílias mantêm... as mais antigas, quero dizer. Potters, Blacks, Malfoys, Sellwyns... e elas são parte de nós. Quer seja dança de salão ou achar que os nascidos-trouxas são sangues-ruins... é tudo a mesma coisa... é por essa razão que tudo isso está acontecendo com seu pessoal..."
"Sirius..."
"E isso não desaparece," interrompeu ele. "Eu ainda consigo dançar muito bem, sabe?"
"Nada disso é culpa sua, Sirius," disse Lily suavemente. Ele a encarou.
"Não, eu sei... eu só queria ter sorte como você."
"Sorte?"
"Sim... talvez seu pessoal esteja em perigo, mas pelo menos não têm do que se sentir culpados."
Lily revirou os olhos, mas não pôde deixar de pensar no que Dearborn dissera mais cedo. Ela se perguntou se seria estranho segurar a mão de Sirius, mas se conteve, pegando outra batata ao invés disso.
"Você é diferente deles, Sirius. Sabe disso. E o que restar em você de sangue-puro... dos Black..." Ela procurou as palavras certas, "bem... não há nada de errado com dança de salão." A ruiva pegou outra batata.
Sirius sorriu para ela. "Está com fome, hein?" indagou.
"Faminta." Ela se lembrou de algo. "Ei, você recebeu nossa mensagem? Pelo espelho?"
"Não... Prongs mencionou isso também, mas não ouvi nada de lá o dia todo."
"Estranho," murmurou Lily. "Então, quem chamou os aurores?"
"Não faço ideia."
Lily lembrou-se de outra coisa. "Ah! O bruxo... do Átrio. De vestes azuis, com o pergaminho e a pena; você...?"
"Ah, eu dei um jeito," disse Sirius, sorrindo.
"O que você fez?"
"Eu o confundi."
"Quê?"
"Bem, os bruxos do esquadrão estavam tão distraídos com a cantoria..."
"Por Merlin e Agrippa..."
"...então eu meio que... o confundi. É minha especialidade, sabe? Então, convoquei o pergaminho e o queimei."
"O que era? O que ele estava escrevendo?"
"Nomes," respondeu Sirius. "Ele não escreveu o seu, mas muitos dos outros estavam lá. Eu mesmo, inclusive..."
"Você não sabe para que era?"
Sirius balançou a cabeça. "Ele se foi um pouco depois. Eu não tenho ideia do que se tratava."
"Não gosto disso," murmurou Lily. "É preocupante..."
Sam, porém, aproveitou o momento para se mexer um pouco, murmurando alguma coisa durante o sono. Sirius sorriu.
"Que confortável."
Lily riu. "Muito!"
(Café-da-manhã)
Frank e Alice haviam descoberto esse café em Westbourne Grove em julho, quando passaram a primeira semana trabalhando diretamente com o departamento de aurores. Na maioria das vezes, faziam tarefas tediosas, como papelada, quando trabalhavam com os aurores, mas as horas eram longas, e o fato de receberem por isso era um consolo. De qualquer forma, ouvir de outro funcionário do Ministério sobre esse café fora uma recompensa muito maior - ficava aberto vinte e quatro horas e era um estabelecimento mágico, assim não tinham que se preocupar com dinheiro trouxa.
No entanto, apesar de todas as noites sem dormir e de madrugarem lá, o casal jamais tivera uma manhã tão desaminada quanto aquela. Era pouco depois das cinco da manhã; desde sua abrupta expulsão do Ministério horas antes, não tinham dormido muito, e então aparataram para seu lugar preferido em busca de conforto.
"Você acha que vamos ser expulsos do programa?" perguntou Alice, tomando seu chá.
Frank deu de ombros. "Suponho que teremos que esperar para ver, não é?"
"Não sou muito boa nisso," admitiu a bruxa. Ela sorriu do outro lado da mesa de alumínio, mas era uma mera imitação de seu sorriso genuíno. "Suponho que ficará tudo bem. As coisas que Dumbledore estava discutindo..."
"Não era para ser uma alternativa ao programa de aurores," apontou Frank. "Na verdade, não sei o quanto seremos úteis para ele se não formos A.T.s."
Alice zombou. "Fale por si mesmo."
Frank mastigou monotonamente uma fatia de bacon. "Sabe a que me refiro, Ally. Como A.T.s, estamos em uma posição diferente da maioria..."
"Ele não quer apenas aurores, Frank," respondeu ela em um tom sério. "Ele nos quer."
Uma música antiquada estilo jazz tocava no rádio do café vazio e, exceto pelo tilintar ocasional de xícaras de porcelana pousando em fileiras na prateleira atrás do balcão depois de lavadas, a música parecia ser o único ruído quando Frank e Alice, os únicos clientes, se calaram. O sol ainda não nascera, e a ocasional luz bruxuleante amarelo-esverdeada do armário de colheres engordurado, combinada com as lâmpadas da rua, forneciam toda a luz que tinham à disposição.
Alice cutucou seus ovos fritos. "Você acha que os outros estão bem? Eu gostaria que tivéssemos sido autorizados a ficar também. Eu disse que deveria ter azarado alguém."
Frank revirou os olhos. "Bem, então estaríamos fora do programa com certeza."
"Hum, mas quão satisfatório teria sido?"
Alice largou o garfo sem ter comido nada.
"Ally," começou Frank suavemente, e ela o encarou com o mesmo sorriso falso de antes.
"Hum?"
"Eu acho que gosto de você."
Alice riu com gosto. "Não conte a ninguém, mas acho que gosto de você também. Acho que teremos que resolver o restante com o tempo."
"Vai ficar tudo bem."
"Eu sei."
O sino da porta que dava para a rua tilintou quando um jovem bruxo entrou, carregando uma pilha de jornais, que deixou sobre o balcão. A proprietária – uma bruxa idosa com vestes cinzentas – veio da cozinha e pagou ao menino, que sorriu e partiu.
"Vou pegar um jornal, o.k.?" disse Frank. "Eu acho que vai ser interessante ver o que eles têm a dizer sobre a noite passada."
Ele foi buscar um dos jornais e, quando voltou, seus olhos estavam arregalados ao ler a primeira página.
"O que foi?" perguntou Alice, preocupada.
Frank ergueu as sobrancelhas. "Você já ouviu falar de Rita Skeeter?"
"Hum... não, eu acho que não."
"Bem, acho que vai ouvir."
(Outro Café-da-manhã)
"Você só trouxe batatas?" reclamou Peter, enquanto Sirius produzia mais um (o terceiro) saco delas e em seguida passava o pacote ao grupo dos que ainda estavam acordados (ninguém com mais de vinte e cinco anos).
"Não estou vendo você oferecer um frango para o jantar," respondeu Sirius.
"É a vez de quem?" indagou Marlene, olhando em volta do círculo de bruxas e bruxos que se formara nas duas celas, com as grades entre eles. Os Marotos e os Prewett estavam de um lado, com Lily, Sam e Marlene do outro. Todos seguravam cartas, mas ninguém, exceto James e Sirius, entendia as regras do jogo. "Isso é ridículo. Por que não jogamos Snap Explosivo de novo?"
"Não é tão complicado," protestou James. "Sinceramente, Sirius consegue entender; não sei por que vocês estão tendo tanta dificuldade."
"E Emmeline disse que Snap Explosivo era muito barulhento," disse Lily. "Eu tenho um par... isso significa alguma coisa, certo?"
"Não, precisa de três."
"Mas Gideon tinha um par antes, e significou algo..."
"Certo, mas Gideon era o mutuário naquela vez..."
"O que raios é um mutuário?"
"A pessoa que tem mais pares de três..."
"Não existem pares de três," apontou Marlene. "Um par é sempre dois."
"Acho que isso não é verdade," disse Peter. "Eu acho que existe par de três, mas tem que especificar."
"Não, um par é sempre dois," concordou Lily. "É como 'casal'. Sempre dois."
"A menos que ela aceite," disse Sirius. "Ah, não faça essa cara; foi engraçado..."
"Falem baixo!" resmungou Dorcas Meadowes do outro lado da cela de Lily. Estavam todos sentados no chão agora, exceto os poucos sortudos que ocupavam os bancos, e quase todo mundo dormia ou tentava adormecer. Aqueles envolvidos no jogo de cartas entre as celas eram os únicos que haviam abraçado a inevitável consciência.
Já passava das cinco horas. O sol nasceria em breve, e Lily recuperara as forças, não se sentia mais exausta. Sam dormira por algumas horas, assim como os irmãos Prewett, mas os Marotos, Lily e Marlene continuavam alertas. Halliday sentou-se em uma cadeira no canto da sala com um livro, sendo ocasionalmente substituída por Eckles ou Lathe rapidamente, mas na maior parte do tempo ficava parada. Ela deu pouca atenção aos detidos.
"Você é tão idosa, Dory," retrucou Sam. "Dormindo em um momento como este!"
"Você estava dormindo antes da meia-noite," apontou Lily, mas ele a ignorou.
"Vocês são praticamente todos adolescentes... achei que pudessem dormir em qualquer lugar!" resmungou Dorcas.
"Só durante o dia," respondeu James despreocupadamente.
Dory grunhiu e depois se enroscou mais ainda, fechando os olhos mais uma vez.
"Por quanto tempo você acha que ficaremos aqui, então?" perguntou Peter em um sussurro alto, enquanto o jogo prosseguia. "Eu mataria por algo melhor para comer."
"As batatas são deliciosas," Sirius defendeu seu lanche, irritado.
"Sim, mas uma refeição quente..."
"Um banho quente," suspirou Marlene, saudosa.
"Uma cama quentinha," disse Fabian.
Lily preferia não pensar nessas coisas e, em vez disso, concentrou-se no jogo de cartas. "É a sua vez, Remus," disse a ruiva.
Apesar de toda a conversa, às seis horas quase todos estavam, no mínimo, cochilando. Mas Lily não se sentia confortável o suficiente para dormir, e, aparentemente, James e Remus também não. Só os três permaneciam acordados quando, pouco depois das seis, Lathe entrou na sala carregando um jornal. Ele gesticulou para que os três adolescentes se aproximassem da porta, e eles se levantaram imediatamente.
Foi difícil chegar à porta da cela sem pisar em ninguém, e Lily teve que andar na ponta dos pés pelos corpos adormecidos de seus companheiros com grande cuidado para evitar pisotear mãos ou cabeças. Lathe abriu as portas das duas celas e Lily, James e Remus entraram nos escritórios.
"Bem," sussurrou o auror, "vejam isso".
Lá estava...
Dearborn do D.E.L.M.: Dedicado e Delirante
por Rita Skeeter
Lily folheou a história. "Bem, Remus... você estava lá. Certo?"
"Sim, mais ou menos," disse ele, balançando a cabeça.
"Ele parece delirante, como ela o descreveu," disse James. Ele olhou para Lathe. "Quando a Suprema Corte vai votar?"
"Eles entram no plenário às dez."
"Como acha que isso vai acabar?" questionou Lily.
"Dumbledore não vai apoiar Dearborn," disse James. "Já é um voto, pelo menos."
"Ele não tem chance," declarou Lathe. "Quem vai votar no cara que grita 'sangue-ruim' no Átrio? Ele parece louco."
"Em quem vão votar, então?" perguntou James. "Eu ouvi alguém falando em Clovis Bagman..."
Mas Lathe apenas encolheu os ombros. "Acho que vamos descobrir hoje, não é?" Ele sorriu cordialmente. "Bem, os outros vão acordar em breve. Eckles está fazendo chá para todos, porque ele tem um bom coração, mas se quiserem se arrumar e usar o banheiro, recomendo que façam isso antes que todo mundo acorde, ou terão que disputar com trinta pessoas por um lugar na fila."
Lily e Remus foram primeiro e depois voltaram para as celas, enquanto James partia para se limpar. Lily ficou tentada a entrar na cela dos Marotos dessa vez, mas não queria abandonar Marlene, então voltou para onde estava. Remus empurrou o corpo adormecido de Sirius, sentando-se ao lado de Lily.
"Que dia, hein?" comentou ele. "Você está bem?"
"Estou," respondeu ela. "E você?"
"Tranquilo."
Lily esboçou um meio sorriso.
"O que foi?" perguntou Remus, detectando sua preocupação. A ruiva apenas sacudiu a cabeça.
"Eu não sei," respondeu ela. "Estou só imaginando como isso tudo vai acabar, sabe?"
"Acabar? Bem, espero que termine com todos nós indo para casa dormir."
Lily assentiu e não se explicou mais, porque sabia que Remus tinha entendido o que ela realmente queria dizer com "acabar", mas que ele, sabiamente, preferia não pensar nisso.
Quando os demais acordaram, houve mais barulho e mais especulação sobre a decisão da Suprema Corte. As articulações doíam e ninguém estava particularmente descansado, mas um zumbido circulou pelas celas quando a hora da reunião se aproximou.
"Dearborn já está no Ministério," informou um bruxo mais velho, que Lily não conhecia, a alguns do grupo, enquanto voltava do banheiro. "Ouvi alguns aurores conversando... parece que ele não está bem."
"Depois de uma manchete como a de Rita Skeeter?" resmungou Marlene. "Eu também não estaria."
"Será que ele virá aqui?" questionou Lily. O bruxo deu de ombros.
"Não sei... não o conheço. Eu trabalho aqui, sabe? Acidentes e Catástrofes Mágicas, mas eu nunca trabalhei muito com Dearborn."
"Você não vai se encrencar por faltar ao trabalho?" perguntou Marlene.
"Minha esposa vai enviar uma coruja dizendo que estou doente, eu acho," respondeu ele alegremente. "De qualquer forma, é bom ter algo interessante a fazer. Pode-se pensar que Acidentes e Catástrofes seria um departamento fascinante, mas pode ser monótono. Embora, semana passada, vejam, nós nos divertimos... fomos encarregados de tentar fazer chover."
"Claramente não tiveram sucesso," comentou Lily. "Está seco há meses."
"Esse é o problema, não é?" respondeu o bruxo. "O céu simplesmente não quer se abrir. Nunca vi um verão tão seco..."
No fim, Dearborn não foi à seção de aurores e quando deu dez horas, Lily já não o esperava. Ele estaria aguardando a decisão da Suprema Corte.
Ficou decidido – e Lily não sabia por quem – que todos seriam libertados ao meio-dia, quando o Átrio estivesse cheio de funcionários do Ministério saindo para o almoço. Como se livrar de trinta pessoas sem causar muito transtorno era outro problema; alguns, decidiu-se, seriam escoltados pelas lareiras dos aurores, outros retirados pelos terminais principais do Átrio, e os demais pela saída de visitantes.
Conforme a manhã avançava, o escritório dos aurores ficava mais barulhento e ocupado. Às onze horas, houve uma grande onda de entusiasmo e vários aurores saíram pelas lareiras com pressa. Todos nas celas pareciam saber o motivo, mas não falaram muito sobre isso.
A manhã se prolongou. "Espero que façam o anúncio em breve," comentou Lily com Sam, a medida que a hora de serem liberados se aproximava. "Será terrível se não descobrirmos até as cinco horas da tarde."
Mas, na verdade, não tiveram que esperar tanto.
O anúncio foi feito às onze e vinte da manhã, após uma hora e meia das deliberações. Eckles, que agora substituíra Halliday como auror responsável pelos detidos, trouxera o rádio e ouvia as notícias.
Houve muita animação.
"Quem raios é Barty Crouch?" indagou Marlene.
"Espere um minuto... ele não estava em Hogwarts há alguns anos?" perguntou Peter, confuso.
"Não, era o filho dele..." explicou James.
"Bem, quem é ele?" insistiu Marlene.
"Ele não é Egbert Dearborn," respondeu Gideon Prewett. "Isso é certo. Ele é notoriamente contra os Comensais da Morte."
"Bem, isso é bom," disse Lily.
Todos os outros nas celas ainda aplaudiam a derrota de Dearborn.
"Acalmem-se!" resmungou Eckles. "Estou tentando ouvir as notícias!"
(De Volta ao Mundo Real)
Lily estava animada demais para sentir que estava com fome e cansada além do normal. Ela praticamente saltitou pelo Átrio com os Marotos, Sam, Marlene, os Vance e os Prewett, segurando o braço de Remus enquanto isso. "Eu acho que pode ser por não ter dormido ou comido nada, exceto batatas fritas, nas últimas vinte e quatro horas," disse ela baixinho, "mas me sinto um pouco alegre."
Remus riu.
"O.k., por aqui," disse Lathe, liderando o caminho. Passaram pelo movimentado Átrio, e Emmeline, Victor e os Prewett, despedindo-se dos companheiros mais jovens, entraram em uma das lareiras. Os outros se dirigiram à entrada de visitantes. Sam e Marlene entraram no elevador primeiro e desapareceram em seguida.
Lily estava prestes a entrar com Remus, quando se lembrou de algo. Ela se virou para Lathe novamente.
"Espere um minuto," começou a bruxa rapidamente. "Ainda estou confusa com uma coisa... quem chamou os aurores? Não foi Frank, não foi Sirius... quem mais poderia saber? Quero dizer... você até sabia que estávamos no escritório de Falstaff, e que Frank estava com Svilt... eu não entendo..."
Sirius e Remus partiram, mas Lily e James esperaram com grande interesse por uma resposta.
Lathe sorriu, coçando a nuca. "Recebi uma coruja ontem à noite," respondeu ele lenta e deliberadamente, "de... uma amiga em comum, transmitindo uma mensagem muito estranha e truncada que eu tive que traduzir, só Merlin sabe como, mas que por fim deixou bem claro que se alguma coisa acontecesse a você ou a Potter, eu não seria mais bem-vindo no Caldeirão Furado."
Só após um segundo caiu a ficha da ruiva. "Donna?"
O auror assentiu.
"Mas como ela...?"
"O espelho!" disse James em voz alta. "É claro, o espelho! Nós não falamos com Sirius no espelho ontem de manhã! Falamos com Donna! O idiota esqueceu de pegar de volta com ela, e depois esqueceu que esqueceu de pegar com ela!"
"Ela ouviu a mensagem e enviou uma coruja a Lathe!" concluiu Lily. "Certo?"
Lathe encolheu os ombros. "Eu não sei. Não fiz muitas perguntas."
"Obrigada," disse Lily. "Por nos ajudar."
"Estamos quites," respondeu o auror. Ele apontou para o elevador. "Seus amigos estão esperando."
Todos ficaram ali na rua, que se movimentava sem nenhuma ocorrência especial para eles ou para a noite que tiveram.
"E agora?" perguntou Remus para ninguém em particular.
"Eu preciso comer," disse Lily.
"E tomar banho," disse Marlene, soando saudosa.
"Na verdade, eu me sinto bem," disse Sirius alegremente. "Eu voto para irmos à casa de Prongs."
"Por que quer ir para minha casa?" perguntou James.
"Porque estou com saudades da sua mãe."
"Não seja esquisito."
"Não consigo evitar, ela tem esse efeito em mim."
"Bem," disse Remus, "minha mãe só sai para o trabalho às três, e será muito mais fácil se eu já estiver limpo quando for tentar explicar isso a ela, então vou para casa dos Potter."
De alguma forma, ficou combinado que todos iriam para os Potter. Marlene prometeu encontrá-los lá, mas ela queria passar em casa, tomar um banho e buscar Mary primeiro. Então, Lily teve uma ideia.
"Espere um instante," disse ela, antes que alguém aparatasse. "Tenho que fazer algo primeiro."
Sam acabou acompanhando Lily até o Caldeirão Furado, porque, enquanto Marlene não hesitava em tentar aparatar para o endereço dos Potter, Lily sentia-se menos confiante com suas habilidades.
Eles entraram no bar e Lily sorriu ao ver Donna atrás do balcão, como sempre.
Levou um instante para Donna os avistar, mas quando o fez, inúmeras emoções cintilaram em seu rosto, antes de forçar sua expressão a tornar-se impassível.
"Vejo que deu certo," disse ela em um tom formal.
Lily sentou-se no bar. "Você mandou uma mensagem a Lathe, não foi?"
"Eu quase tive um troço quando ouvi a voz de James saindo do bolso das minhas calças," disse a morena, mal-humorada. "Demorei um minuto para descobrir o que havia acontecido... esqueci completamente que estava com o espelho."
"Sirius também esqueceu que estava com você," respondeu Lily.
"Então, o que vocês dois estão fazendo aqui?" perguntou Donna, acenando para Sam. "Não estão num encontro, estão?"
Lily e Sam riram disso.
"Ela é um doce," admitiu o rapaz, jogando-se na banqueta ao lado de Lily, "mas não tão doce".
"Viemos buscá-la, na verdade," disse a ruiva. "Seu turno vai até que horas?"
"Só mais meia hora," disse Donna, com tristeza. "Meu turno vai até às seis, mas minha substituta está me substituindo."
"O que isso significa?"
"A bruxa que Tom contratou para me substituir quando eu voltar à escola," explicou Donna. "Ela é mais alta que eu, e Tom disse que eu podia ir para casa mais cedo, porque ela estaria aqui a uma hora da tarde, e ela já pegou o jeito das coisas."
"Muito bom! Pode ir à casa dos Potter com a gente!" disse Lily, animada. Donna franziu o cenho.
"Não é muito bom! Estou sendo substituída!"
"Sim, mas você não quer ser garçonete a vida toda," apontou Lily. "Só está com raiva porque ela é mais alta que você. Como isso é possível, aliás?"
"Você é gigante," concordou Sam.
"É loucura," murmurou Donna. "Deveriam vê-la. Acho que pode ter sangue gigante nela, porque não pode ser normal..."
Lily e Sam beberam cerveja amanteigada enquanto aguardavam o final do turno, e então ela lhes disse que queria ir em casa verificar se tudo estava bem com a Sra. Fowler, a governanta, que levaria seus irmãos ao zoológico trouxa aquela tarde. A morena os encontraria nos Potter.
Lily e Sam tornaram a pegar a estrada, encarando o sol impiedoso e a secura opressiva do dia.
"Vou ligar para minha mãe também," disse a ruiva, pensativa. "Caso ela tenha telefonado para casa e esteja preocupada porque não atendi."
"Você não mora com sua mãe?" perguntou Sam curiosamente.
"Sim, mas ela está visitando minha irmã no momento."
"O que você vai dizer a ela que andou fazendo?"
Lily sacudiu a cabeça. "Honestamente, não tenho ideia. Por que você não espera no bar, eu aparato para casa, telefono para minha mãe e te encontro em dez minutos?"
"Tudo bem, mas não invente de tomar banho... se todos nós vamos andar fedidos por aí, você também vai!"
A Sra. Potter não estava feliz. Numa escala de um a cem, ela estava furiosa.
"O que exatamente você estava pensando, James Alexander Potter?" indagou ao filho, no instante que ele passou pela porta da frente, acompanhado por Remus, Sirius e Peter.
James suspirou. "É melhor vocês subirem para a Sala Azul," disse ele, cansado, aos outros; "Esperava que ela ficasse feliz em me ver, mas parece que será um reencontro infeliz, afinal."
Sirius subiu alegremente na frente, e James ficou sozinho com a mãe.
"Você deveria ter voltado para o jantar ontem à noite," disse ela. "E, então, sabia que eu recebi uma coruja de Alastor Moody às nove horas da noite, depois de quase morrer de preocupação, dizendo que você estava seguro, mas parece que ficaria a noite fora? Pode imaginar? Consegue mensurar como foi saber disso?"
"Sinto muito, mãe!"
"E, é claro," prosseguiu a Sra. Potter, ignorando o pedido de desculpas do filho, "seu pai não ajudou em nada! 'Se Alastor diz que ele está seguro, não vou questioná-lo.' Que bobagem! Eu não dormi nada ontem à noite!"
"Bem, nem eu!" argumentou James.
A Sra. Potter vacilou. "Onde exatamente você passou a noite, James?".
"Mãe, essa é uma daquelas coisas que é melhor você não saber. Se contente com o fato de que eu estava cercado de amigos, e ninguém acabou morrendo ou engravidando. Em resumo, não foi uma noite tão ruim..."
"James Alexander Potter..."
"Sim, mãe?"
A Sra. Potter suspirou pesadamente. "Vamos. Vamos discutir isso lá em cima."
"Por que lá em cima?"
"Porque será mais fácil descartar o corpo."
"É assustador quão rápido sua mente pula para assassinato."
"Com você como filho, é chocante eu ainda não ter colocado em prática."
(O Pedido)
A chaleira com água na cozinha de Frank estava quase fervendo, mas o casal mal notou. A xícara de chá fora abandonada por um passatempo mais agradável. Finalmente, eles se separaram por tempo suficiente para Frank colocar uma mecha solta do cabelo de Alice atrás da orelha.
"Eu não sei o que teria feito se algo tivesse te acontecido," murmurou ele, antes de se inclinar para frente e beijá-la suavemente de novo.
"Ou a você," sussurrou ela contra seus lábios. Ele se aproximou, pressionando-a contra o balcão da cozinha. "Então, o que vamos fazer quanto a isso?"
"É um problema," admitiu Frank. "Considerando a profissão que escolhemos."
Alice encostou a testa na do namorado, passando os braços por seu pescoço. Mas seu sorriso era triste, e Frank gentilmente tocou seu rosto.
"Eu te amo, Alice Geraldine Griffiths."
E Alice o encarou. O sorriso triste se fora; havia calor em sua expressão novamente, e ela o olhou com tanto afeto que, por um momento, uma resposta à sua declaração parecia desnecessária.
"Quê?" perguntou Frank, rindo. "Por que está sorrindo para mim assim?"
Ela fez uma pausa. Então...
"Casa comigo?"
Os olhos de Frank se arregalaram. No entanto, quase imediatamente, ele respondeu: "Sim." Então, ele se sacudiu. "Quero dizer, não. Quero dizer... sim, mas... não é você que deve pedir. Eu que deveria te pedir! Olha, olha, eu..." Ele se afastou, desaparecendo no quarto ao lado por quase um minuto. Quando o rapaz voltou à cozinha (uma Alice desconcertada retirara a chaleira agora vazia do fogo), carregava uma pequena caixa de veludo preto, bem elaborada.
Alice sorriu. "Não são brincos, não é?"
"Não," murmurou Frank. "Eu estava esperando primeiro de setembro, pois é quando faz oito anos que nos conhecemos, e..."
Alice o cortou com um beijo intenso, que ela não interrompeu, mesmo enquanto o guiava, puxando a gola de suas vestes, em direção ao quarto. Ela fechou a porta com o pé, recostando-se nela e puxando o namorado para si. Ele sorriu ao beijar seu pescoço, e ela puxou sua roupa.
"Cama," murmurou ele, sua respiração aquecendo a pele dela, que apenas assentiu apressadamente.
Só mais tarde que Alice conseguiu ver o anel. O casal estava deitado na cama dele quando ela se lembrou.
"Ei! Cadê meu anel?"
Frank riu. "Eu não sei. Acho que deixei cair."
"Distraído, hã?"
"Sim, bastante."
Ele a beijou novamente, antes de sair dos cobertores o suficiente para localizar a caixa de veludo entre uma pilha de roupas descartadas. Frank tornou a subir na cama, brincando com a caixa, pensativo. Alice arqueou as sobrancelhas.
"Segundas intenções?"
"Provavelmente."
"Bem, então, é a sua vez, Francis. Eu propus da última vez."
Ele sorriu e abriu a caixa. Por um momento, Alice não disse nada. O anel era de ouro e tinha um diamante redondo e alto, que piscou para ela sob a luz laranja da lamparina. A garota sorriu e estendeu a mão com expectativa.
"Alice Griffiths..."
"Sim, querido?"
"Quer se casar comigo?"
"Sim, meu amor."
Frank colocou o anel no dedo dela, que não se demorou verificando como ficara, puxando-o para outro beijo intenso – intenso, triste e radiante ao mesmo tempo. Ela jogou-se sobre os travesseiros e, nos breves segundos em que seus lábios se separaram entre os beijos, Alice conseguiu sussurrar: "Eu te amo, sabia?"
"Eu também te amo."
Alice não deu nem metade dos beijos que queria antes de Frank se afastar novamente, mordendo o lábio e olhando pensativamente para o pedaço de lençol que repousava sobre o ombro esquerdo dela. A garota levantou uma sobrancelha.
"Frank?"
E, então, ele sorriu.
"Frank?" perguntou ela novamente, ligeiramente aliviada por sua mudança de expressão. "No que você está pensando?"
Ele encontrou seu olhar curioso mais uma vez. "Eu tenho uma ideia."
(Os Potter)
A casa a deixou sem fôlego.
"Essa... essa é a casa dele?"
"Uma delas, sim," respondeu Sam, divertindo-se com a admiração no rosto da garota.
"Não admira que ele tenha facilmente se adaptado a viver num castelo no primeiro ano."
Sam sorriu. "Amarílis," disse o jovem para as grandes portas duplas, e elas se abriram lentamente. "A flor favorita de Gracie," explicou, mas Lily mal escutava. O interior era, se possível, mais imponente. As portas se abriram para um enorme hall de entrada. O chão era de mármore, e pinturas de paisagens requintadas ladeavam as paredes à esquerda e à direita de Lily. Bem adiante da dupla havia uma escadaria larga, com um corrimão de marfim, esculpido para se assemelhar a trepadeiras.
As paredes por trás das pinturas eram de um branco perolado, que brilhava à luz do lustre de cristal que pendia (não, levitava, percebeu Lily) do teto. O teto abobadado – bastante alto – parecia não existir. Não era enfeitiçado para imitar o céu, como no Salão Principal; na verdade, parecia ser feito de nuvens: nuvens brancas macias e celestiais.
Sam sorriu – provavelmente de sua ingenuidade.
"É lindo," confessou Lily, aliviada por não soar completamente boquiaberta ao falar. "Eu me pergunto se ele nunca me disse que morava no Palácio de Buckingham. Ele se exibe bastante." Ela desviou os olhos da sala e olhou para Sam. "E o que você quer dizer com 'uma delas?' Há outras?"
"Claro. Quer ver?"
Lily arqueou uma sobrancelha. "Agora?"
"Imagens." Sam meneou a cabeça em direção a uma das paredes, e Lily o seguiu até lá. "Essa é a casa em Londres... essa é a que fica na praia – Harthouse, onde ele esteve nas últimas semanas, e essa é a da Riviera Francesa." Lily olhou da pintura da vila francesa para Sam.
"Ele tem uma casa no sul da França?" indagou. Sam assentiu. "Ah, que exibido..."
O rapaz riu. "Antes que você pense em casar com ele pelo dinheiro..." (Lily bufou) "Deve saber que ele não vai herdar tudo isso. Tia Gracie está leiloando a casa na Riviera agora. Tem algo a ver com caridade. A casa em Londres segue o mesmo caminho quando Alex morrer. Jamie só ficará com essa casa e a de Godric's Hollow."
Lily lembrou-se da carta que recebera de James no começo do verão. Ele estivera em Godric's Hollow quando a escreveu...
"É isso aí," disse Sam, dirigindo-se a uma pintura mais adiante. Era o que Lily imaginou que se chamasse de cabana há duzentos anos, com suas paredes de pedra bege e cumeeiras pitorescas. Mesmo assim, era uma casa adorável: o pátio era verde, especialmente contra o céu cinzento (o pequeno contorno preto dos pássaros podia ser visto, subindo no fundo da tela), e havia um certo ar de romance na coisa toda. "Gostei," disse ela.
"Por quê? A cidade está morta e maçante."
"Tem sentimento."
"Merlin, você parece Gracie."
Lily começou a se afastar das pinturas. "Onde você acha que estão os outros?"
"Não faço ideia... podemos perguntar a um elfo. Dez a um que eles sabem."
"Um elfo? Um elfo doméstico? James tem elfos domésticos?"
"Claro," respondeu Sam, levando-os a uma porta, "todas as famílias antigas têm. É claro que Gracie não gosta de fazer nada que as famílias antigas fazem, então ela libertou todos logo depois de se casar com Alex. Mas é claro que se encontram um elfo livre, vão escravizá-lo novamente e alegar que ele está na família há anos, porque faz sua linhagem parecer mais pura. Então, Grace disse que qualquer um que não conseguisse emprego poderia voltar a trabalhar aqui por salário, e alguns quiseram ficar, porque acham que é seu dever servir à família de seus ancestrais. Eu não sei... nós sempre tivemos só um, e ela é anciã..."
Eles entraram na cozinha, um cômodo grande e limpo que parecia ser inteiramente esculpido em pedra branca. Lily ficou maravilhada, caminhando ao longo de uma das extremidades do cômodo retangular, inconscientemente deslizando os dedos por uma bancada. Várias órbitas de cristal iluminavam o ambiente (além de uma série de janelas altas e estreitas), levitando próximo ao teto; eles não permaneciam parados, como luzes trouxas, mas vagavam ao redor, como uma dúzia de vaga-lumes que se moviam lentamente.
Havia dois elfos domésticos na cozinha, e um deles estava ocupado em uma pia gigante; ele estava mais perto da porta, e foi a esse elfo que Sam se dirigiu. O outro estava sentado mais ao fundo, em uma pequena mesa de madeira no canto, do lado oposto ao corredor. A mesa não fora projetada para elfos domésticos, pois, embora relativamente pequena, tinha tamanho humano. Porém, era difícil para Lily entender que o tipo de comida que devia ser preparada em uma cozinha como aquela poderia ser consumida em uma mobília tão deselegante.
"Olá," Lily cumprimentou a elfa que estava sentada à mesa, as pernas pendendo da cadeira, enquanto bebericava algo marrom e de cheiro selvagem em um copo alto.
A criatura olhou para ela com grandes e misteriosos olhos verdes. "Boa tarde, senhorita Evans!" guinchou.
Lily ergueu as sobrancelhas. "Você acabou de... como você...?"
"Lily!" interrompeu a voz de Sam, do outro lado da cozinha. "Twitchet disse que estão na Sala Azul."
A ruiva, com um último olhar cético para a elfa doméstica (que agora se voltara para sua bebida) não tinha certeza se imaginara um rubor de culpa no rosto da criatura, mas se virou e seguiu Sam para fora da cozinha e de volta para o saguão.
"Como esse elfo sabia meu nome?" perguntou a Sam, que apenas deu de ombros.
De lá, eles subiram a grande escadaria – a cada passo, Lily sentia-se encolhendo. A distância do segundo andar para o primeiro era grande, e o corrimão era feito do mesmo material da escada. Ao longo da subida, Sam apontou para um dos corredores no qual ficava o quarto de James. Lily ficou curiosa, mas seguiu o anfitrião até uma escada que começava a cerca de vinte metros da entrada da escadaria principal; essa segunda escadaria ficava junto à parede, subindo em espiral, resultando em uma caminhada muito mais longa até o terceiro andar. Mas a vista era esplêndida.
No terceiro andar, Sam abriu caminho por um corredor estreito, ladeado por pinturas de bruxas e bruxos desconhecidos – alguns que pareciam bastante amigáveis, e alguns que a garota agradecia por jamais ter que conhecer.
Este corredor tinha uma temática muito diferente da sala de estar; havia vigas de madeira escura entre algumas pinturas, enquanto portas de material semelhante ficavam entre as outras, quase todas fechadas. Ocasionalmente, Lily olhava para uma sala ou um quarto desocupado, mas Sam prosseguia andando.
Eles dobraram uma esquina e Sam, que estivera conversando sem parar sobre a casa, ficou em silêncio; Lily logo percebeu o motivo. Vozes vinham de uma porta entreaberta do outro lado do corredor. Uma delas era feminina... mas era um tom de voz nada agradável.
"Bem, não são eles," observou Sam em voz baixa, olhando enquanto passavam. "É só Gracie gritando com James."
Por um breve segundo, pela porta entreaberta, Lily vislumbrou uma mulher alta e mais velha, com cabelos ruivos agrisalhados. Ela se aproximou de James, falando com raiva, enquanto ele tentava falar alguma coisa. Seu comportamento era uma mistura de desculpa e defesa, mas o jovem não parecia muito preocupado. Lily capturou algumas palavras do diálogo antes de eles se afastarem por completo.
"...a noite toda fora, sem sequer enviar uma coruja..."
"Mãe, eu disse que sinto muito..."
"...E agora, eu descubro que fez isso de propósito..."
"...Mas eu tive que ficar..."
"...e ainda por cima numa cela!"
Nem mãe nem filho viram Lily e Sam passar.
"Ele não vai se encrencar muito, vai?" perguntou Lily em voz baixa, quando as vozes da Sra. Potter e de James desapareceram.
"Não, acho que não," respondeu Sam casualmente. "James se safa de tudo. Gracie é mais como uma avó ou uma tia bondosa do que uma mãe. Sempre quis que minha mãe aprendesse essa lição, mas não tive essa sorte. De qualquer forma, mesmo que ela fosse puni-lo – e eu ainda não vi isso acontecer – ele estará de volta à escola na próxima semana, e acho que ela está muito satisfeita por ele ter sido nomeado monitor-chefe."
Lily sorriu com a imagem mental da reação da Sra. Potter àquela notícia (ela supunha ter sido uma mistura de choque e alegria) e Sam notou, sorrindo.
"Você já sabia, não é?"
"O quê? Ah, do monitor-chefe. Sim. James me contou no escritório de Falstaff."
"Contou? Tiveram uma conversa franca?"
"Não exatamente," zombou Lily. "Eu achei que o monitor da Sonserina tinha sido nomeado, e eu estava reclamando disso quando me disse que ele foi o escolhido."
"Não gosta de sonserinos? Ninguém parece gostar."
"Bem, é complicado," Lily tentou explicar. "É mais um sonserino em particular... nós... nós não nos damos bem." (Essa foi a descrição mais simples do assunto). "Eu não estava disposta a trabalhar com ele."
Sam indicou uma porta como a entrada para a tal Sala Azul.
"Trabalhar com ele?" acrescentou Sam enquanto avançavam. "Você é monitora, então?"
Lily assentiu. "E monitora-chefe agora."
Sam a encarou. "Você? Eu não sabia. Não é muito cumpridora de regras para um membro da direção, não é?"
"Comparada a James, eu sou a professora McGonagall," apontou Lily, antes de perceber que Sam poderia não ter ideia do que isso significava. "Ela é diretora da Grifinória. Muito rigorosa."
"Certo, eu lembro," respondeu Sam.
Eles alcançaram a Sala Azul, e quando Sam abriu a porta, Lily ficou aliviada ao ver os outros.
Era uma sala grande e quadrada, pintada de um profundo azul royal. Os dois sofás e divãs eram de uma mesma estampa floral – fundo creme com rosas azuis e ramos de gipsófila – enquanto a madeira era do mesmo carvalho escuro do corredor e de grande parte da casa. Havia um piano no canto e, embora ninguém ocupasse o banco, o instrumento produzia uma melodia silenciosa, vagamente impressionista. A luz da tarde penetrava pelas cortinas de renda (de seda cor creme) e, em movimento, fotografias mágicas alinhavam-se na cornija da lareira à direita de Lily; ela teria gostado de examiná-las, mas a reunião com seus amigos não lhe deu oportunidade. Todos olharam para os recém-chegados.
Sirius estava estendido no divã com uma maçã na mão, enquanto Remus e Peter estavam sentados nas cadeiras de apoio. Marlene e Mary também haviam chegado (o cabelo loiro de Marlene ainda molhado do tão esperado banho), e elas estavam sentadas em um dos sofás, enquanto Donna ocupava o outro.
"Ela chegou," disse Sirius, sorrindo. "E olá para você também, Sam."
"Obrigado," respondeu Sam sarcasticamente.
"Por que demoraram tanto?" indagou Donna. "Eu tive que ir para casa e ainda fui mais rápida."
"Ela teve que ligar para a mãe, e fiz um tour rápido com ela," explicou Sam, sentando-se no banco do piano; Lily desabou no sofá ao lado de Marlene. "Ah, e mostrei a casa também."
"Muito engraçado," disse Lily. Marlene ergueu as sobrancelhas em questionamento. "Só cobiçando Pemberley," Lily explicou em um tom de voz leve; a loira – a única a entender a referência – parecia ainda mais interessada.
"É mesmo, Lizzie, querida?"
"Quem disse alguma coisa sobre Lizzie? Sou tia Gardiner."
"Parem de falar sobre o que ninguém mais entende," reclamou Sirius, encarando a maçã, como se contemplasse outra mordida. "E onde raios está James?"
"Gracie está conversando com ele," disse Sam.
"Ainda?" perguntou Peter. "Já faz quase uma hora! E estou faminto..."
"Eu também," resmungaram Lily, Donna e os dois Prewett.
"Bem, vamos comer," disse Sirius. "Podemos chamar um elfo doméstico. Twitch! Twitchet!"
Com um estalo alto, a pequena criatura enrugada, com olhos e orelhas grandes, veio da cozinha e apareceu próximo a Sirius.
"Twitch, estamos com fome," disse Sirius. "Você não seria bonzinho e pegaria alguma coisa pra gente? Fomos verdadeiros heróis hoje, sabe?"
O elfo fez uma reverência, como se estivesse envergonhado. "Mestre James disse que se Mestre Sirius estivesse querendo comer, ele deveria ir às cozinhas. Twitchet ficaria muito feliz em trazer algo para Mestre Sirius e os amigos comerem, mas Mestre James disse isso."
Remus riu e Sirius fechou a cara. "Aquele idiota. Ele fez isso de propósito, sabia? Sempre teve ciúmes devido aos elfos domésticos gostarem mais de mim quando morei aqui, então ele dizia que eu era preguiçoso. Tudo bem, pode ir, Twitch. Nós vamos descer daqui a pouco."
Twitchet se curvou novamente e, com um sorriso largo e assustador, desapareceu ruidosamente mais uma vez.
"Eu me pergunto se James fez alguma recomendação sobre bebidas alcoólicas," pensou Sirius. Remus revirou os olhos.
"Você é tão preguiçoso."
"Sou não. Estou conservando minha valiosa energia e, de qualquer maneira, mal dormi essa noite."
Ele e Remus continuaram a discutir por vários minutos até que Mary, que só tinha ouvido parte da história das últimas trinta e poucas horas, solicitou uma versão mais completa. Sam, depois de se apresentar com uma reverência dramática com seu chapéu marrom, começou a falar, e realmente havia muitos detalhes que Lily estava ouvindo pela primeira vez também.
Aparentemente, Sam tomara café da manhã com Dorcas Meadowes, quando Dory recebeu notícias de sua irmã de que vários indivíduos preocupados planejavam marchar pelo Átrio em protesto a Egbert Dearborn e à Lei de Proteção à População Mágica. Sam, sempre o primeiro a agarrar uma oportunidade de protestar publicamente contra uma injustiça (e contra seu irmão mais velho), juntou-se à causa, mas não antes de buscar Sarah McKinnon e James, que chegara de viagem na noite anterior. James, por sua vez, aparatou para buscar Sirius e Remus (esta parte da história foi contada pelo próprio Sirius), mas – como Peter ainda estava na cama – uma mensagem foi deixada com sua mãe.
Sam acrescentou que ele e Sarah McKinnon entraram em contato com os Prewett e, junto com Emmeline, Victor e Dorcas, tinham buscado o resto do grupo original (exceto, claro, Lily, Marlene e Donna, que foram recrutadas pelos Marotos).
A partir daí Lily conhecia a maior parte da história e contribuiu com a narrativa para Mary. Peter e Remus explicaram sobre a chegada dos aurores, enquanto a ruiva contou sobre a captura (evitando mencionar a Capa da Invisibilidade dos Marotos) e abordando brevemente a permanência no escritório de Falstaff e depois o departamento de aurores. Todos ficaram suficientemente impressionados com a remoção da porta das dobradiças.
Marlene explicou sobre o artigo de Rita Skeeter, e a história estava praticamente no fim quando James finalmente chegou à Sala Azul. Twitchet, o elfo doméstico, contornara o comando de seu mestre, trazendo duas bandejas de cerveja amanteigada, quando James – com o chapéu na mão – entrou, seguido por sua mãe.
"Você ainda está vivo," comentou Sirius.
"Não enche, seu idiota preguiçoso," disse James, mas ele convocou uma cadeira da mesa para sua mãe antes de se sentar em outra.
"Você não vai se safar também, Sirius Black," repreendeu a Sra. Potter, cruzando os braços. "Nem você, Samuel."
Sam pulou do banco do piano, atravessou a sala e segurou a mão da prima. "Gracie, você não está realmente chateada comigo, está?"
"Hum, veremos," foi a resposta enigmática da bruxa, mas seus lábios se contorciam divertidamente.
Além do rápido vislumbre quase uma hora antes no corredor, Lily vira a Sra. Potter em algumas ocasiões anteriormente. Ela estava sempre presente para ver James partir na Estação Kings Cross, e era difícil não avistar a mãe extraordinariamente bem vestida de um dos alunos mais populares de Hogwarts. No entanto, agora a garota podia examinar melhor a bruxa em questão e, talvez devido a ter mudado de opinião sobre o filho, a visão sobre a mãe também parecia aperfeiçoada – certamente para além de uma matrona rica comum.
Grace era esguia e estava elegantemente vestida como sempre em vestes de cor champanhe. Ela não usava muitas joias, mas o que usava – um anel de diamante, uma aliança de casamento simples e grandes brincos de safira – era projetado para ser notado. Eles brilhavam sob a luz da janela. O cabelo da Sra. Potter era castanho-avermelhado e grisalho, e o tom e a forma de seus olhos eram bastante parecidos com os de James.
"Acho que deveria conhecer todo mundo," James de repente pareceu lembrar, pulando da cadeira novamente e deixando o chapéu para que Sirius não pegasse seu lugar. "Claro, você conhece a maioria. Sou James, seu único descendente."
"Sim, infelizmente."
"Único descendente que eu saiba, de qualquer forma. Esse é Sirius – ele é um idiota – e esse é Remus, o filho que você gostaria de ter..." Ele chegou às verdadeiras apresentações. "Esta é Donna, mas acho que já se conheceram também..."
"Senhorita Shacklebolt," disse Grace calorosamente. "Já faz muito tempo."
"Fico feliz em vê-la de novo," respondeu Donna, e Lily ficou aturdida com as boas maneiras da amiga.
"Estas são Mary Macdonald e Marlene Price - elas são da minha casa e do mesmo ano," continuou James. "E... ah, bem..." ele vacilou quase imperceptivelmente, "...essa é Lily Evans, mesma coisa. Pessoal: essa é minha mãe."
E, então, houve acenos de cabeça, apertos de mãos e sorrisos. "Eu espero que meu filho não tenha causado muitos problemas..."
"Agora, mãe," disse James. "Eu sei que Sirius morava aqui, mas ele não é seu filho..."
"Vá se catar, babaca," disse Sirius, chutando o amigo.
"Comportem-se," ordenou a Sra. Potter.
"Não se preocupe, mãe. Eu já te disse, os aurores nos levaram como desconhecidos. Nós nem fomos presos de verdade..."
"James não causou muitos problemas a ninguém, Sra. Potter," assegurou Sirius. "Embora ele seja um idiota por tentar me matar de fome..."
James sentou-se relativamente longe de Lily, mas ela não pôde deixar de notar que, durante a estada de sua mãe, ele parecia estranhamente tenso, e ela se perguntou se tinha a ver com a "conversa" que tivera com a Sra. Potter. Por fim, pedindo licença, Grace disse que ia cuidar dos refrescos e partiu.
"Alguém sabe quem venceu a partida de pré-temporada na noite passada?" perguntou Marlene. "Eu esqueci completamente de checar as pontuações..."
"Os Harpies acabaram com os Tornadoes," respondeu Sirius. "Era esperado. A nova capitã deve ser brilhante..."
"Ela é," disse Donna, entusiasmada agora que a conversa se voltara para quadribol. "Vinte e dois gols contra os Canons no último mês..."
"Bem, são os Canons," disse Sirius.
"Ah, eu gosto deles," argumentou Marlene. "Há algo cativante neles."
"Tipo o quê?" respondeu James. "A incapacidade de vencer uma partida?"
"Aposto que são amaldiçoados," sugeriu Peter.
"Não, é a gestão..."
"Mas eles tiveram três donos em uma década..."
E era excepcionalmente estranho, sentada na sala de estar de James Potter, falando sobre quadribol depois da jornada que tiveram. Era bizarro e um pouco surreal, e isso foi intensificado pelo fato de que Lily não comia há horas. A única coisa que aplacava sua fome naquele momento era a exaustão, o que a fez relutar em se levantar um pouco do sofá para pegar uma segunda cerveja amanteigada.
Ela descansou a cabeça no ombro de Marlene, contribuindo um pouco para o discurso, mas principalmente ouvindo e observando.
Sirius – jogado na espreguiçadeira – ria muito.
Marlene mexia distraidamente no cabelo.
Sam não conseguia ficar quieto e pulava do assento toda vez que falava.
Remus não parecia nem cansado nem preocupado, mas apenas privado de sono.
Peter tinha que lutar para conseguir ser ouvido.
Donna discutiu com todos.
Mary falou com mais conhecimento sobre os Harpies do que sobre qualquer outro time.
James mal parou de falar.
O tempo passou em um ritmo incomum. Os momentos se estendiam anormalmente, mas logo mais de uma hora se passara, e pareceu levar apenas alguns minutos.
Eventualmente, outro elfo doméstico apareceu com comida – queijo, chá, bolachas e bolo – e o estômago de Lily roncou enquanto pegava uma fatia de bolo. Mas ela foi interrompida ao ouvir seu nome.
"Lily, querida?"
Ela ergueu os olhos; a Sra. Potter estava na porta novamente.
Inferno-se-ela-não-comesse-algo-logo-iria...
"Sim?" respondeu a bruxa mais jovem, desnorteada. Os outros conversavam alto; ninguém, exceto James, percebeu a interrupção.
"Tem alguém aqui que quer te ver," disse a Sra. Potter.
"Me ver?" perguntou Lily atordoada.
A Sra. Potter assentiu.
"Está bem."
Momentaneamente esquecendo o bolo, Lily se levantou e seguiu a mãe de James até o corredor.
"Quem quer me ver?" perguntou enquanto andavam.
"Alice Griffiths, na verdade."
"Alice? Frank Longbottom está com ela?"
"Não, só Alice. É uma doce menina também. Ela... bem, não importa, você verá." A Sra. Potter sorriu para James. "Vocês duas são amigas?"
"Sim, muito amigas," respondeu Lily, que estava inexplicavelmente nervosa. "Alice foi a primeira amiga que fiz na Grifinória."
"Inestimável," comentou a Sra. Potter. "Ah, por aqui, querida. É muito mais rápido. Você é uma grifinória, então?"
"Sim."
"O pai de James também era grifinório..."
"Sim, James comentou."
A Sra. Potter olhou para ela. "James fala sobre o pai?"
"Não... bem... às vezes. Na verdade, foi uma das primeiras coisas que ele me disse... no trem a caminho de Hogwarts no primeiro ano, ele disse que queria ser grifinório como o pai." A ruiva relembrou o incidente vividamente. "Ele fingiu estar brandindo uma espada..."
A Sra. Potter desatou a rir. "Esse menino..."
Elas alcançaram o térreo e a Sra. Potter apontou para uma pequena sala de estar à esquerda. "Alice está no escritório... é por aqui," disse, guiando o caminho. "Ela queria falar com você a sós primeiro."
"Está tudo bem?"
"Suponho que você mesma terá que perguntar a ela," disse a bruxa mais velha, mas ela estava radiante, como se estivesse guardando um grande segredo. Elas chegaram ao escritório, e Alice estava de pé, andando de um lado para o outro e torcendo as mãos nervosamente. Ela se assustou com o cumprimento da Sra. Potter.
"Ah! Ah, olá."
"Vou deixá-las a sós," disse Grace.
"Muito obrigada," disse Alice, e a Sra. Potter assentiu, antes de desaparecer no corredor.
"Alice, você está bem?" perguntou Lily, correndo até a amiga. "Como me encontrou aqui?"
"Ouvimos no rádio que vocês todos foram liberados, então fui à sua casa, mas não tinha ninguém... então, eu... fui à casa de Marlene..." (Ela estava bastante distraída), "mas a mãe dela disse que ela tinha ido à casa dos Potter com um grupo de amigos, e eu presumi que se ela estava aqui, você também estaria..."
"Houve algum problema? Lathe disse que os aurores estavam te acompanhando... eu pensei... aconteceu alguma coisa com o Frank?"
"Quê? Não. Não, claro que não. Bem... quer dizer... aconteceu algo com nós dois."
Lily ergueu as sobrancelhas. "Estou confusa."
"A questão é," começou Alice, estalando os dedos. "Eu... eu estava pensando se você poderia... isto é, se você está disposta... a... me emprestar uma coisa."
"Te emprestar uma coisa?" repetiu Lily. "Emprestar o quê?"
"Nada demais," respondeu Alice. "Brincos... mas não precisa de colar. Eu já tenho um colar... com uma pedra azul. Mas brincos, talvez, ou qualquer coisa, na verdade. Meias. Meias também."
"Brincos e meias? Al, do que você está falando?"
"Bem," começou Alice de novo, "eu preciso pegar algo emprestado..."
"Sim, mas por quê?"
"Porque... porque, veja, eu já tenho um vestido... um vestido velho e sapatos novos, e o colar é azul, como eu disse, então, eu... receio que tenha que pegar algo emprestado."
Lily a encarou.
"Alice, você vai...?"
Alice sorriu. Ela ergueu a mão esquerda, na qual estava um anel de noivado de diamante.
"Eu vou me casar em duas horas, Lily."
Estupefata por vários segundos, Lily não sabia o que pensar ou sentir, muito menos o que falar. Então, tudo – inclusive a percepção de que a amiga estava falando sério – a atingiu de repente, e Lily se ouviu dizer: "Possa ser que eu tenha algumas meias."
Então, ela estava abraçando Alice, e Alice explicava como ela e Frank tinham noivado, como ele conhecia um cara no departamento de licenciamento, que a Sra. Longbottom estava furiosa com tudo isso, que eles deveriam estar em um escritório no Beco Diagonal às seis horas, que o irmão de Frank seria o padrinho, e, é claro, que todos lá em cima estavam convidados, porque só as famílias de Alice e Frank sabiam até então, e era terrivelmente deprimente ter um casamento sem amigos.
"...Mas eu queria conversar com você a sós primeiro," disse Alice, diminuindo a velocidade da voz de repente. "Porque, bem, Hestia está descansando em uma praia em Mônaco no momento, e eu só tenho irmãos, e - como eu disse, o irmão de Frank será o padrinho, então eu estava esperando que você... quero dizer, se não se importar... você gostaria de... ser minha dama de honra?"
Lily estava visivelmente atordoada.
"Bem, poxa, Alice," começou lentamente, "quero dizer, foi de repente... mas é claro que eu serei sua dama de honra! Por Agrippa, vocês dois são malucos, mas é claro que aceito!"
Então, houve mais abraços e poderia ter havido lágrimas se houvesse tempo suficiente para isso. Em seguida, uma enxurrada de informações vitais (como tinha sido o pedido? O que a mãe dela disse? O que Alice iria vestir?) foi fornecida rapidamente.
"Ah, e você acha que algum dos Marotos tem uma gravata decente? Eu amo Frank mais do que tudo, mas as gravatas dele são terríveis..."
"Vamos encontrar alguma coisa," disse Lily distraidamente. "Você disse que vai vestida de rosa? Querida, não... precisa ser branco. "
"Mas eu não tenho vestido branco..."
"Somos bruxas, não somos? Mary vai me apoiar: você tem que usar branco." Ela parou de repente. Alice parecia confusa.
"Qual é o problema? Você não se lembrou de outro casamento que vai testemunhar esta noite, não é?"
Lily sacudiu a cabeça. "Alice," ela começou em um tom sério. "Eu amo você e Frank, sabe disso. Vocês são o conto de fadas que narro pra Donna quando ela está irritada..." Alice sorriu com gosto. "...Mas você tem certeza? Você e Frank estão completamente certos disso? Tenho certeza de que parece certo, mas isso faz... tudo isso faz sentido na sua cabeça também?"
Alice sorriu.
"Com certeza."
E Lily acreditou nela. "Você é maluca." Ela suspirou, sorriu e balançou a cabeça. "Vamos ver esse negócio da gravata?"
Algumas pessoas podem ficar surpresas com o fato de que planejar um casamento em duas horas seja um tanto complicado. Lily jamais chegou a comer a fatia de bolo na Sala Azul, já que, de repente, havia um milhão de coisas a fazer, dentre as quais recontar a história para todo mundo lá em cima (deixando de fora alguns dos detalhes sórdidos que Alice mencionara maliciosamente a Lily no primeiro relato do pedido).
Então, inesperadamente, tudo virou um projeto em grupo. Frank já estava no Beco Diagonal, preenchendo sua parte da papelada, e logo estava acompanhado dos Marotos e Sam, que levaram roupas (e, claro, gravatas), para surpresa de Frank – e, secretamente, talvez, seu alívio. Ele também tinha amizade com os irmãos Prewett na escola, e eles também receberam convites verbais de última hora.
Mary, que não passara a noite toda em uma cela, só precisava ir em casa, pegar um de seus muitos vestidos (a jovem escolheu um minúsculo de cor magenta) e retornar a Londres de novo, que foi o que ela fez. Ela também se juntou a Frank e os meninos, pois disse que Sirius e James eram os únicos em quem confiava para escolher uma combinação adequada de gravatas (a coleção de gravatas de James era embaraçosamente vasta), mas não confiava que não escolheriam uma combinação ridícula como piada.
Enquanto isso, as outras garotas foram para suas casas, pegaram as "necessidades básicas" e se reuniram novamente na casa dos Griffiths.
Marlene preencheu a papelada de Alice, ocasionalmente entregando a pena e o pergaminho à noiva para assinatura, mas completando a maioria das informações. Lily acabou enfeitiçando o vestido para ficar branco, o tempo todo consciente da ironia, pois o branco original de sua própria camiseta há muito tempo começara a transparecer no vermelho magicamente forjado. No entanto, ela esforçou-se mais no vestido da amiga, um simples, mas elegante, vestido de verão.
Marlene saiu para vestir um vestido e trouxe uma Donna questionadora consigo. Lily, auxiliada pela inquieta Sra. Griffiths, arrumou o cabelo da noiva com a varinha. Ela os deixou encaracolados a pedido de Alice e depois começou a maquiá-la.
"Eu posso fazer isso sozinha, Lily, honestamente..." apontou a noiva. "Você ainda não se vestiu..."
"Eu vou me trocar lá, como você," respondeu a ruiva, mordendo o lábio enquanto se concentrava no lápis de olho branco em sua mão e aplicava-o da maneira correta.
"Mas você tem que buscar seu vestido."
"Não, Marlene vai à minha casa pegar algumas coisas para mim."
"Mas..."
"Sem discussão, e fique parada, ou eu vou espetar seu olho."
Donna voltou primeiro, com um vestido arroxeado relutantemente emprestado de Marlene, porque a loira era a que tinha um porte mais parecido com o seu, e ela se recusou a ir para casa pegar um vestido. Na verdade, a morena se mostrou bastante relutante em relação a tudo, a única que não parecia nem um pouco entusiasmada.
"Você está linda, Donna," disse Alice, enquanto Lily arrumava suas sobrancelhas.
Donna assentiu bruscamente e tornou a se sentar.
"Don, o que houve?" perguntou Lily, distraída.
"Eu já disse," respondeu a outra. "É uma má ideia."
"Meu casamento, você quer dizer?" indagou Alice, cuja posição exigia que estivesse de costas para Donna.
"Sim, é claro."
"Bem, se der errado, você está autorizada a dizer 'eu avisei.'"
Donna revirou os olhos. "Afinal, por que quer se casar, Alice? Você é praticamente uma criança."
"Eu sou praticamente uma auror, na verdade."
"Isso não é motivo para se casar."
"Você não acredita em casamento," apontou Lily, tirando os olhos brevemente do que estava fazendo. "Aprovaria mais se eles tivessem trinta e sete anos e dois anos de noivado?"
"Não muito mais," admitiu Donna. "Mas isso é apenas um erro muito mais óbvio. Eu sei que vocês gostam da ideia de se vestir, e o lado romântico de Lily deve ter temporariamente anulado seu lado racional..." (Lily revirou os olhos) "Mas honestamente, Alice, não sei como você acha que é uma boa ideia."
Lily e Alice se entreolharam, e então a primeira se endireitou, afastando-se para que a última pudesse virar para encarar Donna.
"Eu vou ser uma auror, Donna," começou ela lentamente. "E Frank também. A gente não tem ideia do que vai acontecer amanhã. Parece clichê, mas eu, sinceramente... quero dizer... e se ele morresse na próxima semana e...?"
"Mas e se ele não morrer semana que vem?" interrompeu Donna com sinceridade. "Tenho certeza de que é fácil fazer isso vendo as coisas desse jeito... como se você pudesse morrer a qualquer momento... mas e se nenhum de vocês morrer? E se vocês se casarem e os dois sobreviverem, e então estão presos um ao outro?"
Alice sorriu, levantando as sobrancelhas em diversão. "Donna, esse é o plano. Morrer amanhã não é o que queremos; é uma possibilidade. Honestamente, é uma possibilidade na qual não pensamos com frequência. Mas o objetivo de se casar é viver juntos, não apenas morrer juntos."
A expressão de Donna não se tornou imediatamente interpretável. Depois de um ou dois segundos, ela suspirou e revirou os olhos – reações normais de Donna – antes de cruzar os braços e se recostar na cadeira.
"Suponho que vá fazer exatamente o que quer, independentemente," disse ela com simplicidade. Alice não parecia satisfeita, mas tinha menos experiência do que Lily em detectar quando Donna havia cedido.
Um dia, num futuro não muito distante, Sirius Black seria padrinho no casamento do seu melhor amigo. Enquanto isso, ele treinava com Frank Longbottom.
"Firewhiskey?" perguntou ele, segurando um frasco que fora retirado de seu chapéu prateado.
Frank, que estava ocupado revisando a papelada, balançou a cabeça, e Sirius deu de ombros. Ele entregou o frasco a um estranhamente introspectivo James, que tomou um gole antes de entregá-lo a Remus. Os Marotos, os Prewett, Sam Dearborn, Frank e o irmão de Frank, Geoffrey, ocupavam uma saleta reservada para eles no local em que aconteceria o casamento. As famílias – os irmãos e os pais da noiva e do noivo – esperavam no escritório do bruxo celebrante, enquanto a noiva e as bruxas que a acompanhavam estavam na sala do outro lado do corredor.
Peter ficou perto da janela, contemplando a rua.
"O tempo está estranho," observou ele. "Nebuloso."
"Talvez chova," especulou Sirius com esperança, caminhando na direção de Peter para verificar. Geoffrey Longbottom zombou.
"Pouco provável. O Ministério não tem conseguido fazer nada quanto à seca todos esses meses, e não se espera que acabe até setembro."
"Que pena," comentou Remus distraidamente, juntando-se a Peter e Sirius na janela.
James estava sentado em um canto com o The Weekly Quaffle – uma revista que pegara na sala de recepção – mas agora olhava para os três Marotos, todos de pé próximo à janela. Pensando em pegar a garrafa, agora na posse de Peter, ele também se levantou para se juntar aos outros.
Peter entregou o firewhiskey, e eles observaram os transeuntes na rua abaixo com pouco interesse.
Um pensamento engraçado ocorreu a James – que há menos de três meses havia confessado a Lily na Sala Comunal da Grifinória que não via muito sentido em voltar a Hogwarts para o sétimo ano. Tudo aqui lembra... Sirius...
Lily o repreendeu por ser um idiota, é claro, e ela estava certa, porque ali estavam os quatro (num casamento, pelo amor de Merlin), preparando-se para voltar para o último ano. James de repente se sentiu muito velho.
"Sabe," murmurou ele, numa altura que apenas os Marotos pudessem ouvir; "vocês não são uma porcaria de amigos."
Os outros o encararam, perplexos, mas James foi salvo quando Frank concluiu a papelada e pediu a garrafa.
James se ofereceu para localizar Lily a pedido de Mary e Donna, que se juntaram à noiva do outro lado do corredor. Aparentemente, elas – assim como Marlene – ainda estavam ocupadas com Alice e precisavam de alguém para dizer à dama de honra desaparecida que a cerimônia estava prestes a começar.
O celebrante – um bruxo pequeno e idoso que parecia perpetuamente incomodado – informou a James ao passar por ele no corredor que dirigira a "bruxa ruiva" para um quarto no qual poderia se arrumar. O rapaz seguiu na direção apontada, e chegou a uma porta entreaberta no final de um corredor.
Era uma saleta com duas mesas pequenas e redondas, um espelho de corpo inteiro e Lily. Na mesa do canto havia um buquê de margaridas, enquanto na outra - mais perto da garota e do espelho – havia uma bolsa de veludo, da qual foram derramados cosméticos, o que parecia ser a varinha dela, e vários pentes e escovas de cabelo, cuja necessidade o rapaz não conseguia compreender. Um par de jeans, de tênis e uma camiseta vermelha desbotada estavam no chão, embaixo da mesa.
Lily contemplava seu reflexo no espelho – olhando como se procurasse algo em meio às linhas de seu rosto. Eventualmente, ela se sacudiu e pegou o pincel do rímel, aplicando a maquiagem em seus cílios e depois examinando sua imagem no espelho novamente.
James esqueceu de bater.
"Você está linda," disse ele com sinceridade, e Lily se assustou. Ela se recompôs rapidamente, virando-se para encará-lo.
"Obrigada. Você também. Tirando o chapéu..."
"Preciso de um banho... e eu pensei que tínhamos combinado de não zombar do chapéu."
"Todos precisamos de um banho, e continua sendo um chapéu ridículo."
"Você consegue fingir melhor, e o chapéu é estiloso."
"Bem, pode usar um pouco de perfume se quiser."
"Isso só geraria um novo problema," disse James, imaginando o que Carlotta acharia se detectasse o perfume de outra garota em suas vestes. Não que ela fosse voltar da Itália nos próximos dias...
Mas Lily não entendeu a referência, e, em vez disso, indagou sobre sua presença ali.
"Me mandaram procurar por você, na verdade," explicou James. "Vão começar em um minuto."
"Entendo. Sobrou para você, não é?"
"Eu me ofereci, na verdade," Lily o olhou com curiosidade. Aquele vestido devia ter sido criado pelo próprio capeta. "Eu só... eu queria falar com você..."
"Sobre o quê?"
E ele queria contar a ela. Queria mesmo. Queria explicar sobre Carlotta, e dizer que seria bom, porque significava que não precisavam ficar desconfortáveis um com o outro, e ele costumava ser tão bom em falar o que pensava, mas... aquilo era diferente.
Porque isso seria sugerir que ela estava curiosa, e essa era outra conversa desconfortável que ele não queria ter. Então, havia as outras duas opções: a primeira era a de que ela não se importaria, e a segunda era a de que ficaria aliviada. Ele queria que ela ficasse aliviada com a notícia (ou, ele queria querer isso, de qualquer forma), mas não achava que suportaria ver seu alívio.
E, então...
"Acho que para te agradecer."
"Agradecer pelo quê?"
James enfiou as mãos nos bolsos. Ele pensou na expressão no rosto dela no escritório de Falstaff, quando tentou enganá-la. "Confiar em mim, eu acho. E pela coisa com a porta também."
Ele sorriu um pouco com a lembrança de Lily Evans - martelando os pinos das dobradiças - e a encarou. Mas só por um instante, porque – de repente – ela o estava abraçando.
E, pela primeira vez desde fora para a praia, James questionou sua decisão.
Eles não tinham se beijado.
Ela dissera que não podia.
Ela não o queria.
Ele sabia disso. Estivera tão convencido. Mas havia alguma chance de estar errado? E se ele estivesse errado, faria alguma diferença?
Porque Carlotta era de muitas maneiras fantástica. Ele gostava de estar com ela. E, por mais que fosse arriscado, Carlotta Meloni não representava metade do risco de esperar por Lily Evans.
Mas Lily realmente estava linda, então ele se afastou.
"Você não estava brincando sobre o perfume," disse ele, esperando que ela não notasse como sua voz vacilava.
"E você não estava brincando sobre o banho," respondeu ela levemente. As dúvidas de James desapareceram. Era muito fácil para ela. Amigos. Apenas Amigos. Como ela disse ao repórter do Profeta Diário. "Obrigada por vir me ver, mas eu vou ficar bem." Ele queria argumentar, mas ela acrescentou: "Sério, eu vou ficar bem."
"E se não ficar?" perguntou ele. Porque as últimas trinta e seis horas tinham sido uma batalha pequena comparada ao que inevitavelmente parecia estar adiante.
Lily pode ter percebido a que ele se referia pela mudança de tom, mas não teve oportunidade de responder. A voz de Marlene os interrompeu.
"Eles estão prontos." A loira entrou na sala. "Vocês estão?"
Lily olhou para James, como se repetisse a pergunta para ele, perguntando se havia mais algo a ser dito entre os dois. "Claro que eu estou," respondeu James. "Mas eu não tenho trabalho a fazer, não é? Você está pronta, Snaps?"
Lily pegou o buquê. "Estou pronta."
Ela deixou a sala, seguindo James e Marlene, e, em certo ponto no corredor, a ruiva se inclinou com um sorriso travesso em seus lábios. "Como o elfo da sua casa sabia meu nome?"
James fingiu não a ouvir.
Não houve cortejo. Na verdade, a cerimônia foi curta, com todos amontoados no escritório, Lily e Alice com as margaridas transfiguradas pela dama de honra.
Frank estava radiante, e o bruxo de preto conduziu a cerimônia, mas James duvidava que os noivos ouvissem o que ele dizia. Eles não estavam se olhando; olhavam fixamente para frente, mas estavam de mãos dadas, e ele sabia – podia simplesmente ver – que toda concentração estava um no outro.
Se havia um jeito certo de se casar, pensou James, devia ser esse – não porque Frank e Alice não precisavam se preocupar com listas de convidados e arranjos de flores... era porque eram Frank e Alice, e todos ali estavam convencidos de que isso era o certo – até mesmo, supôs, a eternamente cética Donna. A cerimônia poderia ter sido planejada há meses, com uma orquestra e um milhão de tradições mágicas familiares, e também teria sido bacana. Mas naquele momento foi perfeito.
E isso vindo de alguém que não sabia se acreditava em casamento.
Ele tornou a olhar para Lily, cujos olhos verdes e cheios de lágrimas encontraram os seus, e ele sorriu para ela. Ela fez uma careta – provavelmente pensando que ele estava zombando de seu sentimentalismo – porque, é claro, ela não fazia ideia de como estava linda... o que as lágrimas faziam com a cor de seus olhos e com seu rosto... como ele queria desesperadamente não se importar... não desejá-la de forma alguma...
Ele ia tentar (pois a fantasia era melhor do que o amor não correspondido).
Não se acharia fadado ao fracasso (mesmo que estivesse).
Daria seu melhor (era justo).
Mas no pequeno e lotado escritório de tijolos – com seus três melhores amigos, vários colegas de classe, Sam, todos os Longbottom e Griffiths, o bruxo de preto, Frank e Alice, as margaridas e Lily – nada e ninguém jamais o fizeram se sentir daquele jeito. E quando Lily não desviou o olhar imediatamente, James sabia que havia algum tipo de compreensão ali.
Alice estava hiper consciente de tudo que Frank fazia; sua respiração, o piscar de olhos, a forma que parecia estar prestes a desmaiar.
Era tudo lindo.
Ela estava se casando.
Estava se casando com Frank.
Perfeito.
Frank podia vê-la olhando para ele, mesmo que fosse só pelo canto do olho. Sua mão não tremia enquanto permanecia entrelaçada à dele; ele achou que ia desmaiar.
De um jeito bom.
Estava se casando com Alice.
É claro que estava.
Era a única forma de aquele dia acabar.
Lily sorria entre as lágrimas e, em certo ponto, notou James sorrindo para ela. Estava zombando dela, mas a ruiva não se importava, e fez uma careta para ele.
Estava cansada e faminta e, que se dane tudo, seria sentimental também.
Por um instante, apenas um segundo, na verdade, Lily não desviou o olhar de James, e, naquele momento, foi quase como se estivessem compartilhando algo – comunicando algum pensamento... uma reflexão silenciosa sobre tudo que tinha acontecido (entre eles) naquele dia... um certo entendimento que ambos possuíam sobre o evento – que talvez somente eles possuíam.
Perfeito.
"Eu os declaro marido e mulher," disse o bruxo, todos aplaudiram, e James aderiu quando Frank e Alice se beijaram. Lily riu em meio às lágrimas com os demais, agarrando e apertando a mão de Marlene.
James desviou os olhos e encontrou Sirius o observando.
"Que foi?"
"Nada," disse o amigo, encolhendo os ombros (e parecendo detestavelmente ciente das coisas). "Nada mesmo."
Eles saíram pela rua de paralelepípedos do Beco Diagonal, tropeçando e rindo, meio delirantes de exaustão. Frank pegou a mão de Alice, girando-a ali mesmo na rua e fazendo Sirius revirar os olhos. O Maroto, por sua vez, pegou a mão de Lily e imitou o gesto, fazendo Alice dar língua e continuar a dançar com seu agora marido.
Eles estavam indo ao Caldeirão Furado (para o desespero da Sra. Longbottom), enquanto os adultos (que agora incluíam Sam e os Prewett) ficaram conversando e, porém, os dez adolescentes se demoraram no caminho.
"Não acredito que você está casado, Longbottom!" disse James.
"Não acredito que Sam Dearborn estava no meu casamento," disse Alice.
"É bizarro!" admirou-se Peter. "Você é tão... velho!"
"Valeu, Pete," disse Frank, revirando os olhos.
"E pensar," refletiu Sirius, "que há alguns meses, eu estava num encontro em Hogsmeade com a noiva."
Lily deu um soco no braço de Sirius e Remus gemeu alto. "Cale a boca, seu idiota!"
"Está tudo bem," disse Frank alegremente. "Black tem todo o direito de ser um mau perdedor."
Os outros riram disso, e Alice ficou na ponta dos pés para beijar Frank pelo que devia ser a centésima vez nos últimos dois minutos.
"Nojento," disse Donna, fingindo estremecer.
"Dane-se," murmurou Frank, sorrindo contra os lábios da esposa. "Ou nós vamos desconvidá-los para o casamento luxuoso."
"E modificar a lista de convidados nesta altura seria um saco," riu sua esposa.
"Tudo bem, então," disse Sirius. "Vamos tomar uma, certo?"
"Nada além do melhor," brincou Frank.
Eles rumaram vagarosamente em direção ao Caldeirão Furado, mas só tinham dado alguns passos quando a voz de Lily os deteve.
"Esperem um minuto!"
Eles se viraram para encarar a ruiva, cujos olhos, por sua vez, se projetavam para cima.
"O que foi?" perguntou Mary.
Lentamente, Lily começou a sorrir.
"Snaps?" perguntou James.
"Sentiram isso?" perguntou ela, estendendo a mão, a palma para cima.
"Sentimos o quê?" Donna começou a perguntar, mas depois seus olhos se arregalaram. "Por Merlin!"
"Quê? Eu não..." Remus parou. "Foi uma gota de chuva?"
Foi.
E todos os adolescentes voltaram os olhos para o céu, quando – depois de meses de seca – eles se abriram e começou a chover.
Gotas caíram, mais e mais, e Sirius começou a rir.
"Você vai estragar o vestido!" Mary apontou ansiosamente para Alice, mas a noiva não parecia se importar. Com a mão esquerda ainda entrelaçada à de Frank, ela levantou a outra para cumprimentar a chuva. Maravilhosas gotas frias cortavam o calor, e os bruxos se deleitavam como crianças de nove anos. Sirius pegou a mão de Mary, guiando-a em algum tipo estranho de valsa.
Mary meio que gritava e ria, enquanto a chuva soltava seu cabelo castanho perfeitamente arrumado, e os outros também estavam rindo, principalmente do show ridículo de Sirius.
Marlene baixou a cabeça e respirou. A água deslizou por seus cabelos loiros e curtos, e aquilo era exatamente o que ela precisava. Tudo – ela não pôde deixar de pensar – ficaria bem.
Frank afastou um dos cachos ensopados dos olhos de Alice. Perfeito.
Donna procurou por sua varinha, porque ao menos ela não queria ficar encharcada. Mas, um segundo antes de lançar um feitiço Impervius em si mesma, a garota hesitou, só para realmente sentir algumas gotas de chuva, e achou que podia sentir o encanto...
Alice tornou a beijar o esposo suavemente nos lábios desta vez, fechando os olhos; ela não sabia se havia lágrimas misturadas com os pingos de chuva.
Remus afastou a água dos olhos, rindo e balançando a cabeça para Sirius, que agora inclinava o chapéu para Mary.
Peter olhou para os outros três Marotos e ficou mais feliz ainda.
James estava protegendo os óculos da chuva, e ele não notou quando Lily se aproximou.
"Obrigada," disse ela em voz alta, sobre o barulho da chuva e as vozes dos demais. Além disso, outros moradores, lojistas e compradores do Beco Diagonal tinham saído para se maravilhar com a primeira chuva em meses.
"Pelo quê?" perguntou ele, confuso.
"Por ter ido me buscar ontem."
"Você não está zangada comigo por ter feito você ser presa?"
Lily deu de ombros. "Não sei. Acho que dará uma boa história."
James sacudiu a cabeça. "Você também gosta disso, não é?"
"De quê?"
"De lutar contra a injustiça burocrática."
Lily sorriu. "Bem, acho que era inevitável."
"O quê?"
"Que eventualmente acabaríamos escolhendo a mesma batalha, você e eu."
Ela tinha razão.
"Acho que sim," concordou James, sorrindo. "Já estava na hora, não é?"
"Certamente."
Certamente estava.
"Agora, caramba, James, será que podemos, por favor, comer alguma coisa?"
N/T: Pessoal, esse capítulo foi traduzido em parte por minha beta, Nathalia, a quem agradeço! Da última vez eu falei que não haveria mais demora, PORÉM, por um motivo maravilhoso eu tive que adiar esse plano rsrs Não posso dividir ainda, mas em breve poderei, então esses quase 8 meses entre os capítulos foi mega justificado, juro! :D Então, aproveitei as férias que após longos anos estou tendo dos estudos pra me dedicar às minhas traduções e TLAT está sendo a primeira fic que estou atualizando. Estou ciente de que a Jules desistiu da fic, mas só podemos torcer pra que ela publique o que já tinha escrito né? Quem sabe o coração dela não amolece e ela nos dá ao menos isso! Bjs e aproveitem a leitura!
Dafny: Além de acabar assim eu demoro 8 meses hahaha Sorry! Obrigada por comentar e espero que ainda esteja aí pra ler a atualização! Bjs!
laracanedo: Lara, obrigada por comentar! Eu demoro, mas não paro! Espero que curta o 29! Bjs!
Itsme: Obrigada por comentar! Bjs!
Guest: Olá! Estava lembrada, só sem tempo mesmo hahaha Mas aí está! Bjs e obrigada!
