Abril está quase findando e com o fim deste vem maio. Em todos os outros meses de maio anterior a esse foram dolorosos, desesperadores e eu não sabia. Como afinal iria saber? Até que essa memória veio a mim.

-Peeta! –Prim me chamou quando eu estava descendo quando ela se acidentou na cerca.

-Sim. –Eu pergunto quando ela me leva até a porta e dá um risinho pra mim. Olha para trás para ver se não tem ninguém olhando.

-O aniversário de Katniss está chegando! Normalmente não o comemoramos, mas agora que temos o suficiente, pensei que você pudesse fazer um bolo daqueles que sempre vejo na padaria!

-Claro, farei um delicioso. Mas quando é? –Pergunto, pois não sei exatamente a data em que ela faz aniversário, só o ano que é o mesmo que o meu.

-É 8 de maio! Não vai esquecer.

Mas eu esqueci completamente com toda aquela opressão e posteriormente a turnê da vitória. Porém esse ano será diferente, eu irei fazer algo bom para ela só me falta saber o que.

Olho para as lojas na volta para casa, mas ela não é tão simples assim e é difícil agradá-la. Lembro-me da pérola negra em seu quarto, do colar que eu dei a ela e esses dois ela ainda guarda por ter significado. O quê que eu posso dar a ela?

Isso me consome todos os dias, às vezes nem consigo dormir direito pensando e não é tão ruim já que quase toda noite estava tendo pesadelos.

-Cold, você já gostou de alguém? –Pergunto um dia qualquer na padaria que estava com poucos clientes.

-Sim, Sr Peeta. –Ele me responde.

-O que você dava de presente de aniversário? –Pergunto curioso.

-Bem, como eu não tinha muito dinheiro procurava algo com significado especial como uma flor, algo bonito que a faria lembrar-se de mim quando olhasse. –Cold me olha e meio receoso continua –A senhorita Everdeen está aniversariando?

-Algo assim... –Eu respondo indo para cozinha sem uma resolução na minha mente e assim continuo o dia todo. Até que chego em casa e ela está lendo algo no sofá.

-Chegou cedo. –Ela comenta sem tirar os olhos do livro. O título é "Mandrágora".

Vou até a cozinha.

-Sae passou por aqui e deixou um cozido para jantarmos. –Ela me avisa, então sigo para o quarto me lavar e trocar de roupa. Pense Peeta, uma estratégia e eu acho que eu achei a estratégia perfeita.

-Katniss, o que você pensava em ganhar de aniversário quando era mais nova. –A pergunta a pega completamente de surpresa –Estou perguntando por que Cold quer dar a namorada dele um presente, mas não sabe o que fazer ou comprar e eu não tenho ideia do que uma garota gosta.

Ela pensa por um momento, olha para mim e começa.

-Eu sempre quis um bolo bem gostoso, mas nunca tive dinheiro suficiente. Mas acho que as outras garotas sejam diferentes, normalmente são, é melhor perguntar a Delly. –Ela segue para a cozinha e eu já tenho minha resposta, agora só me resta decidir que tipo de bolo eu criarei para ela.

-O cozido já está pronto, vamos jantar? –Ela me pergunta e eu ponho a mesa.

O jantar transcorre normalmente ao final eu levo um pouco para o Haymitch, bato na porta, mas ninguém me atende.

-Haymitch? –Ligo as luzes e vejo alguns ratos assustado correrem. Ele está na cadeira agarrado a uma garrafa. Tento acordá-lo.

-O que é? –Ele pergunta.

-Trouxe cozido, vê se come! –Ele dá uma fungada –Você nunca mais apareceu!

-Não queria atrapalhar os pombinhos... –Ele diz sugando um pouco do caldo.

-Não somos pombinhos! –Eu me defendo.

-Se você diz... –Ele dá de ombros.

-Agora você e Effie hein? –Dou uma cutucada e ele me dá um olhar mortal. –Quem diria!

Agora sei por que Haymitch vive nos provocando é tão divertido!

-Quando ela vem fazer outra visitinha? –Eu pergunto e ele larga a comida.

-Garoto não seja desrespeitoso! Ela não merece. –Ele a defende e eu murmuro uma desculpa.

-Estou só curioso de como foi que aconteceu, sabe entre vocês dois... –Eu dou uma cutucada, mas ele só me olha de relance e revira os olhos.

-Aconteceu o que? –Katniss pergunta quando entra pela porta.

-Eu peguei a Effie e o Haymitch namorando na sala dele quando você sumiu, estou pedindo que ele me explique e ele está sendo um chato.

-Ele ser um chato não é novidade, mas o que a Effie viu nele? –Ela olha para Haymitch com um sorriso e completa –Quando isso começou?

-Lembrem-se crianças que eu sou uns 40 anos mais velho que os dois. O que eu faço e com quem eu faço não é da conta de vocês. –Ele toma um gole de sua bebida preferida.

-Tá, não precisa ficar irritado! –Eu respondo a Haymitch.

-Só não queremos que você estrague tudo! Que tal começando diminuindo a bebida e arrumando esse chiqueiro? –Katniss alfineta.

-Docinho, eu sei que você só veio aqui pelo seu namorado, pegue-o e me deixe em paz!

Saímos da casa de Haymitch e Katniss olha para o céu que está meio cinzento.

-O que será que a Effie viu nele? –Ela se pergunta pelo aparente casal improvável.

-Devemos admitir ele é sagaz e muito estrategista. Ouvi dizer que eles passaram algum tempo no 13, talvez isso os tenha aproximado. –Ela desvia seu olhar do céu e me olha profundamente. Às vezes eu quero saber o que ela pensa, mas pela sua expressão eu consigo imaginar e ela pensa se também foi por nossa proximidade que eu me apaixonei por ela. Mas eu sei que não foi eu a amava há muito tempo.

-Vamos entrar está frio. –Eu a pego pelo braço e guio até a porta, ela se deita na cama e desejo boa noite. Mas me afasto, há muito o que tenho que pensar e não parece que ela deseja minha companhia.

No ateliê mentalizo o bolo que farei para ela, penso em algo relacionado a chamas, mas pode evocar memórias de Prim. Algo relacionado a floresta, mas pode lembrá-la dos tempos em que ela tinha Gale. Quero que seja inesquecível, que demonstre meus sentimentos sem impô-los a ela. Poderia ser no formato do nosso pão, mas isso seria muito obvio e descarado.

Ela mencionou o bolo que fiz para Finnick, poderia fazer algo relacionado ao 4, mas isso traria memórias de Annie e Finnick e tornaria o dia triste. Estou com minhas mãos quase arrancando os cabelos tentando pensar em algo que demostre o quanto ela é especial e que comova seu coração. Que tipo de bolo seria para ela? Estou parado em frente a tela ainda branca, sem ideias e amanhã já é 2 de abril! O bolo que tenho em mente no mínimo demorará uns 2 dias para ficar pronto.

Sentindo-me derrotado e sem inspiração alguma eu vou para minha cama. Mas não consigo dormir muito sendo despertado pelos pesadelos e sigo para padaria. Tudo se repete todos os dias, eu não consigo ter um vento de inspiração para o bolo de Katniss e me recuso a fazer um bolo qualquer para ela. Já se passaram 3 dias, restando somente mais 3 e não consigo visualizar nada de interessante em minha mente. Resolvo então sair do trabalho mais cedo para ir à floricultura, ver coisas bonitas sempre ajudou em achar inspiração para mim antes e rosas são esplendidas. A floricultura está no seu auge com a chegada da primavera, tem rosas de todas as cores e espécimes.

-Boa tarde, em que posso ajudar? –Me pergunta um atendente.

-Estou dando uma olhada, daqui a 3 dias será aniversário da mulher que eu amo e quero fazer um bolo magnifico. Estou atrás de inspiração. –O rapaz me olha um pouco surpreso por minha sinceridade eu acho.

-Bem, deve ser difícil agradar Katniss Everdeen! –Ele sorri educadamente –Faça algo relacionado a pérolas e tecidos de preferência renda. Nunca vi mulher alguma ficar chateada em ganhar flores, roupas e joias. Então tente algo como isso!

Penso nisso por um momento, é isso! O bolo perfeito. Sinto-me tão feliz que dou um abraço no garoto e compro uma rosa vermelha para ter uma base. Já sei o tipo de bolo que eu quero dar a ela, meu humor deu uma guinada. Corro para casa, mal espero para ver o desenho que pintarei como base para fazer o bolo.

Olho para tela que pintei por 6 horas ininterruptas, às vezes quando pinto algo muito bem meu peito infla de orgulho pela obra e isso é o que sinto no momento. Pego a tela recém-pintada com carinho e a escondo para secar. Fiz rascunhos para levar a padaria e pôr em prática esse bolo que ficará magnifico. Estou tão empolgado que não percebo que Katniss está saindo para caçar e muito menos seu olhar ressentido.

Os outros dois dias são exaustivos, cuidar da padaria e ao mesmo tempo fazer um bolo que exija tanto de suas habilidades não é fácil, mas eu consegui! Olho para ele que é tão lindo e delicado com orgulho, pois sei que não há nesse mundo alguém que não amaria receber esse bolo de presente. Olho para o relógio e são 15:00, peço para Delly me cobrir na padaria, pois quero arrumar a casa de Katniss para seu aniversário e cozinhar o cozido de carneiro que ela tanto gostou na capital.

Arrumo a mesa com uma toalha branca, ponho a mesa, o vinho, as velas e o cozido está quase terminado. Tomo um banho e me visto um pouco melhor que de costume com uma calça jeans e uma camisa branca de mangas longas. Sinto-me até nervoso parece até que eu vou propor casamento... O que não é e eu acho que nunca será o caso.

Ligo para casa sei que ela estará lá e a chamo para vir para sua casa.

Ela vem quase que imediatamente, ao vê-la entrando pela porta meu coração dispara e depois de 2 dias sem a ver percebo o quanto eu realmente gosto dela.

Ela fica de início sem entender.

-Teremos visitas especiais hoje? –Ela me pergunta incerta.

-Feliz aniversário! –Eu a abraço feliz e poder demostrar o quanto ela é importante para mim, antes que eu perceba digo –Obrigado por ter nascido e tornado minha vida mais significativa. Olho os seus olhos cinzas, a cor que foi minha preferida um dia e vejo que consegui o que queria. Eu a comovi. Guio ela até a cadeira e vou buscar o cozido.

-Peeta não precisava ter feito tudo isso! –Ela argumenta.

-Eu fiz isso por mim, por que eu estou feliz de estar com você –Eu contra-argumento, o que não é uma mentira e faz essa cabeça dura começar a comer o cozido. Eu me sirvo, ao observar a face de Katniss percebo o reconhecimento e que eu não errei ao escolher esse prato. Temos uma refeição tranquila e repleta de felicidade.

-Estava delicioso, faz tanto tempo que não comia esse cozido –Katniss fala olhando para mim cheio de carinho, a última vez estávamos a caminho da capital e eu lembrei de seu prato preferido.

-Ainda tem o meu presente! – Eu a aviso, ela abrir os olhos momentaneamente em surpresa e eu vou para geladeira.

Quando trago o bolo que achei parecido com ela, por um momento fico inseguro em ter errado o presente, mas assim que olho para sua cara sei que esse não foi o caso. Ela olha meticulosamente cada detalhe do bolo, um olhar de incerteza se volta para mim assim que ponho o bolo na mesa.

-Esse colar é de verdade? –Ela me pergunta totalmente capturada pela beleza do bolo

-Não! –Eu respondo surpreso, ficou mesmo idêntico? –Não podemos botar coisas que não são comestíveis em bolos.

-Está na hora de cortar o bolo, senhorita Everdeen... –Eu falo tentando provocá-la, mas algo está errado quando entrego a faca para que ela possa cortar o bolo percebo que ela está triste.

-Eu não posso, ele é perfeito! Pena que é de comer, eu gostaria de guardá-lo para sempre. –Ela responde me olhando, não devia ter feito tão bonito e me lembro do desenho que pintei a óleo em casa.

-Bem, eu fiz uma pintura dele se você quiser, eu te dou. Assim você não precisa ficar triste no seu aniversário. –Digo a ela para ver se assim a convenço, afinal o bolo foi feito pra ser comido! Me surpreendo quando ela sorri e me abraça calorosamente. Olho para seu rosto satisfeito, quando meus olhos repousam no cinza que está cor de grafite hoje vejo ali refletido sua gratidão e seus lábios estão para falar algo, mas simplesmente me beija despertando em mim a fagulha que se instala pelo meu corpo inteiro.

Meu cérebro não consegue processar muita coisa quando ela vem para mim assim, faminta por mais, seu corpo completamente grudado no meu é tudo o que preenche minha mente e a vontade de tê-la em minha cama é insuportável. Só me dou conta que estou no sofá quando ela me empurra e fica por cima, prensando meu corpo contra o dela me deixando completamente sem fôlego. Só me dou conta de que não é uma fantasia minha como tantas outras, mas sim uma realidade quando ela toca minhas cicatrizas e elas ardem me despertando desse estupor. Tiro minhas mãos de seu traseiro com certo constrangimento e me sento.

-Vamos cortar o bolo então? –Sugiro tentando parecer casual, mas o ardor ente minhas pernas não ajuda nem um pouco.

Ela se levanta e segue para o bolo. Pego o fosforo do bolso.

-Espera, tem que acender as velas! –Eu faço isso quando a chama se torna mais forte digo –Faça um pedido!

Ela assopra as velas e comemos o bolo.

Naquela noite dormimos em sua casa com um clima de alegria há muito tempo não sentido por mim.