Epílogo


Rachel sabia que tinha boas amigas e que os Berry a consideravam membro da família, mas, ainda assim, não podia imaginar receber nem uma pequena parte do amor que a esperava quando voltou. O alívio e a alegria transpareciam nos rostos também de pessoas como os avós do noivo, Rory e Artie, e nos de funcionários como Quinn, Brittany, Puck, Sam e Kurt, que felizmente tinham permanecido trabalhando para Finn ou para a empresa. A maior parte das pessoas não se contentou em fazer uma visita apenas e, com isso, o apartamento do casal permaneceu, por mais de uma semana, repleto de gente, nas mais diversas horas do dia.

Finn e Rachel se casaram logo, exatamente como ela desejava, sem que fosse planejada uma festa suntuosa, que contaria com centenas de convidados sem grande relevância para qualquer um deles. Entretanto as amigas a convenceram a, pelo menos, entrar na igreja ao lado do irmão, usando o vestido que ela tinha escolhido antes, e que Mercedes não tivera coragem de vender para mais ninguém. Sabiam que a benção católica era importante para os Hudson e que celebrar, comendo bolo feito pela equipe de Kurt acompanhado de champagne, depois de uma série quase infinita de brindes, era importante para todos que os amavam.

Finn não interferiu nas decisões da garota, pois tudo o que ele queria era estar ao lado dela, com ou sem proclamas, com ou sem um padre os declarando marido e mulher, com ou sem amigos reunidos em torno de mais uma desculpa para exagerar na bebida. Não poderia negar, no entanto, a satisfação que sentiu ao vê-la caminhar pela nave da igreja em direção a ele, com um vestido que acentuava sua beleza e o sorriso radiante que ele faria tudo o que estivesse ao seu alcance para manter no rosto dela, por uma vida inteira e várias outras.

Ele sabia que ela ficava linda usando qualquer cor. Lembrava-se bem que, ao começar a se relacionar com ela, tinha mesmo ficado impressionado por ela ser tão atraente com as roupas de tonalidade discreta quanto era com as cores berrantes que, na época, só usava dentro do quarto secreto. Desde então, ela adotara visuais bem mais coloridos, no dia-a-dia, que a deixavam simplesmente maravilhosa, e ele não poderia ter imaginado que a julgaria ainda mais perfeita, ao vê-la usando apenas branco.

Na verdade, a cor branca, fruto do reflexo de todas as cores, era a metáfora perfeita para o momento em que finalmente Rachel sentia ser ela mesma, completa, inteira, em todas as suas nuances. Parecia ter luz própria e Finn jamais teria acreditado, naquele dia de festa, se alguém lhe tivesse dito que ela ainda seria capaz de brilhar mais. Foi pego de surpresa, todavia, quando ela ficou grávida pela primeira vez, tornando-se cada vez mais bonita a seus olhos, na medida em que a barriga crescia e vida se preparava para irromper de dentro dela.

Só sentiu mais amor do que naqueles meses quando enfim observou o rostinho de Kyra e viu olhos iguais aos de Rachel convivendo harmonicamente com um nariz como o dele e algumas sardas, um sorriso levemente torto em uma boquinha carnuda e bem rosada, os cabelos bem escuros contrastando com a pele claríssima. Teve um pouco de medo de pegá-la com seus braços longos e mãos grandes, sendo um serzinho tão frágil, mas a risada gostosa da esposa lhe deu toda a coragem de que precisava, e ele soube que seria sempre o guardião da filha e jamais poderia machucá-la.

Também amou instantaneamente Chase, quando ele nasceu, apenas dois anos depois, e sentiu um certo alívio pela chegada de alguém do sexo masculino à família. Imaginou o garoto no futuro, cuidando da irmã e não deixando meninos mal intencionados se aproximarem dela, mas quando contou isso à mãe dele, o lado independente dela não gostou da ideia. Ela queria criar uma Kyra forte, decidida, que saberia fazer suas próprias escolhas e cuidar pessoalmente de seus assuntos e, no fundo, Finn não poderia deixar de concordar, é claro! Não tinha sido por uma mulher poderosa que ele se apaixonara, afinal?

Mesmo que, ao longo de tanto tempo de convivência, Rachel tivesse acabado por mostrar suas fragilidades para ele, Finn nunca deixaria de vê-la como alguém decidida e valente. Talvez até a considerasse mais forte atualmente, quando a mulher que um dia ele vira como uma fêmea no cio, cercando o macho e colocando-o à sua mercê, se transformara em uma leoa em volta da cria, cuidando para que nada pudesse atingi-la ou a ela faltar.

Por enquanto, de qualquer forma, tanto Kyra quanto Chase ainda precisariam de muitos cuidados e direção, por alguns anos. Eram crianças de pouco mais de três e um ano cada, cheias de energia e curiosidade, que se manifestaram, naquele sábado, por meio de um travesso Chase, engatinhando pela casa e sumindo de vista enquanto os pais recebiam Blaine e o chef Kurt, com quem este acabara se casando, alguns anos antes. Nada poderia ser pior do que a ansiedade e temor gerados pelo sumiço, mesmo vê-lo voltando, depois de desaparecer, com uma pequena argola de borracha rosa choque na mão.

"Ai, meu Deus!" Rachel tirou o objeto da mãozinha do filho, completamente sem jeito porque homens adultos como o irmão e o cunhado sabiam muito bem para que servia aquele tipo de argola.

"Onde será que ele pegou isso?" Finn questionou, levantando a sobrancelha, ciente de que os acessórios sexuais que usavam eram guardados no quarto secreto que eles tinham arrumado no apartamento novo, com ainda mais objetos e fantasias do que havia no antigo.

"A Alice tá limpando o quarto e deve ter esquecido a porta aberta, Sr. Hudson." Esclareceu Brittany, que ainda coordenava a equipe que cuidava da residência do casal. "Eu vou pedir que ela seja mais cuidadosa. Me desculpe." Pediu e Finn apenas assentiu, tranquilo. Não tinha afinal acontecido nada sério.

"Bom, parece que o rapazinho pode vir a ter uma tendência ao não convencional, hum?" Brincou Kurt.

"Talvez seja genético." Blaine completou e todos riram.

"Façam piadinhas mesmo! Vocês ainda não tem filhos, ok?" Rachel implicou, entregando o bebê, que pegara no colo, ao tio. "Não esqueçam que ele tem que comer daqui a duas horas... se chorar antes disso, não deve ser fome, mas pode ser a fralda... ou talvez, se não for nada disso, possa ser cólica. O remedinho tá na bolsa." Falou, enquanto Finn entregava a mesma ao concunhado.

"Eles já sabem de tudo isso, Rach." O marido repreendeu.

"Ela fala isso pra gente desde que a Kyra tinha poucos meses e a gente vinha dar uma de baby sitter." Blaine revirou os olhos e se despediu da irmã, com um beijo no rosto, e do cunhado com um abraço.

"A gente podia aproveitar que o Chase tá com os tios e a Kyra tá sendo paparicada pelas tias, pra tirar um tempo só pra gente, do jeitinho que era antes." Sugeriu, quando o casal foi embora, referindo-se também à saída da filha com Harmony e Kitty, que, apesar de ter conseguido ganhar controle em relação à sua compulsão por compras, gostava de acabar com o limite de seu cartão de crédito levando ao shopping a sobrinha postiça.

"Antes? Mas antes quando, exatamente?" Questionou, apesar de bastante desconfiada a respeito de que tipo de tempo sozinho com ela Finn queria ter, depois de terem visto juntos a argola de pênis.

"Antes de você engravidar, quando éramos só nós dois e a gente fazia sexo pela casa toda, sem ter medo de nenhum flagrante. Ou quando a gente ficava o domingo todo no quarto secreto, sem sair correndo de lá, depois de uma transa só, cheios de culpa, achando que uma das crianças podia precisar da gente, de repente." Respondeu, abraçando-a pela cintura. "Eu amo a nossa família, é claro. Adoro ver você cuidando dos nossos filhos, adoro fazer amor com você, bem devagar, com toda a calma do mundo, no nosso quarto, à noite, depois que a gente coloca os dois na cama... ou de manhã, antes de um deles se esgoelar, nos chamando." Riu, fazendo carinho no rosto sorridente dela.

"Mas?" Ela indagou, levantando as sobrancelhas, de forma sugestiva.

"Mas..." Ele agarrou os cabelos dela, puxando para trás, como se fosse prender os fios em um rabo de cavalo e beijou algumas vezes seu pescoço. "Eu sinto falta de você mais selvagem, às vezes. E eu também queria nós dois mais relaxados, deixando alguém cuidar das crianças, de verdade, sem entrarmos em pânico ou ficarmos nos sentindo péssimos pais."

"O que você quer dizer é que não precisamos ser só pais, pra sermos bons pais, não é?" Mostrou concordância.

"E que nós não precisamos deixar de ser o tipo de amantes que nós éramos até pouco tempo atrás também. Nós podemos ter alguns segredos, como a gente sempre teve." Declarou, de novo afastando as madeixas dela para beijar seu pescoço e arrastar o nariz por ele, gostosamente.

"Será que a sua fantasia favorita ainda cabe em mim?" Perguntou, considerando retomar o uso do quarto secreto e das brincadeiras de dominação em grande estilo, vestida de caçadora. Ele seria um animal selvagem, o que demandava apenas uma cueca estampada, mas para que ela ficasse perfeita era preciso superprodução. "Acho que usei pela última vez antes de engravidar do Chase."

"Você tá a mesma coisa, Rach." Achou graça na preocupação infundada da esposa. "Vai lá se arrumar, que eu vou em dez minutos." Pediu, separando-se dela e indo na direção da cozinha.

Minutos depois, ela estava brincando de caçá-lo, enquanto ele fingia atacá-la como um animal acuado, o que era perfeito para que pudessem se revessar nas posições de dominador e dominado, mesmo que ele a deixasse no controle a maior parte do tempo. Contudo, depois de se despojarem de suas fantasias e fazerem sexo de pé, dentro de uma jaula, usando a grade como apoio, foi ele quem conduziu a fase das experimentações, invocando os sentidos dela, com cheiros, texturas e sabores, provocando a libido da esposa por meio deles.

Vendou os olhos de Rachel, oferecendo-lhe patês, cremes, queijos, geleias, licores, e massageou todo o corpo dela com óleo aromático, quente e comestível, que ele mesmo provou, beijando, lambendo, mordendo, sugando, até a última gota se confundir com sua própria saliva. Depois deixou que ela cobrisse seus olhos, o amarrasse à cama, apertasse forte uma coleira em volta do seu pescoço, montada nele, subindo e descendo em seu colo freneticamente, até gozar e liberá-lo de todos os objetos de submissão, deixando que ele mudasse suas posições, ficasse por cima e atingisse o orgasmo encarando suas pupilas dilatadas de desejo.

Os jogos de dominação e submissão, de dor e prazer, dentro do quarto secreto, voltaram a ser uma constante na vida do casal, depois daquele dia. Não porque Rachel tivesse necessidade de controle, nos negócios, na casa, na vida ou no sexo, mas porque eles gostavam, porque era realmente muito, muito intenso e prazeroso realizar fantasias e testar limites.

Não porque algum deles precisasse ser alguém que não era, quando fora dali, usando máscaras e disfarces, mas porque, simplesmente, eles ali podiam brincar com algumas das muitas facetas de suas personalidades, que eram íntimas e privadas, que pertenciam apenas aos dois.

Não por medo ou necessidade, mas por escolha. Porque descobriram juntos que, entre quatro paredes, realmente vale tudo.