No último capítulo…
O Príncipe Zechs convoca os cinco cavaleiros "Formidáveis" para uma reunião na qual propõe a eles a missão de salvar sua irmã, a Princesa Relena. Howard vai representando Arcus. Todos os cavaleiros aceitam e começam a planejar sua viagem. Heero se abre com Akane sobre uma parte de suas angústias. Ela o assegura: "Heero, o caminho está bem diante de você. Não precisa ficar se atormentando e questionando porque as coisas são assim ou porque você se sente deste ou de outro modo… Você é tão decidido, tão forte, não precisa ser tão crítico com você mesmo."
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Capítulo 29 – Preparativos
Quando Quatre chegou às tendas Winner, cumprimentou os empregados que estavam do lado de fora com seu sorriso simpático. Nada abalava seu bem-estar, nenhuma tensão conseguia derrubar sua cortesia, e ele entrou silenciosamente na tenda principal e encontrou Rashid. Era difícil explicar qual função exatamente exercia para Quatre aquele árabe alto de olhos miúdos e fartos cabelos e barba, ambos de tom castanho, e sorriso bonachão. Rashid era um homem de armas que abdicara de sua condição para servir Quatre como um mordomo e protetor. Ele era um cavaleiro muito habilidoso, montara vários dos cavalos mais bravos da Arábia, e começara acompanhar Quatre como uma espécie de tutor desde que o rapaz iniciou sua vida cavalheiresca e sua participação em corridas. Sobretudo, Rashid era como um pai ou talvez o irmão mais velho que Quatre nunca tivera, visto ser o caçula de várias irmãs.
_E então, mestre Quatre, o que houve? –ele perguntou olhando o rapaz com um pouco de preocupação mesclada por curiosidade. Quatre sorriu e explicou calmamente o que estava havendo e o que esperavam dele.
_Alguém da parte do príncipe virá me entregar o mapa dentro de algumas horas, creio. –ele disse por fim, olhando Rashid sem pressa.
O homem o olhou, impressionado com toda a história e com a missão de seu jovem mestre, e suspirou, pensando em tudo que precisavam fazer até a hora da partida.
_Não pensei que estaríamos envolvidos em combates reais aqui, mestre, achei que só haveria um torneio. –ele disse depois, pilhérico, e Quatre riu, assentindo em concordância. –Mas pelo jeito temos mais a fazer do que pensávamos. Vai ser perigoso, mestre, peço que se cuide bem.
_E alguma vez eu não o fiz? Não imagino que ficaremos fora mais do que uma semana. O clima está bom e a viagem não é longa… –Quatre disse ponderando.
_Lembre-se dos imprevistos pelo caminho e do peso que Sandrock vai carregar, pois tudo isto também pode determinar a duração e o ritmo da viagem. –Rashid logo comentou, com toda a sua experiência em ação, lembrando o mestre daqueles detalhes importantes.
_Sim, é verdade. Quanto ao peso, não vou levar mais do que o necessário, mas quanto aos imprevistos, bem, o nome já diz, não é?
Rashid concordou com um sorriso e foi dar ordens aos criados. Tinham de trazer Sandrock da cavalariça, para vesti-lo com as blindagens apropriadas, além de preparar a panóplia do mestre, afiar a espada e separar os apetrechos para a viagem. Seria uma noite agitada, tudo teria de ser realizado o mais rápido possível, mas ninguém tinha preguiça de trabalhar.
Quatre foi até a entrada da tenda e olhou Sandrock chegando debaixo do luar, arrastando a neblina consigo, os olhos procuravam o dono, agitado, não entendendo o que iria fazer aquela hora da noite. Quatre sorriu e aproximou-se do focinho do animal, olhando dentro do olho dócil de Sandrock, que logo serenou.
_Nós vamos fazer uma viagem, meu amigo, e eu conto com você… –Quatre sussurrou para o cavalo que depois relinchou, confirmando. Com um sorriso, Quatre despediu o animal que logo foi levado para ser preparado pelos empregados.
Quatre entrou na tenda e foi fazer suas próprias preparações e Rashid esperava-o para isto. Mas com um tom de voz rouco e preocupado, ele disse:
_O mestre não prefere descansar? Vai ser um longo dia para o senhor. Eu posso cuidar de tudo agora.
_Não, Rashid, não se preocupe comigo. Vamos, temos muito o que fazer… –Quatre disse, disposto, com um sorriso sereno e Rashid assentiu em resposta.
Duas horas e meia depois disto, apareceu um mensageiro de Zechs trazendo o mapa, e Quatre parou para estudá-lo um pouco antes da jornada. Logo percebera que a casa de Verão onde Decker estaria ficava a beira de uma fenda, um pequeno desfiladeiro onde corria um riozinho. Não parecia um bom lugar para veraneio, mas na frente da casa havia belos bosques verdejantes e clareiras, e talvez isto fizesse o lugar ser repousante e agradável. Mas o que mais preocupava Quatre era o trajeto.
Zechs traçara um caminho discreto que demorava um dia a mais do que pela estrada, mas poderia funcionar melhor para um assalto inesperado. Assim, Quatre podia ver que não seria tão tranquilo quanto imaginara. Podiam esperar embrenhar-se por florestas escuras cheias de lobos e outras feras e enfrentar rios bravios. A dose de perigo ia aumentando aos poucos e Quatre suspirava preocupado com toda a situação. Era tudo inescapável. Ele já havia se conformado. Apenas odiava ter que fazer aquilo, seria muito melhor se houvesse uma forma menos violenta de resgatar a princesa. Mas ele não podia se esquecer de que sua missão era tão inescapável quanto sua causa. Ele estava amarrado pela sua honra à uma era eternamente violenta e à um sonho de paz que ele temia cada vez mais ser inalcançável. Esta era a dura vida de um cavaleiro.
Mas ele acreditava que havia grandes recompensas em viver assim, e com um sorriso brando, fitava com otimismo o futuro.
_Está tudo pronto, mestre, agora é só esperar… –de repente, Rashid apareceu na tenda onde Quatre olhava o mapa a luz da lamparina às quase três da madrugada, olhando o rapaz com uma bondade embaçada pela seriedade de quem enfrenta uma situação extrema friamente. Quatre assentiu e comentou:
_Partiremos daqui uma hora… acho que irei cochilar um pouco.
_Faz bem. Estarei cuidando de tudo enquanto isto, mestre. Não precisa se preocupar. –e ele mesurou ao modo árabe e Quatre agradeceu com uma devota mesura de cabeça. Ele confiava muito em Rashid e seria eternamente agradecido por todo o trabalho prestado. E depois disto se recolheu, vestiu-se com as roupas a serem usadas debaixo da armadura e foi dormir. E não pretendia sonhar, não naquela noite. Teria de deixar todos os sonhos para depois, apenas devia fechar os olhos e adormecer.
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Wu Fei chegou a seu acampamento e logo o mordomo veio encontrá-lo, mesurou profundamente para o jovem mestre e caminhou ao seu lado, esperando as ordens. Wu Fei se mostrava muito desgostoso e bravo, sobretudo distraído em seu descontentamento, olhando em frente o tempo todo, murmurando palavras incompreensíveis num misto de inglês com mandarim. Por isto o mordomo logo percebeu que em nada agradava o assunto tratado na misteriosa reunião, e sorriu petulantemente apertando os olhinhos muito puxados.
_O senhor… –e começou com sua voz de timbre alegre, querendo saber se Wu Fei ia ou não falar algo, quando o rapaz instantaneamente começou a vociferar em mandarim:
_Mas que maldição! Eu vou ter de me juntar àqueles miseráveis que formam os "Formidáveis" para ir buscar a princesa deste reino que foi raptada por um mediocrezinho!
O mordomo idoso continuou sorrindo se divertindo com o mestre e pensando pilhérias por causa dos títulos que o rapaz concedera a cada um.
_Lembre-se, jovem mestre, que você foi aceito na Ordem dos Formidáveis mesmo sendo estrangeiro e aceitou servir como um cavaleiro europeu a título de aprendizagem. –o senhor lembrou com voz chistosa, repreendendo Wu Fei sem que ele percebesse disto.
Wu Fei ficou muito irritado com as palavras do mordomo, como se era de esperar:
_Insubordinado! –primeiro, gritou com o mordomo e entrou na sua tenda escancarando violentamente os panos da porta. –Ainda bem que eu sou bom cavaleiro ocidental! E como eles me respeitam, sinto ser uma desonra não ir nesta missão descabida! Por que será que as mulheres estão sempre atrapalhando? Tudo o que eu queria era terminar logo este torneio! –e depois desatou em mais um discurso cheio de arrogância e raiva, mas o mordomo pouco se importava com a negatividade do mestre.
_Como devemos servi-lo para que o senhor parta para a sua missão "descabida", jovem mestre? –o mordomo indagou com uma leve mesura e Wu Fei sentou-se no meio de almofadas, emburrado, exatamente como fazia desde pequeno, e recordando-se da cena, o mordomo riu.
_Vá mandar aprontar Sheng Long e arrumem minha armadura e as roupas para a viagem! Quero minha espada afiada e minha aljava cheia de flechas novas! E ande logo, que tenho de ir antes do amanhecer!
_O senhor deseja algo mais? –o mordomo se curvou em respeito com seu sorriso insolente e Wu Fei encruzou os braços.
_Não, só isto!
_Acho que seria bom levar alguma provisão para a viagem… –o mordomo murmurou sugestivo, ocultando uma risadinha de hiena.
_É… está certo… Pode mandar aprontar uma lancheira. –Wu Fei concordou, simulando relutância, e o mordomo riu outra vez.
_Quanto tempo o senhor ficará fora?
_Se este salvamento estúpido durar mais que uma semana, vai ser prova da incompetência desses ocidentais…
_Está certo, então, vamos ter tudo arrumado para seu retorno daqui uma semana, jovem mestre. –o mordomo mais uma vez curvou-se acatando a ordem do rapaz na maior tranquilidade.
_Humf! Eu não acredito que aceitei ir nesta missão… –e passou a reclamar outra vez, incrédulo de si mesmo. –Não falta mais nada neste mundo para eu ver ou fazer!
_Eu acho bem improvável que o senhor recusasse a honra de um motivo para demonstrar sua técnica de batalha, jovem mestre… mesmo que este envolvesse "resgatar uma donzela indefesa"… –o mordomo provocou jovial e Wu Fei ficou encarando o senhor, pasmo, amplamente desagradado com a veracidade das palavras do mordomo. Wu Fei era assim, reclamava, mas fazia, e até que gostava, embora escondesse isto em nome de sua pose.
_E o que me importa o que você pensa, hã? Por que não foi fazer o que mandei ainda? –e Wu Fei falou duro, mas tudo da boca para fora, só para defender-se.
O mordomo riu outra vez e saiu para executar as ordens, deixando Wu Fei emburrado no meio das almofadas. O rapaz deitou se jogando e esmurrando as almofadas depois, bufando. Wu Fei era um dragão irritadiço, mas que dificilmente atacava. Mas ele levava a sério o que tinha de fazer e, se se prontificava para algo, executava com toda a perfeição do mundo, que era o mínimo que ele exigia de si e de qualquer outro. Perder era a palavra que ele mais odiava e seguia um regimento baseado em sua própria compreensão de justiça, de padrão altamente elevado e intransigente. Detestava seguir ordens, só fazia o que bem entendia e se achava no direito de desdenhar todo mundo. Alegava nunca lutar contra mulheres e fracos, porque não valia a pena vencer este tipo de gente, imprestável em sua opinião.
Ia especialmente naquela missão porque julgava Decker insuportável e mimado, e achava absurdo que este tivesse como estratégia de guerra o rapto de uma garota. Assim, não contaria esforços para derrotar um cavaleiro como aquele, porque em sua opinião, ninguém merecia mais perder para ele do que Decker.
Quanto aos outros "Formidáveis", Wu Fei tinha suas opiniões bem formadas, estas pouco amistosas. Primeiro, sempre preferiu muito mais lutar sozinho, por que assim tinha certeza de que tudo sairia direito, ao seu gosto e com ele vencedor. Então, pertencer a um grupo já lhe era irritante. Segundo, cada membro do grupo exclusivamente era irritante ao seu próprio modo. Wu Fei era tão rabugento que chegava a ser engraçado, e todos terminavam não levando a sério as chatices dele. Ele não suportava Heero e o jeito altivo e autoritário dele, e obedecia-o a muito contragosto. Duo era um tolo enervante que nunca levava nada a sério e vivia rindo à toa. Quatre era insuportável por sua bondade e gentileza. Trowa, pelo menos, ficava a maior parte do tempo quieto, e era tolerável, mas a gota da água era Akane. Sempre. A mera presença dela o enervava e ele sempre terminava em maus lençóis quando resolvia implicar com ela, o que o irritava ainda mais. Ele não entendia por que aquela mulher tinha de ficar se metendo nos assuntos deles se nem era cavaleiro, era apenas uma doida, empregada daquele Arcus que nunca teve a civilidade de mostrar as caras.
Entretanto, por mais que sua primeira reação fosse reclamar, reconhecia a importância de seu papel na ordem e estava pronto para ajudar se necessário, nem que fingisse uma relutância. Não gostava realmente da ideia do adiamento do torneio, mas respeitava Zechs e cumpriria o pedido dele, pois encarava aquilo como uma questão de honra. E, além do mais, como qualquer cavaleiro, ele zelava pela paz, obedecendo a seu elevado conceito de justiça, ansiando fervorosamente por um momento quando os conflitos estúpidos e sem razão finalmente deixassem de existir.
Para Wu Fei, lutar era uma coisa nobre e especial que não podia ser feita por qualquer um. Para uma luta existir, uma verdadeira, uma pura, devia haver uma razão e um guerreiro habilidoso para travar tal luta. E ele tinha de aceitar que os outros "Formidáveis" eram assim, e como ele, lutavam por tempos mais pacíficos, por uma era mais justa.
Depois de divagar sobre sua decisão de juntar-se aos outros companheiros de ordem no resgate, Wu Fei levantou do meio das almofadas e foi pôr mãos a obra, supervisionando os preparativos e reclamando deles enquanto não estivessem do jeito que desejasse. O mordomo a todo tempo sorria debochando do rapaz, e os empregados também não se importavam mais com a imperiosidade do mestre. Era difícil de se habituar, mas depois disto, nem ouviam metade das reclamações.
Quando avaliou tudo pronto, Wu Fei passou um tempo sozinho com Sheng Long, conversando com o cavalo com seriedade, e demonstrava grande apego ao seu animal, que apelidara de Nataku. Para ele, Nataku era o único que o compreendia e lhe era inteiramente leal. Ficou meia hora conversando em voz baixa com o corcel, que o ouvia atentamente e parecia concordar com seu cavalariano, olhando-o sereno. Sheng Long era uma montaria esplêndida, resistente, de boa estatura e velocidade, realmente algo a ser prezado por um cavaleiro. Ele ficava muito vistoso usando as blindagens e parecia sempre muito centrado e austero.
Depois, o mordomo sugeriu para Wu Fei ir descansar um pouco, embora ele objetasse teimosamente, até que, fazendo-se muito aborrecido, deixou-se convencer e foi deitar para abaixar os ânimos, visto a partida ser dali poucas horas. Ainda ficou um tempo pensando profundamente nas explicações que Zechs dera sobre o motivo daquele resgate, enquanto lembrava-se de que Heero tinha dito apropriadamente que a guerra seria adiada, mas não evitada. Ele tinha de concordar. Afinal, ele também podia enxergar isto muito bem. E também em pensamento já dizia a si mesmo que lutaria se fosse necessário, em qualquer hora ou lugar e não relutaria em vencer. Sabia que até mesmo resgatar Relena seria um desafio e que enfrentariam muita resistência e talvez lutas ferrenhas. E estas perspectivas lhe animavam, e abrindo um sorriso malicioso e felino, Wu Fei ficou a ansiar pelas suas batalhas, e virando-se de lado, adormeceu.
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Depois que deixou Heero sozinho no interior da tenda cheio de coisas a pensar, Akane rumou direto para a sua morada, com muita pressa, correndo pelos caminhos. Entrou na tenda principal e Unicorn estava ali, quase todo coberto das blindagens dele, com menos pompa do que nos duelos, mas seu chifre de lata erguia-se firme do centro de sua fronte enquanto Alaric trabalhava em prender a crina nos pequenos coques que brotavam de dentro da blindagem. Era uma tarefa trabalhosa que cobrava muito tempo e paciência. Naquela fase do torneio, Akane estava usando em Unicorn uma blindagem de placas desde o alto da cabeça até a cernelha e por isso a crina dele estivera apenas trançada.
_Eu vou te ajudar… –Akane tirou a capa e a jogou em qualquer canto e foi arrumar a crina de seu cavalo também. Alaric sorriu em resposta para ela e os dois ficaram trabalhando silenciosos. Ninguém parecia agitado, nem mesmo Unicorn, que às vezes tinha a crina repuxada de um jeito um pouco dolorido.
Os dois ficavam sossegada e silenciosamente arrumando o Unicorn, quando, tempo depois, Howard surgiu e anunciou:
_A armadura está aprontada e afiei sua espada.
_Ótimo. –ela comentou serena e sorrindo, e Howard achava a reação dela muito divertida. Ela não parecia se abalar, fazia tudo ainda com detalhista perfeição como se tivesse a vida toda. –Quero que chamem Alphonsine. Com certeza precisaremos dela quando eu voltar.
_Não sei por que você deixou que ela ficasse, Alphie nos faz muita falta. Um par de mãos sempre é muito útil, você sabe, milady… –Howard disse intrigado, verificando a sela antes de colocá-la sobre Unicorn e olhando Akane ao mesmo tempo.
_Ela tinha tarefas a cumprir, além do mais, disse que queria ficar lá. Era um vilarejo tranquilo e ela tinha muita costura a fazer. Deixei todos os meus melhores vestidos com ela, inclusive todos os de montaria… –Akane disse depois, atando o último maço de crina e limpando as mãos na roupa, apenas por hábito, por que as crinas de Unicorn nunca estavam sujas.
Alaric então prosseguiu selando Unicorn, e o cavalo estava quase pronto para a viagem. Suas ferraduras estavam em boas condições, não estava sobrecarregado com a blindagem, estava bem descansado devido ao dia de folga e seus olhos brilhavam animados com o que sentia aproximar. Sabia que tinha uma aventura pela frente, e Akane riu do jeito entusiasmado dele.
_Até parece um potrinho! –e disse, achando Unicorn sempre muito meigo. Depois, foi até Howard e comentou displicente –Até que não temos muito que aprontar. Vem, eu quero assar uma fornada de biscoitos para levar de lanche.
_Certo. E o que mais irá precisar?
_Separe três mudas de roupas para mim, um saco com peças de prata e algumas de ouro, além de uma faca de caça, e coloque tudo na bolsa, por fim eu guardarei os biscoitos. –ela disse dinâmica, olhando Howard e sabia que Alaric prestava atenção enquanto atava a fivela da sela e depois checava os estribos.
_Mas para quê tantas mudas de roupa? –Howard não entendeu e achou um exagero.
_É coisa minha, não se importe! –ela replicou maliciosamente, com um sorriso suspeito e Howard riu, trocando com Alaric um olhar divertido. –Chega de perguntas e vá logo fazer o que eu mandei!
_Ai, nervosa! –Howard riu dela, que bufou e o desdenhou, indo preparar os biscoitos.
Ainda tinha tempo para isto, eram quase onze horas e partiriam somente às quatro da manhã. Dedicadamente fez a massa e colocou algumas uvas passas para incrementar. E quando separou as bolachas e as colocou na forma, contemplou a grande fornada de biscoitos, sabida de que estes seriam bem-vindos num momento de exaustão e fome durante a viagem. Depois, foi ajeitar as roupas que vestiria enquanto eles assavam no forno à lenha de sua pequena ferraria, montada na varanda de uma das tendas com equipamentos que o Reino de Sanc fornecia. Zechs não deixara um detalhe escapar, queria que aquele fosse o mais perfeito torneio para os cavaleiros, com tudo o que estes precisassem. Foi muito generoso e todos sentiam-se muito agradecido pela preocupação dele.
Tudo parecia estar fluindo tranquilamente, Akane cantarolava distraída enquanto ia tomando conta de seus afazeres. Não parecia pensar em nada sério, até parecia ter se esquecido de que partiria para uma missão arriscada, e às vezes parava, com alguma roupa nas mãos e olhava o vazio, divagando. E após terminar sua tarefa designada, Howard parou e a observava de longe, com um sorriso orgulhoso na face.
Ele a tinha visto crescer e tinha ajudado-a a aprender quase tudo o que sabia. Apesar de Doutor J ter se prontificado a protegê-la, por algum motivo ele não podia estar com ela em Wannsee todo o tempo, tinha alguns afazeres importantes para cuidar no exterior, e pediu que Howard fosse cuidar dela e vigiá-la para que ela não colocasse fogo na casa ou qualquer coisa parecida. Akane sempre fora muito levada e viva, exibia um arroubo moleque, era perfeita para ser um cavaleiro nato. Ser menina não foi empecilho para J ver nela as qualidades brilhantes de um paladino e fazê-la tornar-se uma amazona tão boa quanto qualquer rapaz. Também, tornar-se uma amazona não foi nenhum impedimento para que ela desenvolvesse as qualidades de sua função principal, isto é, ser uma dama, lapidando ainda mais o espírito de nobreza que habitava o coração pujante. Howard sentia que o tempo tinha passado mais veloz do que ele queria enquanto observava-a ali, tão crescida e tão pronta, desafiando o mundo e enfrentando tudo, com a coragem que poucos sabiam demonstrar.
_Akane, acho que os biscoitos estão queimando! –de repente Alaric avisou de forma assustada, e Akane largou o que estava fazendo pressurosa para ir socorrer os biscoitos. Howard riu dela zombeteiro, ela o empurrou quando passou apressada por ele, provocando-o. Assim, Howard terminou de arrumar as roupas dela sobre a cama.
_E então, como estão seus carvõezinhos? –e depois foi lá fora e provocou zombeteiro. Amava importuná-la, ela sempre sabia entrar no jogo. –Nem os cachorros vão querer comer isto!
_Deixe de ser impertinente, Howie! –e ela o chamou por apelido usando uma entonação de voz ronronante e atirou nele um biscoito, realmente um pouco mais moreno do que o normal.
Ele riu folgazão:
_É pecado desperdiçar comida, pestinha! –e replicou, fingindo-se indignado. –Mesmo comida queimada…
_Não estou desperdiçando nada! Estou apenas sendo generosa, atirando um biscoito para o cachorro que veio procurar os carvõezinhos! –ela replicou tenaz e ele riu alto e impressionado com a língua afiada dela, que arqueou as sobrancelhas, maligna. Alaric apenas assistia despreocupadamente a contenda com um sorriso vulpino.
Akane fez uma trouxa dos biscoitos, Howard às vezes roubava um, e ela suspirava tranquila e alegre.
_Eu acho que você devia ir descansar. Passou o dia intero para lá e cá, você vai estar morta durante a viagem se não parar um pouco. –Howard depois disse numa repreensão bondosa e preocupada.
Ela ergueu olhos inquietos e brilhantes para ele, e voltou a encher a trouxa dos biscoitos.
_Howard está certo, Ane. Já é avançada a madrugada…
_Ainda está cedo. –ela replicou depois, com calma, não dando importância a preocupação deles. Howard deu de ombros e a assistiu levar a trouxa de biscoitos e colocá-la dentro da bolsa, ajeitando em seguida sobre Unicorn.
Alaric veio com um balde de aveia para oferecer para Unicorn antes de colocar o freio e a bridas, e o cavalo aceitou satisfeito, sem se importar com as peças de sua blindagem no focinho, regalando-se. Akane sorriu para a cena, contemplando-a por instantes, embora ninguém tenha percebido, e discretamente foi para seu aposento e fechou a entrada.
Sentou-se na cama, alisando o forro de peles, e suspirou reflexiva, parando para analisar o momento em que viviam. Era interessante como a guerra alcançara o reino. Era como se tivesse sido trazida por eles, como cavaleiros enviados da devastação. Akane sorriu, deliciada com sua conclusão. De alguma forma o caráter funesto desta a divertia, não lhe era nenhuma causa de sofrimento.
E apesar de todo o preparo e de toda a experiência, ainda era impossível não se sentir afetado pela tensão que antecedia a partida para a missão. Akane revisitava mentalmente a pergunta de Heero. Ele realmente tinha um ponto ao indagar, sem compreender, o motivo das pessoas sentirem uma expectativa mórbida em torno deles e de seu envio para a aquela tarefa. Havia muita comoção sem sentido para os "Formidáveis". O que tinha demais no que eles iam fazer? Afinal, esta não era a obrigação deles como cavaleiros? Não era isto que se esperava deles – coragem, desenvoltura, honra e lealdade – e não era isto que deviam fazer? As pessoas se contradiziam e de repente era enervante como dava a impressão de que pensavam que os "Formidáveis" não eram capazes. Akane permanecia sozinha em sua alcova, meditando nisto seriamente, sempre fora dada a analisar o que se requeria de um cavaleiro e que vida este tinha de levar para melhor entender e cumprir a sua missão.
Então, ela apanhou sua Bíblia e começou a ler, distraindo-se e procurando inspiração. Tinha ciência de que precisava se fortalecer, pois nunca se é forte o suficiente. E depois de percorrer vários episódios vividos pelo rei Davi, Akane fechou a Bíblia e juntamente fechou os olhos. Numa prece silenciosa pediu perdão, rendeu graças e solicitou humildemente por perseverança e força. Era tudo o que precisava, não se daria ao luxo de requisitar proteção nem seria egoísta em pedir a vitória. Esta dependia dela, Deus não tinha o que ver com isso. Ainda pediu perdão mais uma vez e instou por bênçãos dirigidas aos rapazes, sabendo que eles também necessitariam de apoio naquele momento. Não importava o que eles sentissem, ou quanto relutassem, todos admitiam que era uma época deprimente. E enquanto finalizava sua oração silenciosa, Akane suspirou enquanto seus lábios moviam-se formando um amém mudo.
Ela sabia que ainda havia um período consideravelmente longo e cheio de inquietude a ser atravessado até o horário da partida, e tendo certeza de que tudo estava pronto, encolheu-se num canto da cama, para não amassar seus trajes estendidos ali, e adormeceu serenamente, como se dias melhores estivessem para despontar junto do próximo amanhecer.
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Já estava tudo praticamente ajeitado, e um profundo e sonolento silêncio precedia o amanhecer, embora ali todos estivessem acordados. Uma tensão indesejada enchia o peito de todos os servos, e alguns reunidos em volta de uma fogueira, não tinham cansado de comentar, em sussurros, tudo o que estava acontecendo. E o temor só parecia aumentar ao passo que a hora da partida de seu amo se aproximava e eles sabiam que teriam de defender-se sozinhos se algum conflito estourasse na cidade.
Dentro da tenda ainda estava mais silencioso, apesar de tranquilo. Ali o tempo parecia ter parado totalmente. Os olhos jovens e dóceis de Catherine fitavam o esposo parado na tenda da frente, alisando as penas de um falcão pousado em sua mão esquerda, e a ave piava metalicamente, inofensiva como um canário. Catherine prestava atenção em cada detalhe da panóplia de seu senhor, deleitando os olhos na aparência nobre e imponente dele. Ele tinha uma alta estatura, contava um pouco mais que um metro e noventa, e coberto daquelas placas sublimes de tom alaranjado ainda parecia mais alto.
Era divertido pensar em como se conheceram. E por isso ela sorriu, lembrando-se da primeira vez que o viu, há sete anos. Lembrava-se exatamente de tudo, como se tivesse sido ontem. Um adolescente chegou ao dono do circo pedindo trabalho e acomodação, sem querer explicar muito da onde vinha e quem era, e deu apenas seu primeiro nome, encoberto de um mistério absorvente, não muito dado a conversas. Dois meses depois, os servos do pai vieram buscá-lo, arrastando-o para casa na marra, e desfazendo o enigma de quem era tal jovem e qual era sua procedência. Tal foi a surpresa quando descobriram que ele era o herdeiro de um nobre muito rico e que se rebelara contra a família, cansado da vida na nobreza, em busca de algo mais real e emocionante. Catherine trabalhava no circo naquela época e acabou ficando muito ligada a Trowa e ele ligado a ela, apesar do pouco tempo que passaram juntos. A verdade é que Catherine sempre tivera facilidade de achegar as pessoas e fazer amizades, e até mesmo Trowa, que sempre lhe pareceu tão remoto e silencioso em toda beleza nobre dele, foi conquistado pela meiguice e vivacidade dela, possuído de um intenso desejo de protegê-la.
Depois que ele deixou o circo, eles ficaram um ano sem se ver, embora ela tenha pensado nele, incapaz de esquecer o sorriso e a voz branda ao falar com ela com toda a cortesia que era oferecida a uma princesa. Ela era só uma plebéia sonhando com um príncipe encantado, um nobre germânico de calorosos olhos verdes. Mas a vida foi generosa, e o circo, durante suas muitas viagens, acabou passando pelo vilarejo onde ficava o castelo da família Barton, e lá ela viu outra vez seu cavaleiro, que a fez visitar o castelo e a recebeu como se a tivesse visto no dia passado. Nenhum dos dois escondia o quão forte tinha se tornado o sentimento que nutriam, mas mesmo assim, não era a hora para ficaram juntos. Trowa tinha muito treinamento a concluir e logo seria um cavaleiro de vida errante e ela não podia abandonar o circo naquela idade, pois este era a única família que tinha e o único lar que conhecia. Além do mais, a família Barton ofereceu resistência no início contra o romance dos dois.
Mas para eles, isto não significava nada e não os impedia de prometer que no final estariam juntos. Assim, Catherine jurou guardar o amor por ele até que se reencontrassem outra vez, como uma verdadeira dama, e ele prometeu amá-la mais a cada dia que passasse, como um fiel cavaleiro vencido pelo amor, e o circo deixou o vilarejo, sem que eles pudessem imaginar quando se veriam outra vez.
O circo se apresentava em feiras na Primavera e Verão, ia até os palácios fazer apresentações nas festas e também abria sua tenda para os camponeses. Embora isto fizesse Catherine sempre muito envolvida com seu trabalho, não a impedia de ter em mente a promessa de seu cavaleiro. Pensava nela todos os dias, cheia de esperança e fé. E por mais que estivesse distante, sabia que seu cavaleiro voltaria para ela, no momento certo, e ela o estaria esperando sem esmorecer.
Quando finalmente se reencontraram, num torneio em Paris, ele a pediu em casamento, deixando de perguntar se aquele era o momento certo ou não. Ela aceitou muito emocionada, e depois de mais um ano e meio de espera, casaram, na Alemanha, numa bela cerimônia. A família Barton, embora relutasse em aceitá-la, teve de render-se ao notar a verdade do sentimendo deles e ela ganhou todas as regalias de uma nobre, recebendo título de Lady, provando que o merecia. Mas para ela era tudo supérfluo, pois o que realmente contava era estar junto com ele. Sabia também que para Trowa, títulos e sangue nobre nunca foram importantes, mas sim o que a pessoa era no coração. Sim, se não fosse por esse pensamento dele, jamais teriam se apaixonado, já que se conheceram por ele ter tentado negar sua nobreza e ir viver como um camponês, fugindo com o circo.
Trowa ergueu olhos felinos para Catherine e a viu sorridente, e compartilhou do sorriso dela:
_No que está pensando?
_Em nada… –ela disse calmamente, dando de ombros. Trowa assentiu, e colocou o falcão no poleiro e descalçou as luvas. Ela o observava atentamente, sentada numa cadeira de encosto baixo, e viu ele se aproximar.
Sempre se sentia apreensiva quando ele tinha de partir para um conflito ou uma missão. Temia por ele, pois não gostava nem de imaginar como seria se o perdesse, e gostava de tê-lo onde ela também pudesse estar. O acompanhava aos torneios, sempre foi habituada com a vida nômade e não era muito exigente quanto às instalações, ao contrário de muitas das moças nobres que conhecera. E era isto que agradava Trowa, porque ela sabia como era a vida e estava disposta a enfrentar qualquer situação difícil com humildade e força, nunca desistindo.
_Vou me sentir muito solitária sem você. –ela confessou depois com entonação melancólica e ele sorriu apanhando uma cadeira e sentando-se despojadamente em frente dela.
_Não vou demorar tanto assim… –e consolou-a, que riu sossegada, mirando-o. –Não há motivos para temer nada, Cathy. Precisam de mim, eu sei que você entende isto. Eu tenho de ir, concluir esta missão, é para isto que fui treinado: para lutar.
_Então, nobre cavaleiro, eu devo designar-lhe uma segunda e nova missão a ser cumprida. –ela disse com um ar romântico e um sorriso sagaz, e ele sorriu contidamente com os olhos de lince. –Você certamente tem de ir, e certamente ter sucesso, mas você certamente tem de voltar para mim são e salvo.
Catherine podia ser plebéia, mas era muito digna. O caso era que ela tinha o verdadeiro tipo de nobreza: um coração legitimamente bom. Trowa sorriu diante das palavras apaixonadas da esposa, comovido pelo amor que ela lhe dedicava copiosamente, e levantou-se, ajoelhou-se perante ela e apanhou-lhe a mão.
_Sou teu cavaleiro, milady, e a tua vontade é lei. Juro que cumprirei vossa missão sem falhar. –ele disse com clareza e carinho, e depois sorriu luminosamente para ela, que suspirou com lágrimas nos olhos, atingida mortalmente pela ternura dele. E Trowa beijou-lhe a mão delicadamente, e as lágrimas escorreram dos olhos dela enquanto sorria emocionada.
_Lembre-se de sua promessa, milorde. –comentou com voz trêmula um pouco afetada pelo choro, e ele enxugou-lhe as lágrimas, sorrindo com brandura, assentindo para assegurá-la. –Minha vida não será nada sem você. –e declarou intensamente, os olhos repletos de novas lágrimas, que desciam entre suspiros. Sempre fora sentimental, sentindo emoções transbordantes, e a despedida era sempre difícil para ela.
Trowa mantinha-se em silêncio e ficou de pé, olhando para ela o tempo inteiro com uma expressão bondosa na face, e como uma criancinha Catherine o fitava insegura. Ele não tinha muito que dizer para ela. Sabia que ela compreendia bem como ele levava a vida e como tinha de estar disposto a partir em qualquer busca ou missão que fosse digna. Trowa detestava estar longe dela e ter de deixá-la sozinha, mas não tinha escolha e não temia nada, porque sabia que ela iria cuidar de si mesma muito bem. Quando ele via as lágrimas dela sentia-se feliz, porque sabia através destas que existia uma pessoa que o prezava muito e que estava pronta para recebê-lo de volta, não importava o quê acontecesse. Era muito reconfortante para ele, tão hostilizado pela vida dura das batalhas.
_Mestre, já são horas de partir. –discretamente, veio um servo até a porta e anunciou, certo de que atrapalhara algo. E nem mesmo para responder o servo Trowa tirou os olhos de Catherine.
_Está certo. Leve Heavyarms para fora. –ele disse grave, e o servo mesurou com a cabeça recebendo as ordens e saiu.
E deixados sozinhos outra vez, Catherine se levantou, agora no momento do clímax. Era a hora da despedida final. Catherine suspirou e ofereceu seu melhor sorriso para o esposo, para ele não ter de levar apenas a lembrança da tristeza dela. Catherine tinha orgulho dele por tudo o que Trowa provara ser como pessoa e cavaleiro.
_Eu confio em você, Trowa, e sei que você e seus companheiros terão sucesso, porque são verdadeiros cavaleiros. –ela disse num doce sussurro e os olhos brilharam enquanto as palavras saíam, de tanta emoção que sentia ao falar. Levou uma mão ao peito e abaixou os olhos num ângulo romântico suspirando delicadamente. Tudo sobre Catherine era muito gracioso e Trowa estava completamente apaixonado por ela.
_Minha lealdade pertence a ti eternamente. –ele assegurou com uma voz aristocrática e segura, sorrindo, e quando ela lhe ergueu o olhar acetinado, Trowa beijou-lhe os lábios enquanto segurava suas mãos.
Depois, soltou-lhe as mãos com relutância, enquanto ela o encarava concentrada, e lhe sorriu dando as costas, indo apanhar sua aljava e o falcão.
Catherine o seguiu até a porta da tenda. Ainda era noite, um vento frio enchia os cabelos ruivos e cacheados dela enquanto seus olhos azul-lavanda pareciam docemente melancólicos. Ela sorria serena observando-o e quando Trowa montou Heavyarms, ela achegou-se do cavalo e murmurou:
_Eu estarei te esperando. –ela beijou a mão e transmitiu o beijo ao cavalo e assim Trowa partiu para encontrar os outros.
Catherine ficou parada do lado de fora por um longo tempo, olhando a volta, ouvindo o grande silêncio e sentindo o vento tocar sua face com aspereza. Ela era dona de uma grande paciência e devoção, e seu coração batia suavemente ao passo que passava seus primeiros minutos sozinha, à espera de seu cavaleiro.
_Está frio, ama… É melhor que entre e descanse. –a dama de companhia se aproximou com cautela, dizendo polidamente e Catherine voltou-se para ela com um sorriso e concordou.
Sorria confiantemente, sem conhecer motivo para temor. Sabia que não tinha a esperança má depositada. Em sua mente ainda ouvia as últimas palavras de Trowa: "minha lealdade pertence a ti eternamente".
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As horas caminharam mais lentas que o normal naquela noite. Parecia que nunca iam passar. Duo pensava que, se tivesse ido à taverna, o tempo teria corrido três vezes mais rápido, mas enquanto fazia as preparações para a missão, sentia ter todo o tempo do mundo, que se arrastava vagarosamente, deixando-o mais inquieto. Mas os servos não sentiam do mesmo modo. As horas passaram de um modo que eles não viram. Ficaram atarefados com os preparativos para a jornada, indo de um lado ao outro, certificando-se de que tudo estava ao gosto de seu senhor. E antes das três da manhã estava tudo pronto e impecável.
O escudeiro e os criados estavam com Deathscythe do lado de fora, na frente da entrada principal. O cavalo se mostrava fogoso, bufando e sacudindo a cabeça vigorosamente, coberto de placas negras com formatos sinistros, e os dois servos ajeitavam a bolsa do mestre em cima dele.
Por cima do dorso do animal o escudeiro viu que se aproximava um cavaleiro todo vestido de negro, como que pronto para uma batalha, a capa que completamente lhe cobria presa por debaixo das ombreiras e peitoral era como uma mortalha pesada e tenebrosa. Ele usava o capuz, e caminhava suavemente sem provocar ruído, ostentando um porte renomado e uma altura elegante.
Quando se aproximou, os servos o encararam abismados, fascinados por todo o mistério que o cavaleiro negro trazia consigo junto da neblina que o mistificava. Não podiam ver a face dentro da sombra do capuz embora percebessem que era desenhada por traços delicados e formosos. O cavaleiro parou diante de Deathscythe e lhe estendeu a mão enluvada, e o cavalo soltou um relincho amistoso e tocou a palma da mão do cavaleiro com o focinho, saudando-o afetuosamente, e os servos assistiam a cena cada vez mais impressionados. E quando perceberam que o cavaleiro negro lhes dirigia a atenção, esperaram por uma palavra, prendendo a respiração, incapacitados de qualquer ação por aquela presença. Mas o cavaleiro simplesmente os ignorou e dirigiu-se para o interior da tenda. E assim que entrou, o escudeiro e o servo ficaram conferenciando discretamente sobre quem seria tal imponente cavaleiro.
O cavaleiro negro encontrou Duo logo na tenda principal. Duo estava com os braços apoiados sobre uma mesa enquanto examinava um livro. Ele parecia muito concentrado e absorvido com a leitura, tendo uma expressão firme na face, e quando foi tocado no ombro se sobressaltou e olhou o lado alarmado, com as sobrancelhas curvadas num ângulo indicando irritação. Mas todo o sobressalto e desagrado se desmancharam quando seus olhos tocaram a imagem perante ele.
_Akane? –ele perguntou num sussurro, com um sorriso terno, embora já soubesse que era ela. Sorria de todo o coração para a figura assustadora, sem poder ver seu rosto oculto na sombra do interior do capuz.
Akane levou as mãos ao capuz e o fez ceder, exibindo um sorriso vibrante, e dirigindo-lhe um olhar que demonstrava um desejo interminável por ele. Por um instante, Duo admirou-a usando a armadura negra, e em seguida, suavemente manteve o olhar na face dela, notando os olhos contornados de antimônio e os lábios rosados que ele sabia serem tão doces, e sorriu, indagando impressionado:
_O que veio fazer aqui?
Akane olhou para a porta, preocupada com os criados que estavam lá fora, e Duo logo entendeu o incômodo dela. Assim, apanhou-lhe a mão e a conduziu para o interior, para um lugar mais reservado onde poderiam conversar mais tranquilamente.
_Eu vim me despedir… Este é meu dever como sua dama. –ela disse em baixa voz, fazendo com que ele abrisse um sorriso ainda mais impressionado.
_Mas é seu dever de cavaleiro voltar para mim. –ele comentou depois de muito tempo. Ambos sabiam que aquela era uma frase estranha e irônica e riram divertidos.
Por fim, Akane suspirou relaxada, olhando-o com um brilho carinhoso no olhar, e ele envolveu-lhe a cintura, mas por vestir sua armadura também, não lhe parecia a mesma coisa abraçá-la naquele momento.
_Eu lhe digo o mesmo, milorde… –e depois ela falou atrevidamente, com um sorriso instigante, olhando-o dentro dos olhos e ele sentia que ela podia ver toda a sua essência daquela maneira.
E devolvendo um olhar convencido para ela, beijou-lhe a boca com intensidade e ela enlaçou-lhe o pescoço. Partilharam um beijo longo e ardoroso, enquanto as armaduras raspavam-se e faziam pequenos ruídos ao chocarem-se levemente.
Depois, permaneceu olhando atentamente a face dela e assistiu-a desviar os olhos. Com um suspiro profundo, ela abriu um sorriso e permaneceu em silêncio.
_Você… virá conosco… não é? –perguntou para assegurar-se, e Akane disse de modo rouco:
_Sim. –foi tão concisa. Isto pegou Duo de surpresa e ele ficou apreensivo e deu um modo de apertá-la com mais força em seus braços.
_Qual é, gatinha? Parece que algo está preocupando você… –ele comentou suavemente, procurando ler nos olhos dela o que seria, mas ela mostrou seu sorriso instigante entreabrindo os lábios. Era tanto mistério envolvendo-a.
_Não… Você não entende. –ela apenas murmurou, olhando-o de maneira descontraída e terna, e assim, ele continuava sem compreender.
Havia um sentimento de estar vivenciando uma época sem amanhã e Akane sentia grandes mudanças aproximarem-se. Não sabia como seria recebida pelos demais cavaleiros, tinha algumas precauções para tomar e recebera algumas advertências de Howard a levar em conta. Não sabia qual seria a sorte que teriam naquela missão e mantinha a concentração e a firmeza para não ser pega de surpresa. Mas Duo não estava se preocupando com nada disto, não via motivos para isto, e por isso não percebia o porquê daquela frieza em Akane.
_Não há nada me preocupando. Eu apenas tinha este meu dever a cumprir… –ela disse querendo deixar claro que reconhecia seus deveres como uma dama.
E quando ouviu aquela frase simples e um pouco tímida de Akane, Duo de repente pensou na possibilidade, bem remota para ele, de que talvez nunca mais pudessem estar juntos outra vez, no pior dos casos. Era algo louco surgindo em sua mente, mas certamente possível. Ele meneou a cabeça olhando-a com sossego.
Akane estava ali como sua dama, embora não se trajasse como uma, e assim, Duo bem se lembrava de que ela era também um cavaleiro que lutaria com ele ombro a ombro, tão habilidosa como qualquer outro rapaz. Era sempre uma situação bem esquisita, embora ele já tivesse se acostumado.
_Nada vai nos separar. –ele disse como o faria para uma moça que ficaria aguardando seu regresso. –Estaremos juntos, para o que der e vier, e jamais precisaremos temer nada. –e depois falou como que a um companheiro de ordem, sabendo que estariam juntos em todas as facetas de suas vidas, que inevitavelmente incluíam as batalhas.
As palavras dele agradaram-na duplamente e seus olhos acenderam-se contentados. Na véspera de uma missão arriscada como a deles sempre existia tanta insegurança, e nada como sentir-se imersa em palavras doces e confortantes como aquelas.
_Sim, é deste jeito que eu gosto de te ver… –e disse com o timbre da voz malandro, convencido, e beijou-a outra vez, desta vez com delicadeza e suavidade.
Akane amava o modo com que ele podia ser extraordinariamente romântico e gentil, oferecendo um afeto tão puro e sincero, embora normalmente nunca demonstrasse possuir este traço de personalidade. Estava sempre reservando tais traços para ela.
Quando ele se afastou dela, tocou-lhe o rosto e ela entrecerrou os olhos sedutoramente:
_Tenho de ir. –e murmurou quase inaudível. E de repente, Duo não queria que ela fosse. Ela sentiu o mesmo e desejou poder retirar suas palavras. Mas já devia ser quase a hora da partida. A espera tinha terminado enfim, agora era hora de agir e deixar certas coisas em segundo plano.
Ele alisou-lhe o rosto e depois retirou a mão deste e sorriu melancólico:
_Nos vemos daqui a pouco.
Ela assentiu militarmente e ergueu o capuz reassumindo um mistério magnético, deixando Duo sozinho parado no meio do aposento. Demorou para ele reagir e um pouco depois foi até a porta e ficou assistindo-a distanciar em direção de sua tenda.
_O que houve mestre?–disse o escudeiro, sem ter entendido as palavras dele, pois estava distraído novamente observando o cavaleiro negro se afastar.
_Nada. –Duo replicou com firmeza, desencoranjando questionamentos supérfluos e perigosos, ainda olhando para frente, sentindo a umidade do nevoeiro tocando-lhe as capas.
_Aquele não era o afamado Sir Arcus de Estherallis, patrão? –o escudeiro então indagou.
Duo o olhou e fez que sim com a cabeça, e voltou a olhar para frente.
_Aquele homem é muito intrigante, senhor…
_De fato. Sir Arcus não é o que aparenta ser… –Duo comentou maliciosamente e o escudeiro o ficou encarando sem nada compreender, com a curiosidade incitada pela frase do mestre. –Está tudo pronto? –e perguntou então, e viu o escudeiro assentir em resposta prontamente. –Ótimo. Chega de papo, é hora de partir. –e foi montar Deathscythe que o estava esperando ali fora, e o cavalo fitava o dono absorvente, mexendo a cabeça, frenético. Parecia ansioso pela jornada e pelas batalhas que sentia esperar a todos eles.
Duo acomodou ao seu gosto seus pertences que estavam sobre o cavalo, e depois de subir em Deathscythe ainda ficou procurando avistar Akane se afastando, mas percebeu que ela já tinha desaparecido na neblina.
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Heero sentiu um grande vazio interior, como se tivesse perdido algo importante há um tempo muito distante no passado e só agora se desse conta e uma amargura dolorida lhe subiu ao coração. Ele se sentiu de repente tão sozinho quando ela deixou sua tenda como se fosse um espírito. Ela era mesmo como um fantasma: vinha assombrar-lhe com palavras estranhas que o feriam e depois o abandonava mais perdido do que antes, deixando a lembrança de um sorriso. A única coisa diferente desta vez foi, que além do sorriso, ela deixou uma porção de esperança com ele, fato inédito e ainda mais atormentador. Mas ele não sentiu exatamente falta da companhia de Akane, foi uma solidão nova e pesada que de súbito o acometeu pouco tempo depois, derrubando-o.
Todas as palavras de Akane estavam em sua mente, e ele suspirou e se jogou na cama, os olhos luzindo em fúria. Era contra ele mesmo e contra a sua situação aquela fúria. Uma batalha árdua tomou lugar naquela tenda, foram duas horas de excruciante conflito o que Heero sofreu, inquieto, indo de um lado a outro até que se convenceu. Era por Relena que estava assim.
O primeiro pensamento que lhe veio depois desta conclusão foi de que era um fraco. Depois, condenou-se por ter deixado a missão para perseguir fúteis desejos pessoais. Ficou se autoflagelando, pensando possuir todas as fraquezas, sentindo ter se traído, acreditando que falhara. Era um golpe grande que lhe sobreviera, a queda tinha sido dura e erguer-se outra vez foi uma tarefa difícil. E depois de muito tempo percebeu o que estava fazendo consigo mesmo. Akane já o tinha alertado. Mas ele era sempre um ouvinte teimoso que demorava em tomar a peito o que lhe admoestavam. Estava sendo tão tolo ao temer suas próprias virtudes. Não havia nada de errado nele. E assim compreendera porque Zechs confiara nele especialmente para proteger Relena.
Fazia parte da missão dele zelar pela paz, lutar por ela e morrer, se fosse necessário. No centro de toda esta árdua busca pela paz que ele travava estava Relena. Depois de tanto percorrer, depois de tanto devastar, depois de tanto se entorpecer, Heero finalmente encontrara a peça mais importante da missão cavalheiresca, sua incumbência. Fora o imprevisto apenas que colocara os dois numa posição um pouco diferente da imaginada, sem querer acabaram enlaçados num sentimento profundo e inescapável.
Relena surgiu como um anjo, um que ele desprezara e hostilizara, mas que nunca desistiu dele. Em uma certa medida, ela compreendeu o que acontecia com ele desde o início, e o respeitava e suportava, sem desistir de toda a gentileza que queria lhe oferecer. Ela nunca escondeu sua afeição, ele sempre a pôde sentir, e a nobreza do coração dela raiava como uma luz perpétua que o tocava. Vazava sempre através dos sorrisos gloriosos que o queimavam. Nada nunca tinha atingido-o daquela forma e o feito despertar para sentimentos como aqueles.
Havia um grande conflito de interesses dentro dele. Era difícil negar sentir o que realmente sentia. Ele nunca esquecia aquilo que queria esquecer, ao contrário, isto sempre fica oprimindo-o o tempo todo. Por isso sentia tanta raiva. Heero era um conflito constante, digladiando-se contra ele próprio, e isto pode parecer tolo e confuso, pode parecer ser uma fraqueza, mas a vida dele contava uma história triste para justificar esta suposta infantilidade. A rispidez, as emoções enrustidas, a solidão, tudo era produto de um trauma imenso que se apoderou dele e de um treinamento hostil que fez dele o cavaleiro perfeito, o soldado mais eficiente.
Quando houve o incêndio que destruiu o castelo de sua família, causado por inimigos fomentadores de guerras, ele ficou órfão e perdeu o total interesse pela vida. Tinha apenas seis anos e era o único herdeiro de uma fortuna considerável. Foi acolhido por Doutor J, escolhido para tornar-se um cavaleiro, iniciando seu treinamento na infância. Heero foi privado de um coração, já que alguns mentores dele criam que este era desnecessário para um homem de armas. Tiraram dele o respeito pela própria vida, a necessidade por um objetivo maior além da missão, ele não tinha nada mais sublime que tal designação para viver ou morrer. Tal missão era o resumo de sua vida, começo, meio e fim. Heero nunca foi de fazer perguntas e expressar seus sentimentos e foi algo que ele desaprendeu ao longo do tempo, e assim, sempre aceitou seu treinamento com a frieza e certeza de que não havia mais nada. Mesmo assim, sem que ele percebesse, os questionamentos interiores foram combustíveis para uma chama intrigante que o incendiou toda a vida.
Depois de tanta reflexão e angústia amarga, Heero sentou-se na cama e suspirou, respirando devagar. Sentia que uma velha batalha tinha então chegado ao fim. Não tinha certeza de que a tinha vencido, mas isto não lhe importava, era algo a ser descoberto mais tarde, pois percebera que aquela se mostrava uma batalha onde a vitória era relativa – talvez fosse muito melhor perdê-la de fato. Heero então ouvia com clareza o uivo de lobos lá fora, canções melodiosas e atemorizantes de dor e suavidade contíguas. Era um som extremamente apaziguante para ele, cantavam sua dor latente, e fechando os olhos, ele respirava fundo, por fim concentrando-se em sua missão.
Era hora de pensar em seu objetivo para melhor cumpri-lo. Não teria tempo para si mesmo, se negligenciaria mesmo depois de chegar a tantas conclusões. Sua missão ainda era mais importante e não ia desistir, e seus olhos frios tinham firmeza em fitar cegamente à frente, expressando esta determinação sem igual. O fruto de toda a reflexão que fez naquelas poucas horas da madrugada, em vez de desfazê-lo da blindagem de indiferença, a fez mais rija e espessa do que antes. Heero estava preparado como nunca para qualquer desafio. Nunca a alma dele foi tão escura, nunca houve tanta ameaça e força naqueles olhos. A sanha do lobo abrilhantava seu sorriso com uma crueldade intensa, e tudo isto havia de extravasar em face de seu inimigo, impetuosamente.
Heero ergueu-se da cama e trocou de trajes, pronto para vestir a armadura de viagem prateada que recebera quando declarado pronto para ser um cavaleiro e ir defender e cumprir sua missão. Era uma herança agridoce de seu tutor, mas lhe era útil e seu principal instrumento, frequentemente a encarava como sua única posse além de Wing.
Todo coberto pelas placas de sua panóplia, Heero, arrumou a capa que pendia das ombreiras, parado no meio da tenda. Apanhou seus pertences para a viagem a serem colocados em Wing, jogou a mochila no ombro e apanhou seu capacete de viagem. Antes de deixar a tenda, fechou a entrada, esperando não mais precisar voltar naquele dia e não sabia muito bem quando estaria de volta. Fez o curto trajeto até a cavalariça sem pressa, ao entrar viu uma porção de baias vazias e logo concluiu que todos os outros cavalos "Formidáveis" já haviam sido retirados dali. Wing o olhou comprido desde a porta. Estava começando a pensar que Heero não ia vir buscá-lo e olhou repreensivamente para o dono quando ele se achegou.
Heero já tinha arrumado-o completamente para a viagem naquela tarde, antes mesmo de ser convidado para a reunião. Wing exibia a blindagem luzidia e prateada, como a de seu mestre, e seus olhos profundos brotavam de dentro da máscara de metal, diante de Heero ele exibia um temperamento seguro, além de uma infindável tranquilidade. Wing não tinha dúvidas de quem seria o vencedor.
Heero entrou na baia e arrumou a mochila próxima da sela e ajeitou o capacete prendendo-o também sobre a sela. Wing ficava com a cabeça pensa enquanto isso, quieto e silencioso, uma vez ou outra batia com o rabo comprido em Heero, que o olhava de soslaio e mantinha-se calado.
Quando tudo ficou pronto, Heero bateu no pescoço de Wing e puxou-o para fora pela brida. Ainda faltava uma hora para a partida, e Heero levou o cavalo consigo até o litoral, sentando-se sobre a colina que separava a praia do gramado. Lá, bem na frente, o mar ficava rugindo em vagas que se avolumavam até morrer na praia e recuar, pareciam dançar e mesurar diante da areia, numa quadrilha constante que durava noite e dia. Heero suspirou e Wing bateu com o focinho na cabeça dele relinchando depois, e Heero apenas olhou seu corcel, abrindo um meio sorriso incomodado. Wing relinchou outra vez, sem motivo aparente, e se afastou, balançando o rabo calmamente. Aquele era um animal excepcional, que interagia com o dono como poucos faziam, e parecia sentir toda perturbação interna de seu mestre. O rapaz apenas ficou observando Wing afastar-se sobre ombro, e riu discretamente, contagiado pela tranquilidade deste.
Ficou ali por mais de meia hora, matando o tempo, os pensamentos todos em branco, o espírito muito concentrado e a expressão do rosto circunspeta. Não havia expectativa ou ansiedade ou tensão fazendo o pulsar do coração oscilante, nada parecia poder incomodá-lo. Até sua aparência era de quem estava alheio do mundo, os olhos parados no oceano em sua frente com as ondas se abandonando na areia e a brisa batendo nele, fazendo a capa agitar-se levemente. Tudo estava muito escuro, mais do que costumava ser durante a noite, as estrelas no firmamento pareciam brocados de prata sobre veludo negro de tão numerosas. Era uma noite calma que parecia preceder uma manhã gloriosa e prometer bom sucesso aos cavaleiros e sua empresa.
Quando foi atrás de Wing, o encontrou parado no meio de um gramado, distraído, olhando a volta e procurando algo interessante no chão. Quando viu Heero se aproximar, levantou o focinho e os olhos suaves encararam-no com prontidão. Soube então que chegara a hora. Heero montou nele e fazendo-o marchar, encaminharam-se pomposamente para a entrada do acampamento. Faltavam vinte minutos para as quatro horas da manhã.
Parado, do lado de fora dos portões do acampamento, Heero olhou a volta e suspirou antes de vestir o capacete, e erguendo o visor, ficou esperando, em silêncio, os olhos gélidos e luminosos surgindo de dentro do elmo, fitando a frente, o caminho a ser seguido. Parecia tão incorruptível postado ali, como se fosse um monumento levantado a honra de um grande herói. Havia algo de muito marcante na presença dele, como se algo o anunciasse, parecia sempre cercado de um fulgor de honra que indicava a presença de um cavaleiro genuíno. Deste modo, quem olhasse de longe e os visse não poderia deixar de sentir-se deslumbrado, e logo ouvindo o sussurro da presença honrosa do rapaz, haveria de declarar, com solene respeito, que lá se achava um valoroso cavaleiro e seu corcel. Postado ali, com a brisa suavemente movendo um pouco a capa e as vestes do corcel, um halo de força e bravura raiava a volta dele e do cavalo, a força da imagem era comovente.
Heero apenas se perguntava se esta fama valia o esforço e se o fulgor que o cercava o guiaria para algum lugar e se o testemunho de sua honra faria dele uma pessoa melhor. Com um suspiro pesado contido pelo capacete, ele mantinha sempre os olhos firmes a frente, usando de uma paciência que aprendera ter recentemente, com as últimas situações que vinha atravessando.
Era o fim das preparações e o começo da luta.
Eu li a review da Midori-chan e me deu um aperto no peito: precisava postar! Volto essa semana ainda com outro capítulo, prometo!
Esse capítulo é longo, um tanto cansativo, e eu gostava dele bem mais quando escrevi, milhões de anos atrás.
O que acharam? Me deixem reviews!
Obrigada pela paciência, pelo tempo e pelo carinho!
Até logo!
16.07.2017
