XXVIII

Ele lembrava-se vagamente do último quarto de hora antes de seu corpo desabar sobre a macia cama do quarto de hóspedes. Mario sabia que havia se despedido de Ivan e observado o amigo seguir na direção de sua própria casa ao lado de Alaudi. A verdade escondida no porão de sua cozinha deveria ter permanecido perdida entre as aranhas e o pó, porém, como tudo na vida as coisas raramente saiam como esperado. Ele só conseguia imaginar como o amigo estaria se sentindo, o medo de trazer à tona um fantasma do passado que sequer merecia ser lembrado.

Os empregados perambulavam de um lado para o outro dentro da mansão devido à arrumação. Aquela cena acontecia todos os anos e o ruivo sabia que poderia confiar no trabalho daquelas pessoas. Suas pernas o arrastaram até o segundo andar e foi entre bocejos cansados que ele entrou no quarto que sempre ocupava quando dormia naquela casa. Os sapatos foram retirados pelo caminho, assim como a maioria das peças de roupa. Mario caiu sobre a cama com barulho, puxando os cobertores de modo desajeitado e sem saber ao certo quando foi que o sono realmente chegou. Em um segundo ele encarava a janela, ponderando se deveria se levantar para abaixar as cortinas, no segundo seguinte era manhã.

A claridade o despertou e foi com um cobertor nas costas que ele seguiu até a porta ao lado da cama e que levava ao banheiro. O banho foi demorado, com eventuais cochilos na banheira. Já havia uma troca de roupas no armário e Mario deixou o quarto completamente revigorado. Seus passos não ecoavam pelo corredor devido ao tapete que forrava todo o segundo andar. Ao virar à esquerda, que levava ao corredor principal e onde estavam os quartos de Ivan e dos herdeiros, a figura que deixava um dos cômodos não o surpreendeu. Giuseppe saia do quarto que pertencia a Francesco e os dois irmãos se encararam antes de descerem juntos.

"Bom dia." O ruivo tentou soar natural, mas viu pelo canto do olho o louro corar.

"Bom dia," Giuseppe se conservou calado até chegarem ao hall. "Você não vai tomar café?"

"Não. Eu pegarei alguma coisa na cozinha e depois irei para Roma."

"Mande um abraço para Giulio."

Mario despediu-se do irmão ainda no hall e cada um seguiu uma direção diferente. Sua passada na cozinha foi breve e uma das empregadas entregou-lhe um lanche feito com queijo fresco e tomates, que ele comeu enquanto caminhava até o estacionamento. Não chovia naquela manhã, mas a fina neve que caia tornaria o dia gelado em algumas horas. Seu carro precisou de alguns minutos para decidir funcionar e no momento em que cruzou o portão principal o veículo estava aquecido e ele cantarolava baixo. Seu humor estava excelente e saber que passaria os próximos dias com o amante o fazia sorrir.

Roma estava coberta por uma camada de neve quando o Braço Direito deixou a estrada. Havia poucas pessoas na rua e ele chegou ao seu destino muito mais rápido do que esperava. A chave girou na fechadura e o primeiro andar estava frio, denunciando que talvez o dono da casa ainda dormisse. Mario seguiu para o andar de cima, onde a temperatura era bem diferente. Ao contrário de suas suspeitas, Giulio já estava acordado e terminava de arrumar a cama.

"Bom dia," o moreno colocou o último cobertor dobrado sobre a cama, "eu ouvi o barulho do carro."

"Bom dia." O ruivo aproximou-se da lareira e esticou as mãos. As pontas de seus dedos estavam doloridas devido ao frio.

"Como foi a Festa?" a voz veio de seu ouvido direito e os braços que ele tanto ansiou finalmente o envolveram.

"Cansativa." Mario suspirou. "E o trabalho?"

"Nada aconteceu. Passei a noite cochilando em minha sala e bebendo chocolate quente."

"Você dormiu?"

"Sim, voltei no meio da madrugada."

Os lábios tocaram sua bochecha e tudo o que ele precisou foi inclinar um pouco o rosto para receber um longo e profundo beijo. O Braço Direito entendeu perfeitamente aquele mudo convite e seu corpo virou-se, envolvendo-o pelo pescoço e retribuindo a carícia com a mesma intensidade. As mãos desceram por suas costas, segurando seu quadril e mantendo os corpos juntos. Quando o beijo terminou, os lábios continuaram próximos e foi impossível não sorrir. Nós ficamos separados por quase uma semana. Faz tempo que não temos algumas horas de intimidade. Ele deve estar tão impaciente quanto eu.

"Quer tomar café da manhã primeiro?"

"Não."

A resposta o fez rir e Mario o puxou pela mão até o outro lado do quarto. Os sapatos ficaram no começo do tapete e seu corpo subiu sobre a cama, achando que aquela arrumação havia sido desnecessária. O sobretudo foi retirado e deixado sobre o baú de madeira que ficava rente à cama, no entanto, ao tocar o colete negro as mãos de Giulio pousaram sobre as suas.

"Tirar suas roupas é meu trabalho."

"Então o que eu farei?" Ele deitou-se e fez sinal para que o amante começasse a trabalhar.

O Vice-Inspetor riu e o ruivo viu seu colete ser retirado sem o menor esforço. Os dedos mal tocavam os botões, que foram abertos e deixaram à mostra a camisa branca. A peça não foi retirada de imediato e, ao invés disso, ele recebeu outro beijo que o fez relaxar. Suas mãos abriram a parte de cima do pijama do moreno e a peça desceu pelos largos ombros. Mario suspirou ao vê-lo ajoelhar-se sobre ele enquanto retirava a peça. Os olhos verdes fitavam o peitoral e ele decidia por onde deveria começar.

Giulio inclinou-se novamente e o beijo aconteceu na metade do caminho. A ideia de deixar-se despir soava erótica, mas ele estava excitado demais para se perder em preliminares. Seus dedos passeavam pelas largas costas, sentindo a pele firme e que cheirava a banho tomado. Uma pena. Eu gosto do cheiro dele quando volta do trabalho. Sua imaginação se recordou de todas as vezes que o moreno o envolveu na sala de estar ao deixar a sede de polícia e o pensamento fez seu membro tremer.

As peças foram retiradas por mãos apressadas. Quando a roupa de baixo finalmente deslizou por suas pernas o Braço Direito suspirou. A grande mão do amante segurou sua ereção, masturbando-a com movimentos pesados e precisando de meros segundos para domá-lo completamente. A voz sussurrada que pediu que ele se virasse foi suficiente para arrepiar os pelos de seu corpo. Mario antecipava o que aconteceria e a expectativa era excitante.

Os lábios tocaram sua nuca e desceram pelos ombros. Os beijos eram seguidos por mãos possessivas e que apalpavam seu corpo sem pudor. A língua deslizava por suas costas formando um indecente caminho até atingir sua entrada. Ali a demora foi proposital e o ruivo gemeu ao senti-la penetrá-lo, devorando-o com fome. Em determinado momento a língua deu lugar a dois dedos, que o invadiram algumas vezes até a resistência tornar os movimentos difíceis. Mesmo com o rosto afundado na roupa de cama ele ouviu o barulho de uma das gavetas sendo aberta e deduziu que a diversão estava apenas começando.

A ereção o penetrou em um único movimento. Na teoria, aquela preparação jamais seria suficiente, mas Giulio o conhecia bem e para Mario não seria preciso longos minutos gastos em preliminares ou preparações. Ele gostava da dor inicial, a sensação de que seu corpo recebia algo que não estava preparado. No começo, o moreno reclamava ao afirmar que sexo já impunha certo nível de estresse ao corpo e não seria necessário tornar tudo mais difícil. Claro que aquele era apenas um discurso preocupado, pois a verdade era que ele sabia que não era o único a apreciar. Sua entrada ficava extremamente apertada quando o Vice-Inspetor a invadia, o que certamente era delirante para quem estava na sua posição.

Seu quadril ergueu-se e as mãos o seguraram firmes. O amante não demonstrava hesitação, movendo-se em um ritmo rápido logo nos primeiros segundos. Os sons dos corpos se chocando era quase tão indecente quando os gemidos que ecoavam. O ruivo apertava a roupa de cama, aproveitando aquele momento. Eu ficarei aqui pelos próximos dias... Seus lábios formaram um largo sorriso e o prospecto de ser devorado dezena de vezes durante esse tempo era embriagante.

O orgasmo de Giulio aconteceu primeiro, invadindo-o fundo. Os movimentos não cessaram e Mario se recusava a se masturbar. Não havia nada melhor durante o sexo do que um clímax que dependesse unicamente da ereção invadindo-o sem resguardo. Seu desejo foi atendido alguns minutos depois e a incrível sensação que percorreu todo o seu corpo jamais poderia ser descrita em palavras.

O Braço Direito se virou e quase de imediato o moreno estava sobre ele. As peles estavam úmidas com suor, contudo, os sorrisos eram iguais. O beijo teve menos romantismo e mais erotismo, e só foi interrompido porque seria impossível se concentrar naquela tarefa enquanto sentia os dedos invadindo sua entrada.

"Por quanto tempo você ficará aqui?" A voz baixa se misturava com os sons molhados dos dedos.

"Q... Quatro... dias." Ele juntou as sobrancelhas e arqueou a nuca para trás quando os movimentos se tornaram mais rápidos. Seu corpo estava incrivelmente sensível.

"Não posso prometer sobre amanhã, porque talvez tenha que ir algumas horas à sede de polícia, mas hoje eu não vou deixar você sair dessa cama."

Mario não conseguiu responder. Todos os seus sentidos estavam ocupados aproveitando a sensação que os dedos lhe proporcionavam. Ele conseguiu assentir com a cabeça minimamente e aquele foi o instante em que ouviu o som do sorriso, que coincidiu com o fim do estímulo. Os olhos verdes se abriram e ele pensou em reclamar por aquela pausa, mas percebeu que não seria necessário. Suas pernas foram afastadas sem gentilezas e o amante o invadiu mais uma vez.

O ruivo amava aquelas ameaças. Ele tinha certeza de que só desceriam depois de horas de muito amor.

x

A página foi virada e o som da folha pareceu ecoar muito mais alto naquele silencioso cômodo. O barulho do grande relógio de parede que ficava no fim do corredor era ouvido daquela distância e os olhos verdes se ergueram do livro, passando devagar pelo entorno e parando na janela do outro lado da sala. Havia uma cortina creme que chegava a encostar ao chão e omitia a visão que dava para a rua. Ele está demorando. A vontade de levantar-se e espreitar pela janela foi grande, mas Mario estava tão confortável deitado no sofá que a ideia foi rapidamente afastada.

A manta que estava sobre seu corpo era marrom e extremamente aconchegante. Giulio havia comprado dois jogos de cama do mesmo tecido. O ruivo ganhou um para usar em sua casa e suas noites passaram a ser mais aquecidas. Entretanto, nada se comparava a enrolar-se nos cobertores do amante, sentindo seu cheiro e lembrando-se dos momentos compartilhados juntos. Naquele começo de tarde, em particular, ele estava preguiçoso, deitado no sofá da sala somente com seu pijama. Havia uma almofada em sua nuca e um livro em suas mãos. Aqueles momentos de total desprendimento e relaxamento eram tão raros que ele havia decidido aproveitar cada segundo.

O som do relógio chamou novamente sua atenção e o Braço Direito percebeu que havia perdido o interesse na leitura. O livro foi pousado sobre o tapete e ele enrolou-se melhor na manta escondendo parte do rosto e sentindo o cheiro do moreno. Suas bochechas coraram e todas as lembranças daqueles últimos dias retornaram. E, como mágica, Mario sentiu como se flutuasse.

Não houve trabalho, reuniões ou relatórios. Ele não deixara aquela casa desde a manhã seguinte à Festa e aquela pequena pausa em sua vida atarefada e conturbada fora muito bem-vinda. Suas responsabilidades haviam ficado na mansão e aquele deitado no sofá era apenas um homem comum, que não desejava nada além de ter a pessoa que amava o quanto antes em casa para que pudessem continuar o que vinham fazendo pelos últimos dias.

Nos primeiros dias do ano o Vice-Inspetor não trabalha durante o dia inteiro. Seu turno consistia em algumas poucas horas durante a manhã. Alaudi ficava com o turno da tarde, seguindo para a mansão a tempo de jantar com Ivan e os herdeiros. Para Mario, tê-lo por quase um dia era fantástico e não precisaria pensar muito para deduzir o que eles fizeram durante os dias juntos.

O ruivo não poderia dizer que não deixaram o quarto, visto que Giulio era possessivo e incrivelmente imaginativo quando queria. O gigantesco quarto ainda era o local favorito, mas eles haviam provado o tapete da sala, a mesa de jantar, o pequeno banheiro do primeiro andar, a cozinha e o corredor de entrada. Aquela era a primeira vez que ele estava completamente vestido e as lembranças de tudo o que fizeram o fez suspirar. Giulio, volte logo.

O amante havia deixado a casa há quase uma hora para comprar o almoço, já que ambos passaram muito tempo ocupados no banho e perderam a chance de prepararem a refeição. Mario arrastou-se até a sala de estar, enrolado na manta e ajeitando-se no sofá na espera do almoço atrasado. Todavia, para quem havia dito que iria até a esquina Giulio estava demorando demais.

O Braço Direito segurou a manta e refez o trajeto até o quarto. Sua troca de roupas estava sobre a cama e foi com preguiça que ele se vestiu, tendo certeza de que se morassem juntos ele passaria o dia de pijamas. O pensamento ocorreu enquanto os cabelos vermelhos eram penteados. Seus olhos fitaram seu reflexo no espelho e o ruivo se surpreendeu por sequer cogitar aquilo. O antigo eu jamais se deixaria ser visto de modo desleixado. Uma alta risada ecoou pelo banheiro e ele descia as escadas quando escutou o som de um carro sendo estacionado em frente à casa.

Mario abriu a porta no exato momento em que Giulio planejava fazer o mesmo. O amante estava salpicado por neve e a ponta de seu nariz estava vermelha. Em suas mãos havia dois pacotes grandes de papel, o que significava que o almoço seria farto.

"Em qual esquina você foi comprar comida?"

Ele deu espaço para que o dono da casa entrasse e teria fechado a porta se não houvesse mais alguém na soleira, trazendo um terceiro pacote. O Braço Direito ocupou todo o espaço da porta e ergueu uma sobrancelha. Ele não queria acreditar que em seu dia de folga precisaria lidar com aquela pessoa.

"Saia da frente."

"Não. O que você quer aqui?"

Alaudi não respondeu.

"Mario..."

Ao fundo, Giulio o chamou com uma entonação diferente e o ruivo apertou os olhos, dando meia-volta e deixando a porta aberta. O Inspetor entrou, os cabelos mais escuros devido à umidade e ainda mais pálido do que o normal. Os pacotes de papel foram deixados na cozinha e Mario sentiu quando o moreno se aproximou e murmurou um baixo "Por favor". Minha folga perfeita oficialmente terminou!

Alaudi aparentemente ficaria para o almoço e foi muito difícil para Mario manter a cordialidade. A ideia de que por muito pouco o louro não o encontrou de pijamas e jogado no sofá o deixava aterrorizado, porém, não tanto quanto tentar entender por qual motivo aquela pessoa estava ali ao invés de estar no trabalho. Ele não havia ouvido sobre nenhuma briga, pois sabia que se houvessem discutido Ivan já o teria sido chamado para beberem vinho enquanto reclamavam da vida. Alaudi estava sério, como sempre, mas não havia irritação ou nada que o fizesse pensar em um desentendimento. Isso é estranho...

Giulio começou a arrumar a mesa e mesmo a contragosto Mario fez sua parte. Com três pessoas tudo foi ajeitado mais rápido e nem a deliciosa lasanha ao centro e a carne assada ao lado foram suficientes para fazê-lo esquecer de que à sua frente estava alguém que pelos últimos dez anos nunca escondeu sua aversão por ele.

"O que você faz aqui?"

O moreno havia se preparado para abrir a garrafa de vinho quando a pergunta pairou no ar. Seus olhos foram do Braço Direito para o amigo seguido por um suspiro. Seus lábios se entreabriram, mas o Inspetor tomou a voz.

"Eu preciso conversar com você."

"Comigo? Eu não tenho nada a falar com você."

"Sim, tem." Alaudi desviou os olhos e suas sobrancelhas tremeram.

"Mario..." Novamente, a voz de Giulio soou baixa e compreensiva.

"Não, eu quero saber o motivo." Seus olhos estavam em chamas. "Você me deixou esperando aqui sozinho e quando retorna traz... essa pessoa!"

O amante sorriu nervoso, no entanto, nada pareceu abalar o louro, que começou a se servir como se nada estivesse acontecendo. Aquela atitude era tão esperada e tão... Alaudi, que o ruivo pensou em mil coisas para dizer, mas tudo o que conseguiu foi suspirar. Ele gostaria de passar aquele tempo sozinho com seu amante, contudo, aquele plano havia sido frustrado e em seu íntimo só havia a esperança de que aquela visita fosse breve. Não existe a menor chance de ele ficar aqui, certo?

O pensamento o abalou por metade da refeição. Mario pensou várias vezes em perguntar se Alaudi pretendia ir embora depois que conversassem, entretanto, receava ouvir a resposta. A lasanha parecia deliciosa, mas ele não conseguiu saboreá-la como deveria e como sempre acontecia sua melhor amiga foi sua taça de vinho, que afastou aos poucos o nervosismo inicial. Em todos aqueles anos de convívio forçado o Braço Direito poderia contar nos dedos as vezes em que eles ficaram sozinhos em um mesmo local. Quando isso aconteceu o silêncio foi a única opção, o que tornava aquela suposta conversa ainda mais suspeita.

A comida desapareceu das travessas rapidamente, o esperado de três homens adultos e que adoravam aquele restaurante em particular. O Vice-Inspetor disse que retiraria a mesa e prepararia um rápido café, pedindo que os dois fossem para a sala de estar. Alaudi levantou-se primeiro, caminhando como se fosse o dono da casa e sentando-se no seu lugar favorito do sofá.

"Por quanto tempo você vai me fazer esperar?" O louro virou o rosto em sua direção e pareceu entediado. "Eu tenho que trabalhar."

A veia na testa de Mario tremeu e ele pegou a garrafa e sua taça, decidido a ignorar o café. Não existia a mínima possibilidade daquela conversa acontecer enquanto ele estivesse sóbrio e consciente da vontade que sentia de esbofetear aquela pessoa. O ruivo sentou-se do outro lado do sofá, separado por dois assentos vazios.

"O que você quer?" Ele foi direto.

Alaudi mexia no botão que estava no punho de sua camisa branca. A resposta não veio imediatamente e por um instante Mario achou que ele estivesse escolhendo as palavras. Os sons de Giulio perambulando na cozinha eram audíveis e o deixava mais ciente de que estavam sozinhos na sala.

"Eu quero que me conte sobre Caesar."

As sobrancelhas que já estavam juntas pareciam agora cravadas permanentemente em sua testa. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram e ele apertou o maxilar sem perceber. Aquelas reações sempre aconteciam ao ouvir aquele nome, ainda que nos últimos anos ele não houvesse sido mencionado. Eu já deveria saber que isso aconteceria. A curiosidade sobre o motivo daquela conversa desapareceu e o Braço Direito encheu sua taça sabendo que seria impossível falar sem ajuda.

"Então Ivan lhe contou."

"O que ele quis me contar," o Inspetor ergueu os olhos. Ele estava totalmente sério. "Eu quero saber o que ele não quis me contar."

"E por que você acha que eu lhe diria qualquer coisa?" Mario mexeu a taça e encarou o líquido dançando de um lado para o outro.

O louro não respondeu, mas manteve o olhar em sua direção.

"Giulio, não foi isso que combinamos." Alaudi olhou um pouco acima e o moreno entrou na sala trazendo duas xícaras de café. "Você me disse que ele falaria facilmente."

"O quê?" Mario olhou de um para o outro. O amante sentou-se em sua habitual poltrona e próximo de Alaudi. "Vocês tramaram tudo isso?"

"Sim." O Inspetor respondeu sem cerimônias.

"N-Não..." Giulio tentava se explicar, mas acabava se enrolando. "Alaudi disse que gostaria de falar com você e eu mencionei que ele conseguiria algumas respostas."

"Que respostas? O que vocês dois conversaram longe de mim?"

"Giulio, você não precisa responder a isso." Alaudi bebericou seu café. "O que você precisa saber é que Ivan apenas disse que tem um irmão e que aparentemente o homem é insano. Eu não sei nada além disso."

"Talvez não tenha nada mais para saber." Mario sentiu o rosto se tornar vermelho. A ideia daqueles dois conversando sozinhos e às escondidas o aborrecia demasiadamente.

"Mario, não me faça perder tempo." O louro pousou a xícara na mesinha e seus olhos se tornaram sérios mais uma vez. "Eu não estou aqui porque quero. Eu preciso saber tudo o que puder para proteger meus filhos. Se você tiver qualquer informação que possa me ajudar a protegê-los eu ouvirei pacientemente o que você tem a dizer, embora isso me custe mais do que possa imaginar."

Os rostos de Francesco e Catarina apareceram em sua mente e ele engoliu seco. O ruivo sabia que teria de aceitar aquela mútua trégua. Eu soube disso no instante em que Ivan disse que contaria a verdade a Alaudi. Anos de lembranças ruins e que haviam sido guardadas e esquecidas em seu coração retornaram, e somente seu amigo entendia o que significava tocar naquela memória. Aquele assunto nunca mais deveria ter sido mencionado, permanecendo no passado onde merecia estar.

Foi em uma manhã que o Chefe dos Cavallone lhe disse que contaria a verdade para Alaudi.

Mario havia chegado à mansão bem cedo e ouviu dos empregados que Ivan estava na biblioteca desde o meio da noite. Ele sabia que o Inspetor estava na casa, já que vira seu carro no estacionamento, então deduziu que haviam brigado. Ao entrar na biblioteca, ele encontrou o amigo deitado no sofá, enrolado em um cobertor provavelmente trazido por um dos empregados. Ao chão havia duas garrafas de vinho vazias. Mario suspirou, acordando-o com toda gentileza que ele não tinha e pronto para um longo discurso.

"Mario," Ivan sentou-se no sofá completamente despenteado. Sua voz soou rouca e sua aparência estava péssima, "eu vou contar a Alaudi sobre Caesar."

Aquelas poucas palavras o atingiram como um soco no meio da face e a sensação foi como se alguém houvesse aberto seu peito e selecionado cuidadosamente aquela lembrança em especial, puxando-a de uma vez e deixando-a exposta. A pior parte de sua infância retornou, trazendo o medo e violência de dias que passaram e felizmente não retornariam mais. A única coisa positiva resultante daquela história toda foi a amizade entre eles. Se Mario e Ivan já eram unidos, aquela fatídica noite os tornariam inseparáveis.

"Certo," o Braço Direito deu um longo gole em seu vinho e virou-se na direção de Alaudi, "eu vou lhe contar tudo."

Eles permaneceram sentados por mais de uma hora.

Nesse período, Mario tomou a voz praticamente o tempo inteiro, e a conversa na verdade se transformou em um monólogo. Alaudi escutou em silêncio, fazendo meia dúzia de observações em alguns momentos, porém, atento a cada informação que recebia.

Giulio já havia ouvido a história. O ruivo lhe contou na noite seguinte à Festa, enquanto estavam aninhados na cama após horas de amor. E, como o Inspetor, ele escutou quase em silêncio completo. Ao final, o moreno não teve palavras para resumir o que sentia e ninguém melhor do que Mario para entender aquela sensação. Os dois foram dormir em seguida, todavia, ao acordar na manhã seguinte ele o viu sentado naquela exata poltrona, ainda vestindo o pijama e parecendo extremamente sério e pensativo. Eu me aproximei e perguntei se ele se sentia mal, mas tudo o que Giulio fez foi me puxar para um abraço.

O amante o manteve nos braços por um bom tempo e quando finalmente o soltou as palavras que deixaram seus lábios foram um pedido de desculpas. Ele disse que não sabia o que fazer e que desejava mais do que nunca que tivesse me conhecido antes. Mario achou a atitude adorável e seu coração bateu mais rápido ao sentir-se tão amado e querido. Ele não esperava nenhuma palavra de consolo, não após todos aqueles anos. No entanto, saber que aquela pessoa se importava significava o mundo para ele.

Felizmente, a reação de Alaudi não envolvia abraços ou palavras de conforto. O louro ficou em silêncio depois de ouvir e pareceu satisfeito.

"Antes de eu ir, gostaria de fazer uma pergunta." Ele ficou de pé e o olhou de cima. "Ivan se importaria se eu matasse o homem?"

Em qualquer outra ocasião Mario teria rido com a questão, mas havia algo nos olhos azuis que dizia claramente que ele estava falando sério e que aquela, na verdade, não era exatamente uma pergunta.

"Infelizmente, sim." O ruivo sentiu que precisava ser cuidadoso com sua resposta. "Caesar é o pior tipo de lixo que conheço, mas Ivan jamais deixará de considerá-lo como seu irmão."

"Uma pena."

O Inspetor virou-se na direção de Giulio, que não pareceu chocado com a sugestão, provavelmente por já ter escutado antes, e avisou que estava de saída. O moreno o acompanhou até a entrada da casa e Mario encostou a nuca na parte alta do sofá, fitando o teto e tendo um mau pressentimento. A ida de Francesco para o Japão aconteceria em poucas semanas e seu irmão não estava tão bem quanto aparentava. Por diversas vezes ele o viu chorando, mesmo que Giuseppe fosse bom em disfarçar. Eu preciso ficar de olho nele. Os problemas pareciam vir um atrás do outro e o Braço Direito só esperava que as surpresas houvessem acabado. Eu sinto que vou me arrepender por desejar isso.

x

Como esperado, assim que entrou na biblioteca Ivan questionou se Alaudi o havia procurado. Mario deu de ombros, sentando-se em uma das poltronas e servindo-se com uma xícara de chá. O amigo permaneceu olhando-o, apesar de tentar disfarçar. Sua atenção vacilava entre ele e as próprias mãos e o ruivo propositalmente demorou a ir aos detalhes daquela inconveniente conversa.

"Se você sabia que ele viria até mim por que não contou tudo?"

"Eu sabia que Alaudi não se contentaria com o que eu disse. Parte de mim gostaria que ele não houvesse lhe procurado." Ivan suspirou. "Ele procurou Giotto também. Pela primeira vez na vida Alaudi está levando seu trabalho como Guardião a sério."

"Isso é bom e significa que Francesco e Catarina ficarão mais protegidos."

Mario mudou de assunto quando teve uma oportunidade. Caesar era um dos seus piores tópicos, e algo enterrado por tanto tempo não merecia ganhar a luz. Além disso, era torturante ver o Chefe dos Cavallone lutando com a ideia de que seu próprio irmão poderia vir atrás de seus filhos. Ele já se colocou naquela posição e não saberia o que faria se Giuseppe um dia decidisse se tornar um maníaco. O pensamento, contudo, sempre o fazia rir tamanho o absurdo.

Eles começaram a falar sobre Francesco e o fatídico dia de sua viagem ao Japão. Em duas semanas ele já não estaria na casa e o Braço Direito ainda não conseguia imaginar-se perambulando pela propriedade sem vê-lo. Giuseppe era lembrete diário de que a data se aproximava e Mario e Giulio pensavam em conjunto em várias maneiras de fazer com que aqueles doze meses passassem o menos doloroso possível para ele.

Se não fosse a situação eu jamais perdoaria Francesco por abandoná-lo depois de toda a confusão que causaram. Giuseppe não sabia o real motivo da viagem do herdeiro e essa era a razão que tornava seu sofrimento tão real. Aos seus olhos, a pessoa que amava havia decidido da noite para o dia que ele não era mais suficiente.

"Alaudi e eu falamos com Catarina ontem. Ela parece bem mais animada do que esperávamos." O moreno sorriu. "Nós prometemos que ela poderá visitá-lo no meio do ano. O que você acha de conhecer o Japão?"

Mario ergueu uma fina sobrancelha vermelha e o encarou por alguns segundos na vã esperança de que Ivan estivesse brincando.

"Eu? No Japão? O que eu faria no Japão?"

"Eu preciso de alguém de confiança para acompanhar minha filha e..." O amigo suspirou. "Seu irmão disse que não irá."

Isso é novo... Ele não sabia.

"Eu mencionei sobre isso e Giuseppe se desculpou várias vezes, mas disse que não poderia ir. Eu não sei o que eles conversaram, porém, seu irmão parece resignado a esperar pela volta definitiva de Francesco."

"E se ele não voltar?" A pergunta que todos haviam pensado, mas ninguém teve coragem de dizer em voz alta. "E se Francesco pegar gosto pelo Japão? E se ele conhecer alguém? Em minha modesta opinião Giuseppe está deixando tudo para a sorte. Eu jamais deixaria Giulio viajar para longe sem que eu estivesse dois passos atrás!"

O ruivo resmungou algumas vezes e serviu-se com alguns biscoitos de creme. A ideia de deixar o herdeiro livre e solto em outro país soava impensada e ele havia decidido que teria uma conversa séria com o irmão. O silêncio que seguiu seu último comentário foi longo e Mario virou-se na direção de Ivan esperando seu contra-argumento. Entretanto, o que viu foi o Chefe dos Cavallone o olhando com um sorriso de puro sarcasmo enquanto apoiava o queixo em suas mãos.

"O quê?"

"Sabe, eu sei que já faz tempo que você e Giulio estão juntos, mas é em momentos como esse que eu percebo o quão mudado você está, Mario. Você acabou de dizer o quanto ama seu amante sem um segundo de hesitação e sem nem ao menos corar. Eu admiro isso e gosto muito mais do seu eu de hoje."

Ele sentiu o instante em que seu rosto se tornou vermelho. A sensação lembrava vivamente o dia em que eles fugiram de alguns bois que haviam escapado do curral. Ambos não passavam de crianças e seu calção ficou preso na cerca de arame farpado. Seu desespero em fugir foi tão grande que ele só percebeu que metade da parte de trás havia ficado pendurada na cerca quando estava longe. Ao chegar à casa, o pai de Ivan recebia algumas mulheres da sociedade. Ele nunca esqueceria uma das moças que o viu e riu ao comparar seu traseiro com um pêssego.

A mão cobriu o rosto e foi difícil aguentar as gargalhadas do moreno. Ele havia sido totalmente honesto com seu comentário e realmente não permitiria que Giulio se afastasse dele além do necessário. A viagem até Roma já era demasiada longa e imaginar-se não tendo seus encontros semanais era o bastante para que seu humor desaparecesse. Eu fiquei mole. Em todos aqueles anos o amante havia ouvido poucas e seletivas declarações de amor de sua parte, mas estranhamente naquele momento Mario sentiu uma vontade incontrolável de abraçá-lo e dizer com todas as letras o quanto o amava.

A sessão de risos foi interrompida por três batidas na porta.

O Braço Direito ajeitou-se na poltrona, sabendo exatamente quem estava prestes a entrar. Hábito e anos de convívio faziam com que as pessoas próximas fossem identificadas pelo modo como andavam e até mesmo a respiração. A porta foi aberta e Niccolò entrou sem oferecer um único olhar em sua direção, caminhando até Ivan como se ele estivesse sozinho.

"Bom dia, Niccolò." O Chefe dos Cavallone sorriu.

"Perdoe importunar-lhe, mas eu gostaria de conversar com o senhor, Chefe."

O ruivo fez menção de pousar sua xícara e retirar sua insignificância, todavia, Niccolò virou o rosto em sua direção.

"Você pode ficar." A face estava inexpressiva, mas os olhos brilhavam. "Eu não me importo."

Mario e Ivan trocaram um rápido olhar e se acomodaram em seus respectivos assentos de maneira nervosa.

Niccolò parecia diferente e o ar ao seu redor não estava pesado. Ele sequer me olhou como se eu fosse um inseto que precisasse ser esmagado. Sua teoria de que o chefe da segurança e Giuseppe eram um casal estava completamente morta, e todas as vezes que se lembrava de que tal pensamento já havia cruzado sua mente ele desejava desaparecer. No entanto, se não era seu irmão o causador daquele ar tranquilo, o que poderia ser?

"Depois que a missão de escoltar Francesco até o porto terminar eu gostaria de pedir alguns dias de férias."

Ele havia se inclinado na direção da bandeja que estava sobre a mesinha de centro na intenção de adoçar um pouco mais o chá. A frase entrou por seus ouvidos e novamente os amigos se encararam, como costumavam fazer quando eram jovens e alguém dizia alguma coisa absurda. Espere, espere, espere! Niccolò não tira férias! Todo mundo sabe que desde que começou a trabalhar para a Família esse homem se dedica totalmente ao trabalho.

"Férias?" Ivan parecia tão atordoado quanto ele. "Você disse... férias? Você?"

"Eu sei como isso soa, Chefe, e tenho plena consciência de que estou sendo petulante em fazer tal pedido, mas e—"

"Não, não, de maneira alguma." O Chefe dos Cavallone parecia encantado. "Perdoe-me, mas eu estou apenas surpreso. Por mais de uma década eu insisti que você tirasse alguns dias por ano, mas você nunca concordou. Acho a ideia fantástica, Niccolò, e você pode pegar um mês completo após a missão."

"A ideia é... tentadora." Niccolò esboçou um meio sorriso e coçou a nuca como se já houvesse visualizado mentalmente o que faria com aqueles trinta dias. "Eu pensarei a respeito."

"Por favor, pense!" O moreno parecia feliz. O sorriso em seus lábios era genuíno. "Mas se me permite perguntar, o que aconteceu?"

Ele também está curioso...

"Eu pretendo me mudar e gostaria de tempo para organizar a nova casa."

"Mudar? Eu não sabia que você estava de mudança." Ivan piscou algumas vezes. "Eu sei que você procurou alguém para trocar o assoalho de um dos cômodos, mas achei que o problema estivesse resolvido."

Mario segurava a xícara de chá, mas não havia encontrado oportunidade para bebê-lo. Ele mesmo havia comunicado sobre a busca de Niccolò por alguém que pudesse dar um jeito em sua sala de estar, que recebera água em um dia de chuva forte. Contudo, ele também não sabia que a casa havia ficado em tão péssimo estado que seria preciso uma mudança. E Ivan foi quem deu a casa a ele. Foi seu presente de casamento.

"A casa está em perfeitas condições. Eu encontrei algumas pessoas e a reforma deve ficar pronta em alguns dias. Pretendo alugar a casa, mas fixarei residência em outro lugar, embora seja próximo." O chefe da segurança abaixou os olhos e, quando voltou a erguê-los, havia uma expressão serena e de pura realização. "Eu preciso de um lugar maior e com mais cômodos, mais espaço."

"Entendo..." Ivan obviamente não entendia. "Eu aceito seu pedido de férias e estou disponível se precisar de qualquer ajuda com a nova casa. E, claro, espero que aceite um presente meu para comemorar sua mudança."

"Seus pensamentos são suficientes, mas agradeço, Chefe." Niccolò fez uma polida reverência. "Antes de ir, eu gostaria de comunicar uma coisa. Não sei o nível de relevância, mas gostaria que soubesse através de mim."

"Sou todo ouvidos, Niccolò."

O ruivo acomodou-se na poltrona, bebericando seu chá e achando aquela conversa fascinante. Aquela era a primeira vez que ele ouvia Niccolò falar tanto.

"Eu estou em um relacionamento com Jules," a voz soou clara, "minhas intenções são sérias e nós iremos nos mudar juntos para a nova casa."

O chá voou de sua boca até o outro lado da mesinha como um chafariz.

Mario virou-se na direção de Ivan e viu apenas a expressão chocada de seu amigo. Niccolò fez mais uma reverência e deu meia-volta, retirando-se da biblioteca, mas não sem antes lançar um aterrorizante meio-sorriso em sua direção. A porta fechou-se com barulho e os únicos presentes sentiam-se incapazes de proferir qualquer palavra.

Sua mente funcionava rapidamente, tentando entender o que acabara de ouvir e procurando um sentido naquelas palavras. Ele teria ouvido direito? Niccolò e Jules? O seu Jules? Ele não é mais meu... O Braço Direito limpou a boca com as costas do casaco e sua cabeça foi jogada para trás seguida por uma alta gargalhada.

"M-Mario..." O moreno parecia perdido. Suas sobrancelhas estavam juntas e sua expressão era uma mistura de choque com descrença. "Você sabia?!"

"Não, claro que não!" Ele ficou de pé e se espreguiçou. "Mas agora tudo faz sentido."

"O que faz sentido? O que você sabe que eu não sei?"

"Nada, mas as coisas vão ficar interessantes por aqui, Ivan." Mario aproximou-se na mesa e ficou satisfeito por vê-la vazia. Não havia relatório, carta ou nada para ser feito. "Eu estou de saída, vou para Roma."

"A-Agora? No meio da tarde?"

"Sim, e não pretendo ficar nenhum minuto a mais por aqui! Não há trabalho, Catarina está pintando com o amante de Niccolò e acredito que Francesco e Giuseppe merecem serem esquecidos pelas próximas duas semanas." Ele abriu um largo sorriso. Há algum tempo o ruivo não se sentia tão bem. A vida estava uma bagunça, entretanto, aquela nova sensação não poderia ser negligenciada. E eu quero vê-lo! "Minha pergunta é: você vem comigo? Nós iremos para o mesmo lugar."

O Chefe dos Cavallone piscou algumas vezes antes de apertar os olhos demonstrando desconfiança.

"Você está me testando?"

"Não, eu estou sendo totalmente sincero. Você vem ou não?"

"Mas eles vão estar ocupados! Iremos somente para perder tempo."

"Fale por você," Mario ofereceu uma piscadela, "eu aposto o que quiser que tirarei Giulio da sede de polícia por toda a tarde."

"Não é justo! Se ele sair Alaudi terá que ficar e que vantagem eu levo?"

"Esse não é problema meu, Ivan! Você deveria escolher melhor, eu venho lhe dizendo isso há anos."

Ele deu as costas e seguiu pela biblioteca. Na metade do caminho Ivan praticamente pulou da cadeira, agarrando o casaco que estava pendurado nas costas da cadeira e apressando-se para acompanhar seu passo.

"Eu vou tirar Alaudi do trabalho e você terá que ficar!"

"Não faz diferença. Eu sairei no lucro de qualquer forma." O Braço Direito ganhou o corredor e deu de ombros. "Hoje, excepcionalmente, a porta da sala do Vice-Inspetor ficará emperrada."

"Você não pode fazer isso. Alaudi vai ter motivos para tentar lhe matar e eu nada poderei fazer!"

"Assuma que está com inveja. Você adoraria que a porta dele também ficasse emperrada."

Os dois amigos seguiram pelos corredores, cruzando o hall e continuando com a discussão tola e inútil.

Giuseppe os viu passar quando terminou de subir as escadas, inclinando-se no apoio de madeira do segundo andar e achando curioso que ambos estivessem saindo juntos e com passos apressados. Seu destino era o quarto de Francesco e as duas leves batidas ressoaram em seu coração, que só se acalmou ao ouvir a voz do amante convidando-o a entrar.

Três quartos à esquerda Catarina estava sentada em uma poltrona observando Jules pintar enquanto sussurrava uma antiga canção. A garotinha não sabia o motivo da cantoria, e ainda era jovem demais para perceber que ela só havia começado depois que Niccolò apareceu rapidamente no cômodo para trazer uma caixa de tintas que ele havia esquecido.

Mario e Ivan entraram no carro, esquecendo momentaneamente toda a tristeza e acontecimentos ruins que os perseguiram pelos últimos dias. Eles não eram mais Chefe e Braço Direito, mas apenas dois homens que haviam decidido enfrentar uma viagem no meio do inverno para se encontrarem com seus respectivos amores. Os problemas continuariam existindo quando retornassem, porém, aquele momento de extroversão e impulsividade marcaria mais uma página que havia sido virada em suas vidas.

As lágrimas chegariam, eventualmente, de despedidas, de vingança e por que não de perdão? Mas, por hora, o que importava era ser feliz.

Continua...