12 de dezembro de 2011 – O pior dia
08 de dezembro de 2011
(Rachel)
A cada vela que acendíamos do menorah, eu pedia fervorosamente que Finn Hudson pudesse voltar a namorar comigo. Mas a força da minha prece era menos intensa a cada dia. Santana cumpriu o que prometeu e não mexeu mais com ele. Foi muito difícil admitir que Finn continuou a flertar mesmo assim. Sempre que ela passava o ignorando, ele se virava, checava o traseiro e ficava com aquele característico sorriso de lado. Depois dizia que se importava comigo apesar de tudo. Aquilo estava me matando. Eu mal conseguia encarar a minha irmã na volta para casa com o olhar de "eu te avisei" escancarado. Será que era tão errado assim ter um pouco de esperança em retomar tudo que tínhamos de bom?
"Rachel" – Kurt disse ao telefone – "o que você pensaria se Jewfro te deixasse em paz?"
"Talvez nem repararia, depois acho eu ia estranhar... ei! Entendi!" – traduzindo: se começasse a ignorar Finn, ele olharia para mim como Rachel. Não como a garota desesperada que grudou no pé dele.
"Esse é o mesmo conselho que Blaine me deu com uma freqüência considerável quando cheguei aqui: se esforce menos. Santana está na dela e não quer nada com Finn, certo? Significa que você tem tempo para desenvolver a estratégia. Não atropele as coisas, querida!"
Kurt não sabia lidar muito bem com os próprios problemas. Ele era apaixonado por Blaine, estudava com ele, mas não sabia como se iniciar esse tipo de conversa. Mas na hora de aconselhar outras pessoas, era incrível, por mais contraditório que fosse. Senti mais confiante depois que falei com Kurt. Uma pena que a gente só tenha se tornado mais próximos, a ponto de trocar algumas confidências, quando ele saiu na nossa escola. Seria bom tê-lo por perto, mesmo sendo o meu maior adversário em potencial vocal. Santana tinha certa razão: era bom ter algum amigo que não fosse meu namorado para variar.
Estava a caminho do último ensaio do coral da semana. Por hora, estávamos testando algumas canções para que a gente pudesse chegar mais fortes e organizados até as regionais. Aprendemos a lição no ano passado: talento e coração não eram suficientes. Para vencer as regionais, e mais ainda se a gente quisesse chegar bem às nacionais, teríamos de estudar os corais adversários, identificar fraquezas e virtudes e tentar montar uma apresentação onde nossas maiores qualidades pudessem ser ressaltadas e, ao mesmo tempo, mostrar uma melhor solução para as falhas dos outros.
Ensaiamos essa estratégia em "Valerie" com a dança de Brittany e Mike. Não vou analisar a balada de Quinn e Sam porque a desconsidero. Prefiro estudar "Valerie", que em minha opinião, e de Mercedes e de Kurt, foi a que contou. Santana não tem técnica de canto, mas ela teve personalidade, agressividade (não que ela tivesse qualquer problema com a parte da agressividade), e foi intuitiva. Minha irmã tem voz potente e um timbre diferenciado, mas precisa domar alguns engasgos e vibratos. Uma pena que seja tão difícil convencê-la ir a uma aula de canto. Ela também precisava deixar de ser preguiçosa e fazer melhor os exercícios técnicos que o professor Schue nos passa. Não são ideais, mas ajudam.
A coreografia de Brittany e Mike foi espetacular, mas tirou um pouco da unidade, um quesito que vale pontos na avaliação técnica. Essa nossa falha, além de uma música ruim, foi o que possibilitou o empate com os Warblers. Se tivéssemos ajustado melhor, ensaiado melhor, teríamos sido declarados os únicos vencedores. Nossos passos não ficaram bem sincronizados e eu esbarrei duas vezes em Lauren. Ninguém poderia exigir coisa alguma dela naquela ocasião porque ela caiu de pára-quedas no coral para salvar a nossa pele. Mas agora, se ela quiser ficar, vai ter de suar a camisa. Os vocais de apoio estavam ótimos, no entanto. Harmonizaram muito bem com o timbre "Winehouse" de Santana.
"Acho que você está exagerando, Rachel" – professor Schue me repreendeu novamente. Por alguma razão, esse tipo de coisa está perdendo o efeito – "Novas Direções não foi montado para ser uma máquina como o Vocal Adrenalina. O nosso grupo é sinônimo de coração, de alma. Estamos aqui, sobretudo, para nos divertirmos, para colocar os nossos corações na arte da música. Dar vazão aos inúmeros talentos que dispomos."
"Manter corais competitivos é caro para as escolas, professor Schue. Auditório, banda, profissionais de iluminação, engenharia de som, figurino... uma coisa a treinadora Sylvester tem razão: se a gente não joga para vencer, então qual o ponto? Seria melhor transformar o coral numa mera atividade de recreação. Mudar de mentalidade não significa perder o coração, ou nossa alma."
"Estou com a smurfete" – Santana disse enquanto lixava as unhas. Arregalei os olhos. Era a primeira demonstração pública de apoio que a gente trocava em semanas – "Sei que não gostam, mas a organização das cheerios é modelo de organização e ousadia. Por mais maquiavélica que seja Sue Sylvester, ela montou uma ótima estrutura para o time que dá certo. Sei que a gente não dispõe dos mesmos recursos no coral, mas isso não quer dizer que não podemos estabelecer uma equipe de apoio compromissada e melhorar nosso planejamento. A gente precisa parar de ser amadores que deram sorte."
"Agora o mundo vai cair! Satan e a diva entraram em sintonia. Cuidado." – Mercedes disparou e recebeu um "high five" de Quinn. Revirei os olhos para as duas e voltei a minha atenção à classe.
"A gente precisa parar de desperdiçar nosso tempo e energia e começar a focar melhor num objetivo. Senão vamos ficar eternamente fazendo números impressionantes para um auditório vazio. Como aconteceu com a produção de 'The Rocky Horror Show'. Estamos aqui para nos divertir, nos sentir bem. Mas que mal tem se preparar melhor nas competições?" – Mike também deu opinião, o que era incrível – "Vão me taxar de maluco, mas sim, estou com as Lopez".
"Eu não entrei aqui para enfrentar a mesma pressão do time de futebol" – Sam retrucou.
"Professor Schue" – era Tina – "o senhor mesmo vive promovendo competições entre nós. De duetos, meninos contra as meninas... o senhor sempre joga para ganhar."
"Competições servem para manter o time motivado" – Finn falou em tom de liderança – "E nós sempre nos viramos bem com o improviso."
"Sim, sempre nos demos bem diante de jurados estranhos e pouco qualificados" – rebati – "No momento em que uma cantora profissional, atriz de musicais, esteve no júri, nós perdermos. Verdade seja dita, vocês não estavam lá para saber, mas o Vocal Adrenalina foi épico. Para fazer um número daqueles, levaríamos um mês de ensaios."
"Nós vamos chegar a algum lugar?" – Artie ergueu os ombros.
"Eu nem sabia que a gente estava andando!" – eu ameacei rir de Brittany, mas Santana, que estava logo atrás de mim, chutou a minha cadeira. Não foi nada discreta.
Por fim, o grupo ficou dividido e o professor Schue decidiu (que surpresa!) promover uma nova competição como forma nos fazer enxergar as vantagens e defeitos tanto de um ponto quanto de outro para termos uma melhor avaliação. Eu, Santana, Mike, Tina e Puck teríamos de planejar um número onde o foco principal seria técnica e produção. Quinn, Finn, Sam, Mercedes, Brittany e Artie fariam outro com foco no improviso. Lauren, senhora Pillsburry e um "convidado especial" iriam julgar e o grupo vencedor seria diretamente responsável pelos números das regionais.
"Temos de ser épicos e para isso temos de escolher uma música igualmente épica" – disse enquanto ajudava meus pais a colocar as malas no carro. Eles estavam nos esperando chegar da escola para que pudéssemos pegar a estrada para Cleveland passar o último dia do hanukkah com meus avós.
"No que você pensou?" – papai era quem mais gostava de escutar as minhas idéias para o coral.
"'Champagne Supernova', do Oasis. Todos vão esperar que façamos algo mais Broadway... mas se ao contrário a gente provar que consegue fazer uma apresentação visceral e tecnicamente perfeita, as regionais vão ficar em nossas mãos."
"Eu gosto de Oasis" – Santana vestiu o casaco de frio e ficou de pé diante porta da esquerda do banco de trás do carro. Era sempre assim quando viajávamos juntos: ela se sentava no lado esquerdo e eu no direito do banco de trás – "a música é ótima, mas se você pensa em algo assim, não acha mais legal fazer Radiohead?"
"Só porque você gosta mais deles do que do Oasis."
"O olho caolho do Thom Yorke é sexy."
"Eu NÃO ouvi isso!" – meus pais reclamaram ao mesmo tempo.
"Acho que a gente deveria considerar também "It's Oh So Quiet", da Bjork. Ficaria bem na sua voz. É jazz, indie e épico ao mesmo tempo. E não é Broadway."
"Desde quando você pesquisa música indie?"
"Há muitas coisas que você não sabe ao meu respeito, Rachel."
"Vocês nunca pensam em Carlos Santana ou algo em espanhol?" – meu pai reclamou fechando o porta-malas.
...
09 de dezembro de 2011
(Santana)
O Hanukkah na casa dos Berry não costumava mudar ao longo dos anos. Zaide aproveitava a presença de papi para garantir consultas médicas gratuitas. Há algum tempo que ele sofre de diabetes, que era um foco de interesse nas pesquisas do dr. Juan Lopez. Operar diabéticos era mais delicado e arriscado. Ele, como cirurgião geral, quer descobrir uma forma de promover a cicatrização mais rápida em um paciente com esta doença. Zaide tinha plena consciência do trabalho do meu pai e por isso mesmo se aproveitava: mostrava todos os exames que tinha feito recentemente, pedia para medir a pressão e falar de prognósticos. Zaide achava que ia morrer a qualquer instante de algum mal súbito. Meu pai não reclamava dessa parte. Os dois se bicavam quando zaide insinuava que eu deveria assumir os negócios, virar uma empresária. Papai também não gostava da pressão. Ele sofreu a mesma coisa quando jovem e não desejava o mesmo para mim.
"Estive conversando com meu amigo Caleb Weiz" – zaide sentou na poltrona de couro e acendeu um cachimbo – "Ele me reafirmou que intercederia por Santana para que ela faça testes de admissão para Stuyvesant sem precisar passar pelos caminhos normais."
"Não creio que este seja um assunto para discutir num feriado, avi" – papai sempre ficava incomodado com as intromissões de zaide, sobretudo na frente de papi.
"Mas essa sua teimosia em não falar está comendo tempo precioso dela. Santana não é uma menina comum. Ela deveria estar em Nova York aprendendo em uma das melhores escolas do país."
"Zaide! Por favor!" – praticamente implorei para que os adultos da sala mudassem de assunto – "Estou feliz onde estou."
"Digo o que é certo, yeled" – zaide me ignorou e focou nos adultos – "Eu dei todas as oportunidades que pude a você. Mas não vejo que faz o mesmo por sua bat."
"Desculpe Joel, mas este não é um assunto que te diz respeito" – papi deu um murro do braço do sofá – "Hiram e eu somos perfeitamente razoáveis em tudo que diz respeito às nossas filhas e eu gostaria, em nome da nossa amizade e da paz, que o senhor parasse de se meter."
"Joel!" – bubbee cutucou zaide – "Você prometeu!"
Zaide encarou os olhos verdes intensos de bubbee e se calou. A família inteira respirou aliviada. Meus avós nunca discutiam sobre a Broadway de Rachel. Como a cabeça da minha irmã era mesmo avoada, acho que eles pensavam que os palcos e o deslumbre das celebridades talvez seja o melhor caminho para ela. Eu não tive a mesma sorte. Zaide insiste que eu herde integralmente as fábricas de tecido. Quer que eu as administre assim que me formar para que ele finalmente aposentar e fazer um cruzeiro pelo mundo junto com bubbee. É o sonho dele que eu vá para Harvard, que me forme com honras e méritos. Não tinha certeza se era o meu. Estava focada em outras coisas da minha idade e em Brittany.
Minha teoria era de que zaide queria que eu realizasse todos os sonhos que ele traçou para papai e não concretizou. Não pôde freqüentar uma universidade por ser pobre e ficou frustrado por papai entrar na OSU para fazer Botânica em vez de Economia e Negócios. Rachel era uma nulidade, então sobrou para mim. Dizia abertamente que pagaria todos os meus estudos caso passasse em Harvard para a Faculdade de Negócios.
Bubbee não participava desta ou qualquer outra discussão que envolvesse o futuro de Rachel ou o meu. Ficava sempre quieta, meio desinteressada. Uma imagem forte que tinha de bubbee, além dos intensos olhos verdes, era da figura austera comigo, embora ela se derretesse com Rachel. Não sei se era porque estava na cara que eu não era filha biológica de papai ou se a minha irmã simplesmente conseguia se comunicar pela música. Era tradição comemorarmos o hanukkah com um número especial de Rachel cantando alguma canção judaica com bubbee ao piano. Raramente eu participava, e quando fazia, era para a segunda voz. Bubbee era dona de uma coleção impressionante de partituras de músicas clássicas e do jazz, além da biblioteca de autores judeus. No meio da biblioteca da casa ficava o imponente piano steinway de calda preto que ela tocava à perfeição.
Era tradição celebrarmos sempre o último dia do Hanukkah em Cleveland com meus avós. Zaide, papai e eu colocávamos o nosso kipá. O pequeno chapéu era uma simbologia de que Deus está sempre acima de nós e que deveríamos ser humildes. As mulheres judias não tinham essa obrigação, mas digamos que fui sentenciada. Fiz uma travessura quando criança e fui dedurada por rabi Amnon. Levei uma surra de papai. Por causa disso, para me vingar, invadi o quarto dele durante uma festividade e roubei as cuecas. Levei tudo para o jardim de inverno da casa e taquei fogo. Quase queimei o resto da casa no processo. Rabi Amnon ficou furioso e disse que dali adiante teria de usar o kipá. Mesmo sendo mulher, eu tinha clara necessidade de lembrar que Deus está acima de mim. Fazer o quê?
Rezávamos à mesa, bubbee pedia para que Rachel a acompanhasse nas canções judaicas. Acendíamos a última vela do menorah e então ceávamos: um banquete e tanto para os seis. Depois trocávamos presentes, em geral pequenas jóias. Todo ano era a mesma coisa e eu adorava.
No dia seguinte, pouco antes de voltar para Lima, encontrei zaide no escritório. Bati à porta e entrei devagar, respeitando o espaço dele.
"Boker tov, zaide."
"Boker tov, Santana" – ele sorriu para mim e acenou para que sentasse.
"Trabalhando no domingo?"
"Io. Só checando alguns números das fábricas..."
"Posso ajudar?" – sabia que ia me lascar com a pergunta, mas não podia evitar. Biológico ou não, ele era o meu avô querido e eu o amava. Zaide me entregou algumas planilhas cheias de números. Eu os lia bem.
"O que vê?"
"As coisas estão indo bem, zaide. Mas parece que precisa fazer alguns cortes de funcionários para melhorar as finanças. Não é o que diz esse gráfico?" – apontei e zaide acenou positivo – "Por outro lado, demitir me parece crueldade" – ele sorriu e tirou os óculos.
"O que você faria?"
"Não sei dizer. Talvez investisse em capacitação de alguns funcionários para melhorar a relação com produtividade antes de fazer cortar cabeças."
"É uma possibilidade" – pegou de volta as planilhas – "Você é uma natural, sabia?"
"Só me entendo bem com os números."
"Deveria estar fora de Ohio."
"Eu quero sair de Ohio" – fui sincera – "Mas não antes da escola. Tenho meus amigos, minha casa, meu conforto."
"Não acha que uma das melhores escolas do país valeria o sacrifício?"
"Talvez."
"Você poderia ir para Harvard, Santana. Seu destino é ser grande. É um desperdício ficar perdendo tempo naquela cidadezinha."
"Ainda posso ir a Harvard... tudo bem que é mais complicado ser aceita com cheerios e coral figurando nas minhas atividades extracurriculares."
"Stuyvesant poderia te dar esta chance. Não desperdice a oportunidade. Meu amigo Caleb Weiz me garantiu que não se furtaria em te dar assistência e até ofereceu um estágio na empresa dele."
"Zaide, tudo é muito tentador, mas não quero pensar nisso agora."
"Vou procurar manter essa janela aberta o máximo de tempo que puder, Santana. Espero que seja o suficiente até o momento que resolva pensar à sério."
"O que tiver de ser, será. Não é o que o senhor sempre diz?"
Ele se levantou e fez um afago na minha cabeça. Não estava satisfeito com a minha reluta, mas também não ia me pressionar além do aceitável. No meio da tarde, depois de recuperar de um almoço digno de realeza, nos despedimos. Abracei meus avós, e o resto da minha família fez o mesmo. Papai sempre ficava por último. Ele disse: "Amo vocês", antes de entrar no carro e partirmos de volta a Lima.
...
12 de dezembro de 2011
(Rachel)
Cheguei animada para reunir o meu grupo do coral e apresentar minhas propostas. Tinha pesquisado algumas coisas na internet como alguns dos novos musicais inspirados em bandas de rock, clipes do Oasis, figurinos, possíveis arranjos para aproveitar as cinco vozes. Mostraria ao professor Schue que poderíamos ser épicos e tecnicamente perfeitos sem perder o coração. Mas primeiro, teria de esperar a aula de cálculo, a última antes do intervalo do almoço. Santana estava distraída e aparentava que não aprontaria para cima da professora. Quinn estava ao lado dela, Mercedes estava na bancada imediatamente ao lado das duas e eu, como sempre, sentava mais à frente. Por mais que tentasse prestar atenção, não conseguia me concentrar. Meu sexto sentido dizia que algo estava prestes a acontecer.
"Santana e Rachel Berry-Lopez" – a senhora Pillsbury interrompeu a aula – "vocês poderiam pegar as suas coisas e me acompanhar?"
Meu coração disparou. Olhei para Santana duas cadeiras atrás e ela tinha perdido a cor. Olhei para os outros estudantes da nossa turma. Quinn e Mercedes estavam com a testa franzida, pareciam preocupadas. Arrumei as minhas coisas o mais rápido que pude e segurei na mão da minha irmã quando ela passou por mim. Estava gelada.
"Sabe o que aconteceu?" – sussurrei para Santana, mas ela me fez sinal negativo.
A senhora Pillsbury nos acompanhou até os armários e pediu para que guardássemos tudo. A essa altura, estava prestes a vomitar no meio do corredor de ansiedade. O rosto da nossa orientadora não era dos melhores.
"Senhora Pillsbury, você poderia dizer o que está acontecendo?" – minha voz foi quase um sussurro.
"Guardem primeiro os materiais. Explico logo."
"Não! Explica agora!" – Santana explodiu – "Não vê que esse suspense está nos matando?"
"Ligaram do hospital" – me apoiei em Santana porque as minhas pernas estavam bambas – "por favor meninas. Vamos até a minha sala."
"Pelo amor de deus, o que aconteceu?" – lágrimas já corriam nos nossos rostos.
"Será que a gente poderia..."
"Não!" – Santana segurou o braço dela com força – "Só diga o que aconteceu. Não sei se vou conseguir dar dois passos além daqui."
"Houve um acidente... com o pai de vocês, Hiram. Eu não sei de mais detalhes, meninas, juro. O que o seu outro pai, o dr. Lopez, está neste momento na sala de cirurgia..."
Não ouvi mais nada. Tudo ficou escuro.
...
(Santana)
Hiram Joel Berry-Lopez nasceu em 14 de agosto de 1966 em Nova York. Era filho do operário Joel Berry e da música Sarah Berry. Apesar dos pais pobres, teve uma boa infância em uma das maiores metrópoles do mundo numa época de revolução de comportamento. Os Beatles lançaram o revolucionário Revolver, de longe o meu favorito deles. Lennon disse que era mais popular que Jesus Cristo. Ainda na polêmica religiosa, Bob Dylan é chamado de Judas por tocar com uma guitarra elétrica. Neil Young forma o Buffalo Springfield. Elizabeth Taylor entra em cartaz com "Quem tem medo de Virginia Woolf", filme que lhe daria um Oscar. A Guerra do Vietnã estava no auge, mulheres queimavam sutiãs nas ruas e passaram a usar minissaia.
Lógico que papai não viveria nada disso. Ele desfrutaria de uma infância tranqüila no Brooklin sem luxos, mas sempre com comida na mesa, água quente, luz elétrica e um apartamento modesto e limpo. Ainda criança, mas já crescido o suficiente, mudou-se para Cleveland, Ohio. Joel Berry, coma ajuda de Sarah, havia economizado o suficiente para abrir uma pequena fábrica de tecidos com a ajuda de um financiamento de Lionel Weiz, o ex-patrão. O negócio de Joel prospera do centro-oeste americano e, aos poucos, o pequeno Hiram começa a desfrutar de uma vida de confortos. Fez high school em Cleveland e foi aceito para Ohio State University, em Columbus, onde pôde cursar Botânica, contrariando o desejo do pai. Papai contava que o dia que saiu de casa para ir morar num dormitório da OSU foi um dos dias mais felizes da juventude dele. Foi como se os pulmões dele se enchessem de liberdade.
Ainda na faculdade, assumiu ser homossexual para o pai. A notícia não foi bem recebida por Joel e eles deixaram de se falar. Com a mãe, Sarah, só restou o freqüente contato por telefone. Foi em Columbus que conheceu o recém-aposentado jogador dos Buckeyes de futebol americano e futuro médico Juan Ernesto Lopez. Primeiro os dois se esbarravam pelo campus e ficaram amigos. Numa festa, Hiram tentou beijar Juan. Terminou com um nariz quebrado. Um ano depois, conquistou o namorado e futuro marido.
Hiram e Juan realizaram um casamento simbólico em Cleveland testemunhado por poucos amigos e a família Lopez. Na época, Juan era médico residente e Hiram trabalhava como técnico de laboratório em meio a agrônomos. Eles superaram os obstáculos e passaram a ter uma boa vida juntos. Um dia chegou a necessidade de formar uma família com filhos. Procuraram por uma doadora enquanto economizavam dinheiro para pagar a barriga de aluguel e todo o tratamento de fecundação. Encontraram a jovem Shelby Corcoran, de apenas 20 anos, num catálogo de uma clínica e entraram em contato. Shelby aceitou doar dos óvulos e gerar o filho do casal por um dinheiro que seria suficiente para ela tentar a sorte na Broadway com segurança por três bons anos, no mínimo. Acabou gerando dois, ou melhor, duas garotinhas: eu, Santana Berry-Lopez, e minha irmã, Rachel Berry-Lopez.
Nosso nascimento foi muito comemorado na família Lopez e ainda promoveu a reaproximação de Hiram com os pais. Nós quatro nos mudamos para Lima, Ohio, seguindo uma oportunidade de emprego oferecida a Juan Lopez como cirurgião. Hiram precisou correr atrás de emprego com duas crianças no colo. Muito mais do que Juan Lopez, que estava na cidade americana natal (onde se estabeleceu depois de chegar de Santiago, Chile). Hiram recebeu ajuda da comunidade judaica e foi rabi Amnon quem abriu espaço para que ocupasse uma vaga de professor na Community College local.
Desde então, formamos uma família não-convencional muito feliz. A estabilidade do relacionamento dos meus pais sempre foi um porto seguro para todas as crises que eu e minha irmã passamos típicas ou não da nossa idade. Mas isso foi quebrado às vésperas do nosso 17° aniversário.
Aquele dia começou como qualquer outro: banho, briga com Rachel, muito sono. No café da manhã, papi comeu ovos mexidos, eu enchi a barriga de cereal com banana enquanto Rachel e papai ficaram com a comida de coelhos que tanto apreciavam. Comíamos enquanto conversávamos sobre a agenda do dia. Eu e Rachel tínhamos escola. Meu pai só deveria voltar ao hospital no início da noite. Papai tinha mencionado uma chácara que ele visitaria como parte de um trabalho de consultoria que ele estava desenvolvendo em paralelo às aulas na Community College. Era um belo dinheiro extra. Eu e minha irmã nos despedimos dos nossos pais com a rotineira bitoca nos lábios.
Hiram Berry-Lopez, papai, se despediu do marido com um carinhoso beijo na boca prometendo chegar pouco depois do almoço. Saiu do perímetro urbano de Lima e pegou a rodovia estadual. Dizem testemunhas que um dos pneus da caminhonete estourou. O carro descontrolou e capotou várias vezes ao cair em uma pequena ribanceira.
Enquanto os paramédicos comunicavam o hospital mais próximo (o de Lima), pai foi avisado sobre o acidente. Ele decidiu correr para lá e fazer alguma coisa. Preferiu trabalhar para salvá-lo a simplesmente esperar desesperado no corredor, apesar de isso ser contrário às regras por estar emocionalmente envolvido com o paciente. Mas os Lopez sempre quebravam algumas. Foi papi quem operou minha apendicite, por exemplo. Os dois chegaram ao local praticamente juntos. Papai tinha múltiplas fraturas e sangramento interno e papi, apesar de tentarem impedir, entrou na sala de cirurgia para tentar concertá-lo. Ele era o melhor e papai precisava dos melhores. Ele ficou mais de cinco horas lutando pela vida do marido em cima da mesa cirúrgica. Enquanto isso, uma enfermeira ligou do hospital para a escola.
Rachel desmaiou assim que soube. Eu só não fiz o mesmo porque tive de acudir a minha irmã. Abaixei ao lado dela, arrumei o corpo e levantei as pernas dela, como papi ensinada nos primeiros socorros. Rachel voltou rápido a consciência, mas a forcei ficar alguns minutos deitada, mesmo com alguns otários curiosos passando pelo corredor e com a senhora Pillsbury correndo para pedir ajuda. Voltou com a treinadora Sue Sylvester.
"Precisamos levar Rachel para a enfermaria" – senhora Pillsbury estava aflita.
"Não!" – disse firme – "Nós vamos ao hospital para ver o meu pai."
"Mas Rachel não pode."
"Ela vai" – disse firme, desafiadora, apesar de estar à beira de um colapso – "É o nosso pai, treinadora! Vai ser muito pior se você nos obrigar a ficar aqui."
"S, precisa ver o que é melhor para ela" – a treinadora insistiu.
"Eu sei o que é melhor para minha família. Hospital. Agora!" – berrei.
Ajudei minha irmã a se levantar. Rachel estava confusa, mas não podia parar para explicar as coisas. Passei o braço dela nos meus ombros e a segurei firme pela cintura. Fomos caminhando devagar até o estacionamento para o carro da senhora Pillsbury. Tive de agradecer, porque não teria condições de dirigir, muito menos Rachel. A impressão que tive foi que o caminho foi longo demais, mas chegamos.
Assim que a recepcionista nos viu, pediu para que entrássemos na sala de espera privativa do centro cirúrgico. Não era um procedimento encaminhar parentes ao espaço em questão, mas tivemos esse privilégio por sermos filhas do chefe cirurgião e, àquela altura, todos os funcionários mais familiares estavam cientes do que acontecera.
A sala tinha nada de especial. Havia uma televisão que estava desligada, sofás, um suporte com revistas de três anos atrás, um filtro de água com galão de 20 litros, um quadro na parede e uma lixeira. Fiz com que Rachel sentasse ao meu lado no sofá. Ela dizia sentir náuseas e tontura. Permaneci o tempo inteiro com um braço em volta dela e às vezes a forçava a escorar a cabeça dela contra o meu ombro. O tempo parecia estacionado. Os ponteiros não andavam, os minutos não passavam, as horas pareciam dias. Mas permaneci ali pacientemente até vir um médico residente. Olhei para ele e prendi a respiração. Rezei para ele trazer boas notícias.
"Nós conseguimos deter o sangramento interno e estabilizá-lo..." – o médico dizia e eu fazia o máximo de esforço para pescar o contexto das informações. Como era complicado me concentrar – "...ele está lá na sala iniciando os procedimentos finais da cirurgia..." – e olhou para a Pillsbury – "o outro pai das meninas, o paciente, precisa de doadores de sangue. Uma vergonha que o estoque do hospital esteja baixo. Se for possível convocar a família e amigos..."
"Eu vou doar!" – me prontifiquei.
"Não creio que tenha peso suficiente" – o médico advertiu enquanto dava uma olhada na minha irmã – "e mesmo assim não adiantaria para o seu pai porque fui informado que o tipo sanguíneo de vocês duas é do tipo B+. Precisamos de O+."
"O meu sangue é O+" – senhora Pillsbury se prontificou – "eu posso doar e aviso outras pessoas para fazerem o mesmo."
"Obrigada!" – minha voz saiu um sussurro.
"E quanto a você, Rachel" – o médico colocou a mão no rosto da minha irmã– "vou te colocar na enfermaria. Você precisa tomar um soro com um medicamento para aliviar esse mal-estar."
"Não!" – ela respondeu firme, o que me surpreendeu – "você traz o soro e o remédio que eu tomo... mas vou ficar aqui."
"Bobagem. Nós vamos mantê-las informadas aqui ou na enfermaria da mesma maneira. Você não vai naquelas lá de baixo da emergência, se é o que está pensando. É uma aqui deste andar."
"Ray..."
"Ok. Pode ser."
Senhora Pillsbury informou que havia algumas pessoas aguardando notícias na sala de espera comum do hospital, e que nossos amigos do coral estavam cientes e a caminho. Não queria que nossos amigos tivessem o trabalho. Peguei o celular da senhora Pillsbury e conversei com o professor Schue. Agradeci a preocupação, mas não queria lidar com ninguém estranho. Soubemos depois que algumas pessoas do coral, alunos de papai e colegas de trabalho vieram doar sangue e esperar por notícias, mesmo que a gente não estivesse disposta a vê-los. Achei comovente.
"Você acha que ele vai conseguir?" – Rachel me perguntou.
"Papai que não se atreva a nos deixar" – brinquei e apertei a mão dela – "Eu ficaria em desvantagem na disputa pela televisão".
Papi apareceu na enfermaria ainda com a touca cirúrgica. Ele estava exausto e arrasado. Cumprimentou a senhora Pillsbury e agradeceu por ela estar conosco todo esse tempo. Primeiro me abraçou. Rachel estava tomando soro na veia com medicação, por isso ele a abraçou com mais cuidado para em seguida sentar-se pesadamente na cadeira.
"Hiram chegou..." – deu uma pausa como se tivesse de se lembrar das palavras. Rachel e eu começamos a chorar mais forte – "em péssimo estado. A equipe conseguiu estabilizá-lo, e as máquinas agora estão fazendo o trabalho delas para sustentar a vida dele, mas vai ser uma luta muito difícil!"
Meu pai quebrou bem na nossa frente. Foi comovente e assustador ao mesmo tempo. Ele era o tipo do homem que não se permitia extravasar emoções na nossa frente. Sim, eu já o tinha visto chorar, mas lágrimas discretas e olhos marejados. Nunca o choro aberto e desesperado. Apressei-me em abraçá-lo e chorei junto. Senti outro braço nos envolvendo. Rachel tinha arrancado o maldito soro para se unir a nós.
...
(Rachel)
Senhora Pillsbury teve a gentileza de nos levar até em casa no meio da tarde. A primeira coisa que fizemos foi tomar um banho, juntas mesmo para não perder tempo. Desde os oito anos que não dividíamos o banheiro daquela forma. Cada uma correu para o próprio quarto e trocamos de roupa. Meu pai tinha dito que deveríamos ficar em casa, mas não iríamos dar ouvidos. Santana trocou o uniforme por uma calça jeans, tênis e camiseta, além do casaco de frio. Eu também troquei o meu vestido por uma roupa semelhante. Teria achado interessante a coincidência numa circunstância melhor.
"Meninas?"
A voz feminina que nos chamou no andar de baixo definitivamente não era da senhora Pillsbury. Das escadas vi a mulher mais alta, cabelos negros, segurando no colo um bebê loirinho de meses de vida. Shelby e Beth. Elas eram as últimas pessoas que esperava ver. Shelby estava morando em Troy, uma cidadezinha encostada em Dayton que fica a 50 minutos de carro de Lima. Foi uma surpresa.
"O quê..." – estava confusa. Santana veio logo atrás.
"Aparentemente o meu telefone está na lista de pessoas que precisam ser avisadas em caso de uma emergência. Tão logo soube que Hiram sofreu um acidente, peguei a estrada junto com Beth. Consegui falar por telefone ainda a pouco com Juan, e ele me mandou para cá. Tenho ordens expressas de segurar as duas aqui e vou cumpri-las custe o que custar. Juan disse que não há necessidade de vocês voltarem para o hospital e Hiram não pode receber visitas na UTI."
"Que moral você tem para nos prender aqui?" – Santana berrou e eu achei por bem segurá-la mesmo ainda me sentindo fraca – "É uma estranha! A senhora P é mais família que você!"
"É um desejo do seu pai. Não importa o que aconteceu no início do ano. Estou aqui para ficar de olho em você que farei, a senhorita querendo ou não. Se não quiser ver a minha cara, então suba para o seu quarto e fique por lá. " – Shelby conseguia ser uma HBIC mais assustadora que Quinn ou Santana. Voltou-se para a senhora Pillsbury – "Emma, não tenho como agradecer por toda a assistência e apoio. As meninas estão em boas mãos agora e se você não se importa..."
"Tudo bem. Rachel..." – ela me abraçou e me beijou no topo da minha cabeça – "estarei disponível para o que precisar" – e abraçou Santana com igual carinho antes de ir embora. Para em seguida voltar de repente – "quase ia me esquecendo..." – tirou da bolsa nossos celulares e os colocou em cima da mesa da sala. Agradecemos mais uma vez.
Beth estava linda. A semelhança que ela tinha de Quinn era notável. Estava em roupas quentes por causa do inverno que já se fazia presente e olhava para todas as direções, curiosa com o novo ambiente. Logo ficou inquieta e Shelby a colocou no carpete para que engatinhasse um pouco. Aproveitou o momento para romper o silêncio estranho.
"Talvez não queiram ouvir isso agora, mas senti a falta de vocês."
"Obrigada Corcoran, mas preferia ir para o hospital dar apoio ao meu pai"
"Estou com Santana!"
"Ok, vamos esclarecer algumas coisas aqui. Em primeiro lugar, nada de 'Corcoran'. Isso é frio demais, informal demais mesmo com no nosso histórico. É 'mãe' para vocês. No máximo 'Shelby'" – ela passou a mão pelos cabelos e continuou – "Vocês têm que ser um pouco racionais aqui: Juan está neste momento cuidando e Hiram. Ele está concentrado toda a energia e o coração dele nisso. Daí vocês aparecem no hospital e aí? Ele vai ficar preocupado com as duas e também com Hiram. Isso não vai ajudar em nada, muito pelo contrário. O melhor que podem fazer é ficarem aqui, comer alguma coisa e rezar por Hiram."
"Mas..." – Santana tentou contra-argumentar, apenas para ver Shelby com o dedo estendido e uma expressão repressora.
"Não apenas eu sou a adulta aqui, como também sou a sua mãe e você vai me obedecer agora".
Santana suspirou e se resignou. Shelby relaxou um pouco mais quando sentiu que venceu a minha irmã no breve jogo de nervos. Eu aproveitei para abraçá-la brevemente. Apesar de tudo, estava grata por Shelby ter aparecido no momento em que mais precisávamos. Santana preferiu sentar-se no carpete para brincar com Beth, nos ignorando.
"Está com fome?" – ela me perguntou.
"Não... eu... nem sei o que fazer."
"Manter a mente ocupada faz bem. Vamos deixar Santana com a irmãzinha dela. Pelo visto, as duas se deram muito bem. Enquanto isso, você me ajuda a preparar alguma coisa na cozinha. Soube que foi preciso você tomar soro e medicamentos na veia. Sinal de que precisa comer, ficar firme para ajudar seu pai, ok?"
Shelby tinha toda razão e eu a odiava por isso. Tinha de me fortalecer pelos meus pais. Não ia ajudar em nada se caísse doente. Fiz pouca coisa além de indicar onde ela poderia encontrar panelas, talheres, e a despensa. Eu não conseguia parar de pensar em papai, mas dar atenção a ela ajudou a me distrair, a me sentir menos fraca. E Shelby mostrou que estava ali por querer, para nos ajudar com o que precisássemos. Foi reconfortante, de certa maneira, saber que mesmo a mãe que tinha me rejeitado duas vezes quis estar presente num dos piores momentos da minha vida apenas para me apoiar. Ela cozinhou rápido. O cheio estava ótimo, mas a gente mal conseguiu tocá-la. Não tínhamos estômago.
A casa encheu no final da tarde. Todos do coral e o professor Schue apareceram, além de abuela, Júlio, Daniela e tia Maria. Parece que houve tensão com o reencontro de Noah e Quinn com Shelby e Beth. Não consegui prestar muita atenção no drama. Aquela casa cheia estava me deixando claustrofóbica e corri para a segurança do meu quarto. Era bom ficar isolada no meu mundinho enquanto o caos se estabelecia no andar debaixo. Não sei precisar quanto tempo depois, Santana juntou-se a mim trazendo Beth no colo.
"Shelby, Quinn e Puck estão conversando lá em baixo na biblioteca e acho que Sam está surtando" – ela deitou-se na minha cama e colocou o bebê entre nós. Comecei a brincar um pouco com Beth – "Brittany me beijou na boca na frente de todo mundo, e deus sabe o quanto eu estava precisando, só que agora a tia Maria está surtada por causa disso e Artie está com uma tromba na cara. Mike e Tina foram buscar o nosso carro lá na escola e já devem estar chegando. Finn só passou. Queria te ver, mas eu não deixei. Então ele disse alguma coisa estúpida que não lembro e foi embora. Acredito que ele me chamou de bitch egoísta. Tia Rosa ligou e disse que estará aqui amanhã de manhã. Júlio está dando em cima da Mercedes" – nosso primo mais velho tinha um fraco por gordinhas. O problema é que Júlio tinha 23 anos e Mercedes, 17. Por enquanto um romance entre os dois seria crime – "Professor Schue pensa que é relações públicas. Abuela está a um passo de mandá-lo à merda" – abuela tem pouca paciência com pessoas como o professor Schuester. Ela era uma militante de esquerda muito objetiva e até um pouco agressiva. Não lidava bem com tipos bonzinhos inseguros.
"Não perdi muita coisa, então."
"Não mesmo!" – Santana virou-se para o meu lado – "segurando bem?"
"Eu só queria que meu pai chegasse logo com notícias."
"Duas."
O quarto ficou quieto, silencioso. Apenas Beth fazia sons adoráveis de bebê no alto dos sete meses de idade. Ao menos ela me fazia rir.
"Santy..." – olhei para a minha irmã, que cochilava. Ela parecia exausta. Eu também estava.
Voltei a minha atenção para a minha outra irmãzinha, que babava em cima dos meus bichos de pelúcia. E eu achando aquilo a coisa mais adorável do mundo. Foi quando alguém bateu em minha porta e em seguida a abriu devagar, hesitante. Era Quinn.
"Oi" – ela estava colada à porta, sem tirar os olhos do bebê – "eu conversei com sua mãe e... ela..."
"Quer segurar Beth?" – perguntei.
Quinn mordeu os lábios, limpou as lágrimas e então se aproximou com cautela. Primeiro sentou-se no fim da cama e assistiu a filha rolando de lado e batendo a mãozinha no rosto de Santana, que imediatamente resmungou o nome da pequena. Mesmo eu vivendo toda a crise, só de observar a cena, me emocionava e era positivo. Quinn inclinou-se na cama e acariciou de leve primeiro as perninhas e depois todo o corpinho do bebê. Ela ria e chorava.
"Quinn" – Santana resmungou – "pegue sua filha no colo, criatura!"
"Santana, porque mesmo dormindo você consegue ser irritante?" – rebati.
Quinn não comentou, parecia estar num transe enquanto continuava a acariciar Beth, perdida no próprio mundo. Depois levantou-se e voltou a posição inicial, sentada.
"Aos poucos" – murmurou mais para si mesma e depois nos olhou como se finalmente tivesse notado nossa presença pela primeira vez – "Shelby disse que permitiria que eu a visite de vez em quando... em datas especiais, como aniversário ou em alguns feriados."
"Bom pra você, Quinn" – Santana foi sincera.
"Você não deveria cometer com sua filha o mesmo erro que Shelby e nossos pais fizeram conosco" – completei.
"É" – limpou mais uma vez as lágrimas no rosto e riu quando Beth rolou mais uma vez para cima de Santana, que pegou o bebê e a ergueu. Beth abriu um largo sorriso e mexeu as perninhas e os bracinhos. Santana a colocou com cuidado de volta a cama e então se sentou.
"Tem certeza que..."
"Não... se eu a pegar no colo agora... posso sair correndo com ela..."
"Entendo!" – Santana e Quinn trocaram olhares cúmplices.
"Eu sinto muito pelo o que aconteceu ao pai de vocês. Passei no hospital para doar sangue e rezo para que ele possa se recuperar."
"Obrigada" – Santana e eu respondemos ao mesmo tempo.
"Vou deixar vocês descansando" – levantou-se da minha cama e foi em direção à porta – "se vocês precisarem de qualquer coisa... eu não tenho muito que oferecer, e sei que a nossa relação nunca foi das melhores... com nenhuma das duas... mas quero que saibam que podem contar comigo. De verdade. Eu realmente me importo com vocês. Mais do que imaginam."
Acenamos positivo e Quinn deixou o meu quarto.
"Isso foi intenso!" – comentei, mas Santana me ignorou, perdida nos próprios pensamentos.
Poucos minutos depois de Quinn, foi a vez de Shelby entrar no meu quarto, e foi menos formal e hesitante do que a nossa colega. Avisou que a maioria das pessoas tinham ido embora, só ficando na casa tia Maria e abuela. Disse que ia passar a noite conosco, mas antes precisava sair para comprar algumas coisas, como escova de dente. Perguntou se poderia deixar Beth aos nossos cuidados. Por que não? Ela não era a minha irmã caçula? Talvez Beth tenha operado alguns milagres em nossa família.
Santana e eu descemos para ficar com abuela. Eu não sei o que de especial aquela velha senhora chilena tinha, mas só de ficar próxima, eu me acalmava. Era quase o mesmo efeito que papai transmitia quando me abraçava na sala de TV e me ninava dizendo palavras doces e reconfortantes.
"De cualquier manera, Dios sólo se reserva lo mejor. La confianza en Dios, mi niña."
Eu e Santana ficamos encostadas em abuela, nos beneficiando do amor de nossa avó. Santana acabou dormindo no colo de nossa velha até o momento em que meu pai chegou ainda com o jaleco no corpo. Ele passou direto para a biblioteca, onde se sentou na poltrona favorita dele. Nós o seguimos, ansiosas por qualquer informação.
"Hiram... eu sinto minhas filhas" – começamos a chorar novamente, dessa vez mais forte – "eu fiz de tudo... juro que fiz. Mas ele teve morte cerebral. Ele não vai voltar mais para nós."
Hiram Joel Berry-Lopez morreu jovem, aos 45 anos, em 12 de dezembro de 2011. Ele deixou duas filhas e um marido.
Eu vou sentir tanta falta do meu pai...
