A HERANÇA DO CÁRCERE - OS FILHOS DO INQUISIDOR

XXIX

Por alguns segundos, Timóteo nada respondera; mas em seguida disse enfim:

- Não me chegou informação alguma acerca disto, minha mãe.

Como era de se esperar, Violante não acreditou no que ele dissera.

- Há ao menos alguma suspeita. Quem pensa que foi?

- Minha mãe, eu penso que pode ter sido algum daqueles "déspotas esclarecidos" da corte.

- Teu pai nunca me deixou frequentar a corte. Então, quem pode ser?

- Há alguns na corte que são a favor do assim chamado "iluminismo". Desejam derrubar o estado teocrático, a monarquia... desejam instaurar a república.

Enojada, Violante fez o sinal-da-cruz.

- Credo! Acabar com os valores antigos! Deturpar o que é o certo e o que é errado! Mas há nomes de quem seja assim?

-...minha mãe, não podemos acusar ninguém levianamente.

- Diga ao menos uma suspeita que possa haver.

- Há muita gente.

A fidalga se enervou.

- Timóteo! Está a se esquivar!

- Eu não quero acusar ninguém.

- Timóteo! - disse ela, mais alto e de forma irritada - Se por acaso vier a se isentar de me ajudar em indicar quem foi que imolou a teu pai, jamais o perdoarei!

- Caso eu tenha alguma informação, direi a si.

Ela suspirou de desgosto.

- Gostaria eu de frequentar a corte, a fim de ver quem são esses tais de "iluministas". Mas teu pai ficaria completamente desgostoso de me ver a fazê-lo! E também, apesar de já ter idade, sou uma mulher com vasto dote; as pessoas sabem disso. E sabem que sou fidalga. Algum interesseiro poderia querer me propor casamento ou cousa do tipo; não posso me expor a esse tipo de impropriedade.

- Minha mãe, agora ainda está cedo; o luto ainda precisa ser cumprido. Mas após tal período... não gostaria de se casar?

Ainda com raiva, Violante estapeou o rosto do filho.

- Teu pai ainda quente na cova e tu a querer me arrumar outro homem! Eu, uma mulher que nem pode mais ter filhos!

- Pode se sentir sozinha com o tempo.

- Tenho cá meu neto, meus filhos... preciso de quem mais?

- É diferente de ter um companheiro.

- Ora! E tu és padre, que sabe de ter um companheiro ou não?!

-...meu pai era frade e viveu consigo por quase trinta anos.

- Estás muito ousado pro meu gosto! Ora vamos! Vou dormir.

Irritada ainda, Violante sequer se despediu do filho ao ir dormir. A suspirar de apreensão, Timóteo passou a pensar em como seria difícil continuar a levar a mãe daquela maneira; ele sabia quem era o mandante do assassinato do pai, e lhe parecia quase impossível continuar a esconder isto dela por muito tempo.

OoOoOoOoOoOoO

No dia seguinte, Teodora tomou o desjejum com Pedro e Timóteo outra vez; depois, perguntou ao marido:

- Pedro, eu gostaria hoje de sair um pouco com Timóteo e conversar com ele acerca de algumas cousas. O senhor me permite?

Ele riu.

- Ora, vejam! É teu irmão, não vejo mal algum nisto. Pode ir, sim; não sou como teu pai, que restringia que abraçasse até mesmo a teu irmão.

Sentaram-se todos à mesa para tomar o desjejum. Após Julinho comer também, Teodora o mandou para ficar junto de Mariana, e passou a falar sobre o que planejava com Pedro após o fim do luto; morariam com a mãe dele, dona Isabel. Ele já havia conversado com a mãe sobre isso, e ela concordava.

Timóteo assentiu, porém indicou a eles que por ora suspendessem esse assunto; Violante poderia se levantar a qualquer momento.

E de fato foi assim que aconteceu; em breve Violante levantou-se, ainda descomposta, mas logo mandou que Mariana a arrumasse. Julinho ficava o tempo todo tentando falar, mas a fidalga ralhou de forma tão pesada e ríspida com ele, que o menino foi chorando até a mãe para pedir colo. Teodora olhou a ela, já adivinhando que a partir daquilo o dia não seria fácil.

E não seria mesmo. Logo Violante apareceu à mesa de refeições, já composta, vestindo negro, os olhos cheios de raiva do mundo e principalmente da filha, que ainda tinha seu companheiro - e ela já não tinha mais o seu. E foi com raiva que tomou a refeição, e foi com raiva que anunciou que àquele dia desejava ir à igreja com Timóteo a fim de rezar mais novenas a Expedito.

Teodora esperava que a mãe saísse da mesa para falar algo a Timóteo, mas ela não saiu; então ela tomou coragem e disse mesmo assim:

- Minha mãe, hoje eu não vou à igreja.

Violante parou de comer na mesma hora.

- Como não vai?

- Preciso sair com Timóteo.

- Que sair com Timóteo! Teu pai precisando que rezem por ele e tu a querer bater perna com teu irmão?!

- Preciso me confessar com ele.

- Pois te confesses na igreja mesmo!

- Gostaria de ir ao parque com ele.

- Pois não! Não deixo! A morte de teu pai é muito recente, não vai!

- Minha mãe, meu marido me permitiu que eu fosse. Então eu vou.

- Teu marido te permitiu?! - vociferou ela, a olhar furibunda para Pedro - Como que me permite uma cousa dessas?!

Pedro tomou a palavra:

- Não vi mal, ela precisa se confessar-

- Não vê mal! Ah, não vê mal! Pois está bem assim, não? Tua mulher sai, faz o que quer - e o senhor não faz nada! Pois então faço eu! Manterei os ditames de Expedito nesta casa, custe o que custar! Não vai e ponto final!

- Minha mãe! - disse Teodora, com a voz firme - Sou uma mulher casada, quem determina o que faço ou não, não é mais a senhora, e sim meu marido!

- Ah, mas vamos ver se não determino!

E foi ela para dentro do quarto onde dormia. Pensavam todos que aquilo era uma trégua, mas logo viram a matrona vir louca, ensandecida, os olhos queimando de raiva, a brandir o chicote que antes era de Expedito - e que a ferira tantas outras vezes antes.

- Pois vai à igreja senão te bato com o chicote!

E tentou ela a brandir o instrumento contra a filha - porém Timóteo foi para cima dela a fim de desarmá-la. Mas a força da raiva dela era tão grande, que surpreendentemente Violante conseguiu se livrar dos braços do filho e partiu para cima de Teodora, a agarrá-la pelos cabelos e a bater em seu rosto com fúria. A moça tentava se proteger com os braços, mas era em vão; um demônio parecia ter tomado conta do corpo dela, dando-lhe força sobre-humana.

- Vagabunda! - gritava ela, a plenos pulmões - Vagabunda! Vagabunda! Como faz isso com a memória de teu pai?! Vagabunda!

- Deixa-me! Deixa-me! Pelo amor de Deus, deixa-me! - gritava ela, a tentar se livrar da mãe mas sem sucesso.

- Vai por a roupa negra pra irmos à igreja! Vai por!

Timóteo e Pedro agarraram a fidalga pelos punhos, mas era difícil; ela estava como que possuída de fato, o rosto rubro de cólera, os cabelos descompostos. Enquanto eles ainda a seguravam, ela ainda gritava: "Vagabunda! Vagabunda!"

Teodora já não segurava as lágrimas, que despontavam em seus olhos contra a sua vontade. Mariana, assustada, fora com Julinho para fora de casa, para que ele não visse aquilo. E Julinho ficava: vovó tá nevosa? Vovó tá mal? Vovó tá bigano? E Mariana tentava entretê-lo com qualquer cantiga da qual lembrasse.

Lá dentro, após acalmar um pouco a Violante, Timóteo decidiu ser firme:

- Minha mãe, por favor! Ela apenas desejava ir ao parque comigo para se confessar! Isso lá é modo de tratar a ela por conta de tão pouco?!

- Como pode pensar em ir ao parque no período de luto do pai?! Se fosse eu a fazer uma destas! Eu, que sempre cumpri com o luto dos meus com tanto afinco!

Mas nos olhos dela Timóteo via o amargor de uma mulher que tinha inveja da juventude da filha, bem como de ela ainda ter o marido - e Violante estar sozinha.

O padre continuou:

- Minha mãe, se continuar assim, eu a envio ao convento.

- Como ousa?!

- Pois envio! Se ficar a atormentar a minha irmã e a mim, a envio! Mulher sozinha tem de obedecer aos parentes homens mais próximos! Pode fazer suas novenas, mas sem importunar a Teodora por ninharias!

Do ápice de sua raiva, Violante caiu num choro convulsivo. Caiu sentada no canapé, o cabelo meio desfeito pela briga anterior.

- Desde moça é esse o meu destino - o de ser abandonada! Meus irmãos quiseram me enviar a um hospício, meus noivos me abandonaram, meu marido me trancou numa torre sem sequer se aproximar de mim - e agora meus filhos querem me internar num convento contra a minha vontade! Ah, que desgraçada sou eu! De fato, as únicas pessoas que nunca me abandonaram de fato foram meu pai e Expedito! Ah, que desgraçada sou eu!

Teodora a olhava sem dó algum; ela queria tanto ser terrível e depois reclamava quando os demais se afastavam de si! Pois sim!

Timóteo, ainda querendo ter alguma paciência, disse a ela:

- Não teríamos de interná-la caso não agisse assim!

- Pois eu só quero manter a honra da família! A honra da memória de teu pai! Pois como pode, uma filha querer a passear no parque ainda dentro do luto! Quando meu pai me mandava ficar em casa, lá eu ficava! Até para ir à janela eu pedia permissão a ele! E depois com Expedito era o mesmo - jamais o desobedeci, só vivi para a casa e para vós - para ser retribuída desta maneira!

E ficava a chorar ela, como se houvessem lhe batido - em vez de ter sido ela a bater na filha. De repente, ela passou a chamar a criada:

- Mariana! Mariana?

- Mariana foi para a rua com Julinho, a fim de ele não ver as rusgas entre si e Teodora.

- Pois chame-a! Vou à igreja - sozinha! Querem ir ao parque - vão! Vão, se esfalfem! Eu de minha parte vou à igreja com Mariana rezar! E Expedito verá dos céus quem está a ser fiel de fato a ele!

Sendo assim, Pedro chamou a Mariana para que ajudasse a Violante a terminar de se compor. Julinho foi para junto de Teodora, perguntando a ela porque "mamãe tava solano". Ela simplesmente abraçou ao filho e chorou mais.

Após se paramentar, Violante saiu do quarto. E mirou novamente ao filho e ao genro com raiva.

- Fiquem. Fiquem, e façam o que quiserem! Vou à igreja rezar por ele. Ele os observará no vosso pecado!

E saiu então, junto da aia; pela primeira vez em muitos anos saiu às ruas sem o acompanhamento de homem algum.

Pedro então sentou-se junto da esposa e passou a falar com ela:

- Teodora, neste período não é bom que afrontemos à tua mãe.

- Mas como não posso nem ir ao parque?!

- Após o período de luto decidiremos o que fazer com ela. Veja, está velha já; deixe-a fazer que manda na casa. Já não tem mais propósito de vida; vivia para teu pai, agora sem ele...

- Velha?! Pois não pareceu me bater como uma velha! Tinha força até demais!

- Está com raiva de estar sozinha. Da próxima vez, vá rezar com ela; e depois, num outro dia, marcam de ir ao parque.

- Mas agora que ela se foi, quero ir ao parque com Timóteo. Ainda me deixa?

- Sabe que por mim não há problema algum. Apenas tente não arrumar confusão com ela, sim?

- Não quero brigas com ela; mas também não lhe tenho lá grande afeto, pelo modo como age!

- De qualquer forma, sairei agora. Caso queira, pode ir ao parque com Timóteo. Apenas... tome cuidado de voltar antes de tua mãe retornar da igreja.

Teodora assentiu com a cabeça; depois beijou ao marido e despediu-se dele na porta. Após ver-se a sós com Timóteo e Júlio na casa, falou enfim:

- Ao menos ela nos deixou em paz; vamos, vamos aproveitar e ir ao parque. Não sei quando terei outra oportunidade desta!

E assim eles foram, deixando a casa ao encargo das criadas que lá ficaram.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Uma vez lacraia, sempre lacraia! Muitos falam que as dependentes emocionais são boazinhas e doadoras, mas tem umas que são uma boa carninha de pescoço, tipo a Violouca! Ela é terrível, por isso era a única que conseguia aguentar o Morcego - e ainda admirar o troço mesmo apanhando...

No próximo capítulo, a conversa de Teodora e Timóteo no parque.

Abraços a todos e todas que estiverem lendo!