DiadorimRealmente os capítulos – e a própria história – acabaram se tornando uma confusão de personagens inesperados... ando cogitando a possibilidade de reescrever Feitiço Falho, corrigir alguns erros de ortografia, reorganizar passagens que deixaram a desejar, mas só farei isso quando a história estiver terminada (é mais prático, eu acho...). Sobre o sofrimento de Loki... se eu disser que é necessário você acredita em mim? Tipo, vai ser temporário e vai valer a pena, prometo.

PS1: Thanos tá pagando, e caro, pelo que fez ao lindo príncipe. E quando o castigo dele acabar com as garotas da Sweet ainda vai ter o segundo round.

PS2: Acredite ou não eu quase me esqueci da existência do Doom. Acho que a única razão para não tê-lo feito foi porque tinha menção a ele na sinopse.

Me desorganizei um bocadinho porque me enrolei nos estudos para os concursos (e fui prestar alguns nesses últimos fins de semana). Por enquanto nenhuma novidade positiva nesse quesito, mas paciência, em algum momento vai dar certo.

Então, aqui vai um capítulo de fofura colorida desses heróis lindos XD


Contrariando as expectativas Thor decidiu não aborrecer Loki de imediato com pedidos de desculpas barulhentos e abraços de partir a espinha, e nem veio atrás dos Vingadores com desculpas esfarrapadas para seus erros contínuos. Para a surpresa geral tão logo voltara a ter acesso irrestrito aos andares superiores da Torre o deus do trovão fez um desvio curioso – direto para a ala médica – e pediu a um descontente Bruce Banner que lhe explicasse qualquer pormenor relevante sobre a saúde de seu irmão. O pedido, inusitadamente sensato, aplacou a frustração do cientista que concordou em ajudá-lo e apresentá-lo aos "curandeiros" envolvidos no tratamento do deus da mentira.

Thor conheceu Henry e Marco, os médicos que chefiaram todos os procedimentos apesar das recriminações de seus colegas de ofício, e Marabel, Charles, Ilsa e Joe, os enfermeiros que os auxiliaram em cada uma das difíceis etapas do tratamento; e percebeu duas coisas importantes sobre o grupo: primeiro, que eles eram absolutamente dedicados ao juramento que prestaram para se tornarem médicos e que não hesitariam em fazer o que acreditavam ser certo; e, segundo, que não havia nada pior que enfrentar os olhares acusadores de Marabel, a monstruosa enfermeira-chefe.

Quem iniciou as explicações foi o Dr. Henry ao declarar ter entrado em contato com diversos especialista na área de "patologias relacionadas a traumas psicológicos" – seja lá o que isso signifique – e que conseguira alguns resultados promissores com terapeutas envolvidos no tratamento soldados afastados após a guerra no Iraque, entre dados interessantes de sobreviventes de massacres extensivos ao longo da história. Ele descobriu que episódios de pânico, histeria intensa, terrores noturnos, depressão, insensibilidade emocional, agressividade súbita e supressão das memórias mais traumáticas eram alguns dos mecanismos de reação já computados pelos especialistas; e explicou, muito pacientemente, que Loki não somente suportara danos emocionais terríveis nas mãos do Chitauri como fora submetido a novos traumas nas mãos do Carcereiro. A maneira como Loki reagiria em longo prazo era imprevisível. Por agora sabiam que o malandro suprimira as piores memórias do primeiro cativeiro e tentava ao máximo suportar as do segundo e, embora estivesse fazendo um trabalho esplendido no momento, os médicos concordava que a solução encontrada pela mente do malandro era um paliativo frágil, com grande possibilidade de gerar mais problemas no futuro. Como Loki vinha estabelecendo um vínculo sólido de confiança com os médicos e com os Vingadores o grupo acreditava piamente na possibilidade de um tratamento menos invasivo, no qual Loki progressivamente enfrentaria suas memórias e as trabalharia positivamente.

Marabel, como toda santa voz conscienciosa, advertiu Thor a não fazer perguntas desnecessárias – especialmente quando não estava preparado para ouvir a resposta – e o lembrou, num tom acrimonioso inquestionável, que mesmo especialistas da área podiam enfrentar situações desastrosas ao tratar pacientes com um histórico semelhante ao de Loki. Bancar o xereta não era opção.

Em seguida o Dr. Marco tomou as rédeas do discurso. O homem se ateve aos sintomas tratáveis sem intervenção psiquiátrica e explicou cada pequeno problema que poderia persistir ao longo dos anos. A perda da visão era, infelizmente, permanente; algumas das fraturas deixariam sequelas visíveis, incorrigíveis e potencialmente dolorosas; as cicatrizes, embora pudessem ser diminuídas cirurgicamente, não desapareceriam; dores fantasmas podiam surgir ocasionalmente, devido às lesões severas nos nervos e músculos, e as câimbras seriam o pesadelo matinal do malandro pelo resto da vida. O cansaço, também aclarou, deveria desaparecer com o tempo, conforme o corpo se recuperasse e o cérebro registrasse as condições positivas em que se encontrava; e a cefaleia poderia ocorrer tanto pelas fraturas no crânio quanto como uma reação intensa às situações de estresse elevado.

Nas palavras de Banner, Loki era uma Caixa de Pandora só esperando pela calamidade.

No fim do dia – já zonzo com tantos termos técnicos, cansado das inúmeras instruções tácitas sobre o que podia ou não fazer, e terrivelmente faminto – o deus do trovão se arrastou para o andar principal, cumprimentou Barton na cozinha, furtou alguns lanches que Stark escondia nos fundos do armário sob o balcão, e finalmente caiu no sono tranquilo, imaginando como o amanhã seria promissor e nas quantas coisas que gostaria de conversar com o irmão.

Seus planos, porém, enfrentaram um frustrante revés quando Loki se tornou o homem mais requisitado na Torre.

Naquele sábado ensolarado, ao entrar no quarto do irmão poucos minutos antes do desjejum, Thor se deparou com a cama vazia. De acordo com Jarvis o deus trapaceiro convencera Rogers a acompanhá-lo numa incursão à biblioteca da Torre, argumentando ser mais fácil entender a história da Segunda Guerra com alguém que participara dela. Indo até a biblioteca o deus soube que Stark solicitara a presença de Loki numa "consultoria extraoficial" sobre uma atualização que pretendia fazer nas armaduras de comando remoto. Conhecendo os hábitos do Homem-de-Ferro e sabendo muito bem que Loki ignoraria sua presença por completo caso estivesse gostando da conversa, Thor se contentou em adiar o encontro para a hora do almoço.

Ironicamente os agentes Barton e Romanoff também traçaram planos para o dia. À tarde ambos decidiram fazer a refeição no andar de treinamento e arrastaram Loki junto na esperança de convencê-lo a lhes contar qualquer coisa interessante sobre as técnicas de batalha usadas pelos asgardianos. Nesse ponto – já de péssimo humor e após engolir o almoço sem sequer se dar ao trabalho de saboreá-lo – Thor marchou para a área de treino... e recebeu a agradável notícia de que Banner levara o malandro para a ala médica afim de conferir o andamento dos tratamentos e tirar mais alguns pontos.

Agora, parado no meio do corredor, Thor encarava a porta como se esperasse ser eletrocutado ao tocá-la ou, com muito azar, levado a uma dimensão paralela desconhecida. Estava receoso. Parecia-lhe que tudo, toda a sua vida e todo seu destino, se resumia a estender a mão, apoiar os dedos no metal frio da maçaneta, movê-la para baixo e entrar no quarto. Sabia que era tolice pensar assim, mas não podia evitá-lo.

"Precisa ser feito", disse a si mesmo, "Preciso ir em frente".

Repetindo incansavelmente esse mantra Thor encontrou a coragem de que precisava, abriu a porta e entrou no quarto.

Foi estranho notar que embora o espaço estivesse organizado conforme o gosto particular de Loki – como uma versão simplificada de seus aposentos em Asgard – havia pequenos vestígios dos Vingadores nos detalhes do lugar. Sob a iluminação suave Thor avistou as pilhas de livros ordenadamente dispostos ao lado da cama e os pedaços de papel repletos de anotações espalhados sobre o criado-mudo, dividindo espaço com um pequeno jarro de flores e o abajur decorado com cristais facetados. Um tabuleiro de xadrez novinho, com peças de porcelana e cristal, jazia sobre a poltrona esperando pelos jogadores; e um tablet, exibindo uma imagem 3D de um braço robótico esperava pelo retorno do usuário. As janelas estavam fechadas e as cortinas cuidadosamente afastadas, oferecendo uma vista panorâmica inigualável da cidade abaixo.

E mais uma vez Thor se pegou apreciando os esforços de seus companheiros para tornar a estadia de Loki na Torre o mais confortável possível.

"Sou o único que está em falta com você, irmão", admitiu contrito.

Pigarreou baixinho para desfazer o nó na garganta e olhou para o alto.

– Jarvis?

– Em que posso lhe ser útil, senhor?

– Pode dizer onde Loki está agora? – perguntou cruzando os braços com determinação. Estava disposto a esperar a noite inteira para conseguir conversar a sós com o irmão.

– Ele está no banheiro, senhor. – a voz sem corpo informou. – Deseja que o chame?

Thor arregalou os olhos.

– Banheiro?

– Sim, senhor. – confundido a pergunta retórica com uma indagação real o AI completou: – Banheiro é o local onde...

– Eu sei o que é um banheiro. – Thor ergueu as mãos para impedi-lo de continuar.

– Deseja que eu o chame agora?

– Que?... Não! – olhou por cima do ombro. – Obrigado pela oferta, Jarvis, mas não seria uma boa ideia.

Sorrateiramente, pois se recordava muitíssimo bem do quanto Loki podia ser escrupuloso com a própria intimidade, Thor se esgueirou até a entrada do banheiro e encostou a orelha na superfície de madeira. Captou o som abafado do chuveiro em pleno funcionamento enquanto uma voz rouca praguejava baixinho contra as "malditas embalagens midgardianas" e quase não conseguiu conter o riso ao imaginar Loki discutindo com os fracos de shampoo e condicionador que Stark disponibilizava em todos os banheiros particulares da Torre.

Empolgado demais para confiar em si mesmo Thor recuou alguns passos, encarando a vista panorâmica proporcionada pelas janelas amplas, e tentou pensar no que exatamente queria fazer quando estivesse frente a frente com Loki.

"Vou começar perguntando como foi o dia dele. Ele terá muito sobre o que falar. Vai ser divertido. Poderíamos falar sobre Asgard e... Pensando bem, melhor não. Seria uma péssima ideia. Então... xadrez? Sim! Não! Eu nunca me lembro das regras e vamos acabar discutindo. Será que ele ainda lembra do tabuleiro que destruí da última vez? Ah... provavelmente lembra sim... era o favorito dele", os pensamentos se amontoavam, tópicos iam e vinham depressa demais para registrar, e antes mesmo que formulasse uma ideia concreta já descartava o raciocínio por um que parecesse mais promissor.

Antes que entrasse em parafuso com as próprias ideias Thor ouviu um baque surdo, de arrepiar, vindo do banheiro. Por um segundo atordoante o deus congelou – assaltado por imagens tenebrosas do irmãozinho desacordado – para então voltar à vida e correr para a porta. Abriu-a com um tranco tão violento que quase a arrancou das dobradiças e disparou na direção do box abrindo a porta corrediça num movimento amplo.

Loki o encarou, emudecido pelo espanto.

– Mas o que...

– Você está bem irmão?! – Thor esbravejou avaliando-o da cabeça aos pés, procurando qualquer sinal de perigo ou ferimentos novos.

Movido pela adrenalina não lhe passou pela cabeça que, se Loki estava de pé – e prestes a fulminá-lo com o olhar – então não poderia ter sido ele a cair. Tudo em que pensava era a história escabrosa que Darcy contara sobre pessoas inocentes e desavisadas que escorregavam durante o banho e eram encontradas meses depois pelos vizinhos ou pelo corretor de imóveis que planejava vender o apartamento.

– Estou ótimo, Thor. – o malandro sibilou acidamente.

– Eu ouvi algo cair.

– Derrubei o sabonete. – para provar o ponto apontou para a barra de sabão lilás largada no chão. Apertando os olhos Loki o encarou duramente. – Você estava me espionando?

– Ahm... – tartamudeou inquieto. – Sinto muito, irmão. Eu não pretendia invadir... e não queria espiar... só pensei... achei que podíamos... eu queria conversar...

Constrangido baixou a cabeça. Para começar, o que exatamente pretendia dizer? O que podia dizer?

Os avisos dos médicos ecoavam em seus ouvidos, travando uma batalha cansativa contra as centenas de coisas que sentia precisar contar, e Thor sentia a autoconfiança abandoná-lo e seus planos desmoronarem. No passado o simples fato de estar próximo a Loki o tornava mais confiante, mas agora, pela primeira vez, entendia o quanto esse homem era diferente daquele com quem crescera.

Pouco restara do príncipe de modos gentis, com seus gestos melífluos, voz hipnótica e inteligência arguta; o Loki diante de si – e precisava se acostumar logo com o fato – vira o pior do mundo, perdera muito no caminho de volta e agora traçava planos menos elaborados para o próprio futuro.

O manipulador astucioso jamais voltaria.

Mordendo o interior da bochecha Thor conteve a avalanche de palavras que ameaçava derramar e deu-se conta, com grande alívio, que durante tudo o dia quisera simplesmente estar próximo ao irmão. Não eram as perguntas sem respostas que o incomodavam, nem as oportunidades perdidas... era tão somente o fato de Loki estar afastado o atormentava.

– Thor? – o malandro chamou jogando água em seu rosto. – Fora.

– Ah, sim. – deu meia volta, notando as roupas largadas displicentemente sobre o tampo da privada. – Quando sair... podemos conversar?

Com um gesto impaciente Loki fechou a porta de vidro.

– Tudo bem. Se quiser, conversamos até sobre a lua, mas me deixe tomar meu banho em paz.

Sorrindo amplamente Thor recolheu as roupas espalhadas pelo banheiro e as jogou cerimoniosamente no cesto de roupas sujas num canto. Preparava-se para sair e esperar o tempo que fosse necessário do lado de fora quando decidiu, por impulso, dar uma última espiadela no irmão. Através do vidro embaçado divisou a sombra de Loki inclinada para frente, um braço apoiado na parede enquanto o malandro se esforçava para alcançar o sabonete.

A imagem tenebrosa de Loki escorregando e caindo de cara assustou o deus do trovão que voltou correndo ao posto anterior.

– Loki! – chamou, pela segunda vez abrindo o box num rompante.

– Oh, Norns... O que é agora?! – resmungou endireitando-se.

– Quer ajuda?

– Não preciso de ajuda. – rebateu entre dentes.

– Tem certeza?

– Sim.

– Absoluta?

– Sim.

– Tudo bem... – cruzou os braços desafiadoramente. – Então pegue o sabonete.

Sem palavras Loki o encarou por demorados segundos, as bochechas pálidas coradas pela indignação enquanto elaborava uma resposta a altura da provocação. Logo recobrou o controle, empertigou-se no máximo de sua altura e deu-lhe as costas com toda a dignidade.

– Não preciso. Já terminei. – desconversou com óbvio aborrecimento.

– Irmão... – enfurecer Loki não estava em seus planos. Se quisesse ajudá-lo precisaria agir como se não quisesse ajudá-lo. Pensando nisso emendou depressa: – Lembra-se de quando Tyr concordou em me treinar e colocou aqueles pesos nos meus braços?

O malandro pensou um pouco e em poucos segundos tinha um sorriso amplo estampado no rosto magro.

– Como poderia esquecer? Você sequer conseguia levantar um garfo.

Animado pela resposta Thor insistiu:

– E lembra-se do que fez por mim na época?

Trocaram discretos sorrisos cúmplices. Na época, impossibilitado de mover os braços, Thor teria desistido do treinamento nos primeiros dias se não fosse a ajuda discreta de Loki. Por noites a fio o deus das trapaças contrabandeara refeições, bebidas e tônicos para ajudá-lo, isso para não mencionar as dezenas de vezes que o salvara de situações mais críticas ao fornecer pequenos feitiços defensivos durante os treinos com espadas. Era uma memória agridoce, que servia muito bem à ocasião.

– Eu diria... – começou cautelosamente – que tenho uma dívida de longa data e que esse seria um bom momento para compensá-la. – colocando nesses termos a oferta soava como uma permuta justa e dificilmente ofenderia os brios de Loki. – Ou talvez prefira esperar até estarmos enrugados como duas múmias e tão senis que nem lembraremos para quê serve o sabão.

Embora mantivesse a postura rebelde havia um brilho divertido no olhar e um meio sorriso que indicavam o quanto a raiva de Loki fora aplacada. O malandro suspirou.

– Que seja. – estreitou os olhos numa última ameaça: – Mas tente não desfazer nem um único ponto. Banner arrancaria sua cabeça se arruinasse o trabalho dele.

Sorrindo de orelha a orelha Thor anuiu humildemente.

– Serei cuidadoso, prometo.

Receoso de que Loki mudasse de opinião Thor se livrou dos sapatos e meias rapidamente, arregaçou as mangas da camisa e ergueu a barra da calça tanto quanto podia antes de entrar no pequeno espaço retangular e recolher o sabonete caído. Ensaboou as mãos, aproveitando a água agradavelmente quente – uma das pequenas maravilhas do mundo humano – e então se voltou para o irmão.

– Pronto? – perguntou animado.

– Será que você podia parecer menos feliz?

– Claro. – concordou, mas não conseguiu desfazer-se do sorriso bobo.

Exasperado Loki estendeu o braço esquerdo.

– Pensei que ia querer começar pelas costas... – Thor franziu as sobrancelhas.

– Meu corpo, minhas regras. – cortou impaciente. – É pegar ou largar.

Fazendo pouco caso do temperamento genioso Thor aceitou a tarefa. Ensaboou o braço magro com cuidado, contornando criteriosamente os braceletes dourados – notando as leves queimaduras na área do pulso – e evitando os locais onde a pele apresentava um tom avermelhado sensível. Traçou o contorno suave dos músculos, emaciados pela falta de comida e exercícios, e deu-se conta de quanto esforço Loki precisava empregar simplesmente para manter o braço erguido numa altura mediana. Terminada a primeira etapa, tomando o silêncio do moreno como uma aprovação tácita, Thor ensaboou o braço direito tão esmeradamente quanto o outro e sorriu.

– E então? – provocou divertido.

– Aceitável.

Em um gesto de delicada confiança Loki desviou o olhar e deu meia volta, concedendo-lhe acesso às costas. Qual força misteriosa o impediu de jurar morte eterna ao Carcereiro ou o fez sufocar o soluço magoado que ameaçava escapar Thor não sabia, mas sentia suas mãos tremerem incessantemente enquanto tateava a pele frágil exposta.

As feridas nos ombros e na altura dos quadris ainda não haviam curado por completo, a maioria reaberta por movimentos descuidados do próprio malandro ou por alguma atadura retirada com menos perícia; nas áreas em que o processo de cicatrização avançara podia entrever a nova pele, ligeiramente rosada pelo contato com a água morna. Ao longo da coluna, prometendo mais uma cicatriz indelével, seguia uma linha de suturas irregulares que tentavam manter a carne unida sobre as vértebras.

Quando Thor estendeu as mãos para tocar aquela porção de pele em particular o fez suavemente, quase reverente, amaldiçoando-se interiormente por sua ingenuidade e jurando jamais cometer esse erro outra vez.

A segurança e a felicidade de Loki eram sua prioridade agora e para o resto da eternidade.

Pulou a área dos quadris e nádegas com um meio sorriso, imaginando a fúria silenciosa do irmão caso se atrevesse a ir tão longe, e passou para as pernas. Nesse ponto tornou-se consciente de quanto esforço o trapaceiro necessitava empregar para manter-se de pé e compreendeu porque Rogers e Banner insistiam acompanhá-lo nas incursões pela Torre.

O joelho estraçalhado estremecia ao menor movimento e o quadril lesionado impedia que o peso do corpo fosse adequadamente distribuído para a outra perna, somando-se a isso existiam fraturas menores e queimaduras dolorosas. Em geral parecia um verdadeiro milagre Loki conseguir ficar de pé sem chorar de agonia.

"Quanta dor é possível suportar antes de os sentidos ficarem amortecidos?", a pergunta mórbida assombrou o deus do trovão, que rapidamente entregou o sabonete ao irmão fingiu procurar o frasco de shampoo na prateleira.

Acreditando ter dado ao malandro tempo suficiente para cuidar de si mesmo ("Lamento irmão, mas há lugares que eu não tocaria nem por todo o ouro do Reino") Thor resmungou qualquer coisa e pegou o produto que simulava procurar, despejando uma porção generosa nas mãos. Aromal floral... Loki ia matá-lo.

Sorrindo amplamente voltou-se para o irmão que, como o esperado, franziu o cenho numa carranca amarga.

– Nem pense nisso.

– Mamãe ficaria furiosa se ouvisse você dizer isso. – rebateu.

– Você está tentando me manipular? – bufou incrédulo. – Para começar, usar isso não daria certo. E você já cheirou essa coisa?

Vendo Thor continuar a encará-lo como um cãozinho chutado Loki resmungou.

– Oh, Norns... Eu mereço. Certo, vamos fazer como você quer.

– Confie em mim, irmão.

A expressão ranzinza suavizou discretamente e Loki inclinou a cabeça para frente.

– Apenas prometa não puxar...

Embora estivesse acostumado à crueza dos campos de batalha e seus dedos estivessem calejados pelos treinos constantes, Thor conseguiu ser incrivelmente gentil enquanto os passava pelos cabelos escuros, desfazendo os nós mais teimosos e, ocasionalmente, desprendendo dos fios embaraçados pequenos fragmentos estranhos que os enfermeiros não conseguiram remover antes.

Desembraçou as madeixas longas com um sorriso tranquilo no rosto, imaginando os comentários exasperados de Frigga sobre cortes de cabelos mais adequados a príncipes e as risadas contidas que seus amigos dariam se ouvissem essa conversa, e estava tão entretido nisso que se surpreendeu ao sentir Loki apoiar a cabeça em seu ombro.

– Irmão? – chamou preocupado.

– Sim...? – a resposta sonolenta veio acompanhada de um longo bocejo.

– Preciso tirar a espuma. – emendou para disfarçar.

Debaixo do jato de água morna Loki estremeceu e pareceu despertar do torpor, mas deixou-se apoiar por Thor enquanto este lhe enxaguava os cabelos. Em poucos minutos ambos abandonaram o box e o deus do trovão envolveu o outro num roupão macio antes de guiá-lo para o quarto.

Sem uma única palavra Loki sentou na beirada da cama antes de largar-se sobre ela e se enrodilhar confortavelmente nos travesseiros. Mesmo considerando excelente ver o irmão tão relaxado Thor franziu o cenho.

– Loki?

– Hum...?

– Você não pode dormir com o roupão. – repreendeu devagar.

– Thor... – resmungou apertando o rosto contra o travesseiro. – há pessoas que dormem nuas e você me incomoda por um roupão?

– O roupão está molhado. – argumentou e foi sumariamente ignorado. – Loki? – tentou novamente e nada. Deu de ombros. – Tudo bem... se você ficar resfriado tenho certeza que Rogers não se incomodará em preparar uma canja.

O malandro abriu os olhos.

– Canja não! – gemeu.

– Oh, sim, irmão, canja de galinha.

Ж

O golpe violento do metal contra o casulo de tecidos deixou no ar um eco afiado, um ressoar sutil e límpido, tão cristalino quanto seria o do entrechocar de duas lâminas reais num combate aberto. A pesada espada nas mãos da Rainha rachou e estilhaçou, não restando nada além de pó e uma empunhadura gretada.

Consternada a soberana cambaleou para trás.

A arma que destruíra fora forjada pelos mais habilidosos anões de Nidavellir, uma preciosidade singular criada a partir dos metais mais resistentes já moldados por mãos vivas e impregnada com os mais antigos sortilégios recitados pelos sábios. Um instrumento de batalha letal em todos os sentidos concebíveis... pulverizada após uma única investida.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Não devia acontecer!

Enquanto vigiava o marido a culpa ameaçava sufocá-la.

Quisera tanto fazê-lo entender que os crimes perpetrados por Loki em Midgard foram motivados por circunstâncias muito mais complexas e delicadas que as originalmente imaginadas; desejara tão fervorosamente enfiar algum bom senso na cabeça daquele velho teimoso, que simplesmente não medira consequências, não pensara no mal que aquelas "alfaiates" poderiam causar. E conforme as horas passavam – da noite para o dia e do dia para a nova noite – sentimentos aflitivos dominavam a deusa. Ela se torturava com suspeitas e receios, conjecturas duvidosas sobre o destino daqueles a quem amava, lutando contra medos impossíveis de debelar e ainda mais dolorosos de encarar.

"E se o acordo for um ardil? E se tudo isso, todos os sacrifícios e promessas, forem em vão?" e o pior de todos os temores: "E se, por minha culpa, Thor e Loki estiverem em perigo?"

Caso suas ações recentes viessem à tona ou trouxessem consequências desastrosas Frigga imaginava que lidaria facilmente a desconfiança dos súditos, que enfrentaria a rejeição aberta dos guardas e conselheiros leais ao Reino de cabeça erguida, e sobreviveria a quais quer recriminações que Odin pudesse lhe reservar; não obstante, morreria se se descobrisse responsável – mesmo que indiretamente – por colocar seus preciosos meninos em perigo.

Por ora teria de contentar em despistar os guardas, remarcar os compromissos e lançar promessas vagas para qualquer indivíduo que aparecesse exigindo a atenção de Odin. Impedir que descobrissem o estado do velho deus era sua prioridade. E ela tinha de resolver um problema de cada vez ou enlouqueceria.

"Se eu soubesse que o 'bônus' seria esse jamais teria concordado com ele", lamentou largando-se pesadamente sobre a cadeira e cobrindo o rosto com as mãos.

Esperava que um milagre acontecesse e que, quando voltasse a encarar o mundo, tudo estivesse em seu devido lugar. Não houve milagre, mas talvez estivesse diante do prenúncio de um, porque no momento em que abriu os olhos deparou-se com uma mulher alta, de longos cabelos vermelhos e serenos olhos perolados.

A desconhecida parecia transpirar magia, e o fazia num nível tão essencial e primitivo que, por alguns segundos, Frigga acreditou estar diante da personificação de um feitiço. A mulher, insensível à atenção da rainha, observava o casulo de tecidos.

– Engraçado... não importa quantas vezes eu veja esse encanto... ainda me sinto fascinada por ele. – afirmou casualmente, a voz gentil pouco mais alta que um sussurro.

– Você é...

– Uma das garotas da Sweet Poison? – completou voltando-se para Frigga.

Aquele singular olhar branco parecia traspassá-la, revolvendo recantos sombrios na mente da deusa, e esta, embora não detectasse sinais de ameaça, estremeceu e recuou. Consciente do efeito que provocava a mulher graciosamente baixou o olhar e sorriu.

– Sou Diadorim. – inclinou a cabeça numa reverência sutil. – E minha missão é provar que estamos cumprindo nossa parte do acordo.

De modo gentil Diadorim se aproximou e estendeu para Frigga uma pesada sacola de estopa negra. O material estava gasto, cheio de remendos grosseiros e desbotado pelo uso, mas as fitas douradas usadas para fechar o saco eram novas, de excelente qualidade.

– Por favor, desconsidere as marcas de mordidas. Um dos gatinhos daquela pessoa pegou essa coisa e não queria devolver.

Sem entender o comentário a deusa abriu o saco... e quase o jogou pela janela.

– Oh, Norns! Isso é... é...

– O braço de Thanos? – a mulher assentiu para si mesma. – Ele "acidentalmente" o perdeu durante a captura e pensamos que seria cortês trazê-lo e demonstrar nosso engajamento no acordo.

Procurando acalmar os nervos a Rainha refez o laço da sacola e respirou fundo. Embora a animasse saber que Thanos se encontrava fora de combate e que muito em breve quaisquer outras ameaças à segurança de seus filhos estariam eliminadas, não podia deixar de se preocupar com a possibilidade de outros planos estarem sendo postos em prática ou se indagar quais razões obscuras instigavam àquelas mulheres. O pavor e a euforia mesclavam-se numa sensação paralisante.

– Isso é... esplêndido. – conseguiu dizer enfim. – Mas, o que imaginam que vou fazer com essa coisa?

– Empalhar? – Diadorim sugeriu cinicamente. – Ah, antes que eu me esqueça: também capturamos o Outro, e, no momento, os Chitauri são uma raça quase extinta no Universo.

O escasso controle que Frigga recobrara ameaçava abandoná-la.

Em menos de três dias aquelas mulheres combateram um poderoso oponente, capturaram seu servidor mais leal, e aniquilaram cada Chitauri que encontraram pelo caminho. Sem repercussões graves, nem batalhas desnecessárias; como se nada jamais houvesse mudado a ordem das coisas.

Seus temores eram justificados, sem dúvidas, mas... seria tolice ter esperanças?

– Meu marido... – começou vacilante.

– O feitiço já está se desfazendo. – para provar suas palavras Diadorim segurou entre os dedos alguns fios negros. – Em dois dias, no máximo, Odin estará livre.

Com passadas leves a dama se aproximou da janela principal do aposento e contemplou a paisagem magnífica do Reino Eterno mergulhando no lento crepúsculo.

– Terão tempo de visitar Loki, quando o velho Rei despertar.

– Não poderei acompanhá-lo. – Frigga corrigiu depressa, pensando tratar-se de um teste. – Lembra-se? Minha parte no acordo...

Diadorim a encarou abertamente, os brilhantes olhos perolados refletindo a claridade final do entardecer enquanto sua fisionomia continuava impassível.

– Sobre isso... em dois dias Loki estará à beira da morte e sua parte estará cumprida. – desviou o olhar. – Sinto muito.

Antes que assimilasse o que acabara de ouvir, antes que sequer começasse a entrar em pânico diante do significado daquelas palavras e compreendesse toda a dor e agonia que elas traziam em si, uma rajada de ar adentrou pela janela, agitando ferozmente as cortinas brancas, e Diadorim desapareceu.

Se lhe houvessem arrancado o coração e o destroçado diante de seus olhos teria doído menos. Se a tivessem atacado sorrateiramente, cravando uma espada em seu peito, a sensação de traição ainda seria suportável. Mas aquilo...?

As pernas de Frigga fraquejaram e ela desabou de joelhos, olhando para o nada.

– Não, não, não... – repetia sem parar, quase catatônica.

Lágrimas caíram e toda a esperança a abandonou.

– O que eu fiz? – sussurrou.