Postagem 29. Diários de Motocicleta
(The Motorcycle Diaries, 2004, EUA)
Hoje era um dia diferente.
Digo "diferente" porque não tô a fim de usar aquela palavra tão famosa pra dias como esse: "especial"...
Eu não contei pra ninguém... absolutamente ninguém...
Ninguém sabia... e eu queria que fosse assim!
Hoje eu tava deixando de ser uma "pirralha de dezenove anos".
Tava fazendo vinte anos...
Putz... quando imaginei aquele 2 junto de um 0... chegou a me dar um calafrio...
Tava ficando velha... que coisa!
Se bem que se eu botasse um ponto entr 0, eu podia dizer isso:
"Não tô mais velha não: é só minha nova versão, 2.0. Aproveite e compre. Downloads limitados. Quem viu, viu, quem não viu, paciência!"
Mas na real, eu tava triste...
Motivo?
Era meu primeiro niver sem Rachel comigo...
Melhor mesmo ninguém nem saber que eu tava de niver!
É um saco você fazer niver, e as pessoas se sentirem na obrigação de te dar um presente... porque pra presentear com algo que faz você vibrar lá dentro de alegria, a pessoa que presenteia tem que conhecer muito bem quem será presenteado...
Mas, na Sociedade Fluida de Zygmunt Baumann, em plena Depressão Econômica Mundial, com o Clima cada vez mais furioso, espancando a Economia, vivíamos num verdadeiro Titanic social:
O imenso transatlântico da Civilização Ocidental havia batido na armada de icebergs que ela mesmo gerou – do calor de suas caldeiras fabris, a temperatura do planeta mudou e nasceu o iceberg que fez o invencível navio começar a afundar!
Com o Titanic afundando, era cada um por si... as pessoas ficavam cada vez mais distantes e superficiais umas com as outras... brigando como cães pelos pedaços de carne que tavam escasseando... cada uma querendo subir sobre o cadáver dos afogados, buscando ascender socialmente, enquanto o Titanic começava a se inclinar...
Imagino o que aconteceria no momento em que o Titanic estivesse tão inclinado que, não suportando a pressão de seu próprio peso, se quebraria em duas partes, afundando ainda mais rápido!
Arrepiante!
E assim, a convivência verdadeira entre as pessoas tava uma raridade naquele convés...
Porque, pra se estar disposto a conviver, você tem que tá disposto a ouvir o outro. E quando você ouve, você aprende a conhecer.
E quando conhece, fica mega fácil presentear a pessoa com algo que a faz tremer de alegria e felicidade!
Mas e quem não queria pagar o alto preço de conhecer o outro?
Fácil!
Te mandava, de niver, um cartão eletrônico padronizado...
Te mandava uma mensagem bem vagabunda, de uma linha, numa rede social qualquer da net...
Ou, se a pessoa tava a fim de tirar a bunda da frente do teclado, ela fazia o máximo: ia numa loja bem ordinária e te comprava uma caixa de bombons...
Sempre a mesma coisa... sempre as malditas caixa de bombons... ah, que criatividade espantosa!
Rachel e Ayaan me conheciam bem.
Mas uma partiu pra um outro mundo.
E a outra? No final, deu na mesma: como se tivesse partido também pra um outro mundo...
Então que Ayaan fique por lá!
Porque na hora que a coisa apertou, quem tava do meu lado?
Hélène!
Ela garanto que saberia ser incrivelmente criativa se soubesse do meu niver! Mas eu nunca que ia querer incomodar uma velhinha tão legal, lhe dando mais trabalho!
Leilene?
Acho que como presente de niver ela sim seria mega criativa: me daria um cálice de cicuta ou um bolo, recheado de arsênico e cianureto!
Ela é que não podia saber! De jeito nenhum! Eu, heim!?
Álex?
Um mistério...
Me evitando, como sempre... escorregadio, igual a peixe liso!
Alguém que me evitava assim, obviamente que nunca ia saber ser criativo no meu niver... Melhor ele nem saber então!
Porque, convenhamos: você receber – de um Orixá Xangô Aganju Pessoal, uma Divindade respirando entre nós! – como presente de niver, uma caixa ordinária de bombons, é de chorar, né?!
Arfff...
Assim, não contei pra ninguém!
E eu levei o meu dia assim...
Mega acabrunhada... murcha... amuada... saudosista...
Tomei uma decisão:
Nunca mais vou comemorar niver!
Pronto!
E assim esse assunto, e tudo o que vem com ele, fica encerrado, definitivamente!
Até que chegou a noite...
Hélène e eu tínhamos acabado de jantar...
Leilene?
Tava nos inferninhos dela, com seus rabos de cachorrinho... como a cabine dupla daquela pick-up blindada devia tá sacudindo por aí, heim!?
Álex?
Tava em casa aquela noite... mas muito esquisito...
Tinha ficado a tarde inteira conversando com a gente!
Quer dizer: conversando com Hélène!
Porque eu tava mega quieta na minha... sei lá... tava querendo ficar quietinha... e também não queria ficar mal acostumada: se eu falasse com Álex ia ser mega gostoso, eu ia querer mais mas... no dia seguinte ele ia tá me evitando como sempre...
Então: melhor cortar o mal pela raiz!
Mas ele até tentou puxar conversa comigo:
- Selene, amanhã haverá um raro Eclipse Solar... e terei um compromisso muito importante...
Eu? Dei uma abertura tão grande ao diálogo:
- Pois é...
- Quero que você me prometa uma coisa: até que eu retorne, amanhã pela noite, não saia daqui de casa, está bem? Fique com Hélène durante todo o dia.
Ai, que saco... agora ele tava tentando me dar ordens, é?
Mas eu não queria papo hoje... tava triste demais... até mesmo pra discutir qualquer coisa ou brigar... por isso eu respondi, com a eloquência dos grandes oradores da Política quando sobem no palanque:
- Tá...
Sei lá que cara ele fez pra mim quando eu disse isso... mas eu não tava mesmo a fim de papo hoje, pô!
Tava triste demais pra abrir a boca pra qualquer coisa...
Pouco depois, sei lá o porquê, Álex tava falando alegremente com Hélène sobre motos. Acho que até eles tavam saudosistas hoje também:
- Lembra, minha flor, da primeira vez que andamos com aquela Harley militar, sobre o gelo?
Hélène deu uma gostosa risada:
- Claro! Como eu esqueceria? Foi na Rússia! No glorioso inverno de 1942! Parecia que estávamos no trenó do Papai Noel!
Harley militar? 1942? Aquele assunto até que me interessou... comecei até a prestar atenção...
- E quem diria, Hélène: liguei o motor dela hoje, e ela ainda nos presentearia com uma boa patinada sobre o gelo!
Opa!
Álex tinha uma Harley, anos 1940, no Casarão? E que, ainda por cima, funcionava?
Não aguentei:
- Hei, isso é sério, Álex? Você tem uma Harley histórica dessas? Que combateu na Segunda Guerra Mundial e ainda tá funcionando?
- Claro!
Exclamei, já toda empolgada:
- Essa eu queria ver!
Ele pousou seus olhos sobre os meus por alguns momentos:
- Sério mesmo que você quer ver? Ou só tá me enrolando? Você ficou aí emburrada o dia todo...
Hei! Não foi bem assim não:
- Eu não tava emburrada, tá? Eu só queria ficar mais quietinha...
Ele deu um sorriso de canto de boca:
- E será que uma moça tão quietinha vai querer ver uma Harley, 1940, que rodou da Espanha até a Rússia, cujo motor ainda ronca potente, exalando o odor perfumado de uma gasolina que eu guardei, ainda daquela época?
Droga, Álex! Isso não vale!
- Como era o cheiro da gasolina antiga? Por favor, você me mostra?
Ele?
Deu de ombros e disse, sem me dar muita bola:
- Está bem...
Descemos até a garagem nova.
Foi aí que eu estranhei, porque ali sempre havia apenas aquela divina Harley nova dele e, às vezes, aquela delícia sanguínea salpicada de prata, aquela arte em quatro rodas de Leilene... porque então ele me levava pra lá, heim?
Na garagem nova, tava ali mesmo só a Oxossi... como sempre...
Foi então que numa enorme prateleira da garagem, repleta de coisas de mecânica – porcas, parafusos, gaxetas, rebites, arruelas, enfim! – ele tocou numa parte dela... e eu ouvi um "clank"!
Álex começou a empurrar aquela prateleira enorme pro lado...
Putz grila!
Aquela prateleira pesada e imensa era uma porta, um portão!
O portão secreto da Garagem Antiga!
Por isso eu nunca tinha visto a tal "Garagem Antiga" antes!
E quando aquele portão foi aberto, e a mão dele tocou numa série de disjuntores, rompendo a escuridão, foi que eu vi!
Um salão imenso! Imenso! Repleto de carros antigos e, principalmente, motos! De tudo quanto é época!
Eu? Cheguei a dar um gritinho:
- Ai! Não me diga que tudo que tem aqui ainda roda?
Ele deu um sorriso sacana:
- Digo sim... Tudo aqui roda e muito bem...
Eu ia ficar ali, paradona, igual a um paspalhona, se ele não pegasse na minha mão e me levasse pra uma parte daquele imenso salão subterrâneo!
Que droga... eu não gostava quando ele pegava na minha mão... ele ia me deixar mal acostumada, droga! Aquilo viciava, pô!
Quando chegamos a um canto especial, lá tavam duas motos, encobertas por lonas... uma lona era cinza... parecia muito antiga... e a outra era uma lona negra: parecia muito nova...
Álex parecia um mágico, fazendo um número, enquanto começava a tirar a lona cinza:
- Preste muita atenção... um... dois... três... e...
Ele descortinou o palco e o show começou!
- Selene, esta é uma Harley-Davidson© WLA 1940... foi quando parei num celeiro, para descansar e esfriar o motor dessa Harley, que acabei encontrando Hélène!
Cara... ela era linda! Tava meio empoeirada, tudo bem, mas parecia ser perfeita! Lógico que ela era perfeita, pra mim: uma Harley histórica, ali, bem ao alcance dos meus dedinhos geralmente curiosos!
- Sabe, Selene, cavalguei muito nela! Rodei com ela, entre 1940 e 1942, desde a Espanha, de Francisco Franco, passando pela França ocupada de Petáin, até a Rússia de Stalin... era uma época bem movimentada pra se fazer esporte, sabe? Mas eu tinha raros dias de folga... nesses dias, eu levava a pequena Hélène para passear... como nos divertimos sobre essa moto!
Eu? Babei:
- Hélène passeava de moto com você? Nessa incrível moto histórica?!
- Sim...
- Putz... uma moto dos aliados, na Segunda Guerra Mundial!?
Ele? Respondeu com espantosa naturalidade:
- Sim... eles a chamavam de "Liberator"... achei-as muito legais... como você diria, Sê: eram "mega" eficientes! Peguei uma, como autopagamento por meus serviços na Guerra... fiz algumas modificações, e ela me rendeu excelentes caçadas esportivas...
- "Caçadas esportivas"... – balbuciei, mega impressionada... já imaginava o que Álex andava caçando! Brrr!
Que arrepio horrível me deu ao imaginar garras como aquelas, de Mr. Caputo, atacando ele e às pessoas!
Mas me saltou uma dúvida, que eu não deixei escapar:
- Hei, que "serviços" especificamente aos Aliados você se refere sobre a Guerra?
- Sei lá... digamos que eu lhes dei um empurrãozinho na Rússia, no inverno de 1941-1942, quando a balança do Karma estava entrando em desequilíbrio...
Putz, eu tava muito curiosa:
- Que empurrãozinho foi esse?
- Deixa pra lá... deixe os créditos históricos para o "General Inverno" de 42...
- Ah, não, Álex! Me conta! Ajoelhou, tem que rezar!
A resposta dele? Eu já devia imaginar, quando aquele sorriso muito suave, no cantinho de seus lábios, se fez visível:
- Não rezo não... acho que não sou o típico cara religioso não, sabe?
Álex, seu safado! Quando você encasquetava que não ia dizer uma coisa, não tinha divindade do Universo que te fizesse falar, droga!
Que raiva pra minha curiosidade, grrr!
Foi aí que ele montou naquela Liberator e disse:
- Pus um pouco da gasolina daquela época nela... ainda tá a fim de sentir aquele "fedor"?
- Lógico!
Ele deu a partida!
Nossa, o ronco daquela máquina histórica era... lindo! Eu tava ouvindo o som de engrenagens e pistões que fizeram História!
E o odor daquela gasolina era incrivelmente forte... putz, entrei numa máquina do tempo!
Mas ele tinha razão, pois o odor entrava muito fundo nas narinas: mas quem disse, afinal, que a História sempre é perfumada, heim?!
Quando eu comecei a tossir, Álex desligou sua Liberator!
Fez um carinho sobre o tanque dela, dizendo:
- Hora de dormir de novo, velha companheira! Nada de se exceder! Uma dama da sua idade precisa sempre se resguardar dos excessos!
Eu?
Acabei rindo!
Nossa... logo eu... naquele dia... em que fiquei triste o dia todo... tava rindo!
Quando eu ri, Álex me disse:
- Hum... finalmente vi você sorrir no seu aniversário, heim!
Como é que é?
Que papo é esse? Fui direto ao ponto:
- Como você sabe que hoje é o meu aniversário, se eu não contei isso pra ninguém? Nem Hélène, que conversa um monte comigo todo dia, sabe disso? Ou será que foi a mediunidade de Hélène que te revelou?
Álex? Fez uma cara de moleque... daqueles terríveis, sabe?
E assim me respondeu:
- Hum... digamos que há certos sites governamentais de Happy Harbor, como o do Departamento de Identificação, por exemplo... pobrezinhos, possuem uns sistemas de segurança tão, digamos, banais e infantis... e digamos que às vezes alguém se diverte um pouquinho, penetrando nos buraquinhos desses queijos suíços, só para dar uma passeada por dentro da fábrica de queijos e ver como andam as coisas...
Fiz pra ele um olhar de tremendo espanto:
- Quê?! Você hackeou sites do governo?
Ele? Ergueu uma das suas sobrancelhas e falou, quase cantarolando:
- Eu não falei nada sobre hacker... é você quem está dizendo isso...
Comecei a rir!
Álex! Você não presta mesmo!
Será que é por isso que eu adoro você?
Imagina...
Foi então que ele falou:
- Bom, como hoje é seu aniversário, eu estava já há alguns dias preparando o seu presente... ele está justamente aqui, ao lado da Liberator. Se você gostar do que está debaixo dessa lona preta, o que ali estiver será seu!
Ai, Minha Mãezinha Oxum! Cheguei a colocar as mãos em concha, no meu rosto!
- Mas será seu só se você gostar... quer retirar a lona?
Eu? Parecia criança em parquinho:
- Quero, quero sim!
Eu peguei a ponta da lona preta... chegou até a me dar um medo, sabe?
Respirei fundo... fechei os olhos... vou tirar a lona numa puxada só... muita calma nessa hora, Selene... respira... um.. dois... três!
Abri um dos olhos...
Não pode ser!
Não podia ser!
Mas era!
A minha Luna!
Era a MINHA Luna!
Completa... total... e absolutamente consertada!
Ela tava linda!
O presente que Rachel havia me dado com tanto amor e sacrifício tava agora ali... na minha frente!
Ressuscitado!
Enquanto eu me controlava pra não chorar na frente dele, Álex me disse:
- Eu fiz algumas modificações nela... está mais potente e mais econômica... mais estável, mais firme e... mais veloz! Se você olhar no tanque dela, verá que esculpi, em alto-relevo, à esquerda, em ouro, o nome e idade de alguém: "Selene 2.0"... à direita do tanque, gravei em baixo-relevo, em prata: "Luna". Mas ela será sua apenas se você gostou dessas mudanças...
Cara, o que é isso?
Você chega prum cachorro faminto, sacode um pedaço de linguiça na frente dele e ainda pergunta se ele quer?!
Não me aguentei!
Me grudei no pescoço dele:
- Obrigada, obrigada, obrigada!
Abracei ele com tanta força, e tão inesperadamente, que ele quase perdeu o equilíbrio!
Que vontade que eu tive foi de dar é um beijo nos lábios dele naquele momento!
Ia sair, juro que ia!
E que beijo deliciosamente longo e molhado que ia ser!
Como eu queria que as nossas línguas dançassem enroladinhas, uma acariciando a outra, num bailar de amor!
Selene, o que é isso? Você, se atirando desse jeito?
O que os outros vão falar de você? E ele sempre te evita porque você é feia!
Não faça isso de jeito nenhum! Não se atreva!
Pensamentos cruéis: rápidos, certeiros e letais como uma bala...
Quando tomei aquele tiro certeiro da minha própria CPU, imediatamente eu comecei a sentir um calorão no meu rosto e nas minhas orelhas, sabe? Como se tivessem pegando fogo...
Tá eu já sabia: mode pimentão maduro on!
Larguei o pescoço dele, na hora!
Mas a MINHA Luna... essa eu ia agarrar e beijar, ô se ia!
Minha Luna, bem ali! Viva!
Tava com meus olhos cheios de lágrimas!
Cara, eu nunca ia conseguir agradecer ele por isso!
Nunca!
Nisso, Álex falou, mas eu não consegui prestar muita atenção:
- Eu só ainda não a abasteci... eu tenho aquele compromisso muito sério amanhã... terei mesmo que viajar, aproveitando esta rara ocasião... mas antes de eu partir, abasteço ela para você...
Nossa... eu nem acreditava... a Minha Luna, tava ali... inteirinha!
Álex ainda me disse:
- Vou te pedir um favor, tá?
- Diga, o que você quiser!
Acho que ele fez um ar um pouco preocupado, mas eu não sei dizer porque eu não desgrudava os olhos do meu cavalo selvagem negro:
- Lembre-se mesmo de não sair de casa amanhã, até eu voltar, está bem?
Eu?
Não tava mesmo conseguindo me concentrar direito... era muita emoção, puxa!
Ele salvou pra mim o presente de Rachel!
Ele ressuscitou a minha mais fiel companheira! Minha montaria!
Por isso respondi assim, acho que meio no mode "piloto automático"on:
- Tá bem!
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