A Substituta

Autora: Érika

"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.

Capítulo 10 - Parte 6



A família de Miro era de classe média. Ele tinha dois irmãos: Daffodil, que era um ano mais nova do que ele, e Erasmus, dois anos mais velho. Os pais deles trabalhavam quase todos os dias, salvo sábados e domingos, e as crianças ficavam aos cuidados de uma tia viúva. O lar era estável mesmo que às vezes houvesse alguns problemas devido às travessuras de Miro. Mas no fim, todos eram condescendentes com ele, argumentando que "as crianças são assim mesmo". De fato, ele não fazia nada grave nos primeiros oito anos de sua infância. Entrementes, depois desta fase, começou a tornar-se ainda mais irrequieto, sempre querendo que satisfizessem suas vontades. Como logicamente nem sempre era possível, ele se revoltava constantemente, ainda que entre os três irmãos ele fosse o que mais recebia mimos e atenções. Só que para ele não era o bastante. Queria mais.

O tempo passou, e a criança rebelde converteu-se em um adolescente egoísta e por vezes frívolo. Por outro lado, foi nesta época que ele começou a se sentir mais próximo da irmã. Realmente nutria um grande afeto por ela, mas em relação ao irmão era diferente: sentia-se completamente distante dele, considerando-o desagradável, quase insuportável. Mas talvez o que o incomodasse de verdade fosse o fato de seu irmão também ser muito afeiçoado a Daffodil. Aliás, eles sim sempre foram unidos, ao contrário de Miro, que até pouco tempo antes quase não se importava com ela. Então começou a refletir, perguntando-se o que mudara dentro dele. Mas não conseguiu encontrar uma resposta logo. Na verdade, só compreendeu um dia quando viu a irmã na companhia de um garoto. Sentiu uma fúria tão grande que atacou o menino de repente, dando-lhe fortes bofetadas. Daffodil teve que interceder para controlá-lo, mas ficou chocada com a atitude dele.

Neste momento, Miro percebeu que estava começando a se sentir atraído pela própria irmã. E por isso não queria vê-la perto de nenhum rapaz. Nem mesmo de seu irmão. Mas Miro não revelou nada a ela nem a ninguém, tentanto reprimir seus sentimentos. Sabia que não devia, não era correto. Se sua família soubesse, diriam que estava doente. "Talvez eu esteja mesmo", ele pensava. E ficava se perguntando o que aconteceria se Daffodil suspeitasse. Mas depois pensou que isto era altamente improvável, porque ela tinha apenas doze anos. Era uma menina. "E eu também ainda sou quase uma criança. Somente um ano mais velho do que ela. Devo estar confuso. É natural um irmão sentir ciúme da irmã. É normal. Isso não é nada", ponderava Miro, tentando convencer a si mesmo de que tudo estava bem. Decidiu então que já estava na hora de ter uma namoradinha. Assim, nos meses seguintes, ele começou a sair não só com uma garota, mas com várias.

Quando estava perto de completar quinze anos, as idéias mais claras e mais maduro apesar da pouca idade, resolveu assumir o que sentia. Não para todos, é claro, mas para si mesmo. Amava a irmã, queria que ela soubesse, que entendesse. Precisava falar com ela a esse respeito, embora não tivesse coragem. Apesar disso, sentia que era necessário. Pretendia realmente conquistá-la, esquecendo-se de que eram irmãos, esforçando-se para ignorar este fato. Eram irmãos sim, mas tão somente por uma fatalidade do destino. O problema era que não sabia como abordar um assunto de natureza tão delicada. Daffodil certamente demonstraria espanto, talvez até ameaçasse falar com os pais ou com a tia. A esse pensamento, Miro sentiu-se tenso. Ninguém poderia saber, teria que ser um segredo eterno. Mas tão obstinado estava, que prometeu a si mesmo que conseguiria ter a irmã para si, apesar dos laços de sangue.

A oportunidade surgiu um dia, quando num fim de semana seus pais se ausentaram devido a questões de trabalho, sua tia foi visitar uma amiga e Erasmus se encontrava numa festividade em seu colégio. Era sábado, noite e Miro sentia-se extremamente perturbado por estar sozinho com a irmã. Muitas idéias perpassavam-lhe a mente e todas pareciam convergir para um mesmo objetivo: conquistá-la. De uma maneira vaga e um tanto quanto confusa, ele tinha a sensação de que aquele era o momento, muito embora não houvesse premeditado nada, obviamente. Não obstante, não sabia que atitude adotar diante daquela situação. Tão absorvido estava em seus pensamentos, que não notou imediatamente a presença de Daffodil, que dirigia-se a ele:

- Gostaria que eu preparasse o jantar agora?

Miro pestanejou por uns segundos, até voltar sua atenção para ela. Com uma voz que não denotava nenhuma inflexão, apenas respondeu:

- Não, obrigado. Eu mesmo faço se você quiser.

- Bem, na verdade não estou com muita fome. Vou apenas lanchar alguma coisa - disse ela.

- Bom, está bem - disse ele. Sua voz continuava inexpressiva, mas seu olhar mantinha-se fixo nela.

Por um instante, Daffodil teve uma noção indefinível de que havia algo estranho. Observou o irmão detidamente, tentando decifrar o que havia nos seus olhos, mas não conseguiu entender a mensagem deles. Miro notou a perturbação dela e, em tom levemente artificial, disse:

- A noite está linda. Vou sair para caminhar um pouco.

- Oh, claro... - disse Daffodil, forçando-se a sorrir. Porém, em seu íntimo persistia a sensação de que seu irmão não estava se comportando de forma natural, como se ele estivesse esperando alguma coisa ou que ela fizesse algo. "Mas o que poderia ser?", ela se perguntava perplexa.

Outrossim, não teve tempo para fazer conjecturas, porque logo Miro marchou em direção à porta, retirando-se para desfrutar um pouco do ar noturno. Então, Daffodil afastou os pensamentos confusos da mente e encaminhou-se ao banheiro.

Miro caminhava por uma praça próxima à sua casa, sentindo a brisa noturna nos seus cabelos e no seu rosto. Isto de algum modo conseguia acalmar toda a sorte de emoções avassaladoras que comprimiam o seu coração. Permaneceu naquele lugar por vinte minutos, até que resolveu voltar para casa. Iludiu-se, acreditando que havia recuperado o auto-controle e o bom senso e que, portanto, não teria nada a temer.

No momento exato em que Daffodil saía do banho, apenas com uma toalha cobrindo o seu corpo, Miro acabava de chegar. Ao ver a irmã nessas condições, sentiu que estremecia. Parecia-lhe a visão mais deliciosamente encantadora que poderia existir na face da Terra. Os cabelos ondulados e negros colados ao rosto ainda úmido do banho davam-lhe um aspecto deveras sensual, apesar de sua pouca idade. Contudo, o olhar de Miro deteve-se na boca da irmã, pequena e delicada. "Como eu gostaria de beijar esses lábios", pensou ele, sentindo-se cada vez mais inebriado perante Daffodil. Esta por seu turno estava visivelmente constrangida. No entanto, seus olhos grandes e azuis olhavam o irmão como a perguntar-lhe por que ele a observava de forma tão insistente. Mesmo assim, ela não formulou a pergunta, e quando finalmente abriu a boca, somente conseguiu articular estas palavras:

- Eu... vou para o meu quarto. Boa noite.

Ao ouvir isso, Miro aproximou-se rapidamente dela e a segurou pelo braço, para impedir que ela se afastasse.

- Não, espere por favor - pediu ele.

- Esperar o quê? Estou com sono, vou dormir - disse ela, enquanto tentava soltar-se. Mas Miro não permitiu e começou a acariciá-la.

- O que está fazendo? - perguntou ela, entre confusa e perplexa.

- Não sei. Acho que estou louco - disse ele com voz rouca.

Miro fez uma pausa, passando a língua pelos lábios secos, e tornou a falar:

- Mas há muito tempo que eu desejava isso.

- Isso o quê? - ela perguntou tensa.

- Estar a sós com você - ele respondeu simplesmente.

- Não compreendo - ela disse ainda intrigada.

- Daffodil... eu sinto que faria qualquer coisa por você - disse Miro, e sem dar-lhe tempo para reagir, beijou-a apaixonadamente.

Daffodil se assustou e no princípio tentou se debater, mas depois, relaxando, até retribuiu o beijo. Logo depois porém, tentou manter distância entre os dois, pondo as mãos no peito dele.

- Isto é impossível! - disse ela aflita. Mas seu olhar revelava a mesma atração que o irmão nutria por ela.

Notando que era correspondido, Miro segurou as mãos dela e disse:

- Ao contrário. É possível. E é por isso que vai acontecer.

Começou a afagar o rosto dela, contornando seus traços com os dedos. Em seguida, beijou-a novamente, enquanto a abraçava fortemente. Por fim, tomando-a nos braços, levou-a para o quarto dela.

Algum tempo depois, findo o ato físico, Miro dizia palavras ternas à irmã, sem perceber contudo que ela não respondia. O olhar dela estava vazio e em seu interior só havia espaço para um sentimento: culpa. Toda a paixão e desejo que ela experimentara momentos antes tinham se dissipado tão depressa como haviam surgido. E então, a jovem começou a sentir muito medo, e uma dor tão desesperadora, que pensou que iria parti-la em dois. Mas Miro, ainda embevecido, continuou insensível a este fato, indiferente à perturbação evidente que dominava sua irmã.

No dia seguinte, Miro estava à mesa desfrutando o café da manhã, acompanhado de Erasmus, o qual chegara bastante tarde à casa no dia anterior. A tia também estava presente. Tinha acabado de chegar. Obviamente tanto ela quanto Erasmus ignoravam o que ocorrera entre Miro e Daffodil.

Erasmus contava a Miro como fora a festa de seu colégio, quando a tia deles disse:

- Vou preparar o café da Daffodil.

Nos fins de semana, Daffodil sempre tomava o café na cama, e geralmente era a tia quem a servia. Porém, ao entrar no quarto da sobrinha, ela estacou com uma expressão horrorizada: Daffodil encontrava-se no sofá, o corpo reclinado, e de seus pulsos escorriam gotas de sangue. Seu rosto estava pálido, nenhum resquício de cor divisava-se nele. Tremendo incontrolavelmente, a tia aproximou-se dela e, verificando que já estava morta, não pôde controlar um soluço. Logo após, começou a gritar.

Miro e Erasmus, ao ouvirem os gritos, correram imediatamente para o quarto da irmã, e ficaram igualmente horrorizados ao se depararem com o seu cadáver. Erasmus, tentando manter um certo autodomínio, correu até a tia para acalmá-la. Miro por sua vez não conseguiu reagir. Estava imóvel, olhando o corpo inerte da irmã, sua mente completamente vazia de quaisquer pensamentos. Erasmus chamou pelo irmão para ajudá-lo com a tia, que continuava histérica, mas notou que Miro parecia estar em completo choque. Sentiu os olhos marejados e percebeu de repente que sua tia já não gritava, somente soluçava baixinho. Porém, não pôde se concentrar nela por mais tempo, porque sua atenção foi atraída por um envelope que se achava na mesinha de cabeceira de Daffodil. Intrigado, pegou-o enquanto lia o que estava escrito: "Perdão, família."

Rompendo o lacre, Erasmus começou a ler o conteúdo:

"Não sei como dar início a esta carta. É muito difícil para mim. Ainda não consigo entender o que aconteceu, o que eu fiz. Certamente estava louca. Miro e eu estávamos a sós, e não sei explicar como tudo começou. Só o que eu sei é que nos beijamos e depois ele me levou para o meu quarto. Tenho consciência de que isto é absolutamente asqueroso, mas eu consenti em tudo. E até gostei. Mas depois que terminou, eu me senti muito mal. Tenho ódio e desprezo por mim mesma. E também pavor e um desespero indescritíveis. Eu juro que não sei o que houve. Eu sou tão nova... nós dois somos muito novos. Eu sou uma criança... e não sei como pude. Com meu próprio irmão! É uma aberração! Eu sou um nojo! Acho que Miro nem sequer percebeu o que eu estava sentindo. Ele saiu do meu quarto parecendo muito feliz. Sim, eu sei que é horrível, mas ele até estava cantarolando. Mas eu não sei, não entendi muito bem, porque me senti muito distante dele, perdida no meu remorso. Por esta razão, estou escrevendo estas palavras. Não posso continuar. Terei coragem? Não sei, mas é preciso. Nunca mais poderei olhar para ninguém depois do ato vergonhoso que cometi. Sei que foi um crime, porque afinal os irmãos não podem ficar juntos. E juro que não compreendo... porque eu sempre senti apenas amor de irmã por Miro. Eu juro! Nunca pensei nele de outra forma. Papai, mamãe... titia... Erasmus, irmão... eu vou embora, com uma imensa inquietação dentro de mim: será que vocês poderão me perdoar pelo que eu fiz com meu próprio irmão? Com nosso sangue? Vocês me perdoarão? Será, mamãe? Papai? Tia, Erasmus? Será?

Daffodil"

Quando terminou a leitura, Erasmus sentiu sua garganta doer, devido à intensidade do pranto que o dominava.

Saindo de seu torpor, Miro olhou para o irmão, atraído pela força de suas lágrimas. O olhar de Erasmus se encontrou com o de Miro e de repente ele parou de chorar. Dirigiu-se ao irmão, e sem dizer uma só palavra, estendeu-lhe a carta de Daffodil. Confuso e aturdido, Miro pegou o papel que Erasmus lhe oferecia e começou a ler. Não conseguiu terminar, a expressão mortificada pela culpa.

Mais tarde, os pais deles chegaram. Erasmus contou-lhes tudo. A tia, que não tinha lido a carta, nem sequer a tinha notado, ficou boquiaberta:

- Mas... não é possível!

Revoltados e desorientados, os pais de Miro o expulsaram de casa. Ele ainda tentou argumentar, recorrendo ao irmão e à tia. Mas apenas viu fúria e asco estampados em seus rostos.

Miro arrumou suas malas, as feições transfiguradas pela angústia, e saiu de casa. Caminhou desnorteado pelas ruas por um longo tempo. Subitamente, lembrou-se de que tinha uma alternativa: poderia falar com seu melhor amigo, um garoto italiano de nome Andrea. "Claro que eu não poderei dizer o que aconteceu. E certamente minha família também nunca dirá nada, pois seria um escândalo", pensou Miro, dirigindo-se apressadamente à casa do amigo. Mas ao chegar lá, recordou que Andrea estava de partida para o Santuário de Athena, posto que seu tio Damiano o treinaria para torná-lo um cavaleiro.

"Bom, talvez ele ainda não tenha ido. Tomara", pensou Miro, enquanto tocava a campainha. Para sua sorte, o próprio Andrea o atendeu:

- Como vai, Miro? Eu ia mesmo até sua casa para me despedir de você, porque amanhã vou a Athenas... mas e essas malas?

Miro ficou calado, a mente tentando furiosamente encontrar alguma solução. Finalmente ele disse:

- É que eu quero ir com você. Também quero ser um cavaleiro.

- O quê? Mas você não tinha demonstrado nenhum interesse por isso - disse Andrea reticente.

- Mas mudei de idéia. Será que seu tio aceitaria me levar? - insistiu Miro.

Andrea ficou pensativo por alguns segundos. Em seguida, disse:

- Entre, Miro. Vamos falar com ele sobre isso.

Damiano estava em seu quarto, arrumando sua bagagem.

- Tio, o Miro quer ir conosco ao Santuário de Athena - disse Andea, entrando na habitação.

- É mesmo? - surpreendeu-se Damiano.

- Sim. Eu gostaria muito de ir - Miro apressou-se em concordar.

- Está certo então. Mas seus pais estão de acordo? - perguntou Damiano.

- Sim - disse Miro com firmeza.

- Ok. Neste caso, você virá conosco - aquiesceu Damiano.

No dia seguinte, os três partiram rumo ao Santuário.

Miro era bastante rebelde nos treinamentos, já que este era um traço sempre marcante de sua personalidade. Por outro lado, Andrea era bastante disciplinado. E teria tido um futuro brilhante como cavaleiro. Mas contraiu uma doença grave e faleceu algum tempo depois de sua chegada ao Santuário. Miro tornou-se cavaleiro derrotando Damiano. Não foi difícil, pois este perdera muito de seu vigor desde a morte do sobrinho, a quem considerava quase como um filho. Miro nunca mais soube nada de sua família e, com o passar do tempo, esqueceu-se até mesmo de sua falecida irmã e de tudo o que havia acontecido. Era fraco de caráter, e esta fraqueza viria a dominá-lo por toda a sua vida.