Capítulo 29 – Adeus...

Por todo o caminho que levava diretamente até a porta do castelo uma grande quantidade de corpos se encontravam caídos ao chão, grande parte sendo de desconhecidos, mas alguns poucos avivavam lembranças junto ao peito do garoto, alguns de Hogwarts, outros do acampamento, mas nenhum realmente chamou sua atenção, ou poderia chamá-la.

Ele já estava no meio do caminho quando pode ver algumas pessoas saírem do castelo, a maioria delas simplesmente observavam atônitas a paisagem, mas uma, dentre todas as outras, caminhava lentamente em sua direção, Moody parecia chocado, mas não parou em nenhum momento.

O auror postou-se a frente do garoto, fitou profundamente os olhos da criança que encontrava a sua frente e desceu o olhar para o corpo que jazia nos braços dela, não foi necessário dizer nada, ele sabia que aquele Harry Potter que havia conhecido cerca de três anos atrás já não existia mais, ele havia sido surrado pela guerra e, agora, destruído pela perda. A sua frente restava apenas um corpo esquelético, de cabelos desgrenhados com uma insignificante, e agora desbotada, cicatriz de raio na testa.

Andaram juntos de volta ao Castelo, Olho-tonto simplesmente acompanhando seu grande amigo, deixando-o carregar o fardo que lhe pertencia e o qual ele não permitiria ninguém tomar.

Harry não dormiu, comeu, falou ou moveu-se nas horas que seguiram o fim da batalha. Ele estava sentado sozinho ao lado do corpo coberto de Hermione no refeitório de Hogwarts, tendo somente movido o olhar no momento em que Rony e Gina entraram pelo grande portal do recinto.

- Harry... – Rony parou, já haviam avisado-lhe sobre o ocorrido, mas mesmo assim ele não estava preparado.

- Harry! – Gina correu ao encontro do amado, abraçando-o e chorando.

Mas Potter não se moveu, ele continuava quieto e atônito, apenas olhando sem olhar e respirando sem viver.

A alegria e a festa que seguiram o fim da guerra não era nem de longe a comemoração esperada por todos, eles imaginavam o fim de uma época como aquela como um momento de festas intermináveis e sorrisos largos, mas agora viam que na verdade este era um momento de dor e luto, não deixando de ser um fim, mas era um fim com um insuportável gosto arrastado de dor.

Moody, pela primeira vez em sua vida, deixava as ordens e a vigília inabalável de lado e descansava em sua própria dor, ele enfrentava o fim pessoal de uma era em sua vida, uma fase que ele viveu intensamente por muito mais tempo que muitos que lhe faziam companhia agora. Assim como todos os outros, estava cercado por diversos amigos, mas solitário no coração, agora ele poderia desacelerar e contar todos os "cadáveres" que preenchiam sua existência.

- Acabou...

- Sim... Acabou – Moody suspirou ao responder a afirmação de Krum.

- E agora?

- Ainda não pensei no agora... Fiquei muito tempo pensando no agora durante a guerra, mas ainda não sei como proceder... São muitos corpos, muitas covas para se cavar...

- Posso ordenar alguns homens para a tarefa de enterrar todos.

- Não! Não enterraremos ninguém com mágica. Todos devemos cavar as covas com nossas próprias forças, todos esses bruxos merecem as honras que lhes são devidas.

- E os comensais? E Aquele-que-não-deve-ser-nomeado?

- Faça uma grande pira funerária com todas as honrarias necessárias, seus corpos não devem permanecer, mas eles ainda foram bruxos e por isso merecem nosso respeito... Já Voldemort... eu não sei, não tenho forças para pensar nisso agora.

- Tudo bem, passarei as ordens. – Krum preparou-se para deixar a sala que o auror ocupava no castelo, mas antes voltou-se uma ultima vez – Moody..

- Sim... – O auror olhou com seus olhos cansados para o corpo robusto do Bulgaro.

- Foi um grande prazer lutar ao seu lado... – Moody simplesmente assentiu.

Harry permaneceu em seu prórpio mundo por um longo tempo, mas em todos os momentos sendo consolado por Gina, recebendo carinho e compreensão, ele não percebeu, mas ela chorava silenciosamente e incessantemente.

Tal cena durou horas, mesmo parecendo anos ao ver do garoto, e somente após este tempo ele voltou a realidade e encarou a figura de sua namorada, ela estava com os olhos inchados e molhados, ele tomou o rosto sardento em suas mãos e enxugou suas bochechas, beijou-lhe a face e a abraçou.

Ela voltou a chorar no mesmo instante, mas mesmo chorando daquele modo ela ainda continuava forte, o pilar que sempre fora desde a morte de sua mãe. Suas lagrimas não demonstravam fraqueza ou abalo, mas sim uma simples e agoniante tristeza que já crescia desde o inicio da guerra.

Eles consolaram-se mutuamente, conversaram vagamente e Harry sem falar deixou claro sua dor por não ter conseguido salvar Hermione, ele estava destruído por dentro, completamente despedaçado, algo que ele nem ninguém nunca imaginou que pudesse acontecer, mas aconteceu.

Gina sabia que nada poderia ser feito a respeito desta dor que ele sentia, aquilo era uma cicatriz que somente ele poderia curar e sabendo disto ela beijou-lhe o rosto, levantou-se e retirou do bolso interno das vestes um envelope dourado, na parte frontal apenas encontrava-se escrito "Para: Harry Potter".

A Weasley estendeu o envelope ao amado e deixou o recinto, deixando-o sozinho com o corpo de Hermione e a carta endereçada a ele próprio.

Com cuidado Harry abriu o envelope e fitou o papel antes de desdobrá-lo, suspirou uma ultima vez e postou-se a ler.

"Caro Harry,

Nunca imaginei que estaria fazendo isto que estou fazendo agora, escrevendo uma carta post-morten, contudo imagino que seja o mesmo sentimento de quem escreve um testamento. Antes de poder ler tudo que tenho a dizer preciso pedir que você pingue uma gota de seu sangue no papel, só assim poderá prosseguir..."

Harry observou por alguns segundos o papel revirando-o em busca de outras palavras, mas não achou nada, com calma puxou sua varinha e com uma simples toque fez um pequeno corte em seu dedo, deixando uma única gota cair no papel.

Nada aconteceu logo que a gota caiu, mas em alguns segundos algo estranho ocorreu, a gota desapareceu e logo depois letras apareciam por todo o papel.

"Me desculpe por isso, mas é a única maneira de saber que é realmente você que está lendo a carta.

Eu esperava que você não precisasse ler isto, mas imaginei que não ficaria muito feliz com a minha morte, então entendo que preciso esclarecer tudo e pedir que compreenda o que eu e Gina fizemos.

Primeiramente não posso dizer que imagino como morri, mas tenho certeza de que isto aconteceria, não se culpe, foi uma escolha que fiz e algo do qual não me arrependo. Não se culpe por achar que não pode me proteger, pois eu iria morrer de uma maneira ou de outra e vou lhe explicar o porque.

Lembra quando você foi atacado por Voldemort e só não morreu por causa da alma dele presa em você? Pois bem, quando você foi encontrada seu estado não era um dos melhores, para falar a verdade sua alma havia sido protegida, mas para isso ela se juntou mais firmemente a de Voldemort, de uma maneira que não sabíamos se ela iria suportar.

A principio todos nós estávamos sem esperanças de que você acordasse novamente, por alguns momento até mesmo eu desisti de tudo, mas algo veio a minha mente e precisava tentar.

Com a ajuda de Snape consegui uma pequena quantidade de Sangue de Dragão e fiz uma poção que Dumbledore havia descoberto quando estudou este reagente. Essa poção necessitava de duas coisas, primeiramente o Sangue de Dragão em seu formato mais puro e em segundo lugar o Sangue de uma pessoa, que compartilha-se um grande laço com o beneficiário, ou seja você.

O intuito dessa poção era transferir um pouco da minha alma para o seu corpo de forma a ela tratar a sua e permitir que você acordasse novamente. Todavia esta poção traz sérias conseqüências para quem a faz e quem a usa.

A pessoa que sede a parte da alma não pode ficar para sempre sem a parte cedida, sendo que em algum momento ela precisara pegá-la de volta e a única maneira de fazer isto é re-aflorar o sentimento que deu origem ao grande laço que existe entre as duas pessoas, ou seja nosso beijo, meu amor por você.

Contudo caso eu recuperasse minha alma você iria morrer, pois sem ajuda sua alma não conseguiria mais sobreviver. Entende o que eu digo agora? Eu sempre soube que a morte me aguardava, nunca considerei pegar a alma de volta.

Entenda também que eu e Gina tivemos uma longa discussão para resolver quem deveria lhe ceder o pedaço de alma, mas eu sempre soube que não poderia deixar ela morrer. Eu te amo Harry e apesar de saber que em algum momento você me amou também sei que dificilmente você voltaria a amar alguém após a morte de Gina. Há coisas que eu não posso explicar, mas que você pode entender, uma delas é o sentimento que existe entre você e Gina.

Eu só preciso que você entenda uma coisa, eu lhe amei Harry, amei muito, mas isso surgiu na hora errada e da maneira errada. Eu não suportava ficar longe de você, mas sei que acabaria destruindo sua vida se tentasse isso acabaria destruindo a minha.

Não pense que faço isso só por você, faço isso porque sei que só existe uma chance de Voldemort ser derrotado e todas as pessoas que eu amo serem salvas e essa chance está em Harry Potter.

Nós nunca vamos poder ficar juntos, mas minha alma vive em você agora, ela faz parte do seu ser. Aproveite-a e permita-se viver.

Sendo assim, espero que tenha explicado todas as suas duvidas. Espero que você possa continuar a sua vida e aproveite esse novo mundo que nasce graças a você e a todos os bruxos que lutaram nesta guerra.

Por fim, me sentiria muito mal de partir e não lhe deixar um presente, portanto procure por Moody e peça para ele lhe dar minha varinha, está na hora de largar a sua. Voldemort foi a razão dessa varinha ser perfeita para você e agora eu quero que a minha o seja, não se preocupe ela será ótima e vai lhe servir perfeitamente.

Beijos.

Hermione Granger."

Os sentimentos se misturavam dentro de Harry, ele não sabia o que fazer e não conseguia aceitar tudo que Hermione havia feito por ele. O garoto sabia que tudo aquilo havia sido feito por amor, um amor nunca plenamente correspondido, um amor que agora ele se remoia por não ter dado mais valor.

Ele se levantou, vestiu suas vestes e saiu pela porta, deixando sua varinha e a carta para trás. O castelo estava cheio e como sempre sua movimentação causava grande furor, mas ele não via os bruxos a sua volta, ele simplesmente corria, remoendo sua dor.

Bastou perguntar uma vez para um jovem ao pé da escada e logo descobriu onde Moody estava, novamente Harry correu, ágil como sempre e em poucos momentos ele já se encontrava a frente do grande auror.

Moody fitou-o, ele sabia o que o jovem queria, ele iria entregar-lhe, ele simplesmente queria entregar aquele fardo e deixá-lo partir, mas não pode, não tão rápido.

- Eu sei o que você veio buscar e sei o que você pensa, mas devo pedir-lhe para abandonar essa idéia.

Harry não respondeu, ele não estava preparado.

- Você muito bem sabe que precisamos de você agora, tanto quanto antes, que Gina precisa de você, assim como seus amigos.

- Eu sei disso... Mas não posso... Não mais... Eu fiz tudo aquilo que todos queriam, salvei a todos como sempre esteve predestinado, mas perdi a mim mesmo, deixei de salvar quem deveria continuar aqui... Muitos se foram, isso não é só por Hermione, eu perdi muito nesta guerra e já não posso mais. – Harry estava cansado...

- Garoto eu sinto o mesmo que você, estou neste mesmo lugar que você está, só que por muito mais tempo, mal sei da onde recomeçar, sou um bebe novamente, minha vida inteira praticamente foi a guerra e agora estamos na reconstrução... Eu sou simplesmente um guerreiro, não sei mais o que fazer...

- Você sempre soube Moody, você sempre esteve preparado para isso, mas eu não. As espectativas e obrigações que tinha nunca me permitiram me preparar para esse momento, eu simplesmente vivia o segundo que passava, lutando, amando e sangrando... Nunca parei para pensar. Esse mundo já não é mais meu e eu não sou mais desse mundo. Me deixe ir...

Moody sabia que estava vencido, ele entendia as palavras que lhe eram ditas e concordou, deixou a varinha em cima da mesa e simplesmente olhou enquanto o garoto colocava-a nas vestes e partia, ouvindo o eco de um Adeus...