Capitulo
29 – Traduzido por Clarisse
Kate se afastou, deixando cair os braços e olhando para Jack com um brilho de prazer, apesar do desconforto que sentia.
"É muito bom te ver," ela disse, e era impossível confundir a serenidade em seu tom de voz.
"Você também," Jack respondeu com um sorriso torto.
Eles se olharam por um segundo, curiosamente, como velhos colegas de classe reunidos em uma reunião escolar. De um modo estranho, era isso que parecia ser.
De repente, foram distraídos por um som vindo da porta, um rosnado agudo engraçado. Eles olharam para a direção. O cachorro estava parado olhando para Jack, seus dentinhos expostos, o pelo sobre seu ombro levantado. Por ser tão pequeno, a postura era mais engraçada do que qualquer outra coisa, mas Kate ainda se sentiu envergonhada.
"Gus!"
Ela disse em um tom de voz reprovador. Então olhou para
Sawyer, que tinha permanecido em silêncio até o momento.
"Dá pra fazer ele parar?"
"O que?" ele disse
defensivamente, gostando disso. "Não foi pra isso que o
compramos...pra te proteger de intrusos?" Ele enfatizou a ultima
palavra, virando a cabeça na direção de
Jack.
Kate fechou os olhos por um segundo, então olhou para Sawyer com um olhar fixo e significativo, pedindo a ele que não fizesse confusão.
Concordando, mas segurando seu olhar desafiantemente, ele pegou o cachorro e o carregou para a dispensa. Gus manteu os olhos alertas fixados em Jack o tempo inteiro.
Quando Sawyer o colocou no chão, sorriu secretamente e lhe deu uma coçada extra-amigável, lembrando de misturar o resto do frango na geladeira a sua ração, mais tarde. O cachorro merecia, depois dessa manifestação.
"É que ele nunca vê ninguém além da gente," Kate explicou
"Tudo bem," Jack disse. "Tenho certeza que você precisa de toda ajuda possível."
Kate ficou tensa com a referencia a sua situação de fugitiva, olhando rapidamente para Sawyer enquanto ele se afastava da dispensa. Ele pareceu irritado, e como se fosse dizer algo rude, então Kate apressadamente mudou de assunto.
"Como você está, Jack? Você parece tão...limpo, e...não suado."
Ele sorriu de volta. "O mesmo se aplica a você. É bom tomar banho novamente, não é?"
"É. Isso é uma coisa da ilha que não tenho saudades."
"Espero que não seja a única," Sawyer disse zombando.
Jack estudou Kate com cuidadi, e então disse em tom aprovador, "Você parece ter engordado, também."
"Oh," Kate disse, surpresa. "Bem..."
Percebendo o erro que havia cometido, Jack imediatamente ficou com vergonha. "Claro, que isso é o médico em mim falando, Kate. Eu não quis dizer nada...Na verdade, você estava magra demais antes... na ilha. O que eu quis dizer é que...você está bem." Ele parou, sentindo seu rosto esquentando.
"Boa, doutor," Sawyer resmungou.
"Tudo bem," Kate disse, tentando não rir. "Eu sabia o que você quis dizer, Jack."
"Então," Jack continuou, ansioso para ir para um assunto mais seguro. "Sawyer disse que você teve um acidente com seu braço."
"É...você poderia chamar assim. Foi idiota, sério. Eu estava subindo num..." Ela engoliu, parando de falar. Sawyer a observou, percebendo que ela parecia mais pálida a cada segundo. Ela tentou de novo. "Eu estava subindo num estrado..." Ela parou de novo, uma estranha expressão em seu rosto. "Desculpe." Ela olhou para Jack, desconfortável. "Eu…to me sentindo meio tonta, de repente." Sua voz tremia, e ela procurou alguma coisa para se apoiar.
Sawyer imediatamente foi em sua direção, mas Jack estava mais perto. Ele já tinha puchado uma cadeira da mesa..
"Aqui, sente-se."
Ela sentou na cadeira, seu rosto pranco como papel. "Obrigada," ela sussurrou.
"Coloque a cabeça entre os joelhos, Kate...Vai ajudar a tontura passar," Jack a aconselhou.
Ela seguiu as instruções, dizendo, "É provavelmente só o efeito da morfina passando."
"Morfina?"
"Sawyer tinha um alguns," Sua voz baixa. "Comprimidos." ela terminou.
"Por que não estou surpreso?" Jack perguntou, balançando a cabeça. Sawyer lhe deu um olhar intimidante.
Kate continuou se apoiando alguns segundos, então levantou-se, lentamente.
"Melhor?"
"Sem abrir os olhos, ela concordou com a cabeça. "Sim."
"Eu deveria olhar logo seu braço...não tem sentido desperdiçar tempo. Mas aqui não é o melhor lugar." Jack olhou para Sawyer. "Você tem um sofá?"
Sawyer olhou para ele como se ele fosse idiota. "O que você acha?"
"Se importa em me dizer onde ele fica, Sawyer?" Ele estava tentando ser paciente
"Na sala, Einstein. Onde fica o seu, do lado do banheiro?"
Kate respirou fundo. "Eu vou te mostrar onde fica." Ela levantou, usando a mesa para se equilibrar.
Colocando a mão em suas costas para ajudá-la, Jack a levou para o outro cômodo, deixando que ela mostrasse o caminho. Sawyer seguiu, sentindo uma raiva queimando no fundo de seu estômago vendo a mão de Jack em Kate. Ele tentou o máximo se controlar.
Quando eles chegaram à sala, ela afundou no sofá, parecendo exausta. Sawyer felizmente estava distraído o suficiente com preocupação para esquecer de sua raiva por um minuto. O que estava fazendo ela se deteriorar tão rapidamente? Seria uma infecção? Dor? Alguma outra coisa? E se Jack não pudesse fazer nada ali…e então? Ele sentou-se nervosamente no braço do sofá, bem ao lado dela, sua perna encostada no braço esquerdo dela.
Jack sentou na beira da mesinha, diretamente na frente de Kate. Então percebeu Sawyer. Olhando para cima em sua direção, ele disse, "Sawyer, você se importa?"
"Me importo com o que?"
"Só porque estamos fazendo isso na sua casa não significa que não é uma consulta particular, assim como qualquer consulta medica." Ele olhou de volta para Kate, perguntando galante, "Você quer que ele fique, Kate?"
Sawyer lutou contra a vontade de bater em Jack naquele mesmo segundo. "É, Kate," ele repetiu sarcasticamente. "Você quer que eu fique?"
Ela encontrou seus olhos, irritada, mas também percebendo como ele estava triste. Ela de repente se sentiu defensiva.
"Não tem problema," Kate disse para Jack, baixo. "Nos..." Ela parou, sem saber como dizer isso. Sawyer esperou. "Nos estamos, um..." Ela gesticulou de Sawyer para ela, seu rosto ficando um pouco vermelho, apesar de sua palidez.
"Ah," Jack interrompeu, a verdade fazendo com que ele de repente entendesse. "Entendo. Erro meu." Ele parecia desapontado e triste, mas conseguiu encobrir essas emoções em segundos.
Os três sentavam ali, um silencio coagido os engolfando.
Apesar de ter querido tanto que esse momento chegasse e imaginado as maneiras em que ele poderia acontecer, Sawyer tinha que admitir para si mesmo que isso não era exatamente o que ele esperava. Ele não se sentia tão triunfante quanto aliviado. Ele queria, porem, que Jack não a tivesse interrompido. Ele estava curioso sobre o que ela iria dizer.
Kate parecia culpada. Ela parecia estar lutando para não pedir desculpas. Se ela pedisse, Sawyer jurava que nunca a perdoaria. Mas ela decidiu ficar neutra.
"Eu não sabia se você sabia ou não", ela disse quase num sussurro.
"Não," Jacó disse, passando a mão sobre a boca, numa tentativa de parecer casual. "Suspeitei, talvez, mas... só isso."
Outra pausa inconfortável seguiu. Ate Sawyer estava inconfortável. Merda, isso deveria ser divertido! Ele tinha ganhado, não tinha? Tinha ficado com a garota! Talvez fosse mais fácil se eles não estivessem tão insuportavelmente próximos, numa formação irônica entre o sofá, a mesinha e o braço do sofá.
"Então...continuando," Kate finalmente disse. "Eu queria que ele ficasse. Pelo menos enquanto eu estiver consciente."
"Tudo bem. Você quem sabe." Jack disse, no seu tom mais profissional, tentando ir para território seguro. "Agora por que não damos uma olhada?" Ele começou a tirar o pano do braço dela, mas ela puxou.
"Espera. Antes de você começar, Jack, eu queria ter certeza..." Ela mordeu os lábios, parecendo hesitante e preocupada. "Da ultima vez que você esteve aqui, você disse que o FBI tinha te contatado. Que...eles estavam tentando fazer você ajudá-los a me encontrar." Ela olhou para ele "Você ainda esta...?" Ela não completou a frase.
"Não," ele respondeu decisivamente. "Ninguém veio falar comigo há semanas. De fato, a ultima coisa que fiquei sabendo é que estavam concentrando as investigações nas pessoas que você conheceu antes da ilha...nao nenhum de nos."
Ela parecia aliviada, mas não totalmente convencida.
"Na verdade," Jack continuou, "eles me perguntaram especificamente sobre todos de quem você era próxima enquanto estávamos la. Eu disse a eles que você e Sawyer se odiavam...que nunca se entenderam, ele te incomodava o tempo todo...e que ele era a ultima pessoa no mundo pra quem você pediria ajuda." Ele parecia achar aquilo engraçado. "Achei que fosse despistá-los, te dar algum tempo, pelo menos."
"Oh," Kate disse, sem saber exatamente como responder. "Okay"
Sawyer não sabia se ficava grato ou irritado. Ele decidiu não dizer nada.
"Mas só por porque eles não tem feito contato não significa que não estão mantendo controle sobre você, certo?" Kate insistiu. "Você não acha que eles vão achar suspeito que voce fez outra viagem para o Tennesee?"
"Eu pensei nisso. Por isso que não voei para Knoxville. Tem uma conferencia medica em Nashville essa semana, então eu me registrei...me inscrevi pra alguns seminários, só pra cobrir o rastro. Se eles ainda estão me vigiando, quer dizer. Mas eu não acho que estejam." Ele tentou parecer tranqüilizante.
"Essa foi uma idéia inteligente" Kate disse com o indicio de um sorriso.
Sawyer virou os olhos. Qualquer um teria pensado nisso.
"Mas teremos tempo pra conversar depois," Jack disse. "Agora, nos deveríamos nos concentrar nesse braço."
Kate concordou, segurando o braco para ele "Va em frente."
Ele cuidadosamente tirou o pano. Sawyer e Kate olharam para seu rosto. Eles já sabiam como estava, mas queriam ver qual seria sua reação.
Havia uma pequena cintilação de preocupação em sua expressão. Mas como qualquer medico, ele manteve uma frente calma, examinando o braço de perto, virando primeiro para um lado e depois para o outro.
"O que aconteceu aqui?" ele perguntou, indicando a parte que eles tinham tentado tirar.
"Nos...tentamos fazer esse nos mesmos. Ontem a noite," Kate disse numa voz baixa.
"Com uma faca de açougueiro?" Jack perguntou com um olhar retorcido.
Quando não houve resposta, ele olhou para cima.
"Sim," Kate disse, embaraçada.
"Foi idéia dela," Sawyer disse. Ela o deu um olhar cômico de quem foi traída.
Jack olhou de um para o outro e balançou a cabeça. "Ainda bem que vocês ligaram." Ele voltou sua atenção para o braço.
"Então, o que você acha?" Sawyer finalmente perguntou, sem agüentar esperar mais. "Da pra consertar ou não?"
Jack concordou com a cabeca. "Acho que sim. Você vai ficar bem, Kate," ele virou para ela. "Vai doer por alguns dias, e eu vou ter que receitar uns antibióticos, mas vai ficar bem."
Ela respirou aliviada. "Que bom. Então você só... tira o metal e costura as aberturas?" Ela pausou. "Eu não tenho que ver, tenho?"
Jack sorriu. "Sabe, eu acho que você é menos enfastiada do que você se da credito. Você realizou um parto, se eu me lembro."
"Não por opção," Kate respondeu, mas parecendo contente.
"E é claro, você me costurou com linha de um kit de costura depois da queda do avião. Eu acho que é minha chance de retribuir o favor, certo?"
"Eu não havia pensado dessa maneira."
Eles compartilharam um olhar significativo. Sawyer teve vontade de vomitar.
"Mas para responder sua pergunta," Jack continuou. "Não, você não tem que olhar. Obviamente eu não vou te dar anestesia geral, já que não tenho o equipamento para monitorar sua respiração e batimentos cardíacos. Mas eu vou te dar algo para relaxar, e você provavelmente vai adormecer. Também vou dar anestesia local no braço, para você não sentir nada. Ok?"
"Ok," ela concordou, tentando entender tudo.
"Deixa eu pegar minhas coisas. Já volto." Jack desapareceu na direção da cozinha.
Kate olhou para Sawyer, encontrando seus olhos. Ela se encostou nele, e ele passou a mão em seu cabelo. Eles não disseram nada.
Alguns segundos depois, Jack retornou com uma bolsa preta de couro. Colocando-a no chão na frente da mesa, ele tirou uma pequena maleta de dentro dela. Abrindo a maleta, ele tirou uma agulha e uma seringa, testando a quantidade de liquido nela.
"Essa agulha é grande, Jack" Kate disse, tentando parecer desapegada.
Ele sorriu. "Você não gosta de agulhas?"
"E alguém gosta?" Ela respondeu secamente.
"Não," ele admitiu. "Mas..." Ele colocou a agulha na mesa e tirou outra. "Algumas pessoas tem mais problemas com elas que outras."
"Então eu acho que sou uma dessas pessoas."
"É difícil acreditar nisso," Jack disse, colocando essa agulha perto da outra, e tirando mais uma.
"São três," Kate disse, preocupada.
"Desculpe?"
"Você disse anestesia local e algo para que eu relaxasse. Então... por que três agulhas?"
"Bem," Jack disse. "Sawyer mencionou que você não toma vacina antitetânica desde os 12 anos. É verdade?"
"Oh," Kate respondeu casualmente. "Na verdade, eu lembrei essa manha que eu tomei uma, quando tinha 18 anos. Eu tinha esquecido."
"Tem certeza?" Jack perguntou.
"Tenho." Ela concordou
"Tudo bem, então". Ele começou a guardar a terceira agulha na maleta.
Sawyer, porem, estava observand-a.
"Ela esta mentindo," ele disse
Kate olhou para ele, bruscamente. "Sawyer!"
"O que? Você quer arriscar? Quer ficar com o queixo duro, ou sei la o que? Eu sei que você não é tão burra assim."
Ela virou para Jack, irritada. "Isso é verdade? O queixo fica duro?"
"Bem você pega tétano, mas sim, é verdade. Faz com que os músculos fiquem rígidos, e geralmente começa com o pescoço e o queixo. Mas é um mito que é causado por metal enferrujado... É na verdade causado pela bactéria do tétano, que entra na ferida. Claro, as vezes ela esta no metal, pra começar. Mas dependendo da gravidade, pode causar epilepsia ou falência do coração."
Kate parecia triste.
"Viu? " Sawyer perguntou, se sentindo vingado.
"Entao," Jack disse, olhando preocupado para ela, "Se tem mesmo mais de 10 anos, eu me sentiria melhor se você me deixasse de dar a injeção, Kate"
"Ta," ela disse. "Onde?"
Jack parecia confuso. "Aqui esta bom."
Ela sorriu. "Não, eu quis dizer, onde...em mim?"
"Oh," Jack disse, se sentindo um idiota. Sawyer não conseguiu segurar um ar de zombaria.
"Bem, nos temos duas opções. Nos podemos usar seu braço, já que já esta doendo," ele disse tocando o bíceps do seu braço direito, "Ou, a outra opção é a parte de cima de sua coxa, do lado que você quiser." Seus dedos agora estavam na parte de cima de sai perna, do lado que encontrava o sofá.
Sawyer assistia com os dentes rangendo. "No braço," ele disse rápido e alto.
Kate olhou pra ele, envergonhada, mas também entendendo. Ela sorriu, e olhou para o Jack. "Eu acho que vai ser no braço."
"Tudo bem," Jack concordou. Depois de tirar o metal, vou colocar uma tipóia para não te dar muito problema.
Ele levantou as mangas da camisa ¾ e limpou a área com álcool, então pegou a 1ª agulha.
Respirando fundo e esperando que Jack não percebesse, Kate segurou a mão de Sawyer. Esse gesto simples o inundou com um sentimento que ele não sabia definir. Ele apertou os dedos dela.
Olhando para onde seu cabelo estava repartido, ele perguntor num tom casual falso, "Sabia que você tem sardinhas no topo da cabeca?"
"Não tenho," ela disse com um sorriso tenso, virando para ele.
Pelo lado dos olhos, Sawyer viu a primeira agulha entrar, como um dardo. Kate apertou sua mão mais forte.
"E como você saberia?" ele continuou. "Você já viu o topo da sua cabeça?"
"Não," ela admitiu. A segunda agulha entrou, e ele cobriu a mão dela com sua outra, fazendo círculos na parte de cima.
"Bem, então ta," ele disse, como se tivesse ganhado o caso. "Acho que coce vai ter que acreditar em mim, não vai? Parece um joguinho de ligar os pontos."
"Mentiroso," ela riu. Ela engoliu e fechou os olhos quando a 3ª agulha foi enfiada.
"Talvez um dia eu pegue um marcador e ver o que eu consigo fazer com eles." Sawyer disse pensativo
"Tenta pra você ver," ela disse advertindo.
Jack tirou a terceira agulha "Pronto."
Sawyer respirou aliviado, e sentiu a mão de Kate parar de apertar a sua. No inicio, ele achou que ela só estava relaxando porque as injeções haviam acabado, mas então ela caiu contra ele.
"Wow" ela disse numa voz abalada. "Jack?"
"Ta tudo bem," ele disse tranqüilizando. "Pode fazer efeito bem rápido, especialmente se você não comeu nada hoje. Se você se sentir tonta, pode deitar, feche os olhos."
Mas os olhos dela já estavam se fechando. Ela se esforçou para abri-los, levantando o braço esquerdo, mas deixando-o cair.
"Eu odeio me sentir assim" ela disse numa voz insultante, como se se sentisse traída.
"Me desculpe, Kate," Jack disse. "Eu achei que você não quisesse estar acordada pra isso."
Sawyer levantou-se e a levantou gentilmente, reposicionando-a numa posição reclinada no sofá. Jack passou uma almofada da outra ponta para colocar debaixo de sua cabeça. "Eu nem estou cansada," Kate disse irritada, sem conseguir manter os olhos abertos.
"Espere alguns minutis" Jack disse, tentando não sorrir.
Eles esperaram um pouco. Quando estavam convencidos que ela estava dormindo, ela disse do nada, "Não esqueça a lista dessa vez, Sawyer."
"Que lista?" Ele perguntou, confuso.
"A lista de compras!" Ela parecia irritada, mas não tinha aberto os olhos nem uma vez.
Sawyer olhou para Jack, alarmado.
"Ta tudo certo," Ele disse numa voz baixa. Eu deveria ter mencionado que ela poderia ficar um pouco desorientada antes de dormir. Apenas...converse com ela. Ela vai dormir em um segundo."
Ele virou para ela, balançando a cabeca. "Eu não vou esquecer a lista."
"Você sempre esquece!" ela acusou.
"Ela esta aqui no meu bolso, ta? Eu não vou esquecer!" Ele estava ficando aborrecido, o que era completamente ridículo, já que a lista sobre a qual eles estavam discutindo nem existia.
"Você devia comprar mais camisinhas, também. Você nunca compra o suficiente."
Ele olhou rápido para Jack, em choque. Jack limpou a garganta e continuou com as preparações, fingindo que não tinha ouvido. Apesar de se sentir embaraçado por Kate, sabendo o quanto ela odiaria Jack ouvindo isso, Sawyer não podia evitar gostar um pouco da situação.
"Eu vou comprar todas que tiverem na loja," ele disse com um sorriso.
Ela exalou. "Apague a luz"
Ele olhou. Todas as lâmpadas estavam apagadas. "Tudo bem, esta apagadas," ele disse.
Mas ela não respondeu. Jack chegou perto e sentiu seu polso, então olhou para seu rosto. "Ok, ela esta dormindo."
Sawyer levantou, hesitante. "Você precisa de mais alguma coisa?"
"Sim, vou aceitar a cerveja, se a oferta ainda estiver valendo."
Ele olhou para ele sem expressão.
Jack olhou pra cima rindo "Foi uma piada, Sawyer."
Ele virou os olhos. "Você é um ótimo comediante, Doc"
Ele começou a sair, então virou, na porta, com um sorriso arrogante. "Se ela acordar, não conte a ela o que ela disse." Ele sabia que Jack entenderia do que ele estava falando.
Jack concordou, parecendo enojado. "Não se preocupe. Espero que eu consiga esquecer, também."
Sawyer entrou na cozinha para esperar, sabendo que de jeito nenhum Jack conseguiria esquecer aquele comentário em particular, e se sentindo incrivelmente feliz com isso.
Ele esperou pelo que pareceram horas, e eventualmente saiu para andar do lado de fora da casa por alguns minutos, mas então voltava silenciosamente para a cozinha. Ele estava exausto depois de não ter dormido a noite passada, mas achava impossível descansar agora. A casa estava em silencio absoluto – nenhum som vinha da sala.
Pelo menos vinte vezes, ele considerou ver como as coisas iam, mas resolveu não ir. E se ele surpreendesse Jack e o bisturi escorregasse?? E se ele pegasse uma artéria? Poderia acontecer. Ele lembrou da quantidade de sangue jorrando de dua própria artéria quando Sayid o esfaqueou, e a idéia de isso acontecendo com Kate o deixava doente. Ele sentou de novo para esperar, impacientemente.
Finalment, quando ele estava convencido que algo terrivelmente errado deveria ter acontecido, Jack aparece na porta, parecendo cansado mas com um ar de realização.
"Bem?" Sawyer perguntou quando ele não disse nada.
"Tudo esta bem. Eu tirei todas as partes, e provavelmente não vão ficar cicatrizes...exceto talvez pela parte que você fez."
Sawyer olhou com desdém e olhou para o lado. "Quanto tempo ate ela acordar?"
"Provavelmente não muito... a dose não foi forte."
"Bem, então," Sawyer disse com um ar de conclusão. "Acho que você já vai indo, huh?"
Jack olhou parecendo achar engraçado. "Ainda não," ele disse. Seu tom, porem, dizia 'mas valeu a tentativa'. "Vou ter que checar tudo quando ela acordar, ter certeza que o pulso esta estável, checar os sinais vitais...preciso perguntar se ela é alérgica a algum tipo de antibiótico, para fazer a receita."
Sawyer exalou cansado.
"Acho que vou dar uma volta" Jack disse. "Tem algum caminho para o lago daqui?"
"Tem, por trás da casa," ele disse com rancor.
Jack concordou. "Por que você não vai sentar com ela, vigiar a respiração. Se algo mudar, é só me gritar."
"Parece confiável. É isso que te ensinam na faculdade?"
Jack não respondeu. Sawyer destrancou a porta para ele e o deixou sair.
Quando ele finalmente voltou, ele foi em direção a sala, ansioso para ver se ela estava acordada ou não. Ele estava bravo consigo mesmo por sua ansiedade, especialmente porque havia passado a ultima meia hora tentando se desligar dela, tentando não pensar na informação que havia recebido recentemente.
Não é como se ele não tivesse considerado a possibilidade. Eles estavam morando juntos por quase 2 meses, afinal. E mesmo na ilha não havia como negar que ela se sentia atraída por ele. Mas no fundo, ele ainda tinha esperança de que...o que? Ele não sabia o que. Toda vez que ele chegava perto de pensar sobre isso, ele se forçava a não pensar.
Mas isso era muito mais fácil quando ele não estava diretamente confrontado com isso, como agora, que se aproximou da entrada da sala. Ele parou, sabendo que deveria voltar para o corredor, ou pelo menos fazer algum barulho para alertá-los. Mas não fez.
Ela estava acordada, sentada, apoiada no braço do sofá a sua esquerda. Sawyer estava ajudando-a a beber um copo de água, segurando o fundo, enquanto ela segurava de fraco com a mão esquerda. A falta de coordenação dos dois causou com que a água escorresse por seu queixo, e ela riu. Ele colocou o copo na mesa enquanto ela enxugava a boca na camisa, sem esconder. Sawyer sussurrou algo para ela que Jack não ouviu, e Kate olhou para ele intensamente, com uma paixão desinibida que era difícil assistir. Não havia erro naquele olhar; ela o olhar de alguém apaixonado.
Era a expressão no rosto de Sawyer, porem, que o surpreendeu. Se não fosse tão doloroso, ele teria rido. Toda a ferocidade e agressividade ainda estavam presentes em sua fisionomia, mas pareciam estar canalizadas em direção a um novo objeto. Ele usava seu protecionismo como roupas novas que não eram do tamanho certo, como se ainda estivesse tentando se acostumar. Os dois pareciam vagamente assustados, incertos sobre as regras do jogo, ainda esperando fazer o guia enquanto jogavam. Olhar para eles fazia Jack nervoso.
Quando eles se inclinaram para se beijar, ele se forçou a sair. Ele não podia agüentar tanto.
Ele voltou alguns minutos depois, fazendo barulho dessa vez. Kate olhou para cima e sorriu quando ele entrou. Sawyer não parecia tão irritado quanto antes.
"Como você se sente?" Jack perguntou.
Como se minha cabeça estivesse cheia de algodão," ela disse fazendo cara feia. "Mas fora isso, bem. Não consigo sentir meu braço."
"Bem," ele disse, sentando ao lado dela "Isso não vai durar, infelizmente. Mas vou fazer uma receita pra uns analgésicos e uns antibióticos, só para o caso de piorar muito."
"Obrigada, Jack"
Aparentemente ela estava falando isso sobre os analgésicos, mas a repetição das palavras que ela disse para ele antes de deixa-lo na ilha, causaram uma reviravolta em seu estomago. Ele engoliu, imaginando se ela lembrava da cena. Aparentemente, não.
"De nada." Ele deixou cair os olhos, triste. "Então, depois disso eu vou pedir para Sawyer me dar uma carona ate o hotel mais próximo. Se ele não se importar."
"Pra mim não é problema." Sawyer disse, feliz. Jack podia dizer que ele ficaria aliviado quando ele fosse embora.
"O que?" Kate disse. "Você não vai ficar em hotel. Você pode ficar aqui. Tem espaço o suficiente." Ela olhou para Sawyer e ele olhou para ela, sem efeito. "Alem disso," ela virou para Jack. "Você disse que teríamos uma chance para conversar. Lembra?"
"Kate," ele disse gentilmente. "Eu não acho que essa seja uma boa idéia, sob as circunstancias..." ele parou.
"Que circunstancias? Eu achei que você tinha dito que eles não estavam te vigiando?"
Essas não eram nem de perto as circunstancias que ele estava pensando, mas era uma alternativa menos embaraçosa, então ele fingiu que eram.
"Eu acho que não, mas ainda assim...você nunca sabe."
"Jack." Ela parou, parecendo magoada. "Quem sabe quando teremos outra chance de nos ver?"
Ele começou a ceder. Era muito difícil ver aquele olhar nos olhos dela. Com um sorriso, ele disse, "Eu não acho que Sawyer esta preocupado com isso."
"Não, ele quer que você fique também." Kate olhou para Sawyer, ferozmente. "Não quer?" Eles se olharam num debate sem palavras, ate que Sawyer finalmente exalou, parecendo derrotado.
"Sinta-se em casa, Doc" ele disse sarcasticamente.
Kate sorriu, vitoriosa. "Será como nos velhos tempos."
Jack e Sawyer encolheram-se. Afinal, não era exatamente disso que eles tinham medo?
