Capítulo 36

E agora? Ele não tinha mentido totalmente para o Príncipe. Ele já estava a tentar convencer Victoria a cumprir o dever havia muito tempo. Mas o que é que ele poderia fazer mais a partir de agora? Que inferno! Porque é que ele não tivera um casamento feliz com Caroline? Talvez com uma vida familiar estável, ele não estivesse hoje apaixonado pela rainha casada.

Victoria e Albert! A imagem dos dois numa cama surgiu no cérebro de Melbourne. Era demasiado para suportar. Mas depois ele lembrou-se dela na floresta, atada a uma árvore e a vir-se sozinha, sem que ele nem sequer lhe tocasse lá em baixo. Esplêndida! E isso dava-lhe uma imensa satisfação!

A dose de benefício mútuo já tinha existido hoje e eles não arriscaram a dormirem juntos nessa noite.

O dia seguinte decorreu sem acontecimentos notáveis, entre conversas e jogos de salão, um almoço ao ar livre e algum tempo dedicado ao trabalho, quer para Melbourne, quer para Victoria. Convinha evitar que as aproximações entre ambos fossem além do que seria conveniente.

O jantar e o tempo de convívio que se seguiu eram demais para suportar. Ele não estava com nenhuma paciência para ouvir disparates e para fazer conversas de circunstância. De pé e sozinho num canto do salão, apenas com um copo de brandy por companhia, o pensamento de Melbourne estava ocupado com uma única coisa. Aliás, com duas coisas. Com o que Victoria teria de fazer com Albert e com o que ele gostaria de fazer com ela agora. Em suma, isso era tudo a mesma coisa: Victoria.

Aquela situação já tinha atingido todos os limites e a consumação do casamento era algo premente. Ela teria de fazer isso e ele teria de passar por essa provação. Mas como é que ele poderia conseguir que ela fizesse isso?

A duquesa de kent aproximou-se dele, ondulando as saias.

Perante esta visão a única imagem que se afigurou no cérebro de Melbourne foi a de uma serpente que se acercava de uma presa.

"Lord Melbourne! Eu ainda não tinha tido oportunidade de falar convosco."

"Duquesa…" Disse ele, baixando a cabeça ligeiramente e esforçando-se por parecer simpático.

"O senhor parece sempre preocupado." Ela observou.

"Um homem na minha posição tem sempre algo com o que se preocupar."

"Não querendo parecer indiscreta, será que não quer partilhar comigo esse vosso problema?"

Ele hesitou um pouco e depois respondeu:

"Questões políticas."

Era verdade. A questão era política. Melbourne pensou. Mas o maior problema era que o coração estava envolvido. E depois ele acrescentou:

"Não é algo adequado para a duquesa discutir."

Ele estava a chamar-lhe ignorante? A duquesa questionou-se. Bem, de facto, ela não percebia grande coisa de política. A função política dela tinha-se reduzido apenas a gerar um possível herdeiro do trono num momento difícil. Fora apenas para isso que o duque a usara. E depois ele tinha morrido, deixando-a sozinha com todos os problemas associados à educação e à proteção daquela criança. Mas ela não queria desistir desta conversa. Então ela perguntou:

"Lord Melbourne não está a dizer que o meu conhecimento sobre política é limitado, pois não?"

"Não. Eu só não quero aborrecê-la com temas entediantes."

"Eu gosto de vos ouvir falar. Lord Melbourne tem o dom da palavra. Nenhum tema discutido por você pode parecer entediante." Ela disse sorrindo. Um galanteio óbvio.

Ele suspirou e disse:

"Contudo, sobre este tema eu ainda não poderei dissertar, porque eu ainda não tenho uma opinião avalizada."

"Compreendo. Mas apenas ver o senhor em Windsor já é algo que me apraz."

Por que raio é que ela decidira ser simpática com ele nos últimos tempos? A mulher só podia estar louca com intenções deste tipo!

"Eu não entendo a simpatia repentina que a duquesa desenvolveu por mim." Ele declarou.

Ela foi surpreendida pela observação dele. Mas em vez de disfarçar ela achou que poderia aproveitar para avançar um pouco mais. Então ela disse:

"A partir de determinado momento eu reparei como Lord Melbourne parece um homem muito só…"

Ele não podia acreditar no que ele estava a ouvir. Ela tinha mesmo enlouquecido. Sem ser rude, ele foi determinado quando respondeu:

"Lamento, mas a duquesa está totalmente enganada."

Ele tomou o último gole que ainda existia no copo, pousou-o na bandeja de um lacaio que passou por ali e afastou-se dizendo:

"Com licença."

Victoria de Saxe-Coburg-Saalfeld ficou sem capacidade de resposta e a criticou-se a si mesma. Ela tinha sido precipitada e tinha ido longe demais.

"O que é que a minha mãe queria de você?" Victoria perguntou quando se aproximou de William propositadamente. Ela tinha estado a observar, à distância, uma conversa que ela não entendia e para a qual ela não encontrava uma justificação.

"Nada de especial. Conversa de circunstância."

"Sobre o quê?"

Victoria não era mulher para desistir de fazer perguntas depois de uma primeira resposta.

"Repentinamente ela parece estar interessada em política…" Ele respondeu.

A resposta não era totalmente mentira.

"Em política?"

"Sim, mas eu disse-lhe que o tema é demasiado exigente para ela."

Victoria sorriu. Se havia coisa que lhe dava prazer era saber que a mãe tinha sido diminuída. E ela acreditou no que William disse. Ela sempre acreditava nele.

Ele deu meia à volta em redor dela, o que a fez perceber que ele se preparava para se afastar. Mas antes que ele saísse dali ele perguntou:

"Você lembra-se daquela noite no terraço?"

"Claro, eu nunca me esquecerei."

"Então eu espero você lá mais tarde. Quando você puder, depois do castelo silenciar… Eu estarei lá."

Victoria movimentou a cabeça em sentido afirmativo.

William movimentou-se para outro ponto do salão.

No final da noite, antes de se despir para dormir, Victoria voltou a sair dos aposentos dela para se dirigir ao terraço, como combinado com William.

Ela abriu cuidadosamente a porta que lhe dava acesso ao terraço e olhou em volta, tentando que os olhos dela se habituassem à pouca luz.

"De volta ao local do crime?" Ele perguntou, surgindo da direita dela.

Ela sorriu enquanto caminhava para ele e respondeu:

"Foi você que me convidou."

"E eu é que sou o criminoso."

"Porquê?" Ela perguntou, passando as mãos pela gola do casaco dele.

"Fui eu que iniciei a nossa conversação criminosa, aqui neste mesmo terraço."

"Você acha? Eu acho que não."

"Não?"

"Eu é que fui a Brocket Hall e fui eu que declarei pela primeira vez o meu amor por você."

Ela notou que ele ainda não lhe tinha tocado. Neste momento ele já deveria ter envolvido a cintura dela.

"Nesse dia eu ainda tive coragem para recusar o vosso amor." Ele lembrou.

"Isso não serviu para nada. Apenas para adiar o inevitável e nos fazer sofrer mais um pouco. Nós dois estávamos destinados a pertencer um ao outro."

"Nós estávamos…"

"Um amor como o nosso só podia estar escrito nas estrelas, as mesmas que estão por cima da nossa cabeça." Ela disse, enquanto o abraçou com força e colocou a rosto sobre o peito dele, na tentativa de provocar que ele a abraçasse também.

Houve um momento de silêncio. Ele pensou no que ele deveria dizer, mas aquilo não saiu da boca dele. Era impossível resistir. Ele abraçou-a.

Victoria levantou a cabeça e beijou o queixo dele.

Apesar de William ter convocado este encontro secreto parecia que hoje era preciso mendigar para receber qualquer coisa dele.

Ele inclinou-se um pouco e os lábios dele tocaram os dela.

Eles beijaram-se. Primeiro de modo mais suave e depois de forma mais consistente.

"Naquela noite aqui no terraço eu só pensava em poder concretizar o nosso amor de forma lasciva…" Ele confessou.

"E de que forma isso seria feito?" Ela perguntou. Sempre curiosa.

Ele voltou a beijá-la.

Eles separaram-se de novo.

Ele conduziu-a pela mão até ao banco de pedra que estava próximo, situado ao longo da parede do terraço.

Ele sentou-se, levando a que ela se sentasse ao lado dele.

Ele procurou a boca dela de novo e os beijos foram agora mais devoradores.

Victoria passou a mão direita pela parte exposta do pescoço dele, pela orelha e pelo cabelo.

A boca dele desceu pelo pescoço dela, enquanto, de olhos fechados, ela se deliciava a enterrar os dedos no cabelo dele.

Ele puxou-a pela cintura mais para junto dele.

Na posição em que eles estavam, seria impossível que ela se aproximasse mais, a não ser que ela se sentasse no colo dele.

Repentinamente ele colocou-a no colo, sentada de lado sobre as pernas dele, com as costas apoiadas no braço esquerdo dele.

Os beijos continuaram.

A coxa direita dela sentiu que ele estava excitado.

Ele meteu a mão direita por baixo das saias dela. Ela era tão inteligente! Agora nunca havia cuecas por baixo. Havia apenas meias, que chegavam a meio da coxa, e era terrivelmente excitante sentir a passagem do algodão das meias para a pele de seda e para as formas redondas do corpo dela.

A mão dele progrediu até ao fim da coxa, rodeando-a e apalpando-a. O polegar, do lado de dentro da coxa, tocava agora naquele sítio lá…

Victoria contorceu-se sobre o colo dele e gemeu.

Ela procurou a abertura das calças dele e trabalhou sobre os botões.

Ele ajudou a afastar o tecido.

Os dois agiram simultaneamente para que ela pudesse mudar de posição.

Victoria levantou-se do colo de William e levantou as saias para cima. Depois ela sentou-se de novo, mas agora, de frente com ele, com as pernas abertas e os joelhos apoiados sobre o banco, um de cada lado do corpo dele.

As mãos dele percorreram ambas as coxas dela, por baixo das saias.

Ela agarrou o membro viril dele com a mão direita e passou-a por isso repetidamente. Para baixo e para cima. Uma maciez e uma rigidez que a enlouquecia.

Isto era tão excitante. Ela estava latejante e receou que pudesse vir-se antes que ele entrasse nela. Embora isso também fosse bom, como ela já experimentara na floresta, nada era mais glorioso do que sentir William enchendo-a.

Ele colocou as mãos por baixo das nádegas dela e elevou-a para cima. O facto de encher as mãos dele com a carne dela já era bastante arrebatador.

Victoria sentiu que ela se abria espontaneamente perante a perspetiva do que se seguiria.

Ela foi descarregada sobre ele.

Ele entrou dentro dela.

Victoria movimentou-se sobre ele. Ela gostava tanto disto!

Ele gemeu enquanto segurava as costas dela.

Ela apertou-o dentro dela e beijou o lado direito do rosto dele carinhosamente.

Depois o corpo dela agiu sobre ele de modo mais rápido e descontrolado.

Então ela contraiu-se sobre o membro dele repetidamente, sentindo a tentativa natural do corpo dela para se fechar a ser contrariada pelo volume notável que a preenchia.

Foi rápido. Ela chegou lá rapidamente. Ela não disse nada. Ela apenas gemeu, contorceu-se a apoiou a cabeça sobre o ombro direito dele.

Felizmente ela tinha-se vindo depressa e ele precisava de um pouco mais de tempo. De outro modo isto poderia ter sido desastroso…

Victoria saiu do colo de William e sentou-se no banco ao lado dele. Era sempre necessário afastar-se. Ela sabia disso. Esta parte final, sempre incompleta, era um pouco frustrante. Ela pensou.

Ele pensou que fazer isto aqui era demasiado perigoso e, por isso, ser rápido era apropriado. Mas quando o perigo espreita tudo se torna mais excitante e quanto mais excitação mais aceleradamente as coisas se concretizam, felizmente.

Ele agiu com urgência quando se ajoelhou no chão e levantou as saias dela mais para cima novamente.

Instintivamente ela segurou as saias ao nível da cintura, abriu as pernas e colocou-as sobre os ombros dele.

Isso facilitou para que ele pudesse chegar com a boca ao meio das pernas dela.

Ele lambeu-a, enquanto agarrava avidamente a coxa direita dela com a mão esquerda, e usava a mão direita para se autoestimular.

Ela contorceu-se perante a sensibilidade despoletada novamente.

Ele sentiu como era fácil deslizar sobre ela e encharcou-a de saliva que, com a língua, misturou com a abundância de lubrificação que fluía dela. Aproveitando para afastar as dobras da carne e para sugar a proeminente evidência da felicidade dela.

O prazer dela desenhava-se de novo. Agora em círculos. De olhos fechados e agarrando a cabeça dele entre as pernas dela, ela podia ver os círculos que ele fazia sobre ela. Ela podia reproduzir mentalmente cada milímetro onde a língua dele tocava. O cérebro dela estava vazio. Não havia mais nada além da imagem desse movimento repetido, que a colocava numa escalada que se tornava cada vez mais elevada.

Subitamente, ela arqueou as costas e apoiou a parte de trás da cabeça na parede, enquanto agarrava com força o cabelo dele. Ela estava sem ar e não conseguia dizer nada, mas esta era a sensação de sufoco mais prazerosa que existia!

William sentiu como, naquele momento precioso, as pernas dela pressionaram as costas dele e os saltos dos sapatos dela se espetaram com força.

Acompanhando o êxtase dela, ele perdeu-se num gemido profundo!

A respiração dela estava acelerada, o peito e a barriga arfavam e ela sentiu que estava transpirada quando ele subiu para cima dela e a beijou na boca.

Ela agarrou o rosto dele com as duas mãos e beijou-o em gratidão. O beijo era inicialmente salgado, pela própria essência dela, mas depois isso foi anulado por todas as outras variantes de sabor que um beijo dele podia ter.

Foi necessário regressar à realidade e fazer isso com alguma rapidez.

Recompostos depois que tinha acabado de acontecer, eles separaram-se e cada um regressou aos respetivos aposentos. Primeiro, ela. Depois ele.

Ele poderia ter dito muita coisa, mas ele já tinha esgotado todos os argumentos. Falar com ela e convencê-la do que ela deveria fazer não era mais possível e esse não fora o objetivo maior do encontro no terraço. Ter Victoria, para ele, sim.

Eles estavam a ficar muito arrojados. Agora já havia sexo em florestas e em terraços. Mas Windsor tinha qualquer coisa de mais bravio e libertador.

Dois dias depois da chegada de Lord M eles regressaram todos a Londres.

Victoria tinha conseguido passar a estadia em Windsor sem se oferecer ao marido e ainda tinha conseguido desfrutar de William. Mas, e agora, nos próximos dias?

Naquela tarde Victoria olhou por uma das janelas da sala de estar.

Havia uma estranha azafama de lacaios lá em baixo que carregavam malas e caixas para duas carruagens. Parecia que alguém iria viajar. E parecia que levaria imensa bagagem. Quem?

A duquesa de Sutherland entrou na sala.

"Harriet, você sabe quem irá viajar?" A rainha perguntou expectante.

A duquesa hesitou sobre se deveria dizer o que sabia, mas perante uma pergunta da rainha, a quem ela devia fidelidade, ela teria de responder.

"Eu receio que seja Lord Melbourne, Majestade." Harriet respondeu preocupada com a reação da sua interlocutora.

"Lord M?" A rainha perguntou, espantada e sem entender. "Ele não me lhe tinha dito que iria viajar."

"Bem, Majestade ele não vai propriamente viajar para longe…"

"O quê?" Victoria perguntou chocada.

Harriet não teve uma resposta imediata e a rainha saiu disparada dos aposentos dela. Rumo aos aposentos de Melbourne, a duquesa poderia garantir.

Victoria percorreu os metros que a separavam dos aposentos de William o mais depressa que ela conseguiu, sem nunca cair na tentação de correr. Uma rainha não corre! Mas uma mulher apaixonada poderia correr? Mesmo que ela fosse uma rainha?

Ela não teve qualquer reserva. Victoria simplesmente abriu a porta e entrou de rompante nos aposentos dele.

Como ela sabia, William estava lá.

Tendo despido o casaco, ele tinha apenas o colete sobre a camisa e não havia um lenço que se enrolasse à volta do colarinho, pelo que, deste modo, aquele se mantinha aberto e mostrava parte do peito dele.

Ele recolhia livros que ele colocava numa caixa e, por isso, quando ela entrou, ele movia-se de um lado para o outro do escritório, para acomodar alguns livros na caixa que estava em cima da secretária.

Apesar do barulho da entrada dela e da porta a fechar, aparentemente, ele não se mostrou surpreendido. Parecia que ele sabia que ela viria e manteve-se a fazer exatamente o que ele tinha em mente.

Embora confusa sobre esta súbita decisão dele, e incomodada pelo que poderia motivar isto, quando viu o estado de desordem dele Victoria pensou: que coisa bonita! Mas esta imagem não iria distraí-la do que ela tinha vindo fazer aqui.

"William, o que é que você está a fazer?" Ela perguntou, de modo repreensivo.

"Eu vou voltar para a minha casa." Ele respondeu calmamente, sem olhar para ela e continuando a arrumar livros dentro da caixa.

Aquele contraste, da reação plácida dele com a fervura que ela trazia dentro dela, deixaram-na irritada.

Ela abanou a cabeça negativamente e, mostrando que não entendia, ela perguntou:

"Porquê?"

"Porque enquanto nós continuarmos a dormir juntos você não vai conseguir cumprir o vosso dever." Ele respondeu. Desta vez olhando para ela, enquanto ele se encaminhava para ir buscar alguns livros restantes, depositados sobre a prateleira de uma estante.

"Eu não quero fazer isso!" Ela exclamou determinada.

"Eu nem devia ter vindo morar aqui. Isso só veio tornar as coisas mais difíceis para você. Mas a culpa é minha. Fui eu que arranjei uma desculpa para vir morar no palácio porque eu estava louco para poder estar junto de você." Ele explicou, de novo a caminho da secretária.

Victoria sentiu um aperto no estômago ao ver as prateleiras todas vazias.

Ela aproximou-se de William e colocou-se ao lado dele, na frente da secretária, olhando para ele.

"Você não pode fazer isso! Há algum tempo atrás você disse-me que você não iria sair do palácio." Ela reclamou.

Com ela ali ao lado, mas sem olhar para ela, e concentrando-se na caixa que tinha na frente, ele disse:

"Eu disse que eu não sairia porque o seu tio queria que eu saísse. Agora eu vou porque eu quero."

"E você não iria dizer-me nada?"

"Eu iria. Quando todas as coisas já estivessem emaladas. Mas, pelos vistos, você descobriu antes."

"William eu não acredito que você consegue fazer-nos isto!" Ela lamentou frustrada, franzindo a testa.

Ele virou-se finalmente para ela.

Ela encarou-o de frente.

"Victoria, eu não quero magoar você, nem quero que a minha saída daqui seja dramática. Mas há coisas que estão acima de nós dois." Ele declarou, na esperança de que ela controlasse as emoções e fosse superada pelo sentido do dever.

"Você é tão teimoso! Eu não aguento mais! Eu não quero mais ser a rainha! Amanhã eu vou convocar o Conselho Privado e eu vou dizer que eu pretendo abdicar!" Ela falou demasiado alto.

"Fale baixo! Pelo amor de Deus! Você não pode fazer isso!" Ele exclamou como um pedido.

"Porquê?"

"Porque eu iria sentir-me culpado."

"Oh, William!" Ela exclamou frustrada.

Mais uma vez ele bloqueava-a.

"Vamos fugir! Vamos para bem longe daqui!" Ela propôs de modo irrefletido.

Ele sorriu com um semblante sonhador. Parecia que pelo menos a ideia era agradável. Então ele respondeu:

"Se eu tivesse a vossa idade talvez, quem sabe…Nós poderíamos cometer uma loucura! Deixar o trono vazio…Mas eu não posso colocar você em perigo. Eu não posso levar você para longe de Inglaterra e depois…deixar você sozinha…sem proteção."

"Oh, William! Eu preciso tanto de você, eu quero tanto você…" Ela afirmou como um pedido enquanto franzia a testa e se aproximava cada vez mais do rosto dele.

Ele não resistiu a beijá-la.

Foi longo e intenso e depois foi intermitente e suave. Eles tocaram os lábios um do outro repetidas vezes, sem vontade de se afastarem um do outro, mas sabendo que eles deveriam fazer isso.

"Esta é a última coisa que eu posso fazer pelo Coroa de Inglaterra. É permitir que você tenha um herdeiro do Príncipe." Disse ele.

Ela engoliu, procurado argumentos para demovê-lo daquela ideia de sair do palácio. Mas, no fundo, ela sabia que não seria capaz de fazê-lo mudar de ideia.

"Você lembra-se do que eu disse para você no dia em que você estava sentada no banco do piano e não tinha coragem para enfrentar a multidão depois do escândalo com Flora Hastings?" Ele perguntou.

"Sorria e acene… e nunca deixe que eles saibam como é difícil suportar." Ela recordou perfeitamente.

Ele passou a mão direita pelo cabelo dela carinhosamente.

Ela fechou os olhos ao sentir a mão dele. Aquele gesto, neste momento, quando eles deveriam separar-se, deixava-a enternecida. Tudo o que ele fazia, mesmo quando isso a fazia sofrer, era sempre causado pelo amor que ele lhe tinha.

Depois William disse num tom de derrota:

"Agora você não precisa de acenar, nem tem de sorrir, meu amor. Você apenas precisa de deixar acontecer e não permitir que Albert perceba o quão difícil pode ser."

Ela ficou a olhar para ele.

Ele até tinha razão, o posicionamento dele perante esta questão era válido, mas ela não queria fazer aquilo. E ela não queria que ele voltasse para a casa dele. No entanto, ela não tinha como impedir que ele saísse do palácio. A não ser que ela o mandasse prender. Mas ela não poderia mandar prender o homem que ela amava. E o escândalo que seria se a rainha mandasse prender o Primeiro Ministro… E como é que ela justificaria isso? Teria de haver outra alternativa para que as coisas decorressem de forma favorável para ela. Ela iria deixá-lo sair e depois ela pensaria numa solução.

Dois lacaios entraram.

Os homens ficaram atrapalhados quando viram a rainha ali. Eles já tinham entrado e saído inúmeras vezes, carregando coisas, e apenas o Primeiro Ministro estava lá.

Então, eles fizerem uma vénia e, em silêncio, recolheram a última caixa de livros que estava em cima da secretária.

William ficou incomodado pelo facto de eles verem a rainha nos aposentos dele naquele momento.

Aparentemente, ela nem notou a presença dos dois homens. Ela tinha os olhos fixos nele.

Os lacaios saíram levando a caixa.

Victoria e William ficaram novamente sozinhos.

Ele afastou-se alguns passos dela para pegar no lenço e no casaco que estavam sobre as costas de uma cadeira.

Depois ele dirigiu-se a um espelho e colocou o lenço no pescoço e vestiu o casaco.

Ela observou entristecida tudo o que ele fez.

William caminhou de novo na direção dela.

Victoria tinha vontade de chorar, mas ela queria parecer forte. Então ela perguntou baixinho:

"Você tem a certeza que você já tem tudo o que é vosso?"

Ele notou agradado a demonstração de preocupação dela por ele e respondeu:

"Sim."

Houve uns segundos de silêncio e depois ele acrescentou:

"Mas se alguma coisa ficar aqui, eu tenho a certeza de que você ordenará que me seja entregue."

Ela movimentou a cabeça em sentido afirmativo.

"As obras de restauro na vossa casa…Elas já estão concluídas?" Victoria perguntou.

"Não. Mas eu consigo conviver com elas."

"Você não ficaria mais confortável na casa de Emily?"

A preocupação dela pelo bem-estar dele continuava.

Ele suspirou e respondeu:

"Talvez, mas eu preciso de estar sozinho. Para gerir as minhas emoções…"

O coração dele estava a começar a desfazer-se por ver a dor dela. E pela dor dele também.

"Agora eu devo ir." Ele disse:

Ela não disse nada.

William aproximou-se mais de Victoria, agarrou os ombros dela e beijou-lhe a testa, inalando o cheiro do cabelo dela para levar com ele.

Ela fechou os olhos e as lágrimas rolaram pela face.

Ele teve tanta vontade de a envolver Victoria nos braços e de apertá-la de encontro ao peito dele!

Ela desejou tanto que ele a abraçasse!

Ele não poderia fazer isso. Se ele fizesse isso ela não iria deixá-lo ir e ele não teria mais a coragem de partir. Seria um drama!

Ele não foi capaz de voltar a falar.

William saiu.

Victoria caiu sobre a cadeira mais próxima e chorou.

Agora só existia vazio e solidão.

A dor de deixá-la lá abateu-se sobre ele. A dor pelo sofrimento dela e pelo dele próprio. Ele sabia que a esta hora ela choraria copiosamente e que ele não podia estar lá para consolá-la. Neste caso ele não poderia fazer isso.

O que é que ele poderia ter feito de diferente? A conversa já não a convencia. Eram necessárias medidas mais drásticas. Sair do palácio era a única esperança para que aquilo acontecesse.

Mas agora não bastava o facto de ele ter de suportar que Victoria se deitasse com aquele homem. O filho que ela geraria deveria ser dele. Dele! Não daquele Príncipe alemão. Ele iria morrer de ciúme dela, deitando-se com Albert, e desse homem por ser o pai dessa criança.

Mas ele teria de passar por isto. Talvez ele pudesse amar essa criança, que seria filho de Victoria, como se fosse um filho dele. E talvez no futuro ele pudesse ser o pai de outro filho da rainha. A partir de agora, todos os filhos que de ela nascessem seriam oficialmente descendentes de Albert.

A duquesa de Kent reagiu com desalento à notícia de que Lord Melbourne tinha deixado o palácio. Ela nunca tinha imaginado que um dia pudesse sentir de forma tão acutilante a ausência daquele homem.

E Albert não entendia porque é que o Primeiro-Ministro tinha regressado para casa. Não era expectável que isso acontecesse, perante a evidência de um relacionamento tão familiar com a rainha.

Victoria justificou a saída de William com uma suposta quase conclusão das obras na casa dele. E também com a falta de privacidade que ele sentia num palácio cheio de gente. E ainda com a necessidade de ter acesso facilitado a todos os livros que ele possuía e que tinham permanecido, em grande quantidade, em casa dele. Muitas justificações falsas, mas plausíveis, para esconder uma verdade escandalosa.

Não havia hipótese, não era possível esperar mais. Por mais que ela revirasse o cérebro, Victoria não encontrava uma alternativa viável que a tirasse da situação em que ela estava. O que é que ela poderia fazer para mudar o rumo das coisas? O que é que ela poderia fazer para que William mudasse a ideia dele? Aparentemente nada! E ela não era a primeira nem a única rainha a passar por isto. Não importa quantos amantes uma rainha possa ter, é preciso que ela cumpra o dever para com o marido e para com o reino.

Então era necessário começar de novo.

Ela fez novo pedido a Skerrett para lhe trazer sangue fresco das cozinhas e o produto foi providenciado.

Que coisa estranha, tudo isto! O que ela teria de fazer com aquele homem, que poderia ser considerado um estranho, e esta coisa de ter de fingir uma virgindade que já não existia.

Depois de esconder o pequeno frasco com o sangue, Victoria chamou Albert aos aposentos dela.

Ele apareceu mostrando-se um pouco surpreendido. Albert estava habituado a ser ignorado por Victoria, não a ser solicitado por ela.

Ela estava sentada, mas não convidou o marido a sentar-se também.

Albert permaneceu em pé.

"Você pediu para falar comigo?" Ele perguntou.

"Sim!" Ela respondeu com modo determinado.

Ele ficou em silêncio à espera que ela falasse.

Victoria demorou um pouco até conseguir verbalizar a quase sentença de morte dela própria. A partir do momento que ela dissesse aquilo, ela não poderia mais adiar nem voltar atrás.

"Hoje à noite eu espero você no meu quarto…" Ela informou finalmente.

Albert abriu mais os olhos, mostrando-se surpreendido.

Afinal Melbourne tinha conseguido! Albert pensou. De facto, aquele homem tinha grande influência sobre Victoria. Se ele já tivesse falado com Melbourne há algum tempo atrás…O Primeiro-Ministro tinha deixado o palácio, mas parecia que antes disso ele já tinha conseguido o maior dos feitos!

Agora era o Príncipe que não sabia o que dizer. Ele estava à espera disto havia muito tempo e agora que ela tinha dito aquilo não parecia que pudesse ser real.

"Você tem a certeza?" Ele perguntou.

"Sim." Ela foi automática na resposta, antes que ela dissesse não.

Albert pensou que isto era tão estranho. Ele era homem e era verdade que ele não tinha muita sensibilidade para estas coisas. Ele também tinha pouco conhecimento nesta matéria e nenhuma experiência. Mas não era assim que ele tinha imaginado isto. Não deveria ser assim que as coisas deveriam acontecer. Apenas como uma obrigação. Ela deveria ter algum interesse nele e manifestar algum desejo de estar com ele. Que mulher é que o tio Leopold lhe tinha arranjado para casar?

"Você…tem algum pedido especial? Você quer que eu faça alguma coisa que possa tornar as coisas mais fáceis para você?" Ele perguntou com sinceridade.

Ela notou a sinceridade no tom de voz dele e isso foi um pouco reconfortante.

"Você disse que seria gentil…" Ela lembrou. Com a tristeza na voz e a desesperança no olhar.

"Eu serei Victoria! Eu serei gentil!" Ele assegurou veementemente, caindo de joelhos aos pés dela e segurando a mão direita de Victoria com a mão direita dele e beijando-a de seguida.

Parecia que ele estava tão satisfeito por este presente que ele estava a agradecer, caindo de joelhos como um súbdito aos pés da sua rainha, e assegurando energicamente que nunca mais voltaria a cometer o mesmo erro que a soberana lhe tinha perdoado.

"Então agora você pode retirar-se e voltar logo à noite, mas só depois de Skerrett vos chamar" Disse ela com frieza.

"Claro." Ele concordou e colocou-se de pé, parecendo ter tomado consciência de que estava numa posição humilhante.

Afinal ele era o marido da rainha, não um súbdito, e ele só tinha reclamado aquilo a que ele tinha direito e aquilo que era o maior dever de um monarca.

"Até mais logo, Victoria." Albert despediu-se e saiu.

Victoria não disse mais nada.

Depois que a porta bateu ela começou a chorar.

O choro intensificou-se.

Ela não queria fazer isto e ela sentia a falta de William. Ela sentia falta de tudo: da presença, do conselho, do sentido de humor, do sorriso radioso, do brilho dos olhos dele, do corpo dele deslizando sobre o dela.

Skerrett entrou.

"Ma'am!" A camareira exclamou e correu para a rainha caindo aos pés dela para lhe poder ver o rosto.

Skerrett agarrou nas mãos da rainha.

"Eu não gosto de ver a senhora a chorar." Disse a camareira.

Victoria sorriu de ternura por entre as lágrimas e agradeceu:

"Obrigada por se importar comigo, Skerrett!"

"Eu sempre me importei e eu sempre me importarei porque eu gosto demais de vós, ma'am."

"Eu sei. Mas você sabe porque é que eu choro?"

"Eu sei ma'am."

Skerrett sabia sempre tudo. Ela andava sempre por ali à volta dela. Leve, discreta e silenciosa. Mas ela era atenta e inteligente. Por isso, ela sabia tudo o que acontecia nas imediações.

"Eu não acho certo que Vossa Majestade tenha de fazer isso com o Príncipe se não é da vossa vontade." Skerrett ousou dizer.

"Uma rainha não tem vontade própria."

"Mas Lord Melbourne ama tanto a senhora que ele não deveria permitir que isto acontecesse."

"Lord M permite que isto aconteça porque ele me ama. É necessário evitar que eu seja envolvida num escândalo e que a legitimidade do sucessor do trono de Inglaterra seja questionada." Victoria explicou.

Skerrett suspirou e insistiu:

"Se ele visse como a senhora está chorando, o coração dele não suportaria que isso acontecesse."

"Mas ele não está aqui e ele não vê as minhas lágrimas. E isso só facilita a minha vida. Lord M tinha razão quando ele decidiu sair do palácio. Assim, eu não só me sinto mais determinada para cumprir o meu dever, como me sinto um pouco mais confortável porque ele não sabe em que momento isso irá acontecer. E eu ainda posso chorar quando tiver vontade, sem ter a necessidade de esconder as minhas lágrimas dos olhos dele."

"Há alguma coisa que eu possa fazer pela senhora?"

"Não Skerrett, obrigada. Logo à noite você irá ajudar-me a ficar preparada para a cama, como em todas as outras noites, e depois eu preciso que você vá chamar o Príncipe quando eu já estiver pronta. Só isso."

Skerrett movimentou a cabeça em sentido afirmativo.

Fechado em casa na companhia de uma garrafa de brandy, William questionou-se sobre se aquilo já teria acontecido. Obviamente ele não podia saber. E era melhor assim. Mas a dúvida era igualmente demolidora.

No meio de tudo isto havia uma coisa que ele registava e que em parte era positiva. Ela ainda não tinha enviado nenhuma longa carta, nem nenhuma pequena nota. Ela não tinha chegado até ele, nem com o queixume, pelo que ela teria de fazer, nem com os apelos desesperados para que ele voltasse para o palácio. Isso mostrava que ela estava a controlar-se e a preparar-se para agir como esperado.

Ela era corajosa, a menina dele, e ela iria cumprir o dever.

Mas ele não sabia como poderia encará-la depois disso…

A noite chegou mais rápido do que seria desejável.

Victoria não comeu quase nada durante o jantar e bebeu mais do que era habitual. A comida não descia e o vinho talvez pudesse adormecê-la.

Albert viu com preocupação o comportamento dela durante o jantar. Aquilo não preconizava um bom desfecho. Bem, mas seria hoje!

Victoria retirou-se logo após o jantar e ficou nos aposentos dela sozinha durante algumas horas. No estômago dela estava a formar-se uma sensação cada vez mais estranha. Isso seria dos nervos pelo que estava prestes a acontecer, e seria do desespero por ela se sentir tão contrariada. E seria da fome, pela pouca comida ingerida durante o jantar, e seria indisposição provocada pelo excesso de vinho bebido.

Ela desejou ficar doente para não ter de fazer aquilo. De facto, o que ela sentia quando pensava em Albert era uma aversão e algo semelhante a uma vontade de vomitar. E se ela morresse nos próximos minutos também não teria de passar por aquela provação. Mas a morte era algo demasiado drástico e ela também não queria isso. Afinal que rainha era ela? De que tipo de fibra é que ela era feita? Ela não podia ser mais frágil do que as antecessoras dela, muitas das quais haviam passado por maiores sofrimentos.

Skerrett foi chamada para ajudar a preparar a rainha a ficar pronta para a cama.

Victoria já estava de camisa de dormir, abotoada até ao pescoço e de manga comprida, e com o cabelo escovado, quando começou a colocar em prática o truque há muito previsto. Mesmo na frente de Skerrett e sem qualquer embaraço.

A camareira já tinha aberto a cama e Victoria foi buscar o pequeno frasco com o sangue, ao armário onde este estava guardado.

Na frente da camareira, a rainha molhou o dedo e passou-o ligeiramente sobre o lençol branco no local onde achou que iria assentar as ancas.

Skerrett não sabia o que dizer nem o que fazer. Assistir à montagem desta representação era demasiado embaraçoso e também a entristecia. E era notório que a rainha agia mecanicamente. Como se aquilo não a envolvesse emocionalmente.

Victoria pediu a Skerrett que sujasse apenas um pouco a parte de trás da camisa de dormir dela com sangue.

A rapariga fez o que era pedido, mas ela só tinha vontade de chorar.

Depois Victoria deitou-se de costas sobre a cama e tapou-se até ao pescoço com o lençol e a colcha.

De seguida a rainha pediu que Skerrett apagasse todas as velas de todos candelabros, exceto dos que ficavam mais afastados da cama. Assim, a zona da cama ficaria obscurecida, mas havia alguma iluminação no espaço para permitir que Abert não chocasse com os móveis.

E, por fim, o último pedido foi para que a rapariga chamasse Albert.

Um pouco hesitante sobre o cumprimento desta ordem, à qual ela sabia que não poderia desobedecer, Skerrett desejou uma boa noite à rainha e saiu.

Ela queria ter dito mais alguma coisa. Alguma coisa que pudesse minimizar o desconforto da soberana dela. Mas ela não encontrou nada que pudesse ser dito. Não havia palavras para isto.