CAPITULO 33
- Sinto muito, Rin, querida – disse a duquesa-mãe, dando tapinhas em sua mão. – Encontrei a duquesa em várias ocasiões e gostava muito dela.
Rin bebeu um golinho do chá que a duquesa-mãe havia pedido para ela tão logo chegou. – Ela era uma dama adorável – respondeu automaticamente. Suas emoções haviam passado de cruas para dormentes.
- Seu irmão de criação, porém, acho que não o conhecia bem – disse cuidadosamente a duquesa-mãe.
- Não sofro por ele – Rin bebeu outro golinho de chá, agradecida pelo calor que se espalhava da garganta ao estômago. – Não devemos falar sobre ele.
Seguiu-se um momento de silêncio. – Onde está Sesshoumaru, Rin? – perguntou a senhora. – Cuidando dos preparativos para você?
Ela olhou fixamente para a xícara de chá, como se uma resposta apropriada fosse aparecer aí. – Ele disse que devo dizer a todos que ele morreu.
A xícara da duquesa chocalhou contra o pires quando ela a colocou de lado. – O que está acontecendo, Rin?
Devagar, Rin levantou os olhos. – Sesshoumaru está...ele não é ele mesmo.
- Oh puxa! – disse a senhora suavemente – Então aconteceu. Bem como temi que acontecesse.
Ainda cuidadosa com suas palavras, Rin perguntou: - A senhora sabe sobre ele? Sobre sua família?
A mulher acenou com a cabeça – Apenas o que a mãe dele me contou naqueles dias terríveis em que se perdeu. Uma história chocante. Pensar-se-ia que ela enlouqueceu por dizer tais coisas.
- Apenas que a senhora sabia que ela não estava louca – disse Rin. – Ela ainda amava ao marido?
- Você quer dizer depois da maldição o dominar, ou depois de ele se matar por causa disso?
- Depois que o dominou? – especificou Rin.
O sorriso triste da duquesa-mãe tocou Rin. – Sim! Mas ele não lhe deu tempo para contar a ele que não fazia diferença para ela. Ele acreditou no pior. E penso que temia machucá-la e aos filhos. Ele escolheu a solução mais simplista para o problema, como os homens geralmente fazem.
Como Sesshoumaru estava fazendo também, obviamente. Rin aprendeu algo durante os poucos meses que estava em Londres. A vida não era tão simples, nem o amor, parecia. Ela não tinha tido tempo de absorver tudo o que acontecera com Sesshoumaru, e se isso havia mudado seus sentimentos por ele. Parecia absurdo que não mudar, e ainda assim seu coração doía muito mais do que seu corpo machucado. Seu coração doía por Sesshoumaru e pelo futuro que o destino teimava em roubar deles.
- Você parece acabada, querida – disse a duquesa-mãe. – E você cheira a fumaça. Permita-me que mande lhe preparar um bom banho; então você deve descansar. Pedirei que preparem um quarto de hóspede para você.
- Estou cansada – admitiu. – E aprecio muito sua hospitalidade, Sua Graça.
- Sesshoumaru estava certo ao mandá-la para mim. Acompanhe-me querida.
Rin colocou a xícara do lado e se levantou. Cansadamente seguiu a dama para um quarto no piso superior. A cama a chamava, mas esperou pacientemente enquanto a duquesa-mãe apressava os empregados para preparar-lhe um banho e a deixar o mais confortável possível. Uma jovem criada a ajudou. Fazia um longo tempo, parecia, desde que Rin teve esse luxo. Não desde a pobre Lydia morrer, ou melhor, ser assassinada pelo seu irmão de criação.
Ela se permitiu ser mimada, ser despida e ajudada no banho. Ela havia trocado o vestido e roupas de baixo destruídas antes de a carruagem de Sesshoumaru a conduzir à casa da duquesa. Agora Rin estava dentro de uma banheira com água quente e deixou que a criada a lavasse da cabeça aos pés. Depois, Rin se viu entre os frescos lençóis da cama. O cansaço rapidamente a arrastou.
Ela dormiu profundamente enquanto a tarde se tornava noite. Quando acordou, pensou em Sesshoumaru. O que ele estaria pensando? O que estaria fazendo? O que ela devia pensar e fazer? Devia fazer o que pediu e dizer a todos que ele morreu no incêndio? Mesmo sabendo que seria melhor se ela mentisse, ao menos melhor para ela, Rin não sabia se poderia cortar para sempre os laços que a prendiam a Sesshoumaru Taishou.
Tinha de vê-lo novamente. Se ela o visse, seu coração falaria por ela. Ela havia dito à madrasta que todos a quem amara a abandonaram. Agora o marido queria abandoná-la. Poderia permitir que ele lhe desse as costas e ao amor que dizia ter por ela no coração? Poderia voltar as costas a ele? Mesmo com a maldição, poderia se afastar e nunca olhar para trás?
Eram essas as questões que tinha de responder. Questões que Sesshoumaru tinha de responder também. Rin se levantou e encontrou suas roupas colocadas de forma organizada perto da cama. Ela se vestiu apressadamente, então desceu para agradecer à duquesa-mãe pela hospitalidade e para pedir emprestada a carruagem.
- Esqueci de lhe dizer – a senhora falou quando a acompanhava até a porta. – Ontem quando você não veio na prova das roupas, fui em frente e escolhi uns poucos modelos e tecidos para você. Sou boa em adivinhar medidas e espero que não se importe, mas pensei que precisava de alguns itens de imediato. Deverão ser entregues dentro de poucos dias e os enviarei a você assim que possível.
Lindos vestidos pareciam sem importância para Rin nesse momento. Apenas queria estar bonita para Sesshoumaru – Obrigada, senhora.
- Tem certeza de que não quer ficar mais um tempinho, talvez apenas essa noite?
Rin sacudiu a cabeça. – Sinto que devo ir para casa.
A duquesa-mãe tocou o braço de Rin. Sua testa enrugada – Tem certeza de que estará segura, Rin?
Seu primeiro instinto foi dizer não, ela não estava certa, mas bem no fundo de seu coração, Rin sabia que Sesshoumaru, apesar do quem ou o que era, nunca a machucaria. – Ficarei bem – tentou assegurar à duquesa. – Logo mando notícias.
O temor de Rin crescia enquanto a carruagem atravessava as ruas de Londres em direção a casa. A noite estava chegando. Sesshoumaru se transformaria na fera novamente essa noite? Transformar-se-ia todas as noites agora? Ela precisava perguntar a ele sobre a maldição. Precisava ler o poema.
A casa que o pai havia comprado para a madrasta estava em ruínas. A fumaça ainda se erguia da cinza escura que cobria o chão. Rin notou que o fogo não se espalhou. O estábulo de Sesshoumaru parecia intocado, bem como o lar que dividiam, ou ao menos costumavam dividir.
Jaken lhe abriu a porta tão logo chegou em casa. Sua presença rígida era um conforto para ela. – Lorde Taishou está em casa?
- Tem estado no quarto desde que a senhora saiu pela manhã. – Jaken a informou – Disse que não era para ser perturbado a noite toda. Disse-me para tirar a noite de folga...Devo mudar meus planos, Lady Taishou?
- Não será necessário, Jaken. – disse. – Não quero ser perturbada também.
- Muito bem então, milady. Deixei um jantar frio preparado caso algum dos dois tenha fome.
- Obrigada, Jaken. Boa noite. – disse enquanto subia as escadas.
A porta de Sesshoumaru estava fechada. As duas, percebeu logo. Rin se dirigiu para o criado mudo. O poema ainda estava em cima do livro que emprestara do quarto de Sesshoumaru. Ela o pegou e leu:
Maldita seja a bruxa que me amaldiçoou.
Eu pensei que seu coração era puro.
AH! Nenhuma mulher entende o dever,
Seja ele a família, o nome ou a guerra.
Eu não encontrei modo algum de quebrá-la
Nenhuma poção, encantamento ou façanha.
Do dia em que ela rogou a maldição,
Ela passará de semente a semente.
Traído pelo amor, meu próprio idioma falso,
Ela ordenou à Lua para me transformar.
O nome de família, antes meu orgulho,
Tornou-se a besta que me assombra.
E na hora da morte da bruxa
Ele me chamou ao seu lado.
Sem clemência, nenhuma compaixão,
Ela falou antes de morrer:
"Procure e encontre seu pior inimigo,
Seja bravo e não fuja.
O amor é a maldição que te prende
Mas é também a chave para te libertar."
Sua maldição e charada é minha destruição,
Essa bruxa que eu amei e com a qual não pude casar.
Batalhas eu lutei e ganhei,
E ainda derrotado eu fiquei em meu lugar.
Aos Taishou que sofrem meus pecados,
Aos filhos que não são nem homens nem bestas,
Desvendem o enigma que eu não resolvi
E se livrem dessa maldição.
Taishou
No ano do Senhor de 1715.
Rin piscou na ultima linha. Se livrem da maldição? Então havia esperança? Por que Sesshoumaru não lhe disse que podia quebrar a maldição? Então não estava tudo tão certo e condenado como ele a levara a acreditar? Ela tinha de perguntar a ele, decidiu.
Ela se voltou para a porta que os separava, surpresa ao vê-lo parado na entrada a observando.
- Você devia ter ficado com a duquesa-mãe – disse. – Está quase anoitecendo. Você não estará segura comigo.
- Por que não me disse que a maldição pode ser quebrada? – exigiu ela, ignorando seus avisos.
- Por que não sabemos exatamente o que fazer para quebrá-la.
Rin andou até ele, o poema nas mãos. – O poema mostra o caminho. Diz para procurar o seu maior inimigo, ser corajoso e não fugir.
Ele passou uma mão pelos cabelos desgrenhados. – Eu procurei meu pior inimigo. Enfrentei Jenine e Bankotsu, e não fugi. Qualquer um que a machuque é meu pior inimigo, Rin.
- Mas ontem à noite você os enfrentou. Talvez hoje a noite não aconteça novamente.
Ele a olhou com expressão severa. – Não quero você aqui em casa – disse. – Não quero você perto de mim.
Suas palavras a machucaram, porque ela temia que significassem mais do que essa noite. Temia que significasse para sempre. – Por que você não luta? – perguntou. – Por que não luta por nós?
Subitamente ele a agarrou pelos ombros, trazendo-a para perto dele. – Quebrar a maldição não deve ser tão simples. Você o leu inteiro? Leu a parte em que ele diz que "Batalhas lutei e ganhei / e ainda derrotado eu fiquei no meu lugar"? Se isso não a balança, olhe para mim. Olhe bem de perto, Rin.
Ela o encarou. Seus dentes estavam maiores. Ela olhou para as mãos dele que pressionavam seus ombros. Suas unhas pareciam garras. – Não! – sussurrou, seu coração se partindo.
- Sim! – ele sibilou. – Está começando a me tomar agora. Você não está segura comigo. Prefiro tirar minha própria vida a machucar você. Agora sei porque meu pai tomou sua decisão.
- Ele não deu escolha a sua mãe – ela disse. – Do mesmo modo que você quer tirar minha escolha de mim. Você disse que seu maior inimigo é qualquer um que me machuque, Sesshoumaru. Então você é meu pior inimigo. Sua disposição em abandonar o amor que temos um pelo outro me machuca mais do que o punho de um homem, ou sua faca, jamais faria. Se você deixar seu medo te derrotar, se permitir que ele lhe tire a vida e leve a minha junto, então você é o seu próprio pior inimigo.
Ele a soltou e voltou para o próprio quarto. – Vá agora, Rin. Volte para a casa da duquesa-mãe e fique lá até que eu consiga localizar meus irmãos e dizer a eles o que aconteceu. – Ele se voltou para ela e seus olhos estavam tomados pela luz azulada. – Você merece mais do que isso. – ele indicou o rosto com um gesto de mão.
Ela ofegou levemente e deu um passo para trás quando o viu. Seu medo o machucou. Compreendeu seu erro tarde demais. Ele agarrou a porta e começou a fechá-la na cara dela. Rin se precipitou para frente. – Qual é o seu maior medo, Sesshoumaru?
Ele parou, seus olhos brilhando fortemente na escuridão que se aproximava.
– Tenho medo de ferir você. Vi o que fiz com Jenine. Não me lembro do que faço quando a fera me domina, Rin. Se ele domina minha mente, como posso controlá-lo? Como saber se não a atacarei e rasgarei sua garganta?
- Você poderia ter me machucado noite passada – disse a ele. Ela se lembrava de como Bankotsu a usara como escudo porque o lobo não a atacaria. – Você nunca me machucaria, Sesshoumaru. Não importa a forma que tiver.
- Eu não sei disso! Ele trovejou para ela; então repentinamente sufocou e se dobrou. Ele se adentrou mais profundamente no quarto e caiu no chão.
Rin relembrou da noite passada quando a dor o dominou. Entendeu que quando a dor chega, o lobo não tarda a chegar. Ela havia pedido que ele tivesse fé em si mesmo, agora ela deveria encontrar a força para fazer o mesmo. Tinha de confiar em Sesshoumaru quando ele não confiava em si mesmo. Rin respirou profundamente, entrou no quarto dele, fechou a porta e os trancou juntos.
