Capítulo XXXIV

Subitamente o ar ficou ainda mais frio. A brisa matinal transformou-se em um vento forte. Jack e Kate já estavam no portão do castelo quando avistaram a comitiva inglesa se aproximando. Os cascos dos cavalos dos soldados batiam forte contra a terra vermelha das colinas. O capitão imediatamente postou-se em frente à esposa protegendo-a.

- São os soldados do seu acampamento?- Kate indagou.

- Sim.- respondeu Jack. – Mas pergunto-me quem é aquele homem que cavalga lado a lado com o General Bakunin?- ele voltou-se para Kate.- Vá para dentro do castelo, Kate e avise Sawyer!- Jack pediu.

Kate o obedeceu e Jack se preparou para encarar os homens. Lady Shepard então entrou esbaforida no castelo, gritando pelo cunhado:

- Sawyer! Sawyer! Onde tu estás?

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Sawyer tinha ido atrás de Ana-Lucia que tinha deixado a sala de visitas imediatamente depois de ouvir os absurdos que a mãe de seu marido dizia. Ela não conseguia acreditar que a sogra pudesse sequer estar pensando na possibilidade de separá-los para que ele pudesse casar-se com a prima e herdar o dinheiro de seu falecido tio.

- Ana-Lucia! Ana-Lucia, me escuta!- pediu Sawyer seguindo-a. Mas ela continuou subindo as escadas. Só parou quando eles chegaram ao terceiro andar. Ana finalmente voltou-se para o marido e apontou o dedo para ele.

- O que Deus uniu o homem não separa!- ela esbravejou. – Se tu pretendes deixar-me...

- Ana!- Sawyer bradou. Ele estendeu a mão e segurou o colar dela. A pedra ainda estava negra – Pequena, eu não vou te deixar!- ele a puxou para seus braços e ela deixou que ele a abraçasse. – Vou recusar a herança. Não preciso desse dinheiro. Sempre trabalhei duro e vou continuar trabalhando. Tu és tudo o que eu preciso, meu amor.

Ana o beijou e Sawyer correspondeu. Eles estavam assim enlaçados em um beijo quando Kate os encontrou no corredor do terceiro andar.

- Cunhado!- ela gritou, exasperada.

- O que houve, Kate?- ele perguntou interrompendo seu beijo com Ana. – Pareces tão aflita, cunhada.

- Os soldados ingleses estão na porta do castelo. Jack ficou lá para falar com eles, mas eu estou com um pressentimento ruim.

Sawyer agarrou seu mosquete imediatamente e chamou por seus guardas.

- Vocês duas, por favor, fiquem aqui. Não vou permitir que esses homens adentrem o castelo.

- Sawyer, eu sei atirar muito bem!- Kate o lembrou.

- Eu sei!- disse ele. – Vou precisar da tua maestria com o mosquete porque tu vais proteger as damas deste castelo se also acontecer comigo. Ele entregou-lhe uma arma. – Vais ficar de tocaia na torre e se perceberes qualquer coisa suspeita, atira!- ele falou antes de afastar-se chamando por seus guardas.

- Kate, que vamos fazer?- indagou Ana, nervosa.

- Vamos trazer todas as damas para o alto da torre. Se esses homens invadirem o castelo, só vão nos tirar daqui mortas porque nós vamos lutar!

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Brier Rochester e Mikail Bakunin desmontaram de seus cavalos assim que chegaram à entrada do castelo do Cisne. Jack não vestia seu uniforme de capitão, mas manteve-se altivo na presençados homens.

- Capitão!- disse Murdock, levando a mão à testa num gesto de respeito. Ele era seu mais fiel soldado.

- Bom dia, Capitão Shepard.- saudou Rochester, muito calmo.

- Bom dia.- Jack respondeu. Poderia por favor apresentar-se.

- Pois ele é o... – começou a dizer Bakunin, mas Rochester o interrompeu com um gesto de sua mão.

- Capitão Brier Rochester ao seu dispor.- ele se apresentou com um floreio. – Eu sou o novo encarregado do exército nestas terras.

- Como assim?- Jack retrucou. – Eu sou o encarregado.

- Perdoe-me a franqueza, Capitão. Mas não foi o que pareceu-me quando cheguei aqui, já que o senhor aparentemente desertou o exército para vir confraternizar com os escoceses. Sequer está usando o seu uniforme.- Brier observou.

- Perdoe-me eu estar vestido à paisana, Capitão Rochester, mas estou vestido assim porque contraí matrimônio ontem à noite.

Neste exato momento, Sawyer apareceu no portão seguido por Tomasso e mais dois de seus homens.

- Bom dia, cavalheiros.- ele saudou.

- Bom dia, senhor.- saudou Rochester, muito cortês.

- Existe algo em que eu possa ajudá-los ou estão apenas de passagem?

- Viemos falar com o Capitão Shepard, Lorde Sawyer.- respondeu Bakunin.

- Oh sim.- concordou Rochester. – Veja bem, estávamos curiosos para saber o porquê da ausência do capitão em nosso acampamento, mas ele acabou de nos contar que contraiu matrimônio.

- Exatamente.- respondey Sawyer. – O Capitão Shepard casou-se ontem com minha cunhada Lady Katherine, do clãAusten, filha de Lorde Samuel e Lady Diana Austen.

- Interessante.- disse Rochester. – Se me recordo bem, Lorde Samuel Austen foi exilado e morto na Inglaterra por traiçãoà coroa e seu único herdeiro homem também está sendo procurado por traição. Fico surpreso Capitão Shepard que tenhas te casado com a filha dele.

- Lady Katherine é uma mulher íntegra, Capitão Rochester.- Jack respondeu. – Apesar do que o pai dela fez, a família dela continua sendo uma das mais tradicionais e respeitadas aqui na Escócia. E pelo que eu saiba, não existe nenhuma lei que proíba o casamento entre ingleses e escoceces.

- Tem a lei do bom senso.- argumentou Bakunin com ironia.

- Pois o Capitão tem muita sorte de ter desposado a minha cunhada. Uma mulher de linhagem nobre que antecede linhagens inglesas.- comentou Sawyer.

- Certo, Lorde Sawyer.- disse Rochester. – Esse é o seu nome, não é? Este é um bom argumento. Mas ainda assim chegou aos ouvidos do General Locke que uma mulher conhecida como a Endiabrada invadiu o acampamento e roubou documentos importantes. A mulher então foi presa pelo Capitão Shepard e depois misteriosamente desapareceu de Darkfalls. O senhor por acaso tem conhecimento do paradeiro dela, Capitão?

- Infelizmente não.- respondeu Jack. – A mulher é ardilosa e conseguiu fugir.

- Ou alguém a ajudou a fugir.- acrescentou Bakunin.

- General Bakunin, não estou gostando dos rumos dessa conversa.- disse Jack, muito sério.

- Ora, Shepard, sabes muito bem que o teu amolecimento diante da dama quando eu estava tentando arrancar informações dela ajudou em sua fuga. Ela sentiu-se forte o bastante para te ludibriar. Diga-me, capitão , o que foi que ela lhe deu para que o senhor a deixasse fugir? Por acaso ela ficou de joelhos e lhe fez um favor pessoal?

Jack sentiu o sangue ferver diante das palavras de Bakunin. Sawyer notou isso e antes que o cunhado pudesse responder, ele adiantou-se:

- Gostaria de lhe dizer General, que esses assuntos não são do meu interesse e certamente não quero discuti-los no portão de minha casa.

Kate observava o grupo da torre, a arma preparada para atirar ao menor sinal de qualquer movimento estranho do exército inglês.

- Tem toda razão, Lorde Sawyer.- concordou Rochester. – Não é mesmo de bom tom discutir assuntos dessa natureza diante dos portões do castelo de um homem de bem.

- Mas General Rochester...- insistiu Bakunin começando a ficar frustrado vendo que o general não parecia estar interessado em um confronto direto com Jack e seus aliados escoceses.

- Basta, Bakunin!- falou Rochester com muita calma em sua voz. – Eu não vim aqui acusar o Capitão Shepard de traição, eu vim aqui buscar esclarecimentos. Apesar do senhor já ter me dado algumas respostas, Capitão...- ele se voltou para Jack. - ...necessito que o senhor nos acompanhe ao acampamento para que possamos conversar melhor.

- Sim, senhor.- concordou Jack de pronto. – Agora mesmo colocarei meu uniforme e acompanharei a comitiva de volta ao acampamento.

- Por certo.- disse Rochester, tocando a aba do chapéu e fazendo uma mesura para Sawyer antes de retornar ao seu cavalo. – Passar bem, Lorde Sawyer.

- Passar bem, General.- respondeu Sawyer.

Assim que a comitiva afastou-se do portão, Sawyer indagou a Jack:

- Tem certeza que quer fazer isso, Capitão? A amabilidade do general nao pareceu-me muito verdadeira.

- E provavelmente não é, Lorde Sawyer. Mas eu preciso reportar-me a ele e mandar explicações para meu superior na França. Se mantivermos a calma tudo ficará bem. O General Locke é um homem de princípios e tenho certeza de que se eu explicar-me adequadamente não haverá espaço para mais intrigas.

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Dentro do castelo, Kate encontrou Jack em seus aposentos terminando de abotoar o uniforme. Ela ainda segurava o mosquete. Assim que o viu, ela o pousou no chão e foi abraçá-lo.

- Jack!- exclamou sentindo os braços dele envolvê -la com carinho. – O Sawyer me disse que eles querem que tu os siga de volta ao acampamento. Por que?

- Esclarecimentos.- Jack respondeu. – Querem interrogar-me sobre o motivo de eu estar aqui no castelo e saber do paradeiro da endiabrada. Bakunin escreveu ao General Locke e disse a ele que eu poderia estar envolvido com traição.

Kate levou as maos à boca, assustada:

- Oh Deus, aquele bastardo foi capaz disso?

- Locke enviou um general para investigar-me. Brier Rochester.

Ela balançou a cabeça negativamente:

- Jack, se eles estão desconfiando de traição, tu não deverias ir até lá . Não é seguro. Nós podemos protegê -lo.

- Kate, se eu não for até lá vou ser acusado de qualquer jeito. Mas se eu for, estarei lhes dando o benefício da dúvida.

Ele segurou as mãos dela.

- Kate, confie em mim. Tudo vai ficar bem.

Ela deu um sorriso triste para ele antes de beijá -lo. Queria acreditar nele, mas ela aprendera desce cedo que não deveria confiar em ingleses.

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- James, o que está acontecendo?- bradou Maryan Ford seguindo Sawyer até a biblioteca depois dele ter retornado para dentro do castelo. – Por que os soldados ingleses estavam aqui? E por que Katherine estava carregando uma arma?

- Mamã, dê-me um tempo. As coisas estão um pouco tensas por aqui hoje.

- James, eu não posso acreditar que estás seguindo os passos do teu pai.- ela lamentou. – Metendo-se com os rebeldes.

- Mamã eu sou um rebelde!- ele exclamou. – Será que a senhora não consegue entender que papa morreu lutando pelo que acreditava? Lutando pela nossa liberdade?

- Nós nunca estaremos livres, James, entenda! Tentei fazer teu pai entender, mas ele não me ouviu. Os ingleses são mais fortes. Nunca conseguiremos vencê -los e eu não quero que tu morras lutando por uma causa perdida.

Sawyer serviu-se de uma dose de uísque e sentou-se em uma poltrona. O dia mal tinha começado e ele já sentia-se cansado.

- Filho, escute-me.- ela pediu colocando ambas as mãos nos ombros largos dele. – O que tu precisas fazer agora é procurar um advogado, alguém que consiga contato com o rei Jacob.

- E por que eu iria de querer contatar o rei Jacob?- retrucou ele sem entender.

- Para que ele possa dar-te permissão para anular teu casamento com a Austen, assim poderás casar-te com Jéssica e receber o dinheiro da herança de teu dio. Te tornarias um Duque e poderíamos todos viver muito bem na França. Longe dessa guerra!

Sawyer tomou o restante de seu uísque só de uma vez, tamanha foi sua fúria ao ouvir a mãe insistindo naquela história de novo.

- Eu vou procurar um advogado sim, mamãe.- respondeu ele. – Um advogado para tentar ajudar-me a anular essa cláusula estúpida sobre o meu casamento com Jéssica para que eu possa receber minha herança, recuperar este castelo e continuar lutando pela minha pátria!

Maryan suspirou, resignada.

- Eu não aceito isso, James!

- Então não temos mais nada a conversar, senhora.- disse ele, frustrado. – E se a senhora pretende não respeitar a minha Ana, a dona do meu coração, eu gostaria que a senhora e a prima Jéssica deixassem esse castelo ainda hoje. Tenho certeza de que as duas serão muito bem recebidas em Isenwood.

Ele retirou-se da bibilioteca.

- James!- ela gritou exasperada, sem acreditar no que o filho tinha acabado de dizer.

Jéssica que estivera o tempo todo escondida no corredor, ouvindo a conversa dos dois na biblioteca foi ter com a tia.

- Tia, eu acho que ele não vai mudar de ideia. Ele parece mesmo amar aquela mulher.

- Pois eu não desisto, Jesse.- disse Maryan. – Iremos sim para Isenwood e em alguns dias James estara lábatendo ànossa porta para pedir perdão quando ele entender que não vai conseguir sobreviver nesse castelo sem a herança do teu pai.

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Kate bateu à porta do quarto de Ana-Lucia, mas a irmã não respondeu. Ela resolveu abrir a porta assim mesmo e a encontrou sentada em sua cama com uma expressão triste.

- Ora vamos, minha irmã, não me diga que estás assim amuada por causa de tua sogra e esse projeto de dama que ela trouxe consigo?- Kate indagou sentando-se na cama ao lado dela.

Ana-Lucia deu um suspiro resignado.

- Sawyer disse-me que não importa o que aconteça, nós sempre vamos ficar juntos e que ele renunciaria de bom grado à essa heranca se isso significar a nossa separação.

- Como deveria de ser, Analulu.- disse Kate tomando a mão da irmã entre as suas. – Sawyer está apaixonado por ti, todo mundo pode ver. Tens que controlar teus ciúmes e mostrar-te forte para que tua sogra não se sinta vitoriosa.

- Tens razão, pequena Kate.

Kate olhou para a pedra esmeralda de Ana-Lucia em seu pescoço. A pedra ainda encontrava-se escura.

- Irmã, sei que consegues sentir as coisas, as energias, o que quer que seja através da tua pedra.

Ana tocou a pedra e assentiu.

- Tu sabes que o Jack acabou de partir com a comitiva do Capitão Rochester para prestar explicações no acampamento do General Bakunin. Irmã, eu temo por ele.

- Eu entendo.- disse Ana. – Mas não temas. Meus instintos me dizem que o capitão ficará bem.

- E por que tua pedra continua escura?- questionou Kate.

- Não posso explicar, tem algo a ver com os meus próprios sentimentos, acho. A presença de minha sogra e daquela moça aqui me incomodam.

Nesse momento, Ana ouviu a voz da sogra no corredor. Correu à porta para ver o que estava acontecendo. Dois guardas carregavam os baús de Lady Sawyer e da Srta. Gale escadas abaixo. Maryan vinha logo atrás segurando a mão da sobrinha. Quando viu Ana, lançou-lhe um olhar de ódio antes de dizer:

- Sim, estamos partindo para Isenwood porque recuso-me a ficar nesse castelo mal assombrado ouvindo o meu filho dizer asneiras. Mas prepara-te porque vamos voltar!

Kate apareceu por tràs de Ana e disse com clara ironia na voz:

- Atémais ver, Lady Sawyer. Por favor, cuidado para não prender a saia no vão da porta quando sair.

- Ah, vai para o inferno Lady Austen ou seja lá que nome tenhas agora!

Ana-Lucia e Kate riram. A endiabrada não dava a mínima para as palavras duras de Lady Maryan.

- Estás vendo Analulu? Eu te disse que ela era uma bufona. Não tens razão para preocupar-te.

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Paulo observava os rostos sorridentes daqueles homens que pareciam tão felizes em vê-lo, mas nenhum daqueles rostos lhes eram familiares. Estava sentado ao redor de uma mesa redonda com outros cinco homens. Desde que chegara à residência do padrinho de Penny que vinha sendo tratado como um lorde, embora não se lembrasse de ser um.

- Deseja mais alguma coisa, Lorde Austen?- perguntou um dos homens.

- Como te sentes, Lorde Austen?- perguntou outro.

- Acaso realmente não te lembras quem eu sou?- perguntou um terceiro.

De repente Paulo sentiu uma forte dor de cabeça ao olhar no rosto daquele terceiro homem.

- Bloody Hell!- Charlie exclamou espantado com a aminésia de seu primo. – Quando atiraram em ti, provavelmente batestes a cabeça também, caro primo.

- Somos primos?- Paulo indagou voltando a encarar Charlie.

- Aye!- exclamou ele em gaélico. – Somos primos e companheiros de batalha, homem!

- Desculpe-me, éque não consigo me lembrar.- disse Paulo, frustrado.

- Talvez se trouxermos a Srta. Murray aqui ele se lembrará, Sir Charlie.- disse um homem de traços orientais.

Charlie esboçou um sorriso.

- Da Srta. Murray háde te lembrares, primo Paulo.

- Srta. Murray?- indagou Paulo. – Quem é a senhorita Murray?

Charlie revirou os olhos.

- Isso vai ser mais difícil do que eu pensava.- comentou.

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O Capitão Jack Shepard tomou seu lugar na tenda do General Brier Rochester. Ele, o GeneralBakunin e mais dois homens sentavam-se diante de uma grande mesa de madeira com cadeiras independentes, diferentes dos bancos de correr na tenda dos outros soldados. Um empregado serviu a mesa com um bule de chá e xícaras da mais fina porcelana chinesa que formavam um conjunto com as colheres de prata, o pote de cubos de açúcar e o pote de creme. O General Rochester parecia gostar de luxo, Jack observou.

A expressão dele era tranquila assim como seus maneirismos quando comecou a se servir do cháde rosas vermelhas inglês juntamente com os outros homens presentes na tenda. Porém por dentro ele se sentia muito nervoso. Assim que o empregado se retirou, Rochester adicionou dois cubos de açúcar e duas colheres de creme em seu chá antes de pronunciar-se.

- Meus caros estamos aqui reunidos para uma conversa informal e devo dizer amistosa com o Capitão Jack Christian Shepard, representante da Coroa Inglesa na Escócia até o presente momento.

- Mas ele foi destituído, General...- disse Bakunin.

- Mikail, ora vamos! Ele ainda não foi destituído formalmente.- falou Rochester. – O General Locke mandou-me aqui para fazer averiguaçõe que eu estou fazendo. Capitão Shepard?

- Sim, General Rochester.

- Por favor, vamos começar pelo princípio de tudo. Conte-me tudo o que te lembras da noite em que a endiabrada atacou o acampamento atéo momento de sua fuga.

- General, devo dizer que não presenciei sua fuga.- mentiu Jack sentindo um nó se formando em seu estômago.

- Do começo Capitão...do começo...- disse o General levando sua xícara de chá aos lábios e sorvendo um gole. – Hummm, excelente chá.

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Canterburry, Inglaterra

Claire observou as ovelhas pastando da janela do castelo. Sorriu. Pela primeira vez em muito tempo sentia-se em paz. Acariciou a pequena barriga que começava a ficar proeminente debaixo do vestido de lã. Ouviu sua velha ama aproximando-se. Ela trazia uma bandeja com consomé de frango, pão preto e chá. Claire queixou-se quando viu a bandeja.

- Ai, ama, eu disse que não estava com fome.

Heloise Hawkins sorriu bondosamente e pousou a bandeja na mesinha de centro.

- Princesa Claire, sabes que agora precisas comer por dois.

- Mas ainda sinto tanta naúsea, ama.

- Isso deve passar logo, querida. Por favor, sente-se e coma um pouco.

Claire obedeceu. Sentou-se e começou a tomar o consomé devagar.

- Estáapetitoso.- comentou.

A ama sentou-se ao seu lado no sofá azul bordado com motivos de flores campestres. As duas ficaram em silêncio por alguns minutos até que Heloise perguntou:

- Já sabes como vais chamar a criança?

A princesa abriu um enorme sorriso.

- Carole.- respondeu.

- Como tua mãe?- retrucou a velha senhora.

- Sim, como mamã.

- Mas e se acaso tiveres um menino?

- Se for um menino se chamará Thomas como o pai.

- Bem, seu pai o Rei provavelmente não aceitaria isso.

- Ele vai ter que aceitar, ama. Meu pai não vai querer bastardos na Côrte. Thomas e eu vamos nos casar e tudo então iráse ajeitar.

- Mas princesa, estás te esquecendo que és a única herdeira do trono da Inglaterra. Teu pai irá querer ver-te casada com um jovem de sangue azul como milady.

- Pois eu irei renunciar ao trono se for preciso. Não quero ser rainha!

- Mas e o futuro do filho ou filha de milady?- questionou Heloise, preocupada.

- O futuro à Deus pertence, ama. Tudo vai se ajeitar.

- Deus te ouça, princesa. Acha que o senhor Thomas vai voltar?

- Ele vai voltar, ama. Eu tenho certeza de que ele vai voltar e nós ainda seremos muito felizes.

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- Acho que já bebemos demais, Sir.- disse Naomi segurando uma garrafa de uísque vazia. – Olha só bebemos a garrafa inteira. Pensei que só íamos tomar um trago.

Desmond riu e rolou seu corpo por cima do corpo nu dela. Os dois estavam na cama, no andar de cima da taverna Widmore em Lósda.

- Um trago nunca é suficiente, mon cher!- disse ele, beijando-a. Naomi colocou a garrafa de lado e correspondeu ao beijo.

Quando eles pararam para retomar o fôlego, Naomi disse à ele:

- Eu te odeio.

Desmond franziu o cenho e disse com falso drama na voz:

- Chéri, o que foi que eu fiz para merecer isso? Pensei que tínhamos nos dado tão bem.

Ela deu uma risadinha.

- Esse é que é o problema! Homem, eu e meus comparsas roubamos teus cavalos, teu dinheiro...como podes estar numa cama comigo? Acaso agora que conseguistes o que queria vais me denunciar para os soldados?

Desmond acariciou o rosto dela.

- Não, eu não vou. Na verdade, gostaria de perguntar-te se não querias vir comigo pra Paris.

- Pra Paris?- ela questionou, surpresa. – Como assim?

- Posso conseguir-te um bom trabalho em Paris, como arrumadeira em uma mansão ou como cozinheira em um restaurante fino se souberes cozinhar.

- Poderias mesmo?- ela perguntou com um enorme sorriso nos lábios.

- Claro que sim!

- Nossa tu és impressionante!- Naomi exclamou. – Depois de tudo o que eu fiz...

- Esqueça isso. Considere o que o seu grupo levou de nós como um presente. Tenho dinheiro de sobra para repor tudo. Eu só acho que uma moça linda como tu não deverias estar envolvida nesta vida de crimes. Deverias estar debutando na alta sociedade.

- Sir Hume, minha família nunca teve dinheiro para meu dote. Eu já ficaria feliz se eu conseguisse um trabalho digno em algum lugar longe daqui e pudesse viver a minha vida decentemente.

- Feito!- disse ele, beijando-lhe a mão. Minha comitiva pretende partir ainda esta noite. Virás conosco então?

- Eu preciso de um tempo. Tenho que ajudar meus amigos com umas coisas, mas assim que eu estiver livre posso ir encontrar-te na França se me deres teu endereço.

- Muito bem.- respondeu Desmond.

Naomi trocou de posição com ele na cama, ficando por cima e o beijando. Desmond correspondeu com ardor ao beijos dela.

- Então estavas indo comprar novos cavalos?

- Exato, minha cara. Meu primo deu-me uma missão esta manhã. Comprar cavalos e alugar um novo coche será o de menos. O restante da missão é que me preocupa.

- O que tens de fazer?- Naomi perguntou, curiosa.

- Meu primo quer que eu consiga em segredo uma espécie de erva que ele possa dar à esposa para que ela durma durante toda a viagem.

- E por quê? Ela sente-se mal quando estàviajando?

- Bem...digamos que ela não estàmuito interessada em viajar para a França, mas ficar na Escócia não seria bom pra ela, então...

- Então teu primo quer drogá -la e levá-la à força.

- Não soa muito bem quando tu falas assim, chéri.

- Diga-me, o seu primo é um homem honrado? Ele realmente está fazendo isso pelo bem da esposa dele?

- Meu primo é o homem mais honrado que já conheci.- afirmou Desmond. – E posso lhe dizer com certeza de que ele é loucamente apaixonado pela esposa.

Naomi sorriu.

- Sendo assim, acho que posso ajudar-te a conseguir o que precisas.

Desmond alargou os olhos e sorriu.

- Agora sou eu quem digo, tu é s impressionante.

Eles beijaram-se novamente e voltaram a fazer amor.

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Lady Diana Austen bordava calmamente ao pé da lareira crepitante quando o Sr. Eko adentrou a sala de visitas e anunciou:

- Lady Maryan Sawyer e Srta. Jéssica Gale.

As duas mulheres adentraram a fabulosa sala de visitas do castelo de Isenwood. O Sr. Eko fez uma mesura e retirou-se. Diana largou o bordado e levantou-se imediatamente para abraçar a amiga que não via há muitos anos.

- Oh, meu Deus! Maryan!

- Diana!- exclamou Maryan. – É um prazer revê -la.

Elas se abraçaram calorosamente.

- Deus! Eu nao tinha ideia de que tu virias. Por que não escreveu-me?

- Perdão, minha amiga. Tudo aconteceu tão depressa estes últimos dias.

- E quem é esta mocinha linda que te acompanha?

- Minha sobrinha, Jesse.

- Como vai, Jesse?- indagou Diana, educada.

- Vou muito bem, Lady Austen. É um prazer conhecê-la.

- Por favor sentem-se. Eu vou pedir à criada que traga chá.

Diana pegou um sininho que estava em uma mesa de mármore no centro da sala e o balançou por alguns segundos. Uma criada veio imediatamente.

- Por favor, Briseide, poderia nos trazer chá e biscoitos. Os amanteigados e os de chocolate por favor.

- Sim, milady.- assentiu a criada com uma mesura antes de retirar-se.

Assim que ela saiu, Diana perguntou à Maryan:

- O que a trouxe de volta a Escócia, querida amiga? Lembro-me de tê -la ouvido dizer depois que soubemos da morte de nossos maridos, que Deus os tenha, que não pretendias mais retornar à Escócia enquanto vivevesses.

- Isso é verdade. Mas infelizmente tive que retornar. Meu querido irmão, o Duque de Conrad faleceu de uma terrível moléstia e eu tive que deixar a França para vir ver meu filho James.

- Meus pêsames, querida. Lembro-me de Dogan, teu irmão. Ele era um bom homem. Samuel e eu tínhamos muito apreço por ele.

- Sim, Jesse e eu ainda estamos de luto por sua morte. Mas agora que ele se foi, deixou seu título, fortuna e propriedades para meu filho James, e seu último desejo era que ele se casasse com a prima Jesse.

Diana mostrou-se muito surpresa com aquela revelação.

- Mas teu filho está casado.- disse ela.

- Exatamente.- acrescentou Libby, adentrando a sala de visitas de repente. – Ele está casado e muito bem casado com Ana-Lucia.

- Sim, Maryan. Lamento informar-te mas Libby tem razão.

- Lady Thompson.- disse Maryan com o tom de voz seco. – É um prazer vê -la novamente. Vejo que os anos fizeram-te bem. Florescestes bastante.- disse Maryan com maldade.

- O prazer é todo meu, Lady Sawyer.- disse Libby deitando-se em um canapé em frente à lareira sem nenhuma formalidade. – A senhora não imagina o quanto eu floresci.- Libby devolveu maliciosa. Maryan fingiu não ter entendido o que ela quis dizer.

A criada trouxe o chá e os biscoitos em uma bandeija de prata e a pousou na mesa de mármore, retirando-se em seguida.

- Obrigada, Briseide.- disse Diana.

As mulheres começaram a servir-se do chá.

- Diana, querida amiga.- começou Maryan. – Tu provavelmente irás concordar comigo que tua filha não foi uma boa escolha para meu filho.

Os olhos de Diana se arregalaram.

- Como é que é?

- Bem, eu digo...ela é uma boa moça...mas a mãe verdadeira dela era uma cigana e...

- Oh-oh!- exclamou Libby com um sorriso divertido no rosto. – Talvez eu deva pedir à Briseide que traga algo mais do que chá para bebermos. Conhaque talvez?

- Diana...

- Ana-Lucia é minha filha! A mãe dela morreu de parto, que Deus a tenha e eu a tomei em meus braços como minha no momento em que fiquei noiva de Samuel. Assim como tomei como meu filho o pequeno Paulo. Ana-Lucia é uma Austen e foi educada na França em um exímio convento francês. Ela possui todas as virtudes que uma moça da alta sociedade como sua sobrinha possui.

- Eu não quis ofender, juro!- disse Maryan, preocupada. – Minha amiga, tu sabes que o meu clã está falido...

- Tanto quanto o meu.- respondeu Diana, ríspida.

- Sim, por isso eu preciso que James assuma o título deixado por seu tio e despose Jéssica. Sem isso a pobrezinha não terá nem mesmo um dote.

Jéssica permanecia calada diante daquela conversa.

- Eu sinto muito, Maryan. Tenho certeza que James encontrará uma forma de receber o título sem precisar casar-se com sua prima. E se continuares insistindo neste assunto vou ter que pedir que te retires de Isenwood.

Maryan levou as mãos à boca em choque antes de dizer:

- Não, por favor. Não quero voltar ao castelo de meu filho. Nós tivemos um argumento!

- Provavelmente porque a senhora deve ter sugerido algum tipo de idea esdrúxula para ele como separar-se de Analulu e casar-se com Jéssica.- disse Libby.

Maryan ignorou o comentário dela.

- Deixe-me ficar em Isenwood, amiga.- implorou ela. – Prometo que não tocarei mais neste assunto. Eu só preciso de tempo para pensar em como vou resolver este problema.

Nesse momento, Jéssica começou a chorar. Convulsivamente.

- Oh por Deus, não chore menina!- disse Libby se aproximando dela e dando-lhe tapinhas nas costas.

Diana serviu mais chá para Jéssica.

- Libby, por favor, querida. Vá dizer ao Sr. Eko que leve os baús das visitas para os aposentos de hóspedes.

- Sim, senhora.- respondeu Libby, levantando-se do sofá e deixando a sala.

- Oh Maryan, não tens ideia de como estou me sentindo nesse momento.

Briseide apareceu de repente trazendo um lenço de linho e entregando-o para Jéssica que começava a se acalmar.

- Analulu casou-se sem a minha presença e não a vejo desde o dia em que deixou esta casa. Paulo e Kate estão desaparecidos. Meu coração não consegue aguentar! Essa revolução têm sido tão amarga para nossas famílias.

- Eu não sabia que teu filho estava desaparecido, Diana. Mas Katherine certamente não está.

- Do que está falando?

- Eu a vi no castelo do meu filho. Ela acabou de casar-se!

- Casou-se?- retrucou Diana, em choque. – Mas com quem? E sem o consentimento de Paulo?

- Não sei sobre o consentimento, mas sei que ela se casou e foi com um capitão da infantaria inglesa.

Diana engasgou com o prórprio chá e começou a tossir convulsivamente.

- Oh meu Deus!- exclamou Jéssica.

Maryan agarrou o sino da mesa e agitou-o no ar, chamando pela criada.

- Briseide! Briseide!

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- E foi assim que aconteceu, General Rochester.- disse Jack terminando de contar sua história.

- Muito interessante, Capitão Shepard.- observou Rochester. Os demais permaneciam calados. – Então a endiabrada o ludibriou na prisão, o fazendo ter pena dela e escapou.

- Exatamente, General. – Como eu disse ela é muito ardilosa. Implorou por água depois que o General Bakunin chicoteou-a sem piedade. Fui buscar a água e ela arranjou um jeito de fugir da prisão.

- Deve ter sido um feitiço!- exclamou Bakunin. Os outros homens concordaram balançando a cabeça.

- Mais um motivo para a encontrarmos e enforcá -la. O rei não tolera bruxaria.- afirmou Rochester.

Jack assentiu mas seu coração falhou uma batida quando Rochester falou em enforcamento.

- Bem, Capitão, devo dizer que no momento estou satisfeito com tuas explicações. Vou mantê -lo no comando deste acampamento e deixá -lo ir com duas condicções.

- Sim, General.

- Pois bem, a minha primeira condição é que tu lideres o acampamento, mas eu estarei liderando a operação daqui por diante.

- Como lhe aprouver, senhor.- concordou Jack.

- Minha segunda condição é que gostaria de ser convidado para jantar amanhã no castelo de Isenwood e ser apresentado àtua esposa Lady Katherine, sua mãe e a irmã. É claro que Lorde Sawyer também deve estar presente a este jantar.

- Providenciarei isso imediatamente, senhor.

- Agradecido, Capitão Shepard.

- Generais! Senhores!- disse Jack levanto-se da mesa e preparando-se para partir.

Lá fora, Murdock o chamou antes que ele montasse em seu cavalo.

- Capitão!

- Sim, Murdock?

- Esta carta de sua irmã veio da França para o senhor.

- Muito obrigado, Murdock. Até mais ver.

- Até mais ver, Capitão!- disse Murdock batendo continência.

Rochester observou Jack partindo em seu cavalo da abertura da tenda. Bakunin cercou-se dele parecendo irritado.

- General Rochester, não devias tê -lo deixado ir.

- Caro Bakunin, tu achas que vamos descobrir alguma coisa sobre o Capitão mantendo ele preso aqui? Negativo! Precisamos ir aonde o problema está. Se os clãs Austen e Sawyer estão envolvidos em traição, melhor coisa será ficar perto deles, ficar amigos, entende? Desta maneira poderei descobrir tudo o que precisamos.

- És brilhante, General- disse Bakunin com um sorrisinho maléfico.

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- Então não estás aborrecido que tua mãe e tua prima tenham deixado nosso castelo, Sawyer?- Ana-Lucia perguntou ao marido. Ela estava sentada no colo dele na biblioteca.

Sawyer segurou a mão dela com delicadeza e beijou seus dedos longos um por um.

- Na verdade sinto-me contente.

- Contente?- retrucou Ana. – Então folgas que tua mãe tenha partido?

- Eu tinha esquecido o quanto a minha mãe podia ser irritante e chantagista. Mas não te preocupes, vai ficar tudo bem. Continuaremos juntos.

Eles se beijaram. Ana aconchegou-se mais a ele. Sawyer colocou sua mão na saia dela e acariciou o tecido displicentemente enquanto a beijava. Ana sussurrou no ouvido dele: - Por que não coloca sua mão debaixo da minha saia?

Sawyer riu baixinho.

- És uma libertina tanto quanto eu.

Ele começou a deslizar a mão para baixo das saias dela quando Kate entrou na biblioteca de repente.

- Aye, eu não acredito que estão aqui fazendo isso!- exclamou, irritada. – Vocês dois são tão melosos.

- Somos recém-casados.- justificou-se Sawyer beijando a bochecha de Ana que sorriu para ele.

- Mas nós estamos no meio de uma revolução. Não temos tempo para essas volúpias! Meu capitão está em perigo!

- Cunhada, não te preocupes. Mandei dois de meus homens através da trilha secreta que leva ao acampamento dos ingleses. Se o seu capitão não sair de lá em mais uma hora, meus homens o tirarão de lá.

- Se tu dizes!- resmungou Kate deixando a biblioteca.

Quando ela saiu, Sawyer voltou a beijar Ana com luxúria e suas mãos desceram novamente para as saias dela, dessa vez encontrando o caminho embaixo do tecido e tocando-lhe as meias de seda brancas. Mas antes que ele pudesse continuar seu prazeroso intento, Bernard adentrou a biblioteca sem bater na porta.

- Lorde Sawyer, encontramos Paulo!- exclamou.

Nesse exato momento, algumas velas que estavam espalhadas pela biblioteca acenderam-se sozinhas como mágica e flutuaram ao redor do salão.

- Paulo... – Ana murmurou.

- Mas o quê...?- questionou Sawyer confuso observando as velas flutuantes.

Continua...