VINTE

AURORA

No capítulo anterior...

– Mas por quê? – perguntou Bella. A conversa era tão frustrante. Ela se sentia como uma criança ouvindo que entenderia tudo quando ficasse mais velha. – Por que não podem simplesmente me ajudar a entender?

Podemos ajudar – disse Alice –, mas não podemos despejar tudo em cima de você de uma vez só. Você nunca deve acordar um sonâmbulo de uma vez. É perigoso demais.

Bella envolveu-se com os braços.

– Eu morreria – disse, oferecendo as palavras que os outros estavam evitando.

Edward colocou os braços em volta dela.

– Já aconteceu antes. E você já teve quase-encontros com a morte suficientes para uma noite.

– E agora? Agora só tenho que largar a escola? – Ela se virou para Edward. – Para onde vai me levar?

Suas sobrancelhas se franziram, e ele afastou os olhos.

– Não posso levar você a lugar nenhum. Chamaria muita atenção. Vamos ter que confiar em outra pessoa. Existe um mortal em quem podemos confiar. – Ele olhou para Alice.

– Vou chamá-lo – disse ela, erguendo-se.

– Não vou deixar você – Bella disse para Edward. Seus lábios vacilaram. – Acabei de ter você de volta.

Edward beijou sua testa, despertando um calor que se espalhou pelo corpo de Bella.

– Felizmente, ainda temos algum tempo.

º¤ø,¸¸,ø¤º°`°º¤ø,¸°º¤ø,¸¸,ø¤º°`°º¤ø,¸ º¤ø,¸¸,ø¤º°`°º¤ø,¸°º¤ø,¸¸,ø¤º°`°º¤ø,¸

Estava amanhecendo. A aurora do último dia que Bella veria na Sword & Cross por, bom, ela não sabia por quanto tempo. O pio de uma única pomba branca ecoou pelo céu cor de açafrão enquanto ela entrava pelas portas cobertas de vegetação da academia. Lentamente, partiu em direção ao cemitério, de mãos dadas com Edward. Estavam em silêncio enquanto atravessavam a grama imóvel do pátio.

Momentos antes se saírem da capela, um de cada vez, os outro tinham retraído suas asas. Era um processo trabalhoso e sério, que os deixava letárgicos assim que voltavam à sua forma humana. Olhando aquela transformação, Bella não podia acreditar como as imensas e brilhantes asas poderiam ficar tão pequenas e frágeis, finalmente sumindo sob a pele dos anjos.

Quando acabou, ela passou a mão pelas costas de Edward. Pela primeira vez, ele parecera tímido, sensível ao seu toque. Mas a pele dele era macia e perfeita como a de um bebê. E em seu rosto, no rosto de todos eles, Bela ainda podia ver a luz prateada manifestando-se, brilhando em todas as direções.

No final, tinham carregado o corpo de Ang de volta para o alto das escadas de pedra até a capela, limpando os cacos de vidro de cima do altar, deitando-a lá. Não havia como enterrá-la naquela manhã – não com o cemitério cheio de mortais, como Edward garantiu que estaria.

Doía em Bella aceitar que só poderia sussurrar algumas últimas palavras para sua amiga dentro da capela, nada mais. Tudo que ela conseguia pensar em dizer era: "Está com o seu pai agora. Sei que ele está feliz em tê-la de volta."

Edward enterraria Ang apropriadamente assim que a escola se acalmasse – e Bella mostraria a ele onde era o tumulo do pai de Ang, para que ela fosse descansar em seu lado. Era o mínimo que podia fazer.

Seu coração estava pesado enquanto atravessava o campus. O jeans e a camiseta pareciam esgarçados e sujos. As unhas das mãos precisavam de uma boa esfregada, e ela estava feliz por não haver nenhum espelho por perto para ver como estava seu cabelo. Queria tanto poder voltar e mudar a metade negra da noite – poder salvar Ang, acima de tudo –, mantendo as partes boas. O clímax emocionante ao montar o quebra-cabeça da verdadeira identidade de Edward. O momento em que ele apareceria na frente dela em toda sua gloria. Ver Alice e Rose desabrochando suas asas. Havia visto tantas coisas lindas.

E tantas haviam resultado numa completa e desoladora destruição.

Ela se sentia na atmosfera, como uma epidemia. Podia perceber nos rostos dos muitos alunos andando pelo pátio. Era cedo demais para qualquer um deles estar acordado por vontade própria, o que significava que todos deviam ter ouvido os visto pelo menos um pouco da batalha que acontecera na noite passada. O que saberiam? Será que já estava procurando por Ang? Pela Srta. Victoria? O que deviam achar que acontecera? Todos estavam agrupados e cochichando. Bella teve vontade de se aproximar deles e escutar.

– Não se preocupe. – Edward apertou sua mão. – Apenas imite os olhares assustados. Ninguém vai desconfiar de nós.

Apesar de Bella sentir que era tudo óbvio e que seu rosto denunciava isso, ele estava certo. Nenhum dos outros alunos olhava para eles por mais tempo do que para quaisquer outros.

Nos portões do cemitério, luzes azuis e brancas da polícia piscavam, refletindo nas folhas dos carvalhos altos. A entrada tinha sido lavrada com fita amarela.

Bella viu a silhueta de Randy desenhada contra a luz do sol na frente deles. Estava andando de um lado para o outro na entrada do cemitério e gritando num aparelho sem fio preso na gola de sua camisa pólo deformada.

– Acho que você devia acordá-lo – gritou. – Aconteceu um incidente na escola. Estou falando... Eu não sei...

– Devo alertar você – Edward disse a ela enquanto a afastava de Randy e das luzes dos carros de polícia pelo arvoredo de carvalhos que limitava o cemitério de três lados. – Vai parecer estranho para você lá embaixo. O estilo de guerra de Jacob é mais bagunçado que o nosso. Não é nojento, é apenas... diferente.

Bella não achava que muita coisa podia assustá-la àquela altura. Algumas estátuas caídas certamente não iriam chocá-la. Eles caminharam pela floresta, as quebradiças folhas outonais sendo trituradas sob seus pés. Bella pensou em como, na noite anterior, essas árvores estavam tomadas pela trovejante nuvem de gafanhotos-sombra. Não havia nem vestígio deles agora.

Logo, Edward gesticulou para um pedaço de grade de ferro do cemitério toda retorcida.

– Podemos entrar ali sem sermos vistos. Vamos ter que ser rápidos.

Saindo do abrigo das árvores, Bella lentamente entendeu o que Edward quis dizer sobre o cemitério estar diferente. Eles ficaram na beirada, não muito longe do túmulo do pai de Ang no conto leste, mas era impossível enxergar mais do que alguns metros à frente. O ar acima do solo era tão enevoado que não podia nem ser chamado de ar. Era denso, cinza e arenoso, e Bella teve que abanar as mãos só para enxergar o que estava a sua frente.

Ela esfregou os olhos.

– Isso é...

– Poeira – disse Edward, pegando a mão dela enquanto andavam. Ele conseguia ver através daquilo, e não precisou engasgar e tossir aquilo para fora de seus pulmões como Bella. – Na guerra, anjos não morrem. Mas suas batalhas deixam para trás essa grossa camada de poeira.

– O que acontece com isso?

– Não muita coisa, além do fato de que desorienta os mortais. Vai abaixar daqui a um tempo, a gente de todo canto virá para cá estudar o que é. Tem um cientista doido em Pasadena que acha que isso vem de extraterrestres.

Bella pensou, com um arrepio, nas misteriosas nuvens negras de insetos. Esse cientista podia até não estar muito engasgado afinal.

– O pai de Ang foi enterrado aqui – disse, apontando enquanto se aproximavam do canto de cemitério. Por mais sombria que a poeira fosse, ela estava aliviada que os túmulos, estátuas e árvores dentro de cemitério estivessem todos aparentemente intactos. Ela se ajoelhou e limpou a camada de poeira do túmulo que achava que pertencia ao pai de Ang. Seus dedos trêmulos varreram e limparam as palavras que quase a fizeram chorar.

.

STANFORD WEBER LOCKWOOD

MELHOR PAI DO MUNDO

.

O espaço ao lado do tumulo do Sr. Weber Lockwood estava vazio. Desolada, Bella se levantou e bateu o é no chão, odiando que sua amiga fosse se juntar a ele ali. Odiando que ela nem pudesse estar presente para oferecer uma cerimônia adequada a Ang.

As pessoas sempre falavam do céu quando alguém morria, de como tinham certeza de que os falecidos estavam lá. Bella nunca achara que conhecia as regras, e agora se sentia ainda menos qualificada para falar algo sobre o que podia ou não podia ser verdade.

Bella virou-se para Edward, com lágrimas nos olhos. Seu rosto desmoronou ao ver a tristeza dela.

– Vou cuidar dela, Bella – disse. – Sei que não é como você gostaria, mas vamos fazer o melhor que pudermos.

As lágrimas vieram com mais força. Bella estava fungando e soluçando e querendo tanto Ang de volta que achou que iria desmaiar.

– Não posso deixá-la, Edward. Como poderia?

Edward gentilmente secou suas lágrimas com as costas de sua mão.

– O que aconteceu com Ang foi terrível. Um grande erro. Mas, quando for embora hoje, não vai estar deixando-a. – Ele colocou uma das mãos sobre o coração de Bella. – Ela está com você.

– Mesmo assim, não posso...

– Pode, Bella. – Sua voz era firme. – Acredite em mim. Você não faz ideia de quantas coisas fortes e impossíveis você é capaz de fazer. – Ele desviou os olhos dela em direção às árvores. – Se ainda existe alguma bondade nesse mundo, vai saber em breve.

Um único som da sirene de um carro de polícia fez os dois pularem. Uma porta de carro bateu, e não muito longe de onde estavam escutaram o barulho de botas no cascalho.

– Mas que droga... – Rone, chame o escritório central. Mande o xerife vir até aqui.

– Vamos lá – disse Edward, alcançando sua mão. Ela segurou a dele, dando uma batida leve na lapide do Sr. Weber, e então começou a andar com Edward de volta entre os túmulos até a parte leste do cemitério. Eles chegaram à parte retorcida da cerca de ferro, então rapidamente se abaixaram de volta até o meio doa carvalhos.

Uma lufada de ar frio bateu em Bella enquanto andavam. Nos galhos à frente deles, ela viu três pequenas, porém visíveis, sombras penduradas de cabeça para baixo, como morcegos.

– Rápido – comandou Edward. Enquanto passavam, as sombras recuaram, sibilando, de alguma maneira sabendo que era melhor não mexer com Bella quando Edward estava ao seu lado.

– E agora? – perguntou Bella na beira da alameda de carvalhos.

– Feche os olhos – disse ele.

Ela obedeceu. Os braços de Edward envolveram sua cintura por trás e ela sentiu seu peito forte contra os ombros dela. Ele a estava levantando do chão. Uns trinta centímetros, talvez, depois mais alto, até as suaves folhas das árvores roçarem seus ombros, fazendo cócegas em seu pescoço enquanto Edward as atravessava. Ainda mais alto, ela podia sentir os dois saírem completamente da floresta em direção ao brilhante sol da manhã. Ela ficou tentada a abrir os olhos – mas sentia intuitivamente que seria demais. Não sabia se estava pronta. E, além disso, a sensação do ar fresco em seu rosto e o vento soprando em seus cabelos era suficiente. Mais do que o suficiente; era celestial. Como a sensação que tivera quando foi resgatada a biblioteca, como surfar sobre uma onda no oceano. Ela sabia com certeza que Edward estivera por trás daquilo também.

– Pode abrir os olhos agora – disse ele baixo. Bella sentiu o chão sob seus pés de novo e viu que eles estavam no último lugar em que ela gostaria de estar. Embaixo da árvore de magnólia, perto da beira do lago.

Edward a segurou com força.

– Queria trazê-la aqui porque esse é um lugar, entre tantos outros, onde eu quis tanto beijar você nas últimas semanas. Quase enlouqueci aquele dia, quando você mergulhou.

Bella ficou nas pontas dos pés, inclinando a cabeça para trás para beijar Edward. Ela também queria demais beijá-lo aquele dia – e agora precisava beijá-lo. Seu beijo era a única coisa que parecia certa, a única coisa que a confortava, e a lembrava de que existia um motivo para seguir em frente, mesmo quando Ang não pôde. A gentil pressão de seus lábios a tranqüilizava, como uma bebida morna no inverno rigoroso, quando cada pedaço dela sentia tanto frio.

Cedo demais, ele se afastou, olhando para ela com os olhos tristes.

– Existe outro motivo para eu ter trazido você aqui. Essa rocha leva ao caminho que teremos que tomar para levá-la a um lugar seguro.

Bella baixou os olhos.

– Ah.

– Isso não é adeus para sempre, Bella. Espero que não seja nem um adeus por muito tempo. Só teremos que ver como as coisas... vão progredir. – Ele acariciou seu cabelo. – Por favor, não se preocupe. Sempre virei para você. Não vou deixar você ir até entender isso.

– Então eu me recuso a entender – disse ela.

Edward riu para si mesmo.

– Está vendo aquela clareira ali? – Ele apontou através do lago a cerca de oito metros de distância onde um pequeno pedaço da floresta se abria num pequeno monte de terra plano e cheio de grama. Bella nunca o havia notado antes, mas agora via um pequeno avião branco com luzes vermelhas em suas asas brilhando a distancia.

– Aquilo é para mim? – perguntou. Depois de tudo que acontecera, ver um avião mal a surpreendia. – Para onde eu vou?

Ela não acreditava que estava indo embora de um lugar que odiava, mas onde tivera tantas experiências intensas em apenas algumas rápidas semanas. O que aconteceria com a Sword & Cross?

– O que vai acontecer com esse lugar? E o que vou dizer a meus pais?

– Por enquanto, tenta não se preocupar. Assim que estiver a salvo, vamos cuidar de tudo o que for necessário. O Sr. Cole pode ligar para os seus pais.

– Sr. Cole?

– Ele está do nosso lado, Bella. Pode confiar nele.

Mas ela tinha confiado na Srta. Victoria. Ela mal conhecia o Sr. Cole. Ele parecia tão chato. E aquele bigode... Devia deixar Edward e entrar num avião com seu professor de historia? Sua cabeça latejava.

– Tem um atalho que segue a água – continuou Edward. – Podemos ir por ele. – Ele envolveu com os braços a parte baixa das costas dela. – Ou – propôs ele –, podemos ir nadando.

De mãos dadas, eles ficaram na beirada da rocha vermelha. Tinham deixado os sapatos debaixo da árvore de magnólia, mas dessa vez não iam voltar. Bella não achava que seria muito confortável mergulhar no lago de jeans e camiseta, mas com Edward sorrindo ao seu lado, tudo que fazia parecia a única coisa certa a fazer.

Eles levantaram os braços acima da cabeça e Edward contou até três. Seus pés se levantaram do chão exatamente ao mesmo tempo, seus corpos arqueados no ar exatamente da mesma forma, mas, em vez de irem para baixo, como Bella instintivamente esperava, Edward a puxou para mais alto, usando apenas as pontas de seus dedos.

Estavam voando. Bella estava de mãos dadas com um anjo e estava voando. As árvores pareciam reverenciá-los. Seu corpo parecia mais leve que o ar. A lua do começo da manhã ainda estava visível bem acima da fileira das árvores. Ela se aproximava, como se Edward e Bella fossem a maré. A água se ondulava abaixo deles, prateada e acolhedora.

– Está pronta? – Edward perguntou.

– Estou pronta.

Bella e Edward desceram em direção ao profundo e gelado lago. Eles tocaram a superfície primeiro com os dedos, o mais longo mergulho de cisme que alguém já conseguira dar. Bella arfou com o frio ao mergulharem, então começou a rir.

A mão de Edward segurou a sua novamente, e ele fez sinal para que ela se juntasse a ele na rocha. Ele subiu primeiro, então se abaixou e a puxou. O musgo criava um tapete fino e macio para os dois deitarem. Gotículas de água estavam sobre o peito dele. Eles ficaram de lado, um de frente para o outro, apoiados sobre os cotovelos.

Edward colocou a mão no quadril de Bella.

– O Sr. Cole vai estar lá esperando quando chegarmos ao avião – disse ele. – Essa é a nossa última chance de ficarmos sozinhos. Achei que poderíamos nos despedir de verdade aqui. Quaro dar uma coisa a você – continuou ele, colocando a mão em seu bolso e puxando o medalhão de prata que o vira usando na escola. Ele colocou a corrente na mão de Bella e ela percebeu que era um camafeu, com uma rosa gravada na frente. – Costumava ser seu – disse ele. – Há muito tempo.

Bella abriu o medalhão e viu uma pequena fotografia dentro dele, atrás de uma placa de vidro. Era uma foto deles dois, olhando não para a câmara, mas profundamente nos olhos um do outro, rindo. O cabelo de Bella estava curto, como agora, e Edward usava uma gravata borboleta.

– Quando foi tirada? – perguntou ela, segurando o medalhão. – Onde estávamos?

– Vou contar da próxima vez que nos virmos – disse ele. Levantou a corrente acima da cabeça dela e a colocou em volta de seu pescoço. Quando o pingente tocou suas clavículas, ela pôde sentir um calor intenso pulsando nele, aquecendo sua pele fria e molhada.

– Eu amei – sussurrou ela, tocando a corrente.

– Sei que Jacob deu aquele colar de ouro a você também – disse Edward.

Bella não tinha mais pensado naquilo desde que Jacob a forçara a colocá-lo no bar. Não acreditava que aquilo tinha sido ontem. A ideia de usá-lo a deixava enjoada. Ela nem sabia mais onde estava o colar – e nem queria saber.

– Ele colocou-o em mim – disse ela, sentindo-se culpada. – Eu não...

– Eu sei – disse Edward. – O que aconteceu entre você e Jacob não foi culpa sua. De alguma maneira ele preservou muito o seu charme angelical quando caiu. É muito persuasivo.

– Espero que eu nunca mais tenha que vê-lo. – Ela acrescentou.

– Receio que isso possa acontecer. E existem outros como Jacob por ai. Vai ter que simplesmente confiar em seus instintos – disse Edward. – Não sei quanto tempo vai demorar para ficar a par de tudo que aconteceu em nosso passado. Mas, enquanto isso, se sentir um instinto, mesmo a respeito de alguma coisa que ache que não conhece, confie nele. Provavelmente estará certa.

– Então devo confiar em mim mesma quando não puder confiar naqueles em volta de mim? – perguntou, sentindo como se isso fosse parte do que Edward queria dizer.

– Tentarei estar lá para ajudar, e vou mandar notícias sempre que puder, quando estiver longe– disse Edward. – Bella, você tem as memórias de suas vidas passadas... mesmo que ainda não as tenha libertado. Se alguma coisa parecer errada para você, fique longe dela.

– Para onde você vai?

Edward olhou para o céu.

– Achar Jacob – disse. – Temos mais algumas contas para acertar.

O tom taciturno de sua voz deixou Bella nervosa. Ela se lembrou da grossa camada de poeira que Jacob deixara no cemitério.

– Mas você vai voltar para mim – pediu –, depois disso? Você promete?

– Eu... Eu não posso viver sem você, Bella. Eu amo você. Não importa só a mim, mas... – Edward hesitou, então balançou a cabeça. – Não se preocupe com nada disso agora. Apenas saiba que eu vou voltar para você.

Lenta e relutantemente, os dois se levantaram. O sol tinha acabado de atingir o pico acima das árvores e refletia pequenos fragmentos no formato de estrelas sobre a água inquieta. Havia apenas uma curta distância para nadar dali até a margem lamacenta que os levaria até o avião. Bella queria que fossem quilômetros de distância. Ela poderia ter nadado com Edward até a noite chegar. E até todo nascer e pôr do sol depois disso.

Os dois pularam de volta na água e começaram a nadar. Bella se certificou de colocar o medalhão dentro de sua regata. Se confiar em seus instintos era importante, seus instintos diziam para ela nunca se separar do colar.

Ela observou, novamente admirada, quando Edward começou seu nado lento e elegante. Dessa vez, sob a luz, ela sabia que as asas iridescentes que ela via contornadas pelas gotas de água não eram fruto de sua imaginação. Eram reais.

Ela foi atrás, rasgando a água braçada após braçada. Rapidamente, seus dedos tocaram na margem. Ela odiava que já pudesse ouvir o zumbido do motor do avião mais à frente na clareira. Tinham chegado ao momento em que teriam que se separar, e Edward praticamente teve que arrastá-la para fora da água. Ela passara de molhada e feliz a ensopada e congelando. Eles andaram até o avião, a mão dele em suas costas.

Para a surpresa de Bella, o Sr. Cole estava segurando uma grande toalha branca quando pulou da cabine de piloto.

– Um anjinho me disse que poderia precisar disso – disse, desdobrando-a para Bella, que aceitou agradecida.

– Quem está chamando de anjinho? – Alice pulou de trás de uma árvore, seguida por Rose, que trazia o livro dos Guardiões.

– Viemos desejar bom Voyage – disse Rose, entregando o livro a Bella. – Fique com isso – disse descontraída, mas seu sorriso parecia mais uma carranca.

– Dê a ela a parte boa – disse Alice, cutucando Rose.

Rose tirou uma garrafa térmica de sua mochila, entregando-a a Bella. Ela tirou a tampa. Era chocolate quente e tinha um cheiro incrível. Bella segurou o livro e a garrafa em seus braços envoltos pela toalha, sentindo-se subitamente rica com suas posses. Mas ela sabia que, assim que entrasse naquele avião, se sentiria vazia e sozinha. Ela se apertou contra o ombro de Edward, aproveitando a proximidade enquanto ainda podia.

Os olhos de Rose estavam claros e decididos.

– Vemos você em breve, tá bem?

Mas os olhos de Alice ficavam se desviando, como se ela não quisesse olhar para Bella.

– Não faça nada idiota, tipo virar uma pilha de cinzas. – Ela embaralhou os pés. – Precisamos de você.

Vocês precisam de mim?– Bella perguntou. Ela precisou de Alice para lhe mostrar o esquema da Sword & Cross. Ela precisou de Rose aquele dia na enfermaria. Mas por que elas precisaram dela?

As duas garotas responderam apenas com sorrisos tristes antes de voltarem para a floresta. Bella se virou para Edward, tentando esquecer que o Sr. Cole ainda estava parado a alguns metros de distância.

– Vou dar a vocês dois um minuto a sós – disse o Sr. Cole, entendendo o recado. – Bella, do momento em que eu arrancar o motor, são três minutos para a decolagem. Encontro você na cabine.

Edward a levantou e encostou sua testa na dela. Quando seus lábios se tocaram, Bella tentou registrar cada segundo. Ela precisava dessa lembrança da mesma maneira que precisava de ar.

Porque... e se quando Edward a deixasse a coisa toda começasse a parecer apenas mais um sonho? Um sonho, em parte um pesadelo, mas um sonho de qualquer maneira. Como podia ser possível ela sentir o que achava que sentia por alguém que nem era humano?

– É isso – disse Edward. – Tome cuidado. Deixe o Sr. Cole guiá-la até eu voltar. – Um assobio estridente veio do avião, o Sr. Cole dizendo-lhe para encerrar. – Tente se lembrar do que eu disse.

– Qual parte? – Bella perguntou, ligeiramente em pânico.

– De tudo, mas principalmente que eu a amo.

Bella fungou. Sua voz ia falhar se tentasse dizer alguma coisa. Era hora de ir.

Ela correu até a porta aberta da cabine do avião, sentindo os jatos quentes das hélices quase a derrubando. Havia uma escada de três degraus, e o Sr. Cole estendeu a mão para ajudá-la a subir. Ele apertou um botão e a escada se encolheu de volta para dentro do avião. A porta de fechou.

Ela olhou para o complicado painel. Bella nunca tinha visto um avião tão pequeno. Nuca tinha estado numa cabine de piloto. Havia luzes piscando e botões em toda parte. Ela olhou para o Sr. Cole.

– Sabe pilotar essa coisa? – perguntou, secando os olhos na toalha.

– Força Aérea Americana, 59ª Divisão, às suas ordens – disse ele, batendo continência.

Bella desajeitadamente fez uma continência de volta.

– Minha esposa sempre diz que às pessoas para não me deixar começar a falar sobre meus dias no Vietnã – disse, puxando para trás uma grande alavanca prateada. O avião tremeu ao começar a se movimentar. – Mas temos um longo voo pela frente, e tenho uma plateia cativada.

– Quer dizer uma plateia cativa – ela deixou escapar.

– Boa. – O Sr. Cole deu uma leve cotovelada nela. – Estou brincando – disse ele, rindo cordialmente. – Eu não a sujeitaria a isso. – O jeito com que ele se virou para ela quando riu a lembrou do jeito que seu pai sempre ria quando estavam vendo juntos um filme engraçado, e fez com que Bella se sentisse em pouco melhor.

As rodas estavam rolando rapidamente agora a e "pista" à frente deles parecia curta demais. Precisariam decolar bem rápido ou então iam entrar direto no lago.

– Sei o que está pensando – gritou ele por cima do rugido do motor. – Não se preocupe, faço isso o tempo todo!

E, bem antes da margem lamacenta abaixo deles acabar, ele puxou com força a alavanca entre eles e saiu de vista por um momento e o estômago de Bella guinou junto com ele. Mas, um momento depois, o balanço do avião se estabilizou, e a vista na frente deles se tornou apenas árvores e um céu limpo e aceso por estrelas. Abaixo deles estava o lago cintilante. A cada segundo, ficava mais distante. Tinham decolado para o oeste, mas o avião estava fazendo um circulo, e logo a janela de Bella mostrava a floresta pela qual ela e Edward tinham acabado de voar. Ela a contemplou, pressionando o rosto pela janela para procurá-lo e, antes do avião voar em linha reta, ela pensou ter visto uma pequena luz violeta. Ela segurou o medalho em seu pescoço e o levou até os lábios.

Agora o campus estava abaixo deles, e o cemitério enevoado mais além. O lugar onde Ang seria enterrada em breve. Quanto mais alto eles voavam, mais Bella conseguia ver da escola onde seu maior segredo fora revelado – ainda que de um jeito muito diferente do que ela jamais poderia ter imaginado.

– Eles realmente fizeram um estrago naquele lugar – disse o Sr. Cole, balançando a cabeça.

Bella não fazia ideia do quanto ele sabia sobre os eventos que aconteceram na noite passada. Ele parecia tão normal, e, no entanto, estava levando tudo isso numa boa.

– Aonde estamos indo?

– Para uma pequena ilha perto da costa – disse ele, apotando distante em direção ao mar, onde o horizonte sumia até ficar preto. – Não é muito longe.

– Sr. Cole – disse ela –, conheceu meus pais.

– Gente boa.

– Eu vou poder... Gostaria de falar com eles.

– É claro. Vamos dar um jeito nisso.

– Eles nuca acreditariam em nada disso.

– Você acredita? – ele perguntou, dando um sorriso de lado para ela enquanto o avião subia mais alto, se equilibrando no ar.

Essa era a questão. Ela precisava acreditar em tudo – da primeira centelha negra das sombras, até o momento em que os lábios de Edward tocaram nos seus, até Ang deitada morta no altar de mármore da capela. Tudo aquilo precisava ser real.

De que outra maneira ela aguentaria até mesmo ver Edward de novo? Ela segurou o medalhão em volta do pescoço mais uma vez, uma vida inteira de memórias ali. Suas memórias, Edward tinha lembrado, eram suas para decifrar.

O que continham ela não sabia, não mais do que sabia sobre para onde o Sr. Cole a estava levando. Mas tinha se sentido como parte de alguma coisa aquela manhã na capela, parada ao lado de Alice, Rose e Edward. Não perdida e com medo e complacente... mas como se pudesse ter importância, não apenas para Edward, mas para todos eles.

Ela olhou pelo para-brisa. Já teriam ultrapassado as salinas agora, e pela estrada que levava até aquele horrível bar onde encontrou Jacob, e o longo trecho de areia da praia onde beijara Edward pela primeira vez. Estavam agora sobre o mar aberto, que – em primeiro lugar – abrigava o novo destino de Bella.

Ninguém tinha chegado e contado a ela que haveria mais batalhas para serem travadas, mas Bella sentia a verdade dentro dela, de que estavam no principio de algo longo, significativo e difícil.

Juntos.

E quer fossem as batalhas pavorosas ou redentoras, ou as duas coisas, Bella não queria mais ser apenas um peão. Uma sensação estranha estava crescendo dentro dela – embebida por todas as suas vidas passadas, por todo o amor que ela sentia por Edward, que tinha sido extinguido vezes demais antes.

Isso fez Bella querer estar ao lado dele e lutar. Lutar para sobreviver por tempo o bastante para viver ao lado dele. Lutar pela única coisa que ela sabia que era boa o suficiente, nobre o suficiente, poderosa o suficiente para valer a penas arriscar tudo.

O amor.


Ah gente que triste, Fallen está chegando ao fim! A Bells foi para algum lugar misterioso, que logo logo vocês vão descobrir aonde. Eu sei que eu demoro muuuuuuuuuito pra postar, mas estou lotada de assustos pra resolver e pra quem lê as minhas outras fics já sabem que estou escrevendo um livro! Nem sei se vou publicar, mas estou gostando de escrever só por escrever, na base da lapizeira. Escrever a mão dá muito trabalho então não resolvi se vou postar no sabe, né?

De qualquer maneira, muito obrigada pelos coments, vocês são incríveis por terem tanta paciencia comigo. Eu não mereço isso...

Pra quem quizer saber como vão as fics ou até mesmo o livro é só me seguir no twitter:

isadoraacouto

Espero vocês no epílogo.

Beijinhos