Nota:
Obrigada à todos(as) que estão acompanhando e comentando na fic! Eu me racho de rir com suas reviews, e adoro ver as ideias e previsões para o que vai acontecer na história, bem como as impressões sobre os personagens e acontecimentos de cada capítulo.
Bem, esse capítulo tem muitas palavras estrangeiras, então as notas finais ficaram bem grandes; por isso é melhor eu parar de falar aqui, senão metade do capítulo vai ser só de notas xD
Boa leitura e ótimo resto de semana pra vocês! ;*
(ver o final do capítulo para mais notas)
Capítulo 34: Os que Vagueiam
Uma batida quieta e um "com licença" não invasivo anunciaram a chegada de Eren. Uma vez que Levi acenara para que entrasse, ele manteve a cabeça baixa e costas retas enquanto se encaminhava para onde o mais velho estava sentado, terminando o resto da verificação de despesas. Levi pausou seu trabalho para observar o garoto, vendo-o descansar a bandeja no canto da grande mesa e colocar a xícara em um pires, dobrando cuidadosamente um guardanapo e enfiando-o debaixo da borda do pires. Fez tudo em completo e respeitoso silêncio, sem olhar nem uma vez a Levi, com a cabeça abaixada e focado na atividade. Ele costumava colocar o café na mesa e jogar o guardanapo perto da xícara antes de se sentar confortavelmente no sofá de Levi até que o mais velho lhe desse alguma tarefa banal para fazer porque era melhor do que ficar sem fazer nada. Levi observou e esperou. Mas assim que Eren terminou, enfiou a bandeja debaixo do braço e bateu continência, então virando-se para sair sem uma palavra. Levi suspirou e descansou sua pena na mesa.
— Espere. — Ok, ele admitia a derrota. Eren parou na porta. Pausou por um tempo um pouco longo demais antes de voltar-se para encará-lo, sua expressão tão cuidadosamente neutra que não perdia em nada para a de Levi. Ele juntou as mãos nas costas e se endireitou para uma posição imóvel perfeita, olhar para a frente e queixo elevado.
— Senhor? — Aquilo de novo. Levi examinou sua face, mas Eren continuava a olhar para a frente impassível. Ficaram assim por uns bons minutos; um estranho e carregado impasse. Levi gostava de pensar que qualquer outro cadete teria se amedrontado e perguntado se havia algo errado, e que o silêncio estendido era a teimosia de Eren recusando-se a se render. Gostava de pensar que Eren não conseguiria entrar completamente no papel de subordinado obediente tão rápido. Ele bateu os dedos em sua mesa, observando o outro homem atentamente. Como abordar isso? O que ele deveria dizer? "Por que está se comportando tão bem assim de repente?" Estava o enlouquecendo não saber, mas o que ele não sabia? Estava ciente de que isso deveria ser exatamente como ele queria que fosse, mas conhecia Eren um pouco mais intimamente do que provavelmente deveria a essa altura, e isso o fazia querer saber o que exatamente acontecera para trazer essa mudança. Pensou que seria um sucesso se ele um dia conseguisse colocar Eren na linha, mas isso não parecia uma vitória. Na verdade, visto que era ele quem estava questionando a situação, parecia que era Eren quem tinha todas as cartas na manga aqui.
— O que está acontecendo, Eren? — Finalmente, olhos se moveram para encontrar os seus. Teve até a pachorra de franzir as sobrancelhas, como se estivesse confuso pela pergunta, mas Levi conseguia ver a expressão naqueles olhos destoantes; sabia exatamente o que Levi queria dizer e o faria dizer em voz alta.
— Desculpe, eu não compreendo. — Bem, aquele atrevimento era pelo menos evidência suficiente de que, por trás da máscara, Eren ainda estava firme e forte. Levi encarou só um pouco mais, apenas para deixar claro que sabia exatamente o que Eren estava fazendo, então acenou com a cabeça para a cadeira oposta a ele.
— Sente-se. — Eren andou até a cadeira e jogou-se nela, encontrando o olhar de Levi facilmente. Vamos lá, pergunte. Levi recostou-se e tamborilou os dedos no descanso de braço da cadeira, repassando a situação em sua cabeça para encontrar a abordagem mais efetiva. Nenhum deles desviou o olhar durante todo o tempo. — Estou curioso... — começou Levi após uma longa pausa. As sobrancelhas de Eren se levantaram com atenção. O maldito estava todo cheio de si, sabia exatamente a posição em que Levi se encontrava; nenhum oficial superior se importaria de perguntar sobre uma mudança súbita de comportamento de um cadete se fosse boa, e Eren estava sendo muito bom. — Sobre a mudança recente em seu comportamento e a... Causa.
— É um problema, Senhor? — Levi respirou fundo. Os olhos de Eren cintilavam na luz da vela; um de um dourado brilhante e o outro parecia azul escuro, mas ambos olhavam para Levi com o brilho mais intensamente desafiador. As linhas de seu sorriso malicioso estavam especialmente pronunciadas na luz laranja.
— Não, nenhum problema... — Como falar sobre isso? Eren estava tornando isso particularmente difícil e o orgulho de Levi não o permitiria perguntar diretamente o que o estava incomodando. Ele entrelaçou os dedos e os pressionou contra seus lábios, observando o outro por sobre as pontas. — Como está sua irmã? — Os olhos de Eren se apertaram minimamente, seu olhar afiado passeando pela face de Levi procurando por algo que ele não sabia o que era, mas Levi fez um esforço para mantê-lo escondido de qualquer jeito.
— ... Bem.
— Armin?
— Bem, também. — Levi assentiu. Aquilo era satisfatório.
— Eu estava com a intenção de avisá-lo para ficar mais alerta nas próximas semanas, e espalhar a mensagem às garotas em Muralha Rose. O Imperador está adoecido, e as coisas podem ficar... Turbulentas. — Eren franziu o cenho, distraído pela mudança de assunto.
— Adoecido?
— Morrendo. — esclareceu Levi. Podia dizer, pela mudança no semblante de Eren, que não precisaria explicar o resto; o garoto podia ser um larápio sem conhecimento em política, mas sabia o que aquilo significava para sua família e as outras mulheres no bordel.
— O que está sendo feito para nos proteger? — A pergunta pegou Levi de surpresa. Tão direta e exigente, havia um traço de autoridade no tom; a expressão de Eren estava firme e com expectativa.
— Eu levei o assunto ao Príncipe Erwin, ele teria a maior influência, mas pretendo direcionar mais forças nos arredores dos bordéis. — Ele podia ver que Eren não ficara satisfeito com a resposta, e pela primeira vez estava grato pelo recente profissionalismo que fez o rapaz ficar calado. Realmente não havia muito o que ele pudesse fazer; as Tropas já tinham seus deveres habituais para fazer e muitos recursos desviados para patrulhar a área dos bordéis atrairia o tipo errado de atenção de Shadis e dos superiores. Levi tinha flexibilidade significativa sobre o que acontecia nas Tropas, mas havia um limite para o que podia fazer.
— Levi! — A porta de seu escritório foi aberta bruscamente e Hanji se deteve quando finalmente caiu a ficha de que estava interrompendo alguma coisa. Olhou para Levi e Eren, sorrindo estranhamente. Levi podia ver Dita e Mike atrás de Hanji, com os braços atolados de papelada e xícaras de café. Ah sim, a reunião. — Oh, opa, estamos interrompendo...? — A resposta era óbvia, mas Hanji era discreto(a) como um touro cego num canteiro de flores. — É que, eu pensei que tivéssemos planejado fazer a reunião aqui? — Levi revirou os olhos e gesticulou para que entrassem.
— Sim, sim, já terminamos aqui mesmo. Obrigado, Eren. — Eren aproveitou a deixa e se levantou, batendo em continência e assentindo para os outros antes de sair depressa. Levi falou para ele antes que fosse, uma última carta na manga.
— Nós faremos uma incursão na Cova de Dauper amanhã. — Os olhos de Eren se iluminaram com interesse, mas olhou confuso para Levi, sem saber por que isso seria relevante para ele. — Você se juntará a nós, mas...! — Levi manteve sua expressão séria, apesar do sorriso entusiasmado se estendendo pelo rosto de Eren. — Você ficará entre os reforços, longe de toda a ação. Sem equipamento, sem perigo; só observando, entendido? — Mesmo Eren não conseguia evitar a felicidade com aquilo independente do quão controlado agisse o tempo todo. Ele assentiu entusiasmadamente, com um sorriso tão largo que seu rosto parecia prestes a ser partido em dois. Levi se permitiu seu próprio sorriso. Contaria isso como uma vitória.
— Sim, Senhor!
— Bom. Agora vá.
Os oficiais puxaram suas cadeiras e puseram seus papéis na mesa, estabelecendo-se pelo espaço de trabalho assim que Eren saiu. Levi ignorou com cuidado o olhar de Hanji perfurando seu crânio, mantendo os olhos colados no pergaminho à sua frente.
— Você está amolecendo. — disse finalmente, quando ficou claro que ele não reagiria tão cedo. Os olhos de Levi se elevaram para encontrar os de Hanji desinteressadamente antes de retornar ao trabalho. Não daria a ele(a) a satisfação de uma resposta.
— Ele endurecendo é o que me preocuparia. — atirou Mike. Levi fechou os olhos e apertou a ponte de seu nariz enquanto a risada descontrolada de Hanji preenchia a pequena sala. Dita olhou ao redor para seus colegas perplexo.
— Eu não entendo.
Essa seria uma longa reunião.
— Fique perto de mim, Levi disse para tomarmos cuidado.
— Eu estava me protegendo muito bem por todo esse tempo antes de Levi chegar para me dizer isso. — resmungou Mikasa, atrás dele. Armin estava dormindo nos braços de Eren, embalado em um cobertor grosso com sua cabeça balançando no ombro dele com cada passo. Era tarde e as ruas estavam quase vazias, iluminadas apenas pela luz pálida da lua acima que esvaía toda a cor do mundo. Muito tarde para a galera decente estar por aí, mas Eren aprendera em tenra idade que, para pessoas como ele, a escuridão oferecia uma proteção muito maior do que a luz do dia. Mesmo assim, eles se apressaram; observando cada beco por onde passavam, atentos e alertas para qualquer sombra que parecia mais profunda do que outras.
As noites estavam ficando mais frias com a mudança de estação. Ainda quente, mas a atmosfera estava se tornando mais úmida e sufocante, pesada com a umidade que anunciava a chegada das chuvas. Mikasa e Eren se apertaram um no outro enquanto prosseguiam pela muralha sul de Shiganshina, seguindo a rota para a clareira abrigada entre a borda da floresta, a margem da favela e o rio.
— Quando eles chegaram?
— Ontem à noite, perseguidos pela tempestade de areia. Hannes entrou em contato enquanto você estava trabalhando. — murmurou Mikasa alegremente e Eren sabia que ela estava tão animada quanto ele. Fazia um bom tempo desde a última vez que viram seu tio; os trajetos dos nômades nunca eram previsíveis, e a última vez que cruzaram Trost fora logo depois do nascimento de Armin. Estavam ansiosos para ouvir as histórias das viagens de Hannes novamente; suas visitas eram algumas das poucas rotinas de infância que sobreviveram à morte de seus pais, e era bom ser transportado de volta para uma época mais simples.
Podiam ouvir música enquanto se aproximavam; o rugido crepitante de uma fogueira em chamas, risada estridente, e música alegre tocada por harmônio e acompanhada de tabla. Sons que eles não ouviam há muito tempo. Eren e Mikasa trocaram um sorriso nostálgico enquanto as memórias voltavam inundando-os; Hannes e mais alguns de seus amigos próximos se acomodaram em sua velha casa de infância, a música retumbando alta o suficiente para incomodar os vizinhos. Cantavam canções desconhecidas em um idioma rápido e enrolado que Eren ainda estava pegando o jeito, e sua mãe ria enquanto assava appam na fogueira, juntando-se de vez em quando a seu pai que dançava no ritmo, alegremente sem noção, mas adorando.
Os camelos dos nômades estavam amarrados à beira da floresta com cordas desgrenhadas, padrões detalhados cravados minuciosamente à mão em suas peles, então manchados com pós coloridos e tintas. Mantas coloridas de remendos foram jogadas a esmo sobre suas corcovas, e sinos costurados pelas bordas soavam com cada pequeno movimento. Tudo relacionado aos nômades era espalhafatoso, chamativo e brilhante. Eren os adorava por isso, mas sabia que a maioria das pessoas não. Havia uma razão para eles terem sido deslocados para as margens dos distritos mais pobres sempre que estavam em Trost; o estigma associado com tribos nômades orientais de pele escura era de que não eram civilizados, sem educação, sem lei e rebeldes. Suas celebrações desagradavelmente barulhentas e estilo de vida de se espalhar sem amarras entre as cidades, vivendo da terra e do dinheiro que conseguiam ganhar lendo a sorte das pessoas, encantando serpentes e se apresentando apenas cimentavam o estereótipo negativo. Paāvaena, era como os trostianos os chamavam. Perdidos, à deriva e flutuantes. Eles não eram bem-vindos aqui, e era por isso que Eren e Mikasa tinham que tomar tantas precauções quando visitavam; se associar com os Paāvaena era mal visto e um tabu. Era bom que os nômades se mantivessem unidos, não era raro que fossem vítimas de crimes de ódio.
— Ey, ey! Yar ātu? — O homem devia estar de guarda debaixo da cobertura das árvores. Seu grito quase fez Eren pular de susto, e ele se posicionou à frente de sua irmã de forma protetora. Não podia ver o homem no escuro, sua forma escondida nas sombras oscilantes da folhagem, mas sabia que ele estava lá os observando. Provavelmente com alguma arma apontada para suas cabeças. Podia sentir o olhar nervoso de Mikasa nele, então apertou sua mão de forma tranquilizadora com a mão livre. Ele só conhecia um pouco as músicas que sua mãe lhe ensinara quando criança em seu idioma nativo, e sua compreensão da língua estava fraca e sem prática no mínimo, mas ele estava confiante em expressar pelo menos o básico.
—Vaṇakkam! Hã, éé, eṉ peru Eren. Estou procurando por Hannes? Avar eṉ mama. — Eren gesticulou para Mikasa. — En akka. — Houve um sussurro e um conjunto de galhos balançou, de onde saiu uma forma. Eren viu a figura se levantar cautelosamente, e enquanto o homem se aproximava da luz, ele pôde ver seus olhos sagazes apertados com suspeita pela fenda em seu keffiyeh que examinavam Mikasa e ele. Tinha uma espada curva de aparência cruel em sua mão, cega mas certamente ainda capaz de infligir sérios danos. Eren tentou não encarar a arma, por mais desconfortável que o deixasse, embora ele não pudesse evitar de se aproximar um pouco de sua irmã em resposta. Ela não precisava disso de fato; se chegasse a um combate, ele seria inútil com Armin em seus braços, e ela ainda era de longe uma lutadora bem melhor do que ele, de qualquer jeito.
— Nienga engirundhu varrienga? — A frase foi tão rápida que Eren levou um momento para decifrar as palavras, mas o homem parecia estar perguntando de onde ele vinha. Era justo; devia ser estranho encontrar um falante de tâmil numa cidade tão hostil quanto Trost.
— Sou arai. — A palavra soou amarga em sua boca; era usada mais frequentemente como insulto do que como descrição, mas ainda era a única palavra para descrever pessoas como ele. Metade.
— Ahh. — Um balanço de cabeça compreensivo. Alguém ainda mais deslocado do que um Paāvaena puro. Era difícil ficar adverso a alguém assim. — Vanghe. — Ele não esperou para ver se Eren entendera a instrução antes de se virar e se dirigir ao acampamento principal, o machete balançando desprendido ao seu lado. Eren olhou por cima do ombro para Mikasa, que deu de ombros com um sorriso.
— Parece bom por mim. Bom trabalho, thambi.
Notas:
Harmônio: espécie de sanfona primitiva; é um mini piano, com uma pequena estrutura sanfonada atrás.
Tabla: um instrumento que consiste de dois tambores pequenos e arredondados.
Appam: originária do sul da Índia, é uma espécie de panqueca feita de arroz e coco (pra mim, lembra um pouco nossa tapioca, apesar de os ingredientes serem diferentes), que fica branquinha no centro e dourada nas pontas, e tem uma consistência aerada.
Keffiyeh: lenço de cabeça usado por muçulmanos, que geralmente cobre toda a face, deixando apenas os olhos expostos.
Traduções:
Yar ātu: quem está aí?
Vaṇakkam: comprimento tâmil
Eṉ peru: meu nome é...
Mama: tio
Akka: irmã mais velha
Vanghe: venha aqui
Thambi: irmão mais novo
Paāvaena: é na verdade cingalês, não tâmil, mas é uma linda palavra e a autora quis usá-la. Significa flutuar, ficar à deriva ou vaguear.
*A autora pede desculpas caso tenha cometido algum erro nas línguas.
P.S.: Lembrando que essa história se passa num tempo passado, onde não se tinha muita consciência ambiental ou de maltrato aos animais. A cena da descrição dos camelos é triste para nós hoje em dia, mas no contexto histórico da época em que a fic se passa, infelizmente práticas como essas eram comuns.
