Uma segunda chance

Capítulo 36 – Controle é algo superestimado

Quando viram os olhos vermelhos de John, Derek e os outros congelaram. Não esperavam por isso.

Mas até que fazia sentido.

O alfa quando mordeu John fez dele o seu beta, e quando ele morreu o único que restou da sua alcateia era John, o que fez dele o alfa.

O problema é que era lua cheia, e John não era conhecido por controlar muito bem sua agressividade como um simples humano, então provavelmente não conseguiria de cara como um lobisomem.

Eles não teriam tempo hábil para ensiná-lo a se controlar antes que machucasse alguém.

- Só não se mexam – Derek disse enquanto John rosnava do quarto para eles.

- Ele pode ferir alguém. E o que menos precisamos é que ele saia por aí mordendo a cidade toda – Chris falou e tentou atirar um dardo tranquilizante em John.

Mas John era rápido e se esquivou do dardo e ainda conseguiu pegá-lo com a mão.

Ele ia ataca-los quando Peter se colocou na frente, impedindo-o.

- Acalme-se, John. Por favor – ele pediu tremendo.

John sentiu um aroma horrível invadindo suas narinas. Ele inclinou a cabeça para o lado não conseguindo identificar o que era.

Mas quando deu um passo na direção de Peter, ele percebeu que vinha dele.

Não estava certo. Aquele cheiro não pertencia a ele.

Alguém tinha marcado o seu companheiro.

Com um reflexo rápido ele puxou Peter para si e o cheirou.

Peter ofereceu seu pescoço como sempre fazia achando que isso o acalmaria, mas estava errado.

Ele só ouviu o rosnado antes de sentir um forte impacto na cabeça e de tudo ficar escuro.

Quando acordou não estava mais em sua antiga casa.

Mas ele reconhecia o quarto. Tinha ficado ali antes.

Ele estava na casa do Argent.

Tentou se levantar, mas gemeu. Seu corpo todo doía.

- Fique deitado, Peter. Você precisa descansar – uma voz do outro lado do quarto falou. Era Deaton.

- Onde está John? – foi a primeira coisa que perguntou. Estava preocupado com ele.

- Bem – o veterinário se limitou a responder – Como você se sente? – ele quis checar ao se aproximar do lobisomem.

Ele sentia todo o seu corpo dolorido. Sua barriga não doía tanto, mas ele tinha a impressão que um caminhão o tinha atropelado. Dentre outros detalhes que ele não queria dividir com o veterinário.

Não havia a mínima necessidade de ele saber que Peter ainda sentia os abusos do alfa no ataque do supermercado.

- Bem – ele se limitou a responder como o veterinário fizera antes só para ganhar um olhar incrédulo de volta – Onde está o John? Eu quero vê-lo.

- Receio que isso não vá ser possível – Chris respondeu ao adentrar o quarto.

E Peter tentou se levantar novamente. Fez uma careta por causa da dor, mas estava decidido a ir embora e procurar o marido.

- Onde pensa que vai? – o caçador perguntou.

- Para casa – ele falou e começou a andar.

Teve que se segurar na cômoda quando sentiu uma forte dor na perna direita.

- Você vai ficar aqui – Chris o informou, e aquilo irritou o lobisomem.

- Eu vou para a minha casa procurar o meu marido – ele ralhou com o outro. Estava de saco cheio das intromissões do outro.

Ficou surpreso quando o caçador o arrastou para frente do espelho que tinha no quarto.

Ele viu seu reflexo e seus olhos lacrimejaram quando viu seu estado.

Seu rosto tinha marca de garras e inúmeras lacerações e hematomas. Seu pescoço ostentava uma enorme mordida. Tinha arranhões nos braços.

A dor que sentiu na perna era um corte. Seu tendão tinha sido cortado. De certo para impedir sua fuga.

Ele respirou fundo e abaixou o cós da calça que usava. Arranhões e marcas de dedos em se quadril.

Não precisava ser um gênio para saber o que mais tinha acontecido.

- Ele fez isso com você, debaixo do seu teto, e na frente dos seus filhos – ele falou grosseiro – Ainda quer procurá-lo?! – ele praticamente gritou e Peter não conseguiu formular uma resposta e começou a chorar.

Apesar de tomar conhecimento do que tinha acontecido, ele ainda queria procurar John. Ele era seu companheiro e estava claramente tendo problemas com a transformação.

Era difícil aceitar, mas ele entendia.

E com o tempo ele poderia quem sabe perdoar.

Mas como poderia dizer isso a eles?

Como poderia fazer com que entendessem?

- Você o matou? – ele precisava saber.

- Ainda não. Está no porão – veio a resposta que fez seu coração bater mais rápido. Ele estava vivo. Isso era bom, não era?

- E o Stiles? – ele perguntou. John era tudo que ele tinha.

- Não aceita a situação – o caçador disse e Peter se sentou novamente na cama.

Sabia o que tinha que fazer para as coisas voltarem ao mínimo da normalidade.

Depois de muita discussão, ele convenceu o caçador.

Quando desceu as escadas, sentiu todos os olhares em cima de si.

Os adolescentes o olhavam com pena. Stiles o olhava com raiva.

Isaac correu e o abraçou assim que ele botou os pés no andar térreo. Derek veio em seguida. Jackson e Lydia também. Allison sorria de longe, mas Stiles e Scott sequer se moveram.

Chris foi até a porta do porão e isso chamou atenção de todos.

- Finalmente vai acabar com essa injustiça – Stiles falou fazendo Isaac rosnar.

- Ele atacou o meu pai – Isaac retrucou.

- Ele não sabia o que estava fazendo! – Stiles respondeu no mesmo tom.

Quando Chris subiu com John, o coração de Peter disparou e tudo que ele queria era ficar próximo a ele.

E ele sabia que John queria o mesmo, e ele conseguia sentir o quão péssimo ele se sentia por tê-lo machucado.

Mas Peter sabia que mais nenhum dos presentes conseguia reconhecer essas coisas. Eles não tinham a ligação que os dois tinham. Eles só viam um casal disfuncional com sérios problemas de agressões domésticas.

Seus filhos nunca iriam aceitar que continuassem juntos ou esqueceriam o que aconteceu. Era o fim.

E diante disso, Peter não conseguiu segurar o choro.

John se agitou quando sentiu a tristeza profunda do outro e rosnou.

Chris não pensou duas vezes em dar-lhe um choque com seu bastão de taser.

- Pai! – gritou Stiles, correndo para socorrer o pai.

- Não o machuque – Peter pediu agoniado ao ver a cena.

- Você deve estar brincando – reclamou o caçador, e quando ele se distraiu, John correu em direção a Peter.

Antes que qualquer um pudesse separá-los, ele abraçava o marido desesperadamente.

Sentia uma agonia tão grande do mais novo que queria aliviá-la. Era como uma tortura.

Ele passava as mãos no rosto do outro para secá-lo, mas quanto mais fazia isso, mais o outro chorava.

Os outros tentaram separá-los, mas ele rosnava e tentava atacá-los.

Só se acalmou quando sentiu o terror do outro em seus braços.

- Acabou – Peter falou num tom baixo, mas ele conseguia ouvi-lo perfeitamente – Acabou.

Não podia acabar. Ele sentia que o outro não queria aquilo. Então por que terminar tudo?

- Eu não fiz isso por querer, você sabe disso. Eu nunca te machucaria – John falou – Eu vou aprender a controlar – ele disse agoniado.

Mas o fato era que aquilo estava longe de se tornar realidade.

Ele não tinha o menor controle, e Peter não tinha condições físicas de revidar ou se defender no momento.

- Está me machucando – Peter falou tentando se livrar das garras do outro que o arranhavam seu rosto sem querer.

Só então John viu o estrago que estava fazendo. Tinha arranhado o rosto do mais novo que sangrava em algumas partes e sequer tinha percebido.

Ele se afastou do outro agoniado. Não queria machuca-lo.

- Ele quer o divórcio – o caçador falou já que percebeu que dificilmente Peter falaria.

E John olhou para Peter como se tivesse levado uma facada.

Porque era bem isso que sentia. Uma dor invadia seu peito e parecia cortá-lo por dentro.

- Você quer o divórcio? – ele perguntou e sua voz pela primeira vez em dias parecia a do bom xerife. Ele parecia arrasado.

Peter o olhou e consentiu com a cabeça e a dor pareceu aumentar dez vezes. John urrou quando a sentiu.

- Você é meu! – ele gritou e foi para cima do mais novo que parecia assustado com sua reação.

Os outros conseguiram segurá-lo e o afastaram da casa.

De onde Peter estava perto da cozinha ele ainda conseguia ouvir John gritando que não daria divórcio nenhum, que eles tinham que ficar juntos.

E dali em diante tudo piorou.

John não aceitava o fim do relacionamento dos dois e fazia de tudo para deixar isso claro.

Por isso, Peter não conseguiu voltar a morar em sua casa e teve que morar com seu pai, pois era o único lugar que John ainda dava uma trégua.

Mas ele o cercava cada vez que Peter saía na rua. Ele não podia sequer ir a sua médica com tranquilidade.

Ele se negou a assinar os papéis do divórcio quando o advogado os mandou e ainda entrou com um processo pedindo a guarda dos filhos de Peter, alegando que o marido era instável e não tinha condições de cuidar de outras pessoas.

Foi o jeito que ele achou de forçar Peter de volta ao seu lado.

Mas isso estava acabando com a saúde do mais novo.

Ele passava boa parte do tempo mudo.

Mesmo quando os adolescentes estavam pertos e tentavam incluí-lo em suas atividades, ele sempre ficava à parte. O único cujo relacionamento melhorou foi com o caçador.

E não era raro vê-lo encolhido deitado no colo dele.

Mas Peter sempre parecia muito triste.

Todos os seus álteres pareciam tristes e sentiam a falta de John, de um jeito ou de outro.

Quando ele estava no final do oitavo mês o juiz acatou o pedido de John, e Chris perdeu a guarda provisória dos meninos para John.

Depois dessa, a casa ficou terrivelmente vazia com só Peter, Cris e Allison.

O Dr. Gregory visitava Peter sempre que podia, assim como Adam e sua mãe, mas Peter dificilmente falava alguma coisa.

Era como se vivesse no automático.

Os álteres estavam quietos e nem mesmo conversavam entre eles.

Peter na maior parte das vezes deixava um deles no comando e ficava com Laura.

Era a única que tinha lhe restado.

E para Chris isso era confortável.

Peter não resistia a nenhum controle que ele quisesse exercer, como proibi-lo de procurar John e não tinha discussões com álter nenhum.

Era simplesmente fazê-lo funcionar para que assim melhorasse.

Mas ele não estava melhorando.

Longe de todos, ele estava definhando.

Naquele dia, Peter tinha ido novamente à médica, já que as consultas seriam com mais frequência por estar na reta final, quando deu de cara com John que o esperava do lado de fora.

- Eu te dou uma carona – ele disse.

- Não precisa – Peter respondeu e começou a andar.

- Eu insisto – ele segurou o braço do mais novo, impedindo-o de prosseguir.

Ele sentiu seus ossos gritarem com a força com que o outro o segurava, e achou melhor entrar no carro antes que causassem uma cena. Pessoas que passavam já olhavam para os dois.

- Ok – ele aceitou e John o largou.

- Eles têm me ajudado – John comentou quando partiu com o carro.

Peter sabia a quem ele se referia, e por isso não esticou assunto.

- Eles sentem a sua falta – ele tentou em seguida.

E Peter pôde sentir seu coração se apertando. Ele também sentia falta de todos.

- Sinto sua falta – John falou e parou o carro em seguida quando sentiu a agonia do outro.

Por mais que ele o odiasse por infernizar sua vida e por roubar seus filhos, Peter sentia falta dele também.

E por isso ele tinha se impedido de se aproximar do xerife novamente. Sabia que vacilaria e acabaria voltando.

E isso colocaria em risco não só a sua vida, mas a vida da bebê.

Todas as atitudes dos últimos tempos que vinham de John gritavam falta de controle.

Seria um risco absurdo voltar.

Ele sentiu seu corpo se arrepiar quando o outro o acariciou.

E ele podia sentir o amor e o carinho que exalavam do outro.

Era intoxicante. E ele estava tão carente de carinho.

Sentiu os lábios do mais velho nos seus.

Uma carícia tão leve.

A língua dele pedia passagem e ele a deu.

Como tinha sentido falta daquele contato.

Os dois estavam famintos por aquilo, e logo suas roupas e toda hesitação foram descartadas.

E no fim tudo que restou foram os dois sem fôlego no banco de trás do carro.

Mas eles não tiveram chance de relaxar muito, já que foram surpreendidos pelo caçador que apontava uma arma para a cabeça de John.

Ele o ameaçou e ordenou que ficasse longe de seu filho. E saiu arrastando Peter de lá.

- Eu não sou uma criança! – Peter gritou para o caçador, e saiu do carro assim que ele diminuiu o bastante. Nem esperou que ele estacionasse.

- Volte aqui, seu irresponsável – Chris ordenou para o lobisomem que tapou os ouvidos numa atitude extremamente infantil.

Era óbvio que estava instável e ora ou outra um álter assumia.

- Mas que gritaria é essa? – Allison estranhou. Estava namorando na sala com Scott.

- Você! – Chris apontoou para Scott – Sai! – ordenou e o jovem lobisomem se pôs em pé – E você, volta aqui – ele saiu atrás de Peter, mas parou quando o viu parado no meio da cozinha.

Peter estava parado e tinha uma enorme poça sob os pés.

- Ai, meu Deus – Allison falou quando viu a cena.

- Eu vou pegar a bolsa e nós vamos para o hospital. Vai ficar tudo bem – Chris tentou acalmar todo mundo.

E isso pareceu resolver até Peter se contorcer e uivar de dor.

Scott quase desmaiou quando viu o sangue se juntar à poça do chão, e os calombos que dava para ver na barriga de Peter mesmo com Peter vestido.

- O que é isso? – ao que parecia Chris também tinha percebido.

- Tira! – Peter gritou ao segurar a barriga.

Chris se aproximou e rasgou a camiseta do outro com uma faca para poder ver melhor. E o que viu o assustou tremendamente.

A barriga de Peter estava toda torta, e a pequena lá dentro parecia determinada e desesperada a sair de lá.

Peter não aguentou mais ficar em pé e suas pernas cederam.

Estava nascendo.

Chris o amparou e o tirou de cima do líquido.

- Allison, pega algumas toalhas. Scott, liga para a emergência e peça ajuda – ele disse e abaixou as calças do lobisomem que não protestou.

Assim que a filha trouxe toalhas e lençóis, Chris cobriu o lobisomem da cintura para baixo, e eles o levantaram e cobriram o chão também.

Antes que Peter pudesse gritar novamente, o resto da alcateia estava lá.

- Aquilo é a cabeça? – Jackson perguntou ao olhar por debaixo do pano.

- Não pode nascer aqui no chão – Stiles disse alarmado – A emergência já está vindo.

Peter gritou de novo, e um novo jorro de sangue caiu pelo chão.

Ele sentiu o pânico tomando conta. Era como da última vez.

Estava nascendo e ele não tinha ajuda.

- Estamos aqui – John o lembrou e ele conseguiu se acalmar um pouco.

John levantou seu tronco e apoiou suas costas.

Seu rosto ficou vermelho e ele fez força.

A pequena se agitou e ele podia sentir suas garrinhas o cortando por dentro.

Ele gritou de dor.

- Força – falou Chris, levantando suas pernas.

Ele tentou de novo e parecia que estava presa.

Alguma coisa estava errada.

- Tirem o cordão do pescoço dela! – um gritou.

Peter estava se sentindo fraco como se metade de suas forças tivesse ido embora.

- Ela não está respirando!

Ele piscou pesadamente e pela primeira vez em muito tempo ele não conseguiu sentir Laura ao seu lado.

Sorriu quando ouviu um choro. Ele abriu os olhos e entendeu o porquê.

Laura estava na sua frente chorando.

- Ela é linda – Chris comentou ao segurar a bebê.

E todos foram vê-la.

John que ainda estava segurando as costas de Peter se esticou todo para vê-la.

- Ela é linda, Peter – John falou.

E quando Peter não respondeu, ele o olhou. Peter estava pálido demais. Ainda estava sangrando e não se mexia.

- Peter? – ele chamou e o balançou um pouco chamando atenção dos outros – Peter! – ele gritou quando viu o outro inerte em seus braços.

Fim do cap. 36