O fim do pesadelo

{Inoue Orihime}


Assim que vi as íris azuis me fitando, literalmente, me choquei com ele com tanta violência que o fiz deitar outra vez. Se estivéssemos de pé, a força teria nos jogado no chão. Enterrei o rosto no peito dele, e chorei, de felicidade por tê-lo comigo.

Eu nunca me senti tão feliz como quando ele me abraçou de volta naquele momento. Eu estava esperando por isso. Eu queria isso. Eu o queria para sempre comigo.

– Pare de chorar. – ele falou.

Ouvir a voz dele novamente...

Eu não tinha palavras para descrever.

– Eu ainda estou vivo, sua boba.

Meu rosto estava tão pressionado no peito dele, que o que falei saiu totalmente diferente do que esperei, quase uma língua diferente. Então, afastei o rosto e olhei para ele.

Meus olhos estavam tão cheios de lágrimas que eu não podia nem enxergar o rosto dele.

– Você quebrou a sua promessa. – falei entre soluços, me sentindo idiota por ainda lembrar disso.

– E você também quebrou a sua. – ele jogou de volta.

Senti uma de suas mãos no meu rosto enxugando as lágrimas que escorriam. Eu fechei os olhos e encostei o nariz no dele. Naquele instante, eu me sentia bem. Completa. Não só por estar com ele, mas por todos os meus amigos estarem bem. Eu podia sentir nossos corações batendo como um só. Por que estávamos juntos.

E quando eu estava perdida nesses pensamentos, o Sexto Espada se levantou tão rápido que eu não pude nem perceber quando ele me deixou de pé e se colocou na minha frente, assim que viu que Ulquiorra ainda estava vivo.

– Ainda está vivo, Ulquiorra? – ele perguntou, com desdém.

Ulquiorra não respondeu. Ele nem sequer estava olhando para nós.

– Agora fez voto de silêncio? Ou alguém arrancou a sua língua? – ele insistiu e perguntou com deboche.

– Deveria fazer essa pergunta para a mulher a quem protege. – Ulquiorra respondeu friamente, ainda sem olhar para nenhum de nós.

Grimmjow olhou para mim por cima do ombro, com uma expressão que mostrava que ele não entendeu o que Ulquiorra quis dizer.

– E o que ela tem haver com isso? – ele perguntou.

Mentir não iria adiantar de nada agora, então, falei a verdade.

– Eu o curei... – murmurei.

O Sexto Espada me olhou por uns instantes, respirou fundo e depois voltou o olhar para Ulquiorra novamente. E então, fez uma pergunta que quase fez o meu coração parar.

– E agora, vai continuar a luta?

Parecia que o meu coração iria sair pela boca de tão rápido e frenético que batia no meu peito. Eu estava com medo da resposta do Quarto Espada. Medo que ele dissesse sim. Mas como se o meu pedido silencioso tivesse funcionado, ele respondeu o que eu queria ouvir:

– Não.

– Era o que eu precisava saber. – falou o Sexto Espada.

Ele o ignorou logo depois. O Kurosaki-kun e o Ishida-kun se aproximaram. Eles sorriram um para o outro.

Finalmente.

Eles eram amigos.

– É bom ver você inteiro, Grimmjow. – falou o Ishida-kun.

– E é bom ver você, quase inteiro. – o Sexto Espada brincou, por causa do braço machucado do Ishida-kun.

– Eu achei que iria me livrar de você. – falou o Kurosaki-kun, colocando uma mão no ombro do Sexto Espada.

– Que coincidência, eu também achei que iria me livrar de você. – ele jogou de volta.

Eu vi um olhar travesso no rosto do Grimmjow, como se estivesse tramando alguma coisa, mas era impossível de se imaginar.

– Ei, Kurosaki. – ele chamou.

– O que é?

– Olha aquilo ali. – falou, apontando alguma coisa por cima do ombro do Kurosaki-kun.

Eu também olhei para ver o que era, mas não vi nada que não fosse ou o Ulquiorra nos encarando, ou o céu em que nunca amanhecia do Hueco Mundo. Então, o que eu menos esperava, aconteceu.

Grimmjow chutou o Kurosaki-kun na... É... Tão forte que ele tombou para a frente e caiu na areia.

– O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – ele gritou, levantando quase que no mesmo instante. Afagando o local atingido.

– Descontando por você quase ter nos matado! – Grimmjow respondeu, com um sorriso debochado.

– Eu não tive culpa do que aconteceu! Você fez de propósito!

– É, eu acho que fiz.

Todos acabamos rindo, menos o Kurosaki-kun que ainda afagava o local atingido. Até que Ulquiorra interrompeu, falando algo que ele sempre me dizia quando eu falava dos meus amigos:

– Quanta besteira...

– O que? – perguntou o Kurosaki-kun.

– Olhe só para vocês. – ele mantinha aquela falta de expressão no rosto. – Meros humanos. E você, Sexto Espada, se rebaixando ao nível deles.

– Tô pouco me lixando para o que você acha, Ulquiorra. – Grimmjow respondeu.

– Eu ainda não entendo. – continuou. Nos encarando. – Tudo isso o que fizeram. Arriscaram suas vidas. Quase morreram em batalha. E ainda dizem que isso foi por causa daquilo que chamam de coração?

– E daí? – o Kurosaki-kun jogou essa pergunta no ar.

– Daí, que eu não entendo. Por que fizeram tudo isso?

– Sabe, você está certo, Ulquiorra. – o Sexto Espada falou. – Você jamais entenderia.

– Já disse que tudo isso é besteira. – ele continuou. – Se foi por causa do coração que fizeram isso, quer dizer que arriscaram a vida por possuir um. Fariam isso outra vez?

Eu já havia respondido essa pergunta para ele uma vez. Disse que faria o mesmo pelos meus amigos. Disse e faria. Todos nós estávamos juntos, mesmo estando separados. Por que nossos corações batiam como um só.

Todos nós olhamos um para o outro. Eu pude entender que todos tinham a mesma resposta.

– Quantas vezes fosse preciso. – respondeu o Kurosaki-kun.

– Meus olhos podem ver tudo. Aquilo que não enxergo, simplesmente não existe. E se eu não vejo esse tal coração, ele não existe.

Como ele podia dizer todas essas coisas com tanta normalidade? Como ele poderia não entender algo tão essencial?

Alguma vez... Ele já entendeu o que é o coração?

Talvez...

Talvez isso tenha sido tirado dele...

Grimmjow ia dizer alguma coisa ao Ulquiorra, mas eu não deixei. Passei adiante, calmamente. Caminhando até o Ulquiorra, enquanto ele me encarava. Parei quando estava frente a frente com ele. Hesitei no que iria fazer, mas, acho que ele precisava daquelas palavras. Então, segurei em uma de suas mãos com as minhas e falei:

– Você não precisa saber se existe.

Ele arregalou os olhos. Parecia que estava assustado, eu não sei...

Ficou em silêncio por uns instantes, e então, calmamente, se virou, para que eu não o tocasse mais. Ele começou a andar. Não olhou para trás.

– Vão embora. – ele disse, friamente, como sempre. – Não irei impedi-los, e nem segui-los. Eu falhei no meu dever e não tenho o direito de lutar com nenhum de vocês.

Quando já estava um pouco longe, ele completou o que dizia.

– Estão livres para fazer o que bem entenderem.

O Kurosaki-kun disse Adeus, mas ele não respondeu.

Eu queria ir buscá-lo. Trazê-lo conosco da mesma forma que trarei o Sexto Espada. Ulquiorra só precisava de pessoas que ficassem ao lado dele, e não o deixassem solitário. Mesmo que uma vez ele tenha me dito para não compará-lo com humanos, não dar apelidos a ele, de qualquer maneira, tratá-lo como um amigo, eu queria que ele viesse conosco, independente de tudo o que ele tenha feito.

Eu olhei para o Grimmjow e ele balançou a cabeça negativamente, como se entendesse o que eu queria fazer, e também soubesse que não adiantaria de nada. E que eu deveria deixá-lo.

– Vamos... – ele chamou, fazendo um gesto com a cabeça para que eu o acompanhasse.

Juntos, nós saímos pelo mesmo local por onde entramos. Deixando aquele cenário para trás. O cenário de uma guerra. Em que todos nós chegamos ao nosso limite e o superamos.

Juntos, nós estávamos voltando.

E eu, fui levada nos braços do Grimmjow.