************************ Cap. 36 Preste atenção, o mundo é um moinho... ************************

Templo das Bacantes, 9:11pm

Love hurts... love scars... love wounds... aaand marks...

Sentado na banqueta, de frente para a graciosa penteadeira em estilo vitoriano, com os cotovelos apoiados na madeira pintada de branco que dividiam espaço com frascos de hidratante, estojos abarrotados de joias e mais um tanto de quinquilharia diversa, Afrodite cantava o sucesso de Boudleaux Bryant que se tornou hit mundial em meados da década de 1960, enquanto olhava para seu reflexo no espelho e espalhava, com a ajuda de um pincel largo, um tanto de base em alguns pontos de seu rosto.

I know it isn't true, I know it isn't true... Love is just a lie... Made to make you blue... Hmmmm... — fez uma pausa deixando escapar um gemido de dor quando esfregou suavemente o pincel sobre um grave esfolado no queixo — Love hurts, oooooh, ooooh love huuuurts!... Hmmm... o amor também te amarra todo e te dá um coió* de cinta!... E o amor te obriga a viver de truque*... O amor... Ah, o amor! O amor machuca!

Terminado de maquiar o ferimento no queixo passou para as demais escoriações. Um pequeno corte no supercílio direito, alguns arranhões no pescoço e um hematoma que ainda despontava no canto da boca. Quanto ao inchaço no lábio inferior, ferido por dentro, e uma pequena mancha de sangue no olho direito avizinhando a íris aquamarine nada pode fazer.

— Truqueira malassombrada! — resmungou ao jogar o pincel dentro da gaveta para depois fecha-la com uma forte pancada — A única coisa que me conforta é saber que tua cara está bem pior que a minha, Camus. Dadá há de querer que esteja! ... Equezeira* do Aqueronte!

Calou-se e ficou algum tempo ainda analisando seu reflexo no espelho. A maquiagem disfarçava bem o que dava para ser disfarçado, quanto ao resto iria adotar a mesma conduta que adotara o dia todo quando era questionado acerca do rosto marcado: Não é da sua conta. Avoa! Respondia enfático.

E que dia difícil tinha sido aquele para o Cavaleiro de Peixes...

Não bastasse a briga com Camus no dia anterior, a qual lhe deixara visivelmente abatido e aborrecido, logo nas primeiras horas da manhã soube que teria que cobrir o dia de trabalho de Mu, também que Saga sairia em missão com Shaka sem previsão de hora para regressar, e que teria que segurar Geisty no Templo das Bacantes até Gêmeos lhe dar o sinal de que podia deixa-la voltar para o Terceiro Templo.

Depois de passar o dia resolvendo problemas internos do bordel, lidando com fornecedores exaltados, conferindo agendas, confirmando reservas, e ainda tendo de lidar com a parte contábil, resolveu que nem subiria para Peixes, estava exausto.

Tomou um banho no quarto que costumava ocupar ali mesmo no Templo de Baco quando ainda fazia os programas — agora o prefeito Praxédes era seu único cliente — e agora terminava de se aprontar para o expediente, que já havia começado.

O dia todo, porém, apesar dos tantos afazeres que exigiam muito de sua atenção, não conseguiu tirar de seus pensamentos a briga com Camus. As ofensas, as ameaças, as tantas mentiras ainda corriam vivas em sua mente lhe atormentando, perturbando uma paz que ele perdeu no memento em que aceitou mentir para Hyoga.

Suspirou profundamente fechando os olhos e jogando a cabeça para trás. Havia uma arma apontada diretamente para a cabeça dos dois, dele e de Camus, e esta era empunhada por eles mesmos. Bastava revelar a verdade a Hyoga que Afrodite puxava o gatilho da sua e acabava com tudo aquilo. Mas, teria coragem?

Levantou ligeiro da banqueta a empurrando para trás com o pé mesmo. Tinha pressa.

Caminhou até o closet onde vestiu-se simplesmente com uma calça justa de couro num tom de azul bem escuro, camisa branca de seda e uma jaqueta bordada com paetês em tons de azul turquesa e verde petróleo. Calçou coturnos e voltou para o quarto.

— Dadá, que dia! Que dia! — suspirou cansado enquanto novamente de frente para a penteadeira prendia os cabelos com um rabo de cavalo alto — Não vejo a hora de ele acabar! ... Que essa noite passe tão rápido quanto uma ejaculação precoce! E que não aconteça nenhum babado, porque hoje eu não tô podendo!

Irritado, muito mais pelo estresse que Camus lhe causara ao ter voltado para a Rússia levando Hyoga consigo sem lhe dar a mínima satisfação — Afrodite já estava muito ligado ao menino e não admitia que Camus lhe privasse de estar com ele — do que pelo fato de ter passado o dia todo trabalhando e ainda ter de segurar Geisty ali até mais tarde, Peixes deixou o quarto decidido a colocar um ponto final no problema que até então era o que lhe tirara o sono.

Assim que passasse o aniversário de Geisty iria puxar o gatilho da arma apontada para Camus. Iria ter uma conversa definitiva com o francês e revelar a verdade a Hyoga, dizer que era um cavaleiro, um homem, e que amava seu pai acima de tudo, mas que não podia mais viver aquela mentira. Não podia mais engana-lo, pois o amava como a um filho de verdade e temia que um dia, quando descobrisse a verdade pela boca de outra pessoa, fosse odiá-lo para sempre. A possibilidade de ser rejeitado pelo garotinho o aterrorizava muito mais que o perigo que a Vory v Zakone representava para eles.

Foi pensando nisso, e repassando em sua mente a melhor forma de revelar tudo a Hyoga, que Afrodite caminhou pelo corredor estreito do segundo piso do Templo de Baco enquanto mantinha os olhos fixo ao tapete vermelho que recobria o piso de madeira escura.

A iluminação ali era parca, de um tom amarelado e funesto, proposital, já que muitos que por ali caminhavam tinham a necessidade da penumbra para manter seus rostos ocultos.

Ao passar pelas tantas portas que havia ali parou em frente a uma em específico, então nessa hora seus pensamentos em Hyoga e Camus e no futuro incerto de sua relação lhes deram uma trégua.

Agora estava em frente ao quarto de Geisty. Ponderou por alguns segundos se devia bater na madeira e no fim decidiu entrar sem bater mesmo. Segurou a maçaneta recoberta de azinhavre fazendo uma careta. As dobradiças enferrujadas rangeram ligeiramente quando ele empurrou a madeira e entrou.

Logo de cara um perfume pronunciado de orquídeas, madeira envernizada e feminilidade se chocou com seu olfato tão aguçado.

As flores estavam graciosamente arranjadas em um vaso grego que decorava uma mesinha de centro entre duas luxuosas poltronas de veludo púrpura nos fundos do aposento. Este era bem iluminado por um suntuoso lustre de cristais que deixava o ambiente sofisticado e aconchegante.

Havia entrado raras vezes naquele quarto e nunca havia se prendido nos detalhes de sua decoração, o que o surpreendeu por ser discreta e ao mesmo tempo refinada, predominantemente romântica.

"Hum, até que essa Mosca Varejeira brutalhona tem bom gosto!", pensou ele enquanto corria os olhos por tudo ali.

A cama era imensa, de madeira talhada, e ficava bem no centro do aposento, quase encostada à parede onde havia uma grande janela com grossas cortinas de linho e shantung em degrades de roxo e violeta que combinavam com os lençóis de seda carmim. Sobre os criados mudos, dispostos um de cada lado do leito, havia mais orquídeas e alguns pertences da amazona.

Avançou alguns passos pisando com cuidado o carpete marfim e foi até o closet. Não a encontrado ali seguiu para um pequeno corredor ao lado da porta de entrada de onde via, ao fundo, uma risca de luz no chão que escapava de uma fresta aberta de outra porta. Deveria ser o banheiro.

— Ô de casa! — disse em tom moderado — Mosca... digo... Geisty, você está aí?... Eu posso entrar? ... Quer dizer, eu já estou dentro... — contornou com os olhos a fresta aberta na porta, sem ouvir resposta.

De repente ouviu do outro lado da porta a amazona tossir repetidas vezes, então em seguida lhe pareceu que ela estava vomitando.

Sem pensar duas vezes Afrodite espalmou a mão na madeira e empurrou a porta, entrando de supetão no banheiro onde encontrou Geisty sentada no chão abraçada ao vaso de porcelana.

— Pelo consagrado gorfo de Dadá! — exclamou assustado, já se atirando de joelhos no piso ao lado dela. Com uma das mãos suspendeu os cabelos dela para que não caíssem dentro do vaso enquanto com a outra segurou sua testa — O que você tem, Mosca? ... Digo, Geisty?

Pálida a amazona ergueu a cabeça, respirou fundo e enquanto limpava a boca com as costas da mão divisou com os olhos marejados o rosto de Afrodite.

— Nada... — disse lânguida, em seguida tossiu mais uma vez — Só mais um dia de gravidez.

Peixes franziu as sobrancelhas, confuso.

— Cruzes! Já não era para você ter passado dessa fase? Enjoos não são comuns só nos primeiros meses? — disse.

— Sim... Não... Quer dizer... Não sei, Afrodite, nunca estive grávida antes. — ela respondeu soltando um suspiro — Me ajude a levantar, porque está difícil manobrar essa barrigona, ainda mais dentro desse cazzo desse vestido. — referia-se ao vestido longo todo bordado com o qual estava vestida.

Geisty ergueu os dois braços e prontamente Afrodite a ajudou a se levantar. Juntos foram até o lavatório e enquanto a amazona lavava as mãos, o rosto e escovava os dentes Peixes a observava atento e um tanto preocupado.

— Quer ir até o hospital? Eu levo você. — disse enquanto acionava a descarga do vaso sanitário fazendo uma careta de nojo ao inevitavelmente olhar para o conteúdo lá dentro — Urgh! Eu acho que vi seu pulmão ali dentro!

— Hum... não é necessário! — ela respondeu com a boca ainda cheia de espuma, esfregando frenética os dentes com a escova — Deve ser algo que eu comi que atacou o meu estômago e me deu dor de cabeça. Nada que uma aspirina não resolva.

Ao terminar a escovação, de dentro do armário Geisty sacou dois potes de remédio, um com aspirinas e outro com as amostras grátis de vitaminas receitadas por Dr. Ulisses. Jogou dois comprimidos de cada na boca e engoliu com um pouco de água que apanhou da torneira com as mãos mesmo.

— Tem certeza? O que é isso que está tomando? — insistiu o pisciano.

— Tenho. Isso são só vitaminas e umas aspirinas. — ela respondeu enquanto enxugava o rosto com uma toalha — Acho que foi todo o estresse desse dia, sabe... Saga saiu hoje cedo em missão e até agora não deu notícias, e só conseguimos conversar rápido pelo telefone antes de ele partir para o México... Estou preocupada. Será que está correndo tudo bem com eles dois lá, tão longe? Queria saber se já estão voltando... devo estar nervosa com essa situação, não sei...

Afrodite revirou os olhos, cruzou os braços e deixou escapar um suspiro.

— Nem me fale de dia estressante! Tudo que tinha para dar errado, hoje deu. Cinco reservas de última hora e duas bacantes a menos. Karina com K está com virose e Fúlvia está de chico. Três garçons faltaram... Sorte que a empresa que terceiriza o serviço para nós me mandou outros três rapidão para substituí-los. Nem precisei chorar no telefone... Em compensação os fornecedores das bebidas, que era para ter chegado as 15:00 horas para descarregar, atrasaram e chegaram agora a noite, tá boa? Estão lá embaixo na adega ainda. Pedi para Aldebaran conferir os estoques e notas e subi para tomar um banho aqui mesmo... Que dia! — soltou outro suspiro cansado, depois olhou para Geisty que tinha um semblante preocupado — Mas, não devia se preocupar tanto, mulher, relaxa. Estamos falando do Saga! Depois, ele está com ninguém menos que o Buda loirudo. Preocupado tem que estar seja lá quem for o mondrongo* que eles foram combater.

— Você acha que está tudo bem com eles? — disse com ar de dúvida. Não tinha coragem de revelar que na verdade, desde que se descobrira grávida, temia pela segurança do amado ou de seus bebês. Até mesmo passara a cuidar de sua própria saúde com um zelo que nunca antes tivera, tudo para garantir a felicidade da família recém constituída.

— Mas é claro que sim! Quer saber? Devem estar melhor que nós. — disse descruzando os braços para ajeitar alguns anéis nos dedos — A minha cabeça está explodindo, e você está ai nesse olofom* azedo de... Afinal de contas, que ajeum* from hell foi esse que você comeu que te estragou desse jeito? Pediu um delivery direto de Chernobyl?

— Essa missão repentina do Saga me deixou tão ansiosa que até perdi a noção de quantidade e enfiei a cara no macarrão à bolonhesa que a Shina fez no jantar. — disse a italiana enquanto enxia a boca de antisséptico bucal.

— Hum... Agora sim é que temos que correr para o hospital! — arregalou os olhos aquamarines e riu em tom de brincadeira — Quem em sã consciência come alguma coisa feita pela Shina? Certeza que você pegou sapinho.

Sobressaltada a jovem cuspiu o líquido na pia e enxugou a boca.

Madonna mia, deixa de bobagem, Afrodite. Shina só cozinha mal mesmo! — Geisty franziu o cenho ao lembrar-se da reputação de péssima cozinheira que a amiga tinha — Mas, o pior é que na hora nem senti o gosto da comida, para ser sincera. Estava tão preocupada... Bem, Saga disse que chegava ainda hoje para me dar um beijo de boa noite. — a expressão de preocupação deu lugar a um sorriso apaixonado no belo rosto maquiado da amazona.

— E eu acho bom que chegue mesmo. Não vejo a hora de voltar para minha casa... E ainda tenho que ir atrás do malassombrado do... — fez uma pausa, pois quase havia falado o que não devia, mas logo corrigiu-se — Do Batman.

Geisty olhou curiosa para ele.

— Já que tocou no assunto... Por acaso foi o seu namorado misterioso que fez isso no seu rosto? — ela perguntou enquanto de frente para o espelho delineava os lábios com batom carmim.

— Isso o quê? — Peixes tentou disfarçar.

— Pela deusa, você é um Cavaleiro de Ouro, Afrodite! — guardou o batom e encarou o pisciano nos olhos — Como deixa um arrombado qualquer bater em você?

— Alôca! — Peixes apoiou ambas as mãos na cintura e a encarou de volta — E você acha que eu sou homem de deixar um qualquer me arrebentar a cara? Ah tá boa! ... Foi o cafuçu* do além* do Camus... A gente se estranhou ontem, ele falou umas merdas para mim e eu perdi a cabeça... Nada de novo... A minha sina é ter aquele cano enferrujado homofóbico como vizinho... Dadá é mais! ... E te garanto que a cara dele tá bem pior. — tentava disfarçar um certo nervosismo que lhe tomava usando como desculpa o histórico de desentendimentos com o aquariano, que era de conhecimento de todos ali.

— Humpf... Aquele porco russo... — Geisty resmungou.

— Francês. Porco francês. — corrigiu Afrodite.

— Quem com os porcos anda, porco é. — insistiu a amazona — Como detesto aquele homem. — concluiu fazendo uma careta de asco.

— Quanto ao Batman, para o seu governo ele não é um arrombado qualquer. Ele... ele é legal.

— Hum... Não sei não. Um homem que não se digna nem a revelar sua identidade é porque tem teto de vidro... Ou não quer te assumir. Se eu fosse você ficaria esperto, heim... Ai tem coisa... Ele deve ser casado.

— Ele não é casado, ele... Olha aqui, sua Mosca Varejeira enxerida, vê se para de pôr ovos no meu relacionamento e preocupe-se mais com o seu.

— E por que eu deveria me preocupar com o meu?

— Ora, porque enquanto o senhor seu marido está fora eu estou responsável por você aqui, ou seja, se Saga souber que você está passando mal e eu não lhe prestei socorro o meu rabo está na reta, e o seu também, que não quis ir ao hospital.

— Mas eu estou bem, Afrodite. Foi só uma indisposição mesmo.

— Então vamos fazer o seguinte. Descemos para o salão, você toma uma água fresquinha, um suco, toma um ar também, enquanto esperamos Aldebaran voltar da adega, porque não posso sair e deixar essa espelunca nas mãos do Máscara. Já pensou o desastre!

— Nem quero imaginar!

— Se quando Aldebaran voltar você ainda estiver se sentindo toda mal-acabada nós vamos ao hospital, queira ou não. Não quero Saga depois me apodrecendo* por aí dizendo que não prestei socorro à senhora dele, que estraguei o aniversário... — se calou de súbito encarando os olhos violetas da amazona que fitaram surpresas os seus.

— Como você sabe que é meu aniversario amanhã? — Geisty perguntou.

— Mas... olha para isso Dadá! — apontou ambas as mãos na direção da amazona, revoltado consigo mesmo por ter dado aquela bola fora, então pensou um tanto, mais outro tanto, engoliu em seco e continuou — E por que eu não saberia? Todo mundo sabe!

— Todo mundo? — a amazona inquiriu estreitando os olhos.

Afrodite estava se enrolando cada vez mais. Já sentia seu rosto arder, as palmas das mãos suarem e o olhar assassino de Saga sobre si a lhe julgar e condenar.

— Sim, ora... todo mundo... por quê? Era segredo por acaso? — disse desconcertado, temendo ter entregado a surpresa — Está escondendo a idade?

— Hum... Claro que não, mas... — Geisty respondeu desconfiada — Aí tem.

— Tem o que, Alice? Eu heim! Larga de ser tão desconfiada. Anda... — disse desconversando, depois pegou na mão da amazona e rapidamente a conduziu para fora do banheiro, pelo corredor retornando ao quarto — Vamos descer. Enfia qualquer coisa nesses teus pés de hipopótama inchada, ativa seu Cosmo e vamos bater o cartão que tudo indica que a noite ainda vai ser longa!

Naquela altura da noite o salão já estava completamente lotado. Sexta-Feira era um dos dias de maior movimento na casa, e os clientes, tanto os veteranos quanto os marinheiros de primeira viagem, já se amontoavam em frente ao palco principal, ansiosos pelos famosos shows eróticos cuja fama corria toda a Grécia, ou conversavam eloquentemente sentados às mesas abarrotadas de toda a sorte de bebidas enquanto as mais belas mulheres da Europa lhes faziam companhia.

Tudo parecia perfeitamente normal.

Foi o que constatou Afrodite enquanto descia os degraus ao lado de Geisty quando correu rapidamente os olhos por todo o salão, malgrado um grupo composto por três homens que ocupando uma mesa bem no centro do salão falavam alto e riam escandalosamente. Eram os mesmos que tinham batido boca com Máscara da Morte na entrada.

Peixes cutucou discretamente o braço da amazona com o cotovelo, indicando com o olhar a mesa onde estavam os três sujeitos. Não faziam questão de esconder as tatuagens que os identificavam como membros da Vory v Zakone, e Afrodite e Geisty também não faziam questão de se intimidar com a presença deles. Sabiam que estavam ali para isso, já era de praxe. Precisavam ver se ambos estavam cumprindo o acordo e trabalhando para eles.

— Passe ao lado dos suínos para que te vejam. — disse em voz baixa o pisciano, que vendo os russos ali imaginou que aquela era toda a presença da Vory naquela noite, logo não oferecia perigo, pois eram somente três civis, e não se ateve ao real perigo: os homens de Dimitri, e o próprio Vor, alocados na mesa ao fundo do salão — Te encontro no bar.

Distraídos com os três russos baderneiros não se deram conta de que eram observados atentamente por outros grupos de homens que estavam ali no salão naquela noite, e quando se separaram ao pé da escadaria e percorreram o ambiente separadamente vários olhos os seguiram.

Da parte cuja iluminação era mais parca e discreta, próximo ao palco de pole dance, onde Rebeca fazia uma apresentação, houve uma ligeira agitação na mesa ocupada por Dimitri e seus homens.

Já temos contato visual com os outros dois alvos, meus senhor. — disse um deles cujo rosto estampava uma máscara de cólera. A voz soou abafada pela música alta e pelas outras tantas vozes exaltadas que ecoavam pelo salão — Mas... a mulher não parece estar grávida...

Não houve resposta de imediato, pois Dimitri mantinha-se calado enquanto seguia Afrodite pelo salão com os olhos. Pela primeira vez desde que chegara ali pareceu mostrar um descontentamento monstruoso. Seu rosto lívido, de músculos visivelmente trêmulos e lábios contraídos, denunciava um desprezo e ódio imponentes. Nem piscava. As sobrancelhas cerradas eram escondidas pela aba do chapéu escuro, enquanto a mão apertava com tanta força a empunhadura de ouro da bengala que chegavam a tremer de forma impressionante.

Meu Vor? — o homem a seu lado lhe chamou a atenção — O senhor confirma os alvos?

O fel amargo subiu à garganta do chefe da máfia russa quando sua mente redesenhou a fotografia tirada pelo Falcão Negro, onde aparecia Camus aos beijos com Afrodite vestido de mulher, a qual mesmo tendo queimado junto do corpo do detetive e de seu próprio carro ainda teimava em lhe atormentar o juízo.

Sim. Alvos confirmados. O viado no bar e esses dois. — respondeu enfim apertando os dentes, com os olhos ainda cravados no pisciano que se dirigia ao bar. Cuspiu no chão, ao lado de sua cadeira. O amargo de sua boca aumentando cada vez mais. Tomou de um lenço branco que retirou do bolso interno do casaco e limpou a boca — Dê início à operação. Temos pouco tempo.

Na multidão de presentes naquele salão um discreto sinal dado pelo homem sentado ao lado de Dimitri para um dos garçons que rondava aquela área passou despercebido. Um sutil menear de cabeça seguido de um olhar desumano.

O garçom, um mestiço cujo pai era russo e a mãe chinesa, de quem herdara os olhos levemente puxados e os cabelos lisos de um preto profundo e sedoso, terminou de servir a mesa que havia requisitado seus serviços, pousou a bandeja de inox debaixo do braço e se dirigiu ao bar, mas no caminho passou pela mesa onde estavam sentados os dois homens de ternos claros e sotaque austríaco e lhes dirigiu o mesmo olhar desumano seguido do menear de cabeça que o homem sentado junto de Dimitri lhe dera.

Deu o mesmo sinal aos três russos baderneiros ao também passar pela mesa deles, então seguiu para o bar para apanhar o próximo pedido que haveria de levar a outra mesa.

No bar também estavam Geisty e Afrodite, que já haviam se reencontrado ali como combinado há alguns minutos e agora conversavam distraídos sentados nos banquinhos anexados ao balcão.

— Será que Aldebaran ainda demora muito? — disse a amazona enquanto dava um gole na soda limonada que havia pedido ao bartender.

— Por quê? Está se sentindo mal? — Afrodite perguntou preocupado.

— Não... É que eu queria uma limonada decente. Essa aqui está horrível! — ela reclamou fazendo uma careta, depois curvou as costas ligeiramente para trás alongando-se — Ah, pela deusa... Estou quase indo esperar Saga em casa, digo na Casa de Gêmeos.

— NÃO! — Peixes praticamente gritou, e no ato assustou a amazona que quase sofreu uma queda do banquinho.

— Credo Afrodite! — ela disse o encarando sobressaltada, espalmando uma das mãos no peito — Ficou doido? O que foi?

Peixes engoliu em seco.

— O que foi? Ora, nada! — respondeu visivelmente nervoso — Do que está falando?

— Como do que estou falando? Desse grito que deu na minha orelha. Olha o meu estado, porca Madonna, não posso levar susto!

— Que grito, Mosca? Eu não gritei, minha voz... ela... está mudando, é normal... Puberdade, sabe? Voz de homem é assim, às vezes engrossa, às vezes afina, às vezes sai baixinha, às vezes é um escândalo! Alôca! — riu dando um tapinha no ombro da amazona, que mal podia acreditar no que estava ouvindo, mas quando pensou em discutir sobre aquilo com o sueco subitamente sentiu o enjoo voltar e calou-se, dando outro farto gole na soda.

— Hum... Você é estranho. — disse soltando um suspiro longo e enfastiado.

— Você está ficando pálida. Olha, esquece voltar para Casa de Gêmeos, santa. Eu acho melhor eu te levar é para o hospital mesmo. — disse Peixes.

— Ah, é só o macarrão da Shina, não se preocupe. E lembra, não é confiável sairmos e deixarmos o bordel nas mãos do Máscara, como você mesmo disse.

— Então vamos fazer o que eu te disse antes. Vamos esperar o Aldebaran voltar da adega. Enquanto isso, suba para o seu quarto. Deite um pouco. Os suínos já te viram aqui, está tudo certo. Assim que o Touro chifrudo subir eu vou lá te chamar e EEEEEI...

O grito dessa vez foi em resposta a um copo de chope que o garçom mestiço, o mesmo que dera os sinais aos homens de Dimitri, derrubara em um dos pés de Afrodite.

— Mil perdões, senhor! Mil perdões! Que desastrado! — disse ele, num grego fluente e quase sem sotaque, já apanhando um pano de cima do balcão para limpar a ponta do sapato do pisciano, que havia molhado.

— Olha aí, gata, derramou o otim* todo! — disse Peixes se levantando — Deixa, não precisa limpar. — olhou para o rosto do garçom e franziu as sobrancelhas — Você é um dos substitutos, né?

— Sim senhor. Estou no lugar do Ptolomeu. — respondeu o homem de estatura média e semblante sisudo.

— Ah, ok... — apanhou o pano das mãos do rapaz e ele mesmo enxugou o sapato — Como é seu nome?

— Rômulo.

— Toma cuidado para não derrubar nada na clientela, Alice. Eu heim!

— Sim senhor. Não se preocupe. Com licença.

Recuando alguns passos, Rômulo apanhou o copo do chão, colocou-o sobre o balcão, apanhou a bandeja com os pedidos e seguiu para fazer as entregas nas mesas, sempre com os olhos atentos a outros dois garçons que serviam outros setores.

Um deles era Igor, russo de pai e mãe. Forte, rosto carregado e duro, cabelos levemente ondulados num tom de mogno. O outro atendia pelo nome fictício de Martelo, pois era com essa ferramenta que costumava executar suas tarefas criminosas, sempre com primor e profissionalismo invejáveis. Martelo era um homem alto, como a maioria dos russos, rosto redondo, lábios finos em um arco que pendia para baixo e cabelos castanhos muito bem cortados à escovinha. Os três estavam ali substituindo os outros três funcionários fixos da casa que misteriosamente naquele dia haviam ligado logo pela manhã avisando que iriam faltar, cada um alegando um motivo diferente. Usavam luvas, camisas de mangas compridas por debaixo do uniforme e maquiagem para esconder qualquer outra tatuagem aparente.

Quando terminou de entregar os pedidos Rômulo dirigiu-se apressado novamente à mesa onde Dimitri e seus homens estavam, então de frente para o líder da Vory v Zakone sacou um bloquinho de notas do bolso do avental e fingiu estar anotando um pedido.

Mudança de planos, meu Vor. — disse em voz bem baixa enquanto mantinha os olhos fixos ao papel onde rabiscava qualquer coisa — Parece que a prostituta está passando mal. Ela deve subir sozinha para o quarto a qualquer momento.

Dado o recado, Rômulo devolveu o bloco ao bolso do avental e se embrenhou novamente entre os presentes no salão lotado, enquanto na mesa Dimitri acendia um charuto tranquilamente.

Perfeito! — murmurou para si mesmo, depois tragou o charuto e enquanto soltava a fumaça no ar elevou o tom de voz e sussurrou ao homem sentado a seu lado — Cancele a abordagem à vadia. Chame algumas putas aqui agora mesmo, menos a de cabelos verdes. Essa também é amazona e Yuri vai se encarregar dela... Nós vamos subir assim que a desgraçada subir as escadas. Aleksander deve agir assim que chegarmos ao segundo piso.

Dimitri tinha os olhos cravados em Afrodite no bar, e seu ódio era tamanho que pulsava firme em sua garganta, porém fazia um esforço hercúleo para disfarça-lo, já que ninguém, nem mesmo seus homens mais fiéis que estavam ali com ele naquela noite, podiam saber o real motivo de Afrodite ser um dos alvos.

Sim senhor. — disse o homem do rosto furioso.

Seguindo a ordem do chefe, o homem divisou rapidamente o salão e fez sinal para três bacantes que circulavam livres por ali, entre elas Ágatha e Narjara. A outra era Núria, que havia chegado ali há pouco mais de duas semanas com uma carta de recomendação redigida por Milo e alguns poucos dólares que o próprio Escorpião lhe adiantara.

Enquanto as moças se sentavam à mesa com os russos que acompanhavam Dimitri, do outro lado do salão Shina era abordada pelo sujeito mencionado pelo Vor, Yuri.

Ele era um dos três russos membros da Vory que chegaram ali fazendo arruaça propositalmente para chamar e desviar atenção, e estava só a espera do sinal do garçom para cumprir sua parte na operação, a qual consistia em tirar Shina de cena.

Sendo assim, quando Rômulo passou pela mesa onde estava, minutos depois Yuri se levantou e se acercou da amazona de Ofiúco que circulava entre as mesas. Shina tinha verdadeira ojeriza dos russos, mas sabia que não devia se dar ao luxo de escolher clientes, por isso, com um pouco apenas de conversa e a boa lábia de Yuri ambos subiram as escadas e se dirigiram ao segundo piso, para o quarto da amazona.

Contudo, na mesma hora em que Shina era abordada por Yuri, em outra parte do salão outra abordagem estratégica também se dava.

Na mesa ocupada pelos dois homens trajando ternos claros, e que simulavam um perfeito sotaque austríaco, um deles tinha se levantado no momento em que vira Yuri aproximar-se de Shina. Era um homem alto, de porte forte a se ver pelos ombros destacados embaixo do paletó de linho branco, cabelos negros, olhar duro e rosto bonito, apesar do inchaço causado pelas constantes bebedeiras. O outro, que trajava camisa de mangas longas com estampa de flores e borboletas, permaneceu na mesa.

Enquanto cruzava o salão a passos lentos e olhos atentos, apertando um cigarro aceso entre os lábios que formavam um arco fino, o homem passou pelo garçom que atendia pelo codinome de Martelo e lhe fez um sinal discreto com a cabeça. Martelo reconheceu o sutil código de imediato, e assim que terminou de anotar o pedido da mesa que atendia se colocou em alerta para executar sua segunda função naquela operação. Para tal teria que chegar até o bar, mas Geisty e Afrodite ainda estavam ali, ancorados no balcão, então Martelo se colocou vigilante enquanto disfarçava caminhando entre as mesas esperando que eles saíssem. O que não tardou.

Com um semblante nada amistoso o Santo de Peixes falava com Aldebaran que estava na adega, através de um rádio comunicador portátil — Walk Talk — o qual mantinha quase colado aos lábios, enquanto a seu lado Geisty tinha os cotovelos apoiados sobre o balcão e as mãos a segurar a cabeça.

— Ai meu edi*, Touro chifrudo. Eu não estou atacada* coisa nenhuma, santa. Só quero saber se ainda vai demorar para subir. Essas laleskas* vão ficar aí até quando? Esse descarregamento não acaba nunca? Câmbio. — disse o pisciano.

"Calma viado. Eu não tenho culpa de nada não! Esses manés trouxeram as notas todas trocadas. Precisei conferir uma por uma nessa adega que é um cu de escura. Sem contar que eles não sabem nem distinguir as caixa de vinho das de champanhe... Olha, vou te contar viu, pro mau fodedor até o saco atrapalha. Sorte que eu tô aqui, senão esse descarregamento ia fazer aniversário e bodas. Aguenta aí que em dez minutos eu tô chegando. Já está na última caixa. Câmbio."

— Então agiliza esses malassombrado aí, porque eu preciso sair, Touro. Em dez minutos eu descarrego cinquenta caixas de vinho e ainda faço uma suruba caprichada em cima delas. Ah tá boa! Não tô podendo não, viu. Câmbio e desligo. — desligou o rádio depois endireitou a postura e soltando um suspiro longo olhou para Geisty — Ele já está vindo, Mosca... digo, Geisty.

— Bom... Acho que é melhor mesmo ir para o hospital. Pelo menos lá eles me dão algum remédio na veia para cortar esse enjoo mais rápido. — ela disse enquanto corria as mãos pela testa deslizando depois até a nunca, onde massageou ligeiramente — Se não se importa, então eu vou subir e me deitar um pouco. A minha dor de cabeça está aumentando e as minhas panturrilhas estão me matando por ficar sentada aqui nesse banquinho. Aproveito para também trocar esse vestido e pôr algo mais confortável.

— Claro. Vai se deitar. Assim que o Touro Chifrudo subir eu vou lá te chamar. — concordou o sueco.

— Certo. — ela respondeu, depois desceu do banquinho e apoiou a mão no ombro do pisciano falando próximo de seu rosto — Não precisa ter pressa. — sorriu amigável.

A amazona de Serpente então se afastou calmamente do bar. De forma discreta se embrenhou entre as mesas e transeuntes que circulavam animados pelo salão, alguns ignorando totalmente sua presença, porém outros a seguindo atentos com olhos vigilantes de aves de rapina.

Quando subiu as escadas para o segundo piso Geisty sentiu as pernas pesadas, muito mais do que o de costume, e uma dor repentina, ainda que fraca, subiu de suas costas e parecia se alojar na nuca. Contorceu o rosto sutilmente e massageou novamente a área até chegar ao corredor pouco iluminado. Ao olhar para as várias portas perfiladas em paralelo sentiu uma leve vertigem. Cerrou os olhos apertando forte as pálpebras, abriu em seguida e continuou a caminhar. Agora olhava fixamente para as luminárias na parede em estilo vitoriano que exibiam uma fraca luz amarelada, pois tinha a impressão de que sua visão estava embaçada, por isso seguiu piscando os olhos várias vezes até, enfim, chegar à porta de seu quarto.

Esfregou a sola do sapato no tapete vermelho que recobria o corredor e entrou, fechando a porta atrás de si sem tranca-la à chave, pois em breve Afrodite chegaria ali para lhe acompanhar até o hospital.

— Pela poderosa Atena! Nunca mais como nada feito pela Shina! — suspirou para si mesma enquanto caminhava até o closet. Lá substituiu o vestido longo por uma camisa de malha folgada que ia até a metade de suas coxas, mas quando foi procurar uma calça para vestir o enjoo se agravou, forçando a amazona a abandonar o closet e correr para o banheiro.

Foi o tempo apenas de curvar-se sobre o vaso sanitário que o mal-estar que sentia se agravou culminando em novos jatos de vómito a lhe rasgarem quentes a garganta, porém a ânsia agora era mais intensa que a anterior, e as fortes contrações involuntárias abdominais logo forçaram Geisty a novamente se ajoelhar em torno do vaso e lá ficar, abraçada a ele.

Enquanto isso, os capangas bem treinados da poderosa Vory v Zakone davam andamento à operação...

Negrito – traduzido do russo

Dicionário Afroditesco

Ai meu edi - expressão que significa "ai que saco"!

Ajeum – comida.

Apodrecer – falar mal, denegrir, difamar alguém.

Atacada – louca, nervosa, raivosa.

Cafuçu – homem bronco, sem préstimos, grosseiro, xucro; sujeito feio.

Coió – surra.

Do além - pessoa, fato ou lugar estranho; sujeito chato; coisa incompreensível.

Equê - falso, do truque, falsificado. Equezeiro - praticante do Equê. Mentiroso.

Laleskas - pessoa uó, desagradável, ruim.

Mondrongo – pessoa sem modos, desqualificada, feia, barraqueira, sem jeito.

Olofom – fedor, cheiro ruim.

Otim – bebida.