Capítulo Trinta e Seis
Through a Glass Darkly
(Através de um Espelho)
Se possível, o bar tinha ficado ainda mais cheio nas poucas horas que passaram no andar de cima.
- Como vamos passar por tudo isso? – Ron perguntou.
Hermione olhou por cima do ombro de Ron, estudando o Caldeirão Furado.
- Estamos mais próximos da entrada do Beco Diagonal. – ela mostrou. – Podíamos ir para a loja até as coisas se acalmarem um pouco. – sugeriu.
- Eu acho que tem um pouco de cerveja amanteigada no apartamento. – Ginny adicionou. – Pelo menos tinha quando Percy e eu fomos buscar as coisas dos gêmeos.
- George deixa biscoitos e chá nos fundos. – Ron disse.
- E quase não tocamos no que tem na bolsa. – Hermione os lembrou.
- Brilhante. – Harry murmurou. – Vamos.
Segurando um a mão do outro, caminharam em fila por entre a multidão até a porta dos fundos. Harry acertou os tijolos com sua varinha. Passaram pela abertura na parede, cada um deles suspirando em alívio. A rua estava quase tão lotada quanto o bar, o que queria dizer que era perigoso aparatar. Uma mulher morena e magra passou os braços ao redor de Harry, o beijando diretamente na boca. Ele arregalou os olhos em surpresa. Segurando os braços dela, Harry a afastou de si.
- Ah, vamos lá, então, Harry... Por que não entramos no novo ano juntos?
Harry cuspiu repetidamente no chão, limpando a boca com as costas da mão.
- Cai fora. – resmungou, olhando para ninguém menos que Pansy Parkison. – Você! – deixou escapar. – Você tentou me entregar para Voldemort! Do que você está brincando?
Pansy cambaleou, bêbada, esticando a mão para agarrar a manga de Harry e se equilibrar.
- Águas passadas não movem moinhos, certo...? – deu outro passo na direção de Harry, mas a ponta de uma varinha na base de seu pescoço impediu seus movimentos.
- Toque-o de novo e você vai desejar não ter feito isso. – Ginny disse calmamente.
- Ginny... – Ron começou a abaixar seu braço, mas ela o repeliu.
- Cai fora, Ron. – Ginny disse em voz baixa.
Pansy riu, bêbada.
- E o que você acha que vai fazer, garotinha?
Ginny sorriu largamente e, sem dizer uma palavra, acenou com a varinha. Bolhas apareceram em todo o resto de Pansy.
- Pensei em fazer isso. – falou com satisfação. – É claro, eu também posso fazer isso. – a varinha foi acenada na direção do nariz de Pansy e espectros enormes e grudentos se prenderam ao rosto de Pansy. – Feliz ano novo. – disse com uma doçura doentia. Ginny caminhou na direção da loja.
- Você tinha que enfeitiçá-la duas vezes? – Ron perguntou, incrédulo.
Ginny se virou.
- Como você se sentiria se outros homens ficassem colocando a mão em Hermione a noite toda, e aí um deles tivesse a audácia de tentar beijá-la... Na sua frente!
- Oh, bem, sim...
- E era a Pansy! Pelas bolas de Merlin, Ron! Ela só era a maior vagabunda da escola! Se Malfoy achou que era o único transando com ela, ele estava errado. Precisa começar a ver se o amiguinho dele não caiu por causa de alguma doença nojenta que ela pode ter passado pra ele.
- Isso foi brilhante! – Harry disse alegremente, passando um braço ao redor da cintura de Ginny. Inclinou-se para beijá-la, mas ela colocou uma mão entre seus rostos.
- Não até você escovar os dentes...
- Certo.
- Vamos entrar. Está frio aqui fora. – Ron reclamou. Abriu a porta da loja e a manteve aberta. Os outros três entraram, tirando neve de suas capas e cabelos.
- Quando você acha que vai tentar mudar pra cá? – Hermione perguntou.
- Você vai se mudar? – Harry perguntou, se sentindo mais do que um pouco magoado.
Ron suspirou pesadamente.
- Sabe, Hermione, eu ainda não tinha falado para mais ninguém... – foi até os fundos e fuçou em um armário. – Subam. Eu só vou pegar o chá e os biscoitos. – murmurou.
- Por que você não me contou? – Harry lutou para manter o tom queixoso fora de sua voz.
Ron se virou do armário com um bule empoeirado, uma lata de chá e um pote de biscoito.
- Pegue as xícaras aí dentro, pode ser? – Harry foi até o armário e pegou as xícaras. – Pensei nisso antes do natal. – respondeu a Harry. – Achei que seria bem mais fácil apenas morar aqui. Eu ainda não pedi ao George se posso morar aqui em cima. Nem falei com meus pais sobre isso.
- Você acha que eles iam ficar nervosos?
Ron colocou as coisas do chá sobre a mesa e correu uma mão pelo cabelo.
- Não acho que vão. Bem, mamãe talvez fique no começo, mas papai vai acalmá-la. Só não acho que George vai ficar muito satisfeito em me deixar morar lá.
- Tem que ser aqui?
- Bem, não. – Ron admitiu. – Mas é apenas conveniente, não é? Eu achei que ia me estrunchar na véspera de natal, eu estava tão cansado. Mas é desperdiçar um bom apartamento ao deixá-lo vazio. Quero dizer, sinto tanto a falta de Fred quanto todo mundo, mas não vejo motivo para manter o apartamento vazio como está.
- E se George falar não?
Ron deu de ombros e pegou o bule, antes de começar a subir as escadas.
- Então, vou ter que procurar outra coisa.
Harry o seguiu, as xícaras penduradas em seus dedos.
- Ei, Ron?
- Sim?
- Minha próxima missão pode ser perigosa.
Ron sorriu de modo afetado.
- Não são todas perigosas?
Harry se sentou em um degrau no meio da escada.
- Essa é diferente. É em uma área trouxa em Belfast e houve alguns protestos muito violentos por lá.
- Certo...
- Então, não vamos poder usar muita magia para nos proteger, a não ser que precisemos.
- Obviamente.
- Eu não disse nada, porque não queria que seus pais se preocupassem, mas eles estão listados no meu arquivo... No caso de eu me machucar ou...
Ron soltou o ar lentamente e se sentou ao lado de Harry no degrau.
- Oh...
- Vocês todos estão listados como pessoas autorizadas a me visitar no St. Mungus. – Harry adicionou com animação forçada.
- Isso é reconfortante. – Ron zombou.
- Vou fazer o melhor para não acabar lá.
Ron se levantou, suas costas deslizando pela parede.
- Só acredito vendo. Quantas vezes você acabou na ala hospitalar, na escola?
- Erm... – Harry bagunçou o cabelo. – Vezes o bastante para encher quatro páginas do meu histórico médico no arquivo do Ministério.
- Maldição.
Harry se ergueu.
- É. Eu estava com um calo no dedo quando terminei de preencher.
Ron continuou a subir as escadas.
- Sabe, há espaço o bastante para dois aqui. Você pode vir comigo.
- Vou pensar nisso.
Ginny ergueu os olhos do sofá maltratado, onde estava acomodada com os pés sobre a mesa de centro.
- Pensar no quê?
- Ficar aqui com Ron.
Ginny olhou para Harry como se, de repente, ele tivesse mais uma cabeça.
- Eu costumava achar que você era um pouco são...
- Você morou com ele quase sua vida toda. – Harry lhe disse.
- Sim, mas foi involuntário.
Ron jogou uma almofada neles.
- Eu estou bem aqui!
Ginny desviou da almofada e a jogou de volta para Ron.
- Você sabe que eu te amo, idiota.
- Consigo sentir o amor no ar. – Hermione disse secamente do canto onde estava mexendo um rádio velho, distraidamente procurando por uma estação até encontrar algo que julgou bom. Colocou a capa nas costas de uma cadeira e começou a tirar as coisas de sua bolsa. Acenou com a varinha no ar e uma escova de dentes flutuou na direção de Harry. – Acredito que você precise fazer algo.
Harry pegou a escova de dentes e olhou com expectativas para ela.
- Pasta de dente?
- Eu preciso fazer tudo? – Hermione perguntou de modo afetado.
- Sim. – Ron e Harry responderam ao mesmo tempo.
Hermione crispou os lábios em desaprovação, mas acenou com a varinha na direção de Harry, fazendo um pequeno tubo de pasta de dente aparecer.
- Feliz?
- Eu sei que eu estou. – Ginny murmurou.
- Feliz em ajudar. – Harry murmurou. Foi até o pequeno banheiro e escovou os dentes, se certificando de limpar todos os cantos. Quando finalmente saiu do banheiro, Ginny estava sentada no peitoril da janela, observando a cena da rua abaixo. – Onde Ron e Hermione estão?
- Foram para o telhado assim que você foi escovar os dentes. Levaram o rádio com eles, também.
Harry colocou a escova de dente na mesa e andou até a janela.
- Quer dar outra chance a essa coisa de dançar? Pode ser melhor sem todas aquelas mulheres me molestando.
- Eu adoraria...
Um ritmo tocou no fundo da memória de Harry, um que se lembrava de ouvir vindo do rádio enquanto estava no armário sob as escadas, quando criança. Começou a cantarolar suavemente, seus braços ao redor da cintura de Ginny.
- Você realmente está pensando em sair d'A Toca? – Ginny perguntou.
Harry assentiu.
- Não que eu não aprecie tudo o que seus pais fizeram, mas está na hora de achar meu próprio lugar.
Ginny ergueu a cabeça para examinar o rosto de Harry.
- Mesmo?
Harry respirou fundo, surpreso ao perceber que essa ideia de ir morar sozinho não o enchia mais de medo. E ele sabia que sempre seria bem vindo n'A Toca.
- Mesmo.
- Você está pensando sobre...? – Ginny mordeu o lábio, as bochechas corando. – Deixa para lá.
- Grimmauld Place? – Harry adivinhou. Ginny assentiu, os olhos fixos na gravata frouxa de Harry. – Eu realmente não sei. – confessou. – Não posso morar lá. Bem, suponho que posso, mas eu realmente não quero. A casa é... – Harry hesitou. – Cruel. – terminou. – É venenosa. Você pode limpar até estar brilhando, mas ainda estaria lá. Não é surpresa que Sirius quase pirou. Eu realmente não queria a casa, de todo modo. Não posso vender. Quanto mais eu penso no que fazer com ela, eu acabo em mais becos sem saída. – suspirou e entrelaçou os dedos de Ginny. – Não preciso fazer nada com ela agora, suponho.
- Que horas você vai na segunda-feira?
- Cedo. Antes das seis.
- Oh... – os braços de Ginny se apertaram ao redor da cintura dele e ela descansou a cabeça em seu ombro. – Essa missão é perigosa?
- Não deveria ser. – Harry a assegurou, sentindo uma pontada de culpa. – É apenas vigilância.
- Quando você vai voltar?
- Não sei. Quero dizer, vou voltar para os julgamentos dos Malfoy, mas depois disso, preciso voltar para... – hesitou.
- Você não pode me contar, pode?
Harry balançou a cabeça.
- Não.
- Pode me contar o que vai fazer?
- Um pouco... Nem todos os Comensais da Morte foram capturados depois da batalha. E nós achamos que eles podem estar por trás de alguns incidentes. E se não estiverem envolvidos diretamente, estão agitando as coisas. – gentilmente tocou a lateral do rosto de Ginny. – Eu vou me despedir de você antes de ir, certo?
- Certo...
-x-
- Ron?
- Hmmm?
- Se Harry morar aqui, onde eu vou dormir?
- Você quer morar aqui? – Ron perguntou em surpresa, quase derrubando a varinha, enquanto completava o feitiço para manter o telhado aquecido. – M-m-m-mas é pequeno e meio escuro...
- Bem, eu não ia querer criar uma família aqui. – Hermione disse em tom óbvio.
- Família? – Ron disse fracamente. Verdade, tinha pensado nisso, mas como um conceito abstrato, uma possibilidade, muitos e muitos anos no futuro.
Na fraca luz, Hermione conseguia ver as sardas dele ressaltadas contra sua pele. Lutou para não rir. Sentou-se em uma cadeira maltratada e colocou uma uva na boca.
- Mmm-hmmm. Pensei que podíamos bater seus pais e ter oito filhos. – a única resposta de Ron foi um guincho estrangulado. – Talvez sejam todas garotas, já que a famosa maldição Weasley de apenas-meninos parece ter sido quebrada com Ginny.
- Meninas... – Ron repetiu de forma vazia, respirando com dificuldade.
Hermione jogou uma uva nele, acertando-o bem na testa.
- Oh, honestamente, Ronald! – riu. – Eu nem terminei a escola ainda e a última coisa que eu quero são oito filhos. – se inclinou e beijou a ponta do nariz dele. – Mas, um dia, pode ser bom ter alguns.
- Quantas crias você quer? – Ron não conseguiu manter o medo fora de sua voz.
- Mais que um, menos que oito.
- Isso restringe um pouco. – Ron murmurou, pegando um sanduíche.
- Eu odiava ser filha única. – Hermione disse. – Não me dava bem com as outras crianças até ir para Hogwarts e as únicas pessoas com quem eu brincava eram meus pais...
- Bem, não precisamos decidir esse tipo de coisa agora, precisamos?
- Não, não precisamos.
-x-
Molly colocou uma xícara de chá na frente de George, que estava sentado na mesa da cozinha, olhando para o nada.
- Um nuque por seus pensamentos, querido?
George piscou, olhando para a xícara a sua frente com confusão.
- Fiz algo estúpido noite passada... – começou.
Molly se sentou na cadeira ao lado da dele e, delicadamente, cheirou o ar ao redor dele.
- Não parece ter bebido muito.
- Oh, quem me dera...
Molly pegou a mão de George e arregaçou a manga de sua camisa.
-Você não foi fazer aquelas tatuagens trouxas, foi?
- Não, mas isso seria menos retardado do que eu fiz. – a cabeça de George caiu na mesa e ele começou a batê-la repetidamente na madeira. – Sabe Katie?
- Sim. Ela é uma garota adorável.
- Certo. Bem, na festa ontem à noite, eu falei para ela que a amo...
- Bem, isso não é tão ruim. – Molly disse de maneira tranquilizadora.
- Oh, fica pior. – George murmurou. – Sabe quando várias pessoas estão reunidas e estão todas conversando e, do nada, fica silencioso?
- Sim...
- Foi quando aconteceu.
- Minha nossa. Suponho que foi um pouco vergonhoso.
- Foi. – George olhou para sua xícara de chá como se nunca tivesse visto uma antes. – Eu contei tudo a ela... Como eu costumava visitá-la todos os dias quando ela estava doente... – começou a rir com uma pitada de histeria. – Eu não sei o que fazer agora... Quero dizer, quando estou com ela, eu fico feliz e eu não fico feliz de verdade em outro lugar...
- Ela se sente da mesma maneira que você?
George suspirou e deixou sua cabeça cair de volta na mesa.
- Acho que sim. Não sei. – disse miseravelmente. – E quase tenho medo de descobrir...
-x-
Katie engatinhou no chão da pequena sala de estar de seu apartamento, procurando sob o sofá e a estante, nos cantos. Não conseguia se lembrar do que George tinha feito com seu livro. Tinha passado a maior parte da manhã procurando, sem sucesso.
- Talvez ele tenha levado com ele... – murmurou, fazendo uma careta para a quantidade de pó sob o sofá. Sentou-se sobre os calcanhares e pegou uma enorme xícara, agora cheia até a metade com chá gelado. A alta batida em sua porta a fez derrubar chá na frente de sua camiseta. Katie se ergueu e foi até a porta apressadamente, abrindo-a. – Geo... – sentiu o sorriso em seu rosto sumir. – Oh, é você. – Katie deu um passo para o lado, puxando as pontas do seu roupão sobre a mancha de chá em sua camiseta.
- Bom dia para você também. – Martin disse secamente, entrando no apartamento.
O maxilar de Katie se apertou e ela se impediu de bater a porta.
- Não se esqueceu de alguma coisa? – perguntou friamente, levando sua xícara até a cozinha e jogando chá na pia.
- Oh, desculpe. – Martin lhe deu um beijo forte e barulhento. – Pronto. Melhorou?
Katie bateu com a varinha no bule e vapor se ergueu dele.
- Não. Não está melhor. – brigou, colocando a água quente nas folhas de chá.
- Qual é seu problema? – Martin perguntou, olhando para Katie. – Foi encher a cara noite passada?
- Não, não fui encher a cara noite passada. Eu fui à festa de Lee Jordan. Lembra? Você devia estar lá. – falou.
- Fui a outro lugar. – Martin disse com um encolher de ombros.
- E não podia se dar ao trabalho de me avisar? – Katie perguntou, incrédula.
- Oh, pelo amor de Merlin, Katie, não é como se estivéssemos em um relacionamento sério. – Martin zombou.
Katie parou de colocar chá em sua xícara e gentilmente colocou o bule no balcão.
- Sabe, Martin, você está certo. Dificilmente somos amigos. Mas, ainda assim, mesmo conhecidos tratam um ao outro com a decência que se mostraria a um cão. Você devia ter me avisado que não ia. Você me fez parecer uma idiota.
- Oh, certo. Eu estava ansioso para passar a noite em companhia do Weasley. – Martin disse sarcasticamente. – Um completo idiota, aquele lá...
De repente, Katie começou a rir. Há muito tempo previa esse momento acontecendo; ela apenas não queria admitir. Martin podia não ser o homem mais animado, mas ele era uma companhia decente e Katie odiava ficar sozinha. Mas não podia mais negar.
- Certo. Eu cansei.
Martin franziu o cenho.
- O quê?
- Foi bom enquanto durou, mas sério, Martin, não temos nada em comum. Será melhor se não nos vermos mais dessa maneira... – Katie gesticulou na direção da porta. Martin piscou. Uma vez. Ele se virou e saiu do apartamento, batendo a porta com tanta força que ela rangeu. Katie pegou sua xícara com um suspiro de alívio, sentindo como se tivesse desviado de um feitiço particularmente cruel. Podia ter sido muito pior do que tinha sido.
-x-
Harry estava deitado olhando fixamente para as sombras indistintas no teto. Pegou seu relógio e o colocou perto do rosto, apertando os olhos para colocar os números em algo parecido com foco. Ainda não era nem cinco da manhã, mas já fazia algum tempo que estava acordado. Suspirando, afastou o cobertor e começou a se vestir no escuro, habilidosamente evitando o berço de Teddy. Dormira no quarto de Bill para não incomodar Ron. Subiu as escadas cuidadosamente, sentindo o frio passar por suas meias, até o banheiro e escovou os dentes.
Voltou para o primeiro andar e pegou suas botas, intencionando em colocá-las quando chegasse à cozinha. Harry hesitou em frente à porta do quarto de Ginny. Tinha prometido que ia se despedir dela antes ir, mas estava tão cedo. Ainda assim, cuidadosamente girou a maçaneta. Ginny estava acordada, sentada em sua cama, olhando para a capa maltratada de um livro.
- O que está fazendo acordada? – sussurrou.
A cabeça de Ginny se abaixou um pouco.
- Não consegui dormir. – colocou o livro de lado e entrelaçou os dedos.
Harry se sentou na ponta da cama dela e calçou as botas, amarrando os cadarços.
- Você sequer dormiu?
Ela balançou a cabeça.
- Não realmente. Você?
A boca de Harry se curvou em um sorriso irônico.
- Não muito. – emoldurou a parte de trás da cabeça de Ginny com uma mão e a beijou. – Eu vou voltar antes que você perceba. Se algo der errado, seus pais vão ficar sabendo, mas não deve acontecer nada. – falou rapidamente. – Eu te mando uma coruja assim que puder, quando voltar. – começou a sair da cama, mas Ginny se inclinou para frente e passou os braços ao redor dos ombros dele, escondendo o rosto o rosto em seu pescoço.
- Não faça nada estúpido. – disse suavemente. – Porque se algo der horrivelmente errado e você morrer, eu vou te matar, certo?
- Vou fazer meu melhor.
Ginny riu tremulamente, se afastando um pouco.
- Vou te lembrar disso. – o beijou com tal esmero que o deixou zonzo. – Tome cuidado...
Harry assentiu e saiu da cama, apertando a mão de Ginny. Saiu do quarto sem olhar para trás e foi até a lavanderia para pegar a mochila que tinha deixado lá na noite anterior e saiu da casa, aparatando antes de o portão do jardim fechar atrás de si.
-x-
George fechou a porta e acenou a varinha para o sinal na vitrine para que mostrasse "fechado". Tinha mandado Ron para casa assim que a loja fora limpa e puxou as anotações que fizera de suas tentativas fracassadas de criar novos produtos nas últimas semanas, tentando descobrir onde tinha errado.
- Eu devia ter prestado mais atenção em Poções. – resmungou para a loja silenciosa e deserta. A porta se abriu e Summerby parou na entrada, sua expressão normalmente agradável estava contorcida em linhas rebeldes. George o olhou por um momento, então disse distraidamente: - Estamos fechados.
- Você ganhou. – Summerby disse curtamente.
- Ganhei o quê? – George perguntou confuso.
- E as pessoas dizem que eu sou estúpido. – com isso, Summerby se virou e partiu, deixando a porta balançando com o vento gelado.
George o observou pensativamente, antes de acenar a varinha para a porta, fechando-a mais uma vez.
-x-
Harry se sentou à mesa de um apartamento em Belfast, estudando cópias dos documentos de outros Aurores e das autoridades trouxas. Estivera correndo a mão pelo cabelo distraidamente, deixando-o desarrumado, a franja erguida. Emma Greene, a única Auror mulher dessa missão, olhou para Harry por um momento.
- Você já pensou em usar Transfiguração para esconder...? – ela perguntou, gesticulando na direção da própria testa.
Surpreso, Harry usou a palma de sua mão para achatar a franja sobre a testa.
- Não especialmente. – murmurou.
- Ignore-a, garoto. – Peter aconselhou. – Emma e o conceito de espaço pessoal dificilmente se conhecem. – Harry deu de ombros e voltou para o relatório.
- Devia pensar. – Avery disse. – Te faz se destacar.
Harry suspirou e deixou o relatório de lado.
- Por que deveria? – perguntou inexpressivamente, sentindo seu pulso disparar na base de sua garganta.
- Para não prejudicar o caso.
Harry começou a apertar os dentes.
- Você não pode mudar completamente sua aparência com Transfiguração.
- Sim, você pode.
- Não pode. – Harry corrigiu friamente. – Mesmo os Animagos não conseguem. A forma animaga da Professora McGonagall sempre tem marcas ao redor dos olhos que parecem com os óculos dela. A forma animaga do meu padrinho tinha os olhos da mesma cor dos dele. – Harry bufou com uma risada amarga. – Até a maldita forma da Rita Skeeter tem a forma daqueles malditos óculos que ela usa.
- Isso são apenas os animagos. – Avery retorquiu.
- Não, não é. – Harry respondeu. Peter e Emma observavam em silêncio, suas cabeças indo de um lado para o outro como espectadores de um jogo de tênis. – Minha amiga Hermione é quase tão boa quanto McGonagall em Transfiguração. Mas nem mesmo ela consegue mudar certas coisas em sua aparência. Ela consegue deixar o cabelo mais longo, mais curto, mudar de cor. Mas é sempre encaracolado. Eu não consigo mudar a cor dos meus olhos. Não importa o que eu fizesse ano passado, o quão velho ela tentasse me fazer parecer, eles sempre ficavam assim. – Harry rosnou, apontando para seus olhos. – Meu amigo da escola, Seamus, sempre teve sardas sobre o nariz e até mesmo McGonagall disse que elas sempre estariam ali, não importa o que ele fizesse.
Os lábios de Avery se pressionaram em uma linha fina por Harry ter provado que ele estava errado. Pegou um arquivo na mesa e o abriu.
- Sua amiga Hermione parece que seria uma boa Auror. – Emma disse levemente.
- Não, ela não seria. – Harry disse. – Ela é ótima com feitiços, mas não é boa em tomar decisões rápidas.
- Isso é um pouco duro. – Emma contrapôs.
- Não, é a verdade. – Harry disse com simplicidade. – E se você perguntar a Hermione, ela provavelmente diria a mesma coisa. Hermione é brilhante, mas isso não quer dizer que ela vai tomar a melhor decisão de momento.
- Achei que vocês fossem amigos. – Avery murmurou.
- Somos. – Harry voltou a analisar o relatório em suas mãos. – E ela vai ser a primeira a lhe dizer que eu sou impetuoso e muito emocional e que tenho a tendência de me fixar em certas pessoas e ideias. Que sou muito teimoso. – Harry fez algumas anotações em seu caderno e colocou o arquivo na mesa. – Não vou fazer nada para prejudicar a missão. – disse em voz baixa.
- Está na hora do jantar, de todo modo. – Peter anunciou. – A última vez que vão ter uma refeição regular por um tempo.
Sem que lhe pedissem, Harry acenou a varinha para o armário e batatas começaram a se lavar sozinha, e um descascador saiu de uma gaveta para trabalhar nas cenouras. Sorriu de modo afetado para Avery.
- Eu sei cozinhar, sabe. Não sou apenas um rostinho bonito. – disse sarcasticamente.
Emma tirou uma pilha de pratos do armário.
- Desculpe... – ela disse suavemente. – Não quis começar alguma coisa...
- Não se preocupe com isso. – Harry respondeu. – Apenas outro dia no trabalho.
-x-
Harry estava encostado na parede, ouvindo ao orador da reunião. As políticas e as acusações faziam seu estômago revirar. Isso o fazia se lembrar desconfortavelmente do que vivera por quase metade de sua vida. Ajeitou o boné azul escuro sobre sua testa, se certificando de que seu cabelo e cicatriz estivessem bem escondidos sob ele. Estudou a multidão, procurando por um dos Comensais da Morte que não tinham sido capturados. Avery... Urquhart... Flint... Mulciber... Disse a si mesmo. Eram os únicos que ainda estavam faltando. Os outros tinham sido capturados ou estavam em prisão domiciliar, como Draco e Lucius Malfoy, ou em Azkaban, como Miles Nott.
Deixou as palavras passarem despercebidas. Elas não eram importantes. Não agora. Precisava descobrir se eles estavam envolvidos. Harry começou a caminhar ao redor da multidão, os olhos correndo pelos homens e mulheres. Enquanto não achava que Avery, Urquhart, Flint ou Mulciber estivessem usando Polissuco, não podia descartar a possibilidade. Assim como não podia descartar a possibilidade de que eles tivessem transfigurado alguma parte de suas aparências — o cabelo, o nariz. Harry passara horas estudando as fotografias, tentando decidir quais características não iam mudar. McGonagall sempre disse que seria algo no rosto deles, se lembrou, os olhos se cerrando. Aquela pessoa tem os olhos de Mulciber? As orelhas, talvez? A multidão se moveu e Harry abafou um ofego de horror. Esticou a mão e agarrou o garoto a sua frente, arrastando-o até um beco, apesar dos seus protestos.
- O que pensa que está fazendo? – ele gritou.
Furiosamente, Harry aumentou seu aperto ao redor dos braços de Seamus, incapaz de falar. Aparatou os dois para o beco atrás do prédio onde estava ficando em Belfast, jogando Seamus pela porta para dentro do apartamento, jogando-o contra a parede.
- O que eu estou pensando? O que você está pensando? – rosnou, jogando Seamus na cadeira. – Meu Deus, Seamus, você já não teve o bastante dessa merda ano passado?
