Capítulo 34 – Final Dream
Em uma cama de hospital, monitorada maquinas e por uma namorada que não saia nenhum minuto do seu lado, Belle, enfim, despertava de seu pequeno coma que durou apenas dois dias. O lado esquerdo de seu abdômen estava dolorido e, institivamente, Belle levou sua mão até o lado que doía, para descobrir então um curativo.
Sua cabeça latejava um pouco e ela decidiu não se mover por alguns segundos, enquanto tentava relembrar dos acontecimentos dos últimos dias, mas tudo em sua mente era um branco. Ela olhou para o lado e, em um sofá de visitantes, Ruby se encontrava adormecida. Belle sorriu, embora soubesse que o sorriso havia sido apenas para si mesma, já que Ruby não podia vê-lo.
"Ruby?" Belle chamou, sentindo sua voz cansada e com um gosto amargo nos lábios. "Ruby?" Insistiu, antes de desistir, mas a morena havia escutado e agora se sentava no sofá e em um sobressalto correu em direção à Belle, tocando em seu rosto com seus dedos e sorrindo para sua namorada.
"Como eu senti sua falta." Ruby disse, beijando-a inúmeras vezes, sem se incomodar com o gosto amargo que havia em seus lábios.
"O que aconteceu? " Perguntou Belle, assim que Ruby se afastou.
"Uma longa história. Longa e bem absurda." Respondeu a morena, cujo olhos brilhavam de felicidade por ter sua garota de volta.
"Eu espero que você me conte com detalhes." Disse Belle. "Você sabe o quanto eu gosto de histórias." Ela completou, fazendo Ruby sorrir e se inclinar novamente para beijá-la.
"Assim que estivermos em nossa casa, eu te conto exatamente tudo. Eu prometo. Agora, se preocupe em descansar." Ela respondeu, acariciando os cabelos de sua garota.
No mesmo instante, alguém bateu na porta e as duas garotas se viraram para a figura que estava parada, esperando que sua presença fosse notava. Era o pai de Belle, com um buque de flores nas mãos e um sorriso de alivio e insegurança nos lábios. As flores eram as preferidas da mãe de Belle e o seus perfumes preencheram o quarto, fazendo a garota sorrir.
Ruby então lhe contou brevemente que seu pai a havia visitado todos os dias e que só voltava para casa quando o cansaço o consumia. Belle então entendeu que essa era uma tentativa de reconciliação e abriu os braços para que o homem se aproximasse e a tomasse em um abraço apertado. Apesar da dor e incomodo que Belle sentia, aquele abraço fez tudo ir embora e ela agradeceu por ele estar ali e por finalmente tudo voltar ao normal.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
Regina estava no quarto do bebê que ela nunca seguraria em seus braços. Esse pensamento, tão pertinente nos últimos dias, lhe trouxe uma angustia e uma tristeza que ela pensou que jamais sentiria. Lagrimas escorreram pelo seu rosto, enquanto ela se aproximava do berço e começava então a desmontar cada um dos itens que um dia ela havia montado ali com tanto carinho.
Era ainda muito recente e ela sabia que só poderia fazer isso se estivesse sozinha, de modo que acordou mais cedo que todos da casa e foi até o quarto da filha que ela e Emma haviam perdido. Enquanto ela colocava as roupas, brinquedos, lençóis de cama do bebê em uma caixa, ela se pegou novamente pensando no que haveria de fato acontecido com Selene ou com Rumple e, principalmente, com o bebê.
Nas fitas de segurança do hospital não havia nenhum indicio do paradeiro deles e tudo era muito confuso. Tudo o que elas sabiam é que eles haviam desaparecido no ar, como se nunca tivessem existido e quanto mais eles procuravam uma resposta, mais frustrados eles ficavam. Nada nem ninguém poderia responder a ela a verdade e essa era a parte mais dolorosa.
"Regina?" Soou a voz de Emma, que vinha da porta do quarto, fazendo Regina se virar para encará-la.
"Você acordou cedo." Respondeu Regina, enxugando seus olhos e forçando seu melhor sorriso, mas Emma sabia melhor que ninguém, que aquele sorriso era falso. De modo que se aproximou de Regina, pegou a pequena roupinha que a prefeita tinha em suas mãos e a colocou sobre as grades do berço.
"Eu sei que você está frustrada agora." Emma começou a dizer, segurando a mão da prefeita e com a outra livre, tocou no rosto da sua morena e desceu seus dedos até seus lábios. "Eu sei o quanto você desejou essa criança, o quanto você sonhou com ela. Eu sei disso porque eu a desejei com você. Eu sei disso porque você compartilhou esse sonho comigo. E principalmente, eu sei disso porque eu escuto você chorar todas essas noites, pelo fato de que você não mais a terá em seus braços." Emma deu uma pausa, não porque lhe faltou palavras, mas sim, porque agora Regina chorava copiosamente, de modo que a loira a trouxe para junto de si e abraçou o mais forte que pôde.
"Uma parte de mim quer acreditar que ela está bem, com Selene no céu, em algum lugar, mas uma parte de mim, a maior parte de mim, só consegue pensar no quanto eu estou infeliz." Regina disse, com sua voz embargada pelo choro. Emma secou seus olhos, a beijou gentilmente e esperou que ela se acalmasse.
"Eu sei que é muito cedo, Regina." Emma começou a dizer. "Mas eu quero que você pense nas minhas palavras agora e me responda quando você tiver realmente pensado a respeito."
"O que foi agora, Emma?" Perguntou Regina, sua voz carregada de um cansaço que ela enfim estava deixando tomar conta dela.
"Eu não sei." Ela começou a dizer. "Mas eu estive pensando, que talvez você e eu pudéssemos tentar ter um filho juntas." Ela completou e Regina franziu o cenho e balançou a cabeça em negativa e finalmente Emma pôde ver um sorriso sincero em seus lábios.
"Você sabe que isso é impossível, não é mesmo?" Perguntou Regina, fazendo Emma revirar os olhos e soltar uma risada.
"Meu deus, não dessa forma." Respondeu Emma. "Nós podemos adotar ou quem sabe tentar outros métodos. Eu não sei, quer dizer, temos esse quarto já pronto, talvez exista alguma Dorothy por trás dessas fronteiras, esperando para ser levada para casa." Concluiu Emma e o sorriso nos lábios de Regina foi a resposta que a loira esperava e com um abraço e um beijo apaixonado, elas selaram então um acordo que as levariam então a conhecer a peça que faltava para enfim preencher a família que elas duas haviam começado.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
Belle e Ruby compraram um pequeno apartamento não longe de Granny's. O pai de Belle ajudou a fazer a mudança que acabou tarde da noite, com todos já exaustos celebrando essa nova fase na vida das garotas no restaurante da vovó. Era como ver um retrato de uma família feliz. Vovó, Renée e Moe se davam muito bem e Belle, que nunca pensou que teria uma família grande, transbordava de alegria por finalmente realizar um sonho que ela nem sequer pensava que tinha.
Na primeira noite no novo apartamento, as garotas se jogaram juntas no sofá novinho em folha que haviam ganhado de Emma e Regina, como um presente de casa nova. Enroladas em um lençol, abraçadas uma a outra, elas conversavam sobre os acontecimentos dos últimos meses, que agora pareciam bem distantes, como se nunca tivessem acontecido.
"Durante todos os anos que eu convivi com o lobo em mim." Ruby começou a dizer e Belle inclinou seu rosto para trás, de modo a ver a garota. "Eu nunca tinha encontrado alguém que tivesse tamanha influencia em meu lobo, como você teve quando..."
"Quando eu estava possuída." Respondeu Belle. "Não era eu." Ela continuou.
"Eu sei, mas ainda assim, mesmo agora com você de volta ao seu corpo e o demônio longe, ainda assim eu sinto que você controla todo o meu ser." Continuou ela. "Sabe, todos os lobos obedecem a um alfa e eu sempre pensei que eu tinha controle de todo meu corpo, de todos os meus pensamentos e vontades, mas eu estava muito errada." Concluiu e a beijou nos lábios.
"E você gosta disso?" Perguntou Belle, em um tom de voz provocador.
"É uma das coisas que eu mais amo em você." Respondeu Ruby, com um sorriso, beijando novamente Belle e se aninhando mais junto ao seu corpo.
E os meses seguintes passaram rápido e tudo em volta delas mudou. O amor, essa força estranhe e incontrolável, que as duas sentiam uma pela outra se tornou tão grande que não houve outra alternativa além de grita-lo para o mundo inteiro. Dessa forma, um casamento foi marcado e muito esperado por todos.
Paralela a história das duas, Emma e Regina caminhavam juntas em busca da própria felicidade. Seus caminhos a levaram até um orfanato, onde uma garotinha, que havia perdido os pais, esperava por uma família. Elas nunca precisaram ver ou segurar a criança para terem a certeza de que a menina já pertencia a elas. Então, em uma bela tarde, Emma, Regina e Henry atravessaram a fronteira de Storybrooke, com um lugar vazio no banco de trás. Quando elas voltaram não havia então mais espaço naquele carro, assim como não havia espaço para infelicidade.
Dorothy, como fora nomeada a garotinha, era uma bela menininha de cabelos negros e olhos castanhos. O quarto do bebê que Regina havia montado quando Selene ainda estava entre elas, parecia que de alguma forma sempre havia pertencido a essa Dorothy e não a outra e com o passar dos anos, elas foram esquecendo que um dia houvera outra Dorothy.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
Dois anos depois,
Belle, parada diante de um espelho de corpo inteiro, tinha seus olhos fixos em seu reflexo. Ela já havia chorado de emoção o dia inteiro e agora tentava segurar suas lagrimas, pois, em poucas horas, ela estaria caminhando em direção ao altar, onde finalmente ela e Ruby se tornariam uma só.
"Esse vestido ficou perfeito em você." Disse uma voz que Belle não reconhecia, ela se virou, observou a mulher de cabelos negros encaracolados até a cintura de aparência jovem e sorriso simpático nos lábios. "Eu sou Ester." Continuou a mulher. "Eu vim aqui para te ajudar com o vestido." Ela completou e Belle sorriu satisfeita e se virou, de modo que a mulher pudesse ajudá-la com os botões que ainda faltavam.
"Muito obrigada." Belle respondeu, enquanto a mulher abotoava o ultimo botão e então se afastava. Belle se virou para ela e sorriu para a mulher.
"Você deve estar radiante, não é mesmo?" Continuou a mulher e Belle respondeu com um aceno. "Eu ouvi detalhadamente a história de vocês duas, parece um conto de fadas."
"De fato." Respondeu Belle. "Com vilões e tudo mais." Continuou ela.
"Mas vocês estão bem agora, não é mesmo?" Perguntou a mulher e havia algo no sorriso dela que reconfortava Belle.
"Estamos sim. Estamos muito felizes."
"Sabe, existe uma lenda nova correndo na cidade." Começou a mulher. "De um salgueiro no meio da floresta, que não existia até pouco tempo atrás." Continuou a mulher e Belle franziu o cenho, enquanto ouvia a historia. "Dizem que ele cresceu graças aos restos de uma estrela."
"De uma estrela?" Perguntou Belle, curiosa sobre a história. "Então é uma arvore especial?"
"Ah, é sim. É uma arvore muito especial." Respondeu Ester. "As pessoas estão dizendo que quando você passa por debaixo das folhas da arvore, você vê todo o seu futuro."
"Parece um pouco perigoso saber o futuro, não é mesmo?"
"Talvez." Disse a outra garota. "Mas apenas para aqueles que não sabem quem são." Completou e antes que Belle tivesse a chance de dizer ou perguntar algo, a porta se abriu e Emma, com Dorothy nos braços, entrou no cômodo.
"Desculpa o atraso, Belle." Emma disse, colocando a pequena no chão que tratou rapidamente de correr pelo cômodo, enquanto Belle observava Ester desaparecer pela porta.
"Tudo bem, Emma. Eu sei o quanto você é atrapalhada com a menina." Belle respondeu, fazendo Emma revirar os olhos.
"Pois é, Regina que é melhor nisso do que eu, mas eu estou me esforçando." Emma disse rapidamente, fazendo Belle rir e agradecer mentalmente por Emma ter aparecido, caso contrário ela jamais teria relaxado. "Você está linda." Emma observou e entregou a ela uma caixinha de veludo. "Era isso que você queria, não é mesmo?"
Belle assentiu, enquanto abria a caixa para se deparar com o colar que ela tão bem conhecia. Emma a ajudou colocá-lo e assim que ela se viu novamente com o seu belo vestido branco e o seu colar de pingente em meia lua, ela sorriu e se permitiu chorar novamente, mesmo correndo o risco de borrar toda a maquiagem.
Horas depois, Belle caminharia em direção a Ruby, em uma cerimônia que fora realizada em uma capela completamente decorada para celebrar o amor das duas. Belle andou por um caminho de pétalas, que Henry, com a ajuda da pequena Dorothy, havia espalhado pelo chão. Assim que Belle cruzou o caminho e se viu diante de Ruby, que usava um vestido tão branco e belo como o dela, ela sorriu e novamente se desmanchou em lagrimas.
O pingente que ela usava, se enegreceu por alguns segundos até se tornar o mais belo dos rubis. Belle e Ruby disseram 'sim' uma para a outra e seus dedos, trêmulos de emoção, tentaram ganhar firmeza, na medida em que uma colocava a aliança no dedo da outra. Aquela cerimonia terminou com beijos, uma salva de palmas e grãos de arroz que foram jogados nas noivas, enquanto elas corriam felizes, de mãos dadas e carregadas de uma certeza de que nada no mundo seria capaz de separa-las.
"Você sabe quem você é?" Perguntou Belle a Ruby, durante a dança. A música tocava ao fundo, seus corpos estavam colados um ao outro.
"Hoje eu sei." Respondeu Ruby. "Hoje eu sei quem eu sou." Continuou ela, com um sorriso nos lábios, sem que houvesse a necessidade de completar a frase. Pois Belle também sabia agora quem ela era de fato.
Apesar de Belle ter cogitado a ideia de ir até o salgueiro com Ruby, ela nunca chegou a concretizar tal ideia, mas se tivesse ido até lá, se tivesse ido ver seu futuro, teria apenas confirmado uma certeza. Só havia felicidade dali para frente e nada mais além disso. Bem longe dali, no céu, uma estrela e uma deusa observavam silenciosamente aquele casamento. Selene, que ainda tentava se adaptar a sua nova realidade, se virou para Chandra, que tinha um belo sorriso nos lábios.
"Então é esse o perigo que existe quando deuses sonham?" Perguntou Selene, com sua atenção voltada para a estrela e não mais para a festa que acontecia em Storybrooke.
"É esse o perigo." Respondeu a estrela, virando-se para longe da janela de onde as duas podiam ver o mundo lá embaixo. Selene a seguiu, acariciando a barriga que não tinha mais nenhum volume, mas que lhe trazia uma memória de um tempo que ela pensou que jamais fosse superar. "Os humanos poucos sabem, mas foi assim que mundo um dia fora criado. Através de um sonho de um deus. Você deveria saber disso melhor que ninguém."
"Nós deuses temos a permissão de não acreditar em outros deuses." Respondeu Selene, entre uma risada, sentando-se em sua cama. "Para mim sempre fora uma lenda." Ela continuou.
"Agora você sabe que não era. Agora você conhece a força dos sonhos e dos pesadelos."
"É, eu sei." Disse Selene, permitindo que o silencio se instalasse entre as duas.
Ela ainda tinha dificuldades de aceitar que tudo o que havia vivido na Terra nos últimos anos não havia passado de um sonho. Principalmente, porque todas as suas memorias ainda eram muito lívidas e mesmo depois de tanto tempo, mesmo percebendo que todo mundo havia seguido suas vidas, ainda assim ela se prendia ao fato de que uma vez aquele mundo havia sido dela.
"Em que está pensando, Alteza?" Quis saber Chandra.
"Eu estou pensando em como teria sido se não existissem o pesadelo." Respondeu a deusa, sentindo uma ponta de amargura consumindo seus pensamentos. "Eu me pergunto se eu teria sido feliz de fato, vivendo entre os mortais. Vivendo como um mortal."
"Você nunca foi um deles, Selene. Nós somos o que somos." Respondeu a estrela, mas Selene não pareceu muito convencida. "Não pense muito a respeito. O pesadelo existiria querendo você ou não ir atrás dele. Assim como os sonhos, os pesadelos tendem a querer existir. Serem realizado. Porém, diferente dos sonhos os pesadelos nos perseguem, já os sonhos, nós é que temos que persegui-los." Concluiu a estrela, se levantando e se despedindo da deusa com um beijo na testa.
Ali, sentada em sua cama, completamente sozinha, Selene pensou em tudo o que ela já foi e no que já desejou ser em sua vida. Ela não podia se culpar por nunca sentir que pertencia a um determinado lugar ou ao um determinado título. Foi essa sua inconstância, essa falta de satisfação que a fez querer ir longe, que a fez conhecer todas essas pessoas, que a fez mudar a vida de todas elas.
Todos os monstros, pesadelos e demônios não eram nada comparado ao que de fato permaneceu naquela pequena cidade fictícia no interior de Maine. Pois o que de fato ficou foi uma história de amor, mais antiga que o tempo e maior do que qualquer ódio.
FIM
