Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto, a trama, no entanto, me pertence.

Warnings: linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.


N/A: Olá gente.

Eu preciso fazer um pequeno esclarecimento pra entenderem um pouco a forma como vão lidar com todo o empasse na fanfic: quando Madara tem 18 anos e seus irmãos estão vivos, o período em que a história se passa é entre 1985/1986 aproximadamente. Eu cuidei com a timeline dos personagens, a diferença de idade e tudo mais porque eu queria que o Izuna e Madara tivessem seu romance na década de 80, por motivos históricos. Fará mais sentido ao lerem o capítulo. Ah, e pra quem nunca se perguntou... O presente de "Haunted" se passa em 2013! =D

Hun... que mais... Não tenham pressa pra ler o capítulo, está grande e com uma carga emocional pesada. Ele tem tamanho duplo porque eu entrarei em hiatus de festas natalinas. Vou viajar, volto pra casa apenas dia 15 de janeiro, e não vou conseguir escrever nessa viagem. Tentei compensar nessa postagem, ok? Mas na segunda quinzena de janeiro estarei de volta! o/

Leiam as notas finais do capítulo, são grandes, mas necessárias.

Enfim, chega de lenga-lenga. Boa leitura! Feliz natal e um próspero ano novo para todos meus amadinhos! 3

Música citada: Sell my hearts for stones (Nevermore).


HAUNTED

Capítulo XXXV

x-x-x

Did you ever wonder why the wind blows cold?

Did you ever realize your face is painted on my soul?

.

Já se perguntou por que o vento sopra frio?

Já percebeu que seu rosto está pintado na minha alma?

x-x-x

— ISSO É TUDO SUA CULPA!

— MINHA CULPA?! MINHA CULPA!? VOCÊ SABIA QUE ELES PODIAM FICAR DOENTES E NUNCA OS LEVOU AO MÉDICO!

— SUA CULPA SIM! VOCÊ NÃO QUIS FAZER MEDICINA! POR CAUSA DA SUA FALTA DE ESFORÇO ESTAMOS PASSANDO POR PROBLEMAS QUE NÃO PRECISARIAMOS PASSAR!

— VOCÊ É LOUCO TAJIMA!

A discussão entre Madara e Tajima continuava em plenos pulmões no primeiro andar, mas os quatro Uchihas mais novos não estavam dispostos a descer para separar o irmão mais velho e o pai; pelo menos não enquanto não chegassem a brigar fisicamente.

Izuna, confuso e preocupado, encarava os irmãos com cara de enterro. Yoshiro, Hideki e Naoki tentavam bravamente segurar o choro durante algum tempo, mas quando Yoshiro deixou escorrer a primeira lágrima, os outros dois desistiram de lutar contra o desespero. Izuna assistiu o momento de descontrole sem saber o que fazer, como proceder ao ver seus três irmãos mais velhos chorarem como bebês na sua frente?

Mas agora eles pararam de chorar e pareciam atingir o mesmo estado de confusão que Izuna. Estavam todos perdidos diante do motivo da briga, e de certa forma os trigêmeos se sentiam culpados por ela, apesar de não entenderem sobre o que se tratava. Izuna, de todo modo, não acreditava que alguém fosse o culpado de uma fatalidade como aquela.

— VOCE É O GÊNIO! — Tajima bradava com convicção, seus passos pesados ecoando pela casa toda — O GÊNIO DA FAMÍLIA! VOCÊ TINHA QUE DESCOBRIR COMO RESOLVER ISSO, MADARA!

— COMO QUE EU IA ADIVINHAR PORRA!?

Papai não pode estar falando sério — Izuna pensou, levando as mãos ao rosto e tentando se acalmar. Sim, Izuna estava arrasado, melancólico, depressivo (e, por Deus do céu, nem sabia porquê!), mas ainda sim tinha a racionalidade necessária para perceber que em uma situação como aquela não havia culpados. Se Yoshiro estava doente, era uma fatalidade! Madara não era culpado por isso, oras!

Madara e Izuna, após o pequeno deslize no parque, realmente foram tomar sorvete. Izuna tentou tocar no assunto de sua atração por Madara, mas o mais velho mudava o rumo da conversa e o interrompia em todas as tentativas, agindo como se nada houvesse acontecido entre eles. O caçula se sentiu extremamente ofendido, mas logo o perdoou; porque Madara é seu Nii-san preferido e ele simplesmente não conseguia ficar de mal por muito tempo.

Assim, Izuna tomou sorvete com o irmão, que começou a puxar assuntos mundanos sobre a vida escolar do mais novo e contar histórias do trabalho, e apesar de todo sentimento de rejeição, o caçula ainda se sentia feliz ao lado de Madara. De certa forma, era reconfortante saber que o comportamento do mais velho para consigo não havia mudado, já que os dois passaram duas horas juntos com muita satisfação.

Quando o mais velho decidiu que era hora de buscarem os irmãos para almoçarem juntos, encontraram Hideki e Naoki extremamente assustados, ajudando um Yoshiro pálido, febril e praticamente sem forças. Madara anunciou que o levaria ao hospital, mas Hideki e Naoki argumentaram que era algo passageiro, que os dois já sentiram isso antes e que logo melhoravam. Madara percebeu que isso não era comum e que algo de errado acontecia com os trigêmeos, portanto chamou um taxi e levou todos os garotos para uma visita hospitalar.

Madara não conseguiu uma consulta para os três, portanto Yoshiro levou a preferência. Durante horas os quatro irmãos aguardaram por notícias do gêmeo adoecido, até que Madara conseguiu fazer com que a informação de que ele também era da área da saúde chegasse aos ouvidos do médico responsável e, provando ser uma grande celebridade na sua área profissional, foi chamado para integrar a equipe de apoio provisoriamente.

Hideki e Naoki, estranhamente quietos, continuaram ao lado de Izuna durante vários minutos, sem nenhum dos três ousar dizer algo. Mas em determinado momento, talvez movido por um sentimento de exaustão, Naoki se pronunciou:

"Eu tinha esperanças que Yoshiro não passasse por isso... Ele foi o último."

Apesar das palavras levemente confusas, Izuna compreendeu depois de algum momento de reflexão. Estava na cara que Hideki e Naoki tinham crises como aquela e escondiam da família, só que agora Yoshiro foi surpreendido com um mal estar semelhante. Izuna não sabia o que os irmãos tinham, mas ficou um pouco aliviado ao pensar que Madara estava com a equipe do médico: afinal, o caçula confiava na capacidade de Madara apesar de ele não ser médico, pois ele participava de estudos na área da saúde como químico. Ele resolveria o problema, com toda certeza! E depois os trigêmeos ficariam de castigos por esconder que estavam doentes, Izuna iria rir dos três!

Mas não foi o que aconteceu...

Uma hora depois, Madara voltou com o braço ao redor do ombro de Yoshiro (que agora aparentava estar um pouco melhor, mas ainda sim precisava de ajuda), chamou os outros irmãos no corredor e se retirou do hospital sem dizer mais palavras. O médico que atendeu Yoshiro assistiu a partida em silêncio, mas Izuna não gostou nem um pouco das feições penosas que ele exibia.

O mais novo tentou fazer perguntas a Madara, mas este o ignorou completamente, enquanto os trigêmeos permaneciam quietos, olhando para baixo em todo o trajeto de casa. Em outras circunstâncias Izuna se sentiria ofendido, mas com o presente comportamento do primogênito só conseguiu se ficar ainda mais preocupado. O que de tão grave Yoshiro poderia ter? Se Madara não conseguiu resolver o problema, quem resolveria?

Quando chegaram em casa já tarde da noite. Izuna podia jurar que Madara os deixaria em casa e seguiria carona com o taxista até sua própria moradia. Contudo, para a surpresa de todos, o mais velho resolveu entrar, afirmando que precisava conversar com Tajima.

O pai, ao ver a expressão extremamente decepcionada no olhar de Madara, ordenou aos demais filhos que fossem para o quarto, e foi obedecido prontamente. A discussão dos dois começou em tom de voz baixo, de modo que nenhum deles compreendeu ao certo sobre o que os dois falavam na sala; mas depois de alguns minutos os gritos foram se elevando, e agora os dois berravam para a vizinhança toda ouvir.

— VOCE NÃO QUERIA QUE EU SIMPLESMENTE FALASSE EM VOZ ALTA ISSO NÃO É?

— LÓGICO QUE EU QUERIA! EU NÃO SOU VIDENTE CARALHO!

— Chega. — Izuna murmurou, levantando-se da sua cama e caminhando até a porta, fechando-a e abafando o grito dos dois presentes na sala. Virou-se para os trigêmeos, cruzou os braços, e falou com o tom mais autoritário que pôde — O que vocês fizeram?

— Como assim? — Naoki questionou, deixando de lado todo o tom lúdico de sempre, percebendo que o assunto não comportava brincadeiras.

— Vocês fizeram alguma coisa e ficaram doentes, os três. O que vocês fizeram?

— Auto lá Izuna, a gente não fez nada. Pessoas ficam doentes sem terem feito nada, sabia? — Naoki respondeu no mesmo instante, não gostando nem um pouco da bronca implícita feita pelo caçula; quem era ele para agir com esta autoridade?

Izuna não deu muita importância para o tom ofendido de Naoki, e se concentrou mais no conteúdo de sua resposta. É claro que ele sabia que "pessoas ficam doentes", mas então porque Madara e seu pai estavam tentando achar culpados para o que aconteceu?

Hideki, que observava a breve discussão dos irmãos com interesse, captou as feições perdidas do caçula e resolveu se intrometer.

— Izu-chan... — ele disse, se levantando e caminhando até o irmãozinho, colocando uma mão atrás de seu pescoço num gesto de apoio — Não fique tão preocupado, a gente só se descontrolou porque odiamos ver os dois idiotas lá de baixo brigando. Mas tudo vai ficar bem, Yoshiro vai melhorar. A gente sempre melhora.

— Então por que eles estão brigando? — o mais novo perguntou, ganhando um pequeno afago do polegar de Hideki, ainda posicionado em sua nuca, como resposta.

— Porque é o que eles sempre fazem, Izu-chan. — Yoshiro respondeu do outro lado do quarto, sua voz ainda soando fraca devido ao problema de saúde.

Mesmo com toda a tensão do momento, Izuna teve que rir com o comentário do irmão. Era verdade, Madara e Tajima não mediam esforços quando o assunto era discutir. Essa situação não era tão fora do normal como parecia inicialmente.

Mais satisfeitos em verem o irmão mais novo rir, os trigêmeos abriram três sorrisos idênticos. Hideki virou-se para os dois irmãos que ainda se sentavam na cama de Izuna, e eles entenderam o comando: Naoki ajudou Yoshiro a se levantar, e os três ficaram na frente do caçula, cada qual aproveitando o momento de baixa de guarda do menor para cutucá-lo ou fazer cócegas em algum ponto sensível de seu corpo. Izuna continuou a rir e se debateu para fugir dos irmãos, e eles logo o soltaram.

Recuperando o folego, o menor voltou pra sua cama e se sentou, um pouco mais relaxado ao ver que os irmãos ainda tinham forças para agirem como idiotas, não deviam estar tão doentes assim.

— Nós vamos para os nossos quartos, Izuna. — Naoki anunciou, e o menor concordou com um aceno de cabeça.

— Você avisa se ficar pior Yoshiro? — ele pediu, procurando o irmão adoecido com o olhar.

Yoshiro sorriu em agradecimento pela preocupação, mas logo acompanhou os irmãos pra fora enquanto respondia.

— Aviso, mas eu estou bem. E se eu tivesse tão ruim assim os médicos não tinham me mandado pra casa, né? Então relaxe...

Os três se despediram cada qual a sua maneira, e logo Izuna se viu sozinho em seu quarto. Suspirou pesadamente e se jogou de qualquer jeito na cama, prestando nova atenção aos sons do ambiente: Madara e Tajima não pareciam discutir mais, não havia barulhos maiores do que os múrmuros dos irmãos no fim do corredor. E o silêncio da noite, em conjunto com o cansaço emocional, fizeram com que o Uchiha caçula dormisse em um sono pesado e sem sonhos que, infelizmente, não durou a noite toda.

x-x-x

In between your whispers so sincere

(I'll catch you when you fall)

.

Dentre teus suspiros tão sinceros

(Eu te segurarei quando tu caíres)

x-x-x

Izuna acordou sentindo um carinho suave em seus cabelos, um gesto bem reconfortante que o impediu de abrir os olhos por alguns momentos; ele queria aproveitar aquele toque. Mas instantes depois se deu conta de que precisava saber quem o acariciava, e seus olhos cansados e ardidos pelo sono cruzaram com o olhar levemente inchado de Madara.

Se não o conhecesse bem, diria que seu Nii-san havia chorando, o que era totalmente impossível.

— Oi Aniki. — Izuna cumprimentou sonolento, Madara sorriu e retirou uma mexa de sua franja dos seus olhos, ajeitando seus cabelos bagunçados pelo travesseiro. Izuna piscou algumas vezes tentando se livrar do sono, e agora com a mente mais lúcida questionou enquanto bocejava — Que horas são? Você ainda está aqui?

— Eu vou ficar aqui por uns tempos, Otouto. — Madara respondeu docemente, agora acariciando os braços descobertos do irmão com as duas mãos, tentando aquecê-lo — Eu e Tajima chegamos num consenso.

— Isso é ótimo Nii-san! — Izuna falou com entusiasmo, se sentando com tudo na cama e sentindo uma rápida tontura pela movimentação brusca, deitando novamente na cama para não se sentir ainda pior — Urgh, sentei rápido demais...

Madara nada disse, analisando o comportamento do irmão em silêncio. Ele parecia pensativo e preocupado.

— O que houve? — o garoto se sentiu compelido a perguntar, não entendendo porque Madara o olhava daquela forma.

— Izuna... — ele murmurou baixinho. Parecia aflito e mordia o lábio inferior, mas não desviou o olhar penetrante de Izuna em nenhum momento — Você está se sentindo bem ou tem os mesmos sintomas que Yoshiro?

O caçula piscou, evidentemente pego de surpresa com a pergunta.

— Eu estou bem Aniki. — respondeu com sinceridade e um aceno de cabeça. Madara expirou aliviado — Mas por quê?

Madara novamente ficou quieto por tempo demais, deixando Izuna impaciente, mas ainda sim ele se controlou e aguardou pacientemente por uma resposta. Aquele dia andava estranho demais, Izuna queria dormir e acordar imaginando que fora tudo um sonho ruim, mas sabia que fugir da realidade não ajudaria em nada. Ele era maduro o suficiente para perceber isso, bem como perceber que Madara estava com dificuldades em escolher as palavras certas para iniciar uma conversa séria.

Depois do que pareceu uma eternidade, quando o caçula estava quase adormecendo novamente, Madara agarrou o corpo do caçula e o manuseou: levantou seus lençóis e rapidamente puxou o menor para perto, levando-o para cima de seu colo e deixando-o envergonhado com aquele tipo de contato mais uma vez. Só que dessa vez não parecia ser um gesto sexual como outrora, pois Madara o apertava demais, respirava rápido demais, não parecia nada bem.

— O que houve Aniki...? — o menor questionou com doçura, acariciando os ombros de Madara enquanto este escondia seu rosto na dobra do seu ombro delicado.

Madara respirava a fragrância suave da pele de Izuna e deixava suspiros profundos e melancólicos escaparem. Quando se sentiu recomposto o suficiente, o afastou para observá-lo nos olhos.

Pela primeira vez o mais novo se deu conta: sim, Madara estava chorando e provavelmente havia chorado antes de ir pro seu quarto. Isso fez com que fosse invadido por um medo imenso, arregalando o olhar em pânico e surpresa. Abriu a boca para questionar o mais velho, mas ele o silenciou, colocando o indicador nos seus lábios.

— Izuna, agora é a hora que você vai poder me provar que não é mais uma criança. — Madara sussurrou e, mesmo sem entender o significado daquela afirmação, o caçula confirmou com um aceno de cabeça — Se você agir com maturidade diante dessa informação, estará me provando que realmente só possui um corpo de criança, mas não uma mente infantil.

Izuna engoliu em seco, apreensivo, mas sentindo curiosidade para enfrentar o teste.

— Você está de acordo?

— Sim. — ele respondeu com convicção, saindo do colo de Madara e se sentando ao seu lado, tentando transparecer ao máximo um comportamento maduro e sério.

Madara aprovou sua movimentação com um aceno leve de cabeça, limpando as lágrimas e pegando o maço de cigarros do seu bolso. Ascendeu um, tragou profundamente e se recompôs ao máximo antes de começar a falar.

— Yoshiro está doente, muito doente. — sua voz soara rouca, e apesar da informação fazer Izuna se arrepiar dos pés a cabeça e seu coração acelerar consideravelmente, ele se manteve forte e tentou ao máximo não demonstrar seu desespero em suas feições — A probabilidade de Naoki e Hideki estarem com a mesma doença é grande.

— Mas ele parece bem, Madara-nii. — Izuna disse— Ele só parece estar gripado, não é?

Madara sorriu com melancolia, abaixando o rosto e cobrindo os olhos com a mão livre. Depois de dois segundos, voltou à posição ereta de outrora, ainda mantendo a mesma seriedade no olhar.

— Só que não é gripe Izuna. É uma doença muito, muito... complicada.

— Que doença é essa? Por favor, me fale! Eu prometo que não vou me desesperar.

Izuna não sabia se estava falando a verdade, mas iria tentar ao máximo cumprir sua promessa. Madara, apesar de ter percebido a dúvida na afirmação do mais novo, resolveu que deveria sim ser franco com Izuna; ele iria saber cedo ou tarde, de qualquer jeito.

— Ainda falta confirmar o resultado do exame, mas pelo que Tajima disse a chances de ser isso são... grandes. — Madara prendeu o cigarro entre os lábios e novamente levou as mãos aos braços de Izuna, o acariciando por cima da camiseta de manga comprida — Já ouviu falar de uma doença chamada AIDS?

— Não. — ele respondeu com sinceridade, duvidoso, pendendo a cabeça um pouco para a direita e mantendo confusão em seu olhar.

Madara emitiu um tom de compreensão com a garganta e tentou arranjar uma forma fácil de fazer Izuna associar o nome à doença. Ele achava que esse termo já haveria se disseminado nas escolas, mas pelo visto estava errado. Soltou Izuna mais uma vez, para retirar o cigarro dos lábios e falar mais livremente.

— Eu acho que já ouviu, apesar de não reconhecer o nome. Até pouco tempo atrás chamavam de peste-gay, ou doença dos 5H (1).

Izuna piscou uma vez, duas, três vezes. Encarava Madara com firmeza, se perguntando porque seu irmão estava lhe pregando uma pegadinha numa situação como aquela. Depois de perceber que o outro ficaria em silêncio até que se pronunciasse, ele fez um beicinho de irritação e desviou o olhar.

— Isso é uma piada sem graça. — ele o censurou, estupefato. Esse seria o tipo de brincadeira que esperaria dos trigêmeos, não de Madara!

Sim, Izuna sabia mais ou menos o que era a peste-gay, todo mundo comentava por aí, aparecia no jornal toda hora. Ele sabia que era uma doença fatal que atingia em alguns tipos de pessoas, mas Yoshiro não se enquadrava em nenhum dos cinco grupos "H". Aliás, Izuna tinha certeza que esse tipo de doença não acontecia no seu país, ao menos nunca tinha visto nada a respeito no noticiário. Isso era um problema dos estrangeiros.

— Não é brincadeira Otouto... — Madara respondeu, franzindo o cenho diante da descrença de Izuna. Não estava esperando por esse tipo de resposta — Pelo que Tajima disse, a mãe de vocês morreu disso.

Ok, agora essa brincadeira já passou dos limites! — Izuna pensou, se sentindo ofendido pela afirmação do irmão mais velho.

— Mamãe morreu de tuberculose! Não fale esse tipo de coisa dela! — esbravejou, se sentindo totalmente irritado, e com razão!

Dizer isso que Madara dizia era o mesmo que afirmar que sua mãe era uma prostituta, e ele logicamente se sentiu ofendido por isso, já que os poucos casos da doença em mulheres que ele vira no noticiário estavam sempre associados a mulheres da noite.

Madara podia ser seu herói em todos os aspectos, mas jamais teria permissão para ofender sua mãe!

— Não fique irritado com o que eu disse. — o mais velho pediu, deixando o tom de voz tão suave quanto pôde para acalmar Izuna — Escute o que eu tenho a dizer... Por favor, me prove que você é um adulto e sabe ouvir sem tirar conclusões precipitadas.

Izuna suspirou fundo e se acalmou, passando as mãos no rosto e contando até dez mentalmente.

— Ok Madara-nii, fale... — ele disse por fim, preparado para ouvir sem julgamentos o que seu irmão iria lhe revelar.

E então Madara explicou tudo que sabia sobre a síndrome, em uma linguagem leiga o suficiente para Izuna compreender. Explicou os detalhes que os meios de comunicação não explicitavam, explicou como o governo tentava abafar a verdade sobre a doença para que não gerasse pânico popular. Informou Izuna de que já havia casos de mulheres comuns que contraíram a doença de seus esposos, bem como crianças sem vida sexual, histórico de transfusão ou uso de drogas com diagnostico de infecção. O olhar de Izuna se arregalava a cada nova informação, até que em um determinado momento ele não teve mais dúvida alguma de que Madara estava falando a verdade.

— Como você sabe de todos esses detalhes? — ele perguntou, com a voz trêmula, ao final da explicação.

— Eu estou trabalhando com medicações, não especificadamente pra AIDS, mas o assunto percorre todo o laboratório. É o assunto quente do momento, qualquer oportunidade que temos é motivo para troca de informações, porque ao que tudo indica nosso laboratório vai começar pesquisas para uma nova medicação, e alguns farmacêuticos e químicos vão trabalhar nisso.

Era uma resposta plausível, mas Izuna estava tão assustado com todas as informações que havia esquecido a maneira como Madara estava diretamente envolvido com pesquisas médicas inovadoras. Ele olhou para baixo, para seu próprio colo, fitando suas mãos e dobrando os dedos de leve. Sentiu um pouco de dor, mas agora já não tinha mais certeza se estava doendo porque Madara disse que um dos sintomas era dor nas articulações e ele estava somatizando os sintomas, ou se realmente estava com uma dor física real.

Ele se sentia muito preocupado naquele instante, mas ainda havia perguntas a serem feitas.

— Mas como... como eles poderiam se infectar? — ele perguntou, um pouco sem ar, mas ainda lutando para não exibir o seu desespero no tom de voz — Você disse que tem que transmitir com relações sexuais, e eu duvido que qualquer um deles tenha...

Madara o interrompeu antes que Izuna continuasse seu questionamento. Não era como se estivesse confortável para falar sobre sexo com o outro naquele momento, ainda mais naquelas circunstâncias.

— Na verdade esse tipo de transmissão é a única que nos temos certeza, mas há outras. Supõe-se que assim como a transmissão por contato de sangue com sangue em transfusão pode ocorrer, há transmissão com o contato do sangue da mãe. — Izuna não se conteve e cobriu a boca com as mãos, arregalando o olhar e compreendendo o que Madara havia afirmado antes de explicar os detalhes da doença — Essa tese é nova, ainda estão tentando confirmar, mas as pesquisas estão apontando pro fato que isso não é tão impossível assim, já que crianças muito pequenas estão desenvolvendo os sintomas e elas possuem mães portadoras.

— Mas... — sua voz soou fraca, Izuna pigarreou antes de continuar — Esso significaria que... que você...

Madara ergueu uma sobrancelha em questionamento, cruzando os braços na defensiva.

— Eu?

Izuna pensou rapidamente na melhor forma de explicar sua preocupação, e dentro de instantes se pronunciou:

— Se mamãe tinha isso, ela deve ter pego do papai. E papai pode ter passado pra sua mãe também, e você...

— Não. — Madara respondeu antes que Izuna se preocupasse ainda mais — Eu não tenho. Fiz exames há alguns meses pra poder trabalhar no laboratório, eles exigiram uma bateria de exames. Além disso, minha mãe e Tajima se relacionaram antes da sua mãe virar namorada do nosso pai, e ele pode ter pegado o vírus depois que eles terminaram.

— Mas Madara-nii...

— Dane-se o Tajima, minha preocupação é com vocês. — Madara respondeu firmemente, apesar de saber que não estava falando a verdade. Sua relação com o pai podia não ser das melhores, mas no fundo ele estava sim um pouco preocupado com a saúde dele. Ainda sim, os irmãos vinham em primeiro lugar, em especial Izuna — E você não desenvolveu nenhum sintoma, mas você é filho da mesma mãe que os trigêmeos. Se o contágio aconteceu da forma que eu estou imaginando, você possui riscos também.

Izuna ficou sem palavras diante da afirmação de Madara. Não sabia o que pensar, não sabia como começar a agir perante aquela situação. Há poucas horas atrás tudo era extremamente simples e sua preocupação era apenas crescer e ir morar com Madara o mais rápido possível, e subitamente seu mundo virara de ponta cabeça! AIDS? Peste-gay? Na família dele? Nele? Isso era tão surreal, mas tão surreal, que ele nem conseguia medir o seu nível de descrença. Só podia ser um pesadelo cruel, já que era mais fácil ter um bicho papão debaixo de sua cama do que esse tipo de coisa ser verdade.

Mas ao mesmo tempo em que ele pensava assim, Madara exibia as feições mais sérias e compenetradas do mundo, dando a certeza de que não brincaria com esse tipo de problema. Seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas, ele parecia nervoso e preocupado com a resposta de Izuna; de fato, não era uma pegadinha. Céus, Madara nem costumava ter esse tipo de humor lúdico, como ele pôde imaginar que o seu Nii-san brincaria com um assunto dessa magnitude?

Então era verdade, e havia uma possibilidade real de ser o diagnostico correto, pois Madara não iria preocupá-lo dessa forma se não tivesse quase certeza de sua tese. Apesar de afirmar que ainda faltava sair o resultado dos exames, alguma coisa que o médico e Tajima disseram para seu irmão deram a completa certeza de que os trigêmeos realmente estavam infectados.

Izuna pensou durante alguns segundos, sabendo que o que decidisse responder agora seria o teste a ser avaliado por Madara. Se ele agisse como uma criança mimada, Madara não ia mais dividir as informações com ele e passaria a tratá-lo como um pré-adolescente, algo que seria pior do que qualquer coisa no mundo. Portanto, ele se acalmou, pensou um pouco, e falou com a maior quantidade de calma que conseguiu reunir:

— E se for? — apesar de sua voz soar um pouco rouca, pareceu firme; ele ficou satisfeito com o tom — E se nós todos tivermos isso? O que vai acontecer?

Doeu fazer essa pergunta, bem como cogitar essa possibilidade. Mas ele seria firme, seria um adulto. E se fosse pra morrer, morreria deixando claro para Madara que era digno de ser tratado como um igual... Ele não queria ser lembrado como uma mera criança doente qualquer.

Madara sorriu, parecia satisfeito com a resposta do irmão. Retirou do maço um novo cigarro, ascendeu, e o entregou para Izuna, que pegou o objeto sem compreender.

— Se vocês tiverem doentes, eu vou curar vocês. — Madara respondeu sem nem pestanejar, deixando Izuna um pouco atordoado com a resposta.

— Mas Madara... Não existe uma...

— Eu vou curar vocês Izuna. — o primogênito afirmou com uma certeza inabalável — Não duvide da minha capacidade! Se essa sina for real, eu vou largar tudo, absolutamente tudo, e integrar a equipe de pesquisa da síndrome; eu fui convidado, mas não queria me distanciar de vocês e me recusei. Então, se for o caso, eu vou descobrir a cura... ou não me chamo Madara Uchiha.

Izuna relaxou visivelmente, deixando todos os medos e dúvidas saírem de seu coração. Era verdade, seu irmão era Madara Uchiha! Como ele podia deixar o desespero fazê-lo esquecer de que nada, absolutamente nada, era impossível para aquela pessoa?

Madara deu o cigarro para ele como uma prova de que não o via mais como uma criança, de que estava satisfeito com o seu comportamento. Por isso, o garoto levou o fumo aos lábios, inalando-o pela primeira vez e sentindo o gosto da canela. Tossiu um pouco e ouviu a risada de deboche de Madara, mas isso não o fez desistir de tentar: tragou uma segunda vez, e dessa vez pareceu fazer a coisa do jeito certo, pois não tossiu como antes. Madara ainda o observava com cautela, o humor um pouco melhor do que antes, e por isso Izuna sorriu com alegria.

— Então eu vou aguardar até você me dar a cura, Nii-san! — ele respondeu, totalmente confiante, continuando a fumar o cigarro e se perguntando como Madara podia gostar daquela porcaria.

Mas se o seu Aniki gostava, algo de bom devia ter ali, né?

Apesar das palavras enfáticas, Madara não pode deixar de sentir um leve calafrio. Seria a primeira vez que um desafio do gênero envolveria a vida de pessoas próximas de si. Ou melhor, tudo que ele tinha em sua vida: a sua família e o seu amor. Apesar de nunca ter falhado nas outras ocasiões, a constatação da importância daquela pesquisa o fez sentir uma cobrança particular acima do normal, pois ele sabia que desta vez seria uma questão de vida ou morte.

Literalmente.

x-x-x

Through the eyes of broken innocence

(I'd sell my heart for stones)

.

Através dos olhos da inocência corrompida

(Eu venderia meu coração em troca de pedras)

x-x-x

Izuna tragou fundo e choramingou ao ouvir o telefone tocar, soltando a fumaça de seus pulmões ao voltar sua atenção para a mesinha do telefone.

Já era mais de meia noite quando Madara ligou, mas Izuna não queria atender a ligação. Ele olhava para o aparelho telefônico com melancolia, sem a vontade suficiente para retirá-lo do gancho de uma vez ou atender o seu irmão e conversar; e olha que já era a terceira tentativa do mais velho. Apesar de saber que poderia ser outra ligação, achava improvável, já que Madara era o único que ligava para aquela casa desde que a crise estourou.

No fim, era verdade, estavam todos doentes: tanto os trigêmeos, quanto Izuna, apesar dele ainda não desenvolver os sintomas. Tajima também parecia mal e Izuna não tinha dúvidas de que ele também era portador, mas ele se recusava a fazer exames. Na verdade, seu pai se recusava até em tocar no assunto, de modo que foi criado um grande teatro em sua casa, para que todos fingissem que não havia nada de errado acontecendo ali. Izuna costumava pensar que a maior doença daquela família não era o que enfrentavam, e sim aquele silêncio assustador e a falta total de apoio familiar.

De todo modo, Madara, cumprindo sua promessa, mudou para o departamento de pesquisas do laboratório onde trabalhava assim que o resultado dos exames se mostrou positivo, mas em menos de uma semana recebeu a oportunidade de integrar as pesquisas feitas diretamente pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (2), nos Estados Unidos. Depois de uma conversa longa com Izuna, ambos concordaram que as pesquisas chegariam a resultados mais satisfatórios lá. Madara aceitou a nova proposta de trabalho e pegou o primeiro vôo na semana seguinte, se mudando de país apenas com uma mala mediana de roupas brancas e guarda-pós; não era como se ele fosse precisar de outra coisa além deste tipo de vestimenta.

Sim, Madara se foi para longe, mas em sua despedida deixou uma grande dúvida na cabeça de Izuna. Porque, mais uma vez, ele o beijou, e não tão inocente como na outra ocasião.

Eles não falaram mais sobre essa distorcida relação de irmãos que possuíam, e Izuna tinha medo de tocar no assunto e ouvir algo que não queria ouvir. Sabia que era errado por serem irmãos e serem do mesmo sexo, além de ele ser muito novo para Madara. Sabia que era praticamente uma criança fisicamente, que estava apenas começando a atingir a puberdade e que agora era portador de uma doença terrível, de modo que ele e Madara não poderiam consumar qualquer tipo de relação sem riscos até que a tal cura fosse descoberta. Ele era um "namorado" (ao menos ele gostava de pensar nesse termo) incompleto em todos os sentidos para o primogênito, mas Izuna não pode deixar de criar esperanças.

Seu Nii-san o ligava todos os dias e, apesar de eventualmente conversar com os trigêmeos, passava ao menos uma hora todas as noites conversando com Izuna. Sempre tocava no assunto das pesquisas e falava mil coisas que o caçula não seria capaz de entender sem formação na área; mas cedo ou tarde mudava de assunto, falando sobre os costumes norte-americanos, sobe as notícias mundiais, sobre como amava Izuna e sentia sua falta. Eles não oficializaram um namoro, eles nem sequer tocavam no assunto, mas Madara agia como se tivessem namorado a distância, principalmente por declarar seu amor há todo momento, algo que não costumava fazer quando eram apenas irmãos.

Izuna, mesmo sabendo de toda improbabilidade de isto dar certo, agia da mesma forma: se declarava, chorava ao telefone pelas saudades, reclamava da dificuldade que era viver no silêncio fúnebre daquela casa, implorava para que Madara voltasse (e logo dizia para ele não ouvi-lo, pois Madara tinha que continuar as pesquisas)... Mas apesar de todo sofrimento, ele ainda se divertia conversando com o primogênito, ria de suas besteiras, de assuntos que apenas Madara parecia entender, assim como sentia seu coração ficar cada vez mais aquecido com os planos futuros que faziam de morar juntos. Afinal, mesmo depois do balde de água fria, Madara agia como se Izuna fosse sim se curar, e que poderia morar com ele aos 18 anos, e isso lhe causava um irracional sentimento de esperança.

A esperança, contudo, se mostrou tão inútil quanto aqueles remédios que todos tomavam dia após dia: nada parecia fazê-los se sentir melhor. Não importava que drogas Madara receitasse, nada resolvia a dor nas juntas, a falta de ar, a moleza muscular. Os trigêmeos pioravam mais rapidamente que Izuna, que ainda não exibia sintomas maiores do que resfriados eventuais, talvez por já serem um pouco mais velhos. E apesar do caçula assistir de camarote o definhamento de seus irmãos, ele não tinha a coragem de dizer com todas as letras ao primogênito que isso estava acontecendo.

Madara não sabia da piora dos irmãos... Izuna não tinha coragem de dizer, muito menos os trigêmeos ou Tajima — que nem admitia o que estava acontecendo. Mas ele devia criar coragem, e ele sabia que não havia mais como fugir.

O telefone tocava sem parar e o barulho irritava seus ouvidos. Suas mãos tremiam, seu corpo parecia enjoar cada vez mais. As lágrimas? Ele já nem sentia mais, poderia estar chorando, poderia estar totalmente apático; há três dias não se olhava no espelho pra constatar isso. Izuna apagou o cigarro no cinzeiro que carregava consigo pra cima e pra baixo nos últimos tempos; estava nervoso demais até pra fumar.

Mas ele era um adulto, ou ao menos afirmava ser um adulto. Ele tinha que enfrentar.

Esticou o braço, ignorando o arrepio que percorreu todo seu corpo, e agarrou o telefone com força. O tirou do gancho, levando ate seu ouvido direito e enrolando o fio do telefone com os dedos da mão esquerda, ouvindo a respiração acelerada de Madara do outro lado da linha, sem anunciar sua presença.

— Seja sincero comigo. — foi o que Madara disse ao outro lado da linha, sua voz ecoando com a péssima ligação internacional.

Ele já sabia. Deixar de atender ao telefone foi o suficiente para Madara somar dois mais dois e chegar ao resultado. Izuna suspirou fundo, engolindo um soluço antes de responder com a voz fraca e suave.

— Sim, Aniki. — ele murmurou, retirando os dedos do fio enrolado do telefone e levando a mão esquerda aos olhos, cobrindo-os. Como desejava não precisar fazer isso, como queria que essas palavras jamais fossem ditas... — Ele está querendo sua presença, Madara-nii.

Madara ficou quieto por um longo período de tempo, até o ruído de sua respiração cessou. Izuna sabia que, mesmo ele não sendo claro, seu irmão mais velho havia compreendido o significado daquelas palavras.

— Ele quem?

— Hideki.

— Quanto tempo?

— Três dias, no máximo uma semana... — Izuna aguardou um pouco, mas Madara nada disse — Nii-san?

O seu irmão mais velho desligou o telefone, e Izuna ouviu a repetitiva nota "lá" soar do aparelho, indicando que não havia mais ninguém na linha. Ele se permitiu deixar um soluço escapar enquanto depositava o aparelho de volta no gancho.

Madara nunca desligava na sua cara, então ele só podia imaginar o quão devastado seu irmão se encontrava agora. Porque apesar de Izuna estar sofrendo tanto quanto ele com a perda eminente de um de seus irmãos, o primogênito se sentia (erroneamente) responsável por isso, já que até agora não conseguira descobrir a cura. E, de certa forma, as palavras de Izuna no dia que ele recebeu a notícia da provável doença fizeram com que Madara se sentisse responsável por isso.

— Eu não devia ter dito aquilo... — Izuna murmurou para si mesmo, sentando no chão e agarrando suas pernas, puxando-os para junto de seu peito e descansando o rosto nos joelhos — Eu não devia ter feito ele achar que era o responsável por encontrar essa cura.

Mas não era sua culpa. Como ele podia imaginar que Madara não conseguiria resolver esse impasse? Céus, Madara nunca falhara! Nunca!

E então Izuna percebeu que por mais perfeito que Madara fosse, ele não era Deus. E talvez, apenas talvez, eles realmente estivessem passando por um castigo divino. Ciência nenhuma era mais forte que a justiça divina, não é? Ele era gay afinal de contas, ele gostava do Madara... Deus não devia estar muito feliz.

Izuna conseguia ouvir os gritos de discussões que provavelmente se transformariam em choros em breves, as vozes de Naoki e Yoshiro soando no quarto ao final do corredor. Notou que seus joelhos estavam cada vez mais e mais úmidos pelas suas próprias lágrimas, ele não conseguia levantar daquele chão e separar a briga dos irmãos.

Porque a esperança e a força, ao menos naquela noite, pareciam ter desaparecido por completo. E, com ela, toda a sua vontade de existir havia o abandonado.

Talvez seja melhor que eu morra logo e livre Madara desse fardo de uma vez. — Foi a última coisa que ele pensou antes de se render ao esgotamento mental e adormecer naquele frio gelado, sem se importar nem um pouco com seu próprio bem estar ou saúde.

Pra que se preocupar com algo que não parecia existir mais?

x-x-x

Leave it all behind and fade away

(To feel your purest blue)

.

Deixe tudo pra trás e aos poucos suma

(Para sentir tua tristeza mais pura)

x-x-x

— Madara-nii, mas o qu... — Izuna não conseguiu terminar sua pergunta, pois Madara cobriu sua boca com a mão, encarando-o de uma maneira que beirava a insanidade.

— Eu não ligo mais Izuna, que se foda, que se dane! Não me importo que você tem doze anos, não me importo que você tinha que estar descansando e não fazendo essas coisas, pra mim chega! — ele retirou as mãos dos lábios de Izuna, mas continuou silenciando-o com beijos intensos e cálidos, correspondidos com louvor.

Madara parecia um pouco fora de si (um pouco?), mas Izuna não estava reclamando. Ele só queria entender de onde surgiu aquele comportamento tão... peculiar. Ele o beijava, não daquela maneira suave de antes, mas com possessividade, até mesmo uma carga considerável de desespero, e apesar de não tentar interromper o beijo, o mais novo foi pego totalmente de surpresa pela sensação indescritível que era ter os lábios do seu amado contra o seu daquela forma.

Depois do que pareceu uma eternidade, Madara retraiu os lábios poucos segundos para permitir que Izuna respirasse, mas aproveitou o momento de pausa para morder um pouco de força o pescoço do garoto.

Todo esse comportamento era muito diferente do Madara doce e carinhoso que Izuna conhecia, e apesar de não ser contra a mudança, ele gostaria de receber respostas. Por isso, aproveitou que não estava sendo beijado e respirou para questionar.

— Não que eu esteja reclamando mas... uh... por quê? — perguntar com a respiração ofegante, enquanto Madara se apressava para tirar sua blusa.

Izuna tinha a leve impressão de que agiam rápido demais com aquelas... uh... ministrações. Ainda sim, não tinha a mínima intenção de parar. Madara sabia o que fazia, e ele estava curioso para aquele tipo de interação há bastante tempo. Como o próprio primogênito disse: foda-se a idade e limitações físicas, foda-se o momento inoportuno, foda-se tudo!

Menos a curiosidade.

— Eu simplesmente preciso de você agora Izuna, não aguento mais esperar. — ele respondeu, se afastando um pouco para encarar as pupilas dilatadas de prazer do seu irmãozinho, enquanto a aparência de Madara não estava muito diferente — Você tem algo contra? Se você tiver, eu paro.

— Se você parar eu te mato, Nii-san! — ele respondeu, aproveitando a posição em que se encontrava e levando suas mãos ao traseiro de Madara, puxando-o para baixo e friccionando ambas as virilidades com força. Gemeu alto e adorou a forma como o mais velho suspirou envolto pela luxúria, mordendo sua clavícula com ainda mais força, mas cuidado o suficiente para não fazê-lo sangrar.

Sangue. É, eles tinham um problema bem grande com essa porcaria de substância. Izuna adoraria não precisar se preocupar com isso e ter um sexo sem qualquer tipo de dor de cabeça com Madara, mas do jeito que sua saúde se encontrava, ele não podia esquecer de certos detalhes essenciais.

— Você tem camisinha? — perguntou, deixando escapar um gemido suave de sua garganta ao sentir os dentes de Madara percorrerem toda extensão de seu pescoço até seu queixo, finalizando o rastro de mordidas com um beijo suave.

Apesar de toda excitação, Madara compreendeu a pergunta e esticou a mão para trás de seu corpo, agarrando o pulso de Izuna e forçando-o a mão do garoto a entrar no seu bolso traseiro. Izuna sentiu que havia um pacote dentro do bolso de Madara e o agarrou, trazendo-o para seu campo de visão, se esforçando para conseguir inspecionar o objeto enquanto o mais velho não lhe dava um minuto de folga.

Com certa dificuldade compreendeu que se tratava de dois pacotes de camisinhas, cada um com seis preservativos; Izuna sentiu seu rosto esquentar de vergonha, mas seu sangue ferveu pelo desejo. Madara certamente estava preparado praquela noite.

O mais velho, percebendo a maneira como o rosto de Izuna corava, se afastou um pouco riu baixinho, mordendo a ponta do nariz do garoto.

— A intenção é não te deixar sair dessa cama esse fim de semana. — Madara respondeu com um sussurro, mantendo um sorriso sacana no canto da boca — Se é pra abusar de uma vez, vou fazer isso o máximo de vezes que que você permitir, Otouto.

O caçula imitou seu sorriso impúdico, se sentindo verdadeiramente feliz depois de tanto tempo de miséria. Iria dormir com Madara, com o seu amor, e ele não tinha a mínima intenção de tratá-lo como uma boneca de porcelana: estava abstraindo sua idade física e as suas limitações, tratando-o como o adulto que ele gostaria de ser tratado. Izuna era um garoto de doze anos, e apesar de ter uma mente mais avançada para aquela idade, os hormônios e a curiosidade o atingiam como para qualquer garoto na puberdade.

Ah... como ele queria não levantar daquela cama, nunca mais!

Nada, absolutamente nada, poderia destruir o seu humor naquele dia; ou ao menos era isso que ele imaginava ao deixar de lado todas as preocupações e permitir que o instinto e paixão tomassem conta de seu corpo e sua alma pelas horas que se seguiram.

x-x-x

I can feel your purest blue, for you I must be strong

(For I don't know right from wrong)

Eu posso sentir tua tristeza mais pura, por ti eu devo ser forte

(Por eu não saber diferenciar o certo do errado)

x-x-x

Mas, infelizmente, suas perspectivas estavam erradas.

Izuna realmente tivera as horas mais felizes de sua vida naquela cama. Madara o tratou como ele gostaria de ser tratado, não julgou seus desejos, não faltou com respeito em nenhum momento. Eles consumaram uma relação que há muito tempo implorava pra ser consumada, e Izuna não tinha uma reclamação sequer a fazer. Mas, assim que a euforia do sexo (e, céus, como é bom essa coisa de sexo!) passou, Izuna pode refletir um pouco mais.

Madara dormiu rápido, pois realmente se esforçara naquela noite para que pudessem transar tantas vezes numa deitada só, mas o caçula ainda tinha um pouco de fôlego e muita preocupação para dormir com calma.

Ele se levantou e revistou uma a uma as camisinhas utilizadas, para ver se encontrava algum furo. Estava preocupado com Madara, e no meio do desespero para finalmente fazer amor com ele esqueceu-se de que o risco não era zero, aquela porcaria ainda podia furar. Mas apesar de toda a afobação da primeira rodada de sexo, não havia nenhum furo no preservativo — nem nos outros, utilizados nas rodadas mais... suaves e românticas (até Izuna se enfezar com isso e exigir algo mais intenso). Izuna conteve um sorriso, quem diria que logo na primeira vez iriam conseguir fazer tantas vezes? (3)

Relaxou um pouco, aproveitando que estava com todos os preservativos usados em mãos caminhou ate o banheiro da quitinete do irmão para jogá-los fora. Lavou as mãos, o rosto, e decidiu voltar logo pra cama. De que adiantava um dia inteiro de sexo sem aproveitar pra dormir juntinho com Madara depois de tanto tempo sonhando com isso?

No meio do caminho, no entanto, Izuna encontrou uma caderneta de trabalho de Madara, jogada de qualquer jeito no balcão da entrada. Um pouco relutante e com sentimentos contraditórios, abriu e leu as primeiras páginas, tentando ver se descobria algo sobre as pesquisas que Madara andava fazendo (e evitando ao máximo conversar com Izuna sobre o assunto, por algum motivo). Não entendeu absolutamente nada do que estava escrito e por isso desistiu de bisbilhotar, colocando-a de volta na superfície.

Todavia, por causa da sua afobação, errou o balcão e deixou a caderneta cair com tudo no chão, e alguns papeis escaparam de seu interior. Xingando baixinho, Izuna se ajoelhou no chão para arrumar a bagunça, mas em meio a este processo algo chamou sua atenção. Um bilhete simples, sem muitas palavras, mas o suficiente pra fazê-lo compreender o comportamento afobado de Madara.

"Dr. Uchiha,

O resultado das amostras não foi satisfatório. Não tivemos sucesso com a última biopsia de Izuna Uchiha, muito menos com a de Yoshiro Uchiha. Devido aos resultados negativos, estamos encerrando as pesquisas envolvendo tais amostras. A equipe médica recomenda encarecidamente que o senhor deixe suas incitações particulares de lado e retome o foco da pesquisa. Não podemos deixar que seus problemas particulares influenciem na efetividade dos nossos estudos."

O bilhete estava assinado, mas Izuna deixou-o cair de suas mãos antes de conferir quem o enviara. Ele não dava a mínima pra quem mandou aquele bilhete, e sim para o seu conteúdo: era praticamente o atestado de óbito, tanto de Yoshiro, quanto dele.

Tremendo violentamente, Izuna permaneceu no chão por alguns minutos, chorando baixinho e se esquecendo de tudo ao seu redor. O restinho de esperança, aquela sombra de positividade que às vezes aparecia quando Madara lhe falava palavras reconfortantes foi arrancada de uma vez por todas do seu coração. Ele não achava que fosse sobreviver, não depois de perder o apoio das pesquisas; se estavam descartando suas amostras, significava que todo o seu corpo já estava comprometido, procurariam cobaias mais saudáveis para as novas tentativas de cura.

Por quanto tempo ele ficou sentado naquele chão era difícil saber, mas foi trazido de volta a si ao ser carregado no colo subitamente, colocado de volta na cama e envolto pelos lençóis já aquecidos pelo corpo de Madara. Seu irmão nada disse, provavelmente chegou a perceber o bilhete quando tirou Izuna do chão, compreendendo o motivo do choro. Deitou-se ao seu lado e virou o corpo de Izuna para que ficasse cara a cara consigo, e iniciou uma carícia em sua silhueta, afetuosa e delicada.

— Vamos voltar pra casa. — Izuna pediu a Madara com a voz rouca pelo choro compulsivo; Madara respondeu com um aceno negativo de cabeça — Madara, por favor... Nosso pai precisa da gente, seria burrice continuar aqui sem poder participar das pesquisas.

Pois era por isso que Izuna havia visitado Madara nos Estados Unidos.

A estadia deles foi divertida, Izuna estava feliz ali, apesar de se sentir um pouco egoísta por saber que boa parte desta felicidade advinha não apenas do carinho de Madara, mas também por ter se distanciado do clima pesado de casa por algumas semanas. Era tudo maravilhoso, tirando a tensão sexual que ocorreu durante todos esses dias até aquela noite. De certo, Madara já estava percebendo que talvez ele morresse antes de adquirir a idade legal para que pudessem manter relações sexuais; por isso sucumbiu.

Mas agora, ao saber que já era praticamente um garoto morto, ele queria voltar para casa e dar certo conforto aos seus familiares — dar uma utilidade na sua existência rápida e praticamente inútil de vida.

O primogênito, todavia, não parecia pensar como ele.

— Eu já consegui um lugar novo pra continuar os estudos, é um laboratório sem fiscalização, clandestino, mas pagam bem e possuem interesse em investir na minha pesquisa. Eles prometeram que vão deixar usar as amostras de quem eu quiser e...

— Madara, meu amor. — Izuna o chamou de amor, algo que nunca fizera até então. Madara se calou abruptamente, tomando a mão de Izuna com a sua e levando-a para os lábios, beijando com devoção enquanto mantinha a troca de olhar penetrante. Izuna suspirou fundo, limpou as lágrimas com a outra mão e voltou a falar — Você não é Deus, então aceite a naturalidade das coisas... Nós podemos ter os meses finais mais felizes se você vir pra casa comigo e ficar do meu lado até eu morrer.

— E você acha que é isso que Deus quer Izuna? — ele perguntou, exibindo feições um pouco irritadas agora — Deus não existe! Se existe alguém próximo de Deus somos nós, os cientistas, que mudamos o curso da história da humanidade. Eu sou Deus! Eu sou aquele que vai descobrir a cura pra essa porcaria.

— Madara, por favor!

— Chega Izuna. Chega! É por isso que eu não estou mais contando as coisas pra você. — ele o censurou, soltando o corpo de Izuna por completo e virando para o outro lado da cama, dando-lhe as costas — Eu gostaria que você tivesse mais fé em mim!

— Eu tenho fé em você Nii-san! — o garoto respondeu, também virando de costas para o outro, emocionalmente esgotado para tentar fazer as pazes com Madara naquele momento — Mas você não é Deus, e só Deus faz milagres. Eu não exijo um milagre de você, queria que você não exigisse de si também. Eu só quero ser feliz contigo enquanto posso!

Madara ainda ficou enfezado por alguns minutos, mas depois de um tempo cedeu, virando-se na cama e abraçando Izuna lateralmente. Beijou seus cabelos e seu pescoço, gostando de sentir o cheiro dele misturado ao seu por causa das "atividades" de algum tempo atrás. Não tinha porque brigar com Izuna por isso, ele decidiu. Principalmente não depois das horas maravilhosas que passaram juntos.

Quase quarenta minutos depois, quando Madara pensava que Izuna já havia adormecido, ele falou baixinho em seu ouvido:

— Se ser Deus pra você é driblar a morte, vou fazer você me chamar de Deus daqui um tempo... (4)

Mas Izuna não estava dormindo e ouviu a afirmação. Riu baixinho, deixando Madara um pouco surpreso por ele ainda estar acordado.

— Nem se você conseguir isso Madara-nii... — ele sussurrou em resposta — Eu nunca vou te chamar de Deus. Você é meu amor, não Deus...

— Vai me chamar do que então?

— De meu herói... — Izuna respondeu com sonolência, praticamente se rendendo ao mundo dos sonhos. Madara ficou satisfeito com a resposta, beijou seu ombro e o puxou para mais perto.

O garoto já estava ficando grogue de sono e a preocupação e medo da morte esvaiam da sua mente. O corpo nu de Madara contra as suas costas lhe dava uma sensação indescritível de proteção, de modo que ele conseguia relaxar. Todavia, segundos antes de adormecer, ele conseguiu ouvir a resposta suave e levemente lúdica de seu irmão:

— Veremos.

E, depois disso, os dois se permitiram algumas horas de descanso longe da realidade, desesperos, e picuinhas.

x-x-x

Did you ever wonder why they all have gone away?

Did you ever realize that nothing changes, everything stays the same?

.

Já se perguntou por que todos eles se foram?

Já percebeu que nada muda,tudo fica igual?

x-x-x

— Meu amor...

Izuna levantou o rosto, respirando profundamente na tentativa de conter o choro enquanto enxugava as lágrimas na manga de seu moletom pesado de inverno e apagava seu oitavo cigarro daquele dia. Mal conseguia enxergar Madara, apesar de saber que ele estava esperando calmamente que seu autocontrole retomasse.

Se existiu um momento totalmente difícil em sua vida, com certeza foram os últimos dias. A perda de Hideki há uns meses atrás foi difícil, dolorosa, horrível; Izuna achou que nunca mais se sentiria dessa forma em sua vida, ele praticamente desejou morrer antes dos seus demais familiares.

Mas apesar das constantes pioras e melhoras de Naoki, a última piora foi muito intensa, de modo que ele ficou ainda mais doente do que Yoshiro estava (e Yoshiro era sempre o gêmeo que mais adoecia). Naoki faleceu há uma semana e toda dor da perda de Hideki voltou em dobro.

A situação por si só já era difícil, mas pra Yoshiro foi totalmente insuportável. Há pouco mais de três dias, ele havia tirado a própria vida, desistindo de lutar e desejando se encontrar com seus irmãos. Foi uma morte planejada, uma overdose de medicamento; foi cruel contra os seus familiares que ainda viviam lutando contra o fim, foi uma covardia. Izuna sentiu mais raiva do que tristeza inicialmente, e não quis nem ler a carta de despedida que Yoshiro o deixou.

Madara sofreu mais do que todos, ou ao menos era isso que Izuna acreditava até se dar conta da piora considerável do estado de saúde do pai. Aparentemente, perder dois filhos em uma semana não fez nada bem para a mente de Tajima, e aos poucos uma simples gripe foi progredindo de um jeito tão surreal que Izuna sentia vontade de gargalhar se não fosse trágico. Seu pai estava no leito da morte também, sem forças pra continuar.

Ninguém parecia pensar no quanto Madara estava se esforçando pra descobrir a cura, ninguém conseguia sair um minuto de seu egoísmo pra perceber o quão sozinho estavam deixando-os ao desistirem de viver dessa forma! Ninguém estava pensando nele e em Madara, o que demonstrava que no fim das contas eles só tinham um ao outro mesmo! Estavam cercados de ingratos, foram tarde!

E apesar da raiva crescer progressivamente, Izuna ainda tinha inconstantes estados emocionais, que beiravam a uma depressão profunda ou uma euforia desmedida.

Izuna chorava muito nos últimos dias: de raiva, de ódio, de medo, de tristeza, de rancor. Em outros momentos, ficava totalmente sexual, procurando Madara apenas para liberar suas tensões, não perdendo tempo sequer para conversar um pouco com o irmão. Em outros, comia sem parar para diminuir a tristeza, e só não havia ganhado peso nesses dias por causa do HIV, ou por causa dos rompantes de vômito que tinha depois de descontrolar-se dessa forma.

Às vezes Izuna queria amaldiçoar Yoshiro e Tajima, em outros momentos rezava pela alma de todos os irmãos falecidos, de seu pai, e de sua mãe (que apesar de ter morrido há tanto tempo parecia que as novas mortes tinham ajudado o renascer a dor da perda de sua progenitora). Madara não censurava suas condutas, apesar de não gostar dessa devoção que Izuna tinha para Deus, nem brigava com ele pela escala de ódio e instabilidade crescente.

Se Madara entendia ou não o seu comportamento, era difícil saber. Mas o mais velho ainda trazia comida para ele e fazia os exames de rotina, e Izuna estava tão cansado de tudo que nem discutia. Não trocavam palavras, mas agora o mais velho o chamava, e Izuna sabia que algo sério havia acontecido para ele se anunciar depois de tanto tempo em silêncio.

O seu único irmão vivo caminhou até o caçula, ajudando-o com as lágrimas ao beijar seu rosto, sugando cada gota com os lábios rachados pelo descuido com a saúde (Madara estava tão preocupado em cuidar dos outros, que mal preocupava consigo mesmo). Izuna considerou o gesto reconfortante, pois seu Nii-san não agia desta forma desde o mês passado e só naquele momento Izuna percebeu o quanto sentia falta dele para algo além do sexo. O abraçou e puxou para si, dando um beijinho suave em seus lábios.

— Bem vindo de volta. — Madara sussurrou baixinho, acariciando o rosto do irmão. Izuna não sorriu, nem riu, mas reagiu com um aceno de cabeça, e o mais velho teve a certeza de que isso já era uma evolução — Tajima quer falar com você.

— Comigo? — Izuna questionou com a voz fanha de tanto chorar, e Madara não tinha humor para tirar sarro disso no momento.

— Sim. Nós acabamos de conversar, assuntos importantes. Agora ele quer falar com você.

— Ele... está...

— Não. — Madara murmurou, temendo que Izuna pensasse no pior e tivesse mais uma crise emocional — Mas ele quer conversar alguns assuntos enquanto está com lucidez e saúde o suficiente pra ficar do seu lado. Você sabe que se ele ficar doente demais, eu vou ter que proibir você de entrar no quarto pra não pegar nada dele... não sabe?

Izuna detestava essa parte da síndrome, mas compreendia a preocupação de Madara. Ele estava tentando mantê-lo vivo, e se ele pegasse alguma enfermidade forte de Tajima dificilmente conseguiria sarar nas condições em que estava.

— Você sabe sobre o que ele quer conversar?

— Eu imagino Izuna, você não tem sido muito discreto nos últimos dias, não é?

O caçula abaixou o olhar, se sentindo um pouco envergonhado. Era verdade, ele não estava mais fazendo questão alguma de esconder a relação que tinha com Madara, e o mais velho preferia não censurá-lo, talvez pelo medo de piorar seus rompantes. Tajima podia estar doente e delirando de febre na maior parte dos seus dias, mas ele ainda não estava morto. Seria impossível não compreender o tipo de relação que seus dois filhos possuíam em uma moradia com paredes tão finas...

— Apenas escute o que ele tem a dizer e tente reconfortá-lo. — Madara falou baixinho, puxando o irmão pela mão para que se levantasse da cama — Nós sabemos o que sentimos um pelo outro, mas ele nunca vai entender. Perdoe a ignorância dele e o dê algum conforto.

— Como o que?

— Negue. — Madara instruiu com seriedade.

— Ele não vai acreditar, Nii-san...

— Mas ele vai morrer na dúvida, o que é melhor do que morrer no desgosto eterno.

Izuna concordou com um aceno de cabeça, entendendo a mentalidade de seu irmão. Calçou as pantufas que estavam perto da cama, deu um beijo suave nos lábios de Madara e saiu do quarto. Iria enfrentar esta sina de uma vez, já estavam a meses escondendo tudo e, pelo jeito, seria demais esperar que o segredo nunca fosse revelado.

Os aposentos de Tajima pareciam mais uma enfermaria do que o seu quarto de outrora. Madara havia retirado até o armário para abrir espaço para os aparelhos hospitalares, apesar de estar bem evidente que a disposição do quarto não continuaria assim por muito tempo...

— Oi papai. — Izuna se pronunciou, aproximando-se da cama.

A enfermeira contratada desde a morte de Hideki, que agora cuidava durante boa parte do dia de Tajima (revesando com Madara), aproximou-se de Izuna e estendeu para ele uma máscara descartável. Girando os olhos por aquela precaução ridícula (duvidava que aquela porcaria o deixaria a salvo das doenças que seu pai tinha), ele pegou a máscara e a colocou em seu rosto, enquanto a enfermeira o oferecia um sorriso suave, antes de se retirar do quarto e dar privacidade para a conversa de pai e filho.

Tajima estava ainda pior do que no dia anterior, mas conseguiu juntar forças para chamar Izuna para que se aproximasse da cama com um gesto suave de cabeça. Ele realizou o pedido e se sentou na cadeira ao lado da cama, segurando a mão de seu pai e aguardando as palavras que logo viriam.

O mais velho tossiu algumas vezes, mas conseguiu recuperar o fôlego para falar em um tom de voz quase mediano:

— Izuna, meu caçula, eu quero te pedir perdão.

Ok, isso era um pouco diferente do que as palavras de sabedoria sobre os malefícios do incesto que ele estava esperando. Perdão? Tajima Uchiha, o homem mais orgulhoso da face da terra estava lhe pedindo perdão?

— Papai, você não prec...

— Eu preciso. — ele o interrompeu, tendo mais uma crise de tosse em seguida. Izuna aguardou pacientemente — Eu agi com muito rigor com você, com os trigêmeos, e principalmente com Madara. Eu transmiti erros meus a vocês, os castiguei porque os culpei pelos erros que eu mesmo cometi.

— O que quer dizer?

— Madara está ciente do local onde o testamento está, e lá tem muitas respostas para várias perguntas que eu agora não teria forças para responder. — Tajima olhou para Izuna com melancolia, conseguindo apertar a mão de seu filho de leve, e este retribuiu o toque com força — Eu só quero o seu perdão, meu filho. Eu não consegui ficar forte pra te acompanhar até o fim, eu fugi do problema mais uma vez. Eu fui um covarde, e como um covarde eu tenho medo de morrer sem o seu perdão.

— É lógico, é lógico que te perdôo pai! — Izuna respondeu, sentindo que as lágrimas de antes voltavam a embaçar sua visão. Droga, seu pai o pegou desprevenido com toda essa conversa!

O mais velho fechou os olhos por longos minutos, respirando ruidosamente, aparentando bem mais relaxado do que antes. Parecia estar tentando dormir, e Izuna se debateu durante este tempo se deveria sair do quarto ou não, conseguindo se controlar o suficiente para piscar as lágrimas sem derramá-las. Quando optou por se retirar, ouviu o pai chamá-lo mais uma vez.

— Izuna, eu quero aproveitar esse momento pra te dar um conselho, um conselho que vai ser útil pro seu restante de vida. Não é um conselho como antes eu dava, porque agora nós sabemos que você não vai mais poder ser o filho genial nos estudos que eu sempre quis... não por muito tempo.

— Não fale isso. Madara vai achar a cura e...

— Nem você acredita mais nisso Izuna. — Tajima falou baixinho, abrindo os olhos e encarando-o com seriedade — Madara não está aqui pra você adotar esse discurso otimista. Madara não é Deus, e você sabe disso.

Izuna sabia, e sentiu seu coração se contrair com aquelas palavras. Era verdade, Madara não era Deus, isso era uma certeza que ele tinha, ele só não sabia que seu pai havia percebido a mesma coisa. O caso de sua família era do tipo que apenas um milagre daria conta, e Madara não podia realizar um milagre. Tajima entendia algo que Madara parecia jamais entender.

— O que eu faço pai? — Izuna questionou, verdadeiramente apavorado naquela altura do campeonato, deixando seu maior medo evidente do seu tom de voz — Madara não aceita que eu vou morrer, ele vai definhar quando isso acontecer, ele...

— Shii, escute Izuna. — Tajima murmurou, chamando-o para perto novamente com um aceno de mão comedido — Madara está doente também.

— Doente? Mas...

— Não como nós. Ele está doente por você, e está te deixando doente por ele também.

Izuna fez uma careta naquele momento, compreendendo as palavras do pai. Era cedo demais para comemorar a ausência do discurso sobre incesto, não era? O que deveria fazer? Negar, como Madara havia instruído? Não parecia uma conduta efetiva, Tajima não parecia ter dúvidas do que falava...

— Eu o amo. — ele decidiu admitir, porque negar não ajudaria em nada — Mais que tudo. E nada que o senhor falar agora vai mudar os meus sentimentos.

Tajima suspirou baixinho, deixando um sorriso brotar seus lábios mesmo com toda dor que sentia. Talvez, para ele, ainda fosse difícil compreender que o comportado Izuna tinha seus breves momentos de rebeldia.

— Eu sei. — ele respondeu, fracamente, não parecendo irritado com a confissão do pecado de Izuna — Eu vejo no olhar de vocês, desde que eram criancinhas. Isso talvez seja culpa minha, talvez toda a minha distorção como figura paterna tenha causado esse vício que vocês criaram um pelo outro. Amar, Izuna, não significa que sempre trará algo bom.

— Mas...

— Por amor, eu cometi muitos erros na minha vida. Por amor, Madara e você estão cometendo pecados imensuráveis. — Izuna ia interromper o pai para se defender, mas Tajima o calou com um novo ataque de tosse, o qual durou pouco desta vez — Mas eu não estou aqui pra julgá-los. Eu só quero te dizer uma coisa.

Sem julgamentos? Isso era uma surpresa.

— Diga. — o garoto falou, curioso em ouvir palavras do pai.

— Dizem que o amor puro nunca acaba, apenas se transforma. Se Madara te amar desta maneira pura, ele vai compreender sua morte depois do período de luto necessário para ele. Se ele não compreender e o amor não se transformar, significa que não era um amor puro e eu estava certo: é uma obsessão.

Izuna nunca havia encarado o que Madara sentia por ele, ou vice versa, como uma obsessão. A palavra soava ruim em seus ouvidos e ele não gostava de aceitar essa possibilidade; mas para o bem do pai, ele daria corda para aquela conversa.

—E se for a segunda opção?

— Se for a segunda, meu filho, é problema do Madara. Não se martirize por algo que você não poderá mudar, apenas por aquilo que está no seu alcance. Tente assegurar Madara de que você aceita a morte como algo natural, e que você gostaria que ele aceite isso também.

Izuna assentiu, se sentindo mais leve com as palavras de seu pai. Era algo a se pensar, talvez fosse bom começar a convencer o Madara de que isso iria acontecer cedo ou tarde.

— Eu... eu não quero morrer. Mas eu aceito, sim, eu aceito a natureza. — ele respondeu seu progenitor, sentindo que ele ansiava por uma resposta sobre o assunto.

Tajima fechou os olhos, aparentemente muito mais calmo, suspirando fundo antes de falar suas palavras finais e dar aquela conversa por encerrada.

— Então, se você quer fazer algo pelo seu irmão em vida, apenas faça com que ele aceite também. Se ele não aceitar, apenas tenha a paz de que você fez tudo que podia ser feito. E depois, no outro mundo, Deus julgará o pecado incestuoso de vocês dois. De qualquer forma, assim como você me perdoa, eu perdôo vocês... Vocês sempre serão meus filhos, por pior pai que eu tenha sido em vida.

Izuna, apesar de amar muito seu pai, não sabia exatamente o que devia dizer diante daquela declaração. Optou, portanto, para ficar ao seu lado até que ele adormecesse, refletindo sobre os assuntos que acabaram de discutir.

x-x-x

I will lay the gentle hands in your controlling gaze

I will be your servant through your darkest days

I will make the sacrifice and change just for you

I will dive into the essence of your purest blue

.

Eu pousarei mãos gentis no teu olhar controlador

Serei teu servo através de teus dias mais escuros

Farei o sacrifício e mudarei só por ti

Mergulharei na essência de tua tristeza mais pura

x-x-x

Izuna despertou com um ruído suave de click da maçaneta, mas estava com preguiça demais para abrir os olhos no momento e queria voltar a dormir. Provavelmente Madara estava saindo do seu quarto pra falar com algum médico, portanto não havia motivos para despertar. Humm... talvez fosse uma boa ideia pedir pra Madara buscar um cigarro quando retornasse, mas a preguiça de chamá-lo era maior.

Estava com uma crise de saúde, princípio de pneumonia. Não era nada do nível que os irmãos costumavam ter, mas Madara andava superprotetor demais, obrigando-o a ficar internado até melhorar o suficiente e não deixando que ele fumasse com a mesma frequência que antes. Apesar de ele detestar ficar no hospital, entendia a preocupação de Madara e aceitava sem discutir as condições, aguentando até o seu limite antes de requisitar o tabaco.

Izuna estava triste e desmotivado desde a morte de Tajima há poucas semanas, mas ao menos conseguiu se despedir do pai com certa dignidade depois da última conversa, o que lhe deu um conforto. Madara, inclusive, parecia ter feito as pazes em definitivo com o pai antes do fim, o que também deixou o mais novo satisfeito. Ainda sim, estava mais uma vez em luto (luto este que parecia eterno) e o único conforto que tinha disso tudo é que ele seria o próximo. Não precisaria mais presenciar a morte de seus parentes, sua hora estava chegando; ele podia sentir.

Izuna pensava bastante a respeito de sua última conversa séria com seu pai, e nas orientações que ele lhe dera pros últimos meses de sua vida. Estava se perguntando se tentar convencer Madara do inevitável seria o correto a se fazer, ainda mais depois que os dois abriram o testamento e se deram conta de um fato inédito e inovador: eles possuíam um irmão mais velho, irmão jamais mencionado para Izuna. Já para Madara... bom, ele não tinha certeza se Madara sabia a respeito da identidade do irmão; Madara parecia tão cheio de mistérios ultimamente.

Ele se chamava Fugaku Uchiha, e era um pouco mais velho do que Madara. A informação, apesar de chocar Izuna (ele jamais esperou que seu pai tivesse outro filho, ou que escondesse a existência dele), lhe deu um pouco de esperança. Se Madara se entendesse com esse tal de Fugaku, ele não ficaria sozinho após sua morte. Seria ótimo! Ele ainda teria uma família, teria um irmão, um conforto neste mundo cruel.

Mas Madara não queria tocar muito no assunto, esquivando-se dele toda vez que Izuna mencionava Fugaku. Por causa disso, o garoto não sabia direito se Madara realmente desconhecia a existência deste irmão perdido, mas sabia que cedo ou tarde a partilha do testamento se iniciaria e os dois teriam que se encontrar para a divisão de bens; Izuna torcia para estar um pouco saudável para poder ir nesta reunião.

De todo modo, seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir uma voz soar em alto e bom som na entrada do quarto, o que surpreendeu Izuna, pois acreditava estar sozinho no momento.

— Madara Uchiha? — era uma voz desconhecida, que questionou num tom suave, fazendo com que Izuna se sentisse bem mais acordado. Um estranho estava em seu quarto e chamava pelo seu irmão, que parecia ainda estar presente. Ele compreendeu: o barulho de porta se abrindo e o click da maçaneta não eram um indicativo de que Madara se retirara; era a evidência de que eles tinham companhia.

Certo, Izuna ainda gostaria de morrer com certa dignidade e manter longe o comportamento infantil, mas Madara andava dificultando muito as coisas desde que ele começou a ter crises: não dizia mais como estava as pesquisas, não falava sobre tratamentos, nem qualquer assunto relacionado à AIDS. Ele estava lhe dando o silêncio que sua família realizava quando vivos, e isso estava acabando com sua paciência.

Izuna se sentia injustiçado. Afinal, ele lutou tanto para ser digno de ouvir a verdade de Madara e agora o seu irmão simplesmente estava escondendo tudo dele de novo! Isso não era justo! E se Madara queria brincar de injustiças, ele podia muito bem participar desse joguinho.

Por isso ele tomou a decisão de não anunciar seu despertar. Não havia outro jeito de lidar com o silêncio de Madara, ele simplesmente estava buscando o que era justo; não era bisbilhotar, era? De qualquer forma, ele manteve os olhos fechados e os ouvidos atentos, prestando atenção em cada palavrinha proferida.

— Sim, eu sou Madara Uchiha. — ouviu seu irmão responder, bem como o ruído de alguém caminhando até a porta; decerto Madara se levantara para cumprimentar o visitante.

Izuna aproveitou que os dois estavam longe e espiou pelos olhos semicerrados. Percebeu, para a sua alegria, que se encontrava em uma posição muitíssimo privilegiada: seu rosto estava virado para a janela, e ao lado dela havia um armário de vidro que refletia os dois presentes de uma maneira bastante nítida, Izuna conseguiria espiar!

O visitante era, definitivamente, muito parecido com Tajima, e essa simples constatação fez seu coração bater mais forte. Possuía o mesmo olhar, o mesmo formato do rosto, apesar do cabelo ser um pouco diferente. Izuna quase pôs tudo a perder e fez um ruído de surpresa, mas conseguiu se refrear a tempo, entendendo quem era o estranho visitante antes mesmo de ele se apresentar.

— Olá, eu sou...

— Fugaku Uchiha. Eu estava te esperando. — Madara falou, confirmando as suspeitas de Izuna.

Sim, o homem, que aparentava ser apenas alguns anos mais velho do que Madara, só podia ser Fugaku Uchiha. Mas porque Fugaku estaria ali, no seu quarto de hospital? Izuna acreditava que Madara e Fugaku só conversariam pra discutir a partilha da herança, que nem era tão grande assim. Mas ali estava ele, sem advogados, e aparentemente em um encontro combinado.

O que estava acontecendo?

— Este é o garoto Izuna? — Fugaku perguntou, virando o rosto em direção do caçula. Izuna não se incomodou em fechar os olhos, pois do ângulo que eles estavam não conseguiriam ver que estava acordado, nem mesmo pelo reflexo.

— Sim, ele é o filho mais novo do Tajima, do último "casamento".

— Vejo que você também não tinha uma relação muito boa com Tajima. — Fugaku comentou com apatia, Madara deu de ombros.

— Tínhamos uma relação complicada... — Madara respondeu com sinceridade, talvez um pouco tristonho — Mas acho que nos entendemos um pouco melhor no fim da vida dele.

— Compreendo. — Fugaku respondeu, sua voz soando um pouco ressentida. De certo, mesmo com toda relação complicada que Madara e Tajima tinham, a relação que Fugaku tinha com o pai não devia ser muito melhor, se não pior. Ele sequer foi ao velório... — Você mencionou que queria falar a sós, o menino pode acordar.

— Ele não vai acordar. Ele está sobre o efeito de medicamentos fortes, vai dormir por algumas horas. Podemos conversar sem problemas.

Oh, então era isso. — Izuna finalmente constatou pra que servia o comprimido que ele deixou de tomar depois de sua última refeição: era um sedativo. Maldito Nii-san! Só esperava que Madara não inventasse de olhar pra bandeja depositada na mesinha do canto do quarto, porque se ele visse o comprimido saberia que Izuna não estava dopado coisíssima nenhuma.

— Então diga sobre quais negócios pretende tratar. — Fugaku falou com impaciência, cruzando os braços e deixando claro que não estava confortável naquele lugar.

— Eu acho que se discutirmos nossos assuntos com calma, chegaremos a um acordo que pode beneficiar tanto a mim quanto a você. — Madara respondeu com educação, mas por algum motivo Fugaku pareceu interpretar aquelas palavras como uma afronta.

— Amigo, olha, eu sei que não nos conhecemos e tudo mais, mas eu não pretendo abrir mão da minha parte da herança. É justo, é de sangue, e eu estou precisando de dinheiro. Eu sei os meus direitos, sei que um pouco do que era de Tajima é meu, apesar de ele ter deixado mais para o Izuna no testamento e...

— Eu não tenho a mínima intenção de tirar esse dinheiro de você, muito pelo contrário: eu abro mão da minha parte da herança, se você me ajudar. E eu tenho mais dinheiro para oferecer a você, caso coopere.

Izuna se sentia curioso com aquelas palavras, não entendendo onde Madara queria chegar com aquele acordo. Concentrou-se bastante para manter sua presença despercebida, e seus ouvidos atentos.

— Isso me interessa. — Fugaku respondeu com um aceno de cabeça, apesar de manter o olhar desconfiado a postos — Mas o que você iria ganhar perdendo esse dinheiro?

— Eu não ligo pra dinheiro. — Madara respondeu com sinceridade. Izuna sabia muito bem que Madara nunca foi do tipo materialista, ao contrario de Tajima e os trigêmeos — Eu quero curar meu Otouto... Izuna ainda tem chances.

Izuna sentiu seu coração doer diante da eterna esperança do irmão. Ele já estava conformado com a eminência de sua morte, mas seu Nii-san se recusava em pensar nessa possibilidade. Sentiu os olhos acumularem lágrimas, pois não acreditava que Madara abriria mão da sua parte da herança para tentar curá-lo, isso era muito alem do que ele esperava!

Afinal, o que Fugaku poderia oferecer? Não fazia sentido!

Fugaku relaxou as expressões faciais, descruzando os braços e parecendo compadecido com a dor de Madara.

— O que ele tem? — Fugaku questionou, evidentemente se dando conta de que deveria ter feito essa pergunta antes.

— Izuna tem uma doença rara e de nascença, mas não é transmissível, então não se preocupe. — Madara respondeu mais do que rapidamente, o que não era uma mentira propriamente dita, apesar de aos poucos essa "doença" estar se tornando uma epidemia no mundo.

Decerto ele evitou dizer a real condição da saúde de seu irmãozinho para protegê-lo do preconceito, Izuna sabia disso; porque ele também fazia a mesma coisa, já que o comportamento de todo mundo ao seu redor mudava quando ele revelava exatamente o que tinha. E, ao esconder, ele não estava colocando ninguém em perigo, pois eles não iriam se infectar apenas por ficar no mesmo ambiente que ele.

— Oh... Eu lamento por vocês.

Apesar de Fugaku não ter nenhum vínculo emocional com eles, Izuna pode perceber que seu tom de voz parecia compadecido. Ele aparentava ser um bom homem, alguém de bom coração. Izuna se sentia triste por morrer sem conhecer seu irmão mais velho...

— Não lamente, eu acho que você tem algo que pode me ajudar. — Madara respondeu com energia, aparentemente empolgado com o rumo da conversa por algum motivo, surpreendendo os demais presentes no quarto — Você e sua namorada estão esperando um bebê, não estão?

Fugaku endireitou a postura, evidentemente se sentindo ameaçado com aquela pergunta. Ele devia ter cogitado a possibilidade de Tajima ter dado esta informação no leito de morte para Madara, mas ainda sim não gostou deste assunto ser trazido a tona naquele momento. Izuna conseguia perceber que Fugaku já tinha um grande protecionismo pelo seu filho que ainda não nasceu.

— Sim, Mikoto está grávida. Por quê? — ele questionou rispidamente.

Izuna viu pelo reflexo o sorriso enigmático de Madara, e nem mesmo ele conseguiu determinar o que o irmão pensava no momento.

— Eu sou um cientista, Fugaku. — ele falou calmamente, aparentando explicar algo óbvio para uma criança — Um químico, de renome. Talvez você não tenha ouvido falar de mim, pois trabalhamos em áreas diferentes, mas se você fosse da mesma área que a minha certamente me reconheceria. Há um tempo faço algumas pesquisas que podem ajudar Izuna a sarar dessa condição, mas para isso eu precisaria de um recém-nascido com o mesmo sangue de Izuna.

— Eu não estou entendendo.

Izuna já tinha entendido e sabia que Fugaku também entendera, só que não compreendia a audácia da tentativa de acordo de Madara. Ainda sim, o Uchiha cientista conseguiu ser ainda mais direto na sua proposta:

— Eu te dou todo o dinheiro, se você me der o bebê quando ele nascer.

Fugaku ficou em silêncio por bastante tempo, pensando em como responder uma audácia como aquela. Até mesmo Izuna estava mortificado diante da proposta, jamais imaginou que Madara tivesse a coragem de tentar um acordo como esse.

É claro que Fugaku não aceitaria! Estava na cara!

— Você está louco? — o mais velho respondeu, erguendo consideravelmente o tom de voz e perdendo um pouco a postura educada de antes — Como imaginou que eu fosse vender meu filho desta forma!?

— Te garanto que eu tenho um grande incentivo pra fazer você mudar de ideia.

Madara pegou uma pasta parda que estava há algum tempo acima da cômoda e que o caçula nunca havia dado atenção, e entregou para Fugaku. Fulminando, o mais velho aceitou o objeto e examinou o seu conteúdo, retirando de lá alguns documentos. Suas expressões faciais mudaram constantemente durante vários minutos, até que ele jogou os documentos em Madara, que conseguiu segurá-los antes que caíssem no chão.

— QUE MERDA É ESSA?

— São os exames da sua querida namorada, não foi tão difícil assim conseguir. Sabia que médicos em cidades pequenas são facilmente corruptíveis com um pouquinho de dinheiro e medicamentos sem patente como troca de câmbio?

— Mas... o que...? Mikoto está bem! Isso só pode ser uma farsa!

Fugaku parecia desesperado pelo que acabara de ler. Izuna teve certeza que Madara estava jogando pesado demais, apesar de não saber o que havia nos tais documentos.

— De acordo com esses exames, Mikoto está condenada a morte. — Madara explicava com um tom profissional, guardando os documentos cuidadosamente na pasta — A doença que ela possui é, atualmente, incurável e adquirida por uma mutação genética, ela morrerá em alguns anos. E é por isso que ela engravidou, Fugaku, na esperança de ao menos ser mãe antes de morrer.

— Ela não me disse nada...!

A voz de Fugaku soava fraca, Izuna conseguia observar o olhar apavorado do outro, bem como a expressão de vitoria no olhar de Madara. E, naquele momento, o pequeno começou a sentir raiva do irmão por estar tratando outra pessoa daquela forma, independente de suas motivações.

Não era justo.

— E por que ela diria? — Madara perguntou, ironicamente — Provavelmente está com medo de você deixá-la, de você não aguentar a doença. Você deve ter comentado em algum momento que ser pai para criar sua própria família, ela gostou da ideia, vocês estão apaixonados, e ela ao menos quer viver os últimos anos de vida bem ao seu lado.

— Como... como você parece conhecer tanto a respeito de nós?

Madara agora exibia um sorriso perigoso, gesto que fez Izuna se arrepiar dos pés a cabeça.

— Ah... A gente joga com as armas que pode, não é mesmo? — ele respondeu, gesticulando despreocupadamente — E eu não seria louco de revelar meu informante a você! A questão é o seguinte: você me dá o bebê e eu curo sua namorada, uma vida por outra. Eu te garanto que sua criança ficará a salvo e crescerá com saúde, assim como sua namorada continuará saudável e linda durante muitas e muitas décadas. Com o dinheiro que receberá de brinde, vocês até poderão se casar em breve.

— Você acabou de dizer que a doença não tem cura.

— Não tinha, mas agora tem. Eu descobri. — Madara respondeu, sorrindo de orelha a ponta — Mas sabe como é o processo burocrático do governo: a medicação só ficará disponível no mercado depois de toda papelada ser revista, o que geralmente dura mais de cinco anos, isso quando começarem a negociação, já que tenho informações de que o tratamento será engavetado até as próximas eleições e...

— Eu entendi seu jogo. — Fugaku respondeu rispidamente, forçando o outro a se calar. Mas Madara ainda sorria de maneira vitoriosa mesmo depois da interrupção, aparentando ter certeza de que seria uma questão de tempo até o outro ceder.

E ele estava certo, pois logo Fugaku abaixou o olhar, pensativo.

Izuna engoliu em seco, simplesmente não acreditando no absurdo que ouvia. Madara estava chantageando o pobre homem pra conseguir o filho dele! E mesmo se isso o ajudasse, como ele poderia...? Talvez por isso Madara tivesse tentado dopá-lo para ter essa conversa com Fugaku. Ele sabia que Izuna nunca, nunca mesmo, iria condizer com aquilo. Ele pretendia fazer aquela negociação nas suas costas!

Izuna estava furioso, mas ainda tentava se controlar para não tremer de raiva. Tinha que ouvir o fim da conversa.

— O bebê crescerá saudável, você disse. — Fugaku pontuou, ainda pensativo.

— Naturalmente. O criarei como se fosse meu irmãozinho, ou irmãzinha. — Madara respondeu, dando um sorriso torto de canto de boca que sempre deixou Izuna completamente apaixonado, mas no momento só causou repulsa.

Ele não conseguia reconhecer aquele homem no seu quarto de hospital...

— É um menino. — ele respondeu, olhando para seus sapatos — Nós descobrimos no ultrassom, semana passada. Itachi será o nome dele, Mikoto escolheu e eu gostei.

— Certo... Itachi, bebê Itachi, meu Otouto. Combina, não?

Madara parecia cada vez mais irônico, mas Fugaku estava tão perdido no momento que não o censurava mais, ou sequer percebia.

— Você realmente vai salvá-la? — ele perguntou, ainda incerto do que deveria fazer.

— Sim, a cura é certeira, sua namorada viverá mais que você, tenha certeza disso. Eu posso te explicar o procedimento passo a passo, se você concordar com a proposta.

Fugaku não respondeu durante um longo período de tempo, olhando para os seus pés. Todavia, subitamente virou sua cabeça em direção à Izuna, e o garoto suspirou baixinho para relaxar e não dar indícios de que estava acordado; fechou os olhos, mais por precaução do que por medo de ser descoberto, e assim que o fez ouviu a voz de Madara soar mais uma vez.

— Se você aceitar, um médico de minha confiança fará o parto de seu filho; Dr. Orochimaru, grande amigo e colega meu. Ele conseguira curar sua esposa com a técnica que eu descobri no próprio parto, na sala de cirurgia, e ela nem precisará ficar sabendo do procedimento cirúrgico. Vocês podem fingir que aconteceu um milagre. — Madara explicou o plano simples, enquanto Fugaku ouvia em silêncio — O bebê fica com Orochimaru e você dirá para Mikoto que a criança faleceu. Mikoto precisara ficar em coma induzido por alguns dias até seu organismo se estabilizar, e quando ela despertar você terá a sua disposição um túmulo falso com o nome de Itachi, bem como varias documentações falsas de registro de óbito, e de diagnostico de parto com complicações. Ela acreditará em você, com toda certeza.

— E se você realmente pretende criar Itachi como seu irmão, o que fará com Izuna e todos os trâmites legais?

— Eu tenho como comprar documentação pra Itachi, simularei uma adoção. Izuna... bom, com Izuna eu me entendo depois, não se preocupe. Ele vai gostar de Itachi, tenho certeza disso, e nós podemos dizer que o nome foi uma homenagem ao seu filho falecido.

Mas um grande período de silêncio se sucedeu, e Izuna se sentiu confiante o suficiente para abrir os olhos. Fugaku, agora, aparentava ter acabado de receber uma notícia de morte: estava apático, pensativo, observando o horizonte sem prestar qualquer atenção no que via. Madara parecia até um pouco compadecido com a dor do mais velho, e depois de algum tempo se pronunciou novamente.

— Vocês poderão ter outros filhos. — Madara o consolou, e Fugaku prestou atenção em suas palavras, retribuindo o olhar — Não é como se ela tivesse mesmo uma complicação no parto. E, curada de sua doença, Mikoto será tão fértil como qualquer outra mulher.

— Eu não acredito que você não entende que esse não é o problema. — Fugaku respondeu, entristecido demais para ficar irritado — Eu amo Mikoto mas eu também já amo Itachi, você está me obrigando a escolher entre eles.

— Não é como se eu fosse matar o bebê. Eu só vou precisar de alguns transplantes, a criança ficará bem e vai crescer com saúde, mas eu não posso devolvê-la pra você quando eu tiver certeza que Izuna se curou, pois Mikoto iria surtar e nós teríamos complicações.

— Eu sei disso! Mas...

— Mas isso não significa que vocês não possam conviver com Itachi, só não poderão conviver como pai e mãe. — Madara girou os olhos, explicando com impaciência — Se quiser, eu coloco vocês como padrinhos do Itachi, desde que a gente tenha alguma convivência no futuro.

O caçula tinha certeza que apesar de Fugaku aparentar aquela indecisão, ele iria recusar. Nada garantia que Madara iria manter sua palavra, e do jeito que as coisas iam o garoto sequer sabia se podia confiar no que Madara falava. Não parecia ter muito sentido, parecia estar faltando uma informação ali. De certo Madara estava escondendo algo, alguma jogada que somente ele, e talvez Orochimaru, soubessem.

Mas quando Fugaku respondeu, Izuna foi surpreendido. Porque a resposta, apesar de não ser uma afirmação nem uma negação, só demonstrava que em pouco tempo Madara conseguiria o que desejava.

— Eu preciso pensar.

Izuna perdeu metade da sua fé na humanidade nesta ocasião.

x-x-x

In between your whispers so sincere

(I'll catch you when you fall)

.

Dentre teus suspiros tão sinceros

(Eu te segurarei quando tu caíres)

x-x-x

Era Natal, mas aquela data não era muito boa pra família Uchiha.

Madara estava de folga durante as festividades de fim de ano, apesar de toda briga que teve no laboratório onde trabalhava no momento. Ele não queria folga, queria continuar suas pesquisas mesmo que não fosse remunerado por isso ou não dispusesse de uma equipe pra tal. Mas, ainda sim, ele não conseguiu permissão para adentrar o centro de pesquisas nesse período; afirmavam que ele precisava de uma folga, e o caçula achava que os superiores de Madara tinham razão dessa vez.

Por isso, ele estava na sala, olhando algumas anotações de seus cadernos de pesquisa, tentando trabalhar da maneira que podia em casa. Izuna, com o organismo um pouco mais forte depois do fim de sua última crise, atravessava a antessala do quarto de hotel onde moravam nas últimas semanas, para se sentar ao lado de Madara.

No fundo, ele tinha saudades de casa, até mesmo da quitinete de Madara. Aquele hotel, apesar de confortável, não era nem um pouco aconchegante, não se parecia com um lar. Passar o Natal em um lugar como aquele era extremamente triste, mas Madara estava trabalhando no laboratório daquela cidade agora, e achava que não havia necessidade de alugar um novo apartamento — ele ainda afirmava que conseguiria a transferência para os Estados Unidos novamente.

Izuna sabia que esse era um delírio do irmão, visto que os chefes de Madara só o transferiram praquele fim de mundo para dar "tempo ao tempo": não queriam demitir a mente brilhante de Madara, mas sabiam que no momento ele não era capaz de fazer um bom trabalho com todos os problemas familiares que o assolaram. Em suma, o "engavetaram" pra mais tarde, acreditando que depois do luto Madara retornaria como um bom profissional. O que era algo completamente desprezível, na opinião de Izuna. Tratar pessoas como robôs dessa forma não era algo que ele admirava.

Havia quem admirasse essa conduta: Orochimaru, o maldito colega de equipe de Madara, costumava afirmar que para sociedade ganhar sempre deve estar disposto a fazer perdas, e que tratar os humanos como uma ferramenta para a melhoria da sociedade era indispensável.

Izuna não sabia se era por falta de maturidade, mas ele discordava desse pensamento. No fundo, não sabia se valia tanto a pena viver num mundo onde a sociedade pensa dessa forma... Os fins realmente justificam os meios em todas as ocasiões?

Essa sua reflexão sobre o mundo sempre acabava fazendo-o se lembrar das palavras finais de seu pai, que faziam ainda mais sentido depois do que ouvira no hospital na sua última internação. Não sabia ao certo os planos de Madara com o tal bebê de Fugaku Uchiha, e apesar de não acreditar que seu irmão fosse matar uma criança inocente, ele não tinha um bom pressentimento com relação a isso.

Se a criança ajudaria Madara a encontrar a cura de alguma forma, valeria a pena sacrificar o convívio de um bebê com a família por causa disso? Seu irmão estaria avaliado todas as nuances ao fazer essa escolha, ou só estava agindo com o seu egoísmo próprio, sua necessidade desmedida de manter quem amava perto de si? E o amor de Madara valeria mais que o amor de Fugaku e Mikoto pela criança? Havia sequer como comparar esses dois sentimentos? Será que Tajima estava certo e não passava de uma obsessão?

Talvez fosse melhor começar a seguir o conselho de Tajima e fazer com que seu irmão aceitasse a sua morte eminente de uma vez por todas. É Natal, e talvez todo o ar esperançoso que essa data trazia pudesse contagiar um pouco o seu irmão para que ele acreditasse mais no plano de Deus. Sim, parecia um bom momento para começar essa manobra.

Izuna respirou fundo e pigarreou baixinho, trazendo a atenção do irmão para si.

— No ano que vem, quando for Natal de novo, o que você pretende fazer, Nii-san?

Madara, apesar de ter parado de ler para ouvir a pergunta, não levantou o olhar da caderneta para encarar Izuna ao responder.

— Ano que vem você provavelmente vai estar em processo de recuperação, então nós teremos que ser cuidadosos. Mas podemos viajar pra um lugar quente, se for de seu interesse, desde que você não abuse do sol.

— Não Nii-san, o que você pretende fazer se eu não tiver mais aqui?

Talvez essa abordagem não fosse muito boa, porque Madara pareceu se dar conta de onde Izuna queria chegar com aquela conversa. Deixou o caderno cair no chão e olhou para o garoto com incredulidade.

— Você esta duvidando que eu vou te curar?

Oh, de novo esse papo... — o caçula não pode deixar de pensar, girando os olhos com impaciência.

— Eu apenas estou cogitando a possibilidade Aniki, isso não é anormal de acontecer. É o ciclo da vida. — tentou, em vão, se explicar.

Madara não pareceu nada feliz com sua resposta e rispidamente pegou o queixo de Izuna, forçando-o a olhar em seus olhos, que exibiam um ultraje palpável.

— Izuna, não comece! — ele sibilou, demonstrando não estar com um humor muito bom naquele momento.

E, ao invés de se calar e tentar esta abordagem novamente em outra ocasião, Izuna continuou cutucando o leão com vara curta.

— Mas Nii-san, você tem que estar preparado para um plano B se...

— EU TENHO UM PLANO B! — Madara gritou em plenos pulmões, Izuna se encolheu para longe, finalmente percebendo que não era o momento certo pra abordar aquele assunto — VOCÊ ACHA QUE O PIRRALHO DO FUGAKU É O QUE?

— Nii-san, não fale assim...

— ELE É O PLANO B! — o mais velho continuou a gritar, sem se importar com a reação apavorada do outro, parecendo finalmente perder o autocontrole — CLARO, EU TERIA QUE ESPERAR ALGUNS ANOS, MAS QUE SE FODA! ELE SERIA A SUA RENASCENÇA IZUNA, ENTAO NÃO DIGA QUE EU NÃO TENHO UM PLANO B!

As palavras de Madara não fizeram sentido algum para Izuna, mas ele não contestou o irmão no momento de fúria. Nunca vira o irmão falar assim com alguém que não fosse Tajima nas piores discussões dos dois, e agora toda aquela gritaria estava direcionada pra ele. Arrependeu-se totalmente da forma como tocou no assunto, se perguntando o que poderia fazer para acalmar o irmão.

Ele acabou revelando para Madara que ouviu a conversa no hospital, e por conta disso os ânimos entre os dois não estavam muito bem. Madara se sentiu ofendido pelo menor ter agido com tamanha dissimulação, só que não chegou a brigar com Izuna — apenas estava ofendido desde então, apesar de se esforçar para o sentimento de traição se esvair.

E todo esse comportamento de Madara fez com que Izuna se sentisse culpado. Talvez, se Izuna fosse um pouco mais experiente, ele pudesse perceber que a técnica de seu irmão era de manipulação emocional para "inverter o jogo", causando na vitima o sentimento de culpa; mas Izuna, apesar de ser uma criança especial, não tinha experiência amorosa o suficiente para perceber isso.

De todo modo, Madara pareceu relaxar um pouco depois da explosão. Respirou de uma forma mais calma e se aproximou de Izuna no sofá, fazendo com que o menor se deitasse sobre o encosto. Ele se aproximou o suficiente para abraçar o pequeno, que relaxou visivelmente com o toque.

— Desculpe por gritar com você. — ele pediu baixinho, ajeitando os cabelos do outro que cobriam seus olhos. Estavam ficando grandes, precisavam de um corte em breve.

— Desculpas aceitas. — Izuna respondeu, dando um selinho nos lábios do irmão, que novamente o abraçou forte, enfiando o rosto na dobra de seu pescoço. Ufa, Madara não estava mais irritado com ele! Ele não havia posto tudo a perder, afinal!

— Eu entendo que você perca as esperanças de vez em quando, acho que é normal. — ele respondeu, dando uma mordida suave no pescoço de Izuna, surpreendendo-o com a mudança repentina de comportamento — Talvez eu devesse te dar uma prova maior da minha determinação.

Izuna não gostou de toda aquela mudança de comportamento para algo mais sexual. Claro, ele gostava de sexo, Madara realmente o fazia se sentir muito bem quando os dois namoravam daquele jeito, mas aquele não era o momento pra isso, era Natal!

— Madara... eu não acho que seja falta de...

Mas antes que ele pudesse argumentar qualquer coisa, Madara o interrompeu ao friccionar sua virilha com a mão e fazendo-o se engasgar com a surpresa e desconforto.

— A gente podia fazer sem camisinha hoje.

Essa afirmação definitivamente fez o mundo de Izuna parar de girar, e ele até esqueceu-se do seu desconforto sob o toque de Madara.

— O... o quê? — ele questionou, rezando internamente para que tivesse ouvido errado. Como Madara podia propor algo assim? Pra alguém como ele?

— Aí eu me infectaria e assim você ia acreditar que eu não tenho dúvidas de que vou achar a cura, porque eu não me infectaria se não tivesse certeza que iria me curar, né? — Madara se afastou um pouco de Izuna, mas ainda não diminuiu a intensidade da massagem no baixo ventre do garoto — O que acha?

Seu Nii-san o observava como se estivesse aguardando uma resposta para algo corriqueiro e normal, como "o que acha de comermos uma torta hoje de tarde?". Entretanto, Izuna estava com olhar arregalado diante daquele discurso louco, fazendo estrema força cognitiva pra compreender aquele absurdo de uma forma plausível.

— O que acha? — Madara repetiu ao não receber uma resposta, se inclinando para beijar o pescoço do caçula — Eu também estou curioso pra saber como é fazer sem.

Izuna, num ímpeto de lucidez, conseguiu voltar à realidade e empurrar Madara para longe de si. O continuava a fitá-lo com surpresa e indignação, levando as mãos à boca num gesto de desespero, contendo assim suas emoções.

O mais velho, por sua vez, o observava completamente perdido, não entendendo o que fizera para que seu irmão agisse daquela forma. Quando respirou fundo para perguntar o que o afligia, o som do telefone interrompeu a tensão do ambiente. Aproveitando o momento de fuga, Madara foi atender o aparelho, permitindo a entrada de alguma visita no quarto; mesmo depois de desligar o telefone ele não voltou para o sofá, abrindo a porta e aguardando os visitantes no corredor.

Izuna aproveitou os minutos que se seguiram para se acalmar, e decidiu que teria que conversar sobre aquilo com Madara mais tarde (que espécie de ideia imbecil era aquela!?), já que agora teriam visitantes. Devia ser Orochimaru, o maldito colega de Madara que vivia importunando sua vida. Apesar do homem nunca ter feito nada contra ele nem o tratado mal, o Uchiha caçula simplesmente não gostava da presença dele. E não entendia porque ele sempre vinha visitá-lo, afinal Madara não parecia gostar muito de ver Orochimaru perto dele também...

Mas Izuna estava equivocado: logo um casal novo adentrou o quarto, cumprimentando Madara casualmente com votos de feliz Natal. Izuna perdeu o fôlego mais uma vez naquela noite ao reconhecer o homem do casal: Fugaku Uchiha.

Fugaku era, tal qual Izuna conseguira perceber através do reflexo na outra ocasião, muito parecido com Tajima, e a comparação de aparência fez aquele característico aperto no coração voltar: fazia apenas um mês que seu pai havia falecido, e apesar da dor de perder seus irmãos ainda latejar em seu peito, com toda certeza o que mais doía e o deixava desolado era a perda de seu genitor, algo que ele nunca imaginou que fosse doer tanto.

Mas agora não era momento para permitir a volta da tristeza, e por isso Izuna redirecionou sua atenção: a mulher ao lado de Fugaku era extremamente bela, e poderia ser considerada uma parente se Izuna não soubesse que, muito provavelmente, ela era a namorada de Fugaku. Tinha os cabelos pretos e longos, olhos igualmente cor de ônix como toda a família dos homens presentes. Ela não era uma Uchiha, não de sangue, mas se parecia muito com uma. Talvez fossem parentes distantes, talvez tivessem a mesma descendência, vai saber.

Mikoto (ele ainda se recordava do nome que Fugaku mencionara no hospital) percebeu que ele prestava atenção nela e retribuiu seu olhar, abrindo um sorriso radiante, como se tentasse reconfortá-lo com aquele gesto. Izuna instintivamente olhou para a barriga da jovem adulta, percebendo a pequena saliência que indicava que ela deveria estar mais ou menos no quarto mês de gravidez.

Sentiu-se péssimo vendo Mikoto adentrar sua casa com tanta despeocupação, mal imaginando os planos que Madara tinha pra ela. Izuna decidiu que, naquela noite, iria fazer Madara esquecer aquela besteira toda de uma vez por todas!

Independente disso, por que Fugaku e Mikoto estavam ali?

Fugaku parecia extremamente desconfortável por estar naquele lugar; olhava para Madara intensamente e o seu Nii-san retribuía o olhar, como se os dois tentasse negociar um acordo agindo daquela forma. Todavia, Mikoto não parecia dar atenção para eles, ainda se concentrando em Izuna e caminhando em sua direção para cumprimentá-lo.

— Você deve ser o Izuna-chan! — a namorada falou, esticando a mão para cumprimentá-lo. Apesar de torcer o nariz para o apelido (não que ele se incomodasse mais em ser chamado de 'chan' por causa de sua altura, mas ele considerava que tal apelido não podia ser usado por estranhos, em memória a sua família que costumava chamá-lo assim) Izuna aceitou o gesto e apertou de leve a mão dela — Eu sou Mikoto, e este é Fugaku Uchiha, o irmão mais velho e desnaturado de vocês.

Ao ouvir a voz de sua namorada, Fugaku desviou o olhar para Izuna, e o garoto soube que apesar de tê-lo visto deitado naquela cama ele ainda devia ter curiosidade para conhecê-lo quando estivesse desperto.

— Muito prazer. — Izuna disse de maneira genérica, tanto para Mikoto quanto para Fugaku, se demorando na troca de olhar com o irmão mais velho.

De certa forma, apesar da melancolia pela semelhança absurda com o pai, Izuna não pode dizer que não gostou de Fugaku à primeira vista. Muito pelo contrário, ele o considerou alguém que transmitia confiança e integridade, e naquele momento Izuna odiou Madara por fazer o que estava fazendo com aquele casal (apesar de saber que, movido pela paixão, acabaria perdoando o irmão e arranjando desculpas para o seu comportamento dentro de minutos). Mas, naquele momento, Izuna só conseguia se lembrar de todas as revelações que descobrira depois da morte de Tajima e em conversas com Madara; e não foi nem um pouco fácil fazer Madara revelar a verdade...

Depois e muitas noites ao lado de Madara, seu Aniki confessou algumas coisas:

Tajima nunca foi um homem muito integro quando o assunto era casamento, e teve um relacionamento com três mulheres ao mesmo tempo durante grande parte de sua vida: a mãe dele e dos trigêmeos, a mãe de Madara e a mãe de Fugaku. Apesar de ter dado seu sobrenome a todos os filhos, ele escondia as famílias umas das outras, de modo que durante muitos anos elas não sabiam que estavam em uma união estável com um homem poligâmico; se consideravam as legítimas esposas de um "casamento juntado".

Quando Madara nasceu, Tajima e a mãe dele já haviam brigado e terminado a relação de uma vez, justamente por ela ter descoberto toda a farsa (nessa altura do campeonato, Tajima tinha duas concubinas: a mãe de Fugaku e a de Madara). Quando Tajima começou a namorar com a mulher que seria a futura mãe dos trigêmeos e Izuna, a mãe de Madara e ele começaram a ter um relacionamento de ex-conjugues infinitamente pior do que na época do término, talvez pelo orgulho ferido e pelo sentimento de ter sido "trocada". Izuna mal entendia o que aquelas três mulheres tinham na cabeça pra dar chance a alguém com o temperamento tão complicado como Tajima, quem dirá compreender seus rancores.

As brigas eram constantes e isso afetava muito a vida de Madara. Na maioria das brigas, sua mãe ameaçava contar a verdade pra a outra mulher ou impedir as visitas de Tajima, e foi toda essa confusão que tinham dentro de casa que fez Madara e Tajima se desentenderem constantemente na sua relação de pai e filho, pois Madara acabava tomando as dores da mãe.

Quando Tajima resolveu abusar ainda mais da sorte e começou uma relação conjugal a futura mãe dos trigêmeos, a ex-primeira esposa não aceitou de maneira alguma. Acabou fazendo uma visita à "segunda esposa" de Tajima, que ficou extremamente revoltada ao saber das traições e proibiu Fugaku de manter contato com o pai. Orgulhoso do jeito que era, logo Tajima desistiu do filho mais velho, e agora cansado de tanta confusão, continuou com a última conjugue, que logo se tornou sua esposa e lhe deu quatro filhos; a mãe de Izuna morreu sem saber a verdade sobre seu marido, e talvez fosse melhor assim... Ela ao menos teve um casamento mais feliz que as outras duas.

De qualquer forma, era difícil saber quem estava doente e passou o vírus pra quem neste relacionamento complicado que Tajima tinha com as três mulheres; poderia até ser alguém de fora desta confusão amorosa, em uma noite casual (Izuna já havia considerado todas as probabilidades e não botava sua mão no fogo pelo pai, ele provavelmente teve outras namoradas e mulheres da vida). A única certeza era que todas as mulheres morreram de uma hora pra outra por causa de doenças que inicialmente não eram tão ofensivas assim, demonstrando que provavelmente não tinham seu sistema imunológico em perfeito estado. Elas deviam estar infectadas, mas não se conhecia a existência desta doença na época em que elas morreram, de modo que a causa da morte foi atribuída a outras doenças intermitentes. Izuna também acreditava que as mães de Fugaku e Madara se infectaram depois do nascimento de seus filhos, já que eles não eram portadores da síndrome.

Izuna suspeitava que Tajima morrera totalmente arrependido pelo seu passado, se sentindo culpado pela morte de seus filhos e das mulheres que um dia amou (do seu jeito egoísta e possessivo). De certa forma, Izuna tinha um chute de quem trouxera essa doença pra vida deles, e esse alguém certamente era o próprio Tajima e sua ausência total de fidelidade conjugal. Ele, todavia, não culpava o pai — Tajima podia não ser perfeito, mas se pudesse escolher certamente não queria um fim como aquele para todos. Ele tinha seus defeitos, mas não tinha um mau coração. E quem iria imaginar que algo terrível assim apareceria para assombrar a humanidade?

Era uma fatalidade... Não havia culpados.

Madara e Fugaku eram, aparentemente, os únicos saudáveis naquela família. Izuna sentia-se um pouco reconfortado por saber que o sangue Uchiha ainda poderia seguir a diante no futuro, e quem sabe esse "extermínio" fosse deixado no passado, sem memórias sobre o assunto, como deveria ser. Ele preferiria ser esquecido do que ser lembrado como uma mácula numa família de renome como esta.

Izuna não pode seguir seus devaneios sobre o futuro dos Uchihas, pois logo Madara chamou a atenção de todos no quarto.

— O que vocês fazem aqui?

— A mãe de Mikoto mora na cidade, me avisaram no seu laboratório que você estava hospedado aqui. Resolvi passar pra dizer feliz Natal, e conversar sobre assuntos testamentários.

Era mentira, Izuna conseguia perceber a mentira no tom de voz de Fugaku. Provavelmente o homem viera conversar sobre a condição de sua namorada, talvez fazer Madara rever o trato. Mas parecia que apenas Izuna e Madara perceberam a mentira no tom de voz do Uchiha mais velho.

— Bom, vamos conversar no mezanino então, para não incomodar Mikoto e Izuna com esse assunto chato. — Madara propôs, ganhando um olhar furioso do caçula em retorno.

Fugaku aceitou com um aceno de cabeça e logo os dois estavam longe dali, rediscutindo seus problemas de negociação. Mikoto, todavia, não pareceu ligar em ser deixada a só com o menino; pelo contrario, ela parecia muito feliz em estar na presença de Izuna, por algum motivo que ele não compreendia.

— Você é muito bonitinho sabia? — ela disse, esticando a mão e pegando nos cabelos de Izuna; ele tentou se esquivar, sem sucesso — Você é bem magrinho, mas acho que é normal pra idade de crescimento.

Mulher louca. — Izuna não pode deixar de pensar, mas não interrompeu o toque dela.

Apesar de reclamar internamente deste tipo de comportamento, Izuna sentia falta de um carinho mais... maternal? Feminino? Não sabia definir, o fato é que Mikoto possuía no olhar o mesmo brilho que sua mãe tinha quando o avistava, e até a forma como acariciava seus cabelos era semelhante.

Vai ver é porque ela será mãe em breve. É instintivo. — ele imaginou, sentindo pena de Mikoto ao pensar que Madara iria tirar sua criança. E naquele minuto, apenas naquele ínfimo segundo, ele pensou em revelar para a mulher a verdade sobre a reunião dos "amados irmãos Uchiha".

Contudo, no fim das contas sua lealdade por Madara era maior, e ele não queria que o irmão sofresse qualquer tipo de represália por fazer algo para ajudá-lo, mesmo que fosse um crime.

— Fugaku mencionou que você anda doentinho, é por isso que está magro assim? — ela perguntou com doçura, colocando as mãos no colo e sorrindo de leve para ele.

Izuna sentiu suas bochechas se esquentarem pela vergonha.

— É por isso sim. — ele respondeu baixinho, se contentando em dizer uma meia-verdade e torcendo para que ela não desejasse entrar em detalhes.

Mikoto pareceu ter uma súbita ideia, deixando um "ahá!" escapar de seus lábios. Pegou sua bolsa que estava casualmente depositada no sofá, abriu-a e retirou de lá uma grande barra de chocolates, entregando-a para Izuna, que a olhou sem entender o movimento.

— Eu sempre gostei de chocolate e Fugaku pensa que comprando chocolates pra mim eu vou ficar feliz. Ele está tentando me agradar, pobrezinho, mas na verdade desde o terceiro mês de gravidez eu não aguento mais olhar pra chocolate... então feliz Natal Izuna. — ela abaixou consideravelmente o tom de voz, sussurrando em seu ouvido — Pela cara do Madara, ele não é do tipo que traz doces pra casa, né?

Izuna riu com vontade nesse ponto da conversa, gostando um pouquinho mais de Mikoto. Abriu o embrulho do chocolate e pegou um pedaço, saboreando o cacau com devoção. Realmente, fazia meses que ele não via um chocolate... Madara certamente não gostava que ele comesse coisas "não saudáveis", afirmando que poderia piorar seu quadro de saúde.

Ele não deu a mínima pra isso nesse momento.

— Obrigado. — ele agradeceu, comendo mais um quadradinho da barra. Mikoto pareceu contente, observando-o se deliciar com o doce.

— Eu vou ter um menino sabe, descobrimos assim que deu pra ver o sexo. — ela anunciou, com orgulho. Novamente a pontada de culpa voltou ao coração de Izuna, mas ele continuou mastigando o doce sem responder — Vamos chamá-lo de Itachi, e talvez vocês possam ser amigos um dia. Eu gostaria que Fugaku se aproximasse a família viva dele, mantivesse contato contigo e com Madara... se isso acontecer, eu farei questão que você conviva com seu sobrinho!

Sobrinho... ele nunca havia parado pra pensar, mas Itachi seria sim seu sobrinho... Não era apenas o filho de Fugaku, era sobrinho dele e de Madara.

Isso tornava as coisas imensamente piores.

— É... Quem sabe... — ele comentou, deixando seu olhar ficar cada vez mais distante, enquanto a mulher continuava a tagarelar sobre sua família, sua gestação, e contar histórias engraçadas sobre Fugaku.

Izuna, em um determinado momento, se permitiu participar da conversa e se divertir com Mikoto. De certa forma, ele realmente gostou dela. E foi naquele momento que ele teve a total certeza de uma coisa na sua vida: Ele não iria permitir que Madara tirasse Itachi do casal. Não mesmo. Ele deixaria de aceitar tudo com passividade, porque a inocência já estava corrompida demais. E, por Madara e por aquele casal, ele criaria bom senso na cabeça de todo mundo.

Estava decidido: ele resolveria esse impasse, ou não se chamava Izuna Uchiha.

x-x-x

Through the eyes of broken innocence

(I'd sell my heart for stones)

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Através dos olhos da inocência corrompida

(Eu venderia meu coração em troca de pedras)

x-x-x

— Madara, eu quero que você pare de importunar o Fugaku.— Izuna falou firmemente assim que seu Aniki se despediu do casal e trancou a porta — Eu não quero que você pegue o Itachi pra morar conosco, e eu não vou te perdoar se você fizer isso.

Izuna pensou em deixar essa conversa pra outro dia, mas não se controlou. Cada minuto que passou ao lado de Mikoto o deixou ainda mais empenhado para mudar o pensamento de Madara o quanto antes, de modo que ele não teve paciência o suficiente para tocar no assunto na manhã seguinte e acabou falando naquela mesma noite.

Madara deixou a mão escorregar pesadamente da maçaneta, batendo-a contra o seu corpo ao ouvir as palavras duras de Izuna. Depois de algum tempo sem mover sequer um músculo para alterar sua posição e ainda dando as costas para Izuna, o mais velho o questionou com a voz suave.

— Você não quer se curar Izuna?

Izuna esperava alguma pergunta assim, e já havia planejado uma resposta.

— Eu não tenho medo da morte Madara. Eu não quero morrer, mas eu estou preparado pra morrer. — ele parecia decidido, e de fato estava. Não tinha mais dúvidas a respeito dos seus sentimentos — Será que não entende? Eu vou morrer feliz sabendo que você está vivo, saudável, sem se meter em confusão. Isso pode gerar problemas pra você Nii-san! Você pode ser preso!

Essa também era uma das preocupações de Izuna, apesar de também estar se esforçando com aquela conversa em benefício do casal e da criança ainda em formação. Não queria envolver pessoas inocentes em seu problema, não queria atingir mais ninguém. Será que não dava para o Madara deixar isso no passado e seguir em frente?

— Então você não se importa com nada, contanto que eu esteja bem, é? — Madara parecia se simplesmente se certificar do que ouvia, sua voz estava neutra, sem traços de irritação. Ao menos por hora.

O caçula interpretou isso como um bom presságio, e tocou em pontos que inicialmente preferia evitar. Quem sabe, agora, Madara compreendesse...

— Pra mim, é mais do que o suficiente saber que você vai viver com saúde Madara-nii... Você não vê como Deus abençoou você? Até sua mãe pode ter morrido disso, seu pai provavelmente morreu disso, quase todos os seus irmãos morreram disso. Mas Deus te deixando saudável, colocando um novo irmão na sua vida, um irmão com uma família pra te acolher, além de um talento que sempre vai te dar empregos sensacionais. Ele foi benevolente...

Mas então a máscara de Madara caiu e ele parou de fingir e ele gargalhou em alto e bom som, de forma que Izuna se viu obrigado a calar-se diante de tal risada lunática.

— Benevolente...? — Madara sussurrou com raiva, girando o corpo e olhando para Izuna com ira estampada em seu olhar — BENEVOLENTE!?

Ainda sim, o mais novo não se deu por vencido.

— Madara, por favor, ouça a voz da razão. — ele disse, ainda mantendo certa dignidade no tom de voz.

— É O QUE EU FAÇO! ENQUANTO VOCÊ FICA RECITANDO CONTO DE FADAS, EU FICO OUVINDO A RAZÃO E TENTANDO RESOLVER TUDO ISSO! — ele apertou os punhos com força, ficando as unhas em sua carne, quase rompendo a pele com a força empregada.

— MADARA PARE COM ISSO! — Izuna implorou, se levantando do sofá e correndo na direção do mais velho, agarrando uma de suas mãos e tentando puxar seus dedos para impedi-lo de se machucar ainda mais.

Depois de muito esforço, Madara relaxou o aperto, mas só depois de mantê-lo até romper a pele das duas palmas e sentir o sangue quente escorrer pelos pulsos. Seu Otouto desesperou-se naquele momento, afastando-se dele com medo de contaminá-lo através da ferida exposta de alguma forma; apesar de saber que era improvável, o risco não era zero agora que Madara estava com exposição na corrente sanguínea.

— Madara vai fazer um curativo, agora. — ele disse com a voz fraca, falhando tragicamente na sua tentativa de parecer forte. Seu desespero aumentava a cada segundo de silêncio, enquanto o outro apenas parecia contemplar as palmas de suas mãos de uma maneira totalmente curiosa — Madara, por favor!

Ao ser chamado num tom mais alto, Madara pareceu voltar a si. Levantou o olhar, encarou seu irmão analiticamente. Apesar do olhar atual do mais velho ser mais calmo que a fúria estampada em suas íris anteriormente, Izuna não conseguia deixar de ficar apreensivo.

— Você diz que não se importa com nada desde que eu esteja saudável, né?

— Pare de distorcer minhas palavras! Você está me assustando! — Izuna sibilou com um misto de irritação e medo, tremendo da cabeça aos pés.

Ele não sabia se era paranóia da sua cabeça, e até gostaria que fosse. Tinha que ser! Mas depois do que Madara falara mais cedo, sobre se infectar... Não, ele não estava pensando nisso, Izuna só estava contaminado pelo desespero, Madara não seria tão inconsequente. Né?

Mas interrompendo a tentativa de autoconforto, Madara o puxou pelos braços, brutalmente e sem medir forças, e iniciou um beijo intenso e brusco. Izuna sentia o sangue quente de Madara sujar o seu moletom, enquanto este mordia seu lábio inferior com muita, muita pressão.

Quando Izuna se deu conta do que Madara iria fazer, já era tarde demais; ele já sentia o gosto metálico em sua boca. Gosto do seu sangue, do seu sangue podre e incurável, que Madara bebia sem o mínimo nojo enquanto o forçava a ficar naquela posição, quase quebrando seus antebraços com a força empregada.

De onde Izuna tirou capacidade para se esquivar do agarrão de Madara ele não saberia dizer. Há quem afirme que nos momentos de total pavor o seu corpo é capaz de fazer coisas incríveis, e ele certamente estava em completo pânico naquele momento. Conseguiu escapar e se preparou para correr dali, se esconder, se trancar no banheiro, qualquer coisa! Mas Madara o segurou novamente antes que ele conseguisse dar mais de quatro passos, jogando-o por cima do ombro e levando-o até a cama tão rapidamente que o mais novo mal compreendia o que estava acontecendo.

— ME SOLTA MADARA! ME LARGA! ME LARGAAAA! — Izuna gritava, sentindo o seu próprio sangue escorrer pelo seu queixo e sujar o ombro de seu irmão. Ao sentir o liquido quente escorrer por sua face, Izuna se desesperou ainda mais; soluçou, tentando engolir o próprio sangue e não deixar mais nem uma gota à disposição de Madara.

Não, ao contrario do que pode parecer inicialmente, Izuna não estava preocupado com a sua integridade física. De jeito algum, ele pouco se importava com o que Madara iria fazer com ele. Porque ele sabia muito bem a intenção de Madara: ele queria se infectar, ele queria arranjar um motivo surreal pra Izuna voltar a lutar pela vida; ele achava que, agindo desta forma completamente lunática, o obrigaria a deixar de aceitar a própria morte em nome de outra pessoa que amava, incentivando Madara a encontrar a cura o quanto antes.

Ele queria fugir, ele queria se esconder, ele não queria que seu Nii-san se infectasse. Por quem ele amava (e não simplesmente para se proteger), ele tinha que sair dali naquele instante!

— Shii! Izuna, quieto! — Madara o censurava enquanto ele se debatia, numa tentativa vã de se livrar do seu colo.

O mais velho o jogou na cama, da melhor forma que conseguiu para que não machucasse o menor com o impacto, e logo subiu acima de seu corpo, prendendo-o com o peso de suas pernas e a força de seus braços. Não se importava em sujar os lençóis brancos de sangue.

Na verdade, Madara achava que o carmesim combinava bastante com toda aquela cena...

Izuna chupava seus próprios lábios, tentando selá-los de qualquer investida de madara, escondendo assim o ferimento que poderia ser uma chave para a infecção desejada pelo mais velho. Não queria que ele o beijasse, não queria que ele entrasse em contato com seu sangue. Não queria nada daquilo!

— Izuna, amor. — Madara sussurrou, tentando acalmá-lo enquanto ele ainda se debatia. Ah... Se seu Otouto decidisse parar de lutar seria tudo mais fácil; afinal o primogênito era muito mais forte e mais velho, saudável, com estrutura óssea maior. Não havia a mínima chance de escapatória — Me escute Izuna! Pare de se mexer e me escute!

Ele pediu várias vezes, repetindo o ordenado como um mantra e ignorando as lágrimas do outro que teimavam em escorrer de seus olhos. Izuna tremia e chorava, mas Madara não parecia compadecido. Pois ele estava decidido, ele teria que fazer isso; na sua mente distorcida, não havia outra solução para aquele problema. Doa a quem doer, era sua última chance de fazer Izuna compreender a necessidade real de encontrar aquela cura.

Num determinado momento, Izuna não tinha mais forças para se debater. Continuou tremendo, com tanta intensidade que seus dentes chegavam a bater de forma ruidosa, machucando ainda mais o corte no lábio. Ainda sim, ele mantinha a boca fechada e engolia o próprio sangue, rezando para que os anticoagulantes não fizessem mais efeito e ele parasse de sangrar o quanto antes.

Madara beijava seu pescoço, como se aquele gesto fosse acalmá-lo. Ao perceber que o irmão não estava mais tentando fugir de seu toque, se distanciou o suficiente para olhá-lo nos olhos ao se pronunciar. Afinal, apesar de tudo aquilo, Madara exibia um olhar carinhoso, até mesmo sereno.

Na mente de Madara, aquele seria um mal necessário e inevitável.

— Não vou te machucar, meu amor. — ele falou docemente, beijando os olhos de Izuna e sugando suas lágrimas, enquanto este apenas aumentava a intensidade de seu choro — Eu prometo que vou fazer isso com carinho, como sempre fizemos. Mas dessa vez eu não vou ouvir seu pedido pra parar. E não vamos usar aquela porcaria.

— Madara... — Izuna murmurou, e o mais velho aproveitou a deixa para beijar sua boca repleta de sangue. Izuna virou o rosto, tentando arranjar um meio de se comunicar sem que Madara tirasse vantagem disso. — Eu não quero! É Natal Madara, por favor, POR FAVOR! Outro dia!

Por ele, nunca havia um "dia" para isso, mas ele queria ganhar tempo, o máximo de tempo possível para pensar em uma solução, uma forma de fazer Madara entender o quão distorcido tudo aquilo era. Izuna mordeu os lábios novamente, selando sua boca, e o seu Aniki parou de tentar beijá-lo para encarar o seu desespero com interesse.

Por fim, Madara balançou a cabeça negativamente, juntando os pulsos de Izuna para imobilizá-lo com apenas uma mão, enquanto com a outra ele acariciava o corpo abaixo de si, descendo seu toque cada vez mais para baixo.

— É Natal, é verdade. — Madara murmurou baixinho, dando um pequeno selinho no queixo de Izuna, como se implorasse para ele liberar seus lábios — Me dê esse presente então.

— Isso é uma maldição, não um presente! — Izuna murmurou, não tentando esconder o corte de Madara, quando ele novamente voltou a beijá-lo com devoção, satisfeito pela liberação dos lábios.

Izuna estava, novamente, perdendo as esperanças de salvar Madara. Não era muito fácil para alguém que passava por tantos problemas como ele se manter forte nessas situações de crise. Ainda mais quando ele sabia que não teria voz de escolha nessa vez.

— Se você viver, eu também vou viver. Se você morrer, eu também vou morrer... Como pode dizer que isso não é um presente?

Izuna não respondeu, fechando os olhos e desistindo de uma vez. Não os abriu novamente em nenhum momento daquela noite, tampouco parou de sentir as lágrimas quentes escorrerem em sua face durante várias horas a fio.

Madara falou bastante: declarações de amor, agradecimento, elogios, carinhos, carícias. Teria sido perfeito, se não fosse naquelas condições impositivas, se não resultasse numa pena de morte para o seu Nii-san. Ele realmente não o machucou em nenhum momento, mas Izuna não conseguiu sentir prazer.

Afinal, ele só conseguia sentir que, por causa dele, Madara também estaria condenado à morte. Por mais distorcido que fosse esse pensamento, por mais que o que seu irmão fazia pudesse ser considerado um estupro (já que era contra a sua vontade), Izuna se sentia sujo, nojento, doentio, culpado. Não conseguia sentir repulsa de Madara, apenas de si.

Eu sou um assassino... Eu vou matar Madara...

E, sem sombra de dúvidas, aquele foi o pior Natal de toda a sua vida.

x-x-x

Leave it all behind and fade away

(To feel your purest blue)

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Deixe tudo pra trás e aos poucos apague

(Para sentir tua tristeza mais pura)

x-x-x

— Ah Nii-san... Vamos... Pare de chorar…

Mas Madara não parava de chorar nem sequer por um segundo. Chegava a soluçar de raiva e tristeza enquanto agarrava os lençóis da cama hospitalar de Izuna, mantendo-se ajoelhado no chão e segurando o maldito exame de sangue; amassava o papel com raiva, frustração e agonia, mas nada disso parecia diminuir sua dor.

—POR QUÊ!? — ele gritou num determinado momento, entre soluços, reagindo de uma forma completamente oposta a como geralmente agia ao lado de Izuna. Madara geralmente se esforçava para não deixar o desespero se sobressair daquela forma quando estava ao lado de seu amante, mas naquele momento não pôde se controlar.

Izuna, por sua vez, parecia calmo, sereno, tranquilo. A inversão de papeis era evidente, seu Nii-san estava completamente fora de si, desesperançoso, derrotado, enfraquecido. Ele, de outro modo, estava contente, relaxado e feliz. Porque apesar do contido no papel ter deixado Madara daquele jeito, Izuna considerava a informação algo muito bom.

Madara era imune ao HIV. No fim, a maior ironia de todas aconteceu... ele simplesmente não podia se infectar, por mais que tentasse! E isso era o grande motivo para a alegria de Izuna.

No fim, ele não mataria Madara... Madara estava a salvo!

— Madara-nii você não consegue compreender isso como uma coisa boa? — Izuna sussurrou, sentindo sua garganta doer com o esforço da fala; sua saúde realmente parecia piorar dia após dia desde o Natal — Se você é imune, a cura está em você!

— Não há mais tempo! — Madara disse, com a voz trêmula, erguendo a cabeça e olhando para o moreno mais novo com os olhos repletos de lágrimas — A resposta esteve aqui o tempo todo, e eu não sabia! Se eu tivesse tentado isso mais tarde, se eu tivesse experimentado meu sangue nas amostras, se...

— Shii Madara, as coisas acontecem por um motivo que às vezes a gente não entende, mas acontecem porque é assim que elas precisam acontecer.

Ele realmente acreditava no que dizia. Claro, teria sido melhor se Madara descobrisse sua imunidade antes, poderia assim encontrar a cura ou ao menos um tratamento eficaz. Mas, apesar de ser tarde para ele, muitas pessoas ainda poderiam se beneficiar disso se Madara não desistisse de seus esforços. Haveria, sim, um ganho geral pra toda essa história de sofrimento dos dois.

— Izuna... eu não tenho tempo mais pra descobrir. Você... você...

— Talvez nunca fosse necessário que você descobrisse isso pra mim Aniki. Já pensou nisso?

Madara balançou a cabeça veementemente, como se ouvisse o maior absurdo da terra.

— Não Izuna... era pra você... sempre foi pra você... — ele murmurou entre soluços, sentindo vergonha de quebrar daquela forma na frente de seu irmão.

Mas na frente de quem ele poderia quebrar senão na frente de Izuna? Quem mais ele tinha na sua vida?

— Meu amor, pare de chorar, fique feliz! — o garoto pediu, sentindo pena da reação do irmão mas nem por isso deixando de ver o lado bom da descoberta — Você tem em suas próprias veias a solução pra uma doença terrível. Você vai ficar rico e, de certa forma, salvar muita gente com isso!

— Não... não dá mais... Eu não aguento mais.

— Esse não é o Madara que eu conheço... — Izuna falou de um jeito lúdico, tossindo fortemente em seguida, mas ainda sim dando uma leve risadinha. Madara levantou o rosto molhado pelas lágrimas, encarando-o com surpresa — Não era você que sempre tinha um objetivo à vista, independente dos problemas?

— Izuna... Por que até quando eu estou na mais completa merda você age como se já tivesse a maturidade de trinta anos?

Izuna considerou isso um dos maiores elogios que Madara fez para ele em sua vida, e abriu um sorriso largo por debaixo da máscara respiratória. Madara enxugou as lágrimas com a roupa e subiu para mais perto de seu otouto, colocando seu rosto na dobra do pescoço do menor, ainda se ajoelhando no chão em meio ao processo. Naquela posição, Madara conseguia ouvir o coração do pequeno bater, batendo de maneira fraca, mas ainda sim funcionando, mantendo-o vivo por mais algum tempo.

Izuna tentou levar uma de suas mãos aos cabelos do mais velho para acariciá-lo, mas estava fraco demais para assim fazê-lo. Por isso, limitou-se apenas em sentir o afeto dele para consigo, mesmo que o seu peso dificultasse ainda mais usa respiração.

— O plano B...

— Hum? — Izuna questionou com a voz rouca, sentindo uma dor surreal no peito, mas nem por isso conseguindo pedir para Madara se afastar.

— Ainda temos o plano B! — Madara respondeu, erguendo a cabeça e encarando o irmão com um novo brilho de determinação nos olhos cor de ônix — Itachi está quase pra nascer, não é? Mikoto não falou com você sobre isso na semana passada quando veio te visitar?

— Pare com isso... — Izuna pediu com um suspiro de pesar; estava tão cansado de discutir aquele assunto, e desde que Madara achava ter se infectado, ele parecia ter deixado de lado essa coisa de "adoção do Itachi" — Concentre sua mente genial, no que interessa... Eu só tenho alguns dias de vida, amor. Deixe o bebê viver a vida dele.

— Cale a boca Otouto... — Madara murmurou sem se dar conta das palavras hostis, colocando-se de pé em um pulo e se concentrando para retomada do plano, andando de um lado para o outro enquanto refletia — Orochimaru pode viajar pra cá amanhã mesmo, chegará a tempo... Fugaku... Fugaku vai ter que me ouvir. Vamos fazer uma cesárea, talvez no dia nove de junho, é... vai dar tempo, vai dar tempo!

— Ai Nii-san... — Izuna suspirou, cansado, fechando os olhos que ardiam consideravelmente.

Sua garganta doía tanto que ele nem tentava pigarrear mais para diminuir o desconforto. Seus pulmões, por sua vez, latejavam a cada nova arfada de ar. Ele sabia que dessa vez não seria uma simples crise, ele não iria sair vivo desse hospital. E Madara também sabia, por isso estava desesperado.

— Izuna. — Madara falou, voltando ao lado de Izuna e retirando sua máscara de oxigênio, dando um breve selinho em seus lábios e recolocando-a. Izuna sorriu, feliz, pois Madara se recusava a beijá-lo durante dias, com medo de passar alguma doença simples e piorar ainda mais o quadro — Você vai esperar.

— Não Nii-san.

— Vai sim!

— Eu não quero prejudicar a vida deles, e mesmo se quisesse, como posso esperar uma coisa dessa?

Madara nem pareceu lhe dar ouvidos, fingindo ouvir uma resposta afirmativa.

— Você vai esperar. Eu vou resolver, o plano B vai dar certo. — Madara disse num tom meio autoritário, como se proibisse Izuna de morrer...

Como se isso fosse possível de ser feito.

Izuna até riu do comportamento infantil do irmão enquanto este acariciava seus cabelos numa forma de despedida, e este simples riso causou mais uma crise de tosse. Madara não questionou o porquê da risada, apenas murmurando baixinho para que não falasse mais nada enquanto procurava um pano para limpar o aparelho respiratório e a boca de Izuna; ele estava tossindo sangue, o que indicava que havia falado demais naquele dia. E, pela primeira vez desde muito tempo, Izuna não teve receio em permitir que Madara tocasse no seu sangue.

Depois de mais algumas palavras de carinho e despedidas, Madara se retirou brevemente para fazer algumas ligações.

Izuna não se sentiu preocupado. Talvez fosse até uma coisa boa: Madara iria mandar Orochimaru curar a saúde de Mikoto, Itachi iria nascer bem, e dentro de alguns dias ele próprio morreria. Madara perceberia que a criança não teria utilidade algum apara as suas pesquisas, já que a resposta estava em seu próprio sangue e a devolveria para os pais antes de Mikoto despertar do coma. Não tinha nem porque Izuna tentar impedir essa besteira toda, já que Mikoto e Fugaku sairiam ganhando nessa história de qualquer maneira.

E Madara... bom... Deus queira que Tajima estivesse errado e Madara não tivesse uma obsessão, pois se não fosse isso ele teria seu período de luto, iria sofrer, mas eventualmente superaria. Indo ainda mais além: com a cura tão próxima de si, poderia descobri-la, patenteá-la, ficar milionário, ter uma vida de luxo e ser alguém grande pra humanidade.

Izuna sorriu, contente. Se tudo desse certo, a sua família toda ficaria feliz. Todos os Uchihas remanescentes sairiam bem dessa história. Ele não sabia em que ponto de sua vida passou a considerar Fugaku, Mikoto e o bebê Itachi (que ainda nem era nascido!) seus parentes, mas estava feliz por eles também. E principalmente, estava radiante por Madara.

Quem diria... Imune… ele, imune àquela porcaria. Só podia ser um sonho, e dos bons!

— Obrigado Deus. — Izuna sussurrou para ninguém em particular, sorrindo debaixo da máscara respiratória e tossindo novamente pelo esforço. Não conseguia se pronunciar, não tinha forças, mas ainda conseguia pensar. E então, ele o fez:

Eu sabia, meu Deus, que você não me abandonaria. Obrigado por dar uma segunda chance pro Madara. Ele é minha vida... Minha vida está salva!

x-x-x

I can feel your purest blue, for you I must be strong

(For I do know right from wrong)

.

Eu posso sentir tua tristeza mais pura, por ti eu devo ser forte

(Por eu saber diferenciar o certo do errado)

x-x-x

A sensação não era tão ruim quanto ele acreditou ser. Sempre que pensava no momento da morte, acreditava que seria algo doloroso, intenso e desnorteante, mas era incrível... Suave, quente, aconchegante. Por um breve momento Izuna desejou sobreviver, apenas para contar às demais pessoas do mundo como era completamente delicioso morrer. Apesar de que, se de fato isso acontecesse, não seria uma morte completa.

No entanto, ao que tudo indicava, a situação de sobreviver à beira da morte é a mesma que sexo sem orgasmo: é bom, mas não tão bom quando se chega até o final. E por isso ele desejava mesmo morrer.

— É bom... — o caçula murmurou à Madara, sentindo-o apertar ainda mais a sua mão, mostrando seus olhos negros envoltos em completo desespero e pânico ao ver sua vida esvair-se de seu corpo inútil.

Pois, por mais que Madara desejasse a vida de Izuna, ele sabia que agora o menor iria morrer.

E ahh... Izuna considerava tudo tão libertador que era isso mesmo que ele desejava; ele precisava! Morrer e aguardar Madara no outro mundo. Só queria que essa paz fosse ainda mais intensa quando eles se encontrassem mais uma vez na outra vida.

— Eu não vou te deixar morrer. — Madara sussurrou com a voz falha e fraca, o que não condizia nada com sua personalidade. Izuna se esforçou para sorrir, mas não tinha muita certeza se foi um movimento eficiente de seus músculos faciais ou se eu simplesmente exibia uma careta. — Aguente mais um pouco, só mais um pouquinho! Falta tão pouco!

— Nii-san, você sabe que sou contra... Aceite o ciclo natural da vida... Eu amo você.

— NÃO! — ele gritou, ainda mais desesperado, chegando a machucar os dedos frágeis do pequeno com a intensidade do aperto de mão — Não fale asneiras! Não faça nada! Apenas aguente!

O caçula riu baixinho, tossindo intensamente pela dor que tal gesto tão simplório. Fechou os olhos, apreciando as carícias insistentes de seu Nii-san, sua fala em tom de urgência, seu cheiro tão especial e agradável, mesmo sem realmente prestar atenção em tudo que isso significava.

Porque era tão bom... Mas tão bom... Que era inevitável.

Madara continuava a gritar. Contudo, o som da sua voz parecia melodioso, embalando os últimos momentos de lucidez de Izuna como uma canção de ninar; enviando-o para o mundo perfeito dos sonhos, o paraíso astral, o lugar para o qual todos um dia retornarão.

E antes de se ausentar para sempre, ele pôde ter o prazer de receber os lábios de seu amado contra os seus: talvez Madara estivesse tentando o reanimar, utilizando-se de seus conhecimentos científicos para tal, mas ele preferia pensar que aquilo fosse um beijo.

Não... Realmente era um beijo. Era sim, ele o beijou tantas vezes, seria impossível confundir o beijo deles com um gesto mecânico de reanimação.

Com tal despedida doce e maravilhosa, Izuna se teleportou para o universo da paz, onde aguardaria pacientemente pelo reencontro.

Mas Madara-nii, espero que você não venha me visitar tão cedo, o mundo ainda precisa de sua genialidade por mais alguns anos. E se tem algo que eu realmente tenho é paciência. (5)

(***)

Izuna despertou, sentindo seu corpo totalmente dolorido. Tentava entender onde se encontrava quando ouviu a voz de alguém, meio abafada, murmurante, mas ainda sim nítida. Ele não dizia seu nome...

— Itachi! Itachi Uchiha! Você está acordado ou não?

Ele piscou, tentando focalizar algo em seu campo de visão. Uma, duas, três vezes, com força e aflição, começando aos poucos a definir o contorno dos objetos naquele quarto escuro. Onde estava? Havia morrido? Onde estava Madara? Quem era aquele homem grisalho à sua frente, olhando-o de cima? Ele estava deitado?

E então, alguma coisa na sua cabeça fez sentido, de modo que ele conseguiu lembrar o nome daquela pessoa, apesar de não conhecê-lo.

— Kakashi...? — sussurrou com a voz rouca, uma voz que não era a sua.

Sua mente ardia, de uma forma totalmente surreal. Ele quase gritou de dor, mas se controlou até que ela começou a diminuir de intensidade, apesar de continuar a latejar. Se Kakashi lhe direcionou a palavra naquele momento, ele não saberia dizer. Ao menos as coisas começaram a fazer mais sentido:

Não, ele não era Izuna; Izuna morreu pouco antes dele nascer.

Aquelas memórias acessadas não eram suas; ele era Itachi Uchiha.

Ele não era Izuna... mas Izuna viu seus pais, Izuna conheceu seus pais...! Ele... Izuna... e Itachi... eles conheceram Mikoto e Fugaku... eles... na memória... ele conheceu seus pais, e eles eram pessoas incríveis. E ele matou essas pessoas incríveis...

Meu Deus, minha cabeça dói demais!

— Kakashi. — Itachi repetiu com a voz um pouco chorosa, fazendo Kakashi se arrepiar da cabeça aos pés — Faz isso parar!

E, pela primeira vez em muito, muito tempo, Kakashi não sabia o que responder. Não ao ver Itachi Uchiha chorar daquela forma, bem diante de seus olhos, por algum motivo que ele simplesmente não conseguia entender.

Itachi, por sua vez, não sabia o que doía mais: sua cabeça ou o seu coração.

— O Sasuke... — ele choramingou, implorando mentalmente para que Kakashi resolvesse todo seu problema com a dor e trouxesse milagrosamente o seu amado para perto de si.

Mas mal Itachi percebeu que aquela simples palavra fizera Kakashi abrir um dos maiores sorrisos daquela semana. Pois apesar de Itachi não compreender em meio toda aquela confusão emocional, essa foi a primeira vez que ele não acordara da hipnose confundindo a paixão de Izuna por Madara com a sua. Ele pensava em Sasuke, ele queria Sasuke, mesmo em meio à confusão de identidade do despertar, Itachi não pedia por Madara, como Izuna faria. E isso não era pouca coisa.

Itachi, finalmente, estava se diferenciando de Izuna por completo.

Ah... Quem sabe essa teoria da Anko de "choque de realidade" não seja tão ineficiente assim. (6)

... Continua...


Essas notas são importantes. NÃO PULEM:

(1) Peste-gay e doença dos 5H (Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos, Hookers – prostitutas em inglês) foram os primeiros nomes populares dados à AIDS no começo dos anos 80. Por serem termos pejorativos e incitarem a discriminação, o uso desses nomes foi abandonado com o tempo e substituído pelo nome oficial da síndrome. Mas se vocês procurarem documentos antigos, vão ver esse tipo de denominação sensacionalista até em manchetes de jornais e estudos científicos.

(2) Centro de Controle e Prevenção de Doenças é um órgão dos Estados Unidos que cuida da saúde pública da população. Ele é um órgão real e muito importante. Inclusive, não sei se vocês sabem, mas é nesse lugar que os EUA mantêm uma das únicas amostras do vírus da varíola do mundo (a Rússia tem uma também), de modo que essa é uma das maiores armas biológicas do país. A doença foi erradicada depois de muito sofrimento, mas o humano não tem imunidade. A ONU quer que esse vírus seja destruído, mas o EUA e a Rússia não são bobos nem nada e ficam de conversinha, não destruíram e não vão destruir. E quem vai obrigar? De qualquer forma, se isso é lançado num país em meio de uma guerra, fará muito mais estrago que qualquer bomba atômica e pode gerar uma nova epidemia mundial, já que o vírus da varíola foi um dos mais terríveis da história da humanidade. E vocês ainda têm medo do T-virus e infecção zumbi... Hahaha!

(3) Pra quem viu a minha mensagem no facebook há um tempo, essa era a coisa que eu "estava fazendo e não podia fazer": escrever e divulgar relações carnais com menores de 14 anos é crime, eu não vou poder dar esse lemon pra vocês. Sorry...

Eu realmente estava escrevendo isso, e só depois me liguei que apesar do Izuna não ser muito normal pra idade dele, isso não podia ser postado de forma alguma, não sobre os padrões legais brasileiros. No caso, mesmo com o consentimento do Izuna o Madara estaria cometendo um crime, o de "estupro de vulnerável" (art. 217-A do Código Penal). Pela lei, menores de 14 anos não podem decidir se querem transar ou não, é proibido, e quem faz isso com alguém menor de 14 anos é considerado estuprador e vai em cana SIM se a polícia pegar, independente do consentimento da criança ou dos pais da criança. Se eu escrevesse a cena em questão, eu poderia ser mal interpretada por vocês porque o Izuna está apaixonado, e poderia parecer que eu estou incitando esse tipo de comportamento com a forma que o narrador narraria esta cena, o que não é verdade. Não tem problema escrever um crime numa fanfic, o problema é incitá-lo, deixar no inconsciente de vocês que é algo bom ou prazeroso. Por exemplo: não é crime escrever sobre os acontecimentos do holocausto, mas é crime escrever sobre o holocausto como algo supostamente bom pra humanidade – é incitação ao crime de preconceito/racismo (pro STF um ato anti-semita é racismo, mas outros juízes consideram que é preconceito).

Aproveitando esse espaço pra deixar claro: eu, PCSP, sou contra a relação do Madara e do Izuna. É pedofilia sim, é doentia, é ruim para ambos os personagens – basta ver como o Madara está agora, totalmente quebrado. Não vou dizer que eles não se amem, mas amor não basta pra uma relação ser saudável. Sendo assim, eu até poderia dizer que posso mandar o lemon pra quem tiver interesse por e-mail, como fiz com o estupro de Pride and Joy (pra quem leu), mas sinceramente? Não vou fazer isso, porque eu tenho medo de vocês interpretarem a coisa como algo bom por conta da narração no ponto de vista do Izuna. Então essa cena vai ficar pra mim e apenas pra mim, porque o estupro de Pride and Joy tinha uma conotação totalmente ruim por conta do foco narrativo (do Itachi, que foi forçado ao sexo contra sua vontade), enquanto aqui o Izuna estaria agindo como se o sexo com o Madara fosse a solução pra todos os problemas. Lá em Pride and Joy não havia a mínima possibilidade do estupro ser interpretado como uma incitação (e ainda sim eu tive leitores que afirmaram absurdos como "ai como eu queria ser estuprada" – gente que na minha opinião precisa de psicólogo com urgência), enquanto aqui a coisa ficaria dúbia.

Alias, aproveitando mais uma vez o espaço, eu quero deixar BEM CLARO pra vocês que eu escrevo, apesar de estar na terceira pessoa, sobre o ponto de vista dos personagens, e esse ponto de vista vai mudando conforme a narração segue (as vezes a cena é voltada pro Itachi, Naruto, Sasuke, Kakashi, Madara, Konan, assim vai). Muita coisa do que está escrito no texto do narrador é totalmente contra o que eu penso do mundo, o que eu quero pro mundo, e o que eu acredito como sendo moral e correto. Nunca esqueçam disso. Se vocês quiserem minha opinião sobre determinado assunto da fanfic, perguntem por review e eu ficarei feliz em tirar a curiosidade de vocês. ^^

Para os curiosos, se eu tivesse publicado essa cena eu estaria cometendo o crime de "incitação ao crime", previsto no art. 286 do Código Penal. E se vocês vêem algum texto com esse tipo de conduta, saibam que é proibido. Liberdade de expressão tem limite, e essa é uma das limitações.

Ufa, me senti tia chata agora, mas isso precisava ser dito. Prossigamos...

(4) Essa é uma referencia há algumas cenas passadas do Madara com o Itachi. O Madara, como vocês sabem, tem esse "complexo de Deus". E ele fez em várias ocasiões o Itachi chamá-lo de Deus, aceitá-lo como Deus, de modo que vocês podem concluir que todas essas ocasiões foram o ego ferido do Madara se recordando daquele momento com Izuna, e do desafio que ele impusera pra si próprio.

(5) Cena do Capítulo 11 reescrita na terceira pessoa.

(6) Referência ao capítulo 8. Ah, e sobre a descrição do despertar do Itachi, talvez esteja um pouco mais confuso... Mas é que eu finalmente fiz uma "pesquisa de campo". Eu fui hipnotizada semana passada, eu até reescrevi essa cena por causa dessa experiência, e tentei transparecer a mesma confusão que eu tive ao despertar. Olha que no meu caso nem foi tão complicado como o do Itachi haha!


N/A: Ok. Eu acho que não tem nenhum leitor mais velho que eu, mas se tiver vocês sabem do que eu vou falar agora. Eu nasci no final da década de 80. Quando eu estava na escola (década de 90) eu presenciei todo o preconceito com relação a AIDS... dos mais diversos: toda essa coisa de que era um castigo de deus contra os pecadores era realmente disseminada, e quando eu era menina eu cheguei a acreditar nisso por conta do que ensinavam na escola (sim, professores falavam esses absurdos). Estou mencionando isso porque quero que vocês entendam como era diferente a maneira que esse tipo de coisa era tratado antigamente. Os quatro filhos mais novos de Tajima pegaram HIV no parto, da mãe portanto, e desenvolveram a doença em da década de 80. Isso era surreal de se imaginar na época, visto que o HIV estava associado a drogados e homossexuais naquele período, os casos com crianças e mulheres de família eram abafados. Tajima, por vergonha, orgulho, medo, e outros diversos motivos, preferiu tapar o sol com a peneira e rezar pros filhos não terem a mesma doença que a esposa teve, só que ele não deu sorte. Mesmo SE ele tivesse tentado tratar as crianças naquela época, seria difícil que elas sobrevivessem com a ineficiência dos medicamentos, visto que a doença foi descoberta apenas em 1981 e o tratamento em 85 era super precário. Se hoje em dia ainda é um tabu complicadíssimo, imaginem antigamente. Portanto, não odeiem o Tajima, ok? Ao menos não por isso... na pele dele e na época que ele viveu, talvez vocês fizessem a mesma coisa.

N/A2: Existem sim algumas pessoas imunes ao HIV. Volta e meia surge uma notícia do tipo, mas é logo abafada pela mídia e a gente nunca mais ouve falar da pessoa. Não sei se elas viram cobaias, se preferem se afastar da mídia para manter sua privacidade, se a mídia para de tocar no assunto pras outras pessoas não perderem a seriedade na doença – crie aqui a teoria da conspiração que preferir. O fato é que elas existem, mas é um caso em milhões, e provavelmente tem algo a ver com o código genético deles. Na fanfic, Madara é imune.

Há muita gente que acredita que a cura da AIDS já existe, que algum cientista deve ter descoberto utilizando-se de estudo com essas pessoas imunes, mas que por conta do dinheiro que a produção de medicamentos gera pra economia, eles estão mantendo a cura há sete chaves. Mas isso não passa de uma teoria da conspiração...

Mas há um caso de cura real e noticiada nos jornais. Foi feita por transplante de medula óssea de uma pessoa imune ao HIV para um paciente infectado – aos curiosos, procurem o caso de Timothy Ray Brown na internet.

E agora, depois de eu falar tuuuudo isso, somem dois mais dois... ;)