Meu peito estava tão apertado que eu mal conseguia respirar. As lágrimas que eu vinha reprimindo agora borravam minha visão, escorrendo pelos cantos de meus olhos inertes na foto entre meus dedos. A luz do luar clareava a cama onde me encontrava cercada pelas fotografias que eu havia desencaixotado horas atrás, quando o sol ainda reinava no céu. Não fazia ideia há quanto tempo eu estava ali, imersa em pensamentos nostálgicos.
- Amo seu cheiro. - Ela acariciava vagarosamente minha mandíbula com a ponta do nariz. - O cheiro do seu corpo. - A voz rouca ao pé do ouvido quase me fez derrubar a câmera.
- E eu amo você. - Eu disse no mesmo tom.
Senti quando sorriu, rindo baixinho contra minha pele antes de pressionar os lábios em minha bochecha num beijo moroso. Um sorriso imediatamente tomou conta do meu rosto e eu aproveitei para tirar mais uma foto. No minuto seguinte a câmera foi tomada de minhas mãos, e meus lábios tomados pelos seus. Sem descolar sua boca da minha, ela lentamente colocou-se em cima de mim, seu corpo nu moldou-se ao meu sob o lençol enquanto sua língua tocava o céu de minha boca. Suspirei no meio do beijo, alisando as costas macias.
- Diz que estamos sozinhas... - Mordiscou meu lábio inferior, traçando beijos lentos e úmidos do meu queixo até meu maxilar. - Quero você. - Sussurrou, roçando os lábios em minha orelha.
Sorri de olhos fechados, sentindo um arrepio atravessar meu corpo. Arrastei uma de minhas mãos até sua nuca, arranhando sutilmente.
- Engraçado... - Emiti um gemido baixo ao senti-la friccionar sua pélvis contra a minha, prendendo o lóbulo de minha orelha entre os dentes. - Ontem... à noite, especialmente na banheira, você não pareceu se importar se estávamos sozinhas ou não.
Nisso Demi parou de imediato o que estava fazendo e ergueu o rosto sonolento, me olhando com um sorriso astucioso.
- Você me agarrou! - Tocou a ponta do meu nariz com o dedo, me dando um selinho. - Não consegui resistir.
- Acho que foi a emoção de te ouvir dizer que vai comigo pra Nova York.
Parei de brincar com as pontas do cabelo preto ao mirar os olhos achocolatados que me contemplavam com intensidade e ternura. O jeito como me olhava avivou as borboletas em meu estômago, seu olhar focado no meu transparecia tanto...amor. O ruído remoto dos trovões passou a ser o único som ouvido enquanto sustentávamos o olhar uma da outra. Poderia ficar horas e horas ali apenas a olhando. Tão linda. Nem parecia que havíamos nos desentendido algumas horas antes. Vi os lábios cheios se curvarem num sorriso meigo e sorri junto, acarinhando o queixo fissurado com o polegar.
Demi então enlaçou seus dedos nos meus, depositando um beijo terno no dorso de minha mão.
- Eu amo você. - Ela proferiu com a voz suave.
Fitei a imagem distorcida pelas lágrimas tomada por uma mágoa que não cabia mais em mim. E devagar, quase que inconscientemente eu comecei a amassar a foto. Trinquei o maxilar com a respiração pesada, apertando o material de papel com força em minha mão antes de atirá-lo com um furor irreprimível na direção da lixeira cheia de esboços que jazia ao lado da escrivaninha, soltando um grito sofrido e estridente que chegou a queimar minha garganta.
Levei a garrafa de vinho que tinha na outra mão até a boca, praguejando mentalmente ao beber as últimas gotas. Limpei a umidade em meu rosto com as mãos e me encolhi na cama com meu corpo sofrendo leves espasmos por conta do choro. Abracei meus joelhos e suspirei com pesar, ponderando o que tinha acabado de fazer. Estava transbordando raiva, remorso, dor, saudade, amor. Funguei uma, duas, três vezes, encarando fixamente a foto amassada no chão do quarto parcialmente escuro.
Não fazia muito tempo que eu havia prometido à mim mesma que tentaria me reerguer e seguir em frente. Julgando pelo estado que me encontrava é lógico que eu havia falhado miseravelmente, afinal, como afogar tanto sentimento? Como superar uma pessoa que você ama com toda sua alma? A ausência de Demi me corroia, me sentia incompleta, despedaçada, sem chão. Ainda martelava a cabeça tentando interpretar seus atos e sofria pela falta de satisfação, nunca imaginei que acabaríamos dessa forma. Não houve ao menos um último diálogo entre nós, ela simplesmente... nos abandonou.
O curso me ajudava a manter a mente ocupada na maior parte do tempo, o desenho era minha válvula de escape. Entretanto todas as noites que eu fechava os olhos numa tentativa frustrante de adormecer depois de um dia esgotante, tudo o que eu conseguia ver era o rosto bonito delineado pelo sorriso perfeito. E então a realidade me atingia mais uma vez em cheio no peito.
Levantei-me superficialmente zonza devido à quantidade de vinho que havia ingerido e dei três passos até a polaroid amassada no chão, pegando-a antes de retornar à cama. Pressionei a fotografia contra o colchão e comecei a passar a mão fortemente por cima, tentando desamassar nem que fosse um pouco.
Respirei fundo depois de alguns minutos e olhei envolta, algumas caixas ainda fechadas ocupavam um canto do cômodo composto apenas por uma escrivaninha, uma cadeira giratória e uma cama. Metade das minhas roupas já estava no closet e a outra metade continuava dentro das malas abertas ao lado da cama. Soltei um suspiro entrecortado e abaixei meus olhos, sendo despertada por duas batidas na porta que foi timidamente aberta em seguida.
- Sel? - Jennifer chamou confusa, colocando somente a cabeça para dentro do quarto. - Tá tudo bem? Eu ouvi um grito...
Permaneci calada perante a preocupação da garota que já havia me visto em momentos piores. Meus olhos inchados voltaram para a foto arruinada em minha mão. Percebi quando Jennifer se aproximou calmamente, se sentando na beirada da cama. A vi analisar as polaroids espalhadas pelo colchão em silêncio antes de pegar uma tirada em Dallas, onde estava apenas Demi com seu sorriso contagiante e uma flor amarela que eu havia colocado atrás de sua orelha.
- Eu já tinha visto algumas dessas fotos no seu mural no nosso dormitório, mas nunca prestei bem atenção. - Ela comentou sem tirar os olhos da foto. - Ela é muito linda.
- É ainda mais linda pessoalmente. - Minha voz saiu falha e rouca. - Linda por fora e por dentro. - Acrescentei após um pigarro, recebendo um olhar afetuoso.
- Não gosto de te ver assim... - Afagou amigavelmente a maçã de meu rosto. - Até alguns dias atrás você parecia tão disposta a esquecê-la.
Um riso seco e amargo escapou de minha garganta. Como se eu conseguisse...
- É impossível esquecê-la. - Levei a mão que segurava a foto até o peito. - Ela está sempre aqui. - Murmurei, sentindo meu coração contrair de dor, uma dor asfixiante que parecia não ter fim.
- Já pensou em... procurá-la de novo? Quer dizer, aposto que ela não deve estar tão diferente de você...
- Penso nisso todos os dias. - Desviei meus olhos para o nada, umedecendo meus lábios. - Mas então eu lembro que não é isso o que ela quer, porque se fosse já estaríamos juntas. - Balbuciei frustrada. - Eu só... eu só não compreendo nada disso, se ela está sofrendo sem mim o tanto que estou sem ela então por que ela está fazendo isso? - Olhei de volta para a garota quieta que me ouvia atentamente.
- Vem cá. - Ela abriu os braços e eu me permiti ser envolvida num abraço afável. - Não sei mais o que te dizer pra fazer você se sentir melhor... - Suspirou, afagando minhas costas.
- Não precisa dizer nada. Não quero te encher com minhas lamentações.
- Você nunca me enche, sou sua amiga. Sabe que pode contar comigo e.. ei, aquela é a garrafa de vinho que eu comprei ontem?
- Ai, desculpa Jenn. - Pedi encabulada ao me desvencilhar de seus braços. - Eu precisava beber alguma coisa.
- Sem problemas, mas tá me devendo um vinho barato. - Riu, apontando o dedo indicador para mim. - Ah! Consegui conectar o cabo na televisão, topa pedir uma pizza e assistir Game of Thrones?
- Topo. - Funguei esfregando o nariz.
- Oba, então vai lavar esse rosto que eu vou pedir nossa pizza. - Ela disse rumando até a porta onde parou, olhando para mim. - Queijo?
Eu apenas anui com a cabeça.
(...)
Comprimi os lábios, absorta no esboço em minha frente. Estava tão concentrada nos traços simétricos que riscava no papel que nem percebi o momento em que a melodia suave cessou. Puxei os fones de meus ouvidos e ergui meus olhos por trás das lentes do óculos de armação grossa, explorando mais uma vez a vista que a janela do meu quarto proporcionava. Aquelas fachadas viçosas simplesmente estavam pedindo para serem desenhadas, sem falar que era um ótimo cenário para fugir da melancolia. Prosseguia com os traços incessantes quando subitamente um beijo foi depositado em minha bochecha, me fazendo esquivar o rosto por instinto. Encarei a face entusiasmada de Ashley sem me preocupar em disfarçar meu descontentamento pelo susto e por quase ter me feito borrar.
- Feliz aniversário! - Ela cantarolou. - Eu sei que é só amanhã, mas tenho algo pra te dar e não consigo mais esperar.
- Como entrou? - Questionei, retornando minha atenção para o sketchbook.
- Subi com a sua amiga.
- Hmm.
- Então, adivinha o que eu tenho aqui atrás. - Falou animada, referindo-se às suas mãos escondidas atrás do corpo.
- Não tenho ideia, Ash. - Murmurei, sem desprender os olhos do esboço.
- Chuta, vai. - Insistiu.
Inspirei profundamente parando de mover o lápis e pousei meu olhar na mulher sorridente diante de mim. O cabelo recém pintado de castanho escuro estava preso em um rabo de cavalo que valorizava seu rosto, a calça jeans surrada e rasgada nos joelhos acentuava as pernas longas e a jaqueta de couro sobre a blusa branca completava o visual despojado. Suspirei sem a mínima ideia do que ela estava escondendo e retirei o óculos, colocando minha franja solta atrás da orelha.
- Não consigo pensar em nada. - Falei.
- Sério? Nem em ingressos pra ver Arcade Fire? - Sorriu mais amplo, me mostrando os ingressos.
Espremi os olhos para as letras pequenas, abrindo um sorriso débil sem querer desdenhar a surpresa.
- Você gostou? - Perguntou expectante, prendendo meu rosto entre as mãos.
Maneei a cabeça em sinal de positivo antes dos lábios rosados tocarem os meus.
- Eu tenho que ir agora, combinei de encontrar com um amigo. - Ela disse quando quebrei o beijo. - Vai fazer alguma coisa mais tarde?
- Hm... vou, tenho um trabalho do curso pra terminar. - Menti.
- Ah, que pena. - Torceu a boca, afagando minha bochecha. - A gente se vê amanhã então, agora que você vai fazer vinte e um, vai poder ir à qualquer lugar comigo!
Ashley selou novamente nossos lábios e deixou os ingressos sobre a escrivaninha antes de soprar um beijo e sair. Levei a mão ao queixo de forma pensativa, ela estava sempre querendo me agradar de todos os jeitos e às vezes chegava a ser sufocante. Já fazia alguns meses que havíamos nos entendido, e algumas semanas que eu havia correspondido ao seu beijo pela primeira vez sem arrependimentos. Desde então decidi deixar as coisas acontecerem...
- Terra chamando! - Jennifer adentrou o quarto me arrancando de meus pensamentos. - Paisagem? - Confundiu-se ao se colocar em minha frente, observando o esboço no sketchbook provavelmente surpresa por não encontrar algo melancólico na folha.
- Pois é. - Desci da janela ao ver que não recuperaria a concentração.
Fechei o caderno e o coloquei em cima da escrivaninha junto com o lápis, óculos, fones e o celular descarregado. Desmanchei o coque desleixado que prendia meu cabelo comprido e o prendi em outro mais firme, seguindo até a cama onde me deitei de bruços.
- Comprei seus picles. - Jennifer avisou ao se jogar no puff preto.
- Obrigada. - Agradeci meio embolado com a bochecha pressionada no travesseiro.
- Então... você e Ashley...
- O que quê tem?
- Por que não me contou que estão namorando? - Ela perguntou e eu franzi a testa. - Se bem que você não me deve satisfação da sua vida amorosa, mas não foi essa mulher o pivô do seu término com a Demi?
- Nós não estamos namorando. - Afirmei, tentando não focar no nome pronunciado.
- Não foi o que ela me disse enquanto subíamos...
- Como assim? - Ergui a cabeça, unindo as sobrancelhas. - Ashley te disse que estamos namorando?
- Com todas as letras.
- Isso é bem a cara dela...
- Não está irritada nem nada?
- Não. - Respondi simples. - E talvez um dia, quem sabe, role algo mais sério... - Dei de ombros, relaxando novamente.
- Bom, é a sua vida...
- Minha vida... minha vida nem parece fazer mais sentido. - Bufei, fechando os olhos por um instante. - Amanhã é meu aniversário. - Comentei sem emoção.
- Eu sei. - Abriu um sorriso terno que aos poucos foi se tornando astuto.
- O que? - Perguntei desconfiada.
- Vamos dar uma festa! - Sugeriu, como se tivesse tido a melhor ideia de sua vida.
- Nem fodendo. - Virei o corpo, encarando o teto. - Não mesmo.
Pela minha visão periférica vi quando a garota deixou o puff e se deitou ao meu lado na cama, apoiando-se nos cotovelos.
- Só uma festinha, vai. - Insistiu, brincando com a barra de minha camiseta. - Vamos beber pra esquecer os problemas.
Soltei um riso debochado, quantas vezes eu já havia feito isso? De qualquer maneira o apartamento também era de Jennifer, na verdade foi ela quem me propôs a dividirmos as contas, então eu não tinha o direito de impedi-la de dar uma festa se quisesse. Era um apartamento pequeno, mas perfeito para nós duas. Obviamente melhor do que o dormitório. Tinha dois quartos, um banheiro, uma sala com cozinha integrada e área de serviço. Fomos mobiliando aos poucos e deixamos a nossa cara. Só estava faltando trazer Baylor, até porque aquela seria minha casa em Nova York. Não para sempre, mas pelo menos até eu me formar.
- Tá, tá, tá. - Revirei os olhos quando Jennifer começou a comemorar. - Mas se os vizinhos chamarem a polícia por causa do som alto e pelo cheiro de maconha eu vou deixar você se virar sozinha.
- Até parece! - Fez uma careta beliscando a pele de minha cintura e se levantou rapidamente sem me dar a chance de revidar.
- Jenn. - Chamei antes que deixasse o quarto. - Coloca meu celular pra carregar. - Pedi manhosa. - Tá ali em cima da mesa.
- Eu sou sua amiga, não sua escrava. - Disse sarcástica, plugando o carregador no celular e em seguida na tomada.
- Obrigada, escrava. - Brinquei, levando uma almofadada na cara.
Abracei um travesseiro e passei o restante do dia cochilando. Quando acordei o quarto já estava escuro, passei as mãos pelo rosto e me estiquei na direção do criado-mudo de vidro, acendendo a luminária. Espreguicei-me, estalando minhas juntas antes de sair da cama. Retirei meu celular do carregador e o liguei, o relógio marcava exatamente oito e trinta da noite. Soltei meu cabelo com a outra mão, trocando o peso do meu corpo para a outra perna enquanto verificava as novas mensagens. Havia uma de Taylor cheia de emojis, avisando que tinha acabado de comprar sua passagem e que ligaria mais tarde, pois tinha uma cirurgia. Também havia duas ligações perdidas de Hayley e uma de Brian.
Repousei o celular de volta na escrivaninha, responderia depois. Precisava de um banho. Porém quando eu estava prestes a sair do quarto o celular começou a vibrar. Dei meia volta e atendi a chamada, era Taylor. No entanto a sua voz foi o último som que meu ouvido captou. Ao fundo, bem ao fundo eu pude escutar a risada conhecida. Petrifiquei onde eu estava. Era ela, reconheceria aquela risada de qualquer jeito, em qualquer lugar. Apenas o timbre longínquo fez meu corpo todo formigar. Foi impossível não imaginá-la jogando a cabeça pra trás e rindo, como costuma fazer quando acha graça de alguma coisa. Deus, como eu sentia falta daquela risada, daquela voz...
- Sel? Selena? - Taylor chamava do outro lado da linha.
Chacoalhei a cabeça, levando a mão à testa. Quando dei por mim já estava me locomovendo de um lado para o outro. Parei, respirando fundo.
- Oi, eu... - Falei ainda meio alheia. - Tô aqui.
- Tudo bem? - Ela indagou.
- Tudo... hm, por acaso você... - Não, eu não devia perguntar. Estava indo bem nesse negócio de seguir em frente, não estava? - Você está com a Demi? - Não me contive e fui contra a voz em minha mente, mordendo o lábio enquanto aguardava a resposta.
- Hm... não, exatamente. - Ela soou confusa, já fazia um bom tempo que eu não lhe perguntava sobre a mulher. - Estou no refeitório e ela está em outra mesa com a Amber, elas..
- Amber? - Eu a interrompi, o nome era novo para mim...
- É a nova cardiologista. Elas estão trabalhando juntas.
- Hm.
Engoli o nó que se formou em minha garganta, sentindo uma pontada aguda de ciúmes atingir meu coração ao me perguntar se ela estava apenas trabalhando com essa tal nova médica. Quero dizer, Demi era uma mulher deslumbrante, era quase impossível alguém não se sentir atraído por ela. Não só pela sua beleza única, mas também pela sua personalidade. Fechei meus olhos que ameaçavam lacrimejar, desejando que meus pensamentos estivessem equivocados. Contudo, eu estava me envolvendo com outra pessoa, então ela poderia muito bem estar fazendo o mesmo...
- Mas por quê? - Taylor questionou sutil.
- Por nada. - Engoli em seco.
- Sel...
- É que eu ouvi ela rindo, é isso.
- Ah... deve ter sido quando eu passei pela mesa...
- Então, eu vi a sua mensagem. - Decidi desconversar. Taylor já havia tomado minhas dores uma vez e eu não queria causar outro desentendimento entre as duas. - Não vejo a hora de você vir, estou morrendo de saudade.
- Nem me fala, parece que faz séculos que não nos vemos...
- Sel? - Jennifer chamou da porta, vestida e maquiada pra sair. - Eu vou encontrar as meninas num pub, quer vir? - Perguntou baixo.
- Não, vai lá. - Eu disse, afastando um pouco o celular da orelha.
- Tem comida japonesa na cozinha.
- Tá bom, se divirta!
- Eu vou! - Ela deu uma piscadela, saindo em seguida.
- Sel?
- Estava falando com a Jenn. - Expliquei à Taylor. - Você vai adorar conhecê-la, aliás, quando você vem?
SEIS ANOS DEPOIS
- Caramba! - Taylor exclamou da sacada. - Tinha até esquecido o quanto essa vista é maravilhosa.
- Também, você só vem pra cá de cem em cem anos. - Eu ri irônica, preenchendo dois copos com whisky.
As visitas quase que anuais da Swift eram uma de minhas épocas favoritas. Nossa amizade só cresceu ao longo dos anos graças às suas estadias em minha casa, já que por uma questão de precaução eu preferia evitar visitá-la em seu apartamento que ficava quase de frente para o hospital. Ela morava com o namorado, um cirurgião plástico de olhos verdes chamado Matthew. Eles já estavam juntos há quase três anos e eu nunca havia visto Taylor tão feliz. Claro que às vezes ela ainda me cobrava por uma visita, e claro que eu ainda lhe dava uma de minhas desculpas esfarrapadas. Mas a verdade é que ela entendia o meu dilema como ninguém, o meu temor de um súbito reencontro com a pessoa que mesmo depois de tanto tempo ainda prevalecia em meus pensamentos e no meu coração.
- Eu venho quando posso, ué. - Disse a loira reaparecendo na sala, seguida por Baylor que ainda cheirava seus pés. - Você sabe como é... - Jogou o corpo no sofá, suspirando alto.
- E como sei. - Lhe entreguei um dos copos, me acomodando ao seu lado no sofá. - Mas e aí? Quanto tempo vai ficar dessa vez? - Perguntei, bebendo um gole do líquido âmbar.
- Então, uma semana. Eu..
- Só? - Eu a interrompi com a voz esganiçada. Geralmente ela passava quase um mês comigo.
- Calma. - Deu uma risada suave, pousando a mão em meu antebraço. - Eu vou viajar com Matt para a Europa. - Contou, esticando o sorriso que carregava no rosto desde quando a busquei no aeroporto. - Ele conseguiu igualar suas férias com as minhas.
- Bom... - Encolhi os ombros. - Não quero ficar entre os planos do casal. - Sorri. - Mas as suas próximas férias você vai passar aqui comigo. - Apontei-lhe o dedo indicador, levando o copo à boca. - Sabe que eu ia adorar.
- Ah você eu sei que ia, meu bem. Por outro lado a sua namorada... nem tanto. - Baixou os olhos para o copo, chacoalhando os cubos de gelo. - Aliás, Ashley está sabendo que eu sou sua hóspede? Só estou perguntando porque agora ela mora aqui com você e bem, eu não quero incomodar...
- Que isso Tay, você nunca incomoda. - Aleguei, deslocando a atenção para o celular que começou a tocar sobre a mesa de vidro no centro da sala. - E quanto a Ashley não se preocupe, a casa é minha e você sabe que é mais do que bem-vinda aqui. - Acrescentei, assistindo Taylor se levantar em direção de seu celular tocando.
- Disso eu sei. - Inclinou-se, apanhando o aparelho. - O que eu não sei é o porquê de ela me odiar mais do que a minha própria sogra, e olha que a velha é terrível! - Falou, levando o celular à orelha. - Alô.
Balancei a cabeça, rindo pelo nariz. Taylor havia encontrado o homem ideal com uma mãe superprotetora. Já a antipatia que Ashley nutria por Tay e vice-versa, parecia irreversível.
Entornei o resto do whisky em meu copo, observando a loira que ouvia atentamente a pessoa do outro lado da linha, respondendo-a com frases curtas.
- Você está com fome? - Gesticulei à ela, me levantando do sofá.
- Só um segundo, Dem. - A pronúncia espontânea do apelido foi o bastante para fazer meu coração perder o compasso. - Estou morrendo de fome, só comi um amendoim durante o voo.
Acenei morosamente com a cabeça em sinal de entendimento, mas suas palavras haviam entrado por um ouvido e saído direto pelo outro. Não era a primeira vez que aquele tipo de coisa acontecia e eu sabia que não seria a última. Eu era amiga da amiga da minha ex-namorada por quem eu ainda tinha sentimentos. Às vezes eu me perguntava se eu causava o mesmo efeito na médica do outro lado da linha em momentos como esse, o que fazia eu me sentir completamente estúpida pois ela nunca perguntou sobre mim. Parei de perguntar sobre ela ao saber que estava namorando.
Taylor ainda mantinha o celular distanciado da orelha quando sua voz atenciosa adentrou meus ouvidos me tirando do estado de estupor ao chamar meu nome. Percebi os olhos azulados me observando com compreensão e pigarreei, me recompondo antes que mais algum pensamento melancólico me viesse à mente.
- Eu... - Puxei o ar com profundidade. - Eu vou fazer algo pra gente. - Avisei, recebendo um sorriso terno.
Enquanto rumava até a cozinha, a porta da frente foi aberta revelando Ashley carregada de diversas sacolas de lojas. Mudei a direção dos meus passos e me aproximei da Benson que rapidamente avistou Taylor do outro lado da sala locomovendo-se até a sacada.
- Vejo que a sua amiguinha já chegou. - Comentou num tom sarcástico, revirando os olhos antes de pousá-los em mim.
- Ash... - Adverti. - Só... seja legal.
- Claro, amor. - Forçou um sorriso meigo, tombando a cabeça de lado.
- Eu vou preparar alguma coisa na cozinha. - Falei. - Por que você não fica aí e come com a gente? - Sugeri, no intuito de harmonizar o ambiente.
- Adoraria, mas marquei de encontrar as garotas numa boate e já..
- Você acabou de chegar! - Argumentei.
- Eu sei, mas..
- Quer saber. - Eu a cortei sem paciência, levantando minha mão. - Deixa pra lá.
- Selena, espera... - Tentou quando lhe dei as costas, retomando o rumo da cozinha.
- Se divirta! - Desejei ironicamente.
Não sei como o copo de vidro não se despedaçou em cacos quando o pousei sobre o balcão. Bufei, jogando minha franja atrás da orelha. Não queria me estressar naquela noite, principalmente na presença de uma amiga que eu não via há muito tempo. E, parando para pensar, era até melhor que Ashley saísse, nos pouparia de seus comentários desagradáveis que sempre escapavam de sua boca.
Me dirigi até a geladeira e peguei alguns dos ingredientes essenciais para preparar o jantar. Ao fechar a porta de aço, me deparei com Taylor se aproximando da cozinha com Baylor em seu encalço.
- Está tudo bem? - Ela inquiriu, sentando-se num dos bancos do balcão onde repousei os itens. - Ashley subiu a escada soltando fogo para todos os lados.
- Está tudo certo. - Respondi com uma certa indiferença, seguindo até o armário. - Então, eu vou fazer aquele espaguete à bolonhesa que você gosta. - Desconversei, pegando uma panela.
- Sabe, você deveria ter se formado em gastronomia e não em design. Toda vez que eu venho pra cá volto pra casa com uns três quilos a mais.
- Ah tudo que eu sei eu aprendi com a Maria. - Suspirei nostálgica, enchendo a panela com água. - Saudades de casa.
- Quando foi a última vez que os viu?
- No natal.
- Sel... - Um semblante tristonho tomou seu rosto. - Me dói te ver assim.
- Assim como, Tay? - Perguntei sonsa, descontente com o rumo que a conversa começava a tomar.
- Tão infeliz.
- Eu não... - Fiz uma pausa, comprimindo os lábios. - Ninguém é completamente feliz, certo?
- Você sabe do que eu estou falando. - Disse convicta, me acompanhando com os olhos até o fogão. - Por que insiste nesse relacionamento com Ashley se você não a ama?
- Eu gosto dela. - Declarei. - Me acostumei com ela. Ashley é... - Me calei ao escutar o som de passos contra o piso.
- Ouvi meu nome? - Ashley perguntou retórica ao adentrar a cozinha com um par de sapato na mão, alternando o olhar entre mim e Taylor. - Olá Taylor, como vai? - Perguntou gentil, porém exibia um sorriso cínico.
- Estou ótima e você?
- Estou bem e vou ficar ainda melhor quando encontrar o outro par do meu Louboutin. - As íris azuis me fitaram. - Por acaso você viu?
- Hmm, acho que eu vi sim... - Meus olhos caíram para o cachorro sossegado perto da geladeira. - Estava na boca do Baylor hoje cedo, ele deve ter largado em algum canto. - Contei, despreocupada.
- O que? - Ashley esganiçou perplexa.
Eu dei de ombros e ela saiu bufando. Taylor e eu nos entreolhamos e no mesmo segundo começamos a rir. Agradeci internamente por ela não ter retomado o tópico sobre a minha infelicidade no qual estava coberta de razão, ela só queria me ajudar, porém a última coisa que eu queria era estragar a noite e desperdiçar o tempo que tinha com ela me lamentando. Acabamos engatando um assunto sobre bichos de estimação enquanto eu cuidava do jantar. Taylor queria adotar um gato, mas Matthew era alérgico.
- E falando nele... - O sorriso bobo voltou a enfeitar seu rosto. - Tem algo que eu quero te falar, quer dizer, eu não ia comentar com ninguém até que realmente acontecesse, mas como eu tenho certeza que vai acontecer... - Respirou fundo.
- Desembucha, Tay! - Soltei impaciente.
- Matt vai me pedir em casamento!
Parei de picar o tomate e ergui meus olhos surpresos para a mulher que sorria de orelha à orelha.
- Ele vai? Como assim? Ele te falou? - Disparei um pouco confundida.
- Ontem sem querer eu acabei encontrando a aliança no bolso do jaleco dele. - Explicou. - Sem contar que já conversamos sobre casamento algumas vezes, então...
- Bom... então posso dizer que já estou feliz por vocês. - Lhe dei um sorriso genuíno, voltando aos meus afazeres. - Adoro o Matt, ele é um cara legal, educado e muito inteligente.
- Não é? - Concordou, sorrindo apaixonada. - E... Sel?
- Hm? - A olhei brevemente.
- Tem mais uma coisa... - Disse num tom de mistério que me deixou intrigada.
- Ai meu Deus, não me diga que está grávida? - Indaguei, parando novamente o que fazia.
- Não! - Ela riu de minha expressão. - Bem, você sabe que um dos meus sonhos é ser mãe, mas não é isso não...
- Então o que é? - Perguntei curiosa.
- Quero que seja minha madrinha de casamento. - Me fitou ansiosa.
- Eu? - Larguei a faca, atônita quando a ficha caiu. Se tratava de um casamento... que certamente reuniria todos seus amigos. - Por que eu?
- Duh? Por que você é uma das minhas melhores amigas? - Foi óbvia, me fazendo soltar um riso hesitante. - Vou falar com as meninas só depois da viajem, mas de você eu não aceito não como resposta!
- Nossa, Tay... - Ponderei incerta. - Eu estou... lisonjeada, mas não é melhor você esperar até que Matt faça o pedido?
- Nah, eu sei que ele vai fazer. - Passou a mão pelo seu cabelo curto, cheia de certeza. - Deve estar esperando até a nossa viagem. - Riu pelo nariz. - Quando eu contar pra minha mãe então, ela não vai nem acreditar...
A voz de Taylor foi aos poucos se tornando remota enquanto eu mergulhava em meus pensamentos. De forma alguma eu queria magoá-la recusando ser madrinha ou até mesmo faltando ao seu casamento, onde obviamente todos os seus familiares e amigos estariam presentes... onde obviamente Demi estaria presente. Engoli a saliva em minha boca, receando intensamente o evento futuro do qual eu não podia e tampouco queria me prevenir. Só de imaginar estar no mesmo espaço que a mulher que eu ainda via em meus sonhos fez meu coração bater desritmado. Soltei tensamente o ar que prendia em meus pulmões, sentindo uma apreensão na boca do estômago. Depois de tantos anos mantendo distância e me abstendo de um reencontro...
- Sel? - Ouvi Taylor chamar.
Eu a encarei angustiada e seu ar animado se desvaneceu.
- Tay...
- Você não vai estar lá no dia, não é? - Ela questionou visivelmente chateada, porém compreensível.
Abaixei a cabeça, incapacitada de responder.
