CAPÍTULO 36

Apesar da afirmativa categórica de Blake, Sawyer só sossegou depois de arrastar uma cômoda da sala e encostá-la na porta da cela.
- Não quero saber de imprevistos – explicou ele ao notar o sorriso irônico de Kate.
Ele também checou Aldo, totalmente apagado no quarto do segundo andar e, por via das dúvidas, amarrou o pulso dele no estrado da cama, com a corda que Kate trouxe na mochila.
Apesar de rir dele, Kate, no íntimo, admirou a meticulosidade de Sawyer.
Ela telefonou para Ana Lucia, avisando que haviam recapturado George Blake e, de quebra, desbaratado uma quadrilha. E mesmo tendo tido o cuidado de ser bastante vaga na parte da quadrilha, teria dado qualquer coisa para ver a cara da Cortez nessa hora.

Enquanto esperavam os reforços chegarem, Kate voltou pela trilha para pegar o carro, largado no bosque. Com as indicações de Burguess, ela voltou para a rodovia e encontrou a entrada do atalho que acabava perto da cabana.
No tempo devido o local ficou lotado de carros de policia e uma ambulância para levar Aldo, ainda no sétimo sono.
Krause, Perkins, Pickett e Curtiss foram, afinal, trazidos algemados para fora da cabana.
Pareciam ainda mais machucados do que antes, especialmente Krause e Perkins. Kate calculou que os dois capangas não foram exatamente gentis com seus ex-patrões e que o pau tinha quebrado lá dentro!
Fora de si de raiva, os quatro homens xingaram, se acusaram, chutaram e se debateram, até serem obrigados a entrar nos carros.

Quem também chegou todo pressuroso, foi o Grego. Ele mal se continha de satisfação por Sawyer ter conseguido agarrar seu maior prejuízo.
Porém, carrancudo ao ver Blake solto, sentado no carro ao lado de Burguess, exigiu saber:
- Sawyer! Que merda é essa? Depois da trabalheira que deu pegar esse cara, você deixa ele solto desse jeito? Ela vai fugir!
- Dá um tempo! Fugir pra onde? Pro meio do mato? Tá tudo cercado de policia. Além do mais, ele mal se agüenta em pé... ele não vai mais fugir, não se preocupe.

Outra pessoa também carrancuda e exigindo explicações, foi Ana Lucia:
- Pensei que fôssemos parceiras, Austen! E quando acaba, você foi resolver um caso pelas minhas costas! – sibilou ela, furiosa.
A cara de inocente que Kate fez encheu Sawyer de orgulho.
- Não é nada disso, Ana! Foi tudo uma coincidência!
- Coincidencia, uma ova!
- Eu juro! Foi por puro acaso! Eu te contei que vinha com Sawyer atrás de um fugitivo, lembra? Por que te contaria isso, se estivesse escondendo alguma coisa de você?
Cortez não pareceu acreditar em uma palavra, mas diante do achado de Kate, imaginou se não seria mais vantajoso para sua carreira estar do lado dela.
Além do mais, começava a gostar de Kate e achar que elas podiam fazer uma boa parceria, mas não podia ser conivente com os truques dela.
Zangada demais para decidir, se afastou de Kate sem dizer nada, deixando-a preocupada.

Em todo caso, se Sawyer admirou Kate por ter mentido tão facilmente para Ana Lucia, ele teria muitos motivos mais nas horas seguintes de depoimento na delegacia.
O Chefe Tripp, superior de Kate, estava furioso com o que considerava ser uma atitude individualista e perigosa, que podia colocar a perder toda a investigação oficial.
De fato, se chegasse aos ouvidos dos advogados de defesa dos detidos a menor insinuação de ilegalidade naquelas prisões, tudo iria por água abaixo.
Mas Tripp não contava com o talento de Kate de acreditar no que falava, sem variações, transformando qualquer mentira numa realidade a toda prova.
Kate abraçou sua versão com a tenacidade de um molusco em sua concha e não se arredou um centímetro disso, para diversão de Sawyer.

- Austen, você se dá conta da gravidade dessa situação? – inquiriu o chefe.
- Entendo, senhor. O que não entendo é o motivo de tanta preocupação – respondeu ela em tom oficial – Não cometi nenhum delito. Já expliquei isso: descobrir o esquema de Krause e Perkins foi um consequência de encontrarmos um fugitivo da justiça, George Alan Blake.
- E por que, cargas d´água, você estava atrás de George Blake?
- Meu vizinho, James Ford, é caçador de fugitivos e me convidou para ir com ele numa recaptação. Fiquei curiosa e aceitei, sem nem saber de quem se tratava. Nem o nome do fugitivo eu sabia, até chegarmos na cabana.

"Oh, ela é boa!" Sawyer pensou eletrizado.

- Austen, o que diabos você, uma policial, tava fazendo com um caçador de fugitivos?
Ela hesitou, brevemente, pela primeira vez e Sawyer, até então calado, resolveu interferir.
- Por que ela é minha namorada! – disse ele, tranquilamente – Não que isso seja da sua conta!
Kate abaixou a cabeça, meio constrangida, mas não protestou. Tripp arregalou os olhos.

Sawyer prosseguiu:
- Eu quis mostrar pra ela como era meu trabalho, já que a gente é do mesmo ramo, por assim dizer...
E sorriu ironicamente, fazendo Tripp ranger os dentes.
- Escolhi esse caso exatamente por me parecer o mais simples e menos perigoso: colarinho branco, um contador escondido... esse material nunca dá problemas. Não ia imaginar que daria esse rolo todo.

- Isso é verdade, Austen? –indagou Tripp em dúvida.
- Sim, senhor! – ela respondeu intrepidamente.
- Mas você não namorava um médico? – atacou o chefe.
- Nós rompemos, já tem um tempo, senhor! – ela o encarou.
Sawyer torceu a boca, mostrando as covinhas.
- É verdade, senhor – afirmou Ana Lucia, inesperadamente – A oficial Austen já havia me contado do rompimento e eu já estava percebendo o envolvimento dela com Ford.
Animada com o apoio da parceira, Kate disse:
- Como eu disse,senhor, foi tudo uma coincidência!

O chefe suspirou.
- Continue.
- Chegamos na cabana achando que Blake estava apenas escondido, mas fomos rendidos pelos captores. Quando ficamos presos juntos, Blake nos contou toda a estória. Estava apavorado e com razão! Krause estava disposto a matar a todos nós. Tivemos que lutar por nossas vidas!
Tripp suspirou de novo, resignado.

Ou Austen tinha uma estória muito bem ensaiada, ou tudo havia sido, realmente, uma extraordinária ajuda do destino.
A estória batia com o que Blake contara e Burguess reconhecera Ford como o homem que o seguira por toda a semana e o abordara para saber de Blake.
À luz disso tudo, o chefe não podia simplesmente ignorar a verdadeira mina de ouro que Austen encontrara, por acaso ou não.
- Está certo – disse ele – Então, vamos ao trabalho! Austen, quero um relatório detalhado na minha mesa em uma hora! Cortez, os pais de Blake já chegaram trazendo um advogado, pegue os depoimentos de Blake e Burguess.
- Senhor, permissão para acompanhar os depoimentos... – pediu Kate.
- Não força, Austen! – Tripp respondeu severamente.
Mas vendo o rosto decepcionado dela, pensou que, mesmo tendo cruzado vários limites, pelo menos ela demonstrara iniciativa.
- Veremos – emendou ele.
Dirigindo-se a Sawyer, rosnou:
- E você: fora!

Fazendo cara de ofendido, Sawyer retrucou:
- Ah, então é assim? Usou e joga fora? Não é assim que se trata um colega de profissão...
Tripp o fuzilou com o olhar e não respondeu.
Prudentemente Kate o puxou pelo braço.
- Vê se pára de provocar.
Quando saiam da sala do chefe, veio a noticia de que Blake desmaiara na sala de interrogatório. O médico chamado diagnosticou estresse agudo, desnutrição e desidratação, recomendando internação imediata e repouso absoluto.
Vendo-o sair na maca, Sawyer e Kate foram falar com ele.
- Parece que a panqueca vai ficar pra outro dia – brincou Sawyer.
- A gente ainda vai se ver muito durante os depoimentos – disse Kate – Agora, você tem que descansar, George.
Blake sorriu fraco, mas tranqüilo.
- Eu sei. Tudo vai se ajeitar agora. Pelo menos estou em paz. Olhem, obrigado... por tudo! – disse George, emocionado, antes de ser levado.
Ao lado dele, os pais e Megan, a namorada, sorriram para eles, como agradecimento.

Se virando um para o outro, os dois se encararam inesperadamente embaraçados.
Algo parecia pairar entre eles, deixando-os ansiosos, constrangidos e eufóricos, ao mesmo tempo. Mas nenhum dos dois parecia em condições de matar a charada naquele momento.
Então, eles apenas ficaram parados, se fitando com intensidade.
Antes que pudessem dizer qualquer coisa, Ana Lucia chamou secamente:
- Austen, temos que conversar!
E foi em direção do vestiário.
- Ela está a meiguice em pessoa, hoje – observou Sawyer.
- Pode ser, mas salvou minha pele, lá dentro. Tenho muita coisa pra explicar – admitiu Kate.
- Então, vai ficar? – indagou ele, puxando assunto.
- Você ouviu Tripp, tenho relatório pra entregar e vou tentar me encaixar na tomada do depoimento do Burguess. Depois de todo esse esforço, não posso ficar de fora – respondeu ela.
- Então, ta. A gente se vê em casa, mais tarde – disse ele esperançoso.
- A gente se vê em casa – confirmou ela, contente.

- Você se saiu muito bem, hoje. Dava uma boa caçadora de recompensa – ronronou ele.
Kate sorriu feliz.
- E você dava um tira e tanto!
Ele também sorriu meio debochado, tentando esconder que, no fundo, se sentiu lisonjeado.
Eles ficaram se olhando mais uns instantes, imaginando o que deviam fazer.
Se abraçar? Se beijar? O que namorados fazem? Eles eram namorados?
Por via das dúvidas, cada um se virou para seu lado, sem maiores despedidas.

***xxx***

Kate viu Ana Lucia parada perto dos armários.
Respirando fundo, ela começou:
- Ana, queria te agradecer... por você ter me apoiado lá dentro. Você salvou minha pele.

Ana a encarou. Apesar de zangada, para os padrões dela, podia se dizer que estava quase serena.
- Você sabe por que te ajudei com o Tripp? Porque é isso que os parceiros fazem: eles dão apoio um ao outro. Eles confiam um no outro. Eles não mentem um pro outro. Eu fiz isso porque nessa última semana comecei acreditar que você quer mesmo ser policial, que você está nessa de verdade e não só pra matar o tempo até se casar com um ricaço.
Kate escutou em silencio.
- Eu acho que você tem potencial, acho que podemos formar uma boa dupla. Então, resolvi te dar o beneficio da dúvida, mas não faz isso de novo, Kate! Eu levo minha profissão muito a sério.
Kate segurou o braço da parceira.
- Eu também! Também levo a sério. Ser policial salvou a minha vida – disse ela, emocionada.
Inspirando profundamente, ela propôs:
- Mais tarde, quando a gente sair daqui, eu te explico tudo o que aconteceu, ok?
Meio amansada, Ana concordou com a cabeça.
A tensão entre as duas diminuiu visivelmente.
- Anda, vamos logo pegar o depoimento antes que o Tripp apareça pra aporrinhar. Ele hoje tá naqueles dias! – afirmou Ana Lucia.

***xxx***

Sawyer vinha cantarolando no carro.
Ele adorava cantarolar quando estava contente. Até achava meio brega, mas era irresistível: ele sempre cantava quando estava feliz e, definitivamente, estava feliz hoje.
Apesar de ter gastado metade da tarde entregando uma papelada infindável ao juiz que expedira o mandado de prisão de Blake e a outra metade relatando, em detalhes a façanha da manhã ao Grego e a Eliie, a secretária – e ainda ter as costas, costelas e estômago doloridos – estava feliz!
E tinha motivos: se safara de uma situação extremamente perigosa com apenas alguns machucados, Kate não sofrera nada além do susto, embolsaraa uma gorda recompensa e, ainda por cima, salvara a vida do boboca do Blae.
Sem querer ser metido a herói, tinha sido legal vê-lo reunido aos pais e à namorada.

E apesar do esporro do chefe e da cara amarrada de Ana Lucia, tinha certeza de que a Sardenta tinha marcado pontos com a equipe.
Estava sendo um ótimo dia!
Mas o melhor de tudo tinha sido a reação de Kate quando ele se apresentara como seu namorado.
Certo, ele pretendia apenas livrar a cara dela – e irritar um pouco, senão não tinha graça .
Mas havia também um desejo disso ser verdade e a vontade, meio suicida, de testar a a afirmação.
Ele chegou a temer alguma reação impensada de Kate que botasse a perder o "álibi" ou, no mínimo, uma olhadela reprovadora, mas não!
Surpreendentemente, ela aceitou com naturalidade e confirmou para o chefe com uma curiosa ponta de desafio.
Claro que ela podia apenas ter entendido e entrado no jogo dele, mas julgando pelas última noites, ele tinha motivos para acreditar que Kate gostara do que ele dissera.
Conhecia bastante da vida para saber que sexo não significava automaticamente um namoro.
Na hora que se despediram na delegacia, tivera muita vontade de perguntar em que pé eles estavam e se ela tinha aceitado o pedido de namoro, mas não era hora nem lugar.

Por isso, ao sair do escritório do Grego segurando o cheque gordo da recompensa, voara para o banco e sacara uma boa grana.
Ia fazer uma supresa para a Sardenta.
À noite ia encomendar um bom jantar de um restaurante fino e comemorar a vitória deles com o champagne francês que comprara.
Para o caso de Kate preferir cerveja, comprara uns engradados, também.
Se sentia ansioso e excitado, como um adolescente.
Aquela ia ser uma noite muito especial, previu ele.

Ao chegar em casa, porém, topou com Jack Shepard sentado no pátio, conversando com Sun, que também parecia ter chegado há pouco.
O médico estava com melhor aparência do que a da última vez estivera ali e parecia mais bem humorado. Havia tirado o paletó e afrouxado a gravata.
Estava tão descontraído que acendou com a cabeça para Sawyer, que se sentiu estranhamente perturbado.
Havia apagado Jack Sheppard de sua mente e vê-lo agora, sentado ali, à espera de Kate, o deixou inseguro e incomodado.
Sun estava contando que acabara de chegar da maternidade e que Claire e o bebê estavam ótimos.

Vendo o gargalo da garrafa de champagne aparecendo fora da sacola que Sawyer carregava, ela indagou marota:
- Champagne? Alguma data importante?
- Deve ser uma ocasião bem especial – comentou Jack, realmente simpático.
- É... tive um bom dia no trabalho.
- Prendeu algum bandido perigoso? – indagou Sun.
Sawyer pensou um pouco e respondeu cabotino:
- Na verdade, ajudei a desmontar uma quadrilha de fraudadores.

Jack sorriu no seu jeito condescendente de sempre.
- Muito bom. Tambémtive um bom dia no hospital.
- Salvou a vida de alguém?
- Na verdade, melhorei bastante a qualidade de vida do paciente – pigarreou ele.
Sawyer fez um cumprimento com a cabeça.
- Parabéns.
- Ah, Sun, por acaso você viu Kate na maternidade? – indagou Jack de supetão.
- Não, não vi. Está esperando por ela?
- Sim, vou levá-la para jantar fora.
- Namorar um pouco – completou Sun.
Sawyer abaixou os olhos, mas sentiu seu entusiasmo murchar imediatamente.

- Vai ser um jantar de planejamento. Recebi um convite para ser chefe da equipe de neuro-cirurgia de um dos maiores hospitais de Boston – contou Jack, orgulhosamente – Vou assumir em quinze dias. Como vê, eu e e Kate temos muito que combinar.
Sawyer teve que se controlar para não arregalar os olhos ali mesmo, de tanta surpresa.
- Então, Kate vai também? – indagou Sun, igualmente surpresa.
- Claro que vai!
- Mas ela acabou de se mudar pra cá...
Jack pigarreou mais uma vez.
- Eu não tinha avisado a ela, queria fazer uma surpresa. Kate ficou um pouco aborrecida por ter aceitado a posição sem consultá-la, mas já está tudo pronto: casa, viagem, mudanças... claro que ela vai.
Sawyer se sentiu meio enjoado, como se houvesse recebido um outro golpe de Pickett no estômago. Algo provavelmente transpareceu em seu rosto, porque, de repente, toda a atmosfera amena entre os dois homens desapareceu e eles se entreolharam sem humor.
- Bem... vou entrar. Tchau pra vocês – disse Sawyer.
Sawyer o acompanhou com o olhar, cuidadosamente.

Sawyer entrou em casa abalado.
Droga, pensou confuso. Será que se enganara tanto assim? Será que a Sardenta tinha levado ele no bico?
Vai ver por isso tinha transado com ele, para se vingar do Doc! O usara para se sentir melhor e pra castigar o precioso Jack Shepar, até concordar em ir com ele para o diabo que carregue!
- Deve ser carma! Só pode ser! – resmungou, lembrando de todas as mulheres que usara e enganara na vida.
Subitamente, se sentiu muito cansado e seus ferimentos começaram a doer infernalmente.

Largando o champagne de qualquer jeito em cima da mesa, foi para o banheiro e tomou um longo banho para se acalmar.
Mais tranqüilo, penseou que talvez estivesse exagerando: aqueles eram os planos do dr. Risadinha, não os da Sardenta.
Ela não ia abrir mão de sua carreira na policia, depois de tanto esforço para se destacar.
Ele vira muito bem a expressão de triunfo no rosto dela quando entraram na delegacia com Blake e os outros presos.
Ela não iria desistir disso assim... certo?
Com a cabeça, e o corpo todo, estourando de dor, tomou uns analgésicos e se deitou, só um pouco, para descansar o corpo pesado.

Só até a Sardenta chegar.
Aí, ele iria falar com ela e esclarecer as coisas de uma vez por todas.
Só ia descansar um pouquinho... pensou, com os olhos cada vez mais pesados.

*** xxx***

Assim que Kate viu o carro de Jack estacionado na calçada percebeu que a hora de pôr um ponto final naquela situação tinha chegado.
Kate havia passado a tarde inteira ansiosa para conversar com Sawyer. Precisava saber se ele havia falado a sério sobre eles serem namorados ou se aquilo tinha sido um truque para embaçar a desconfiança de Tripp.
Precisava saber em que terreno estava pisando, especialmente com um homem como Sawyer.
Mas agora percebia que antes de conversar qualquer coisa com ele, teria que enfrentar Jack de uma vez por todas.
Ao vê-lo se levantar sorrindo para ela, sentiu pena e uma ternura difusa por ele.
Ela gostava muito de Jack e, durante certo tempo, chegara a amá-lo. Sempre se sentiria grata por ele ter gostado dela a ponto de querer unir sua vida á dele.
Mar era tão óbvio que eles não eram certos um para o outro... essa conclusão não podia mais ser adiada.
- Hei! – disse Kate.
- Hei! – respondeu Jack.
Ela abriu a porta e os dois entraram em silencio.

- Te procurei o dia todo – disse Jack – Mas seu celular estava desligado.
- Eu sei. Tava numa diligencia... foi um dia muito intenso, muito importante pra mim. Jack, hoje eu dei um grande passo na minha carreira-
- Escuta, Kate – interrompeu Jack, sem cerimônia, deixando-a desconcertada – Eu sei que andamos nos desentendendo, mas isso é só uma fase ruim. Todos os casais passam por isso... estou disposto a esquecer tudo para irmos em frente juntos.
- Jack! – Kate tentou cortar, mas ele não parou de falar.
- Kate, nós vamos ser muito felizes em Boston. Já preparei tudo para nós dois. Eu sei que uma garota gosta de escolher e decorar a própria casa, mas ainda tem muita coisa pra você arrumar, eu garanto.
Kate suspirou exausta.
- É uma oportunidade sem igual, não vai haver limites para o meu crescimento na medicina – ele suspirou – Finalmente vou sair da sombra de meu pai!
Kate sabia o quanto isso era importante para Jack e chegou a ficar feliz por ele.
- Jack, por favor, deixa eu falar-

- E você vai ter muitas atividades em Boston. É uma cidade incrível, cheia de atividades culturais, você vai adorar. Nós dois vamos crescer, prosperar lá, juntos.
Ela o encarou enervada.
- Você vai prosperar, Jack.
- Nós vamos. Num casal, quando um prospera, o outro também prospera.
- No nosso caso, você progride e eu fico parada, olhando.

- Isso não é verdade,Kate – protestou Jack.
- É claro que é! – disse ela, levantando a voz – Desde que entramos, você só ficou falando sobre "sua" carreira, "sua" chance, "sua" prosperidade. E eu? Eu quis te contar o meu dia, a coisa sensacional que me aconteceu e você nem me deixou acabar de falar! Eu tive um dia inacreditável e você não me deu um mísero minuto para contar!
Ela avançou para ele, tomada pela indignação.
- Eu consegui desbaratar uma quadrilha de crimes de colarinho branco. Foi uma vitoria pra mim! Me olharam com respeito na delegacia! E tudo que você quer é que eu sacrifique tudo o que conquistei para ter hobbies em Boston!
Ela suspirou e balançou a cabeça, amarga.

Mas Jack mal escutou a última parte do que ela falara.
Aonde escutei isso: quadrilha desbaratada? Jack se perguntou.
De repente, se lembrou – Sawyer!
Jack a encarou suspeitoso.
- Que tipo de quadrilha?
Impaciente, ela respondeu asperamente:
- Não tente fingir agora que se importa com meu trabalho, Jack, é tarde demais!
Gritando,ele repetiu:
- Que tipo de quadrilha? Fraudadores?
Sem entender, ela respondeu:
- É, mais ou menos...
- Como foi isso? – ele perguntou indócil.
- Isso o quê?
- Como você desbaratou a tal quadrilha, Kate? Com quem você estava? – ele insistiu.
- Isso não é da sua conta – ela respondeu desaforada e desconfiada de onde ele queria chegar.

- Você não disse que não me importo com sua vida profissional? Então, agora eu quero saber, droga!
- É trabalho meu e da Ana Lucia, é oficial, não posso falar sobre isso! – gritou ela de volta.
Sem acreditar, Jack começou a andar pela sala.
- Mas queria contar ainda agora, quando achou que podia me enganar!
Se sentindo acuada, ela rebateu com raiva:
- Queria contar o quanto esse dia foi importante pra mim pra fazer você entender que nunca vou desistir de ser policial!
Ele a olhou descrente.
- Tá vendo, isso não está dando certo, Jack!
- Kate você não pode rejeitar tudo que planejei pra nós, tudo que organizei! São as nossas vidas!
- Não, Jack, é a sua vida – retrucou firmemente, embora com lágrimas no rosto.

Ele sacudiu a cabeça inconformado.
- É melhor assim. Estou fazendo isso para o seu bem. Mesmo que você não acredite, eu quero que seja muito feliz – assegurou Kate.
- Para o meu bem? Eu não vou aceitar isso!
Perdendo a paciência, ela replicou:
- Não depende de você, Jack! Eu não vou a lugar algum.
- Pense melhor sobre isso, Kate – pediu ele.
- Já pensei tudo que tinha para pensar.
- Reflita mais uns dias, com a cabeça fria, depois conversamos melhor.
Ela negou, balançando a cabeça.
- Vamos fazer o seguinte: vamos sair e jantar e mais tarde, voltamos ao assunto. Pegue sua bolsa – disse ele, se dirigindo para a porta.
Kate segurou o braço dele e disse suavemente:
- Espero que encontre o que está procurando, Jack.
Surpreso com a calma dela, Jack a estudou longamente e sem saber o que dizer, saiu em silencio, deixando Kate chorando na sala.

***xxx***

Apesar de ter ficado triste ao ver Jack arrasado, Kate experimentou uma grande sensação de liberdade ao romper definitivamente com ele.
Seu primeiro impulso foi correr para o apartamento de Sawyer, mas se conteve.
Achou imoral mal acabar um relacionamento com um homem e pular direto para outro.
Depois riu da própria hipocrisia ao lembrar das noites que passara com Sawyer ainda noiva de Jack.
Se sentiu duplamente aliviada por ter encerrado aquela situação desleal. Se lembrou do que George Blake falara ao ser levado para o hospital e como ele, se sentiu em paz.
Em paz para decidir o que julgasse melhor para sua vida profissional e sentimental.

Se perguntou, sinceramente, se um homem complicado como Sawyer seria o melhor para ela, uma mulher tão cheia de pesos emocionais.
Mas independente da resposta, sabia que Sawyer já fazia parte de sua vida e que agora, tinha que ver até onde isso ia levá-los.
Não era uma decisão fácil para ela.
Havia o medo, profundamente arraigado, de repetir os erros de sua mãe, sempre a assombrá-la.
Sua própria repulsa de ser dominada e sua eterna urgência de fugir diante de qualquer ameaça de perder o controle de sua vida.
Ainda assim, percebia que sua única opção era dar esse salto no escuro.
Não ia pensar, apenas sentir.
Sempre tinha sido assim entre eles e com certeza, seria assim até o fim.
Agitada, viu pela janela que havia luz no apartamento de Sawyer e resolveu mandar os escrúpulos para o inferno.

Hurley estava esquentando o jantar quando Kate bateu na porta.
- Uau! – exclamou ele – Você tá a maior gata! Vai pra alguma festa?
Tinha resolvido se arrumar um pouco para o encontro decisivo com Sawyer, mas como estava com pressa, apenas se maquiara levemente, afofara os cachos que Sawyer tanto parecia gostar de enrolar em seus dedos e por fim, colocara um vestido simples, mas que lhe dava um ar sexy.
Mas a reação de Hurley a deixou ainda mais nervosa.
- Ih, a panela! O molho vai queimar – exclamou Hurley, correndo para o fogão. – Quer espagueti?

Acompanhando Hurley, Kate disse:
- Não, obrigada. Sawyer tá aí? – indagou à queima-roupa.
Se Hurley se surpreendeu, escondeu muito bem.
- Ele ta no quarto, deve estar lendo.
- Eu posso ir lá...
- Claro, vai fundo.
Antes de ir ela notou a garrafa de champagne em cima da mesa.
- Vai tomar champagne com o espagueti, Hurley?
- Ia ser uma boa, mas essa garrafa não é minha. Já estava ai quando cheguei. Sawyer deve ter comprado e esquecido de gelar.

O rosto de Kate se iluminou.
Hurley, que não deixava escapar nada, afirmou casualmente:
- Acho que vou deicar um tempinho no freezer, pra ganhar tempo...
Kate concordou com a cabeça:
- Obrigada, Hurley – disse ela, fingindo ignorar o olhar divertido dele às suas costas.
Ela bateu de leve na porta e depois, mais forte.
Não obtendo resposta, entrou direto.

Iluminado pelo pequeno abajur na mesinha de cabeceira, Kate encontrou Sawyer profundamente adormecido.
Ela o observou por alguns instantes.
Parecia um sono pesado e atribulado, diferente das vezes em que o vira adormecido: seu corpo estava tenso e seu rosto, franzido.
Reparou então na caixa de analgésicos na mesinha e, em seguida, nos enormes hematomas arroxeados em seu abdômen e lados do corpo.
Se lembrou, com uma pontada no peito, da brutalidade de Pickett.
Preocupada, se recriminou por não tê-lo obrigado a ir a um pronto-socorro para dar uma examinada nos ferimentos.
Mas estava tão envolvida no processo da prisão da quadrilha e ele parecia tão senhor da situação, que nem lhe passara pela cabeça que Sawyer pudesse estar seriamente ferido.
Sem saber o que fazer, cogitou em aplicar umas compressas ou gelo ou alguma coisa assim.
Mas ele parecia tão cansado, que talvez o melhor fosse deixá-lo dormir.

Ainda o vigiou por uma meia hora, para ter certeza de que ele estava bem.
Como ele não acordasse, nem parecesse estar passando mal, resolveu voltar para casa.
Teria dormido ali com ele, se Sawyer não tivesse se espalhado bem no meio da cama, com os braços estendidos para os lados, tomando todo o espaço da cama.
Mas, pensando bem, talvez fossemais confortávelpara ele dormir sozinho essa noite.
E melhor para ela, para colocar os pensamentos no lugar.
Paciencia! Comemorariam com o champagne na noite seguinte.

Antes de sair escreveu um bilhete curto avisando que estava preocupada e que ele devia ligar para ela logo que acordasse.
Ainda foi à cozinha, encheu uma garrafinha de água e deixou na mesinha, caso ele ficasse com sede durante a madrugada.
E avisou Hurley da luta que Sawyer enfrentara no trabalho e pediu-lhe que ficasse de olho nele.
Por fim, beijando-o na testa, apagou o abajur e saiu de mansinho, sem despertá-lo.