Disclamer: Saint Seiya não me pertence, nem seus personagens.
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens.
Capítulo 24 - Vidas Roubadas
Shun POV
"Me encontre no saguão do Plaza às 16:00 do dia 7.
PS: Não fale sobre isso com ninguém… depois eu explico.
H."
E isso foi tudo que ele disse. Apenas essas três linhas. Depois de mais de um mês sem nenhum contato. Sério, se eu não estivesse tão curioso eu teria ficado em casa.
Não, não teria. Droga, a quem eu queria enganar? Eu não teria ficado no meu quarto depois daquela mensagem nem que minha vida dependesse disso. Pelo menos eu havia conseguido me atrasar um pouco. Tudo bem, só dez minutos, mas mesmo assim.
Estava parado no famoso salão de chá do Plaza, vasculhando a multidão a procura do Hyoga, quando a confusão começou: Alguém avisou pelos auto falantes que havia um vazamento de gás no prédio, e policiais começaram a surgir as dúzias pelas lindas portas de vidro e organizar as pessoas em filas pra evacuar o prédio. Turistas passavam por mim indignados por terem que abandonar seus chocolates e croissants e deixar o interior aquecido do hotel para o frio lá fora. Muitos se recusavam a deixar o local. Crianças choravam. Alguém pedia pra falar com o responsável, outro dizia ser parente do governador, e muitos ameaçavam prestar queixas ao prefeito.
Eu me encostei contra uma parede e tentei procurar pelo Hyoga mais uma vez, mas a policia parecia ter pressa e um homem com vestimentas de segurança me empurrou junto a uma fila de pessoas em direção a saída.
O vento gelado de Fevereiro bateu contra o meu rosto quando meus pés chapinharam a neve que recobria o jardim de frente a Quinta Avenida. A polícia estava montando um cordão de isolamento em volta do hotel naquele momento. A algazarra ali era enorme. Pessoas saíam por todos os lados vociferando contra as autoridades. Um policial gritou pra que eu fosse pra trás do cordão. Transeuntes e mendigos também estavam sendo afastados do perímetro. Eu procurei meu celular no bolso do casaco pra tentar falar com o Hyoga… E então o ar explodiu.
De repente eu senti o chão estremecer sob os meus pés e ouvi um troar grave. Uma série de clarões ofuscantes apareceu no interior do prédio, atrás das vidraças que pareceram estourar ao mesmo tempo. Um golpe de ar quente me fez cair de joelhos, levando as mão à cabeça.
O barulho foi imenso, ecoou pelos meus tímpanos e me alcançou o cérebro como um estilete afiado. Por algum tempo eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Tijolos choviam ao meu lado. Uma onda de calor surgiu a minha volta, brutal e intensa. O ar parecia trovejar. Destroços voavam para todos os lados. Um enorme pedaço de concreto em combustão despencou no chão a centímetros do meu rosto. Então alguém gritou a palavra "bomba" e "terrorismo", e eu finalmente entendi o que estava acontecendo.
Uma bomba… Alguém tinha tentado explodir o Plaza.
Que jeito mais estúpido pra se morrer, eu ainda pensei.
E então tudo parou e eu só ouvia os gritos, os gemidos, e os lamentos de desespero das pessoas.
O fim do mundo devia ser algo parecido com aquilo, eu imaginei. Quente, sujo e barulhento.
Eu tentei me levantar outra vez.
"Hyoga". Eu tinha que encontrar o Hyoga.
Eu tentei forçar passagem pela multidão que agora corria de forma desabalada em direção ao cordão, e os paramédicos que passavam recolhendo os feridos.
Por duas vezes levei um golpe na orelha que me deixou ouvindo sininhos por alguns instantes, enquanto tentava me aproximar das portas duplas do salão de chá, por onde todos agora se espremiam de forma frenética pra sair.
Mas eu não ia desistir. Hyoga devia esta por ali. Podia estar ferido.
A multidão se avolumava de maneira insana. Um menino voou do meio dela como um sabonete escorregadio de mãos molhadas, para em seguida cair de cara no chão e deslizar sobre o gelo, as pessoas tropeçando nele.
Eu tentei chegar até ele, mas meus tênis patinaram sem apoio e a força da turba me levou ao chão. Mais uma vez protegi a cabeça, consciente de que estava prestes a encarar o mesmo destino do garoto.
Que ironia, sobreviver a uma bomba pra morrer pisoteado, eu pensei. Então senti uma mão se fechando no meu braço e me puxando pra cima.
— Achei.
Eu olhei para a mão... O braço vestido em um smoking escuro, os cabelos claros, os olhos azuis... Hyoga!
Eu arregalei os olhos surpreso.
Ele estava bem. Hyoga estava bem!
Eu quis dizer alguma coisa, mas mal tive tempo de assimilar o que estava acontecendo e já estava correndo outra vez. Arrastado pela mão por entre a multidão frenética, patinando no gelo, até parar em um solavanco, espremido com Hyoga atrás do cordão de isolamento.
— Você está bem? - Foi ele quem perguntou assim que nós paramos. Os olhos conferindo meu rosto em busca de possíveis ferimentos.
Olhos azuis tão intensos que tiraram o pouco fôlego que me restava. Eu tinha esquecido o efeito que ele provocava em mim.
Eu queria ter algo inteligente pra dizer, mas tudo que fiz foi assentir bobamente em resposta a sua pergunta, desviando os olhos constrangido por um minuto. E só então perceberndo que o Afrodite e aquele namorado dele estavam lá também. Parados atrás do cordão, olhando fixo para algum lugar.
Havia lágrimas nos olhos do loiro, e um casal ao lado dele parecia bastante preocupado também.
Um senhor e uma senhora que pela semelhança com o Afrodite eu só poderia supor ser a mãe dele. O que obviamente significava que o homem ao lado dela devia ser o pai do Hyoga.
Aquilo me tirou do transe hipnótico que a presença do Hyoga me causava.
Eu abri a boca para perguntar o que estava acontecendo e então parei, ao notar o olhar de choque que estampara o rosto do meu melhor amigo.
Acompanhando a direção do olhar dele eu me deparei com a visão de um homem caído de bruços no chão, há cerca de seis metros do cordão. Os cabelos longos espalhados. Destacando-se, vermelhos, sobre a neve branca.
— Camus...! - Hyoga balbuciou.
Camus, o irmão do Oga? O irmão do Hyoga havia sido ferido na explosão!?
Os paramédicos pareciam estar retirando o corpo de um outro homem desacordado de cima dele.
Engraçado, o homem parecia muito o Milo Scorpion.
Os paramédicos deitaram o sósia do Scorpion na neve, e então aqueles dois detetives que eu conhecera naquela manhã, na delegacia, com o Hyoga, apareceram sei lá de onde, e, de repente, um deles estava parado ao lado do homem desacordado, gritando com o sujeito.
Foi quando o irmão do Hyoga se mexeu.
Ele levantou a cabeça e piscou desorientado na nossa direção.
—Camus! - O Afrodite gritou. Mas o ruivo não parecia ouvir. Talvez ainda estivesse surdo pela explosão, ou algo assim.
Hyoga apertou a minha mão, e eu a apertei de volta. Lágrimas escorriam pelo seu rosto, e eu sentia minhas bochechas molhadas também, embora não me lembrasse desde quando estava chorando.
A situação era caótica. Os paramédicos começaram a tentar erguer o ruivo, mas quando seus olhos caíram sobre o corpo do homem desacordado ao seu lado, ele se livrou do agarre dos médicos e se arrastou até lá.
— Camus! - O Afrodite gritou outra vez, se precipitando em direção ao ruivo e sendo contido pela mãe e pelo namorado.
— Mas que catzo você pensa que está fazendo, Francês! - O italiano vociferou para o horizonte. Hyoga segurou com força o cordão da polícia a nossa frente, e eu aumentei o aperto em sua mão pra evitar que ele fizesse alguma besteira.
Camus olhava atônito para o corpo estendido na neve. Lágrimas escorriam pelo seu rosto também.
Então o homem se mexeu. Abrindo os olhos e levantando uma mão até o rosto do aflito do ruivo no que pareceu uma suave carícia.
Eles trocaram algumas palavras, Camus sorriu por entre as lágrimas, e eu suspirei aliviado, apertando mais uma vez a mão do Hyoga.
"Tudo bem. Ia ficar tudo bem."
Mas mal o pensamento se formara na minha mente, nós sentimos a chão estremecer outra vez.
Hyoga me puxou protetoramente contra seu corpo e eu enterrei o rosto em seu peito, percebendo, enquanto o que parecia ser toda a faixada social do Plaza despencava a nossa frente, que era mentira. Eu estava enganado. Não ia ficar tudo bem.
Uma nova explosão, ainda maior do que a primeira nos fez recuar. Por um instante o tempo pareceu parar. Tudo ficou quente, silencioso, e escuro. E então o mundo pareceu desabar. Depois havia apenas o soar das sirenes, os lamentos e gemidos dos feridos, o cheiro de sangue, e a fumaça - uma mistura de fuligem e concreto-, que impregnava o ar, fazendo arder os olhos e a garganta.
Eu nunca havia vivenciado uma guerra antes, mas imaginava que não devia ser muito diferente daquilo.
Eu sabia que não deveria olhar. Sabia que aquelas imagens me assombrariam em sonhos, mas me virei e fixei os olhos mesmo assim.
A primeira coisa que vi foram os paramédicos correndo de um lado para o outro, e um grupo deles trabalhando, muito agitados, em torno de uma massa de sangue que parecia ter sido um dos porteiros do hotel. A maior parte do homem fora lançada a quase cinco metros de distância da entrada. Em algum lugar do meu cérebro entorpecido eu imaginei se alguém conseguiria encontrar o seu braço.
Camus permanecia deitado de bruços na neve, imóvel. Era impossível saber se estava vivou ou morto. E havia apenas uma pilha de destroços agora onde antes estivera o corpo do loiro com quem ele conversava. Seria um milagre se o homem ainda estivesse vivo, eu pensei.
Hyoga estava em choque. Ele parecia congelado ao meu lado. E Afrodite gritava histérico o nome do ruivo.
O que era ligeiramente engraçado, é que embora ele estivesse bem atrás de mim era como se sua voz viesse de muito, muito longe. E, embora eu sentisse lágrimas descendo pelo meu rosto eu não sentia como se fosse eu que chorasse.
Eu já havia estado no Plaza com o Ikki uma vez, eu lembrei. Recordava da opulência do lugar e da elegância. As cores discretas, as pessoas lindas, os turistas de olhos arregalados, as jovens empolgadas, os grupos de pessoas carregadas com bolsas de compras que lotavam as mesas para experimentar a antiga tradição do chá no Plaza.
Há menos de meia hora atrás aquelas pessoas estavam ali. Sentadas em lindas mesas, ouvindo um violinista, bebendo chá ou vinho, e comendo tortas.
Agora haviam apenas destroços. Retalhos esfarrapados de roupas coloridas, pedaços decepados, montes de cinzas e poças de sangue.
Um tremor involuntário percorreu meu corpo. Meu estômago se contraiu, e eu tive que me segurar no cordão à minha frente no exato momento em que com um novo estrondo, uma terceira explosão, encheu o ar de fuligem outra vez.
Mais gritos, mais choro. Uma criança chamava pela mãe, e meus joelhos cederam. Uma mão me segurou, impedindo a queda. Meus olhos ardiam tanto e estava difícil respirar. Alguém me amparava contra o seu corpo. Eu não queria ser tão fraco, mas simplesmente não conseguia evitar os tremores e a náusea.
A falta de ar aumentou. Minha cabeça girou uma vez… E de novo…
E então tudo ficou escuro.
oOo
Eu acordei algumas horas depois em uma maca na enfermaria do Hospital Geral de New York.
Segundo o médico eu desmaiara pelo excesso de inalação de gases tóxicos e pelo efeito do choque. Ao menos eu não fora o único que passara mal. Afrodite estava sendo atendido também, meu irmão me contou. Ikki fora chamado quando eu dei entrada no hospital e estava agora sentado ao meu lado no meu cubículo.
Hyoga, pelo que meu irmão dissera, não chegara a desmaiar mas tivera que fazer inalação de oxigênio. Eu não o vira mais depois da explosão, mas não podia culpá-lo. O irmão dele ainda estava na UTI, inconsciente, e ninguém sabia informar qual a extensão dos danos que tivera.
Eu nem podia imaginar como eu me sentiria se fosse o Ikki inconsciente em um hospital sem prognóstico definido. A despeito de qualquer coisa, tudo o que eu queria era poder estar ao lado do Hyoga naquele momento. Mas meu irmão e o médico insistiam em me manter em observação.
O que significava que eu não tinha mais nada pra fazer além de ficar ali deitado, remexendo os sites de notícias no meu celular.
Que foi como eu descobri que o tal homem que estivera caído ao lado do irmão do Oga na frente do Plaza era mesmo o Milo Scorpion, afinal. Ele fora retirado com vida dos escombros, segundo os jornais, e estava em coma induzido por medicamentos no momento.
Eu sinceramente esperava que ele ficasse bem. Principalmente porque o irmão do Oga parecera ter muito carinho por ele. Talvez fosse algum amigo da família, não sei. Eu só não entendia porque o Hyoga nunca tinha comentado que eles conheciam o Milo Scorpion. Mas aparentemente eu não entendia muita coisa.
Eu ainda não entendia por que o Hyoga desaparecera por todo aquele tempo, por exemplo. Ou por que ele me mandara aquela mensagem misteriosa. Por que reaparecera justamente naquelas circunstâncias. Muito menos por que alguém havia colocado uma bomba no Plaza.
Essas eram imagens que eu ainda não conseguia esquecer…
Meu irmão tossiu chamando a minha atenção.
Eu desliguei o telefone e olhei pra ele.
— Sabe, Shun, - Ele começou depois de um tempo - eu estive pensando, e… se você ainda quiser voltar pra Tóquio… Digo, se quiser deixar Harvard e transferir seu curso pra lá, eu vou te ajudar. Você não tem que continuar aqui.
Eu arregalei os olhos surpreso. De onde tinha saído aquilo agora?
Quer dizer, nós já tínhamos discutido tanto sobre isso antes. Eu fizera de tudo pra não ser mandado pra América, mas ele, o papai, e a mamãe não arredaram o pé… Então por quê agora?
— E quanto a tradição da família que o papai tanto preza? - Eu falei - E sobre aquela história da importância de eu aprender a me virar sozinho? Da experiência com outra cultura?
Ele balançou a cabeça.
— Nada disso importa.
— Desde quando?
— Desde que viver aqui tem te entristecido tanto. Eu vi como você esteve esse mês que passou, Shunny. - Meu irmão suspirou - Sabe, você não tem que ficar se está sendo tão difícil pra você. Eu falo com o papai. Nós podemos dar um jeito.
Eu pisquei surpreso.
— Você faria isso? Enfrentaria o papai por minha causa? Só pra me fazer feliz?
— Sim. - Ele assentiu firmemente. - Sempre. A sua felicidade é o mais importante. Me desculpe por ter feito tudo errado. Por não ter percebido antes. Eu prometi pra mamãe que o deixaria crescer, é verdade, mas não foi só isso. Eu também prometi que faria o impossível pra mantê-lo feliz. E vou cumprir pelo menos essa promessa.
— Ah, Nii-san! - Eu me lancei sobre ele, sentando na maca e enlaçando meus braços em seu pescoço como havia muito tempo não fazia. - Sinto muito por ter feito com que se preocupasse comigo esses dias. Me desculpe por ter sido tão infantil e estúpido.
Era engraçado pensar no quanto eu tinha lutado pra ficar no Japão, pra ficar em casa, só pra perceber no final que "casa" não era um lugar, não era um conceito pré estabelecido, era algo que a gente ia formando pelo caminho, ao lado das pessoas com quem a gente queria estar.
Sabia disso agora, assim como sabia que se o meu pai era um idiota, o Ikki e minha mãe, pelo menos, sempre estariam por perto pra me defender. E que se eles tinham concordado em me mandar pra longe, fora porque eu precisava disso. Tinha que me afastar do que era confortável pra conhecer o mundo. Via isso agora.
— Você não foi estúpido. - Meu irmão falou, retribuindo o abraço.
Eu desalojei a cabeça do peito dele e me acomodei na maca outra vez, segurando sua mão.
— Fui sim, Ikki. - Eu afirmei - Agora eu entendo que você e a mamãe sempre quiseram o que é melhor pra mim. E vocês estavam certos. Harvard... morar fora... tudo isso. Têm sido uma experiência incrível… se eu ao menos não tivesse… não tivesse…
"…estragado tudo, me apaixonando pelo meu melhor amigo" eu quis dizer, mas não tive coragem.
— Seguido o seu coração? - Meu irmão completou por mim, fazendo-me encará-lo boquiaberto. O quanto o Ikki realmente sabia sobre os meus sentimentos?
De repente eu me lembrei das palavras da Freya, aquela tarde no café: "Eu sabia como vocês se sentiam em relação um ao outro. Todos sabiam."
Eu baixei os olhos, e mordi os lábios constrangido. É claro que o meu irmão também já tinha entendido tudo. Que idiota eu tinha sido. Era do Ikki que estávamos falando.
Eu concordei com a cabeça.
— E você… não se importa? - Eu perguntei ainda sem olhar pra ele.
Esse era um dos motivos porque eu nunca havia comentado nada com o Ikki até agora. Eu tinha medo da forma como ele iria reagir. Não que ele já tivesse demonstrado fazer o tipo preconceituoso algum dia. Mas nós nunca tinhamos conversado sobre essas coisas também.
— Na verdade, me importo muito. - Meu irmão falou, me fazendo olhar pra ele surpreso mais uma vez - Eu odeio que ele esteja te fazendo sofrer desse jeito, sabe. Odeio não saber o porquê. E odeio principalmente não poder fazer nada pra evitar.
Eu suspirei.
— Onii-san… - Eu comecei, mas ele me calou com um gesto.
— Não. Não precisa explicar. - Ele disse. - Só volte pra casa, Shun, se isso for tornar as coisas mais fáceis pra você. Não se preocupe com mais nada.
Eu balancei a cabeça.
— Eu não posso ir. Não quero me afastar de você, ou dos meu amigos. E você e a mamãe estavam certos. Eu preciso aprender a me virar sozinho. Eu quero aprender… Além disso… - Eu suspirei outra vez - Além disso, eu gosto demais dele pra ir embora desse jeito. Seria covardia minha. E não seria justo… com nenhum de nós.
Meu irmão assentiu pensativo.
— Então você vai ficar e enfrentar as consequências?
Eu concordei com a cabeça vigorosamente.
Sabia que não seria fácil. Primeiro eu teria que resolver minha situação com o Hyoga… Quer dizer, se ele ainda quisesse resolver alguma coisa comigo àquela altura, é claro. Depois teria minha família, e então, o pior de tudo, meu pai.
Ikki se levantou e exalou pesadamente.
— Bem, nesse caso vou conversar com esse garoto e com o papai e ver o que posso fazer a respeito.
— Não! - Eu protestei com um sobressalto, depois continuei mais calmo - Quer dizer, eu preferiria que não fizesse isso.
Ele franziu as sobrancelhas escuras.
— Por que não?
— É a minha vida, Ikki! - Eu falei, cruzando os braços sobre o peito. - São os meus problemas. Eu me coloquei nessa situação. E devo sair dela sozinho.
— Shun, não posso não fazer nada. - Ele balançou a cabeça - Sou seu irmão! Não posso ficar apenas assistindo enquanto você enfrenta tudo por conta própria. Eu fiquei quieto até agora, e olha aonde isso te trouxe! - Ele fez um gesto amplo com a mão indicando a ala hospitalar em volta.
Eu descruzei os braços e endireitei as costas determinado.
— Pode sim. Eu sou capaz de cuidar de mim mesmo. Se fui capaz de me arranjar sozinho em Boston, sou perfeitamente capaz de resolver a minha vida agora também.
Meu irmão franziu o cenho me encarando e eu sustentei seu olhar até que ele desistisse.
Ele correu os dedos pelo cabelo com impaciência e engoliu uma imprecação.
— Tudo bem. - Ele cedeu afinal - Concordo com relação a esse garoto. O Hyoga. Mas vou fazer alguma coisa em relação ao papai, quer você goste ou não.
— Mas…
— Diabos, Shun! Está querendo me destituir do posto de irmão mais velho?
Eu acabei rindo e o abraçando outra vez.
— Jamais, Nii-san. Isso nunca. Faça como achar melhor, então. Apenas me pergunto como pretende lidar com o nosso pai.
— Confie em mim. - Ele beijou minha testa com um sorriso satisfeito, depois levou uma mão ao bolso de onde tirou uma correntinha. - Acho que isso é seu.
— Minha corrente! - Eu arregalei os olhos surpreso ao me deparar com a correntinha com os dois pingentes de coração pendurados. Um que eu tinha ganho do Ikki, e outro que o Hyoga havia me dado. - Onde você a encontrou?
— Uma das enfermeiras me entregou. Parece que você deixou cair na ambulância, os paramédicos a encontraram. - Meu irmão explicou, depois saiu pra conversar com uma enfermeira que passou, e eu fui deixado sozinho encarando o pingente prateado na minha mão. O que Hyoga havia me dado.
Eu deslizei o dedo pela superfície fria. Ele me dera tantos presentes naquele ano que passara…. O pingente, o caderno de desenhos pra canhotos, o livro de poesia… Eu queria ter dado alguma coisa pra ele também. Queria poder retribuir de alguma maneira… Será qua ainda teria oportunidade? Ou, como tinha dito à Freya, nós havíamos estragado tudo, tantas vezes, que apenas perdêramos nossa chance?
Às vezes era tão difícil ter certezas. Os turistas no Plaza aquela tarde possivelmente estavam cheios delas. Acreditando que ainda teriam oportunidades… casais, famílias, crianças… a explosão lhes levara todas as chances.
Vidas roubadas. Esperando eternamente pra acontecer.
Eu balancei a cabeça tentando afastar aquelas imagens da minha mente outra vez e pisquei quando o barulho do cortinado que separava minha maca das demais na enfermaria se abrindo, chamou minha atenção. Uma cabeleira escura e trançada se infiltrou pelo vão aberto.
Shunrei!
— Ei, como você está se sentindo? - Ela perguntou, entrando no pequeno espaço isolado pelas cortinas. Shiryu vinha logo atrás dela. E, pra minha surpresa, Hyoga estava ali também.
Eles se amontoaram a minha volta e eu observei meu melhor amigo, apreensivo. Ele estava pálido, quase translúcido. A roupa social amarrotada. Olheiras negras no rosto cansado. Minha vontade era esticar a mão e apertar a dele. Dizer que o irmão dele ia ficar bem… que tudo ia ficar bem.
Realmente não conseguia imaginar o que faria se estivesse na situação dele.
Em vez disso, apenas apertei com mais força o pingente.
— Eu estou legal. - Eu sorri forçado - O Ikki acabou de sair pra falar com as enfermeiras.
Hyoga me retribuiu com um meio sorriso e isso me comoveu além do limite. Eu sabia o quanto aquele pequeno sorriso lhe custava naquela ocasião. Era mais do que eu esperava que pudesse ver. Certamente era mais do que eu poderia lhe dar nas mesmas circunstâncias.
Shunrei assentiu, cruzando os braços sobre o peito.
— Eu sei. - Ela disse. - Na verdade, estava esperando ele sair pra trazer esses dois pra cá. - Ela olhou para o garotos. - Parece que eles têm muito a nos explicar, não é?!
Shiryu suspirou resignado e Hyoga se deixou cair na cadeira ao lado da minha cama, cansado.
Eu olhei pra ele outra vez.
— Você não precisa… Quer dizer, não tem que fazer isso agora. - Eu falei.
Ele suspirou determinado.
— Shun… Eu quero.
Eu assenti, e o Shiryu e a Shunrei se acomodaram nas pontas livres da maca.
Pelo jeito a conversa ia ser longa.
Então o olhar do Hyoga recaiu sobre o pingente na minha mão e seu semblante mudou. Ele ergueu uma sobrancelha como se subitamente achasse graça de alguma coisa.
— Eu pensei que você tivesse dito que isso era para garotas! - Ele zombou, indicando o pingente.
Eu apenas bufei, torcendo o nariz em protesto e ele sorriu.
Um sorriso completo dessa vez. Um sorriso sincero e deslumbrante, que me pegou desprevenido.
Meu coração parou.
Nossos olhos se encontraram…
De repente, era como se não tivéssemos ficado todo aquele tempo separados, como se não estivéssemos na enfermaria de um hospital, como se o episódio terrível no Plaza aquela tarde nunca tivesse acontecido.
Ficamos nos olhando até que o sorriso sumisse e o silêncio parecesse estranho.
Shunrei tossiu pra chamar nossa atenção
Eu pisquei constrangido e voltei minha atenção para os meus amigos outra vez.
Hyoga fez o mesmo. Depois olhou pra baixo e mordeu o lábio, como se hesitasse sobre o que poderia acontecer a partir dali.
"Oportunidades", eu pensei. Talvez tudo de que precisássemos fosse de uma chance.
Shiryu tomou fôlego, limpando a garganta.
— Bem, a história é longa… - Ele começou, olhando de mim pra Shunrei, alternadamente. - E complicada… E eu só posso pedir pra que vocês tentem manter a mente aberta, ok?
Eu concordei com a cabeça apenas imaginando aonde aquilo iria chegar.
É claro que nem a mente mais aberta do mundo, mais tarde eu descobriria, poderia me preparar para o que eu estava prestes a escutar.
Olá a todos, aqui está o prometido ch do Shu-shu pra vcs. Espero que tenham gostado.
Participação super especial do Ikki dessa vez. Gente, ele não é um fofo? Eu quero um irmão assim tb ˆˆ. E no fim, como muitos provavelmente já tinham adivinhado, claro que ele ja tinha sacado tudo, né? Afinal Shun não consegue esconder o que sente pelo Hyoga nem dos vizinhos, quanto mais do Irmão kkkkkkkk
E o reencontro tão esperado do casal acabou abalado por uma sequência caótica de acontecimentos u.u. Mas, fazer o quê, né? É a vida XD. Momentos melhores virão. Prometo.
E, como vcs já devem ter percebido, estamos nos aproximando do final da fic u.u. Mas, pensem pelo lado bom, isso tb significa que logo, logo nosso casalsinho se acerta, né?! ˆˆ. Mal posso esperar ˆˆ.
Enfim, espero que tenha dado pra vcs se divertirem. Muito obrigada a todos que acompanham e um obrigada todo especial à Dark. ookami e à Tharys, pelos lindos comentários que eu amo, amo, tanto ler ˆˆ.
Bjões
PS: Respondendo aos Reviews que ainda não foram respondidos
Tharys: Oie, vou responder seus reviews por aqui hoje porque por algum motivo o ffnet não me deixa fazê-lo de outra forma. Então… não se preocupe sobre a demora em comentar, super entendo esse drama de TCC, o importante é que vc está aqui ˆˆ. E que gostou dos chs, claro ;). Kkkkk… Vdd, Kanon ainda acaba por infartar o Saga XD. Sim esse ch foi o do quase casamento do ruivo com a Chatori. E o papel do Hyoga no plano era atrasar os pais na casa deles, pra atrasar o casório e dar tempo do Camus pegar a tiara e entregar para o Milo antes de acabar com a farsa. Então ele meio que achou que dava pra conversar com o Shun depois disso. Lógico que ng imaginava o que Pandora já tinha planejado pra ocasião ;). Sim, Saga ficou arrasado, mas acho que foi meio que traumático pra todo mundo u.u E, bom, aí está o resultado do ch da explosão, pelo ponto de vista do Shu-shu. Espero que tenha ficado a contento ˆˆ. Brigadão de verdade por comentar, fiquei feliz que tinha gostado dos chs ˆˆ. Bjos
