Mais um capítulo

espero que gostem!

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CAPÍTULO XXXV – Escolhas Difíceis

Aldebaran estranhou quando Helena não apareceu para o café da manhã.Os dois sempre tomavam café forte de manhã, religiosamente. Foi até o quarto da filha e quando abriu a porta deparou-se com uma cama vazia. Os lençóis ajustados sobre o colchão evidenciando que ela não dormira em casa naquela noite, o que era algo demasiadamente estranho, pois Helena jamais passara uma noite fora de casa sem comunicar-lhe.

Aflito pegou o celular tensionando falar com as amigas da filha. Discou primeiro o número de Lucy Renard.

- Não, Helena não dormiu aqui, senhor Aldebaram. – disse a jovem discipula de Afrodite. – Sim eu aviso se ela aparecer.

- Obrigada, querida.

Jim era sua última esperança, pensou Aldebaram ao desligar.

- Aconteceu alguma coisa? – indagou Jim, após trocarem as primeiras palavras e percebendo o tom de voz nervoso do cavaleiro de Touro.

- Na verdade ontem tivemos uma conversa importante.

- Então, é possível que ela não tenha reagido tão bem assim a essa conversa. Embora estranhe essa atitude de Helena, sei o quanto ela é responsável. Deve ter saído de casa para pensar por algumas horas. Logo está de volta.

Aldebaram se despediu da aprendiza, em seguida sentou-se na cama de Helena. observou o organizado quarto por um tempo, refletindo. Então lembrou de mais uma pessoa, a primeira que ele deveria ter ligado. Aiolos de Sagitário, mas ele também respondeu que não sabia de Helena. Ficou preocupado, pois na noite que revelou que ela era sua filha, Helena não se mostrou arredia a ideia. Pelo contrário. Ficou chocada em um primeiro momento, como esperado para qualquer pessoa em sua situação, mas logo aceitou bem a realidade. Como explicar aquela cama vazia, então?

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Milo esperava Shina no local de sempre, as ruinas do templo de Zeus, chamado por eles carinhosamente de "ninho de amor". Um velho busto do patrono do Olimpo descansava no meio do templo. O choque do salto agulha no chão de mármore revelou a chegada da amazona de Ofiúco. Ela o abraçou por trás e o beijou na nuca. Milo fechou os olhos, adorando o carinho.

- Perguntava-me até quando você descumpriria nosso acordo de sexo. – falou Shina.

- Até limpar minha reputação. – disse Milo se virando, segurou o rosto da amazona e abriu um sorriso sensual.

- Você não precisava disso. Já lhe disse um milhão de vezes que o passado não me importa mais.

- Eu sei, mas eu precisava fazer isso. Precisava calar a boca desse povo que me chamava de irresponsável. E acabei fazendo um bem, aproximei o pai do filho. O filho de Shion será um grande cavaleiro, já demonstra enorme poder, mesmo sendo só um bebê.

Shina de Ofiúco encostou o corpo no do cavaleiro, se deliciando com o calor dos músculos.

- Shion tem um filho bastardo... quem diria. Jim já sabe que tem um irmão? – perguntou, naturalmente. – E antes que pergunte como eu sei, digo que descobri sozinha. Não há outro motivo para Shion sempre a proteger.

- Camus me contou outro dia. Ele me pediu segredo...

- Não se preocupe. – disse Shina, sorrindo - Faz tempo que sei a verdade e não abri o bico. Por que haveria de falar agora? O segredo de Shion está seguro comigo.

- Não esperava outra atitude de uma amazona tão integra, sabia, forte, destemida... – tentou beija-la, mas ela desviou, despertando ainda mais seu desejo já bem aflorado.

- Você esqueceu uma qualidade.

- Qual?

- Sua.

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No segundo dia de treino Jim tentou se aproximar de seus colegas. Ao final das lições se ofereceu para ajudar a tratar os machucados. Usou seu cosmo frio para tratar luxações, aliviando dores musculares. Diferente de Lucy e alguns aprendizes dedicados, não conseguia usar seu cosmo para curar, mas sabia usar o ar frio na medida certa. Os colegas de treino se mostraram agradecidos, abandonando o tratamento hostil que lhe dirigiram antes.

Camus de Aquário chegou a arena quando ela tratava o último colega que havia sofrido uma torção no tornozelo.

- Excelente trabalho. – elogiou Camus.

- Tive a sorte de ter o melhor professor. – falou Jim indo até Camus – Você desceu sozinho?

- Estou cego, não invalido, Jim. – respondeu Camus – Não foi tão difícil descer sozinho. As escadarias das doze casas estão em ótimo estado, o que facilita bastante a descida de quem não enxerga. Vim cobrar uma promessa feita no navio Mystoria. Uma jovem aprendiz disse que leria para seu mestre que infelizmente perdeu a visão.

- Vou ler para você com todo o prazer, mestre Camus. – disse Jim sorrindo – Só preciso ir até os vestiários, tomar banho e trocar essa roupa suja de barro. Ninguém merece uma leitora suada e fedorenta.

Lucy Renard a esperava nos vestiários cheia de expectativas.

- Ele te convidou para jantar? – perguntou a sueca.

- Me convidou para ler para ele. – Jim respondeu tirando a roupa e pulando para o chuveiro.

- Na casa dele?

- Onde mais seria? Camus dispões de uma bela biblioteca.

- Hum... – fez Lucy, maliciosa.

- Mas que tom de voz é esse, Lucy Renard? – exclamou Jim, as mãos na cintura. – Só vou ler para ele. Não é um encontro. É literatura.

- O que não impede de você ir linda. Ou melhor, linda e perfumada. Amiga minha não sai com um cavaleiro de ouro vestida com roupa de treino sem graça.

Jim emitiu um suspiro resignado. Não adiantava discutir. Lucy não sossegaria até vê-la toda arrumada. Foi obrigada a se teletransportar para o alojamento para buscar um vestido de verão e sandálias de salto. A maquiagem e o perfume já estavam no armário de Lucy.

- Brincos! Você precisa de brincos... – sugeriu Lucy.

- Nem pensar! Não vou me teletransportar de novo para o alojamento e procurar no meu guarda-roupas bagunçado um par de brincos, não mesmo! Camus já está me esperando a meia hora!

- Ok. Pode ir. – falou Lucy levantando as mãos. – Já está linda. Boa sorte, amiga. Aproveita!

Jim soprou um beijo para Lucy e se teletransportou.

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Aiolos murmurou um palavrão quando viu que tinha esquecido o café no fogo. O cheiro do café queimado invadiu a cozinha quando removeu a tampa do bule. Sentou a mesa sozinho, desistindo da ideia do café por enquanto. Teria que pensar em outra bebida. talvez devesse pedir uma pizza. Sabia que Helena adorava pizza de calabresa. Coçou o queixo recentemente barbeado, experimentando uma certa angustia, por imaginar a aflição de Aldebaram naquele início de noite. Ele devia estar bastante preocupado com a discípula. Não devia ter concordado em deixar Helena se esconder em sua casa, não devia ter mentido para Aldebaram. Se sentia péssimo. Decretou que depois da pizza convenceria Helena a telefonar para o mestre e dizer que estava bem, ao menos isso.

Ouviu passos se aproximando da sua cozinha. Levantou a cabeça e deu de cara do Helena. Os cabelos loiros desarrumados, um sorriso sensual nos lábios e vestida apenas com um de suas camisas, as coxas bem torneadas a mostra. A camisa ficara larga demais, mas de maneira nenhuma a roupa a deixou desajeitada. Helena estava linda e sensual como ele nunca vira. Seu membro reagiu imediatamente a visão. Ela foi até ele, segurou sua mão e disse olhando dentro de seus olhos:

- Não quero voltar para a casa.

- Por que? – forçou-se a olhar para o rosto dela, mas seus olhos insistiam em cair até seu corpo tão bem esculpido. Ela poderia ter escolhido uma camisa de um tecido menos revelador. Queria beija-la, derruba-la em cima da mesa, mas precisava entender tudo que estava acontecendo primeiro. – Você me pediu que mentisse para Aldebaram quando ele ligou te procurando. Pela última vez, o que está acontecendo, Helena?

Ela abriu um sorriso.

- Não briguei com o mestre Aldebaram, se é isso o que quer saber. Só descobri a verdade.

- Que verdade? – insistiu Sagitário.

Helena demorou a responder.

- Aldebaram é meu pai.

Aiolos não pôde deixar de sentir o baque. Principalmente por Helena parecer tão tranquila depois de uma revelação tão importante.

- E você ficou chateada por ele ter mentido...

- Pelo contrário. – interrompeu Helena – Fiquei muito feliz em saber que Aldebaram é meu pai. Sempre o admirei.

- Então porque saiu de casa, Helena? Por que está evitando seu mestre, digo, seu pai.

Ela o olhou profundamente.

- Eu pensei bastante em tudo o que ser filha de um cavaleiro de ouro representa. – começou com uma voz baixa e reflexiva. – Descobri que não posso ser tudo o que Aldebaram deseja. Não posso passar três anos na ilha de Creta. Não posso ficar longe do Santuário. Não posso ficar longe de você, meu amor.

Ela se aproximou devagar e começou a beija-lo, inicialmente com delicadeza, depois com ardor. Aiolos apertou a nuca de Helena e quando se deu conta ela estava em seu colo, apertando seu tronco com as pernas. Viu-se explorando o corpo dela por baixo da camisa, a pele tão quente e macia como nunca sentira. O beijo se prolongando, a respiração de ambos tornando-se mais ruidosa. Bruscamente Aiolos levantou e afastou-se dela. O peito ardendo, o corpo tremulo e suado.

- Espere. Deuses justos! – passou a mão nos cabelos, nervoso – O que você está dizendo?

- Se eu aceitar o destino que meu pai traçou para mim, terei que abdicar de você. – ela disse igualmente nervosa. – Não quero isso. Tudo o que eu quero é ser sua mulher, Aiolos. Pensei muito e tomei minha decisão. Eu te amo. Quero me casar com você. Quero você. Não quero mais passar mais um dia longe de você. Quero ser sua.

Tentou beija-lo novamente, mas Aiolos a segurou.

- Helena, está cometendo um grande erro. – Sagitário tentou. – Não estou te reconhecendo. Pensei que sonhasse em ser uma amazona...

- Eu sonhava sim, mas desde que te beijei esse sonho foi caindo por terra. – ela confessou emocionada. – Não quero pensar em batalhas, só quero te fazer feliz. É a escolha que eu faço.

Aiolos novamente afastou-se dela, dando alguns passos vacilantes pela cozinha. Lançando um olhar de loucura para a namorada.

- Você... você... só pode ter enlouquecido. – disse com uma voz carregada. – Esta não é você, Helena!

- Sou eu! Tenho o direito de fazer minhas escolhas, não tenho?! – Helena gritou.

- Claro que tem, mas... Você é uma amazona de Athena, Helena, sempre será, eu sinto que nasceu para isso. E acredite, não é algo que se pode fugir ou negar.

- Como pode dizer isso? Como pode me conhecer mais do que eu? – aproximou-se dele, os olhos verdes brilhando emocionados.

- Meu amor, não me entenda mal. – disse Aiolos, acariciando o rosto de Helena procurando acalma-la – só não quero que tome uma decisão errada que venha a te causar um tremendo arrependimento no futuro. Eu te amo. Eu vejo tanta força em ti, Helena.

A filha de Aldebaram de Touro baixou a cabeça.

- Então não quer se casar comigo.

- Eu não disse isso. – abraçou-a apertado. – Não suportaria te ver arrependida no futuro. Não posso deixar que faça isso, não posso te deixar desistir. – beijou-a ternamente no rosto. – Pode dormir aqui essa noite, quero que pense bastante em tudo que me disse. Descanse e pense. Pense na escolha que está fazendo e em tudo o que está abrindo mão. Vou ligar para Aldebaram e dizer que você está aqui comigo e bem. Ele deve estar preocupado. Amanhã continuaremos essa conversa. Você pode dormir no meu quarto essa noite. Eu durmo no sofá.

- Por que não dormimos juntos? – questionou Helena, decepcionada.

- É melhor dormimos separados. Acredite, isso é o melhor para nós dois. – respondeu Aiolos saindo da cozinha com ares perturbado.

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- Você deve estar faminta depois do treino – disse Camus ao entrarem na Casa de Aquário. – antes de sair, Pedi a uma serva que preparasse um bom lanche. Agora já deve estar tudo pronto. Você só vai ter o trabalho de colocar tudo numa bandeja e levar para a biblioteca.

- Não precisa pedir duas vezes. – Jim correu até a cozinha. Levou com cuidado a bandeja até a biblioteca. Camus esperava em uma poltrona de leitura. – Acho que trouxe tudo.

- Onde está o café? – Camus perguntou.

- A sua esquerda.

Comeram e conversaram como bons amigos.

- Percebi que saiu bastante chateada depois da conversa com Shion. – começou Camus.

- Ele é muito intransigente às vezes. – disse Jim após um suspiro. – E continua me tratando como se eu fosse uma criança, mesmo agora...

- Na verdade, ele está tentando te proteger Jim. É isso o que os pais fazem na maior parte do tempo. – argumentou Camus – Shion nunca foi um homem insensível, ele sabe o quanto reencontrar sua mãe é importante para você, mas acredite, atravessar dimensões... Eu acho que não preciso dizer os incontáveis perigos dessa aventura. Você é inteligente o suficiente para adivinhar.

- Mas e se o Saga me treinasse e me acompanhasse... – apelou a jovem.

- Alguns espaços dimensionais são tão hostis, que são capazes de desintegrar um ser humano em segundos. Saga de Gêmeos não seria capaz de protege-la desse tipo de perigo e de tantos outros que se quer conhecemos. Nem mesmo Saga conhece todos os segredos das dimensões. Somente os deuses e os portadores de uma armadura divina podem fazer tal travessia sem riscos, podendo chegar até os Campos Elíseos. Contudo, até para esses afortunados, a viagem apresenta riscos. – Camus decretou - Essa é a realidade que tem que aceitar logo, Jim. Shion não disse não para você por mero exercício da autoridade. Não há nada mais atormentador para um pai ou uma mãe do que dizer não para um filho.

Jim ficou calada por um tempo, refletindo sobre as palavras de Camus. Por um momento a velha Jim, a imatura e impulsiva quis sair. Ela quis gritar e espernear para Camus, berrar para o mundo o quanto a vida era cruel e injusta. Uma filha jamais devia ser separada da mãe daquela forma.

- Sinto muito por quebrar suas expectativas, Jim. – atalhou Camus – Como seu mestre, é meu dever abrir seus olhos.

- Eu entendo. Já escolheu o livro que quer que eu leia? – perguntou para mudar de assunto.

- Sim. Será O Primo Basílio de Eça de Queiroz, um autor português.

- Conheço. Ótima escolha. – e se pôs a procurar o livro na estante, sabendo que Camus organizava os títulos em ordem alfabética. Encontrou-o facilmente. Em posse do livro, sentou-se na poltrona perto de Camus. – Posso começar?

- Conte-me um pouco da estória antes. Estou bastante curioso. – disse Camus.

- Trata-se de uma história de adultério. – Jim começou, querendo parecer culta – Luísa e Jorge são casados e vivem bem até que o marido viaja e Luísa recebe a visita de seu primo. Bazílio, um homem interessante, sedutor que não mede esforços para conquistar a prima. Ela se aventura completamente nessa paixão, descobre sentimentos e prazeres nunca experimentados em seu casamento monótono e na maior parte do tempo solitário. Mas a traição lhe cobra um preço alto demais. Infelizmente.

- Foi um belo resumo. Bastante folhetinesco. – brinca Camus arrancando risadas da pupila. – Mas porque disse infelizmente?

- Por que a culpa recai severamente sobre Luísa e ela sofre... Enquanto Basílio sai ileso. Luísa foi infiel, mas seu primo nunca foi e nunca será punido por sua conduta promiscua. Bastante machista não acha? Eu não gosto nada do final do livro.

- Talvez, mas Luisa era casada, comprometida. Ela teria mais dever de preservar sua união do que seu amante. – Camus respondeu, provocativamente.

- Pode ser... – disse Jim, distraindo-se com a capa do livro, imaginando os rostos dos personagens. Quem ela seria na história? Sabia que se encaixava mais com Basílio, afinal ela foi capaz de tentar Shaka, um homem comprometido, mas ela não sabia do compromisso dele. Portanto ainda sofreria a culpa de Luísa? Ou como dissera Camus, Luisa era comprometida como Shaka era, portanto ambos tinham o dever de respeitar seus companheiros. Não Basílio. Não ela.

Camus ficou atento ao silêncio da pupila. Notou que a respiração dela se alterara.

- Em que está pensando, Jim? – indagou.

- Nos personagens do livro. E se Bazílio não soubesse que Luisa era casada, ele ainda seria um canalha? E se ele saísse da vida de Luísa antes do marido voltar, repararia seus erros?

- Bem, eu diria que ele ficaria decepcionado com a prima por não lhe ser sincera. – respondeu Camus – Pela forma como levantou essa discussão parece que viveu tal experiência, a de se relacionar com um homem comprometido sem saber... – ouviu quando ela se levantou bruscamente da poltrona.

Ela se sentia ridícula. Parecia que Camus sabia o que acontecera entre ela e Shaka e escolheu aquela estória de traição de propósito. Encarou Aquário e teve certeza que estava sendo testada. Seu cosmo evoluiu e sua intuição também. Soube naquela hora que herdara de Shion a habilidade de ler corações. Camus descobrira seus segredos.

- Sim, eu vivi. – falou de repente, não vendo outra alternativa a não ser confessar. – E durante muito tempo me senti uma pessoa horrível. Me apaixonei pelo último homem que devia me apaixonar. No início ele relutou, então eu o tentei até ele ficar comigo. Nos entregamos um ao outro de uma forma totalmente inesperada. Nunca achei que fosse amar tanto uma pessoa como amei o... – Camus lhe dirigia um olhar cego e bondoso. – Shaka. Namoramos em segredo durante um tempo. Ele chegou a me pedir em casamento! Parece que vivi tudo isso em outra vida.

Camus ficou em silêncio por um tempo doloroso demais para ela.

- Há algum tempo, nós conversávamos no Bar e eu perguntei se você gostava do Shaka e você disse que não. – pronunciou-se Camus – Por que mentiu para mim, Jim? Acaso não confiava em mim? Ou achava que eu ia te condenar por isso?

- Absolutamente! – exclamou Jim, limpando uma lágrima brilhante que teimava em cair – Naquela ocasião eu simplesmente não consegui dizer a verdade porque me sentia uma idiota! Uma garota tola, sonhadora, que caíra na armadilha de se apaixonar pelo mestre. quando descobri que o Shaka era comprometido eu fiquei louca de raiva. Sempre me achei uma garota esperta, no entanto cometi esse erro tão estupido, o de me apaixonar pelo cara errado. Sentia vergonha de mim mesma.

A lágrima brilhante caiu novamente, seguida de outras. Era um alívio Camus não poder ver sua vulnerabilidade. Camus deslizou na poltrona para ficar mais perto dela. Estendeu a mão a procura do corpo da garota, encontrou seus joelhos, suas mãos, subiu pelos seus braços e terminou por acariciar seu rosto molhado de lagrimas. Jim fechou os olhos.

- A meu ver você foi bastante corajosa. – disse Camus, compreensivamente – Passou por uma grande decepção e conseguiu se refazer. Agora é capaz de ver a situação de uma forma racional. Tenho certeza que aprendeu com seus erros.

- Você tem razão. Como sempre. – ela disse, lisonjeada.

- Se você tivesse me dito naquele dia, no Bar, eu teria te apoiado. – continuou Camus afastando-se de Jim – Não seria a primeira nem a última aprendiz a se apaixonar pelo mestre por aqui. Até já aconteceu comigo. Um rapaz de uma turma de aprendizes que estava dando as primeiras lições se declarou para mim.

Jim abriu bem os olhos, escandalizada.

- Um rapaz... vejam só... E o que o mestre Camus fez?

- Nada. Continuei o tratando como a todos os outros, como um discípulo. O rapaz acabou se dando conta sozinho que o sentimento não levaria a nada.

Jim balançou pensativamente a cabeça. Sim, já havia provado do profissionalismo de Camus de Aquário. Lembrou do dia em que ele a vira nua e sua expressão continuara a mesma, como se estivesse olhando para o vento.

- Shaka foi bem diferente. – suspirou – Fiquei magoada durante muito tempo, sentindo pena de mim mesma. Agora, quando olho para trás, tenho a impressão que tudo aconteceu da maneira errada. Eu poderia ter lidado melhor com a situação.

- Você sabia que o Shaka não vai mais se casar? Ele não é mais um homem comprometido. – lembrou Camus. – Eu ouvi os servos comentando hoje cedo. A noiva de Shaka, Haranni, escolheu o Mú. Talvez seja o momento de vocês terem uma boa conversa... isto é, quando ele terminar suas meditações no Jardim das árvores salas gêmeas.

Jim ficou olhando para Camus, pensando naquela sugestão.

- Depois de tudo o que aconteceu, não acho correto para mim sair correndo atrás dele agora. Decidi seguir em frente. – Jim disse, firmemente. – Não quero reviver o passado.

- O orgulho feminino é algo a se respeitar... – alfinetou Camus.

- Não é orgulho! É superação. – decretou Jim. – Eu amei o Shaka de uma forma totalmente imprudente, sem pensar em nada. Só agora vejo o quanto amei errado. – baixou a cabeça envergonhada. - Voltar para o Shaka não seria voltar para a lama sentimental, Camyu?

- Ou talvez seja uma chance de recomeçar uma estória interrompida de forma brusca. Você disse que o Shaka chegou a te pedir em casamento, acha que um sentimento como esse termina facilmente? Como mestre, analisando a atitude de Shaka, eu diria que ele agiu mais com a razão do que com o coração. Ele anulou o amor que sentia por você em prol do seu crescimento, Jim. Você mesma disse que o amou sem pensar em nada. Shaka percebeu que você jamais se fortaleceria se permanecesse ao seu lado, ele viu que te atrapalhava, e resolveu que o melhor seria se afastar. Imagino o quanto ele deve ter sofrido.

Jim engoliu em seco. Porque Shaka escolheu um caminho tão difícil? Será que ele, sendo tão sábio, não veria outra possibilidade para eles? Olhou para si mesma. Não, não conseguiria voltar. Era incapaz de encarar de frente todo aquele passado triste. E se ela só poderia evoluir longe de Shaka, não seria melhor continuar nesse caminho seguro? Diante dela, Camus abriu um sorriso encorajador que a impeliu a segurar a mão dele. E antes que começasse a pensar em possibilidades que a deixariam ainda mais confusa, abriu o livro que tinha no colo:

- Posso começar a ler?

- Claro. Vamos ouvir o que Eça de Queiroz tem a dizer sobre relacionamentos conturbados. – respondeu Camus, abrindo um sorriso discreto.

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"Se você soubesse o quanto fica sexy tomando vinho", pensou Alexia observando Shura de Capricórnio beber. Ele encheu novamente sua taça. Ela bebeu tentando imita-lo. Os dois riram. O sabor do vinho agiu sobre seu corpo, relaxando-o em poucos segundos. Ao seu lado estava o deus da nobreza. Pensou no dia difícil que teve. Em todas as ordens que distribuiu para manter o templo de Athena em ordem, depois que o filho de Shion, o pequeno Belian, chegou ordem era algo cada vez mais difícil de se conseguir. A criança era um capetinha. Bagunçou quase toda a mobília com seus poderes telecinéticos. Ria das reprimendas das servas, apenas Shion era capaz de frear a energia do pequeno. O patriarca estava tendo trabalho. E como parecia abatido em ser ignorado por Aneta. Ela mesma falou com sua melhor amiga, tentando reconciliar o casal, mas a gaulesa estava irredutível. Pelo visto, Shion dormiria no sofá por um longo período. Não que ele não merecesse tal punição...

- Você parece cansada, Alexia. Podemos só descansar essa noite se preferir. – disse o espanhol, acariciando o rosto da morena.

Alexia abriu um sorriso sensual.

- Prefiro ficar com você. – levantou e sentou no colo do cavaleiro que a recebeu de bom grado. – Pensei na sua proposta. Eu aceito ser a mãe do seu filho. Será uma grande honra.

Pecou. Mentiu. Se aliou a um homem sem escrúpulos. Traiu a melhor amiga. Possuía uma alma ferida por conta de um abuso, mas aquele homem lhe oferecia o colo e a chance de ser feliz. Seria tola se não agarrasse aquela oportunidade com unhas e dentes. Amaria e protegeria o futuro santo de Capricórnio. A nobreza da casa a contagiava.

Beijou Shura com ardor. Sentiu suas carícias, pulsou de satisfação. Sentiu-se úmida, ávida por recebe-lo. Shura a levantou e fez com que sentasse de pernas abertas sobre ele. Apertou suas nádegas, subiu seu vestido, afastou sua calcinha e a penetrou com pressa, gemendo entre seus lábios.

Ele se movia com força, transpirando, os olhos brilhando negros vivamente. Alexia sentiu um arrepio profundo, seguido de um formigamento por todo o corpo. Por um momento, viu uma áurea dourada cercar Shura e vibrar por todo o cômodo. Sentiu-o mais excitado, mais rígido dentro dela, seu interior recebendo-o cada vez mais fundo, como se ele a penetrasse com uma espada em vez de um órgão quente. Fechou os olhos, sentindo-se derreter. Então ela não pensou em mais nada, apenas na nobre espada, a fonte de toda a justiça. E tudo isso vibrando dentro dela... Excalibur. Quando chegou o prazer ela soube que havia ficado grávida.

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Jim desceu as escadas com as palavras de Camus martelando em sua cabeça. Por mais que dissesse para si mesma que não gostaria de reviver o passado, saber que Shaka não era mais um homem comprometido mexera com ela de uma forma inesperada. E também percebera o quanto fora egoísta. Só viu sua dor, sua mágoa, sua desilusão. Em nenhum momento parou para pensar em como a separação atingira Shaka.

Parou na saída da casa de Virgem, encarou o símbolo no portal. "Eu fui imatura, mas porque você escolheu o caminho mais difícil? Poderíamos ter simplesmente nos amado e enfrentado o mundo. Se você não tivesse sempre que me fazer aprender lições, se não tivesse que ser sempre meu mestre!". bateu o pé, cruzou os braços, murmurou um palavrão. "Você é arrogante, Shaka de Virgem! Você banca o homem mais próximo de deus em tempo integral! Sabe o quanto isso é chato?!".

- Sabe? – indagou em voz alta, com raiva.

Respirou fundo, decidida a invadir o Jardim das Árvores Salas Gêmeas para cobrar explicações. Camus tinha razão, eles precisavam conversar. Seus passos duros cortaram violentamente o silêncio da sexta casa. Olhou em volta. O salão de lutas, o corredor de acesso a área privativa, tudo estava igual desde a última vez que estivera ali. Quando foi a última vez que vira Shaka meditando na flor de lótus de pedra?

Ao questionar suas lembranças sentiu uma nostalgia vibrante. Correu para a porta de acesso a área privativa, crente que encontraria Shaka na cozinha tomando chá. Parou prestes a girar a maçaneta. Lembrou que ele não estava. Ele estava meditando. Ouvia o coração batendo, sabendo que as lembranças a transportaram ao passado. Ao passado que foi feliz. A forma mais simples de viagem dimensional, lembrar o passado,

"foi tudo tão nítido...", pensou, passando a mão nos cabelos. Quase como se experimentasse uma das ilusões do santo de Virgem.

- Foi você, Shaka? – perguntou para o corredor vazio e mal iluminado.

Só havia um jeito de descobrir. Girou nos calcanhares e correu para a entrada do jardim. Ofegante, apoiou-se na porta, de olhos fechados, as mãos abertas sobre a madeira adornada com símbolos budistas, procurando o cosmo de Shaka. Se ele estava no jardim não precisava se anunciar, ele já sabia que ela estava lá. Ele a via com os olhos do cosmo. Concentrou-se por longos minutos, sempre procurando o cosmo de Shaka. Não foi capaz de senti-lo. Nem mesmo uma fagulha de sua luz.

Isso era estranho, pois mesmo quando meditava ele continuava guardando o templo. A não ser que Shaka não estivesse lá... Abriu a porta assustada com essa possibilidade. Aquele momento não era o ideal para deixar a casa de virgem, o santuário. Ele devia estar lá! A dimensão paralela a casa de virgem lembrava o dia em que foi pedida em casamento. O mesmo céu azul, com manchas lilases, a mesma terra coberta de grama macia, folhas e flores rosadas. Caminhou lentamente sentindo o aroma suave das flores, da terra molhada como se tivesse acabado de chover. A iluminação natural era decadente lembrando um fim de tarde, sendo esta a única diferença entre o jardim do passado e o do presente. Então entendeu que a luz solar matutina de antes era fruto do cosmo de Shaka. Ele era o sol daquele jardim.

O vento forte carregava seus longos cabelos castanhos conforme subia a pequena colina das árvores gêmeas. Não sentia mais expectativa, apenas uma melancolia crescente. Shaka deveria estar no topo daquela colina, entre as duas árvores. Parou diante de dois brotos no lugar onde estavam as frondosas árvores gêmeas. Os galhos finos e iguais balançavam com o vento. Fechou os olhos, concentrou-se a procura do cosmo de Shaka. Abriu a mirada desistindo.

Agachou-se e tocou os brotos.

- O que isso significa? – perguntou as pequenas folhas. – O que isso significa?

Quando fechou a porta do Jardim do lado de fora estava com a alma perturbada por tantas perguntas sem respostas. Voltou para o salão de lutas, passou pela flor de lótus vazia. "Eu vou ficar aqui até você aparecer", pensou diante de uma grande estátua de Buda. Sentou-se no colo da estátua, bocejando, os olhos pesados de sono e cansaço. Deitou a cabeça e dormiu rapidamente, como por obra de um feitiço. Sonhou que dormia com a cabeça apoiada na perna de Shaka, ele estava na posição de meditação, estavam no jardim das árvores salas gêmeas e Hanzo os observava flutuando entre as nuvens. Ela abriu os olhos e o viu, pronto para atacar com sua espada negra. Tornou a fechar os olhos e a dormir, pois a luz de Shaka a protegia, portando não havia razão para temer.

Acordou com uma baita dor no pescoço. A pedra fria era um péssimo travesseiro. Lembrava vagamente do sonho que tivera com Shaka e Hanzo. Alongou-se e deu de cara com um monge que a examinava com um olhar curioso. Em seguida o homem se ajoelhou e lhe fez uma reverencia.

- Você deve ser a discípula do iluminado. Abençoada seja! – exclamou o monge.

- Ex-discípula. Sou Jim. – Jim corrigiu – E você, quem é?

- Sou o monge Kamal. – respondeu se levantando. – é um grande prazer conhece-la. É uma jovem muito bonita! Deve ter aprendido muito com o iluminado e adquirido grande poder. Que privilégio! – abriu um largo sorriso - Está com fome? Eu fiz chá e bolinhos de aveia para o desjejum...

- Na verdade tenho que descer para treinar agora. – disse Jim encabulada - Em todo caso, obrigada. Adeus, senhor Kamal. – virou-se para sair então parou antes de dar um passo: - Sabe onde Shaka medita?

- No Jardim Sagrado das Árvores Salas Gêmeas.

- Não. Ele não está lá. – Jim sussurrou encarando Kamal.

- Deve haver algum engano. – disse Kamal sorrindo. – O jardim sagrado é único refúgio de meditação do iluminado. Tem certeza que olhou direito?

- Tenho. Por que não entra e vê com seus próprios olhos, Kamal?

O monge tossiu.

- Eu não tenho elevação espiritual suficiente para entrar no jardim sagrado.

- Entendo... – disse Jim, baixinho, lendo o coração do devoto. Ele sentia medo de entrar lá, na verdade. - De qualquer forma, me avise quando ele aparecer sim?

- Claro! E você pode voltar quando quiser! Será um grande prazer recebe-la. – exclamou o monge acompanhando o passos rápidos de Jim. – Haranni não está mais aqui, portanto seu quarto está vago. Não precisa dormir na estátua de Buda, basta entrar e ocupar seu lugar de direito. Esta é a casa de seu mestre, portanto é sua casa também.

Jim agradeceu ao monge e correu para fora do templo. "Não pense que vai ficar sumido por muito tempo, Shaka. Ainda precisamos conversar sobre suas escolhas", ela pensou enquanto descia as escadas.

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Aiolos sentou-se lentamente na cama vazia, observando os travesseiros. Apanhou um deles e sentiu o cheiro dos cabelos de Helena. Ela saiu sem ao menos se despedir. Devia estar magoada, se sentindo rejeitada.

Será que agira mal? Devia ter dito coisas diferentes? Sabia que amava Helena, mas ouvir sua decisão o deixou magoado. Amava a mulher que ela queria ser, a amazona que ela queria ser. Não entendia porque ela rejeitava esse futuro tão glorioso. Não podia deixar que ela desistisse em nome do amor que sentia por ele. Sabia que aquele amor pesaria no futuro e talvez se transformasse em arrependimento. Tudo o que ele queria era lutar por Athena junto com a mulher que amava. "Ela deve ter concluído que eu não a amo", refletiu, levantando-se. "preciso encontrá-la."

Correu pretendendo chegar a casa de Touro. Aldebaram e ele a encontrariam mais rápido. Pretendia contar tudo para Aldebaram. Diria que ela passara a noite em sua casa, pediria perdão por ter mentido, confessaria que conversou com Shion sobre suas suspeitas e que não tocou em Helena naquela noite. Diria que ela saíra de sua casa tão pura quanto entrou. Talvez isso aplacasse um pouco a fúria do Touro. Estava pronto para tomar um soco na cara por ter agido pelas costas de Aldebaram. Não reagiria, pois magoara Helena. "Eu só pedi que pensasse melhor, meu amor. Só pedi que pensasse melhor".

Aconteceu quase tudo que Aiolos imaginou, menos a parte do soco. Aldebaram ficou mais preocupado do que com raiva. Perdoou Aiolos por tudo. O sumiço de Helena era tudo o que importava. Por coincidência, encontraram Jim passando pela casa de Áries. Abordaram-na:

- Já é a segunda vez que me pergunta o paradeiro de Helena, Aldebaram. – disse a jovem, seriamente. – Está acontecendo alguma coisa?

- Jim, na verdade está. – respondeu Aiolos. – Ela passou a noite em minha casa e de repente foi embora. Imagina onde ela pode ter ido?

- Eu não faço ideia. Helena só saía com o Aldebaram e juntas fomos a poucos lugares. Bem, o Santuário é um lugar imenso e sei que a Helena sabe camuflar o cosmo, portanto, vocês vão ter trabalho para acha-la. – opinou Jim. – Eu posso ajuda-los...

- Não, você precisa treinar. Já está na hora. – falou Aldebaram, enfaticamente. – nós resolvemos isso. obrigado, Jim.

Jim fez que sim com a cabeça e voltou-se para Aiolos.

- O que aconteceu nessa noite em que ela dormiu em Sagitário?

- Nada. Nós não... – e olhou receoso para Aldebaram - Eu só pedi que ela pensasse na decisão que tinha tomado. – Aiolos suspirou. – Ela desistiu de ser uma amazona, Jim.

Jim prendeu a respiração, em choque. Sabia que Helena estava apaixonada, mas aquele ponto... jamais imaginou que a amiga tomaria aquela decisão. Logo Helena que sempre foi tão dedicada aos treinos.

- Eu acho que ela deve ter seguido o seu conselho, Aiolos. Eu realmente espero por isso. – disse Jim, calmamente, após se recuperar do susto. – Então, deixem que ela pense. Deem o tempo que ela precisar. Na hora certa ela volta. E qualquer que seja a decisão final que ela venha a tomar, devemos apoiar.

Ela estava certa, pensou os dois cavaleiros de ouro. Incomodamente certa.