DAROR E MÍRIEL

Epílogo

- Pai? – Virou-se o condutor para o homem ao seu lado.

- Que é, Daror? – Disse Raor, o lendário patriarca que unira todo o Harad sob sua espada, voltando-se para o filho que conduzia o grande animal de volta para a Casa. Os traiçoeiros mercenários de Umbar não esqueceriam tão cedo a lição que os haradrim haviam acabado de lhes impingir.

Mas o rapaz o olhava como um menino pequeno cheio de admiração pelo pai que lhe estava acima, como se Daror já não fosse muito mais alto que Raor, e parecia tímido de perguntar o que queria saber.

- Fale, filho.

Os olhos de Daror fugiram dos seus.

- Aquela vez que o Pai me castigou porque machuquei a maninha.

Raor vasculhou a memória...ah! Aquela vez... fazia tanto tempo.

- O quê é que tem? – Questionou o Pai de Harad, imprimindo severidade à voz. Sabia que havia passado dos limites com o filho ainda pequeno na ocasião. Ravai se tomara de uma ira tremenda contra o esposo então. Raor sepultara aquela lembrança e não lhe agradava tê-la despertada por Daror agora.

- Perdoa Pai, Daror perdeu a consciência aquela vez...como uma mulherzinha...

Raor grunhiu, na verdade disfarçando o riso: quantos homens adultos agüentariam 100 chibatadas?

Mas o rapaz baixara os olhos, e podia-se notar que a vermelhidão em sua face não fora causada pelo sol.

- Nunca fiquei sabendo.

- O quê?

- Qual a última sentença que o Pai ainda tinha para mim.

Raor olhou para o gigantesco condutor ao seu lado. O bebê que lhe proporcionara finalmente o amor da esposa que lhe entregara o corpo negando-lhe a boca; pois Ravai fora presa de Guerra de Raor, tomada do Pai, Hatar, na batalha que Raor e Terair conduziram para unir o Sul ao restante do Harad.

E fora o amigo que no último momento detivera a espada de Raor, já nos salões da Casa de Hatar, ao perceber que o feroz oponente que lhes surgira tão súbito era uma mulher.

E após deter a espada de Raor, Terair desarmou-a com dois golpes elegantes, precisos e cuidadosos, atento a não causar dano à espadachim.

Mas os poucos segundos que Terair gastou para isso foram-lhe fatais, pois Raor percebeu a mesma coisa que o amigo percebera um segundo antes: que ali estava a mulher que haveria de amar para sempre.

E as vidas de Hatar e das Casas do Sul que o Pai de Ravai liderava foram o dote que Raor pagou por ela.

Mas a orgulhosa filha de Hatar não teve a ira aplacada pela clemência de Raor para com os seus. Nem pelas jóias que o marido lhe brindava. Nem pelos luxuriantes jardins que fez transplantar do Sul na tentativa de agradá-la. E simplesmente recusava-se a exibir sua dança famosa aos convidados do marido, apresentando-se despossuída como uma mendiga, provocando-o na frente de todos com as as malcriações do gênio ruim que um dia Raor veria reviver na filha.

Até que alguma coisa aconteceu, e o ódio simplesmente foi despejado do coração da mulher, impossibilitado para sempre de lá fazer morada novamente pela semente que germinara em seu ventre.

E após segurar o filho pela primeira vez em seu colo, nunca mais Ravai deixou de orná-lo com a riqueza de Raor.

E foi respirando o perfume das flores que ele plantara para ela que amamentou seu bebê.

E tão logo sua cintura se refez, a maior das dançarinas que o Harad jamais conhecera exibiu sua tradição para o marido, e nos ricos salões e jardins da suntuosa capital sua graciosidade adornou todas as noites de festa do grande Chefe de Harad dali em diante

Antes da altura descomunal, antes da força de 10 homens, antes da coragem absoluta, antes da perícia obsessivamente desenvolvida, antes do senso de justiça que Terair lhe apontara, fora o primeiro dom que seu primogênito revelara.

O dom da união.

O dom do amor, Ravai dizia, por vezes chorosa, admoestando-o de que Daror só tinha tamanho, que o Pai não fosse tão duro com o filho que não parecia, mas ainda era só um menino.

Grande e forte, mas nunca mais que um menino.

Raor que pelejara tanto, que manchara as mãos com o sangue de tantos parentes pela união do Harad mais de uma vez temeu, receoso de que aquela afetividade pusesse a perder a obra tão árdua de sua vida, por isso insistindo em mostrar-lhe o quanto o espírito tirânico de Darai impunha mais respeito em suas sentenças que a disposição generosa do filho.

Entretanto, talvez fosse exatamente disso que seu povo precisasse, agora que as velhas gerações cheias de rancor iam cedendo seu lugar nas Casas aos herdeiros de coração mais leve. Aos jovens Chefes de clã a quem Daror imediatamente inspirava camaradagem e confiança, aos quais ia salvando a vida tantas vezes, que todos o tinham como líder natural, contra o qual nenhum conseguia sustentar animosidade ou disputa por muito tempo. E não era de temor que se constituía esse respeito, mas de verdadeira amizade e admiração.

- Hein, Pai?

- Quê?

- A sentença, a última sentença que tinha para Daror naquele castigo, o Pai não se lembra?

Raor tocou o rosto do filho, e Daror chegou a sobressaltar-se, pois não tinha memória do Pai jamais haver dirigido aquele gesto a ele.

O dom do amor, dizia Ravai, e estava certa, um amor que os campos de embate não conseguiam subjugar.

Arrastava o filho consigo há anos pela carnificina das campanhas, e subitamente pareceu que lhe devia proporcionar algo inteiramente diferente: Daror precisava de uma esposa, já estava com dezoito anos.

Providenciaria quando voltasse do Norte, e um marido para Darai também, fizera quinze, e estava espevitada demais, espicaçando até o irmão, que era homem e não conseguiria seguir indiferente a tanto que lhe era exibido diariamente, naquela cumplicidade que Raor impusera-lhes desde sempre, enfeitiçado pela engenhosidade da menina que tinha de admitir que estragara.

- Não lembra?

- Lembro sim, filho?

Os olhos do menino eram devoção. Por que tentara embotar-lhe a ternura em prol da ferocidade tão insistentemente? Não lutara suas lutas exatamente para que seus filhos não necessitassem fazê-lo?

Também havia espaço para canções de amor na tradição do Harad, não só para canções de Guerra. Daror saberia devotar-se a ambas. Haveria de amar com a mesma intensidade que só Raor sabia o quanto havia amado Ravai.

Quão abençoada seria aquela noiva. Só precisaria fazer o marido descobrir-se no guerreiro.

- E qual era, Pai?

- Para nunca te esqueceres de que toda mulher é uma flor.