Olá pessoal, desculpe a demora em postar, amas aqui está um novo capítulo, espero que gostem...

Hoje estou com pouco tempo de responder, mas quero agradecer os reviews de Guest, Marcya, Daniela Snape,Clenery, Muito obrigada pelos reviews, li todos e amei... bjussss

Capítulo 36 - Cicatrizes

Seus olhos já começavam a arder pelo tempo em que ficara apenas encarando a lareira acesa sem piscar uma única vez, nervoso com o fato de ter sido chamado naquela sala. Sentia suas mãos suadas e o corpo esquentar dentro do terno negro. Já se sentara ali diversas vezes, milhares, já olhara para aquela mesma lareira e sentira o calor emanado daquele fogo, mas nenhuma desses vezes lhe trouxera tal medo e nervosismo, afinal em nenhuma delas sua vida correra tanto perigo como naquele momento. Talvez aquela fosse a última vez que veria aquela sala.

Com um suspiro pesado fechou os olhos e se pôs a pensar em sua vida, em tudo que passara até ali e tudo que ainda poderia passar. Tinha que admitir, não tinha orgulho de como conduzira sua vida até aquele momento, das vezes em que se comportara como um crápula, um idiota arrogante se sobrepondo aos outros devido o valor aquisitivo de sua família. Tinha plena consciência de seus atos e erros, mas ele era um Malfoy e não podia mostrar suas fraquezas. Claro que não era um Grifinório besta que se demonstrava corajoso em qualquer circunstancia, ele só não deixaria que os outros soubessem o quão fraco era.

- Você não é fraco.

Aquela frase, assim como algumas outras ditas para si naquelas últimas semanas foram essenciais para lhe manter em pé e não deixá-lo desistir do plano ridículo que inventara e vieram de quem ele menos esperava, de Harry Potter. Não podia negar, quando Potter lhe disse o que deveria fazer para o bem do mundo achou-o louco e mentiroso. Quando ele disse que não o deixaria sozinho imaginou mais ainda que a loucura era uma doença grave nele. Mas o que era duvida provou-se ser mais do que verdade e nas duas semanas que se passaram Harry Potter não fez outra coisa se não ficar ao seu lado, mesmo durante as aulas de oclumência com Dumbledore ou quando Snape o ensinava a resistir a um cruciatus. Não interessava em que momento fosse, o menino estava ali olhando para si, analisando seus movimentos, seus avanços e até seus fracassos. Ele estava ali.

Mas porque ele? Por que justo Harry Potter ficava ali ao seu lado? A única vez que fora gentil com o grifinório, se é que aquilo pode ser chamado de gentileza, fora antes de entrar na escola, na Madame Malking e nem mesmo sabia quem ele era. Depois disso foi somente rivalidade, olhares avessos e raiva, não havia nada mais do que isso, então por que justo ele escolhera ficar ao seu lado?

A resposta poderia vir a sua mente se tivesse tempo, mas no exato momento em que respirou fundo tentando pensar naquilo a voz de sua mãe ecoou límpida atrás da poltrona.

- Ele o aguarda.

Com um seco aceno de cabeça o menino se levantou e olhou para o rosto de sua mãe. Narcisa continuava magra, loira e com um porte austero. Parecia que nada a atingia, parecia uma rocha. Draco sabia que era mentira, sabia que aquela mulher estava se segurando com força somente pelo seu marido. Narcisa sempre viveu para Lucius, ele era sua vida, seu todo. Draco era apenas um adjacente, alguém para completar a foto em um quadro e dar continuidade ao legado dos Malfoy.

- Mãe? – Chamou Draco baixinho quando a mulher se virou para sair da sala.

- O que?

O menino abriu e fechou a boca diversas vezes, mas no fim apenas encarou a mãe até que a viu se aproximar aos poucos e estender os longos dedos pálidos. A sentiu arrumar seu cabelo e depois a gravata, por fim ela encarou seus cinzentos olhos e lhe disse a frase que tanto ouvia desde criança.

- Não me decepcione.

A mulher foi embora deixando-o sozinho. Draco mexeu os dedos devagar e engoliu a vontade de destruir aquele lugar, de derrubar tijolo por tijolo, explodir os quadros e esculturas, fazer sumir as emoções. Lembrou-se do que Snape lhe dissera antes de sair de Hogwarts, que qualquer descontrole o deixaria vulnerável. Por isso controlou-se e concentrou-se em guardar as lembranças que jamais deveria deixar escapar.

Abriu a porta onde ele estava, seus dedos estavam gelados enquanto segurava a maçaneta. O ambiente estava escuro, mesmo sendo manhã de domingo. Havia algumas velas espalhadas jogando luz nos recantos e fazendo as sombras tremeluzirem. Ao fechar a porta a escuridão se fez presente sendo interrompida apenas pela reles luz das velas.

- Milorde? - Chamou Draco olhando para todos os lados e não o encontrando.

Sua testa franziu ao mesmo tempo que um arrepio preencheu sua espinha lhe levantando os pelos da nuca e do braço. Ele estava ali, estava perto, podia sentir a aura pesada do mestre. Engoliu em seco e segurou as lembranças em seus lugares, não podia errar agora, muita coisa dependia de seu empenho, sua vida dependia.

- Se der mais uma volta nesse chão, juro que estuporo você.

Harry parou de andar e olhou para Snape, o homem estava devidamente sentado em sua poltrona preferida lendo um de seus livros antigos, nem mesmo olhava para si, mas Harry sabia que se voltasse a andar de um lado para o outro o feitiço de estuporamento o atingiria antes que conseguisse ver Snape sacar a varinha. Bufando o menino sentou-se no sofá e olhou para o teto. Não era culpa sua estar preocupado, Draco estava naquele exato momento na presença de Voldemort e o plano de ter um espião dependia completamente dele.

- Como pode estar tão calmo? - Perguntou Harry olhando para o homem que nem mesmo se moveu, apenas virou uma página e continuou sua leitura. - Ele é seu afilhado.

- Ora, ora, ora. - Debochou Snape finalmente desviando os olhos do livro. - Se continuar se preocupando tanto assim com Draco vou começar a achar que sua inclinação para com meu afilhado vai além do bem estar do mundo bruxo.

- O que? - Questionou Harry franzindo a testa e se levantando sem nem mesmo reparar que o homem não respondera sua pergunta. - Está louco, vou para a sala comunal, Rony quer treinar quadribol.

Snape viu Harry sair esbaforido de seu aposento, sabia que ele ficara bravo pelo que dissera, mas só o tolo do Harry Potter não conseguia ver o que estava diante de seus olhos. Durante essas duas semanas Harry e Draco ficaram mais próximos do que queria e mesmo que por dentro soubesse que aquilo talvez fosse bom para ambos, por fora sentia e sabia que também poderia destruí-los. Suspirando fechou o livro e se levantou indo em direção a porta, antes de sair lançou um feitiço de desilusão em si para que ninguém o visse enquanto caminhava pelos corredores. Deveria seguir o plano corretamente. Draco diria ao mestre que Snape estava vivo. Que o viu no castelo sob a proteção de Dumbledore. Voldemort provavelmente ficaria curioso e irado. Será na linha entre esses dois sentimentos que Draco fará seu pedido para virar o novo espião. Snape parou por um instante olhando o sol que entrava pela janela e apenas imaginando a dor que o loiro estaria sentindo naquele momento.

Com um suspiro baixou a cabeça e fechou os olhos lembrando-se nitidamente dos momentos em que contaram-lhe esse plano idiota.

- Está completamente louco! - Disse ao menino quando veio lhe contar seus planos.

Lembrou-se nitidamente de olhar para Dumbledore quando o velho foi lhe visitar, sua testa estava franzida e as palavras mal saíam de sua boca.

- Como pode? - Perguntou não acreditando que o ancião aceitara aquilo. - Ele é apenas um garoto. O Lord o matará ou pior, vai torturá-lo até que sua mente quebre, que seu corpo desista.

- Draco é um garoto forte e com a poção certa, que você fará, vai conseguir passar pelas torturas que Voldemort lançará nele para provar a lealdade.

- Mas e depois? - Snape levantou-se da maca já vestido em suas negras vestes. - Acha que sofrer cruciatus e legilimens dói? Você não sabe de nada Alvo, não tem a menor ideia de como é a dor de ser corrompido.

- Sabe que vamos fazer o que tiver que fazer para que ele não precise cumprir a missão que Voldemort passou.

- Sim, mas e os outros? E os inocentes que sujarão a mão dele?

Alvo olhou por alguns segundos para Snape, mas não dispensou palavras, apenas postou a mão em seu ombro e apertou levemente antes de sair do recinto. Snape sempre teve Alvo em grande estima, o considera como o pai que jamais teve, mas naquele momento sentia nojo de seu toque, repulsa de seus olhos. Sempre contara e mostrara todas as ordens de seu mestre, Dumbledore sabia de tudo, mas jamais sentira e por isso Draco fora jogado na cova do leão, deixado a própria sorte. Foi então que Snape treinou Draco para a dor, para o extremo do desespero. Ele precisava ser moldado, sentir na pele o arder da angustia.

Conseguia ainda ouvir os pedidos de clemencia, mas não poderia ter clemencia naquele momento, não quando o cruciatus lançado não chegava a um terço do que Voldemort usaria. Usou a sala precisa transformando-a no que ele presenciaria algum dia, lugares imundos e sombrios onde somente os comensais mais desprovidos de vida pisavam. Ele já havia pisado muito em lugares como aqueles deixando pegadas de sangue pelo caminho.

"Por favor", ele pedia, mas não podia parar, tinha que assisti-lo rastejar, gritar e até mesmo vomitar enquanto aumentava a dor até que desmaiasse apenas para ser acordado novamente e sentisse que o inferno era mais misericordioso.

Em todos os momentos Harry esteve presente, observou, franziu a testa e virou o rosto. Odiava tê-lo ali, fazê-lo assistir Draco sofrer, tinha medo do que ele poderia sentir ou lembrar. Houve uma noite, após uma semana de tortura, que Harry apareceu em seus aposentos na madrugada.

- Harry? O que faz aqui? - Perguntou Snape dando espaço para que o menino entrasse. - Alguém te viu? Sabe que não posso ser revelado ainda e... - A frase que estava falando enquanto fechava a porta morreu em seus lábios no momento em que olhou atentamente para o menino. - O que aconteceu?

Harry suava e tremia, sua roupa estava encharcada e seus olhos arregalados. Harry desviou os olhos e os prendeu no chão. Cruzou os braços diante do peito e mexeu no chão com o pé. Snape aguardou o tempo dele até que a preocupação foi maior do que o respeito o fazendo erguer o rosto do rapaz e olhar para dentro de seus olhos com intensidade. Viu em suas memorias o pesadelo que tivera naquela noite e surpreendeu-se ao perceber que não havia Tio Valter ou Tia Petúnia o atormentando. Havia apenas Voldemort e ele, servo e mestre. As imagens eram difusas e estranhas, mas percebeu que todas repetiam a mesma coisa, ele sendo torturado e morrendo antes que Harry acordasse.

- Eu pedi para não nos acompanhar. - Disse simplesmente afagando os cabelos negros e despenteados.

- Desculpe. - Sussurrou Harry mexendo nervosamente as mãos.

- Não precisa se desculpar, tive receio de que o que visse o fizesse se lembrar de seus tios. - Disse Snape segurando-o pelos ombros e o levando para o quarto onde pegou uma toalha e lhe entregou.

Harry não respondeu Snape de imediato, apenas entrou no banheiro e tomou seu banho livrando-se de todo o suor que o pesadelo lhe causara. Quando saiu do banho completamente vestido com um camisão de Snape encontrou o professor arrumando a cama, somente naquele momento percebeu que o homem ainda estava com suas negras vestes e definitivamente não estava preparado para dormir.

- O que está fazendo? - Perguntou se aproximando.

- Vai dormir aqui hoje. Deite-se.

O menino se deitou e Snape o cobriu dando um pequeno afago na cabeça dele. Snape já estava quase na porta quando ouviu a voz de Harry baixinho.

- Eu cheguei a pensar nos meus tios. - Snape se aproximou novamente sentando-se em uma cadeira ao lado da cama. Harry se deitou de costas e olhou para o teto. - Mas depois pensei em você, em como você passou por tudo aquilo.

- Você sabia disso, eu contei para você.

- Mas emitiu algumas coisas, não foi?

- Não era necessário contar.

- Só de imaginar que você sofreu muito mais do que vi Draco sofrer.

- Harry, o ato de auto-piedade não é algo a qual eu esteja acostumado, isso é mais o seu feitio. Eu fiz o que tinha que ser feito e pronto, não interessa o que eu precisei fazer.

- Mas...

- Sem mas, eu fiz e não me arrependo de ter feito, faria de novo se fosse necessário. Vai dormir.

O menino bufou e olhou com a testa franzida e raivosa para o homem, sabia que não deveria sentir raiva dele, mas o fato de saber que ele sofrera por sua culpa o deixava com raiva mesmo assim. Queria falar mais, conversar mais, saber tudo, mas Snape o olhava com olhos tão negros e intensos que deixavam clara a informação de que não haveria mais papo. A única coisa que restou foi tomar a poção do sono sem sonhos que o homem lhe entregou e então se entregar ao inconsciente.

- Boa noite. - Disse Snape afagando mais uma vez o cabelo do menino e então se inclinando para lhe dar um beijo na testa.

Depois daquela noite Harry não voltou a tocar no assunto, apenas presenciou cada aula com Draco e o viu ficar mais e mais forte até conseguir impedir Snape de penetrar sua mente e suportar os feitiços providos de Magia Negra. E então o chamado de Voldemort chegou. Foram semanas intensas, sentia-se cansado como se um peso enorme tivesse sido posto em suas costas e ainda havia a dor em seu peito apertado pela ansiedade e raiva por não poder fazer nada apenas caminhar em direção a floresta negra e esperar o retorno de Draco.

Ao chegar a Orla da Floresta viu Hagrid mexendo em sua pequena horta, Riley estava ao seu lado com as mãos sujas de barro e os cabelos loiros bagunçados, a menina parecia adorar as coisas que Hagrid fazia e as histórias que contava. Franziu a testa em desgosto e olhou na direção do castelo. Viu Harry sair do castelo acompanhado pelo Weasley e pela Granger, conversavam enquanto iam para o campo de quadribol, Almofadinhas vinha logo atrás. Entrou na floresta após alguns segundos parado no mesmo lugar. Queria um momento sozinho e não havia coisa melhor do que misturar-se as plantas, ervas e venenos que aquela floresta opressora lhe proporcionava. Poderia ficar em seu laboratório, mas os estoques estavam precários, Flitwick estava substituindo suas aulas enquanto se recuperava e o pequeno professor esbanjava seus ingredientes sem se importar se teria mais ou não. Snape esperava conseguir encontrar tudo que precisava, mas não imaginou que a encontraria também.

Ela estava agachada na terra e parecia colher uma erva que nascia entre as raízes de uma antiga árvore. Suas mãos estavam cobertas por grossas luvas de dragão, mas fora isso não havia proteção alguma em seu corpo que usava uma calça jeans simples e uma blusinha de manga curta. Seus loiros cabelos estavam presos em um rabo de cavalo frouxo que deixava algumas mechas escaparem grudando na pele suada.

- Está fazendo errado.

Vany se virou imediatamente ficando de joelhos e apontando a varinha para o homem parada a alguns metros. Snape ergueu as sobrancelhas olhando da ponta da varinha para a mulher e novamente para a varinha. Vany aos poucos sentiu os músculos relaxarem e então baixou a varinha guardando-a no cós da calça, quando voltou a olhá-lo não pode deixar de sorrir, além de ele estar visivelmente bem, trazia em seus olhos o claro desconforto de quem não sabia o que fazer na presença de uma mulher e ele claramente não sabia. O dia da ala hospitalar estava nítido em sua mente, o beijo que trocaram, os toques leves e o abraço forte antes do sono, tudo estava tão vivo que muitas horas chegava a ser incomodo, afinal havia uma forte atração entre os dois e ela era uma solitária viúva.

Mas Snape era um homem difícil e reservado, não houve mais do que algumas troca de olhares e conversas sem jeito. Ela poderia ser direta e beijá-lo naquele momento e em diversos outros que já tiveram, mas ele fora muito verdadeiro ao lhe dizer que um relacionamento era algo difícil para ele, pois jamais tivera algo a mais além de encontros rápidos com mulheres da vida. Claro que sabia que havia mais, talvez alguma desilusão antiga, alguma mulher que o machucara tão profundamente ao ponto de jamais conseguir curar aquela ferida. Talvez um dia ele lhe contasse, talvez.

- Então me mostre como é. - Pediu apontando para a erva.

- Primeiro precisa entender que essas ervas mágicas não são como plantas comuns. - Disse Snape se aproximando devagar. - Elas são elementos naturais dotados de profunda magia, jamais conseguirá extrair o que precisa se não houver confiança.

- Confiança? - Questionou Vany olhando da planta para o homem e novamente para a planta. - Você sabe que é apenas uma planta, certo?

- Já disse que não é somente uma planta. - Snape se agachou ao seu lado. - É necessário entender o âmago da existência antes de saber usá-la. Veja. - Ele pegou as mãos de Vany e retirou as luvas de dragão. O toque das mãos fez com que ela suspirasse e fechasse os olhos. - Não use luvas quando for extrair alguma erva, elas impedem o toque de vida que existe em você, a pulsação do sangue e hormônios que seu corpo libera são essenciais para que aja confiança.

- É uma explicação muito interessante Severus, mas sinceramente acho difícil de acreditar nisso.

- Posso te mostrar. - Snape se levantou, deu dois passos para o lado e se agachou atrás da mulher. Pegou sua mão novamente e a guiou até a planta.

- Você sabe que os espinhos são venenosos, não é?

Snape não respondeu, apenas deu um sorriso de lado e continuou levando a mão da mulher para frente. Ao falar aproximou-se do rosto da mulher arrepiando-se.

- Só será venenoso para aqueles que não compreenderem sua existência em um todo.

Vany achava aquela explicação um tanto quanto estranha e sem nexo, mas ainda assim se deixou ser guiada por ele tanto pela curiosidade quanto por ter sua mão na dele e sentir a quentura que emanavam. Mal percebeu que sua mão encostara na planta. Quando percebeu abriu um sorriso e enfim retirou o que precisava.

- Não acredito! - Exclamou olhando para ele.

- Eu disse. - Respondeu Snape olhando intensamente para ela. - Há coisas belas e profundas no mundo que precisam de cuidados. - Sua voz baixou enquanto colocava uma mecha dela atrás da orelha.

- As vezes não é preciso tanto cuidado, Severus.

Vany postou sua mão sobre a dele e entrelaçou seus dedos antes de estender a mão e tocar a pele fria do rosto do homem. Snape, percebeu ela, tinha olhos negros como a própria escuridão, mas trazia a clareza da solidão. Acariciou a bochecha do homem e tocou seus lábios com o polegar.

- Você pensa demais, Severus. - Comentou se aproximando. - Não pense, apenas deixe acontecer.

Dessa vez Snape nem mesmo se mexeu, apenas observou a mulher se aproximar devagar enterrando a mão em seus cabelos e então o beijar docemente. Como da outra vez houve um choque dentro de Snape. Uma ansiedade de tê-la, de se aprofundar nela, sentir seu corpo colado ao seu. O beijo era intenso e ao mesmo tempo doce, as línguas bailavam uma com a outra. Severus segurou a cintura da mulher com força e a apertou contra si sentindo-a vibrar e enterrar-se em sua boca.

Ao se separarem os dois se olharam por um tempo e então se levantaram. Vany limpou a sujeira da calça e sorriu para o homem que apenas a observou. A mulher jogou a cabeça para o lado e franziu a testa.

- Vamos para o castelo?

- Pode ir, tenho que ficar. Draco retornará a qualquer momento.

- Como acha que ele estará?

- Na melhor das hipóteses desmaiado.

- E na pior?

Snape não respondeu e Vany soube que era melhor não ter conhecimento. Com um sorriso nos lábios se aproximou de Snape e beijou-lhe os lábios novamente.

- Até o jantar.

A mulher foi embora e os olhos negros a acompanharam até que não conseguisse ver nem mesmo sua sombra. Foi somente naquele momento que seus ombros tencionaram e seus olhos apertaram. Deu as costas para a orla e adentrou a Floresta Negra sentindo cada vez mais o ar rarefeito. Seus pés não faziam barulho, seus cabelos não balançavam e sua aura causava arrepios nas mais crueis criaturas. Ele caminhou até o ponto onde sempre aparatara após um encontro com o Lord e então esperou de olhos fechados sem saber quanto tempo, até o som estalado lhe informou que ele estava ali.

Caminhou lentamente até o corpo no chão e olhou para o rosto pálido de Draco, o menino estava descordado, usara todo seu esforço para ir embora e chegar a Hogwarts. Sem cerimonias lançou o feitiço de desilusão sobre ambos e o pegou nos braços carregando-o de volta para a escola. O levou para a Sala Precisa depositando-o sobre a cama com lençóis limpos e brancos que rapidamente ficaram manchados de vermelho. Mesmo com o nítido grau de ferimentos de Draco, Snape permaneceu calmo e concentrado. Limpou o corpo do menino, recitou os encantamentos necessários e o medicou devidamente.

- Padrinho? - Chamou Draco baixinho tentando abrir os olhos.

- Descanse. - Disse Snape.

- Eu consegui, ele acreditou, eu consegui.

Draco desmaiou novamente e Snape o cobriu deixando-o ressonando na cama. Ao chegar aos seus aposentos tomou um banho demorado retirando todo o sangue do menino de suas mãos. Tentou afastar de sua mente o ódio de não ser nele os ferimentos, dos rasgos na mente não terem sido feitas na sua. Estava acostumado a dor, aos retalhos e cortes afiados. Quantas cicatrizes já tivera, quantas vezes já chegara ao limite da loucura, quantas? Draco não merecia aquilo. Não merecia.

A parede do chuveiro tingiu-se de vermelho quando o punho fechado rasgou-se contra ela. O homem respirou fundo ardendo em ódio de si mesmo. Recuou o braço somente para socar a parede novamente e de novo e mais uma vez até que uma pequena parcela daquela culpa escapasse por sua carne esfolada. Foi somente então que saiu do banho e se arrumou devidamente ocultando o ferimento com o feitiço, mas não o curando. O sofrimento através da dor não o deixava esquecer do quão inútil era naquele momento.

Os corredores estavam vazios, não havia aluno perambulando, todos estavam devidamente alojados no salão principal e quando entrou viu algumas cabeças virarem para o ver, mas então virarem-se novamente ao perder o interesse. Caminhou direto para seu lugar ao lado esquerdo de Dumbledore e não deixou de notar os olhos intrigados de alguns sonserinos. A notícia de sua morte já fora comentada entre os comensais e agora sua vida seria o alvoroço dos vermes. Harry estava na mesa da Grifinória, Riley ao lado de Hagrid e Vany estava ao seu lado e seus lábios estavam vermelhos pelo vinho que tomava, ela olhou para si e sorriu, um sorriso que não foi retribuído.

- Como ele está? - Perguntou a mulher baixinho.

- Comparado com como deveria estar considero que sua situação é estável. Parece que o Lord deu-lhe crédito e com minha aparição esse crédito só aumentará.

Snape calou-se e continuou seu jantar em igual tom calado, não o pressionou, deixou que ele jantasse em paz até que todos os alunos caminhassem para suas casas em busca de fofocas ou camas quentes para dormir, ou pior, lições de casa.

- Espere. - Disse Vany quando Snape se levantou. - Deixe-me acompanha-lo.

- Não acho que seja apropriado.

- Ora essa Severus. - Disse Dumbledore levantando-se ao seu lado. - Não seja rude com essa dama. Ela apenas quer acompanha-lo e não se atracar com você no meio do corredor cheio de aluno.

- Acredito que isso não seja da sua conta, não é mesmo Alvo.

Dumbledore sorriu e se despediu, Minerva passou logo depois lançando um olhar intenso para Vany.

- Ela ainda não gosta de mim. - Comentou Vany andando ao lado de Snape mesmo sem ouvi-lo concordando com sua companhia.

- Seu charme de veela não funciona muito bem com mulher, ainda mais uma mulher com tal idade avançada. - Disse Snape caminhando entre os sonserinos que se afastavam para que pudessem passar.

- Vejo que você é muito temido por aqui, até mesmo pelos sonserinos.

- Metade desses sonserinos são filhos de comensais e já sabem que eu deveria estar morto.

- Acha mesmo que Hogwarts é segura para você agora?

- Não, mas é o único lugar que tenho. - Disse Snape abrindo a porta e deixando a mulher entrar em seus aposentos para completa surpresa de alguns alunos.

- Seus aposentos são bonitos. - Comentou Vany olhando atentamente o local.

- Seus gostos não são convencionais. - Respondeu Snape com as mãos nas costas observando a beleza da mulher enquanto olhava seus antigos livros.

- É verdade, eu gosto. É rustico, seco, trás um toque de mistério e dureza e ao mesmo tempo é sensual. Me lembra você.

- Está flertando comigo, senhora Smean? - Questionou levantando a sobrancelha e se aproximando da mulher.

- Um pouco, talvez. - Devagar a mulher aproximou-se o suficiente para que pudesse tocar em seu peito. - Ou talvez eu seja um pouco mais direta.

Os dedos da mulher espalmaram-se pelo peito de Snape que segurou em sua cintura enquanto seus botões eram devidamente abertos. Seu sobretudo foi jogado ao chão ficando apenas com a camisa branca. Não houve perda de contato em nenhum momento, seus olhos pareciam querer derramar-se dentro um do outro. Azul e preto misturando-se em um caleidoscópio de emoções gritantes. A camisa foi igualmente retirada, expondo o tronco pálido e marcado de cicatrizes. Foi somente nesse momento que os olhos azuis de Vany deixaram os negros de Snape para encarar e admirar as marcas antigas e recentes naquele corpo. Sua mão passeou de um canto a outro tocando em todas as cicatrizes que foram feitas no homem.

- Me dê sua mão. - Sussurrou a mulher.

Snape postou sua mão sobre a dela e viu quando o feitiço que encobria o ferimento foi desfeito deixando videntes os cortes inflamados provenientes dos socos na parede do banheiro. Vany não perguntou o motivo daquilo, não quis saber o que aconteceu para resultar em tal ferimento, apenas postou sua mão sobre a dele e fechou os olhos recitando palavras desconhecidas. Sentiu sua mão esquentar e então esfriar. Vany abriu os olhos e quando retirou sua mão de cima da dele Snape pode ver que não havia ferimento algum. Sua pele estava lisa como se nada tivesse acontecido.

- Como...?

- Não importa, o que importa é que você não merece mais uma cicatriz, muito menos uma cicatriz de culpa. - Vany viu a testa franzida de Snape e apenas ignorou-a. - Me faz um favor? Me abraça.

Snape entortou a cabeça em clara duvida e devagar se aproximou desajeitado, mas Vany rapidamente se prendeu ao seu pescoço segurando-se em seus ombros enquanto a vertigem a deixava. Foi somente quando sentiu que estava bem que se soltou do homem.

- O que houve? - Perguntou sentindo-a pegar sua mão novamente, mas dessa vez entrelaçando os dedos.

- Eu não deveria ter feito isso, mas não consegui vê-lo machucado. Não sei por que, não sei o que está acontecendo conosco, mas não posso fugir e sei que você também não. É a primeira vez que sinto isso desde que Daniel se foi.

- Vany, eu...

- Eu sei. - Disse levando suas mãos até onde ficava o coração do homem. - Não sei o que aconteceu com você, não sei quem te magoou ou o por que, mas me deixe te curar.

- Como?

- Faça amor comigo.

Snape arregalou os olhos com o pedido da mulher e apertou sua mão na dela. Ele também sentia algo forte por ela, sabia que precisava dela ao seu lado, precisava dela como sua mulher, mas jamais passara por essa situação antes. Como entregar-se a uma pessoa dessa forma quando não se sabe como se entregar? E se fizesse errado, e se falhasse? E se permitisse a entrada dela cada vez mais profundamente em sua alma e depois ela fosse embora a levando consigo? O que faria?

- Eu nunca fiz amor.

- Existe uma primeira vez para tudo.