A canção do exílio parte IV

- Você disse que já vive há muito tempo nesta ilha. Está dizendo isso desde que nos encontramos pela primeira vez- disse Sayid acompanhando cada passo dado por Mikail enquanto eles caminhavam rumo ao lugar onde o homem prometera que havia uma planta que poderia curar a moça misteriosa. Desmond, que se oferecera para ir com Mikail realizar a importante tarefa, não ficou surpreso quando Sayid apareceu logo atrás deles dizendo que se juntaria a eles.

- Tantos anos que já até me esqueci de como é a civilização lá fora.- respondeu Mikail. – Acredito que tenha mudado bastante.

Sayid o ouvia atentamente, mantendo sua arma cuidadosamente pronta para atirar caso o homem tentasse qualquer tipo de gracinha.

- Não acredito em você!- disse ele. – Acho difícil acreditar que nunca tenha saído desta ilha desde que chegou nela. Você e seu povo sabem muito bem como deixar este lugar.

- È verdade!- disse Mikail. – Nós sabemos, mas isso não significa que alguma vez eu tenha deixado esta ilha ou que agora seja possível deixá-la como acredita.

- Você fala por enigmas, brotha.- comentou Desmond.

Mikail deu um sorriso debochado e falou:

- Talvez eu fale por enigmas ou talvez vocês não tenham o que é preciso para compreender minhas palavras.

Sayid o encarou com animosidade.

- A única que eu sei e é a coisa em que mais acredito é que preciso manter você por perto para fazê-lo confessar o que devemos fazer para sair desta ilha!

- Deseja tirar sua garota daqui, Jarrah?- indagou Mikail de repente. – E o que acontece se encontrar sua outra garota fora da ilha? Como poderia escolher entre as duas?

O sangue de Sayid ferveu com aquelas palavras.

- Mas do que diabos está falando?- indagou o árabe voltando a apontar sua arma para a cabeça de Mikail.

- Você sabe do que estou falando!- disse ele ainda mantendo o ar de deboche no rosto. – Para quem seria sua lealdade, hã?

Sayid deu um soco no rosto de Mikail com tanta força que partiu-lhe os lábios e verteu sangue. Desmond segurou no braço de Sayid para impedi-lo de bater mais no homem.

- Chega! Precisamos dele para ajudar a moça. Ela sim nos dará as respostas que precisamos.- Desmond lembrou a Sayid.

Mikail cuspiu sangue e usando as costas das mãos para limpar a boca machucada, falou:

- Está se perguntando como sei sobre isso, não é? Como sei sobre o seu segredinho sujo de procurá-la na primeira chance que tiver e deixar a garota que conheceu nesta ilha para trás! Nós sabemos de tudo, Sayid!

Dessa vez Sayid não se deixou intimidar e apontando a arma diretamente para o peito do homem, disse com a voz mais controlada que conseguiu:

- Continue andando! Não temos todo o tempo do mundo!

Mikail ergueu-se do chão e obedeceu. Ele sabia que havia limite para testar a paciência de Sayid. Estudara as pastas sobre cada sobrevivente do vôo 815 na solitária estação Dharma onde vivia umas cem vezes, o iraquiano era muito perigoso e ele precisava ser muito esperto se quisesse escapar dele uma segunda vez.

Mais algum tempo de caminhada em silêncio e Sayid disse à Mikail:

- Eu sei por que conseguiu sobreviver à cerca eletrificada que demarca os limites de sua vila.

Mikail nada disse.

- È uma cerca com vários níveis de intensidade, apenas não estava ligada na intensidade máxima. Você nos conduziu para onde queria! Para escapar!

- Em geral sempre consigo o que quero.- Mikail disse. – È uma pena que as pessoas que estão fora da lista não viverão para ver isso.

- Do que está falando?- Desmond indagou.

Mas Mikail não respondeu porque eles tinham acabado de chegar à pequena colina coberta com as ervas que a moça machucada precisava para se curar.

- São essas as plantas!- ele apontou.

- E o que está esperando para colher quantas forem necessárias para ajudar a moça?

Mikail se aproximou das plantas e juntou alguns ramos entregando-os nas mãos de Desmond.

- Isso deve bastar!- disse ele. – È preciso fazer um chá com as folhas e talos e depois despejar o líquido sobre o ferimento. Ela irá ficar boa em pouco tempo.

- Vamos voltar então!- disse Sayid. – Se formos rápidos chegaremos em...

- Vocês irão voltar!- bradou Mikail parecendo mais corajoso e confiante do que antes. – Eu estou indo para outro lugar!

- Eu acho que não!- Sayid voltou a ameaçá-lo com a arma, mas o barulho assustador e familiar da criatura que se materializava na presença deles no formato de uma espessa fumaça negra o fez parar.

- È o monstro, brotha!- disse Desmond olhando na direção que algumas árvores estavam sendo arrancadas com força, seguida por uma intensa ventania.

- Eu não o deixarei fugir dessa vez!- gritou Sayid atirando na direção para onde Mikail acabara de correr, mas as balas ricochetearam nas árvores e o som dos tiros se perdeu diante do ruído estrondoso produzido pelo monstro.

- Precisamos sair daqui, Sayid!- gritou Desmond.

- Não!- teimou Sayid ainda tentando encontrar Mikail, mas ele logo percebeu que tinham sido levados para uma armadilha e que se não corressem seriam feitos em pedacinhos pelo terrível monstro sem forma.

Sem ter escolha, Sayid e Desmond correram na direção contrária à criatura deixando Mikail para trás. Desmond preocupou-se apenas em manter as ervas medicinais presas em suas mãos enquanto fugiam floresta adentro de volta aonde Jack os esperava.

xxxxxxxxxxxxxxxxx

- Ai Neil, assim, vai! È tão bom!- sussurrou Isadora para o namorado, nua, rolando na relva com ele. Não estavam muito longe da comunidade, mas aquele era o lugar especial onde eles costumavam se encontrar todos os dias.

- Você é linda, Isa!- gemeu ele beijando-a na boca e abandonando seus quadris aos frenéticos e sensuais movimentos dos quadris dela contra os dele.

- Estou quase lá!- ela gemeu um pouco mais alto até que um grito agudo escapou-lhe da garganta seguido pelo gemidos abafado de Neil.

- Ah, princesa, eu te amo!- disse ele, sorrindo. Isadora deu um risadinha e o abraçou.

Porém, o som de passos se aproximando os deixou preocupados.

- Ai, meu Deus, Neil, vem vindo alguém!- exclamou Isadora se levantando depressa do chão e colocando seu vestido surrado por cima da cabeça sem se preocupar em vestir suas roupas íntimas. Neil colocou as calças depressa também, antes de indagar:

- Quem está aí?- era final de tarde e a escuridão já começara a tomar a floresta aos poucos.

- Mas quem diria, hein?- disse Pedro surgindo detrás de uma árvore e encarando o casal com ar debochado.

- O que você está fazendo aqui, cara?- gaguejou Neil. Isadora se escondeu atrás dele para endireitar o vestido no corpo.

- Eu? Estava apenas dando uma volta na floresta quando ouvi vocês dois. Nossa! O que a mulher mais virtuosa desta ilha, a Sra. Dana Lewis iria pensar se soubesse o que a filhinha dela anda aprontando às suas costas?

- O que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta!- a jovem Isadora retrucou, espevitada.

- Você vai contar pra Sra. Lewis?- indagou Neil, preocupado.

- Neil!- Isadora ralhou. – Nós não precisamos se preocupar com esse daí! Eu ouvi a Nikki dizendo algo pro Paulo sobre contar o seu segredo pra toda comunidade.

- Mesmo?- questionou Pedro disfarçando a apreensão que sentiu quando ouviu Isadora dizer aquilo. Então Paulo e Nikki estavam se preparando para denunciá-lo? As coisas estavam ficando complicadas e ele precisava fugir da comunidade o quanto antes para ir encontrar Benjamin Linus e fazê-lo cumprir o que lhe prometera.

---------------------------------------------------

(Flashback)

Pedro foi jogado aos pés do homem e com a queda quase beijou seus sapatos bem engraxados. Mais um líder, ele pensou. Ultimamente vinha sendo jogado de organização em organização sendo usado para fazer todo o tipo de serviços sujos que aqueles homens precisavam sem que eles tivessem que sujar suas mãos. Mas este último serviço que estava prestando a Charles Widmore era o mais difícil que já tinha feito na vida. Já havia se arrependido amargamente de ter ido parar naquela maldita ilha.

- Quem é você?- o homem indagou com a voz polida e controlada.

Pedro ergueu a cabeça para olhar para ele, dois de seus capangas o rodeavam como era de praxe. O homem era de baixa estatura, vestia-se com esmero e tinha olhos azuis saltados para fora. Um tipo que poderia parecer calmo, mas que dizia a Pedro que ele poderia ser o pior tipo de chefão que já enfrentara.

- Meu nome é Pedro.- ele respondeu com cuidado. – Onde está a Nikki?- indagou. A mergulhadora que tinha sido usada para levá-lo até aquela ilha se mostrara uma moça muito adorável no final e Pedro hesitara em se "desfazer" dela como sugerira Naomi pouco antes dela embarcar naquela aventura absurda e até aquele momento sem volta.

- Penso que se refere à moça que estava com você. Ela está bem, não somos selvagens como pode ver. Mas agora me responda, o que Widmore prometeu a você para que viesse para a ilha me encontrar?

Pedro sentiu o coração bater forte. Então aquele era o sujeito que deveria encontrar? Por que nenhum foto do homem lhe fora repassada? Teria sido mais fácil ter pensado sobre isso se ele não tivesse perdido seu tempo na cama com Naomi antes de ir falar com a velha louca na igreja que prometera enviá-lo a uma ilha misteriosa. O dinheiro não valia tanto assim!

- Não sei do que está falando...- disse Pedro.

- Tom!- o homem chamou um homenzarrão gorducho e de cabelos grisalhos que estava ao lado dele. Esse homem carregava algo nas mãos que Pedro não pôde definir.

Pedro se encolheu de lado, mas não teve tempo de fugir quando o homem descarregou uma carga elétrica no corpo dele vinda de um pequeno aparelho que segurava.

- Isso foi um choque leve.- disse o homem com ar de líder. – Se quiser que não usemos uma carga mais alta em você é melhor colaborar conosco e nos informar tudo sobre os planos de Widmore. Se seguir todas as minhas instruções, deixarei você viver, caso contrário...

Pedro sentiu seu estômago embrulhar com uma sensação terrível causada pelo choque elétrico e se arrastando aos pés do homem, disse:

- Não! Por favor! Eu ajudo no que o senhor quiser, é só me dizer...

Benjamin Linus deu um sorriso perverso vendo o desespero do rapaz no rosto. Widmore estava precisando contratar melhores e leais empregados.

------------------------------------------

(Fim do flashback)

- Vem, Neil, vamos voltar pra comunidade! Se o Pedro for esperto vai ficar de boca fechada sobre nós dois!- ameaçou Isadora puxando o nome pelo braço. Neil só teve tempo de recolher o restante de suas roupas e segui-la de volta para a comunidade.

Pedro os seguiu logo depois pensando que teria de dar uma boa prensa em Paulo e Nikki. Mas como faria isso? O novo casalsinho era um dos modelos de virtude da comunidade e eles sabiam sobre os diamantes. Sabiam que ele não estava naquela ilha por acaso, só não tinham todas as provas que precisavam para contar isso aos outros. Maldita noite em que ele apaixonado resolvera contar parte de seus segredos à traidora da Nikki.

Ele caminhou pela praia em direção à cabana que Paulo e Nikki dividiam, mas se deteve quando viu um ajuntamento de pessoas no meio da praia. Mas o que estava acontecendo? O que significava aquela reunião? Sawyer ainda estaria procurando pelo intruso que invadira sua cabana na noite passada? Pedro pensou com certo divertimento e foi até o centro da praia descobrir o que estava acontecendo.

Mr. Eko e Juliet estavam no centro do círculo, as expressões muito sérias. Paulo e Nikk estavam no meio das pessoas também, mas não se incomodaram com a presença de Pedro quando este se juntou ao grupo.

- Temos algo importante a dizer a vocês.- anunciou Juliet. – Eu e o Sr. Eko estamos há algum tempo investigando certas atividades ilícitas em nossa comunidade...

- Nossa comunidade?- Pedro comentou com Luke que estava ao lado dele. – Como se ela não tivesse vindo do lado dos Outros.

- Você um dia também não pertencia à nossa comunidade.- Luke falou de volta, mas sem deixar de prestar atenção ao que Juliet dizia.

- Algumas mulheres foram atacadas- continuou ela. – E até algumas horas mais cedo nós são sabíamos o propósito disso, mas agora sabemos de tudo.

Tina entrou no centro do círculo seguida por Kate e Ana-Lucia. Foi Tina quem começou a falar:

- Esta manhã eu fui atacada quando fui à igreja falar com o Eko. Alguém me dopou e uma amostra de sangue foi retirada...

Pedro sentiu uma profunda apreensão dentro do peito e deu um passo atrás.

- O mesmo aconteceu comigo.- informou Ana-Lucia. – Alguém me dopou esta manhã, uma droga misturada em um copo de suco de manga e uma amostra do meu sangue também foi retirada!

Shannon passou as mãos pelos cabelos, como se se recordasse de algo e em seguida disse:

- Acho que o mesmo aconteceu comigo!

Um burburinho começou entre as pessoas e Pedro começou a se afastar mais da multidão, mas ele não notou que Luke estava posicionado propositadamente ao lado dele, assim como Sawyer, Michael e Jin um pouco mais adiante.

- Mas quem fez isso? E por que?- indagou a senhora Lewis, histérica.

- Será que fizeram isso comigo também?- questionou Dionna, em um tom dramático.

- Esta fita cassete que o Eko encontrou escondida na estação médica que fica a poucos quilômetros daqui vai dar as respostas de que precisam.

Eko então mostrou um pequeno toca-fitas que trazia consigo e acionou o play colocando a fita para rodar:

"São nove horas da manhã."- disse uma voz masculina desconhecida na fita. "Os exames com as amostras que já foram entregues estão concluídos. As mulheres grávidas são a Rutherford e a Lewis. As demais não estão prenhes...

- Oh!- exclamou a Sra. Lewis quase tendo um desmaio, sendo amparada por Rose e Amanda.

- O quê!- Shannon exclamou ao ouvir seu sobrenome na fita. – Eu? Grávida?

A voz na fita continuou falando:

"Precisamos das amostras das mulheres que estão faltando, principalmente a Cortez. Benjamin está muito interessado no exame dela. Estamos esperando essas amostras ainda esta noite, Pedro Brito. È melhor não falhar ou não sairá nunca dessa ilha."

Ao ouvirem o nome de Pedro as pessoas se voltaram na direção dele, revoltadas. Mas ele já estava correndo em direção à selva. Sawyer e Luke porém foram muito mais rápidos e o encurralaram antes que ele pudesse fugir.

Kate olhou para Juliet enquanto os homens prendiam Pedro.

- Se ele era um espião enviado por Benjamin muito antes de você vir parar aqui, como é que você nunca soube de nada?

- Boa pergunta, Kate.- respondeu Juliet. – Mas a verdade é que eu não sabia mesmo. Vai ter de confiar em mim. Meu trabalho nesta ilha era como médica de fertilidade e obstetra, espiã nunca esteve assinado na minha carteira de trabalho.

Dizendo isso, e sem se intimidar, Juliet se afastou. Kate teve deve de engolir a resposta dela.

- Me soltem! Me soltem!- berrava Pedro enquanto Luke e Sawyer o seguravam.

- A gente vai só te levar pra dar uma voltinha e conversar!- falou Michael.

Paulo e Nikki observavam o que acontecia um pouco afastados. Ela perguntou a ele:

- Devemos contar a eles o que sabemos sobre o Pedro?

- Não.- respondeu Paulo. – È melhor ficarmos fora disso! Acredito que agora eles descobriram tudo o que precisavam sobre ele.- ele abraçou Nikki pelos ombros e a levou para longe da confusão.

Shannon ainda estava em choque pelo que ouvira na fita.

- Oh, meu Deus! È verdade mesmo? Eu estou grávida! Como...

Libby segurou a mão dela e sorriu.

- Você queria isso tanto. Está feliz, Shannon?

Ela não pôde esconder um sorriso quando respondeu:

- Muito feliz.

Mas se Shannon estava feliz com a novidade, Dana Lewis estava desesperada com sua filha grávida.

- Isadora! Não foi esse o futuro que eu sonhei pra você!

- Que futuro, mamãe?- Isadora gritou. – Não temos nenhum futuro nessa ilha!

- E tudo o que eu te ensinei sobre ser uma mulher decente, de esperar pelo casamento?

- Eu estou apaixonada mãe!

- E quem foi o salafrário que fez isso com você?

- Sra. Lewis!- disse Neil cheio de coragem. – Eu sou o pai do bebê e vou cuidar da Isadora, eu prometo...

Porém Dana não quis ouvir nada do que ele tinha para dizer e o estapeou na face.

- Desgraçado!- ela berrou tentando atacá-lo ainda mais quando Neil correu levando Isadora consigo.

- Ajude-me aqui, Bernard!- Rose gritou pelo marido e juntos eles conseguiram conter a Sra. Lewis e levá-la para a cozinha onde pretendiam dar-lhe um pouco de água com açúcar para acalmá-la.

Kate e Ana-Lucia foram falar com Sawyer que tinha acabado de levar Pedro com a ajuda de Luke e dos outros para uma cabana que não estava sendo usada, onde ele seria interrogado.

- O que pretendem fazer com ele agora?- perguntou Kate a Sawyer.

- Vamos descobrir tudo o que ele sabe sobre os Outros! O desgraçado do Linus está espionando a gente há um tempão usando esse idiota e você pensando que se tratava da Juliet!

- Ainda não confio nela!- Kate frisou.

- Conversa, sardenta! Temos que admitir que até agora ela tem sido muito útil.

- Eu vou voltar para a minha cabana.- disse Kate. – Eu espero que o Jack volte logo para resolvermos esse assunto com o Pedro de vez. Se Linus quer saber quais são as mulheres grávidas da nossa comunidade significa que ele está aprontando algo grande.

Sawyer assentiu.

- Sardenta, tome cuidado!- disse Sawyer quando ela começou a se afastar. Kate balançou a cabeça. Ela ficaria bem, tinha sua própria arma.

- Eu também vou voltar pra cabana.- disse Ana-Lucia depois que Kate se afastou.

Sawyer tocou o rosto dela com carinho e perguntou:

- Você está bem?

- Eu estou bem.- respondeu Ana segurando um impaciente bebê em seus braços que choramingava querendo mamar e ir dormir.

Ele a puxou pelos ombros, abraçando-a e beijando-a. Ana correspondeu ao beijo e encostou seu rosto no pescoço dele. Quando se afastaram, Sawyer entregou sua arma para ela, dizendo:

- Leve isto com você e fique protegida até eu voltar, dengo.

Ana aceitou a arma e a colocou no cós do jeans.

- Preciso saber como está minha filha com essa situação toda, pensei em pedir ao Luke pra ir à cabana da Cassie checar a Clemen...

- Não me importo que você vá até lá vê-la.- disse Ana e ganhou um lindo sorriso de seu homem.

- Vejo você daqui a pouco... – ele sussurrou e a beijou mais uma vez, beijando James em seguida. – Minha garota ciumenta...

Ana voltou para a cabana deles e Sawyer adentrou a cabana onde Pedro estava preso. Seria uma longa noite.

xxxxxxxxxxxxxxx

Jack terminou de aplicar o remédio de ervas na moça tal qual Mikail instruíra antes de abandonar Sayid e Desmond à própria sorte. Sayid ainda estava revoltado pela maneira como tudo acontecera.

- Ele sabia onde podia encontrar aquela coisa e usá-la para se livrar de nós!- o iraquiano bradou.

- Dude, será que esse cara consegue controlar a coisa?- perguntou Hurley, intrigado.

- E se ele mandar o monstro vir atrás da gente?- preocupou-se Charlie. – A gente não ia conseguir fugir carregando a moça numa maca...

- Pelo menos temos o remédio para ajudá-la.- frisou Desmond.

- E se isso não for um remédio?- retrucou Sayid. – Por que aquele homem se daria ao trabalho de ajudar essa mulher?

Jack franziu o cenho diante de toda aquela discussão. Já estava cansado de estar no meio da floresta longe do aconchego de sua cabana, de seu bebê e dos carinhos de Kate. Além disso, aquela moça precisava de um lugar seguro e tranqüilo para se recuperar.

- Não vou tolerar mais nenhum tipo de discussão!- Jack disse de repente fazendo com que os outros se calassem. – Já ficamos tempo demais longe da comunidade, de nossas mulheres e filhos. Precisamos voltar!

Sayid pensou em Shannon, assim como Charlie pensou em Claire e Aaron e Hurley em Libby e seu bebê não nascido. À Desmond restou pensar em sua garrafa de uísque que o aqueceria do vento frio que fazia na floresta à noite.

- Vamos voltar!- Sayid disse por fim. – Tentaremos encontrar alguma resposta na sobrevivência desta moça.

Dito isso, o grupo fez o caminho de volta para a comunidade. Não quiseram esperar pelo amanhecer para voltar para casa.

xxxxxxxxxxxxxxx

Luke cruzou os braços diante do peito e encarou Pedro.

- Como pôde passar todo esse tempo mentindo para nós?

Pedro continuou em silêncio como estava se mantendo desde que fora aprisionado na cabana para interrogatório.

- Anos convivendo conosco e por que só está nos entregando agora, cara?- Michael perguntou. – Pra que o Linus quer as mulheres grávidas?

Pedro finalmente se fez ouvir:

- È engraçado como um traidor tem tanto peito para querer me interrogar. Eu não estava aqui na época em que aconteceu, mas eu sei muito bem que você tentou matar Ana-Lucia e Libby. Fez um trato com os Outros!- Pedro olhou para Sawyer e acrescentou: - Se sente seguro com o Michael perto da sua mulher?

Michael rangeu os dentes de raiva e se jogou para cima de Pedro que estava amarrado a um dos troncos que sustentavam a cabana, mas Sawyer o impediu de bater nele.

- Hey, Michael! Fica calmo! Não adianta ligar para a provocação dele! Além do mais, se você quer mesmo falar de traição, Judas, devo lembrá-lo que foi você quem drogou a minha mulher, então é melhor começar a falar logo e tentar fazer as pazes com o reino agora mesmo!

- Não tenho nada para falar!- disse Pedro. – Se vão me matar, façam logo! Eu nunca deveria ter vindo para essa ilha...

----------------------------------

(Flashback)

Ele estava muito machucado e pela primeira vez na vida Pedro se arrependia de verdade de ter se deixado levar pelo dinheiro para tomar uma decisão. Aquele homem que o enviara ao tal acampamento dos sobreviventes do acidente de avião, os mesmos a quem Widmore queria encontrar o tinha socado com suas próprias mãos, inúmeras vezes, deixando-o machucado o bastante para convencer os tais sobreviventes de que ele era uma vítima que tinha perdido a memória e não fazia a menor idéia de como tinha ido parar naquela ilha. A partir daí ele colheria informações para seu novo patrão. Quando isso ia terminar afinal?

Pedro caminhou pela floresta escura, se arrastando com o corpo cheio de dor até que ouviu vozes. Respirando fundo, ele começou sua encenação e surgiu do meio das árvores diante de um grupo de homens que o fitaram atônitos.

- Mas quem raios é esse sujeito?- indagou um homem com um inconfundível sotaque sulista.

Pedro limitou-se a cair no chão, fingindo estar desmaiado. Não precisaria fingir muito porque de fato estava à beira da exaustão.

- Só pode ser um dos Outros! Vamos matá-lo!- disse um outro homem a quem Pedro não pôde ver a face. O tom de voz dela era duro e tinha um sotaque árabe carregado. Pedro sentiu calafrios quando ele falou em matá-lo e pediu internamente que algum daqueles homens intercedesse por ele.

- Não!- disse uma outra voz, esta mais controlada. – Acho que devíamos levá-lo até a escotilha e colocá-lo na sala de armas.

- E correr o risco de acontecer o mesmo que aconteceu quando Henry Gale fugiu, brotha?- indagou uma voz com outro tipo de sotaque. Afinal havia pessoas de quantas nacionalidades naquela ilha? Pedro se perguntou.

- Sim, devemos correr o risco...- disse outra voz, esta grave e profunda. A partir daí, Pedro já não estava escutando mais, a dor de seus ferimentos e o cansaço físico pelas horas de caminhada o fizeram mergulhar na inconsciência. Sentiu apenas quando um dos homens o levantou do chão e o colocou nas costas levando-o para o desconhecido.

----------------------------

(Fim do flashback)

- Aceita o meu conselho, amigo.- disse Sawyer com ironia na voz. – Não vai querer que soltemos o nosso iraquiano em você, vai? È melhor contar tudo sobre os planos do esbugalhado e quem sabe a gente possa te perdoar.

- Não há perdão pra mim! Não mais!- Pedro disse com pesar. – Só posso dizer que não importam o que façam, eles são os donos da ilha e vocês não podem contra eles!

Luke balançou a cabeça negativamente e disse:

- Estou me perguntando se vamos passar a noite inteira ouvindo esse tipo de coisa.

- Perda de tempo!- resmungou Michael.

Jin que vinha se mantendo calado até aquele momento, pronunciou várias palavras em coreano, obviamente demonstrando sua raiva e frustração pela traição de Pedro.

- Gente, esse cara não vai soltar a língua essa noite, não.- disse Sawyer. – Então o melhor é que a gente espere o Sayid voltar e conte pra ele o que o sujeito fez com a Shannon, daí ou ele fala, ou perde a língua.

Pedro sentiu o corpo estremecer, mas manteve o silêncio.

- Eu irei vigiá-lo esta noite.- disse Luke. – Amanhã decidimos o que fazer quando Jack retornar à comunidade.

- Eu ficarei vigiando com você.- disse Michael.

- Eu vou voltar pra casa.- anunciou Sawyer. – Do jeito que as coisas estão indo, não quero deixar a Ana sozinha.

Jin resolveu segui-lo para ir ficar com Sun e seu filho. Porém, no caminho, Sawyer deu uma rápida passada na cabana de Cassidy para ver como estava Clementine. Ele estava ansioso para conversar com Ana. Precisava entender qual era o real interesse de Benjamin Linus nela.

xxxxxxxxxxxxx

Desde que retornara para sua cabana, Ana-Lucia não conseguira adormecer por dois motivos. Um era por medo de que alguém entrasse na cabana novamente e tentasse fazer algo contra ela ou seu filho, o outro motivo era as palavras contidas na gravação exposta por Eko. Benjamin Linus desejava saber se ela estava grávida.

- Maldito!- Ana resmungou consigo mesma. Não importava. Mesmo se estivesse grávida e Sawyer não fosse o pai, ele seria. Benjamin Linus jamais a tocaria novamente ou chegaria perto dos filhos dela.

Ana estava sofrendo demais com essa dúvida. Precisava saber se estava grávida, não poderia esconder isso de Sawyer muito tempo. O que ele diria se soubesse que havia a possibilidade dele não ser o pai do filho que ela poderia estar esperando?

O som de passos caminhando pela cabana a tirou de seus pensamentos. Sawyer tinha acabado de chegar.

- Como está sua filha?- Ana indagou quando ele se aproximou da cama e tirou seus sapatos. Ela tinha deixado a arma debaixo do travesseiro, mas não se deu ao trabalho de pegá-la pois conhecia o som dos passos de Sawyer.

- Ela está bem. Só ficou um pouco assustada com a confusão que as pessoas fizeram sobre a descoberta do espião.

- Ele disse alguma coisa?- Ana indagou se sentando na cama e puxando o lençol sobre o corpo.

- Está se referindo ao fato de Benjamim Linus ter muito interesse em saber se você está grávida?

- Me refiro a tudo.- respondeu ela, voltando a se deitar na cama.

Sawyer despiu-se por completo e olhou o filho adormecido no berço antes de se juntar a ela na cama.

- Por que não me conta o que aconteceu durante o tempo em que você estava sem memória, Ana? O que o Linus fez com você?

Ela não respondeu e Sawyer a abraçou, puxando-a contra seu corpo e afastando o lençol para que seus corpos se tocassem.

- Por que não conversa comigo?- perguntou ele e Ana deslizou um dedo pelos lábios dele, contornando-os. Sawyer beijou o dedo dela e sugou-o levemente antes de beijar-lhe a boca com a avidez.

- Por favor, Ana, preciso saber o que aconteceu. Foi tão difícil ficar sem você durante todo o tempo, imaginando que nunca mais a veria... – ele sussurrou recostando seu rosto aos cabelos dela, sentindo o cheiro deles.

- Não! Você não precisa saber!- ela sussurrou de volta. – Eu não existia mais antes de reencontrar você. Eu apenas vivia dia após dia imaginando se existia algo melhor pra mim além daquela vila, num mundo que eu não entendia, acreditando que éramos os únicos...não, Sawyer, não me pergunte como foi viver com ele! Por favor, não me pergunte mais!

Sawyer acariciou o rosto dela com as pontas dos dedos e observou os lábios dela tremendo ligeiramente.

- Se não quer me contar, não vou mais pressioná-la.- Sawyer prometeu. – Mas esse homem tentar chegar perto de você ou do nosso filho novamente, eu o matarei.

Dizendo isso, ele tomou-lhe a boca novamente e eles beijaram-se longamente. Sawyer puxou o lençol que cobria o corpo dela e deslizou suas mãos pela nudez de Ana, tocando-a com carinho.

Ana abriu suas pernas quando sentiu a mão dele se enveredando por entre suas coxas, buscando-lhe o centro de prazer.

- Eu te amo, Ana! Nunca duvide disso, baby...

- Oh, Sawyer!- ela gemeu puxando-o pelos ombros, querendo que ele se enterrasse dentro dela para assegurar que lhe pertencia, que Benjamin Linus nunca a tinha tocado. – Me faz sua, amor, agora!

Beijando-a com ardor, Sawyer a tomou, devagar e com ternura, acarinhando-lhe os seios com os lábios e fazendo-a suspirar de prazer. Naquele momento, Ana-Lucia não teve medo. Não importava o que acontecesse, sentia que Sawyer estaria sempre ao seu lado.

xxxxxxxxxxxxxxx

- Estou indo pegar alguma coisa pra gente comer.- anunciou Luke após duas horas vigiando Pedro juntamente com Michael. – Tem alguma preferência? Manga, manga ou manga?

- Pode trazer manga.- disse Michael, rindo levemente.

- Vou trazer água pra ele também.- ele apontou para Pedro que não dissera mais nenhuma palavra depois que Sawyer e Jin se foram.

Quando Luke saiu, Michael disse a Pedro:

- Eles prometeram te tirar dessa ilha, cara? Vai por mim, não devia ter confiado neles. – Pedro continuou calado. – Fizeram isso comigo, sabe? Ah, você sabe! Eu estava tão desesperado pra salvar meu filho que cogitei matar duas mulheres inocentes para conseguir salvá-lo e sair desta ilha. Não valeu a pena. Então, se eu fosse você, contava tudo o que sabe.

Pedro o encarou e respondeu por fim:

- Você me garante que eu não serei linchado por essa comunidade? Que eles irão me perdoar como fizeram com você?

- Se você cooperar...

Pedro soltou um suspiro de alívio.

- Por favor, me ajude, Michael! Eles não me deram escolha desde que vim parar nessa ilha! Se me ajudar jamais os trairei novamente. Me prometa que não deixará o Sayid me torturar.

- Eu prometo.- disse Michael.

Nesse momento, eles ouviram o barulho de passos se aproximando. Deveria ser Luke voltando com a comida e a água, Michael pensou. Ele foi até a porta da cabana e desapareceu lá fora. Pedro ouviu um baque surdo seguido por um gemido abafado. Seu estômago se contraiu de medo.

- Michael? Luke?- ele chamou, mas não obteve resposta.

Um homem entrou na cabana semi-escura. Pedro o reconheceu.

- John Locke?- fazia muito tempo que Locke estava desaparecido da comunidade, desde a última missão de resgate na vila dos Outros.

Locke não disse uma palavra a ele, apenas lhe apontou uma arma e atirou a sangue frio. Pedro morreu na hora, junto com seus sonhos de grandeza. Uma vida inteira de mentiras tinha se esvaído sem ter valido a pena.

Benjamin Linus entrou na cabana logo após Locke e fitou Pedro morto com um tiro no peito. Seu rosto era impassível de emoções, como sempre.

- Muito bem, John. Você fez o que precisava ser feito. Agora Jacob falará com você!

Continua...