Enraizada em seu olhar negro, a peça se tornou trágica:
Qual efeito teria a praga em nosso estado corrupto?
Qual cerimônia de palavras pode corrigir os estragos?
- Sylvia Plath
- Augustus Magnus Rookwood, você foi trazido aqui, perante o Conselho das Leis da Magia, para ser julgado pelos crimes de espionagem e pela participação nas atividades dos Comensais da Morte. As provas já foram ouvidas e chegou até nós também a suspeita de envolvimento com formas hediondas de Magia das Trevas; mal-uso e disseminação do conhecimento adquirido por seu antigo posto como Inominável; práticas de tortura, assassinato e manipulação mental. O senhor permaneceu omisso quando levado a depor e se prosseguir em silêncio a sentença será tomada pelo jurado baseada somente nas provas apresentadas até então. Se houver algo a ser declarado, esta será a sua última oportunidade antes que a decisão do jurado seja proferida, e nas presentes circunstâncias, ela será irrevogável.
A voz de Bartemius Crouch soou soberana no Velho Décimo Tribunal, os espectadores observavam abismados demais a postura do réu para serem capazes de emitir qualquer murmúrio fofoqueiro naquele momento. O homem acorrentado na cadeira fora o colega de alguns deles por tantos anos, compartilhara de confraternizações e jantares ao lado da esposa, dividira a mesa de jogo, ganhando ou perdendo sempre com um sorriso seguro e tranquilo no rosto. Ainda que jamais tivesse sido completamente aceitável socialmente, naquele momento ele não se parecia sequer com o boêmio de olheiras fundas fedendo à fumaça e perfume barato da noite anterior. Era pior.
Augustus permaneceu curvado e de cabeça baixa durante todo o discurso inicial de Crouch. Suas costas demonstravam o peso do ar que respirava, e talvez não pudesse ser diferente, estando cercado de Dementadores. No entanto, quando recebeu o ultimato, ele ergueu a cabeça lentamente, deixando visível um olhar legitimamente insano, cerrado e opaco junto com um sorriso que rasgava-se em seu rosto de forma odiosa e cínica; o rosto sombrio, mais sulcado e marcado do que nunca, moldurado pelos cabelos emaranhados.
- Você não faz jus ao que eu fiz Crouch. Há alguém aqui que gostaria de saber com detalhes a execução das minhas proezas, antes de me mandarem para aquela prisão maldita? Se não houver, pode encerrar a sessão. - Ele riu debochado, demoníaco, antes de prosseguir: - Eu usei e enganei cada um de vocês graças àquela cadela alemã. Bastou eu me casar com uma das suas para me tornar um dos seus, porcos ingênuos, há mais iguais a mim dentre vocês do que imaginam... - vociferou lentamente, sem desfazer o sorriso em momento algum.
Crouch olhou-o com uma expressão grave. Impressionava-o tamanha falta de consciência. Rookwood sequer tentara se defender, pelo contrário, mantinha a postura de quem desafiava qualquer um dali a fazê-lo se arrepender do que fizera. Aquilo simplesmente não iria acontecer.
- Bem, se você estiver disposto ao menos a nos dizer quais são esses tantos iguais a você que estão entre nós, talvez possamos entrar em algum acordo. - O juiz falou com firmeza. Não se abateria, por mais que percebesse ter sido ludibriado o tempo todo.
- Vocês merecem ser enganados, e no que depender de mim continuarão sendo. - Respondeu calmamente, ainda sorrindo descaradamente perante a corte que murmurava considerações indignadas.
- O senhor então se declara culpado e se recusa a fazer qualquer acordo em troca de qualquer benefício, é isso?
- Parece ser outra coisa? - O réu recostou-se na cadeira em uma postura opulenta, ainda que a miséria permanecesse marcada em seu rosto e seus ombros.
- Você nos deixa sem escolhas, Rookwood... - Crouch disse, porém antes de concluir recebeu um pergaminho da bruxa em seu lado, no antigo lugar de Valkiria, que o fez ponderar por um momento. - Uma última pergunta antes de proferirmos sua sentença. O senhor tem ciência de que sua esposa e cúmplice está internada em St. Mungus em estado grave de saúde, enquanto passa por uma gestação gemelar de sete semanas, e seu filho de cinco anos, junto com as crianças que porventura vierem a nascer, serão designados para a adoção tão logo ela esteja apta a ser julgada e enviada para Azkaban?
- Cúmplice... - ele cerrou os olhos e ergueu as sobrancelhas repetindo o que pareceu ser a única palavra importante de tudo o que ouvira. Ergueu ainda mais a cabeça, olhando diretamente para o juiz com expressão de frieza absoluta. - Ela era igual a você, Crouch, tão apegada aos próprios moralismos e responsabilidades que esquecia-se da existência de pessoas sem escrúpulos no mundo que não vestiam a máscara de vilão. Foi tão fácil usá-la... desejo sorte a ela em Azkaban, os Dementadores e os outros prisioneiros não serão tão gentis quanto eu fui. Já os meus filhos, bem, se eles puxarem a mim não precisarão de sorte.
O silêncio que se seguiu era quebrado vez ou outra por cochichos e murmúrios, especialmente entre o jurado, que trabalhava junto com Valkiria até pouco tempo atrás. A bruxa ao lado de Crouch estendeu-lhe novamente um pergaminho, que o juiz leu brevemente enquanto Augustus batia o pé acorrentado contra o chão, impaciente.
- Sob a autoridade por mim recebida, perante o Conselho das Leis da Magia e mediante a opinião unânime dos jurados, eu declaro que Augustus Magnus Rookwood está sentenciado à prisão perpétua em Azkaban, em cela solitária e sem direito a visitas ou pedidos de recursos. Sua cônjuge, Valkiria Hella Rookwood, permanecerá sob custódia até receber alta de St. Mungus e autorização do medibruxo designado a assisti-la para se apresentar ao tribunal. Até lá, Caesar Augustus Rookwood, seu filho, ficará sob tutela do Ministério da Magia.
Ao descer o martelo a sessão foi dada por encerrada. A audiência aplaudiu de pé enquanto Augustus era guiado pelos Dementadores para o seu destino, mantendo o mesmo sorriso doentio e inabalável no rosto.
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Abriu os olhos e viu um teto terrivelmente branco, marcando seu reflexo nas retinas tão acostumadas com a escuridão das pálpebras cerradas. Sua coluna doía, mas, em especial, seu baixo ventre parecia estar se recuperando da pressão de uma tonelada sobre ele. Demorou a abrir os olhos novamente e reconhecer que estava em um quarto em St. Mungus, com a porta guardada por dois homens de farda azul. Do outro lado, sem que ela percebesse, um terceiro homem respirava aliviado por vê-la consciente, e Valkiria só tomou conhecimento da presença dele quando sentiu a mão pousar em seu ombro com polidez. Ao lado de uma bolsa de soro flutuante que se ligava em seu braço pálido e magro, estava Rufus Scrimgeour altivo em seu uniforme condecorado.
- O que estou fazendo aqui? Vocês... não iam... – ela tentou ser enérgica e firme como estava acostumada, no entanto estava fraca demais para sequer conseguir fazer sentido.
- Você desmaiou, Sra. Rookwood. Nós não chegamos a estuporá-la, assim que um Dementador se aproximou você desfaleceu e começou a sofrer hemorragia; seu marido foi levado à Azkaban, seu filho ao Centro de Assistência aos Órfãos de Guerra e a senhora foi trazida para cá. Ficou uma semana desacordada.
Nada daquilo fazia sentido, mesmo que a última lembrança do terrível fato ainda estivesse tão fresca em sua memória como se acontecida há poucas horas. Sete dias inconsciente enquanto Augustus estava naquele lugar miserável e o filho abandonado em algum orfanato.
- Eu devo chamar o medibruxo para informar que a senhora acordou. - O auror prosseguiu, no entanto antes que pudesse se afastar, Valkiria agarrou o braço dele com o máximo de força que era capaz, o que não era muito.
- Mas... por quê? Por que eu passei tanto tempo desacordada? – Foi tudo o que conseguiu balbuciar, os olhos trêmulos e inseguros tentando focar nos dele.
- Dementadores costumam causar reações terríveis em mulheres grávidas. – Scrimgeour anunciou, e continuou sem se importar com a expressão de angústia dela: - Por Merlin que a senhora não perdeu as crianças, apesar de ter sangrado muito e ainda ter que ficar em repouso absoluto. Não poderá passar pelo julgamento até os seus filhos nascerem.
- Bebês... crianças... – ela repetiu débil e sorriu tristemente. Seu corpo tentara lhe dizer, Augustus tentara lhe dizer, e ainda assim somente agora ela caía em si. Jamais poderia passar por uma gestação tranquila. – Gêmeos. Oh, Loki... terei meus filhos sob a custódia de aurores? Quando nascerem se juntarão ao irmão no orfanato?
- Provavelmente. – O loiro respondeu friamente. – Se for condenada a passar a vida em Azkaban, seus filhos serão considerados tais como órfãos de guerra e poderão ser adotados por bruxos com condições de criá-los. Muitos pais que perderam seus filhos e muitos bruxos cujas famílias foram dizimadas estão acolhendo estas crianças para tentarem reconstruir suas vidas.
- Meus filhos não servirão de apoio emocional para estes nojentos e seus saudosismos. Meus filhos não serão cachorrinhos de bruxos que desejariam estar criando os próprios filhos em vez dos meus!
Ela retirara forças de alguma fonte misteriosa agora para gritar, fazendo os aurores junto à porta olharem para dentro prestes a interferir se necessário. Rufus fez um sinal para demonstrar que tinha tudo sob controle e eles tornaram a se virar, desconfiados.
- Eu entendo que você se preocupe com eles, mas pelo próprio bem deles, fique calma! A Ministra te mantém aqui porque foi um erro envolver Dementadores na sua prisão, a vida de seus filhos deve ser preservada e se você mesma não ajudar a fazer isso, irá direto para Azkaban depois de perdê-los. Mantenha-se em repouso, por favor.
- E o que te importa eu ou os meus filhos? - Murmurou contrariada, olhando direto nos olhos dele, agora sem dificuldade. - A última vez em que ouvi seu nome foi em um comentário sobre como você estava prestes a ser promovido Chefe dos Aurores. Não deveria estar aproveitando seu tempo com algo mais importante?
Ele cerrou o olhar e umedeceu de leve os lábios antes de responder, tornando visível o quanto aquela questão o pegara desprevenido.
- Não creio que seu caso seja tão simples a ponto de não ser considerado importante. Agora devo informar ao medibruxo que a senhora acordou. - Insistiu, desta vez se afastando do alcance do braço dela a tempo de não ser impedido novamente.
- Rufus... - ela murmurou lânguida, como se a força que ela conseguira reunir houvesse se dissipado completamente. Ele se voltou a ela automaticamente antes de atravessar a porta, vendo-a sorrir fracamente, desolada. - Obrigada por se importar.
Ele não respondeu, em vez disso fez questão de se retirar o mais rápido possível do quarto. Valkiria suspirou profundamente, sentindo com mais consciência agora o próprio corpo e como cada milímetro dele doía, ainda que a coluna e o ventre a torturassem especialmente. Aquilo ainda não era capaz de fazê-la desviar os pensamentos, que povoavam sua mente de maneira estranhamente fria e calculista. Não podia se dar ao luxo de se tornar emotiva quando tudo parecia depender dela.
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Uma cela solitária. Augustus não poderia desejar mais do que aquilo em Azkaban. Sem ninguém por perto ele pôde desfazer o sorriso que desceu em seu rosto com peso de chumbo antes dele mesmo se largar ao chão imundo. O lugar era escuro feito breu, ou talvez suas próprias angústias obscurecem a visão. O frio assolava, parecia congelar sua pele e o ar em sua volta, deixando-o sem nenhum movimento além do tremor involuntário que esforçava-se para conter.
Não soube se passaram horas, dias ou semanas em que ele não fez nada além de respirar pesadamente. Os pensamentos incessantes guiavam-no muitas vezes a alucinações oníricas que não podiam ser propriamente chamadas de sonho. Augustus não dormia de fato, não havia direito de repouso para seus ossos e sua carne delgada. A comida, ou o que se pretendia ser uma refeição, acumulava-se pelos cantos junto com o abandono de qualquer dignidade.
Não havia nada.
Quando os Dementadores se aproximavam para cobrarem seus tributos, conseguiam dele o pavor de coisas esparsas, alguns temores até mesmo infantis, como as lembranças das ausências dos pais e de todos os problemas causados por eles, sentidos com a seriedade de sua perspectiva juvenil. Nunca tornara tão morbidamente consciente o quanto eles o fizeram se sentir sem importância, por mais que os seus avós tentassem lhe mostrar o contrário, os fatos faziam o sentimento confuso alastrar-se de diversas maneiras, moldando o comportamento ambíguo de tentar conquistar um significado para os outros e ao mesmo tempo tentar passar por cima desta necessidade de maneira vil.
Lembrou-se da Varíola Dragonina, da vergonha, da derrota de estar sozinho, miserável, digno de piedade até o momento em que ele conseguiu permanecer indiferente a isso, indiferente a tudo, aproveitando-se das oportunidades e mantendo-se como dava, antes do advento de Valkiria von Adler em sua vida. Ela lhe trouxe prazer, cumplicidade, riqueza, nome, um filho, tranquilidade, até mesmo felicidade. Até mesmo amor. E sua última visão dela foi caída ao chão, sangrando inconsciente. Era dilacerador.
Tudo culminava no desespero que sentia ao lembrar-se do próprio julgamento e no quanto foi impotente. Tudo o que pôde fazer foi desgraçá-la com as palavras, cuspir em seu nome para desvinculá-la dele. Era ruim, era amargo, tudo doía imensamente mas não o fazia se arrepender. Não se arrependia de nada, além de não ter conseguido tirar ela e Caesar de casa antes do pior acontecer.
Enquanto uma sinfonia de gritos desesperados tomava as celas da prisão, o que Augustus sentia era uma cova afundar-se dentro de seu peito e lágrimas ocasionais molharem seu rosto. Jamais se juntaria ao coro dos miseráveis que se afogavam em remorso, não, sua voz não seria ouvida daquela maneira. Fazia um esforço tal qual já vira Valkiria fazer tantas vezes, de concentrar o que restava de sua vontade para transformá-la em algo quase tão palpável, quase tão forte quanto um patrono contra aqueles malditos Dementadores.
Nada tiraria dele a esperança, pequenina e muito bem-guardada, de saber que a esposa, restabelecida, forte, iria até ele para livrá-lo daquilo e fazê-lo se juntar novamente à família, conhecer seus novos membros, lutar para passar por cima do que quer que os bons sujeitos no poder estivessem fazendo com o mundo.
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1982
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Os dois corações batiam perfeitamente, e com o dela, eram três. Fizera parte de uma tríade antes, a que lhe foi abruptamente tirada sem direito de ao menos saber o que se passava com os dois. Não sabia o que havia acontecido no julgamento de Augustus e não recebia notícia alguma sobre Caesar. Era somente ela, o medibruxo e as curandeiras, os aurores que revezavam a guarda de seu quarto, ou melhor, sua cela com benefícios, e Scrimgeour.
Ele parecia supervisionar tudo o que acontecia ali, fosse para evitar qualquer brecha que poderia lhe garantir uma fuga, fosse para evitar qualquer maltrato ou descaso que ela pudesse sofrer por ter aquela horrível cicatriz no braço, a antiga Marca Negra. De qualquer maneira, sua presença era constante e Valkiria pegava-o muitas vezes observando-a dormir, ainda que ele sempre fizesse aquilo parecer casual e irrisório.
A loira teve sua antiga pergunta sobre ele respondida logo nos primeiros dias: o auror realmente não era nem seu amigo íntimo, nem seu inimigo notório; o auror não lhe era nada perante a lei ou o que quer que ele conseguisse convencer daquilo. Mas se fosse justo o suficiente consigo mesmo, não teria se aproximado tanto dela.
- Rufus, o que está acontecendo lá fora? - Ela lhe perguntou morosamente um dia, quando a barriga já despontava segura, marcando o lençol que a cobria com seu formato arredondado.
- Não posso lhe responder sobre seu marido e seu filho, você sabe disso. - Ele disse, com a voz cansada.
- Você já disse que meu filho está sendo tratado bem, é o suficiente. Não quero saber nada de Rookwood além do fato de estar preso... - suspirou, desviando o olhar como se o simples pensamento ofendesse. - Eu jamais imaginei que ele fosse desgraçar tanto a mim e aos meus filhos... diga-me sobre o mundo, Rufus, há tanto tempo eu não leio um jornal, ou sequer vejo a luz do dia. Conte-me algo, por mais banal que seja.
- Quanto à luz é fácil resolver...
Ele se levantou da poltrona e dirigiu-se lentamente, mancando, até a janela cerrada por pesadas cortinas que não deixavam transpassar nenhuma luz ainda que fossem brancas. Abriu-as, perguntando-se por que não havia feito aquilo jamais, e recebendo a resposta com a visão. A paisagem dali não era das mais atrativas, pelo contrário, a fumaça e os prédios decadentes dos trouxas cortavam todo o horizonte. Havia grades invisíveis na janela que impediam encantamentos para torná-la mais agradável; não deixavam passar nada além da verdadeira visão feia e tumultuada, o ar carregado de poeira e gás poluente. Eles tinham seus direitos inegáveis, mas o mundo dos trouxas era algo fadado a se destruir por si só, hora ou outra.
- Quanto a te contar algo, bem... - ele prosseguiu, ainda perante a janela, sua silhueta recortada pela luz estranha do final da tarde naquele lugar. - Ainda estamos lutando para fazer tudo voltar ao normal, Valkiria, isso vai levar um bom tempo ainda. Muitos continuam com medo de Você-Sabe-Quem retornar, outros ainda sofrem pelas consequências de tudo o que aconteceu. Não é fácil restaurar a paz depois da guerra que vocês fizeram.
- Você jamais vai acreditar que eu fui usada por aquele verme, não é mesmo? - Ela sorriu tristemente, suspirando antes de continuar: - Eu não te culpo, não depois de tudo o que houve, eu também não confiaria em mim mesma.
- Não se trata disto. - Ele se limitou a contrapôr, vagamente.
- Rufus, você acha que eu já poderia me levantar para ir até aí? Gostaria de ver algo que não fosse esse quarto, ou esse céu feio da janela...
- Eu te garanto que a visão de onde eu estou não é mais agradável do que o que você vê, portanto, fique onde está.
Ele falou em vão, quando virou-se Valkiria estava esforçando-se debilmente para se sentar na cama sozinha, a coluna certamente entravada pelo longo período de inatividade. O homem bufou e foi até ela, que não tinha a menor intenção de seguir seu conselho, e sem saída, amparou-a pelos ombros, ouvindo seus gemidos incômodos, sentindo o calor acumulado em sua pele sob a camisola. Guiou-a sem jeito, muito mais pela situação do que pela própria perna, até a janela onde a loira encostou-se no batente e cerrou o olhar para ver a paisagem. Sem óculos, deveria focar melhor o que estava à distância, ainda assim voltou o olhar para baixo, como se tentasse mensurar a altura em que estava.
- A janela está protegida magicamente, não há nada que possa entrar ou sair por ela. - Ele murmurou amargamente, fazendo suas próprias considerações sobre o comportamento dela.
Ela meneou a cabeça e olhou-o, como se calculasse o quanto poderia confiar-lhe dos próprios pensamentos.
- A partir do sétimo mês de gravidez, se eu por ventura caísse daqui de cabeça, vocês ainda poderiam cortar a minha barriga e salvar os bebês se forem rápidos.
- Cale-se, Valkiria. Esse tipo de coisa não lhe ajudará em nada.
- Minha mãe fez isso, sabia? Mas eu já havia nascido. Passei a vida inteira odiando-a e ainda assim, agora, sou capaz de admitir que ela teve muita coragem. - Deu de ombros, cambaleando ligeiramente. - Coisa alguma me ajudará, mas isso pelo menos me livraria da vergonha que eu sinto.
Rufus a pegou pelos ombros com muito mais força do que um simples amparo para o cambalear, havia algo em seus olhos que queimava, incomodava, fazendo-a desviar a visão para a paisagem novamente.
- Eu mandarei reforçarem a magia desta janela, e de todas deste andar.
- Rufus, eu sou uma vergonha, não há como tirar isso de mim de forma alguma. Por que me quer viva? Importe-se com meus filhos, mas quando eu for mandada para Azkaban, estar viva ou morta para eles não fará a menor diferença. - Engoliu em seco antes de voltar-se a ele, com os olhos azuis irados. - Eu prefiro que eles fiquem órfãos de verdade, que Caesar me esqueça, que os gêmeos jamais saibam quem eu e o pai desgraçado deles fomos. Me deixe decidir, há anos eu não decido nada por mim mesma, há anos sou uma marionete nas mãos de um facínora, tenho certeza de que há coisas que eu sequer me lembro ter feito pelas maldições daquele louco... é demais para mim ter que viver com isso... seja onde for...
A ira tornou-se lágrimas, e elas escorreram livremente em seu rosto impedindo-a de continuar falando. Os soluços agitavam-na dentro das mãos do auror, e sua magreza e pequenez tornavam-na de aparência tão frágil e digna de pena que ele ficou sem saber o que fazer. Era certo que seu discurso era odioso, carregado de um desespero e uma angústia estarrecedores, mas talvez não houvesse como se sentir de maneira diferente na situação em que estava.
Valkiria atirou-se contra ele, encolhendo-se em seu peito, agarrando-se em sua farda como uma criança, ainda que sua barriga proeminente o pressionasse e o lembrasse de sua condição. Ficou por alguns segundos com as mãos no ar, antes de conseguir cerrar os braços em volta dela, convencendo-se de que aquilo não era propriamente um abraço. Ela deveria se acalmar, sua saúde ainda era delicada, os bebês poderiam ser expulsos antes do tempo de seu corpo se continuasse tão abalada.
Rufus fechou os olhos por um momento, sentindo o cheiro dos cabelos dela tão próximo, a pele macia de seu rosto encharcada de lágrimas salgadas quando ele a tocou antes de afastá-la lentamente de si.
- Se o que você fala é verdade, encontrará alguma saída, Valkiria. Agora volte a se deitar. Irei pedir para a curandeira te dar uma poção para se acalmar.
Ela não se moveu, mas ele já esperava que teria de encaixá-la em seus braços e erguê-la do chão se quisesse vê-la deitada novamente. A forma como ela se aninhou na curva de seu pescoço foi o que o pegou desprevenido, e o tempo que levou para chegar com ela até a cama estendeu-se na medida do sentimento insano que pronunciava-se cada vez mais alto, cada vez mais inegável. A alemã era uma maldição na sua vida.
Semanas se passaram depois daquilo em que Rufus entrava naquele quarto apenas quando sabia que ela estava dormindo e se retirava dele o mais rápido possível. O trabalho no Ministério, por mais tempo que lhe tomasse e muitas vezes lhe obrigasse a virar noites sem dormir, não conseguia distrair os pensamentos impróprios de maneira efetiva. Sempre que via notícias relacionadas ao Ministro alemão lembrava-se de como ele efetivamente renegava Valkiria, sendo capaz de convencer qualquer um de que jamais a conhecera. Igor Karkaroff estava na Rússia, incomunicável por motivos óbvios, mas antes de partir tentou visitá-la em St. Mungus.
Ele não dissera o nome dela quando entregou Augustus Rookwood, e era isso o que mais intrigava. Valkiria fora presa por ter ajudado o marido a resistir, e tornou-se ré convicta pelas mesmas evidências que se mostraram contra ele, além da Marca Negra ter sido encontrada desvanecida em seu braço. Teria ela realmente sido manipulada por ele o tempo inteiro? Scrimgeour já não sabia se aquilo era de fato plausível ou se era uma vontade dele que acompanhava o que sentia por ela.
- Ei, chefe! - Chamou-lhe à porta do seu gabinete no Ministério um dos aurores designados a guardar o quarto dela. - A Comensal prenha pediu para eu lhe entregar isso.
Rufus o viu estender-lhe um pergaminho que mais se parecia um origami, de tão laboriosamente dobrado. A curiosidade o fez se esquecer de chamar a atenção do subordinado pela maneira como tratava a prisioneira. Com um menear de cabeça permitiu que o rapaz entrasse e pegou o objeto, analisando-o.
- É uma carta, suponho.
- Bem, deram a ela o pergaminho, uma pena e um tinteiro. Mas ninguém conseguiu desdobrar depois que ela fez isso.
- Vocês tentaram ler o que estava escrito? - Ele levantou o olhar para o jovem auror, que entendeu que a pergunta não era nem de longe amigável.
- Bem, tentamos descobrir do que se tratava... com esses Comensais todo cuidado é pouco, o senhor sabe. - Defendeu-se, já dando um passo para trás.
- Retire-se. - Rufus ordenou, friamente, ouvindo a porta bater atrás de si antes de voltar-se para o pergaminho e começar a trabalhá-lo como um puzzle.
Sabia que a intenção dela era proteger o conteúdo da carta, só não sabia se ela era excepcionalmente preparada para elaborar algo à prova de mágica ou se aqueles aurores eram terrivelmente mal-preparados para não conseguirem desfazer as dobraduras com feitiços. Scrimgeour preferiu sentir aquilo nas mãos, descobrir seu segredo da mesma maneira que ela o colocou. Aquilo também lhe dava tempo para se preparar para ler o que quer que estivesse escrito ali. Com alguns longos minutos de boa vontade ele conseguiu encontrar o ponto em que conseguiria seguir o caminho contrário que ela fizera sem rasgar o pergaminho, e pacientemente abriu-o por completo antes de aventurar-se por entre as letras perfeitamente alinhadas, ainda que diminutas, ocupando os dois lados dele.
Caro Scrimgeour,
Espero sinceramente que esta carta tenha lhe chegado em mãos intacta, tanto, que sequer considerarei a possibilidade de ser outra pessoa a ler isto. Nada do que escreverei servirá de justificativa, mas apenas um meio de tentar fazê-lo entender melhor quem sou e porque algumas coisas me cercam de maneira tão próxima.
Ninguém em minha família fora são, talvez somente meu irmão, e ainda assim ele não pôde escapar ileso das armadilhas de nossas origens. Korbinian Reiniger, que está ocupando o cargo de Ministro da Alemanha, junto com seu irmão gêmeo Koloman, serviu Gellert Grindelwald durante a primeira guerra. Não foi uma simples filiação de causa, nenhum fervor adolescente explicaria o quanto os dois amaram aquele homem, especialmente Koloman, que me adotou por neta.
Minhas ligações familiares com os Reinigers existem por meio de minha legítima avó, que fora esposa de Koloman e sua prima, e por meio da criação detestável a que eles me submeteram. Fato é que a geração de minha mãe por outro homem jamais ultrajou meu pretenso avô, não quando este era o próprio Gellert Grindelwald. Não me pergunte as condições destes fatos uma vez que meu verdadeiro avô jamais demonstrara qualquer tendência a arriscar-se ter um filho, eu não duvidaria do uso de ardis para que tal coisa tenha ocorrido, o que me enoja profundamente.
Klarissa, minha mãe, cresceu cercada por uma redoma de expectativas como se seu sangue justificasse qualquer capacidade especial. Isto sufocou-a tanto que acabou, sim, tirando a própria vida. O mesmo aconteceu comigo, e desde criança eu fui ensinada que não poderia ser apenas uma pessoa normal com um futuro normal, como era do meu direito como humana, acima de bruxa ou neta de uma figura histórica e terrível.
Por estes motivos fui lançada a um caminho pernicioso, as Artes das Trevas passaram a me seguir, e quanto mais eu tentava lhe escapar, mais em meu caminho elas se colocavam. Quando descobri estes motivos, ocultei-os com todas as minhas capacidades, pois já era mais do que o bastante ter dois homens loucos me obsediando.
Minha vinda para a Grã-Bretanha se deu como um meio de fuga para mim. Uma espécie de novo começo. Você sabe agora como absolutamente tudo dera errado. Não irei me estender aqui lhe escrevendo o óbvio que ocorrera em relação àquele homem com quem tive a infelicidade de me casar, sob a obrigação de carregar seu filho e não fazer dele um bastardo, e eu uma mulher indigna. Hoje vejo que este teria sido um caminho muito mais fácil de seguir.
Rufus, se necessitar de qualquer prova quanto à insanidade dele ainda, te digo que o Comensal da Morte que te atacou em Hogwarts em Março de 1976, deixando-te com a lesão permanente na perna, não foi outro que não o homem que me tirou de você com seus ardis, o homem de quem pedirei a separação legal e mágica se não me negarem a oportunidade.
Renego agora todo o meu passado com ele, bem como minha ascendência e todas as falhas de minha origem. Isto não é o suficiente para livrar-me da humilhação de ter sido tragada para o centro de toda a desgraça que alastrou este país na última década, mas pessoalmente me dará alguma paz quando estiver encarcerada em Azkaban.
Sei que é de sua vontade não mais me ver, no entanto, peço que tente junto a Crouch conseguir uma cela o mais distante possível da que estiver Rookwood e, o mais importante, assegure-se de que somente boas famílias adotem meus filhos. Caesar tem o direito de ter um novo começo, e os gêmeos merecem a paz de não saberem sobre toda a sujeira que há por trás de suas origens.
Me faria especialmente mais feliz se você mesmo tivesse o interesse de acolhê-los, mas seria um absurdo fazer este tipo de pedido.
Que logo tudo acabe e vocês, que merecem a paz de um mundo novo, possam usufruir dele.
Com o amor que lhe seria devido se eu tivesse a oportunidade,
Valkiria von Adler.
Per Aequa, Per Iniqua = algo como "Pelo justo, pelo injusto", equivale a "Por bem ou por mal".
