Olá! Trago mais um capítulo e assim como no outro, esse tem uma carga de emoção bem tensa.
Enfim... já peço desculpas antecipadamente a vocês pelas emoções que poderei causar. Essa fase da fic está sendo difícil até para mim, eu escrevo e acabo sentindo junto com os personagens, haha'. (Eu estou rindo, mas estou preocupada =/, OMG.)
Por favor, leiam as notas finais.
Desejo a todos uma boa leitura! ;)
"Não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis."
René Descartes
Como se concentrar em algo quando sua mente fervilha, inquieta?
Pakkun continuou traçando a rota, seguindo um rastro inexistente aos olhos humanos, completamente alheio ao caos que se formava na cabeça de Kakashi. Logo pela manhã, ele tivera uma desagradável surpresa: ao chegar ao escritório do Kazekage, uma notícia bombástica fora jogada em seu colo. Assim como ele, Kankuro também parecia surpreso, o que o fez acreditar que Gaara estivera escondendo o jogo propositalmente. Enquanto corria, no encalço do ninken, relembrou o diálogo mantido no gabinete, assim como o que fizera a seguir.
"― É isso! Eles estão contaminando a água que é distribuída para a região periférica de Suna. ―Gaara comunicou, a expressão tranquila não condizendo com a seriedade da situação. ― Nós estávamos sendo espionados pela Vila da Pedra desde a época da invasão à central de distribuição de energia, mas só agora tive as provas necessárias para fazer tal afirmação.
― O que o faz crer que isso não começou antes, irmãozinho? –Questionou Kankuro, os olhos injetados de pavor. O titereiro temia que o irmão tivesse sido conivente com os atos criminosos. ― E por que você não tomou uma atitude antes?
Kakashi apenas observava a discussão entre os irmãos, temendo pela segurança de Sakura e Konohamaru. Precisava voltar para casa; se fosse rápido o suficiente, daria tempo de alertá-los antes que eles saíssem.
― Eu disse que estava investigando sem criar alardes, você não me escutou? –O Kazekage alterou-se, batendo a mão com força em cima da mesa. ― Deixei dois shinobis de minha confiança cuidando disso e se não disse antes, foi porque não queria criar um clima, como esse agora. O fato é que eu não tive paz, estava preocupado demais com o que esses malditos miseráveis poderiam fazer com os habitantes da Vila. Somente ontem à noite tive acesso ao laudo que apontava a contaminação da água.
― Então nós precisávamos ter agido. –Kakashi ousou retrucar, percebendo a gravidade da situação.
― Era muito tarde quando soube do resultado da análise. Não achei justo incomodá-los com isso, afinal, precisava pensar num plano de ação com calma. –Afirmou, desviando o olhar para os papeis que mantinha em sua posse.
― Eu posso entender, mas Gaara...
Kankuro foi interrompido por um shinobi da guarda do Kazekage. O homem adentrou a sala com violência, ofegante e soltou a informação que eles não queriam ouvir tão cedo: shinobis da Vila da Pedra tinham sido avistados nas proximidades da represa."
E assim a confusão havia sido instaurada. Por ser excelente em rastrear inimigos, Kakashi foi um dos designados para a busca e perseguição dos invasores. Três times foram formados, um deles sendo orientado a partir no início da tarde, a fim de dar suporte aos que partiram mais cedo. O Hatake integrava o primeiro time, assim como Kankuro, mais dois shinobis e o próprio Kazekage.
Aparentemente, o ruivo via aquela missão como uma forma de se redimir, de se sentir menos culpado por ter sido descuidado com a vigilância e proteção de suas distribuidoras – de luz e água, respectivamente. O segundo time partiria cerca de uma hora após a saída do primeiro pelotão, dando tempo para que o reconhecimento da situação fosse feito sem alvoroços.
Uma equipe composta por cinco homens – os mais confiáveis, segundo Gaara – ficou responsável por proteger o gabinete, para o caso de uma possível invasão inimiga. O objetivo era extrair dos espiões o máximo de informação que conseguissem e não matá-los, o que arruinaria o plano elaborado às pressas; precisavam saber quais eram os verdadeiros anseios da Vila da Pedra. Demoraram muito para chegar à região da represa, tendo em vista que necessitavam do faro de Pakkun e dos outros ninkens para tomarem a direção certa. Após algumas tentativas, eles pegaram o rastro dos invasores e logo dispararam em uma única direção.
Ao chegarem próximo à represa, tiveram que contorná-la, o que demandou um pouco mais de tempo e só então, seguiram em direção às distribuidoras. O sol já estava alto quando encontraram os shinobis inimigos, estes que jogavam sacos e mais sacos de uma substância incolor nos reservatórios que tinham seu conteúdo bombeado. Uma luta desencadeou-se e temendo que os impactos destruíssem a instalação, Gaara atraiu os oponentes para o lado de fora da instalação.
Aos olhos de Kakashi, aquela situação era incomum e a evidente fraqueza de seus oponentes só reforçaram suas recentes suspeitas. Desferiu um golpe num dos homens e o deixou ligeiramente tonto; levantou o hitaiate e expôs o Sharingan. A fim de assustá-lo e persuadi-lo a falar, ele agarrou o pescoço do shinobi que o olhou, espantado. O Hatake sabia o quanto aquele olho podia ser intimidador e ao ameaçar usá-lo a seu favor, o shinobi da Pedra confessou: eles causaram todo aquele frisson a mando de Orochimaru. Disse também que eram apenas uma distração, que o verdadeiro objetivo daquela falsa invasão era o rapto de Konohamaru e que naquele momento, outros homens já deveriam ter conseguido se apossar do que vieram buscar.
Ardendo de ódio, Kakashi havia jogado o oponente no chão com força, cego pelas emoções. Pretendia matar o homem, mas foi parado por Kankuro, que o olhava pesaroso. Ele e Gaara tinham escutado o que o inimigo dissera e rapidamente o Kazekage se ofereceu para levar o Hatake até a Torre em uma de suas nuvens de areia. Lá ele poderia obter os rastros necessários para começar a perseguição aos subordinados de Orochimaru. O titereiro ficara responsável por levar os suspeitos, assim como os outros dois shinobis que os acompanhavam.
O percurso até a sede do governo de Suna foi feito em completo silêncio, ambos imersos nos próprios pensamentos e preocupações. Kakashi mantinha entremeado em seu íntimo um sentimento de contrição... Era algo que o inquietava, pois não sabia ao certo por que se sentia assim. Fora imprudente ao não manter uma vigilância constante na própria casa? Relaxara demais nos cuidados que deveria dedicar à Konohamaru? Eram tantas perguntas... inúmeras incertezas. Encontraram o segundo time no meio do caminho e sob as ordens do Kazekage, retornaram à Suna com mais uma missão a ser cumprida: auxiliar o Hatake no resgate do garoto.
Ao chegarem à Torre, Gaara informou que ficaria em seu gabinete e que mandaria as entradas e saídas da Vila serem vigiadas com cuidado redobrado, a fim de evitar possíveis invasões. Não havia muito tempo para pensar, sequer cogitar o que havia acontecido, por isso Kakashi logo seguiu em direção ao apartamento e invocou seus ninkens, sem dar-lhes muita explicação, já que pouco sabia. Viu a grande quantidade de sangue no chão do quarto e paralisou, assustado. O que teria acontecido ali? Ficou em estado de choque, temendo pela vida de Sakura e de Hana, pois sabia que Orochimaru precisava de Konohamaru vivo. Foi "acordado" de seu transe por Pakkun, que logo lhe deu informações sobre os perfis dos raptores.
Como um autômato, seguiu seu pug apartamento afora, sentindo o coração aos saltos. Viu alguns colegas o acompanharem, mas manteve-se em silêncio, a preocupação e falta de informação deixando-o extasiado, mudo. Os homens que integrariam seu time respeitaram o seu silêncio, seguindo-o com o desejo de cumprir mais uma missão com sucesso, independe de qual fosse o inimigo que tivessem que combater.
―X―
Conforme venciam os quilômetros, o cansaço se fazia presente, fatigando-os no calor escaldante do deserto. Dois dos homens traziam suprimentos, o que os tranquilizava, pois estariam abastecidos por pelo menos três dias; vários cantis de água foram distribuídos e um dos shinobis, ao perceber a rota que tomavam, informou-os que havia um oásis há algumas léguas, onde poderiam completar os recipientes. Apesar da tensão, o time ficou aliviado, pois as horas avançavam rapidamente, anunciando a aproximação do pôr-do-sol.
Por estarem em meio à areia, o rastro da presença dos invasores há muito havia se perdido, mas como supusera, a rota tomada pelos raptores de Konohamaru era em direção à Ishigakure no Sato. Ele não tinha certeza sobre qual era o "último esconderijo" que Konoha tinha conhecimento, mas o destino não lhe era estranho. Lembrou-se de que no incidente na distribuidora de energia elétrica, o shinobi era da Vila da Pedra, assim como também no que ocorrera mais cedo nas estações de tratamento de água e notou que de fato, a direção tomada pelos inimigos não deveria ser grande surpresa.
Muito o admirava que Orochimaru tivesse deixado uma brecha tão grande aberta, pois logo eles ligariam os pontos e perceberiam a associação dos shinobis com o Sannin. Ou ele queria confundi-los, o que já era típico dele. E se ele tivesse induzido os ninjas da Vila da Pedra a colaborarem com ele? Outro ponto importante: e se ele firmara uma aliança com nukenins? Tudo era possível, tendo em vista com quem estavam lidando. O inimigo era exatamente como uma cobra peçonhenta: traiçoeiro, ágil.
A pequena Vila ficava entre o país do Vento e o país da Terra, mais especificamente no País dos Pássaros, fazendo fronteira com Sunagakure no Sato e Iwagakure no Sato. Não havia posição mais privilegiada para Orochimaru! Uma fronteira entre dois países importantes e como se não bastasse, haviam facilitado o trabalho do Sannin, ficando em Suna. Talvez, se estivessem em Konoha, o ataque poderia ter sido evitado. Entretanto, pensando melhor, ele não sabia quais eram os truques que ele guardava na manga, pois o cenário que se descortinara à sua frente no quarto que Konohamaru ocupava fora tenebroso.
Seus pensamentos vagaram novamente, outra vez sendo direcionados à Sakura. Como ela estaria? E Hana? O que poderia ter acontecido para que tanto sangue tivesse sido derramado? Elas estariam feridas com gravidade? Ou pior, estariam mortas? Ele desejava que não, até imaginava que não estivessem mesmo, pois algo em seu interior lhe dizia que, por mais complicada que a situação fosse, elas estavam vivas. Tinha certeza de que os ferimentos eram profundos – tendo em vista a grande quantidade de sangue derramado –, mas em contrapartida, supunha que as feridas na alma poderiam ser ainda mais graves.
Sakura estaria se culpando por não ter conseguido impedir o rapto de Konohamaru? Estaria pesarosa, idealizando situações das mais diversas, em que derrotava os inimigos e resgatava o garoto? Ele sabia da promessa que ela havia feito aos pais do Sarutobi – Tenzou havia lhe contado – e na ausência dela, levaria aquelas palavras adiante. Daria o seu melhor para resgatar o menino em segurança, mantê-lo vivo e bem, pois essa era uma forma de ajudá-la a se sentir menos culpada, caso assim ela estivesse. Ele tinha sua parcela de culpa naquela situação, pois ficara muito tempo ajudando o Kazekage, servindo-o como um legítimo shinobi de Suna e acabara colocando a missão em segundo, terceiro lugar em sua vida.
Sua obediência ao Kazekage se juntava à sua fascinação por sua ex-aluna e ele não tinha como definir qual dos dois vinha em primeiro lugar. Aquela confusão jamais deveria ter acontecido, pois um shinobi que se preze deve manter a missão como prioridade. O dever sempre vem em primeiro lugar. Inevitável e permanentemente. Errara muito ao permitir que seus interesses pessoais prevalecessem sobre suas obrigações e o remorso começava a surgir, enjoando-o. Como pudera ser tão descuidado? Chegava a soar como absurdo, mas ele se permitira essas e outras regalias, o que os levaram àquele colapso.
Um arrepio percorreu sua espinha dorsal, forçando-o a refrear o ritmo. Pakkun, que o observava há algum tempo não deixou a reação passar despercebida. Seus olhinhos perspicazes analisavam o Hatake a tempo o suficiente para perceber que ele estava extremamente abalado com aquela situação. Notando que era observado, Kakashi retomou o ritmo e apressou os homens, pois não parariam para descansar ao anoitecer. A perseguição continuaria ferrenha e eles só parariam quando trouxessem Konohamaru de volta, em segurança.
Não era certo exigir deles funcionalidade e presteza, quando nem ele mesmo demonstrara com relação à proteção do garoto, mas como os antigos diziam, não adiantava chorar pelo leite derramado, o prejuízo deveria ser sanado o quanto antes. Com ímpeto renovado, respirou fundo e continuou firme em seu destino. Quando o sol se pôs, algum tempo depois, ele se viu distribuindo pílulas do soldado para seus companheiros de time e desejando ardentemente que logo encontrassem mais rastros que os levassem aos inimigos.
Pakkun havia se recolhido, mas sob aviso de ser chamado a qualquer momento; antes de partir, o pug havia tentado se aproximar de Kakashi, sondá-lo e até mesmo confortá-lo, mas não obtivera muito sucesso. O Hatake estava canalizando todas as suas energias no firme propósito de deter Orochimaru, fosse lá o que ele estivesse tramando, além de se apossar do corpo e dos genes do Sarutobi. A raiva ainda não havia passado, só se fortalecera, servindo de combustível para a sua longa caminhada.
Quando começaram a perseguição, o ninken dissera que os inimigos estavam apenas há uma hora à frente deles. Por terem se atrasado muito pouco durante o percurso, chutava que agora estivessem cerca de uma hora e meia atrás, o que poderia ser uma vantagem, pois eles poderiam imaginar que não estavam sendo seguidos, ou até mesmo, que estivessem mais atrasados. Precisavam agilizar o passo, ignorar o cansaço e as preocupações e em seu caso, dessa vez, colocar a missão acima de tudo. Até dele mesmo.
―X―
Os passos seguiam vacilantes pelo terreno pedregoso e escorregadio. A cada impulso, o corpo reagia com violência, dispersando sangue por sua carne dilacerada. O latejar nas têmporas intensificava sua agonia, assim como a sensação de fraqueza que ameaçava dominá-la a qualquer instante. Sabia que estava prestes a desmaiar, mas precisava se afastar dele. Adentrou a floresta, mesmo tendo ciência de que estava dando vantagem ao inimigo; aquele era o habitat natural daquele animal peçonhento, afinal de contas.
Havia muito sangue em seu abdômen e pernas, diferentemente do corte acima do peito que a ferira antes, aquela era uma de suas lembranças. A dor persistia, lancinante e novamente, estava correndo pela mata fechada, escura, úmida e fétida. Seu perseguidor continuava sem rosto, mas ao cair em uma poça de lama, lacerando ambos os braços na queda, fora erguida subitamente. Como num flash, a imagem de Orochimaru a segurando com força demasiada surgiu, causando-lhe repulsa. Os olhos amarelos e penetrantes a paralisaram e com terror, viu quando a boca exageradamente grande se abriu, dando-lhe um bote.
Um grito estrangulado escapou de seus lábios e agora ela já não sabia o que poderia ser realidade ou os resquícios do sonho ruim. A primeira coisa que Sakura distinguiu em meio à recuperação da consciência, foi o som de vozes. Aparentemente, as pessoas sussurravam ou então, estavam longe dali. O som reverberava em seus tímpanos, dando a impressão de que sua cabeça girava, a sensação nauseante tomando conta de seus sentidos. A segunda coisa que percebeu, foi o odor do lugar. O forte cheiro de éter e iodo invadiam suas narinas, aumentando sua angústia. Tentou se mover, mas a ação se mostrou inútil. O corpo estava fraco, flácido; os músculos tremiam, não demonstrando a rigidez que lhe era tão conhecida.
Os olhos pesavam, tornando-se impossível mantê-los abertos. Tentou abri-los com muito custo, mas suas tentativas se mostraram infrutíferas. A cabeça doía, o corpo também e a boca extremamente seca, aliada aos lábios ressecados, completavam seu desconforto. Após alguns segundos envolta em uma letargia incomum, escutou um bip característico e só então, deu-se conta de que se tratava de um monitor cardíaco. Diabos, seu estado de saúde era assim tão grave?
Como uma enxurrada, as lembranças dos momentos de horror que vivenciara inundaram sua mente, roubando-lhe o fôlego. O bip soou apressado e estridente, denunciando que, de fato, era ela a pessoa monitorada pelo aparelho. Imediatamente voltou a escutar as vozes e dessa vez, elas estavam mais altas e se aproximavam de onde estava. Tentou mover um dos braços, a fim de tocar quem se aproximava, mas sentiu uma agulha refrear seu movimento e o metal rasgar sua carne. Um gemido sofrido pôde ser escutado e só após longos segundos, reconheceu que fora ela própria que o soltara; uma voz doce e gentil pediu que se aquietasse, já que logo poderiam conversar.
Reconheceu o sotaque da fala e notou que ele lembrava-a de Masumi, por isso relaxou, imaginando que realmente, estava sob os cuidados da jovem médica. Permitiu-se ser ajeitada na maca e em pouco tempo voltava a dormir. Acordou horas depois, os sintomas anteriores equiparando-se aos atuais; lembrou-se de ser envenenada e automaticamente assimilou seu estado de saúde fragilizado à substância nociva.
A barreira da inconsciência era vencida aos poucos, conforme se esforçava para abrir os olhos. Uma névoa branca foi a sua primeira visão, entretanto, ela foi se dissipando lentamente, assim como a fumaça de um cigarro, expelida no ar. Dessa vez não houve o som de vozes, só o bip irritante e uma luz extremamente forte direcionada para o seu rosto. Quando por fim abriu totalmente os olhos, ficou praticamente cega com a claridade da lâmpada, por isso, institivamente, desviou o rosto, sendo acometida por uma ligeira tontura.
Fechou os olhos com força, pedindo interiormente para que aquele mal estar passasse logo e logo ela pudesse saber o que estava acontecendo. Quando os reabriu, respirou fundo, observando o que aquela pequena agitação havia causado no monitor cardíaco, posicionado estrategicamente do seu lado esquerdo. Quem estava cuidando dela sabia que, quando acordasse, pretendia acompanhar seus dados. O coração batia tranquilo, apesar do pequeno rebuliço vivenciado momentos antes e a pressão arterial estava consideravelmente baixa... Perigosamente baixa, acrescentaria.
Olhou ao redor e identificou que estava em um quarto particular, provavelmente em uma ala diferenciada do hospital. Direcionou o olhar para a única e mediana janela do recinto e constatou que era manhã. Por quanto tempo estivera desacordada? Ansiava por estar informada, mas acima de tudo, estava preocupada. Por onde estaria Konohamaru? E Kakashi, por que não o via? O regaste tinha sido executado com sucesso? Eram tantas perguntas sem respostas! Sakura suspirou novamente, cansada.
Como que pressentindo seu despertar, Masumi entrou no quarto, uma prancheta empunhada em uma das mãos, mas mantida firmemente contra o peito numa demonstração de autoproteção. Dirigiu um rápido olhar para seu braço dolorido e ao erguer a cabeça, notou que a embalagem de soro que estava ligada à sua veia por um escalpe e encontrava-se praticamente vazia. Tensa, Sakura sentiu o coração se agitar no peito, sendo denunciada pelo bip; ajeitou o corpo, soerguendo-o ao máximo que o equipo permitia.
― Masumi! –Chamou, afoita.
― Sakura-san. Aquiete-se, por favor. –A mulher aproximou-se da cama, depositando a prancheta aos pés de Sakura e tomando a mão livre da Haruno entre as suas. ― Você passou por um estresse muito grande, não se exalte, tudo bem?
― O que aconteceu? –Indagou entre preocupada e curiosa, mesmo que interiormente, estivesse temendo a resposta. ― Me responda, por favor!?
― Antes de falar-lhe o que houve, eu quero que você relaxe. –Ao dizer isso, a médica chamou – apenas com o olhar – a enfermeira que surgira na porta do quarto; ela ajeitou a maca, deixando-a levemente inclinada, de modo que Sakura ficou sentada. A mulher também trocou a embalagem de soro, mexendo no dosador, aumentando a velocidade da queda das gotas. ― Eu... Preciso que você esteja calma, Sakura-san. Sei que acordar em um hospital é ruim o suficiente e ficar sem informações é pior ainda, mas você precisa descansar. – Informou, observando a auxiliar caminhar rapidamente em direção à porta e fechá-la atrás de si ao sair.
― Ah, meu Kami-sama! –O tom usado pela doutora só fez o desespero aumentar, causando-lhe um forte tremor. ― Preciso saber o que se sucedeu aqui, fale logo de uma vez.
― Eu não sei se esse seria o melhor método, mas já que insiste... –Pausou a fala, observando o rosto pálido enrijecido pela expectativa. ― Você... Teve uma forte hemorragia e bem... O veneno a fez abortar, Sakura-san.
― Co-como é que é? –Ambas as mãos tremeram com mais intensidade, assustando-a. Ficou lívida, sentindo as forças que custara a juntar se esvaírem.
Percebendo seu estado de choque, a médica se manteve em silêncio, apenas observando os sinais vitais da "senhora Hatake" oscilarem consideravelmente. A qualquer sinal de anormalidade, chamaria sua equipe de suporte, assim poderia cuidar de qualquer emergência. Sakura estava estática, muda e mantinha os olhos arregalados, evidenciando que estivera certa ao imaginar que ela sequer desconfiava que carregava um bebê no ventre. Diante do que viu quando a encontrou desfalecida no chão, formou uma suposição e guardava a expectativa de que ao saber dela, a dor que afligia a amiga – e colega de profissão – fosse diminuída.
Permaneceram caladas por um bom tempo e só quando uma ligeira coloração voltou à face de Sakura, é que Masumi decidiu falar. O silêncio era sepulcral, interrompido apenas pelo bip do monitor, que agora apitava com mais tranquilidade. A respiração de ambas estava irregular, afinal, a notícia fora um choque também para a jovem médica, já que a própria paciente havia assegurado que estava protegida, meses antes.
― Assim que você saiu do meu consultório, eu fui acometida por uma suspeita e corri para o laboratório. Analisei seus materiais biológicos e rapidamente constatei a sua gestação. –Exalou o ar com força, buscando novamente a mão livre da Haruno para mantê-la entre as suas. ― Eu fui para a sua casa assim que obtive o resultado, estranhei a porta escancarada e entrei... foi por isso que pude salvá-la.
― Kami-sama! Grávida! –Chocada, Sakura não sabia como proceder. Faltavam-lhe as palavras, sua mente estava vazia, em branco. Havia lugar apenas para o choque, a estupefação.
― Acredito que você não estava ciente da sua condição, então eu corri para avisá-la, antes que se auto medicasse, imaginando que fosse mesmo uma infecção urinária ou um começo de anemia. –O olhar preocupado da doutora fez algo dentro de Sakura se romper e ela desabou, cedendo a um choro convulsivo.
Masumi a acolheu entre os braços e conteve as próprias lágrimas. O abraço durou longos minutos e quando sentiu que o choro sofrido começava a diminuir, respirou fundo, mais aliviada. A pior parte de sua profissão era essa: dar péssimas notícias às pessoas. Mesmo que não fosse uma gravidez planejada, imaginava a dor que Sakura estava sentindo. Sua especialidade era apenas ginecologia, e não obstetrícia, mas tivera diante de si tantos casos de gravidez nos últimos meses, que estava pensando seriamente em se especializar na área. Apesar da tristeza que a invadiu, tinha de manter o profissionalismo, por isso interrompeu o abraço, permitindo que a amiga tomasse fôlego e se recuperasse.
― Sabe, Sakura-san... Eu temi dizer-lhe isso, mas... Bem, eu tenho uma teoria, entretanto, antes de dizer-lhe o que acho, nós precisamos conversar. –Pigarreou, se afastando e sentando-se na borda inferior da maca. Precisava manter uma certa distância de Sakura, não podia deixar sua relação pessoal interferir naquele caso.
Ao ver os olhos marejados olhando-a de volta, Masumi suspirou, rememorando o que havia treinado para dizer-lhe. Engoliu em seco, tendo certeza de que se dissesse algo errado, poderia estragar tudo, quebrando, inclusive, a confiança que lhe fora depositada.
― Pela descrição dos seus sintomas, sua gravidez parecia já estar avançada. Eles se equiparavam aos que ocorrem no segundo mês de gestação, porém, acredito que não era o seu caso.
― Eu... A possibilidade de estar grávida nem passou pela minha cabeça. Era tudo recente ou eu já teria tomado conhecimento. Conheço bem o meu corpo e repito, achei que o que estava sentindo fosse o início de uma anemia ou até mesmo uma infecção. –Respondeu Sakura, fungando.
― Sei que está sendo muito difícil para você entender isso tudo, mas pode me dizer o que aconteceu? Há alguns meses você me assegurou que estava injetando anticoncepcional. –O tom de bronca era evidente em sua voz, porém, ao notar o rosto triste da rósea, Masumi relaxou a expressão.
― Bem... Quando papai... Quando o papai morreu, eu acabei relaxando um pouco e... bem, eu acabei me esquecendo da data de injetar. –Pousou a mão livre do escalpe e equipo na testa, recriminando-se outra vez.
― Entendo. Agora está mais claro para mim. –Suspirou, cruzando os braços na frente do corpo. ― Mesmo tomando ou injetando anticoncepcionais há anos, uma pequena falha como essa pode comprometer a eficácia do método contraceptivo, Sakura-san. Ainda mais no seu caso, que além de ele ser trimestral, também era de supressão, sendo quase impossível calcular quando seria o seu período menstrual. –Explicou, percebendo o pesar tomar conta do rosto da rósea.
― Oh, droga. Eu... Não sei o que dizer! –Ao se dar conta do que fizera, Sakura chorou novamente e em meio ao pranto, tomou uma decisão: diria a verdade à Masumi. Não teria como a doutora entender o que havia acontecido sem saber o que, de fato, lhe ocorrera.
Ao se acalmar, disse tudo o que era relevante e foi com calma que a médica ouviu a narrativa feita por Sakura, parecia até que ela já sabia de algumas coisas; após estar ciente das circunstâncias que levaram à concepção, a doutora fez uma análise mental relativamente rápida e chegou a uma conclusão. Relembrou um artigo que lera logo que descobriu a gravidez de Temari e sua teoria fez ainda mais sentido.
― Já que estamos tentando entender como o processo da falha do medicamento se deu, agora eu posso afirmar com clareza: você realmente estava grávida, Sakura-san... porém, tenho motivos que me levam a crer que se tratava de uma gravidez ectópica.
― Gravidez o quê? –Sakura era uma leiga em ginecologia e obstetrícia, sua especialidade era ortopedia e toxicologia e, aos seus ouvidos, Masumi falava em uma língua difícil de ser entendida.
― Gravidez tubária, como é mais conhecida. É o que ocorre quando o embrião não se desenvolve no útero, como se deve. São diversos fatores que podem desencadeá-la, mas no seu caso, não me restam mais dúvidas. Posso soar insensível, mas não se martirize pelo aborto, Sakura, pois a gravidez não ia vingar. –Viu o olhar estupefato da outra, mas continuou: ― Alguns anticoncepcionais injetáveis, quando não funcionam direito, ocasionam um alto risco de gravidez ectópica. Você se lembra de ter lido a bula com atenção?
― N-não! Faz muitos anos que uso dessa marca, nem me preocupei em ler as bulas seguintes, li apenas a primeira. –Visivelmente abalada, Sakura afundou o corpo no travesseiro que a apoiava, tendo a sensação de que um nó se formava em seu cérebro.
― Pois bem. Eu li alguns relatos de pacientes que sofreram com isso e algumas delas até processaram o fabricante, mas nenhuma venceu a causa. Eles alegam que o laboratório deixa bem específico na bula que o medicamente é passível a falhas, inclusive mencionando alguns riscos, como a gravidez tubária... resumindo, eles são uns incompetentes, não analisam direito os efeitos que podem causar em nossos corpos e situações traumatizantes como essa se repetem aqui ou ali. –Tomou fôlego, buscando sinais de entendimento nas feições de Sakura. ― Você entendeu o que eu disse?
― Quer dizer que eu ter atrasado alguns dias para injetar o anticoncepcional causou isso? Mas... Não faz sentido.
― Sakura. O uso de anticoncepcionais trimestrais traz diversos riscos à saúde da mulher, um deles é a trombose e o medicamento reprimindo a menstruarão então, nem se fala. Eles são consistidos por uma fórmula diferenciada e pode ocorrer gravidez ectópica em mulheres enquanto estiverem usando acetato de medroxiprogesterona. Era esse que você usava, não é mesmo? – Logo após Sakura assentir, concordando, Masumi decidiu mudar de assunto bruscamente, principalmente ao vislumbrar o abatimento no rosto à sua frente. ― Pelas contas que fiz, imagino que você estava com cerca de cinco semanas de gestação. Seus sintomas estavam intensos, mas isso se devia à condição que o embrião estava se formando. Em algum momento você teria uma hemorragia e descobriríamos o que havia de errado.
A forma ligeiramente impessoal e fria com que Masumi disse aquilo fez um arrepio percorrer a coluna vertebral de Sakura, que se encolheu na maca. Então, havia falhado desde o início? A culpa fez seu estômago se revirar e mais uma vez, lágrimas vieram aos seus olhos. Kakashi a compreenderia e a perdoaria? E ela, poderia perdoar-se por ter cometido aquele erro tão terrível? A confusão fora instaurada, não havia mais espaço para pensamentos objetivos e o remorso oprimia seu peito, dificultando a respiração.
Sakura queria gritar, sair correndo, descabelar-se, pedir perdão à Kami-sama e ao mundo. Como pudera cometer um pecado tão frívolo, tão... simples? Na época, a possibilidade de falha do medicamento por conta do atraso passara por sua mente, mas precisava ter sido tão relapsa? Ok, estava de luto por seu pai, estava sofrendo como nunca, mas...
― Sakura. Não se martirize! –Bradou Masumi, arrancando-a de seu inferno pessoal. ― Eu já disse, a gravidez não poderia ser continuada. Era uma questão de tempo até que descobríssemos e por um lado, foi bom que isso tenha acontecido agora, pois você ainda não tinha se apegado à realidade de estar grávida, não tinha desenvolvido um elo emocional com o embrião. Vamos ser práticas.
O olhar horrorizado de Sakura enviou um arrepio à nuca de Masumi. Como médica e acima de tudo, como mulher, ela sabia que não seria fácil absorver tantas informações, mas a realidade era aquela: nada poderia ter sido feito. Evidenciar a ausência de ligação entre ela e o embrião era fundamental, pois se a rósea continuasse se culpando, a situação poderia ficar difícil de ser controlada.
― Eu não sei o que pensar, Masumi. Respeite a fragilidade do meu estado emocional, por favor?! –Pediu, beirando a rudeza.
― Eu disse que era muita coisa para assimilar, mas você quis saber, não me dando opções a não ser abrir a boca e despejar as verdades. –Inteirou Masumi, notando o olhar de Sakura se abrandar.
― Você está certa. Eu... estou muito confusa. –Suspirou cansada, sentindo os olhos marejarem novamente.
― Eu vou dar-lhe um tempo. Oh... Aliás, há alguém aqui querendo vê-la. –Já caminhava em direção à porta quando se voltou, lembrando-se do outro motivo que a levara ao quarto. ― Essa pessoa poderá explicar tudo o que aconteceu quando esteve desacordada, inclusive o motivo da ausência de Kakashi-san, que deveria estar em casa quando os shinobis inimigos a invadiram.
Ansiosa, Sakura sentiu o corpo enrijecer e olhou em direção à porta. Ouviu uma outra voz soar baixa, preocupada e apesar da cabeça ter voltado a latejar, uma sensação de reconhecimento a invadiu. Não, não poderia ser quem ela imaginava! Como ela chegara ali tão rápido? Quer dizer, por quanto tempo estivera inconsciente para que desse tempo de ela chegar? Viu quando a mulher de estatura mediana adentrou o quarto e seus olhos se inundaram, somando à sua dor, a emoção de revê-la.
― Ino! –Exclamou com voz embargada.
Uau! Quantos acontecimentos, não?! No próximo já teremos a ação do Kakashi e a explicação do por quê a Ino estar em Suna.
São mais emoções... Vamos que vamos o/
Caso seja do interesse de alguém: sobre essa condição da Sakura... Eu me baseei em um caso real. Uma amiga minha passou por uma situação semelhante e fui autorizada por ela a adaptar o acontecimento na fic. Esclareço que o episódio foi traumático para ela na época, mas ela o superou e permitiu que eu usasse meu texto para dar um alerta: cuidado com anticoncepcionais trimestrais! Só os injete se tiver certeza de que vai ser mesmo necessário (por conta da rotina ser muito intensa, como ser esportista, modelo... e que requer a supressão da menstruação), além de estar segura de que nada irá interferir no calendário das injeções.
A substância que a Masumi citou é parte de um medicamento verdadeiro e realmente, ela aumenta o risco de gravidez ectópica (eu fui confirmar na bula virtual). Não vou divulgar o nome do anticoncepcional por motivos óbvios, mas repito, muito cuidado! Não só esse tipo traz riscos, mas os dele são aumentados.
Quero saber o que vocês estão achando da fic, mesmo com tanta tristeza no ar. Eu estou me empenhando ao máximo para deixá-la fiel à realidade, além de intensa. Espero que vocês estejam gostando, apesar de imaginar que estou fazendo-os sofrer. Peço desculpas de novo ^^.
No mais, até breve! Kissus :*
