Capítulo 36

Eu não me lembrava mais de como era a vida com Sirius. No começo, pensei que aquela ideia de permanecer duas semanas afastada não adiantara em nada. Afinal, não se reconstrói uma vida, uma personalidade em duas semanas. Contudo, acabei descobrindo que isso é apenas questão de estar com a pessoa certa.

O incidente do jantar, como passei a chamar aquela noite em que voltamos a nos considerar amantes, se repetiu por aqueles outros dias. Alvo sempre usava a desculpa do Hidromel para conseguir sair da escola e eu me lembro de indagar o que os alunos achavam disso. Ele respondia que nenhum deles parecia se importar com a sua vida privada.

Certa noite, no entanto, quando tínhamos acabado de fazer amor pela segunda vez no dia, Alvo comentou que um de seus alunos o chamava de velho. Eu simplesmente não contive o ímpeto de rir da situação.

— Isso é porque eles não o conhecem tão bem quanto eu. - brinquei com malícia, apoiando o rosto no ombro dele.

— Imagine o que diriam se me vissem agora! - observou ele alisando meu cabelo. Eu ri mais uma vez.

Às vezes, consigo entender porque Perenelle era tão afeiçoada aquele chalé. Embora fosse, de fato, uma casa primorosamente bela, não era esse pequeno detalhe que a tornava especial. A casa parecia ganhar um tipo de vida que unia quem quer que estivesse ali dentro. Alvo e eu parecíamos estar casados há muito tempo, enquanto estivemos ali. Eu sentia falta do trabalho, no entanto. E quando infelizmente chegou a hora de partir, a visão do departamento de mistérios era meu único alento.

— Não se esqueça. - Alvo disse enquanto nos preparávamos para aparatar. - Você nunca vai estar sozinha enquanto tiver suas lembranças.

— Não se preocupe comigo, professor. - brinquei dando uma falsa piscadinha inocente. - E agradeça à Perenelle e Nicolau por esses dias maravilhosos.

— Eles ainda não acabaram, sabia? - provocou Alvo risonho. - Continuaremos a nos ver.

— Aqui? - indaguei achando graça da aura de adolescente matreiro que emanava dele.

— E por que não? Nicolau e Perenelle não vão se importar.

— Sinceramente, acho que estamos abusando. - retruquei cruzando os braços. - Em todo caso, mesmo que pudéssemos, como faríamos?

— Pensarei num jeito. - assegurou Alvo. - Até lá, espere por mim.

— Não é o que eu tenho feito em oito anos? - protestei. Ele sorriu e me beijou. - Não demore ou eu poderei me cansar. - tornei a brincar.

— Até logo, Mélia.

— Até logo, Alvo.

E aparatamos.

Não parti direto para a mansão Black, mas sim para o Ministério. Achei engraçado, na época, o fato de estar mais desejosa para ver meu chefe do que meu marido. Painswick estava sentado em sua sala quando entrei e parecia realmente feliz em me ver.

— Amélia! Eu achei que precisaríamos de um grupo experientes de aurores para trazê-la de volta.

— Meu marido pode pensar assim, George, não você. - respondi fingindo estar ofendida. - Jamais abandonaria o jogo enquanto estamos ganhando.

— E o que o senhor Black achou dessas férias repentinas? - George tornou a perguntar.

— Ele pode pensar o que quiser. - desdenhei. - Ainda não voltei para a mansão. Preferi passar por aqui primeiro.

George não respondeu, apenas acenou com a cabeça. O desprezo mútuo do casal Black deveria ter se tornado notícia desde o casamento de Linda e Elifas, pensei naquele momento. Em seguida, me lembro de ter bombardeado George com várias perguntas sobre os últimos acontecimentos. Ele finalmente tinha encontrado um design cômodo para o vira-tempo, mas não um nome.

— Se eu pensar em alguma coisa, sabe que vou querer o crédito. - disse cruzando braços e pernas.

— E você os terá se assim for, Amélia. - concordou Painswick. Eu sorri.

— Sabe que não falo sério. - apressei-me em dizer. - Não gostaria de ser reconhecida por algo tão pequeno.

— Não sabia que era tão ambiciosa. - ele comentou risonho.

— Todos têm o direito de ser um pouco ambiciosos, George. - ponderei séria. - Agora, preciso ir. Vejo você na Segunda.

Passei algum tempo andando sem rumo pelo ministério até finalmente aparatar para junto de Sirius. A casa passou a ficar mais sombria aos meus olhos. E Meg passou a ser minha única aliada. Quando eu entrei, percebi que Sirius estava sentado na sala, provavelmente lendo o Profeta Diário. Alcancei minha varinha com uma mão e com a outra fechei a porta, anunciando minha chegada.

— Amélia. - a voz de Sirius estava estranhamente aveludada para quem queria me torturar não muito antes. Eu passei pela sala sem olhar na direção dele. - Amélia. - havia um tom mais incisivo na voz dele que foi muito mal acobertado.

— Sirius. - cumprimentei taciturna, entrando na sala.

Ele respondeu com um simples aceno de cabeça e se levantou em direção às garrafas de licor sobre a mesinha de canto. Encheu uma delas e voltou-se para mim para entregá-la.

— Beba. - ele estava realmente pedindo e até esboçou um sorriso gentil. Logo, eu não me atrevi a tocar no copo. - O que foi? Licor de amarula sempre foi o seu favorito. Acabou se recuperando durante esse tempo?

— Não quero beber. - respondi brandamente dando de ombros. Ele mexeu a cabeça em concordância um pouco empertigado e bateu o copo contra a mesa.

— Se divertiu? Espero que sim. - Sirius disse com raiva crescente.

— Eu me diverti muito, Sirius. Obrigada por perguntar… - eu ia dizendo até ser estapeada. E com tamanha força que cambaleei.

— SUA VADIA! - urrou Black finalmente deixando toda a raiva lhe escapar. - Como ousou me desafiar dessa maneira?! Ahn? Todo o ministério já sabe da sua pequena aventura. Minha família ri de mim por não ter conseguido controlar uma réris Preminger…

— Eu também estou rindo de você, meu querido. - desdenhei passando a mão onde ele havia me atingido. Erguendo meus olhos de encontro aos dele. - Acho que você pode dizer que estou lhe devolvendo um pouco da humilhação que recebi. - ele me estapeou outra vez e dessa vez eu realmente caí no chão. - Covarde. - sussurrei com um sorriso superior.

Sirius puxou a varinha num gesto quase assassino e eu não perdi seus olhos em nenhum momento, mesmo quando ele lançou a maldição Cruciatus em mim e a dor me fez fechar os olhos por milésimos de segundo, abri-os novamente e procurei pelos dele. Não era a primeira vez que ele usava uma maldição imperdoável comigo, claro. Contudo, nunca com aquela carga de raiva. E eu estava delirando, porque pela primeira vez eu havia feito algo realmente grande para que ele ficasse daquela maneira e me orgulhava disso. Estava satisfeita por ter ferido seu orgulho.

Então, algo raro aconteceu. A dor da maldição começou a ralentar. Já não era insuportável e eu parei de gritar. Pelo contrário, comecei a rir. Num misto entre o sádico e o louco na intenção de deixar claro que já não era mais vulnerável aos poderes dele. Ria tão alto e com tanta vontade que ouvi os passos dos criados em direção à sala. Uma visão perturbadora, não tenho dúvida, a que encontraram. A patroa no chão rolando pela pouca dor e rindo abertamente ao mesmo tempo, enquanto seu mestre tentava aumentar a intensidade da maldição com movimentos cada vez mais próximos do meu corpo.

— SAIAM DAQUI! - ele gritou acenando violentamente com a mão. Eles obedeceram de pronto, exceto Meg que, pude vislumbrar, estava com lágrimas nos olhos, mas por fim saiu. Sirius abaixou a varinha e cessou o ataque contra mim, se abaixando para erguer meu rosto pelo meu cabelo.

— Já está cansado? - perguntei assim que ele me puxou. - Um covarde e um fraco.

— Não brinque comigo, Amélia. Eu poderia matá-la…

— Mas não vai. - cortei friamente. - Não vai porque teme as palavras deles mais do que tudo. Sua preciosa família… me matar significaria que não conseguiu me controlar viva e eles entenderão que a morte foi a minha alforria… Ah, Sirius… você não sabe como eu estou me divertindo. - disse tornando a rir.

Ele continuava me puxando pelo meu cabelo e me retirou do chão, erguendo-me em seguida para me atirar no sofá.

— Quer saber onde eu estive? - provoquei ajeitando meu cabelo e cruzando as pernas, usando um feitiço não verbal para trazer o copo com o licor para minha mão. Ele se voltou para mim com a boca retorcida. - Ah, vejo que sim. Então, onde precisamente, não posso dizer porque nem mesmo eu sei que parte da Inglaterra era aquela. Mas, posso lhe dizer com quem. Ele é muito mais corajoso do que você e mil vezes mais esperto para cair em qualquer uma das suas armadilhas. Você não é o Black mais brilhante… Nossa, isso estava mesmo engasgado.

"Lembra-se de Alvo Dumbledore, não? O garoto que desprezou a sua amizade no primeiro dia no trem para Hogwarts. Pois bem, estava com ele. Tirando umas pequenas férias da monotonia que tem sido minha vida de casada. Meu querido, você ficaria surpreso com o quanto um mestiço é melhor do que você para satisfazer uma mulher… e nenhuma maldição foi necessária."

É claro que o fato de Alvo ser mestiço e eu puro sangue não fazia a menor diferença para mim. Todavia, ver o rosto de Sirius ficando vermelho ao mesmo tempo em que uma sombra passava por seus olhos, me fez mais feliz do que imaginar a humilhação pela qual ele deveria ter passado quando percebeu que todo o ministério estava rindo da sua incapacidade de manter a esposa dentro de casa.

Você acha que venceu, não é? - ele indagou por fim com uma veia pulsando no pescoço. - Que não vou fazê-la pagar mais por isso? Que vou simplesmente te torturar e pronto? Seu castigo mal começou, Preminger.

— E dessa vez eu estou pronta para ele. - respondi com o mesmo tom imperioso dele. - Dessa vez, Sirius, você pode me ameaçar da maneira que achar melhor. Enquanto eu tiver as lembranças de Alvo vivas em mim, nada do que você fizer vai me atingir. - disse.

— E se eu apagasse suas memórias? Se apagasse o seu precioso Dumbledore de você? Não seria mais tão poderosa, não é? - ameaçou ele.

— Essa ideia traria bons frutos se ele estivesse simplesmente na minha cabeça, mas ele não está. Para a sua frustração, querido, ele está num lugar onde nenhuma magia é capaz de atingi-lo. No meu coração. E mesmo que você o apagasse da minha mente, sempre que eu o visse eu sentiria alguma coisa. Amizade, simpatia, que importa? Independente do começo sempre acaba se tornando amor. Contra isso, meu caro, não existe feitiço… é um feitiço por si só. - disse me erguendo do sofá calmamente.

E se eu a prendesse aqui?

E aumentar o escândalo? - disse astutamente. - Bem, vou para o meu quarto. Acredito que, agora que fui tocada por um mestiço, você não vá me querer mais. Então… boa noite, Sirius.


Entãaaaao, meus amoreees! Espero que gostem desse... eu simplesmente adorei a reviravolta de raiva da Mélia. Achei que estava passando da hora. Bem, deixem reviews para que essa autora se sinta amada, okey? Ah sim, a demora foi devido à faculdade... espero que compreendam os períodos de hiatus... Bjoos!