CAPÍTULO 34

A noite do cosplay – Parte 1

Anteriormente em "A Fogueira das Paixões 2: REFLEXOS"...

Valeria Burns pretende utilizar o Anel do Vínculo Eterno para criar um laço entre Lanísia e Robbie, afastando a filha de Augusto e usando a magia do anel para que o corpo da jovem expulse o bebê do professor foragido...

-Com o anel, Lanísia perderá o filho bastardo do Augusto – balbuciou Valeria, abrindo um sorriso. – O corpo dela o expulsará, não vai mais reconhecê-lo por não ser um filho do Robbie.

-Vai criar o anel ou não? – indagou Draco.

Valeria assentiu. (cap. 33)

O grupo Nêmeses arma desde o início e faz uma troca de aneis, fazendo com que a joia enfeitiçada pare no dedo de Serena...

Draco surgiu. Sorrindo, completou:

-Serena Bennet, agora você é uma Malfoy. Para sempre. (cap 33)

Kleiton consegue antecipar o Baile ao atrair Axel Carver e Jennifer Star para Hogwarts. O objetivo era levar todas as Encalhadas para a passarela de vidro junto ao palco e levá-las ao Mundo dos Espelhos. Mas no momento do desfile as meninas notam o que ele pretende fazer.

-Ele ia puxar todas as Encalhadas num golpe só – Alone assentiu. – E agora, o que vamos fazer? Não poderemos evitar a passarela no momento da votação!

-Talvez não seja preciso – disse Mione, lembrando-se do sol ofuscando a estufa e da fumaça que emergiu da fenda da rachadura. – Acho que existe uma forma de destruir o Kleiton. Se tudo der certo, vamos enfrentá-lo, destruí-lo e, depois, matar o Ted. (cap. 33)

Hermione chegou à essa conclusão após ver Kleiton recuar nas estufas, quando um raio de sol ultrapassou o teto de vidro. Mas Kleiton, após ter o plano da passarela frustrado, age por outro ângulo e engana Ted Bacon...

-Ted Bacon, você poderá esgueirar-se silenciosamente por todo o castelo. Hogwarts é toda sua.

Enquanto Ted olhava pela janela, Rebecca transformou-se em Kleiton Huggins que, com um sorriso malévolo, desapareceu. (fim do cap. 33)

Ainda não entendeu o que Kleiton pretende com isso? Descubra com as Encalhadas na primeira parte de "A noite do cosplay"...


Alone, Serena, Lanísia e Joyce sentaram-se em torno de uma das mesas circulares do Salão Principal quando o desfile das candidatas ao título de Rainha do Baile começou novamente. Ao lado do palco, a diretora Minerva fez sinal às garotas, tentando, mais uma vez, convencê-las a participar do desfile; todas negaram o convite com sorrisos educados.

-Que ideia será essa que a Mione teve? – perguntou Alone.

-Já vamos descobrir – falou Lanísia, indicando as portas escancaradas do Salão, por onde a amiga entrava, apressada, carregando a varinha e um livro volumoso de capa de couro.

Mione encontrou facilmente as amigas reunidas numa mesa de canto, uma vez que todos os outros convidados estavam espremidos ao redor da passarela de vidro. Ofegante, ela largou o livro sobre a mesa, ao lado da varinha e de um objeto que as garotas ainda não tinham percebido que ela carregava:

-Uma lupa?

-Sim, Joyce, servirá para exemplificar a minha ideia – disse a garota, quase derrubando o abajur de centro ao abrir o exemplar do livro, cujo título leu em voz alta. – As forças das trevas: um guia para sua proteção. Quando a luz do sol atravessou a estufa, Kleiton foi obrigado a recuar. Quatro coisas indicam isso – ela usou os dedos para enumerar. – Primeiro: ele não é um cara de desistir facilmente; segundo: as rachaduras desapareceram quase no mesmo instante em que o sol as atravessou; terceiro: havia fumaça escapando delas, como se tivessem chamuscado alguma coisa; e quarto: o cheiro que a fumaça desprendia era repugnante, como se estivesse queimando pele humana.

-Mione, eu enfiei uma faca no corpo dele e o cara sequer sangrou! – disse Joyce. – Desista, amiga, não há nada nesse mundo ou em outro que possa dar fim ao Kleiton.

-Está enganada, Joyce, mas, de certo modo, usou as palavras certas. Outro mundo. Kleiton não pertence a esse mundo; a realidade dele é outra. Um mundo pelo avesso, regido por outras regras. Ali ele não é um bruxo normal. Quando te puxou para dentro do espelho, ele chegou a se transformar em Juca e em Celine num piscar de olhos, quase um camaleão, algo que um bruxo só conseguiria através de Poção Polissuco. Mas do outro lado do espelho, tudo muda. Ele não é um bruxo ali, nem mesmo um ser humano, já que é imune a ferimentos e não pode ser morto mesmo com uma facada no peito.

"Segundo o capítulo 23 deste livro, bruxos adquirem características inerentes aos meios aos quais estão ligados. Um exemplo recentemente compilado, e que agora consta nesta edição, foi o encontro de Harry com Tom Riddle através do diário, quando estávamos no segundo ano. Para matar Tom, a presa do basilisco não foi fincada no corpo dele, mas sim no diário, ao qual a memória de Voldemort estava vinculada e que garantia a materialização de Tom. Quando a presa penetrou na página do diário, não verteu sangue, mas tinta, embora ferisse Tom!".

-No caso de Kleiton, ele não está ligado a um único espelho – falou Lanísia. – Não podemos atingi-lo externamente.

-E quando tentamos, na hospedaria, ele migrou para outro vidro – lembrou Serena.

-Isso. Não podemos atingi-lo externamente, mas dentro do Mundo dos Espelhos, sim – disse Mione com um sorriso triunfante. – No caso do diário, foi usado algo que perfurasse o papel das páginas; dentro do espelho, Kleiton não pode ser ferido com uma faca ou um feitiço porque agora é parte integrante daquele universo. Para entendê-lo, temos que olhar para a matéria-prima que torna o portal para aquele mundo possível...

-Vidro – completou Alone, com a testa franzida.

-Correto. Ele é um reflexo, frágil, aprisionado dentro de um espelho. Raciocinando dessa maneira, e baseando-se no que eu e Serena presenciamos na estufa, Kleiton é sensível àquilo que, em contato com o vidro, pode ferir... Lanísia, segure a lupa para mim, por favor. Obrigada... – Mione olhou ao redor, mas todos continuavam aplaudindo o desfile das concorrentes ao posto de Rainha.

A garota fez um floreio com a varinha e disse, baixinho:

-Lumus! – a luz incandescente tocou o vidro côncavo da lupa, atravessando-o e chamuscando a página do livro, na qual um desenho mostrava um bruxo usando água para espantar um demônio do fogo. Uma chama pequenina formou-se na altura da cauda do ser maligno; pura coincidência, mas provocou um arrepio em Serena. – Pensem nessa lupa como o corpo de Kleiton – prosseguiu Mione, inerente aos temores fantasiosos da amiga. – Podem imaginar o que acontecerá quando os fachos iluminados de nossas varinhas o tocarem?

-A luz atravessará o corpo dele e o queimará por dentro! – respondeu Joyce, fascinada, olhando para o fogo formado no papel.

-Órgão por órgão, incendiando-se lentamente, e Kleiton Huggins estará morto – disse Mione, direcionando o facho luminoso da ponta da varinha para os rostos assombrados das amigas, todas inconscientemente curvadas sobre o livro aberto. – Por isso ele recuou lá fora. A luz o machuca!

-E por isso tudo é tão baço, tão opaco dentro do espelho – recordou Joyce. – Eu notei isso quando estava lá dentro, meninas! Não há luminosidade!

-Kleiton fugiu na estufa, mas não poderá correr quando estiver frente a frente com nós cinco, apontando varinhas iluminadas para ele, o atingindo em diferentes pontos do corpo – falou Mione, tão empolgada que se levantou da cadeira para olhar as amigas de cima. – Vamos entrar no Mundo dos Espelhos para destruí-lo!

-Não, não, não... – Joyce cruzou os braços. – Dá um tempo, ô Justiceira! Eu não quero entrar naquele mundo invertido outra vez!

-Mas não podemos matá-lo aqui fora – insistiu Mione.

-Nem fazer justamente a vontade dele, que é ter nós cinco lá dentro – falou Alone. – Eu acho arriscado demais. Kleiton moveu céus e terra... ou melhor, astros da música, para conseguir adiantar o baile e nos fazer pisar naquela passarela de vidro. Tudo para ter todas as Encalhadas ao mesmo tempo em suas mãos. Se estava tão disposto, é porque não está planejando bater um papo camarada conosco lá dentro, mané!

-Mas agora ele não imagina que descobrimos a maneira de acabar com a raça dele! – falou Mione, sem perder o entusiasmo. – Vamos deixá-lo nos puxar para dentro do Mundo dos Espelhos e destruí-lo! Ele pensará que está nos atraindo para uma armadilha, nem vai imaginar que conseguimos armar uma cama de gato para passar a perna nele!

-Se matamos Kleiton, o que acontece com o desgraçado do Ted? – perguntou Lanísia. – Afinal, eles estão ligados pela Magia do Aprisionamento.

-Acho que Ted continuaria vivo, conservando sua forma cadavérica atual – respondeu Mione. – Mas a minha ideia é eliminar os dois de uma só vez. Entramos no espelho com o último frasco; assim que Kleiton estiver prestes a morrer, nós abrimos o frasco, a qualidade de Serena é liberada e Ted também morre. Dessa forma, nenhum dos nossos inimigos conseguirá triunfar!

-Achei que tínhamos concordado em deixar o meu frasco fechado – falou Serena.

-Quando não havia a menor possibilidade de matar o Kleiton, deixar o seu frasco fechado era a melhor opção – disse Mione. – Kleiton perderia a chance de deixar o Mundo dos Espelhos e Ted ficaria com esse corpo esquelético e enfraquecido.

-Eu não posso voltar a agir pela razão! – Serena sacudiu a cabeça. – Não... Se aquela covardia toda retornar, talvez volte a sentir aquele tipo de bloqueio me impedindo de tocar e beijar o Lewis...

-Beijar o Lewis deixou de ser viável desde que colocou esse anel no dedo – falou Mione, apontando para o Anel do Vínculo Eterno, que decorava o dedo de Serena com a sua pedra azul exagerada e cintilante. – Não precisa de um bloqueio mental para não tocá-lo, a magia da joia já a impede.

-Isso é temporário. Logo o anel cairá e eu voltarei a ficar com o Lewis. O meu frasco continuará fechado até que o ciclo lunar se encerre. Afinal, todas concordam que a ideia suicida da Mione não está com nada, certo?

-Como assim? Eu dei todas as provas de que esse é o ponto fraco do Kleiton! – exclamou Mione, ofendida. – Vão querer continuar fugindo dos espelhos como garotinhas anoréxicas?

-Quando a Magia do Aprisionamento terminar, Kleiton perderá toda a força – lembrou Lanísia. – Não será mais uma ameaça.

-E vocês deixam o frasco fechado e Ted continuará vivo!

-Sim, Mione, mas estamos em Hogwarts, protegidas, e ele é praticamente um cadáver.

-A aparência dele não o impediu de matar o Colin, Alone, muito menos de entrar em Hogwarts infiltrado entre os assistentes da sua mãe!

-A fiscalização está mais rigorosa agora – lembrou Joyce. – Ted não tem mais como entrar.

-O melhor é deixar tudo como está – opinou Joyce. – Os guardas logo vão capturar o Ted e tudo será resolvido. Ele na prisão em Azkaban, Kleiton em sua prisão de vidro, e então nos livramos dos dois sem precisar pôr nossas vidas em risco.

Mione cruzou os braços, indecisa.

-Ah, vamos, Mione, nada pode dar errado! – insistiu Serena. – O poder de Kleiton é limitado e Ted... O babaca do Ted não tem como nos pegar aqui no castelo!

Andares acima, num banheiro masculino, um espelho explodia.


Dentro do reservado do banheiro, Juca estremeceu com o barulho da explosão. Os fragmentos de vidro espalharam-se pelo piso do banheiro, entrando por baixo da porta.

-O que será que está acontecendo? – indagou a si mesmo, abrindo a tranca e espiando por uma fresta.

Um dos espelhos amplos que estavam instalados diante das pias havia desaparecido. Os seus restos, pontiagudos e nos mais diversos tamanhos, espalhavam-se por cima da pia e por quase toda a extensão do sanitário. Juca, que julgava estar sozinho ali dentro, assustou-se quando viu um homem coberto por uma capa escura, caído de lado no chão, do outro lado do banheiro.

-Ei, você está bem? – perguntou o garoto. Não houve resposta. – Droga... – Juca andou na ponta dos pés, desviando-se dos cacos de vidro, aproximando-se do estranho. – Oi, amigo, você foi atingido? Está ferido? – Juca estendeu a mão para tocá-lo no ombro; seus dedos tocaram algo gosmento, pegajoso; quando ele os afastou com um careta, trouxe um pedaço de tecido grudado à unha...

Um pedaço de pele.

Pele se desintegrando, derretendo, desgrudando do corpo do estranho. Com um berro, Juca esfregou a mão no paletó, enojado. A figura da capa escura afastou o capuz e revelou a cabeça em carne viva, expondo nervos, músculos e ossos. Na mão descarnada, a varinha estava erguida, apontada para garoto.

-É hora de criar o meu espetáculo – disse Ted Bacon, um dente amarelado e apodrecido voando da boca, acompanhado de saliva e sangue, fechando os dedos em torno do pescoço de Juca, erguendo-o do chão, sufocando um grito de pavor...


Da mesa que ocupavam, as Encalhadas observaram a chegada do pai de Alone, que ocupou uma mesa próxima ao júri ao lado de um casal de bruxos louros. Claudio parecia um tanto incomodado com a imprensa, que se aglomerava e conversava em voz alta numa mesa um pouco maior do que àquelas reservadas aos outros convidados.

-Por que ele veio? – perguntou Mione a Alone.

-Minerva deve prestar algum tipo de homenagem ao Colin. Aqueles louros ali são os pais dele.

Claudio olhava para Alone, mas quando ela o fitou novamente, ele baixou o rosto. Ela ia criticar a atitude do pai com as amigas, mas ouviu pancadinhas na mesa que a distraíram. Notou então que Lewis tinha chegado e incentivava Serena a bater o Anel do Vínculo Eterno contra a superfície de madeira, em tentativas reconhecidamente inúteis de parti-lo.

-Ainda não sou uma Malfoy, sou? – ela perguntou, preocupada, a Lanísia.

-Diga que não – pediu Lewis.

-Será assim que ele trouxer um bruxo da Seção de Registros do Ministério da Magia – respondeu Lanísia, segurando a mão da amiga. – O anel é a prova da união. Sinto muito.

-Tem certeza de que sua mãe não conhece nenhum tipo de reversão? – perguntou Lewis.

-O feitiço presente no anel é um segredo da família Burns guardado a sete chaves. Meus antepassados ficaram famosos produzindo esses anéis. Ele saiu de moda apenas quando o divórcio ficou frequente entre os bruxos. Entendam, já havia casos de casamentos desfeitos e dedos mutilados para livrar-se do anel. Mas então uma bruxa traída cortou o dedo para divorciar-se e romper o matrimônio; como o amor que sentia era imenso, os vasos sanguíneos do corpo dela romperam a magia e a paixão ao mesmo tempo, provocando a sua morte.

-Ei, o que os vasos sanguíneos têm a ver com o Anel da Desgraça Eterna? – perguntou Serena com os olhos arregalados.

-Anel do Vínculo Eterno – corrigiu Lanísia. – Ele não sai porque está preso ao seu dedo, Serena, apertando-o. Dessa forma, ele espalha a magia pelos vasos que percorrem o seu corpo, sendo alimentado pela força do sentimento presente em seu coração.

-Por isso você disse que ele pode cair a qualquer momento... – Serena falou lentamente, compreendendo.

-É, porque se sente tanto ódio assim, mais cedo ou mais tarde essa raiva será transmitida ao anel, que não poderá sustentar-se por um sentimento tão negativo – explicou Lanísia. – É a única maneira de livrar-se dele. Por isso ele saiu de moda; raramente alguém se arrisca a firmar uma união através dele porque a única maneira de livrar-se do anel por vontade própria pode provocar a morte... Ele está ligado a um órgão vital: o coração. O jeito, então, é esperar... – Lanísia notou que as amigas a olhavam de um jeito estranho. – O que foi?

Ela olhou para trás. A mãe, Valeria Burns, estava parada ali, os cabelos negros presos acima da cabeça. Valeria era uma mulher muito bela, apesar de carregar no olhar uma frieza ausentes em Lanísia e Eros.

-Lamento informar que está enganada, filha.

-Não fique perto de mim – Lanísia fitou-a com ódio. – Você tentou matar o meu filho.

-Está falando do bastardo, o filho do professor estuprador?

-Diga de uma vez o que quer e me deixe em paz!

-Vi Serena tentando quebrar o anel outra vez, por isso me aproximei. Mas pelo visto você explicou quase tudo, exceto algo que deve ignorar. O brilho da joia – Valeria estalou os lábios.

Serena olhou indecisa para o anel.

-Percebe no quanto o diamante refulgura às luzes do Salão? Hum? O brilho da pedra é o sinal visível de sua força. Você está polindo-a com o que sente, Serena.

-Está enganada... Eu odeio o Draco! Odeio!

-Já o namorou, então uma fagulha, que seja, de sentimento deve ter permanecido viva. O ódio e o amor são tão próximos que muitas vezes demoramos para distingui-los – ela, então, olhou para Lewis, cujo rosto ficara pálido. – Draco Malfoy será seu cunhado por muito tempo, Lewis. Sua irmã ainda não admite, mas a paixão por Draco manterá o anel cada vez mais lindo e poderoso! Terei orgulho em, mesmo por engano, ser a responsável por tão bela união. Os Malfoy e os Bennet mereciam unir-se! Com licença, vou voltar ao júri, preciso organizar as minhas notas...

Serena olhou apavorada para Lewis. Ao seu redor, as demais Encalhadas quase afundavam para baixo da mesa.

-Então... Eu fico ao seu lado apesar de tantos desafios... O fato de termos o mesmo pai, tornar-se alvo de um bruxo que controla vidros ao seu bel-prazer – ele mexeu na venda que cobria o olho cego. – Penso que cometi o erro de lhe dar o anel errado, mas agora descubro que tudo o que você mais queria era ser a mulher do Draco!

-Está sendo injusto, Lewis, não é nada disso! O que eu sinto por você nem se compara...

-Admite que tem uma queda por ele, não é?

-Eu o namorei, Lewis, então é natural que ele tenha um tipo físico que me atrai... Já atraiu... Droga, não sei dizer, estou confusa agora...

-Confusa? Basta olhar para o seu dedo, Serena. E aí é preciso admitir o quanto o que sente por ele é lindo... Veja o quanto brilha. É um baita sentimento.

-Lewis, espere!

-O seu amor pelo Draco é visível, intenso, agora está aí no seu dedo pra quem quiser olhar! O que sente por mim é um segredo vergonhoso escondido de todos. Acho que não dá pra competir...

-Lewis! Lewis, volte aqui! – berrou Serena, levantando-se para correr atrás do irmão; esbarrou em Juca Slooper e desistiu, pois Lewis já ultrapassava as portas duplas do Salão Principal. – Que ódio! E eu pensava que não podia ficar pior! – ela olhou para Juca. – Oi, Juca, tudo bom?

-Sim... – ele respondeu, enquanto Serena sentava-se novamente, olhando enojada para a pedra preciosa do anel. – Meninas, vocês sabem onde fica o camarim da Jennifer Star?

-Sim, ela está instalada naquela sala no fundo do Salão – respondeu Serena. – Por que quer saber?

-Porque daqui a pouco farei uma participação no espetáculo – disse Juca, sem agradecer, o olhar fixo no camarim localizado atrás da mesa dos professores.

-Não sabia que a Jennifer estava convidando alunos para participarem do show – falou Lanísia.

-Não estou falando do show dela – replicou Juca, os olhos estranhamente opacos por trás das lentes grossas. – Estou falando do espetáculo dele. Ninguém pode perder... Principalmente vocês.

Maquinalmente, ele abriu um sorriso torto e continuou a caminhar.

-Ele quem, Juca? – perguntou Joyce. – Juca, volte aqui!

-Calma, Joyce, é lógico que é o Axel – disse Mione. – Ele deve ter gostado do trabalho dele como assessor e o convidou para participar do show, embora não atine no que o Juca pode fazer numa apresentação musical.

- Será que ele estava mesmo falando do Axel? – questionou Joyce, intrigada, enrolando o dedo em torno de um dos cachos do cabelo.

-Ora... Quem mais poderia fornecer um espetáculo nesta noite? – perguntou Alone. – Já temos dois cantores famosíssimos aqui em Hogwarts, o que você quer mais, Joyce?

-É que não gostei do tom da voz do Juca... Tem alguma coisa errada com ele.

-Deixe de bancar a esposa preocupada, ele só está afoito com a possibilidade de apresentar-se diante de toda a escola ao lado do astro pop – disse Lanísia. – Não há nada errado com ele...


No camarim, Jennifer Star estava pronta para o show. Aproveitou o momento tranquilo para retirar do malão a foto que lhe acalmava em momentos de grande ansiedade.

A foto do jovem que tanto amava; aquele que só poderia contemplar assim, à distância. Era o mais belo entre os rapazes do folheto...

Batidas à porta. Ela rapidamente guardou a fotografia e fechou o malão. Ia autorizar a entrada, mas, antes que pudesse fazer isso, Juca Slooper já estava lá dentro.

Ela não conhecia aquele garoto de cabelos pretos e óculos quadrados, mas ele parecia ter algo contra ela, pois lhe apontava a varinha. Pensamentos horrorizados sobre fãs que enlouquecem e atentam contra os próprios ídolos cruzaram a mente de Jennifer enquanto ela buscava a própria varinha presa ao cinto.

Na mente de Juca, a voz era clara sobre o que ele precisava fazer; e ele seguiu em frente.

-Imperio!

Juca guardou a varinha enquanto passava para Jennifer as instruções recebidas por Ted Bacon por meio da Maldição Imperius; em seguida, ele deixou o camarim para criar o terceiro fantoche de Ted.

Jennifer seguiu para o malão; precisava mudar o figurino para o novo espetáculo, roupas que combinariam com a modificação no repertório.


As meninas não perceberam que Juca Slooper deixara o camarim de Jennifer. Estavam atentas, olhando para o palco, onde a diretora Minerva McGonagall pedia silêncio e iniciava um discurso:

-Como todos sabem, uma perda terrível se abateu entre nossos alunos recentemente. Depois da perda de Anna Abbot, Colin Creevey nos deixou de maneira ainda pior. Ted Bacon, o assassino, continua foragido e impôs o atual toque de recolher em Hogwarts – os olhos da diretora passaram rapidamente pelas Encalhadas.

-Por que dizem toque de recolher se, na verdade, todo toque gera expansão genital? – perguntou Serena.

As amigas a olharam com irritação e não responderam. Minerva prosseguiu:

-Devido aos cuidados com a segurança, os colegas de Colin não puderam prestar as últimas homenagens. Portanto, abro espaço agora para que aqueles que eram mais próximos ao garoto possam falar algumas palavras em memória dele – Minerva apontou a varinha para a Mesa Principal; um quadro de grandes proporções levitou acima da cabeça de pais e alunos e pousou delicadamente sobre o palco atrás da passarela de vidro. Com um floreio, Minerva conjurou uma fita preta, que se desenrolou habilmente da ponta da varinha, formando uma faixa negra sobre o retrato de Colin Creevey.

Na foto, Colin sorria ao lado de Harry Potter, que tinha um braço passado sobre o ombro do garoto. Uma mão delicada e feminina completava o quadro, acariciando os cabelos dele.

-Você estava nessa foto? – indagou Lanísia à Alone.

-Sim. Me tiraram não sei porque e... – ela olhou para o pai, com as mãos afundadas nos bolsos e uma expressão de desagrado no rosto. – Ah, mas é claro... Foi ele.

-Harry, quer subir para prestar sua homenagem? – indagou a diretora.

Harry olhou de soslaio para Alone.

-Eu vou primeiro, Harry.

Claudio Bernard, notando o que a filha ia fazer, levantou-se de sua mesa, colocou o corpo à frente dela e falou, baixinho:

-Não vai subir naquele palco, garota. Já me deu um trabalhão convencer os pais do viadinho a esconderem você nesse retrato!

-Pai, eu não pude estar presente ao enterro, saia da minha frente!

-Já riram o suficiente de mim graças àquele obituário que revelava a sua relação a três ridícula e nojenta. Não vou permitir que minha filha fique exposta dessa maneira numa foto, em luto por um namorado que nem gostava de mulher!

-Podia não gostar das outras, mas gostava de mim, e era isso o que importava! Quer saber? Nossa relação sexual era muito satisfatória. Harry e Colin me davam um prazer imenso.

Claudio olhou aflito para os lados, temendo a reação dos repórteres.

-Não fale tão alto, a imprensa adora escândalos e está aqui em peso graças à presença dos dois cantores.

-O que eu vivi ao lado do Harry e do Colin foi amor, papai. Não vou ter vergonha de expor os meus sentimentos. Prometo me calar a respeito dos detalhes que faço questão de contar a você, mas agora eu preciso dizer a todos que estão aqui o quanto Colin Creevey foi um homem maravilhoso. Não vou abrir mão disso.

Ela pensou que ele havia aceitado, mas foi dar o primeiro passo para as escadas que conduziam ao palco para que a mão de Claudio se fechasse em torno de seu braço.

-Está me machucando, me solta – pediu Alone.

-Você vai sair à tapa daqui, Alone, mas não vai falar sobre essa nojeira gay que você viveu ao lado desses dois.

Alone livrou-se do aperto dele com um safanão e assentiu.

-Está certo... Então você não quer que eu atraia uma atenção indesejada lá em cima, no palco, do lado do retrato em que eu deveria estar?

-Isso.

-Então, não subo... – Alone sorriu, de um modo que as Encalhadas conheciam muito bem.

-Lá vem encrenca – comentou Mione.

-Não quero nem ver – disse Lanísia, escondendo o rosto com as mãos.

Alone tirou a echarpe que trazia nos ombros e jogou-a no chão. Em seguida, desafivelou os sapatos de salto agulha.

-O que está fazendo? – indagou Claudio.

-Não vou chamar a atenção no palco, papai, porque acho que farei muito bem isso por aqui mesmo – disse Alone, arrancando o vestido preto e ficando apenas com um corpete escuro, que terminava numa calcinha fio dental. – É isso... – diante de Claudio, que a tudo observava boquiaberto, Alone caminhou até a mesa em que a imprensa bruxa se agrupava e deu uma voltinha, exibindo a pele alva no corpo magro com curvas. Os flashes espocaram entre os repórteres dos tabloides sensacionalistas.

-Ai, isso não vai prestar – reclamou Joyce, indicando às amigas a diretora Minerva, que fazia sinal para os professores resolverem a situação.

Do Mesa Principal, o Professor Ipcs Raccer e a Professora Sprout se levantaram, aturdidos.

Percebendo a movimentação, Alone desatou a falar:

-Eu era namorada do falecido Colin Creevey. Eu era a namorada dele, e Harry Potter, o namorado. Éramos namorados entre si, vivíamos uma relação aberta. Eu experimentando dois homens diferentes ao mesmo tempo, enquanto eles se deliciavam com a minha feminilidade e viviam se agarrando como dois machos assanhados.

-Ele vai ter um ataque! – comentou Serena às outras Encalhadas, apontando para Claudio, cujo rosto estava lívido e rubro.

Alone curvou-se sobre a mesa e pegou uma taça de cerveja amanteigada de um dos repórteres.

-Proponho um brinde em homenagem ao Colin – ela olhou para o retrato do garoto, que acenava dentro da moldura. – Sentirei falta das nossas noites quentes. Da maneira como ele invadia meu corpo com mais intensidade quando Harry estava em cima dele...

-Fique calada, Alone! – berrou Claudio, contorcendo-se de raiva.

-Tantos trenzinhos animados que fazíamos! Geralmente era o Colin quem fazia o duplo papel de enfiar e receber ao mesmo tempo... – parou para beber alguns goles da cerveja. – Não fazem ideia do quanto era bom ver Colin e Harry se pegando enquanto eu, com as pernas abertas, recebia a língua dos dois dentro de mim...

Ipcs e Sprout chegaram perto da garota. Ipcs pediu, amigavelmente:

-Alone, chega, vamos sair do Salão e tudo ficará bem.

-Não! Existe mais uma pessoa que precisa fazer uma homenagem a Colin – Alone desvencilhou-se do professor, tirando uma flor de um dos vasos sobre a mesa e estendendo-a ao pai. Claudio mordeu o lábio, olhando incomodamente para os flashes dos repórteres. – Este é Claudio Bernard, excelentíssimo funcionário do Ministério da Magia, que dava a maior força para o meu namoro duplo e nem ligava para o fato dos genros fazerem as próprias festinhas de vez em quando. Anotaram bem o nome dele? Claudio Bernard... Vamos, papai, pegue as flores...

-Não, Alone...

-Não faça essa desfeita.

-Não quero, obrigado! – exclamou ele, apenas empurrando o braço dela de leve.

-Em nome das aparências você ignora tudo, não é? Aposto como já teria me dado um tapa se estivéssemos em outro lugar.

-Já deu o seu showzinho, Alone, agora saia daqui e cubra o seu corpo... pare com essa indecência, garota! – ralhou Claudio. – Cadê a pervertida da sua mãe? É tudo culpa dela, tudo influência daquela maluca!

-Coloque essas flores perto do quadro ou eu farei algo pior – avisou Alone.

-Não tem como piorar essa pouca vergonha que você acabou de fazer diante de toda a escola. Não vou homenagear esse viadinho.

-Tudo bem, grande preconceituoso, vamos ver como você lida com isso... – Alone, então, andou até Lanísia e agarrou-a pela cintura. Sussurrou para a garota, com um olho em Serena. – Encalhadas sempre unidas, certo?

-Sempre – respondeu Lanísia, num sussurro, enquanto Serena assentia.

-Então entrem no meu jogo – disse Alone, segurando Lanísia pela nuca enquanto a beijava nos lábios.

As câmeras registraram o beijo em flashes esfumaçados.

Claudio levou a mão ao peito, horrorizado, sem fôlego.

Alone passou para Serena em seguida, tascando-lhe um grande beijo na boca, tomando o cuidado de manter o corpo no melhor ângulo para as lentes das câmeras. Beijava a amiga quando sentiu as mãos brutas do pai afastando-a.

-Isso NÃO! NÃO! – berrou Claudio. – Pior do que ter contato com pessoas lascivas e se transformar em uma... Essa anormalidade eu não vou permitir! – ele empurrou-a com força; na queda, Alone bateu o joelho na quina de uma das mesas redondas.

Caída no chão, ria delirantemente.

-Agora todo o mundo sabe o quanto você é baixo e preconceituoso, papai. Podem anotar que ele também odeia sangues-ruins e abortos. Anotaram? – ela gargalhou. – Depois eu posso fornecer uma exclusiva com todos os detalhes...

-A b-brincadeira ac-acabou – avisou Ipcs, enquanto Sprout ajudava Alone a se levantar. O professor tirou o paletó e cobrindo o corpo seminu da garota. – Pro-pronto... – ele fez sinal para que os fotógrafos parassem.

-Vamos, tirem fotos e mais fotos! – gritava Alone enquanto era conduzida para fora do Salão Principal. – Registrem esse momento, o momento em que cai a máscara do funcionário preconceituoso e estúpido que trabalha no Ministério da Magia!

Joyce, Mione, Lanísia e Serena acompanharam a amiga.

-Alone, você passou dos limites! – ralhou Mione.

-Ele merecia isso, Mione. Foi ele quem feriu o Colin, que provocou o ferimento que o impediu de conseguir fugir do Ted. E assim o recado já foi dado...

-Que recado? – indagou Serena, que ainda limpava a boca, enojada.

-De que eu não faço a menor questão de manter contato com ele, mas ele não poderá esquecer que tem uma filha. Eu não vou permitir. Se ele me enxerga como a maior vergonha da vida dele, é isso o que eu serei, ficarei cada vez pior... Vou infernizá-lo. Claudio Bernard não perde por esperar – ela segurou-se ao batente da porta, apontou a varinha ... – OUVIU BEM? CLAUDIO BERNARD NÃO PERDE POR ESPERAR! FAREI JUS AO TÍTULO DE SEU PIOR PESADELO! E TEM MAIS, EU...

-Chega, Alone, ou vamos colocá-la em detenção! – ralhou Sprout, tirando a varinha das mãos da garota e forçando-a a prosseguir. – Meninas, ajudem-nos a controlar a amiga de vocês!

As Encalhadas ajudaram Alone a controlar-se, enquanto no Salão Principal a diretora Minerva desculpava-se com Claudio.

-Não esperava que acontecesse isso. A intenção era homenagear o Colin, sinto muito.

-Eu é que sinto muito por ter produzido esse monstro – disse Claudio, vendo a filha desaparecer rumo à escadaria de mármore no Saguão de Entrada. – Boa noite, Minerva... Parem de me fotografar, seus abutres! – disse, raivoso, para os repórteres; ele abaixou a cabeça e saiu, humilhado.


-Quase nua. No Salão Principal... – em sua sala, Minerva McGonagall bebia um copo d´água, olhando severamente para Alone, que estava sentada diante de sua mesa e cercada pelas amigas. – Tinha que escolher para isso justamente a noite em que a escola está cheia de colunistas sociais sedentos por escândalos?

-Mas a intenção era mesmo chamar a atenção...

-Serena, fique quieta para eu gostar um pouco mais de você, mané! – ralhou Alone.

-Não vou colocá-la em detenção, Srta Bernard, mas acabo de zerar a pontuação da Grifinória e todos os colegas saberão que a responsabilidade pela perda da Taça da Casa é sua.

-Zerar? Puxa, professora, não pode diminuir apenas uns trinta pontinhos?

-Já foi feito, Alone. Agora podem ir.

No corredor, Joyce censurou-a:

-Ótimo, já estávamos com a reputação arrasada. Você acabou de dar a descarga definitiva.

-Que beijo nojento – disse Lanísia, passando o dorso da mão sobre a boca.

-Eu gostei – falou Serena; notando os olhares de espanto, explicou-se. – Não vou virar Tamancão, mas o Anel da Derrota Eterna me condena aos lábios do Draco. Já a Alone eu pude beijar à vontade...

-Não acostume – aconselhou Alone, assustada.

-Achei que tivesse superado o trauma da morte do Colin.

-Não, Mione, não é porque não ande por aí de preto e me lamentando a todo instante, que eu não sofro por isso! Apenas, mais uma vez, não consigo ter o comportamento padrão. Isso, aliás, é comum pra mim. Fugir das regras e convenções sociais.

-Vamos voltar pro Baile? – indagou Lanísia.

-Acho melhor não – opinou Joyce. – Não quero estar perto dos colegas quando eles souberem que uma Encalhada foi responsável pela perda de toda a pontuação da Grifinória.

-Talvez o Super-Homem possa nos ajudar – disse Serena.

Um rapaz usando o uniforme azul com a letra S cercada pelo escudo vermelho acabava de sair de um armário de vassouras. Serena empolgou-se:

-Kleiton não resistiria ao poder dele!

O Super-Homem aproximou-se das garotas, estufando o peitoral. Quando foi possível reconhecê-lo, Alone brincou:

-Adam, veio buscar a sua Louis Lane?

-Alone, ficou maluca? Não pode ficar revelando a identidade dele em voz alta – replicou Serena, olhando ao redor, preocupada. – Sabe, eu sempre pensei que os heróis saíssem de cabines telefônicas, e não de armários de vassouras!

-Essa é a sua verdadeira arma secreta, não é, Adam? – perguntou Joyce, quase tocando a sunga vermelha do herói. – Que pistola!

-Eu posso pegar nela? – perguntou Serena, já esticando a mão, mas Alone a impediu antes que ela conseguisse apalpar.

-Ei, epa, ficou maluca?

-Alone, eu preciso tocar num homem para saber se o Anel do Vínculo Eterno realmente está surtindo o efeito indesejável. Aliás, Adam, eu preciso tocar na pele, então, se não se importa, eu quero pôr os dedos por dentro da sunga pra sentir a carne...

-Isso não pode ser testado através da minha mão mesmo? – ele perguntou, tocando no braço da garota. Imediatamente, o ardor espalhou-se pelos nervos de Serena; Adam também sentiu pontadas angustiantes espalharem-se pelo corpo gradualmente, até o ponto em que se tornou insuportável e ele recuou rapidamente.

-Nossa, isso não foi legal – ele comentou, sacudindo a mão.

-Espalha um calor intenso, não é? – falou Serena. – Mas pode ser agradável se o foco do calor for sua super-bilonga... A dor nem vai incomodar.

-Dispenso a ereção em pleno corredor, mas agradeço a oferta – disse Adam num sorriso de constrangimento.

-Para onde vai com essa roupa? – indagou Mione.

-Está rolando uma festa à fantasia cosplay numa fazenda aqui perto, organizada pelo sobrinho do Lorenzo. Vocês querem ir?

-Claro! – disse Mione.

-Demorou! – riu Joyce.

-Adoramos – emendou Serena.

-Demais! – exclamou Lanísia.

-Isso aí, mané! – falou Alone. – Eu vou de curandeira sexy.

-E de onde você tirou essa curandeira? – perguntou Adam.

-Dos... dos hospitais? – respondeu Alone, insegura.

-Não pode ser qualquer curandeira – ele insistiu.

-Ih, tem que criar a personagem... Curandeira Josefina, pronto!

-Não é um nome legal para uma curandeira – comentou Lanísia.

-Meninas, vocês sabem o que é cosplay? – indagou Adam, passando a mão pelos cachos do cabelo.

-Cospe quem? – indagou Serena.

Adam girou os olhos para o teto e explicou:

-É um tipo diferente de festa à fantasia. Vocês precisam estar fantasiadas, mas têm que vestir-se igual a um personagem dos quadrinhos, da literatura ou até mesmo um popstar.

-Mas você está vestido de personagem erótico – disse Serena.

-Super-Homem não é erótico – replicou o garoto.

-Em mim sempre despertou fantasias indecentes – falou Joyce. – Pô, o cara sai com a cueca apertada pra fora!

-Totalmente erótico, foi o que eu disse!

-Será bacana ir à festa – disse Lanísia. – Não participamos do desfile de abertura, o que significa que já estamos fora da disputa ao título de Rainha do Baile.

-Mas não temos fantasias – lembrou Mione.

-Improvisem! – Adam sugeriu.

-Eu posso ser um Zorro! – falou Serena. – Já tenho uma capa pra usar! Posso pegar emprestada a Capa de Invisibilidade do Harry!

-Faça isso e será uma cabeça loura flutuante – avisou Joyce. – Um pomo de ouro.

-Bom, então acham que conseguem fantasiar-se em meia hora? – perguntou Adam.

-Claro, daremos um jeito – disse Alone. – Existem muitas roupas da Joyce que podem ser reaproveitadas como fantasias, sem trabalho algum.

-Tá dizendo que minhas roupas são bregas?

-Ei, sem discussões – Mione interrompeu. – Vamos ao dormitório, tenho algumas revistas com imagens de personagens que poderemos representar!


A Torre Astral, o esconderijo de Augusto e Celine, erguia-se imponente no alto de um morro que circundava um vilarejo trouxa.

Celine aproximava-se do enorme cilindro de pedra cinza escura carregando uma sacola de compras. Olhou ao redor. Nenhum trouxa subia ali, pois o morro era continuamente cercado por uma névoa espessa. Protegida magicamente, a Torre existia apenas para aqueles a quem o avô de Celine compartilhara o segredo de sua existência; para ela, por exemplo, a Torre era visível de todos os pontos do povoado, aquela magnífica construção feita pelo avô para observar as estrelas e dar vazão à sua paixão pelo zodíaco e os mistérios do universo.

Ela abriu a porta da torre, que fechou sozinha à sua passagem. No mesmo momento, o chão de pedra elevou-se lentamente, sozinho, guindando-a ao topo. Quando ela viu conjuntos de nuvens passarem pelas janelas, soube que estava se aproximando; finalmente, o chão parou de elevar-se com um tranco e ela abriu a porta que levava à construção no topo da torre.

-Augusto? – ela chamou enquanto largava as compras sobre a mesa de centro da sala. Ao redor das paredes, as anotações feitas pelo avô permaneciam coladas, rabiscadas em pedaços de pergaminho; em sua maioria, observações sobre o movimento dos astros e sua implicância no destino dos bruxos.

Celine desceu os três degraus que levavam à cozinha, mas lá também não havia sinal de Augusto. Intrigada, ela voltou à sala e entrou no corredor. Perto da porta do quarto de Augusto, escutou ruídos ofegantes.

Com o coração aos pulos, Celine aproximou-se e espiou pela porta entreaberta.

Augusto estava deitado entre os lençóis, com a camisa aberta, revelando os cortes quase cicatrizados. A calça estava estendida ao lado. Ele se masturbava, as mãos movendo-se rapidamente, mas, embora o falo estivesse rígido simbolizando sua excitação e gemidos de prazer fossem emitidos, havia algo errado com sua expressão. Os olhos estavam fechados, a face contorcida de tal modo que Celine, assustada, pensou por um momento se seriam lágrimas, e não suor, que molhavam os dois lados da face dele.

Mas não se deteve por muito tempo nessas considerações; quando Augusto levou a outra mão para o próprio peitoral e acariciou-se, ela esqueceu qualquer outra coisa. Concentrou-se no que acontecia; aqueles sons de prazer, os gemidos ofegantes, meio enrouquecidos, que ela até se esquecera de como soavam; como a faziam delirar, saber que era ela, com seu corpo, com seus toques, que arrancava esses sons dele.

De repente, vê-se tomada por uma excitação ascendente. Agindo por puro instinto, sem medir possíveis riscos ou consequências, Celine abre as pernas e desce a calcinha, o suficiente para que possa tocar-se. Encontra-a úmida; nada surpreendente. Mergulha dois dedos na própria intimidade; a força da imaginação, que liga os gemidos de Augusto como se estivessem ao pé do seu ouvido e transforma seus dedos no membro dele, que acabara de visualizar nos mínimos detalhes, lhe atinge de tal forma que ela precisa amparar-se na parede do corredor.

Quer ficar ali, de olhos fechados, sonhando, mas existem momentos em que a realidade supera as possibilidades fantásticas da imaginação. É então que ela abre os olhos novamente e lá continua ele, um braço atrás da cabeça, puxando fios do cabelo cheio, enquanto a outra mão continua a se explorar, subindo e descendo, ritmadamente. Captura os detalhes, e prende-se na escuridão outra vez, sonhando que é ele quem está dentro dela, fazendo com que suas pernas fiquem bambas, transmitindo essa sensação abrasadora dos pés à cabeça; seus mamilos já estão endurecidos; ela acaricia a ponta que se sobressai em relevo por baixo do vestido. Volta a olhar para Augusto e fixa a concentração nos pés dele, os dedos que se contraem, o clímax se aproximando, e a qualquer momento ela ouvirá o som definitivo, a supremacia do prazer, e quando ele chegar nesse ponto, ao jogar sua excitação em jorros, sabe que também não vai resistir; isso se não chegar ao clímax antes do que ele; da maneira como se sente, acha que pode atingi-lo mais de uma vez.

Mas então Augusto para de manipular-se, ofegante, antes que esse momento acontecesse. Celine desperta junto; a ausência dos gemidos dele é o fator que faz com que acorde. Tira os dedos da vagina e recua, assustada, saindo do campo de visão de Augusto. Caminha com dificuldade, a calcinha torta acima das coxas.

O que ela pensava que estava fazendo?

Era errado ficar observando-o sem que ele soubesse; ela não tinha esse direito...

Mas... Droga, como fora bom! Queria pular na cama ao lado dele e deixá-lo concluir o que começara como prazer solitário dentro dela!

Ela não faria isso; em respeito ao namoro dele e Lanísia. Mas... Também não sentiria culpa; por que a culpa precisa sempre seguir ao prazer? Já tinha maturidade suficiente para conviver bem com as vontades do próprio corpo, não atormentar-se com isso.

Precisa apagar essa excitação de alguma forma; resolve tomar um banho, enclausurar-se na privacidade da banheira onde, por baixo das espumas crescentes, tudo pode acontecer.

Enquanto despe-se em seu quarto, pensa nos motivos que fizeram Augusto parar. Se estivesse pensando em Lanísia, por que teria feito isso? Talvez estivesse pensando nela, e a consciência de que poderia trair a namorada fez com que a culpa o dominasse.

Mas a culpa não aparece sempre apenas depois do prazer concluído?

Claro; ela nada teve a ver com isso. Não pode iludir-se, é o que pensa enquanto atravessa o corredor com a toalha nas mãos, em direção ao banheiro. Antes de entrar, olha por um momento para a porta do quarto de Augusto, depois continua e entra no lavabo.

Termina de tirar a calcinha e livra-se do vestido. Os seios continuam com os bicos proeminentes; ela para por um momento para admirar-se no espelho. Tem quase quarenta anos, mas os seios continuam a formar um par atraente, naturalmente cheios e firmes. Continua muito bem; por que não poderia ser a sua imagem a estar incentivando a imaginação erótica de Augusto?

Deve valorizar-se, é o que pensa enquanto enche a banheira de espuma. Enquanto as espumas se formam, guarda o espelho de parede numa das gavetas sob a pia; nada de vidros, em local algum.

Entra na banheira; fecha os olhos e morde o lábio inferior quando a água quente toca sua intimidade, já extremamente sensível. Percebe que não chegou a fechar a porta, e pensa se, de maneira subconsciente, não fora algo proposital, tão proposital quanto o momento em que, durante a fuga na mata, pulara sobre a forma de lobo de Augusto para tê-lo ali, por perto, para vivenciar momentos tórridos e apaixonantes.

Talvez seu subconsciente tenha a esperança de que Augusto venha participar daquele banho quente, colar o corpo molhado ao seu, a água respingando dos cabelos fartos, formando gotículas na barba enquanto a cobre de beijos.

Celine olha então para a porta. Uma sombra forma-se por baixo da luminosidade que entra pelo vão. Augusto está ali. Parado. Mas não prossegue. Precisa de incentivo.

Ela levanta-se com o corpo coberto de espuma. Inclina-se para a saboneteira; a posição afina sua silhueta, deixa os seios em destaque à frente do corpo inclinado, úmido, com bolhas de espuma, e Celine sabe que já é possível, para alguém que está espionando, vê-la ali, nua e cheirosa. Um convite mudo para Augusto participar daquele banho delicioso. Ela pega o sabonete, e fica de frente para a porta, com os olhos fechados, passando o sabonete na virilha. Abre os olhos, certa de que o verá ali, pronto para o amor, mas já se foi; não há sombra por baixo da porta, não há Augusto espiando pela abertura.

Deveria ter sido irresistível, se ele realmente a quisesse. Uma possibilidade aterradora cruza a mente de Celine.

-Não... Não acredito que ele fará isso... Não pode arriscar tudo dessa forma!

Assustada, Celine larga o sabonete na banheira, enrola-se na toalha e deixa o lavabo. Cruza o corredor, os pés molhados chapinhando no piso. Olha através da porta do seu quarto, do quarto de Augusto; não o vê. Passa pela cozinha, pela sala, e não encontra nem sinal de sua presença. Corre para a janela em formato de sol e observa dentro de uma das fissuras solares. Pelo caminho de cascalho, Augusto dispara rapidamente, e antes que possa chamá-lo, desaparata.

Ela sabe para onde ele vai; quem quer encontrar. E, de repente, tudo faz sentido. A razão sobrepõe-se ao seu desejo.

Se fosse suor o que molhava o rosto de Augusto, toda a sua pele estaria úmida naquele momento de manipulação na cama, e não somente as faces; a umidade era provocada pelas lágrimas. Lágrimas de quê? Saudades, carência, vontade de estar com Lanísia. Os puxões no próprio cabelo – provavelmente um gesto que Lanísia costumava fazer durante o ato, algo que fazia parte da relação dos dois, que o remetia imediatamente à jovem. Augusto não parara antes do fim por culpa, por estar pensando nela, Celine; simplesmente interrompera algo que iria concluir nos braços de Lanísia; o momento em que espiara pela porta do banheiro? Ele não sabia que ela já tinha chegado à Torre e com certeza queria certificar-se de que estava ocupada o suficiente para possibilitar que saísse sem qualquer interrupção.

-Deixando a segurança da Torre por ela, arriscando-se por ela, tudo por ela! – exaltada, Celine deu um tapa no abajur da mesa, que se espatifou no chão. – Augusto vai acabar em Azkaban em nome desse amor... Idiota! Por Lanísia, ele torna-se indomável, e por ele... por ele eu sou a figura mais ingênua que existe no mundo...


Uma hora depois, o Super-Homem Adam estava parado perto de uma das janelas do salão comunal da Grifinória, os pés calçados em botas vermelhas batendo impacientemente no chão.

-Tá sabendo que essa capa não o torna apto a voar, não é? – perguntou Harry Potter, sentando-se numa poltrona e olhando preocupado para o rapaz fantasiado.

-Ficaria satisfeito com um poder especial que fizesse com que as garotas aprendessem a se arrumar mais rápido. Mas já deveria ter previsto... Mulheres demoram a se aprontar quando precisam ser elas mesmas, imagine para vestir-se como uma personagem!

-Você não é o novo amigo da Alone?

-Sim. Meu nome é Adam.

-Desculpe por violar sua identidade secreta, mas vi você no início do baile. A propósito, sua identidade ficaria em segurança se usasse uns óculos fundos de garrafa e um cabelo nerd para disfarçar quando está sem o uniforme – Harry encerrou com uma risadinha, partindo em seguida para a pergunta que mais lhe interessava. – Alone é uma das garotas que está esperando?

-É, ela e as outras Encalhadas vão me acompanhar numa festa cosplay.

-Não sabia sobre essa festa.

-Não tem ligação com Hogwarts. Vai rolar perto de Hogsmeade, numa fazenda.

-Suponho que o Super-Homem está aqui esperando, impaciente, mas sem desistir, por que está interessado em uma das Encalhadas?

-Sim. Pela Alone. Olhei por baixo do vestido dela e fiquei alucinado por aquele corpo.

-V-viu como? Com sua super-visão raio-X?

-Não, foi a Alone quem ergueu o vestido e mostrou tudo pra mim – o sorriso largo de Adam contrastava com o rosto apalermado de Harry.

-Será que é difícil encontrar criptonita em Hogwarts? Se conseguisse umas pedrinhas, colocaria dentro da sua sunga vermelha estúpida e o enfraqueceria! – antes que pudesse ouvir uma resposta, Harry deixou a poltrona e foi sentar-se do outro lado da sala comunal.

Os dois garotos ouviram passos apressados descendo a escada em caracol. Hermione surgiu com o mesmo vestido longo e azul com o qual subira. Adam cruzou os braços sobre o "S" vermelho no peitoral e sacudiu a cabeça.

-Seria uma Alice mais convincente se pintasse o cabelo de amarelo.

-Não estou de Alice, esse é o meu vestido do baile. Ainda não me arrumei.

-Espere aí, vocês ficam uma hora lá em cima e descem do mesmo jeito?

-Não estou do mesmo jeito! – Mione avançou até o meio da sala comunal, buscando a claridade da lareira. – Olhe bem pra minha pele. Não nota a diferença?

Adam finalmente reparou. Harry não resistiu e virou-se para espiar. Foi ele quem comentou, debruçado sobre o espaldar do sofá.

-Escureceram sua pele!

-Sim, bronzeamento intensivo em sessenta minutos – falou Mione, olhando os próprios braços enquanto sacudia os cabelos alisados e tingidos de preto. – Usei uma maquiagem especial da Joyce para deixar a pele mais escura.

-Por que ela teria uma maquiagem dessas? – indagou Harry. – Nunca vi a Joyce bronzeada.

-Não uso em mim – respondeu uma voz vinda da escada circular. Joyce surgiu em seguida, vestida num microvestido vinho e com os cabelos encaracolados presos sobre a cabeça. – Sabem como é tenso casar e ter apenas uma única bilonga para me servir. Então passo essa maquiagem no pinto do Juca quando quero matar a saudade das bilongas morenas que já entraram em mim.

-Argh, você passa essa maquiagem nas intimidades do Juca? – disse Mione, olhando enojada para o próprio corpo.

-A bilonga do Juca é limpinha, Mione, não precisa fazer essa careta!

-Joyce está fantasiada daquela personagem que já foi símbolo de sensualidade... esqueci o nome... – Harry estalava os dedos, tentando puxar da memória.

-Betty Boop – Joyce deu uma voltinha, erguendo ainda mais a barra do vestido curto. As pernas longas e firmes estavam cobertas por meias pretas, que desciam até os sapatos de salto alto. Os cabelos castanhos tinham sido pintados de preto, presos e repartidos no meio, e os olhos ganharam vivacidade e expressão com os longos cílios postiços. – Tudo improvisado, mas deu pra caprichar até nos detalhes – ela mexeu nos brincos redondos que decoravam as orelhas, fazendo com que as pulseiras douradas tilintassem.

-Ficou muito bom – elogiou Adam.

-Sua cabeça ainda é pequena demais – observou Harry. – Betty Boop tem um cabeção.

-O dia que aprender feitiços para aumentar cabeças, por favor, me avise, Harry – retrucou Joyce.

-Eu é que gostaria que você me avisasse – disse ele, apertando a bilonga por cima da calça.

Adam, chocado, pigarreou e comentou:

-Ainda não entendi qual é a fantasia da Hermione...

-Vou ser cosplay da Jennifer Star – respondeu a garota. – Como a grande estrela está no castelo neste exato momento, vou passar no camarim dela e pedir algumas peças do figurino da própria cantora... Já imaginaram cosplay mais perfeita?

-Tem certeza de que ela vai emprestar as roupas?

-Ela está nos devendo, Joyce, quase deixou a Serena sem dedos durante o tal ataque bipolar! Não esqueçam de me chamar antes de saírem.

-Do jeito que a coisa anda, daqui a duas horas ainda estaremos por aqui – comentou Adam enquanto Mione saía da sala comunal.


Assim que chegou ao Saguão de Entrada, Hermione percebeu a profusão de estudantes levemente embriagados que retornava ao castelo depois de um período nas estufas. Franziu a testa, curiosa; o que os estaria atraindo para dentro?

Ao olhar para o Salão Principal, ficou impressionada; os delicados abajures nas mesas tinham se modificado. Por cima da cúpula de cada um deles, escapava uma lâmpada em forma de estrela, intensamente iluminada em néon azul-grafite. Aquela mesma luminosidade sombria espalhava-se pelo Salão; boquiaberta, Mione cruzou as portas, o olhar preso ao teto encantado, que exibia o principiar de uma noite, uma captura do momento em que o crepúsculo está prestes a se transformar em trevas. Fumaça branca recobria o piso, mantendo-se magicamente presa ao chão, enevoando em torno das mesas redondas; o vapor era frio contra os seus tornozelos, e Mione divertiu-se quando adejou a barra do vestido e um punhado de fumaça ergueu-se fracamente diante de seu rosto.

Na passarela posta no meio do salão, as cortinas estavam novamente fechadas após o desfile de apresentação. Um refletor redondo convergia o foco de luz para as cortinas. Acima, outros refletores piscavam incessantemente, flashes intensos de luzes brancas. Os estudantes que chegavam se amontoavam no meio da multidão que cercava toda a extensão da passarela, olhos fixos no espetáculo que estava por vir.

Mione tinha uma dúvida: Jennifer Star ou Axel Carver?

Algo tocou o interior da cortina. A plateia foi ao delírio. Era uma varinha com a ponta incandescente, que desceu lentamente pelo tecido da cortina, espalhando faíscas. Um aluno próximo à Mione comentou:

-Essa é a parte em que Jennifer rasga a cortina e deixa suas iniciais!

A varinha descreveu uma linha horizontal, em seguida desceu, verticalmente, para formar o corpo da letra. Todos aguardaram a curvatura final que formaria a extremidade do J, mas a varinha afastou-se, deixando que um pedaço da cortina caísse, deixando um vácuo no formato da letra T. O pedaço cortado ainda caía quando a varinha incandescente tocou a cortina mais uma vez, para traçar as curvas do S, dessa feita, segundo o que esperava a plateia, sem erros.

A varinha descreveu curvas, chamuscando o tecido, mas nem houve como esperar que uma letra S, de Star, surgisse ali; era claramente um B. Os espectadores se entreolharam, intrigados; no lugar do JS esperados, tinham diante deles um TB. Para todos, aquele TB na apresentação de Jennifer Star não significava nada, mas Mione conhecia um possível significado para aquele par de letras; um significado tenebroso...

-Ted Bacon? – murmurou Mione, baixinho, pasma demais para acreditar naquilo; tinha de ser uma coincidência, não havia outra explicação.

Os flashes dos refletores ficaram mais intensos quando, pelo T.B. cortados, surgiu o rosto de Jennifer Star que, tirando o braço pela fenda, estalou os dedos e ordenou a abertura das cortinas.

Berros eufóricos feriram os ouvidos de Mione que, contagiada pela emoção, pôs-se a aplaudir com os colegas.

A estrela estava ali, não havia motivo para preocupações; o significado daquelas duas letras inesperadas devia ser tão tolo, e ela ali, imaginando coisas. O que esperava? Que Ted Bacon surgisse de microfone em punho e começasse a cantar as músicas de Jennifer?

Mione riu de si mesma enquanto aplaudia com os colegas. Algo ainda a incomodava, mas ela fazia o possível para ignorar o medo que, acreditava, não tinha fundamento algum...

No palco, Jennifer cumprimentava o público usando blusa e saia pretas, botas de cano alto, maquiagem escura propositalmente borrada. Ela sacudiu os cabelos longos e lisos diante dos músicos postos ao fundo e, segurando o microfone, aproximou-se de uma dupla de dançarinos que estava de costas para a plateia, caracterizada com roupas rasgadas.

-Boa noite a todos! Quero apenas informar, antes de iniciar o show, que troquei algumas músicas do repertório, resgatando sucessos antigos da banda "Guitarras das Trevas" para combinar com o clima dark e rock´n roll que quero trazer para esta noite. Vou iniciar com a música "Pacto de Sangue". Lembrando que tudo o que rola aqui no palco não é real, apenas simulação. Seus colegas Draco Malfoy e Juca Slooper estarão em segurança. Aplausos para eles, por favor... – Jen curvou-se diante do público, que gritou em êxtase.

Mione sentiu um formigamento espalhar-se por todo o corpo.

Draco e Juca...

Os dois relacionados com as Encalhadas. Os dois.

TB...

Perplexa, ela viu a dupla convidada ficar de frente para a plateia, as cabeças e parte do tronco envoltas em trapos, simulando um processo de mumificação. Conseguiu perceber que ali estavam Draco e Juca. Jennifer começou a cantar, e as duas múmias representadas pelos garotos ficaram uma de frente para a outra.

Vamos fazer um pacto de sangue

Daqueles que duram até a eternidade

Será um pacto marcante

Roubando gota a gota toda a sua vitalidade

Enquanto Jennifer cantava, Draco e Juca desenrolaram as ataduras de um dos braços e depois sacaram as varinhas. Pronunciaram algum encantamento inaudível para Hermione, mas cujo efeito tornou-se evidente quando, para testá-lo, Draco encostou a ponta da varinha no trapo que pendia do braço e o cortou, como se a varinha tivesse ganhado lâminas.

-Isso não é brincadeira... – disse Mione. – Está acontecendo de verdade, vai acontecer de verdade, droga! – mas ninguém lhe dava ouvidos; todos estavam absortos demais no espetáculo, confiantes de que tudo o que lhes seria oferecido naquela noite era pura fantasia.

Meu sangue pelo seu, o seu pelo meu

E assim estaremos unidos

Mortos, loucos, mas não perdidos

Em jorros sanguinários, embebidos

Mione olhou ao redor, procurando a diretora, mas era difícil encontrá-la no meio daquela balbúrdia. Só lhe restava correr para o que podia enxergar, o palco da catástrofe, e foi isso o que ela começou a fazer, empurrando os colegas, ouvindo reclamações e palavrões, abrindo caminho a custo, o ribombar das batidas aceleradas do coração tão alto quanto os picos de som das guitarras...

Quando ergueu o rosto suado e olhou para o palco, viu Draco erguendo a varinha e tocando o pulso de Juca com a ponta. Ele, por sua vez, tinha a expressão serena, incólume à dor. Um fio vermelho começou a escorrer do pulso aberto de Juca, e Mione sabia que era sangue de verdade...

Eles vão matar um ao outro bem aqui, e ninguém vai notar, mesmo depois que caírem mortos, ninguém vai notar, acharão que é parte do show, eu preciso evitar...

Um assistente fez dois espelhos de pé levitarem até o palco. Eram emoldurados e de aspecto antigo e cada qual ficou em um dos extremos do palco. Jennifer contornou o espelho à esquerda, fazendo uma dança sensual diante dele. Os gritos da multidão se elevaram, alguns carregados de pavor; Mione parou de correr e esticou o pescoço. Viu os motivos da euforia, e constatou que era realidade o prenúncio das iniciais cortadas na cortina.

Um espectro havia surgido dentro do espelho; era semelhante a um cadáver em decomposição, a pele reduzida a pontos esparsos, a cabeça nua, em carne viva. A figura olhava para o público de maneira sinistra, como se fizesse parte do espetáculo, um truque para atiçar a plateia, mas Mione o reconheceu no mesmo instante. Embora estivesse ainda mais deteriorado, era Ted Bacon; os olhos escuros eram inconfundíveis.

Lembrou-se dos reflexos forjados por Kleiton – Joyce dentro do espelho, vendo uma assombrosa cópia de Juca e da própria mãe, ambos com olhos rubros, cintilantes como chamas; os olhos da Minerva McGonagall que antecipara o convite para Axel também eram assim, de acordo com as palavras do próprio cantor. Quando Kleiton tentava enganar, deixava uma marca no olhar. Mas isso não acontecia com o Ted Bacon que estava ali, o que significava que...

É o verdadeiro Ted! De alguma maneira, ele está dentro do espelho!

Mione recordou-se das palavras de Juca:

"Estou falando do espetáculo dele. Ninguém pode perder... Principalmente vocês".

Controlados pela Maldição Imperius. Juca, Draco e até mesmo Jennifer, que fora obrigada a incluir a canção de outro artista ao repertório para que Ted armasse o próprio show.

As luzes no alto piscaram intensamente, o som aumentou, e Mione notou que o espetáculo atingia o seu ápice.

Da mesma forma que fizera no banheiro masculino em que Juca estivera, Ted precipitou-se contra o espelho e quebrou-o, surgindo então no palco, sob aplausos ensandecidos. Ninguém havia percebido quem estava ali, que aquela não era uma atração comum à apresentação. Hermione, afoita, empurrou alguns colegas e tropeçou em outros, abrindo caminho com dificuldade:

-É Ted Bacon... Ted Bacon está ali, não percebem?

Enquanto passava, ouvia os murmúrios repercutindo sua afirmação. Olhou para o alto, para o palco do qual se aproximava agora.

Jennifer prosseguia com a canção. Juca Slooper estava com os dois talhos abertos nos pulsos, e caía de joelhos, enfraquecido, lutando contra a própria dor para cortar um dos pulsos de Draco. Abriu um talho desajeitado, em diagonal, mas num único movimento, que espalhou respingos pelos alunos que se espremiam bem perto do palco. A palidez de Draco acentuou-se; ele mordia o lábio, mas a expressão abria-se em um êxtase doentio.

Gina Weasley tirou as gotículas que pingaram em seu rosto e observou, enojada, aos colegas mais próximos:

-Isso é sangue mesmo!

-Não seja boba! – replicou Pansy Parkinson. – É realista porque precisa ser convincente, mas não pode ser verdadeiro!

Estonteada, Mione finalmente alcançou a lateral do palco. Não havia tempo para alcançar a escada que conduzia aos bastidores; guindou-se para o alto, apoiando-se com os cotovelos e depois impulsionando o corpo para cima.

Jennifer cantava, bailando com o espectro assombroso, entoando a letra sinistra:

Meu sangue pelo seu, o seu pelo meu

E assim estaremos unidos

Impregnados pela dor...

Ao levantar-se, Mione viu a varinha caindo dos dedos ensanguentados e entorpecidos de Juca que, com os braços gotejantes, desabava de lado sobre o palco. Draco, determinado, decidiu fazer o que lhe foi ordenado de qualquer maneira; apontou a própria varinha para o pulso até então incólume e direcionou a ponta cortante para banhá-lo de sangue.

-Chega, pare com isso! – gritou Mione, tomando a varinha de Draco, quase escorregando. – Juca, já vamos ajudá-lo, aguente firme...

Ela escutou vaias esparsas provocadas por sua presença no palco. Mione olhou ao redor, tentando localizar a diretora; quando conseguiu, apontou na direção em que Jennifer dançava com a figura misteriosa e moveu os lábios lentamente, para que ela pudesse entender:

-Ted Ba...

Não concluiu; de repente viu-se imersa em rodopios, agarrada por mãos fortes que a giravam em diferentes direções. Estava nos braços de Ted, fazendo parte da apresentação, enquanto Jennifer prosseguia com a música.

-O que quer aqui? A diretora vai notar a sua presença e mandar prendê-lo!

-Não terá muito tempo para isso. Posso invadir um espelho e fugir no momento em que eu quiser.

-Por que está fazendo tudo isso?

-Apenas atingindo os seus namoradinhos para que percebam que não sou de brincadeira. Devolvam-me o frasco restante e eu lhes deixarei em paz. Caso contrário, alguém vai se machucar, talvez até mesmo a grande estrela, e a responsabilidade será de vocês.

Ele soltou Mione no canto do palco e retornou para os braços de Jennifer. Dramaticamente, retirou uma adaga do bolso da capa, provocando murmúrios assombrados em parte do público. Draco Malfoy agachava-se para apanhar a varinha outra vez; Juca Slooper continuava contorcendo-se em agonia no chão.

No público, Mione viu Pansy inclinando-se e passando um dedo pelo sangue que quase escorria para fora do palco. A garota arregalou os olhos:

-É sangue mesmo! Tem razão, Gina!

-Sangue?

Uma movimentação principiou-se; será que notaram o que acontecia, e logo colocariam um fim naquilo? Mione procurou a diretora, mas Minerva já havia deixado o seu lugar.

Ted dava rodopios no palco com a adaga em punho. Era o momento de um solo estridente de guitarra. Jennifer rebolava, contagiada pela música, e distanciou-se de Ted, chamando-o com um dedo. O bruxo correu na direção dela, o cabo da adaga preso à boca, a lâmina diante do rosto.

Alguém vai se machucar... até mesmo a grande estrela...

Os clarões dos holofotes se prolongaram, como raios intensos. O negror entre os clarões era apavorante, dificultando a visão. E foi nesse ambiente que Ted chegou perto de Jennifer, segurou-a pela cintura, obrigou-a a um rodopio, tirou a adaga da boca e, quando a garota parou em seus braços, segurou-a pela nuca. Um braço de Jennifer pendia para o chão, uma das pernas estava esticada, a cantora tão frágil, ali, com uma expressão inocente no rosto, pronta para o sacrifício quando Ted abaixou a lâmina na direção do pescoço dela.

Hermione atravessou o palco correndo, para evitar que algo acontecesse a Jennifer. Precipitou-se contra Ted no momento em que ele se afastava; Mione tombou contra a cantora, mas, antes que qualquer uma delas fosse ao chão, Ted abraçou as duas e girou ao encontro do segundo espelho. A pancada esperada não veio; Mione simplesmente sentiu-se atravessar para outra realidade; houve um instante fora de foco durante a transição, superado num piscar de olhos.

Ela e Jen caíram na duplicata do palco, no Mundo dos Espelhos, com Ted ao lado, segurando a adaga afiada na mão. Ali não havia músicos; não havia plateia; não havia ninguém.


-Estou descendo!

-Quem é? Alone? – perguntou Joyce.

-Esqueça esse nome por uma noite. Nessa noite eu sou... – Alone saltou os últimos degraus e pousou com uma das mãos sobre o chão e o olhar ferino focalizado em Harry.

Completou o espetáculo com um grunhido, emitido através dos lábios recobertos por batom escuro. Harry, olhando para a roupa preta e brilhante colada ao corpo e para os chifres pontiagudos sobre a máscara, completou:

-Capeta?

Alone levantou-se, olhando-o com desdém.

-Mulher-Gato, mané!

-Desculpe, para mim esses chifrinhos indicavam outro personagem.

-Onde conseguiu a roupa? – perguntou Adam.

-Customizei uma roupa de látex da Joyce.

-Fetiches bizarros de Juca Slooper – Joyce explicou-se.

-As orelhas felinas, e não chifres... – Alone olhou de soslaio para Harry – ...são feitas de cartolina, só colamos em cima da máscara. Quer conversar comigo, Potter?

-Não precisa afiar suas garras de felina. O mundo não gira em torno de você, Bernard, sua pretensiosa.

-Calma, eu só perguntei...

-Mas eu quero conversar com você, sim, em particular – disse Harry, parando ao lado da lareira. Alone atravessou a sala comunal para juntar-se a ele, ciente de que o olhar de Adam estaria examinando o seu corpo, as curvas graciosas que estavam acentuadas pela fantasia.

Quando chegou perto o bastante para que Harry pudesse protestar em voz baixa, o garoto da cicatriz apontou para Adam, irritado:

-Terminou comigo por causa dele, não é? Do galã de olhos azuis, você está interessada nele, é isso?

-Vamos com calma! – pediu Alone, ajeitando a máscara. – Estou interessada em Adam, sim. Mas o que motivou o término do nosso namoro não tem nada a ver com ele...

-Será mesmo, Alone? Tudo bem, a morte do Colin pode ter lhe abalado bastante, mas você já havia terminado com ele antes que Ted o atingisse. Você mesma disse pra mim que se sentiu culpada por tê-lo deixado pra trás quando voltavam pra escola...

-O primeiro susto se equipara ao segundo, eu pensei mesmo que meu pai tinha matado o Colin!

-Não, você usou essa suposta proteção como desculpa porque já estava interessada no Adam!

Alone cruzou os braços.

-E se fosse? Ia mudar alguma coisa?

-Pra mim, não. Alone, eu já dividi você com o Colin, não me importaria em dividi-la com o Adam. Se não reparou, ele é um pedaço de mau caminho.

-Esqueça, Harry!

-Por quê? Você é generosa nos seus namoros, sempre tem lugar pra mais um!

-Harry, minha vida amorosa não é um ônibus de cidade grande!

-Você toparia que eu sei. Qual o problema? Acha que Adam quer exclusividade e a quer só pra ele?

-Nem isso... Eu me ofereci pra ele hoje e ele... recusou – completou, as unhas da fantasia arranhando o espaldar da cadeira.

-Hum, ele contou que você andou se exibindo, mas não sabia que ele tinha recusado a investida. Isso é interessante... Lembro o quanto você era sedutora quando queria me conquistar. Se Adam também resistiu, ele deve jogar no meu time!

Alone riu.

-Nem conte com isso, Harry.

-Não se esqueça de que um dia você já colocou a mão no fogo pela minha masculinidade. Não aprendeu que a vida é uma caixinha de surpresas? Vai mesmo confiar que esse cara só curte garotas? Pois eu lhe digo que vou conquistá-lo primeiro que você. Quer saber? Também vou nessa festa cosplay. Tenho uma fantasia que vai deixar Adam de queixo caído. Não se desanime com o fora que ele lhe deu; vou conquistá-lo e depois juntá-la à nossa equipe!

-Então essa é a intenção de conquistar o cara por quem estou afim? Você quer formar um novo trio?

-Claro! Com um Super Homem desses, vale montar até uma Liga da Justiça!

-Harry, vai por mim, o Adam não joga no seu time e nem corta pros dois lados.

-É o que veremos... Não saiam daqui sem mim! Vou me fantasiar e já volto – ele subiu às pressas a escada circular para o dormitório.

-Ele também vai? – perguntou Adam contrafeito.

-Vamos precisar da Capa da Invisibilidade para sair, os alunos estão proibidos de sair do castelo, e a capa é dele – respondeu Alone, chegando perto de Adam e deslizando uma das unhas longas sobre o peito dele. – Se ele quer participar, não é justo deixá-lo aqui, já que ele fará esse favor!

-Estamos prontas! – disse Serena, cinco minutos depois, surgindo na sala comunal ao lado de Lanísia.

Serena vestia um casaco cor-de-rosa e uma saia curta da mesma cor em um tom mais claro. Os pés estavam calçados em botas brancas de cano alto; a franja loura escapava por baixo da touca cor-de-rosa, onde um par de óculos brancos completava a fantasia.

-Sou Penélope Charmosa.

-Tá mais pra Penélope Fogosa, isso sim – debochou Joyce, indicando de maneira depreciativa o decote generoso oferecido pelo casaco aberto à altura do peito. – Seus seios estão saltando para fora! A verdadeira Penélope usa uma roupa por baixo.

-Eu sei, mas vocês sabem como eu sou uma mulher calorosa!

-Penélope Charmosa: a fantasia perfeita para uma loura patricinha – comentou Alone.

Ao lado dela, Lanísia estava deslumbrante em seu vestido vermelho decotado, com uma fenda generosa que oferecia uma visão de suas coxas grossas. Os cabelos longos estavam pintados de vermelho, lisos e cheios, cascateando sobre as costas. As mãos estavam cobertas por luvas roxas, e ela as levou até os seios, erguendo um pouco a fenda do decote.

-Jessica Rabbit! – disse Lanísia, sacudindo as madeixas lisas e avermelhadas, jogando-as sobre um lado do rosto. – Peguei um longo vermelho e aumentei a fenda das pernas.

-Os atributos físicos de Jessica já são seus por natureza mesmo, não é? – disse Joyce. – Ficou excelente! A sua cara!

Harry desceu com a sua fantasia de Robin, ofegante. Os óculos redondos cobriam a máscara negra sobre os olhos; o uniforme de herói era completo, nas cores vermelho, verde e amarelo, com o característico R bordado à altura do peito dentro de um círculo.

-Comprei essa fantasia a pedido do Colin – disse o garoto em resposta aos olhares admirados. – Tinha um buraco no rabo, mas eu costurei, olhem só – explicou ele, empinando o bumbum.

-Pra que servia esse buraco no rabo? – indagou Serena.

-Pra tomar onde eu vou mandar você tomar daqui a pouco – falou Alone, irritada.

-E aí, grande Super-Homem? – Harry aproximou-se de Adam, malicioso. – Você sabe o que todo mundo diz sobre a sua relação misteriosa com o Robin? Que tal ir junto com o seu parceiro para a festa e darmos razão a esses boatos?

-Harry, quem supostamente tem um caso com Robin é o Batman – replicou Adam.

-Mero detalhe. Aproveitamos a noite e mudamos o histórico de relacionamentos do Super-Homem – disse Harry.

-Ele é bom – comentou Joyce com Alone, que concordou.

Serena agachou-se aos pés de Harry, encenando uma cena dramática com tanta emoção que quase derrubou os óculos brancos que cobriam a touca rosa:

-Oh, Robin, por favor, não tire minha grana para oferecer aos mais humildes, sei que sou rica, mas já faço minhas doações por conta própria!

-Quem tira dos ricos para dar aos pobres é o Robin Hood, anta! – ralhou Alone, erguendo-a do chão.

-É, devia ter percebido a diferença antes... – admitiu Serena, olhando bem para a fantasia de Harry, que mexeu na máscara negra enquanto a garota o avaliava. – O Robin do Harry não tem sobrenome.

Elas escutaram um esvoaçar de asas na janela e viram uma coruja marrom entrar no salão comunal e pousar numa mesa de canto. Serena correu até o animal.

-O que tem aí? – indagou Lanísia.

-Uma coruja – respondeu Serena.

-Eu sei que é uma coruja, imbecil, eu quero saber o que ela trouxe!

-Um pedaço de pergaminho – Serena conseguiu retirar o bilhete do bico do animal. – E, veja só, é pra você!

Enquanto lia, os olhos de Lanísia ficaram marejados e as mãos ligeiramente trêmulas. Alone e Joyce trocaram um olhar, já imaginando do que se tratava, mas Serena perguntou à Lanísia:

-O que é?

-É uma carta do meu amor.

-Roger Rabbit? – indagou Serena.

-Ok, esse papo de cosplay não está fazendo muito bem pra você – comentou Lanísia, irritada. – Acho melhor tirar essa fantasia e desistir da festa!

-Mas se não foi o Roger, quem escreveu?

Lanísia baixou a voz e respondeu:

-Augusto.

-O amor dela como Lanísia, e não como Jessica – explicou Joyce.

-Bem que eu pensei: Roger não poderia escrever uma correspondência com suas mãos de desenho animado – falou Serena. – Não faz sentido.

-É, só a dificuldade dele em escrever não faz sentido – retrucou Alone, encarando-a com impaciência.

-O que ele quer? – perguntou Joyce.

-Vou ler em voz alta.

"Lanísia, estou perto do castelo agora. Não sei se é possível, mas gostaria de vê-la. Podemos marcar na gruta ou tem algum outro lugar seguro para ficarmos à vontade? Mande a resposta através dessa coruja; depositei um galeão na bolsinha que ela carrega e ela não parou de sacudir as asas e dar bicadinhas carinhosas em meus dedos – o que, para mim, parecem sinais de satisfação.

Um beijo para todas as Encalhadas, em especial para Joyce, minha filha adorável, e para você, meu amor, e nosso filho tão amado e aguardado. Espero sua resposta.

Espero por você.

Augusto Welch".

-Percebem o que isso significa? – perguntou Lanísia após a leitura.

-Que essa coruja é uma biscate que roda bolsinha? – perguntou Serena.

-Não!

-Que meu pai está doido pra tirar o atraso com você?

-É, isso também, Joyce, mas isso significa, acima de tudo, que verei o Augusto esta noite. Eu pensava que ficaríamos tanto tempo longe e agora surge essa oportunidade incrível de encontrá-lo! – ela estalou os dedos. – Preciso de pena para escrever a resposta.

-Por que está olhando pra mim? – indagou Joyce. – Dizem que sou galinha, mas não tenho penas!

-Só tem quando é Joyce, hoje ela é Betty Boop...

-Fica na sua, Serena! – gritou Joyce.

-Eu ouvi alguém pedindo penas? – indagou Harry, aproximando-se com a capa amarela esvoaçando. Ele abriu o cinto do uniforme e tirou do encaixe uma longa pena cinza que passou para as mãos ansiosas de Lanísia.

-Hum, isso é que é cinto de utilidades! – elogiou Joyce; quando voltou a atenção para Lanísia, leu a resposta da amiga:

Estou saindo do castelo para participar de uma festa cosplay numa fazenda perto de Hogsmeade. Nos encontramos na gruta e vamos para lá juntos. Vou providenciar uma fantasia que mantenha seu rosto oculto.

Sempre sua,

Lanísia.

-Agora é só dar umas moedinhas para a coruja aqui levar direitinho a resposta para Augusto...

-Não, Lanísia, espera um pouco! – Joyce interrompeu. – Não pode encontrar o meu pai assim, bem no meio de uma festa, ficou maluca?

-Joyce, fique tranquila – pediu Lanísia. – Eu vou providenciar alguma máscara para cobrir o rosto do Augusto, assim ninguém vai notar! De qualquer forma, é óbvio que não vou circular com ele pela festa. O objetivo é aproveitar o momento para explorar os arredores.

-Arredores do seu corpo ou da festa? – indagou Alone.

-Dos dois lugares – Lanísia piscou um olho e cobriu parcialmente a face com mechas do cabelo avermelhado. Em seguida, abriu a janela e despachou a coruja antes que Joyce tentasse argumentar novamente. Ainda assim, enquanto via coruja desaparecer à distância, ouviu o comentário reprovador da amiga:

-Ainda não acho que isso seja certo...

-E desde quando algo que eu e o Augusto fizemos foi certo?

-Tá, Lanísia, mas agora é caso de segurança. Ted está lá fora doido para pôr as mãos em uma de nós, principalmente em você. Não é o momento para ficar sozinha com meu pai em encontros românticos.

-Joyce, o recado já foi enviado, não vou deixar Augusto na mão.

-Literalmente – disse Alone, fechando a mão direita em torno do pulso da esquerda e fazendo movimentos para cima e para baixo.

-Mas é assim que ele vai terminar a noite, a não ser que você não se importe de transar com ele na nossa frente.

-Joyce, está querendo dizer que...?

-Nós vamos acompanhá-la enquanto conversa com Augusto. Assim, no momento em que estiver distraída, estaremos prontas para agir.

-Ah tá, Joyce, quero ver como eu, você, Mione e Serena conseguiremos deter o Ted – falou Alone.

-É, a única heroína entre nós é a Alone, que está vestida de Mulher-Gato, cujo poder especial eu não faço a menor ideia de qual seja – disse Serena, olhando para a amiga. – O que a Mulher-Gato faz de tão extraordinário?

-Arranca a língua de mulas vestidas de Penélope Charmosa – retorquiu Alone.

-Ainda bem que sou humana, senão estava ferrada – riu Serena, suspirando de satisfação.

Alone fingiu que ia arranhar o rosto da garota com suas unhas pontudas, mas Serena recuou, rindo, sem notar a impaciência da amiga.

-Não é grande coisa, Alone, mas Lanísia estará mais segura com a nossa presença – insistiu Joyce. – Vamos ter o cuidado de usar a Capa da Invisibilidade para sair, mas, ainda assim, Ted tem o dom de aparecer em momentos inoportunos.

-Tá certo, eu aceito matar a saudade de Augusto sendo vigiada por duas personagens de desenho animado, uma dublê de popstar e uma heroína inútil – falou Lanísia. – Estou com a Capa de Invisibilidade do Harry aqui na bolsa.

-Ainda não devolveram depois daquele dia em que precisamos dela para verificar os tais símbolos que Colin desenhou antes de morrer? – perguntou Alone.

-Não, ainda não me deliciei invadindo o vestiário masculino – respondeu Joyce. – Por isso a capa continua por aqui.

-Não temos muito tempo e Mione já deve estar fantasiada de Jennifer Star a essa altura. Vamos? – indagou Lanísia, fechando a bolsa após conferir que a capa continuava ali.

-Claro... Adam e Harry, estamos indo! – Serena chamou os rapazes que conversavam próximos à lareira.

-Sei que podemos confiar em Harry, mas acha que Adam é confiável, caso escute algo sobre o Augusto? – perguntou Lanísia a Alone.

-Acredito que sim. Vê alguma ameaça nesse Super-Homem maravilhoso? – perguntou Alone, admirando-o de longe.

Em resposta, Adam sorriu para a bela Mulher-Gato, de modo tão atraente que arrepiou Alone.


Apressadamente, Hermione ergueu Jennifer do chão. Notou que a garota parecia aturdida, diferente do momento em que se apresentava, onde parecia ignorar a ameaça que a rondava.

-Eu conheço você! É uma Encalhada... Por que o Salão Principal está vazio? Quem virou o palco do lado contrário? – ela levou uma mão à têmpora como se estivesse enfrentando uma severa dor de cabeça.

-Jennifer, não há tempo para explicações. Você está assim porque estava enfeitiçada pela Maldição Imperius. A transição para o espelho deve ter quebrado o efeito do feitiço. Agora confie em mim, aqui está tudo pelo avesso e...

Ted levantava-se com a adaga em punho.

-Bosta de dragão! – xingou Mione, agarrando a mão da garota enquanto Ted avançava na direção das duas. – Corra!

Elas pularam do palco antes que Ted as alcançasse. O bruxo saltou em seguida. O Salão Principal era uma perfeita réplica do modo como estava organizado para o baile; as mesas redondas estavam dispostas por todo o perímetro, com seus abajures apagados, o ambiente recoberto pela luminosidade baça peculiar ao mundo dos espelhos.

Mione passava por entre as mesas, puxando Jennifer, tentando alcançar as vidraças do lado oposto. A cantora estranhou o caminho:

-Se estamos fugindo, não devíamos ir para as portas?

-A única porta de saída que temos por aqui são os espelhos – avisou Mione, empurrando uma mesa com o pé para atrasar a passagem de Ted. – Não sabia que resolveu agir em conluio com os próprios inimigos! – ela debochou dele.

-Inimigos? Não sei do que está falando, garota!

-De quem te colocou aqui! De quem está permitindo que você atravesse os espelhos!

-Quem está me ajudando é Rebecca, e ela está longe de ser uma inimiga.

Ela derrubava várias mesas à sua passagem, tentando atrasá-lo, mas Ted ria, ignorando seus esforços.

-Isso aqui não vai me deter, queridinha. Aqui tudo é possível... – ele, então, desaparatou, surgindo a poucos metros das garotas; Jen e Mione gritaram, as mãos descarnadas de Ted quase se fechando em torno do braço da cantora.

Na corrida, Mione agarrou uma cadeira e jogou contra a janela mais próxima, uma das vidraças dispostas a pequenos intervalos no salão. Mione abriu, assim, um portal luminoso que atravessou ao lado de Jennifer.

Elas saíram juntas no verdadeiro Salão Principal, sob os olhares de espanto de pessoas que se encolheram com o estouro da janela e a súbita aparição das garotas. Ted surgiu logo atrás, assustando Mione, que correu com Jennifer; com medo da adaga e de ser atingida por algum feitiço, resolveu arriscar o único meio de fuga que lhe passou pela cabeça e fechou os olhos quando avançou para a vidraça; tinha que conseguir...

Deu certo; o vidro sólido desapareceu quando investiram contra ele, como uma imagem holográfica; elas o atravessaram de volta para o Mundo dos Espelhos, sem parar de correr, pois Ted surgiu logo em seguida, atravessando a mesma vidraça.

Mione viu uma figura de vestes negras parada no alto do palco, observando com satisfação. Kleiton estava ali e, mestre do espelho, abrira todas as passagens, tornando todas as vidraças do Salão portais para aquele mundo... ou assim ela supunha.

-E agora? – indagou Mione. – Estou sem varinha!

-Deixa comigo! – disse Jennifer, tirando a varinha oculta debaixo da blusa e apontando para a próxima janela.

Estourou a vidraça e afastou os cacos para que ela e Mione passassem em segurança. Ted seguiu-as e ultrapassou o portal. Após uma passagem pelo mundo real, avançaram para a outra vidraça, que transcenderam para o Mundo dos Espelhos, completando um ziguezague.

Jen fez o mesmo na próxima vidraça, a penúltima, abrindo caminho entre os estilhaços. Entraram no Salão Principal real e lotado em que ocorria o Baile, depois passaram sem empecilhos de volta ao deserto e sombrio Mundo dos Espelhos pela última janela do Salão. Passando direto pela cópia invertida da Mesa Principal, entraram na sala que servia como camarim de Jennifer, com Ted em seu encalço.

Protegendo-se parcialmente atrás do sofá, ao lado de cantora, Hermione gritou ao bruxo que passava pela porta:

-Não foi Rebecca quem deixou você entrar! Foi Kleiton! – Ted estancou. – Ele está te dando corda para fazer com que você nos provoque e acabe se enforcando com a própria burrice! Não percebe que colocar uma Encalhada em risco não garante que o frasco passe para as suas mãos, mas pode levar uma delas a abri-lo só para eliminá-lo? É isso o que Kleiton quer, porque no momento em que aquele frasco for aberto, ele retorna e você vira pó!

Ted ficou em silêncio, refletindo nas palavras de Hermione.

-Minhas amigas têm a arma que mata você, Ted. Se me machucar, elas abrirão o frasco, sem hesitar. Não seja estúpido e deixe-nos sair daqui!

-Não dê ouvidos a ela... – "Rebecca Lambert" surgiu pela porta do camarim, os olhos faiscantes e vermelhos. – Está tentando enganá-lo, acabe logo com ela!

-Preste atenção nos olhos dela, Ted, essa não é Rebecca, é Kleiton! – gritou Mione, em desespero.

-Vamos desaparatar! – falou Jennifer. – Você o ouviu lá no salão, no espelho podemos fazer qualquer coisa dentro do castelo!

Mione negou.

-Eu tive uma ideia pra acabar com o Kleiton. Não vou perder a oportunidade de testá-la...

Ela tomou a varinha das mãos da cantora:

-Lumus!

Apontou o facho de luz que irradiou da ponta da varinha para a versão de Rebecca Lambert que tinha diante de si; o disfarce se desfez no limiar da dor. O berro feminino de Rebecca transformou-se no grito de Kleiton assim que a luminosidade o atingiu. As maçãs do rosto ficaram mais pronunciadas, o cabelo encurtou, os ombros se alargaram, e eles estavam, subitamente, diante de Kleiton Huggins e sua verdadeira face.

Ele caiu de joelhos, tentando cobrir o rosto com as mãos, que começaram a desprender fios de fumaça; a pele ficou vermelha, como se tocada por brasas incandescentes.

-Eu sabia! "Dentro da matéria, torna-se parte da matéria", era o que estava escrito no livro! – Mione levantou-se, concentrada, apreciando a agonia de Kleiton. – Cadê o bambambã dos espelhos quando é tocado pela luz?

Kleiton deitou-se no chão, aos berros, contorcendo-se enquanto a pele chamuscava; fumaça saía pelas narinas e entre os lábios.

Parado, Ted observava, satisfeito com o que presenciava.

-Isso, morra, desgraçado, morra e permita que eu seja novamente o homem belo e viril que sempre fui. Quero que daqui passe para as labaredas do inferno, que é o seu lugar!

-Não... Não, isso não vai adiantar... Imbecil... – murmurava Kleiton em meio aos gritos. – Se eu morrer, você continuará da mesma forma. O único meio de ter sua força recuperada é mantendo o frasco fechado até o término do ciclo lunar... Se me deixar morrer, nós dois perderemos.

Ted olhou, indeciso, para Mione e Jennifer. Olhou mais uma vez para Kleiton e, em seguida, com o olhar frio fixo nas garotas, avançou para as duas, erguendo o punhal.

-Não, Ted, por favor – gemeu Mione. – Não faz isso...

-Ai, ele vai nos matar! – exclamou Jennifer. – Vamos desaparatar, abaixe a varinha!

-Mas falta tão pouco... – disse Mione, frustrada.

-Não dá tempo! – falou a cantora, desviando a mão de Mione, que encerrou o encantamento.

Não havia tempo para matar Kleiton, como não havia mais tempo para desaparatar. Ted agarrara Jennifer pelo pescoço, numa chave de braço apertada.

Kleiton tentava levantar-se, enfraquecido, a pele reintegrando-se onde fora queimada. Ted falou apressadamente, encostando a lâmina da adaga no pescoço da cantora enquanto fixava o olhar lunático em Hermione:

-Pode prever o que vai ocorrer com a cantora se você e suas amigas abrirem o último frasco e eu estiver aqui, tão perto da Jennifer? Não será uma boa ideia tentar me matar... Agora que isso ficou claro, vamos combinar o seguinte: quero o meu frasco antes do amanhecer; se não aparecerem, mato essa daqui com a minha adaga. Sei que não é uma Encalhada, mas não vão querer derramar sangue inocente nessa trama de vingança que diz respeito somente a você e a suas amigas, vão? Porque foi o meu ódio por vocês que iniciou tudo isso. Se falharem, terão que conviver com o peso da culpa, pela morte de alguém que não tem nada a ver com isso.

-Tudo bem. Vamos para uma festa cosplay, numa fazenda, sei apenas que é de um sobrinho do Lorenzo Martin e que é perto de Hogsmeade. Nos encontre lá. Levaremos o frasco, mas não machuque a Jennifer.

-Ok, eu localizo a festa – respondeu Ted, desaparatando com um estalo, carregando Jennifer consigo.

Mione olhou para trás. Kleiton conseguira se erguer, a pele se recuperando aos poucos, sem nenhum vestígio de fumaça.

-Não podem entregar o frasco pra ele – vociferou o bruxo. – Se fizerem isso, Ted o manterá em segurança, longe de Hogwarts, até o término do ciclo lunar e eu não deixarei o espelho! Não... – um sorriso malévolo entortou os lábios de Kleiton. – Não haverá negociação, porque você não vai se comunicar com suas amigas, nunca mais!

Ele correu e saltou sobre as costas do sofá para alcançá-la. Hermione rolou no chão e apontou a varinha de Jennifer para o espelho ao lado da lareira, estourando o vidro e abrindo o portal luminoso. As mãos de Kleiton quase se fechavam em torno de seus braços quando Mione deu um pulo e atravessou a superfície oval do vidro.

Após a familiar sensação incômoda da transição, ela saiu do interior do par original do espelho, deixando-o às costas e apoiando as mãos no chão para aliviar a queda.

Ofegante, Mione levantou-se. Sentiu um nó desconfortável no estômago ao olhar para o camarim, totalmente ao contrário daquele refletido no mundo dos espelhos. Uma pontada de dor avisou-a de que havia algo errado em uma das mãos; ela olhou para a palma da mão direita e viu um fragmento do espelho encravado na pele. Com um gemido de dor, arrancou-o e jogou-o no chão.

Olhou para o topo do espelho quebrado e viu a assinatura, impressa nas bordas: Jennifer Star.

Agora precisava avisar às amigas sobre a negociação feita com Ted, salvar a vida de Jennifer o quanto antes e...

-Eu estava esperando que você ou Jennifer Star aparecessem para me esclarecer o que houve naquele Salão.

Minerva McGonagall estava parada junto à porta com os braços cruzados.

-Professora, eu não sei do que está falando...

-Srta Granger, Juca Slooper e Draco Malfoy estão nesse exato momento na ala hospitalar, fechando os cortes feitos nos pulsos. Ambos estavam dominados pela Maldição Imperius. Juca Slooper relatou um encontro com Ted Bacon antes de, subitamente, perder a noção dos próprios atos. O mesmo Ted Bacon que, antes de desaparecer levando você e Jennifer, saiu de dentro de um espelho da mesma maneira que você acabou de fazer. Sem contar os momentos assustadores em que você e Jennifer Star atravessaram as vidraças do Salão Principal de maneira mágica, como me relataram alguns alunos realmente impressionados, que acreditavam que tudo era parte do show. Eu sei que não era.

Minerva ajeitou os óculos e fitou Mione com seriedade:

-Sem mentiras. Conte-me como tudo isso é possível e o que está acontecendo aqui.


Lanísia, Joyce, Alone e Serena desciam a escadaria de mármore ao lado de Adam e Harry. Os dois rapazes seguiam mais à frente, deixando para as amigas a distância necessária para a troca de confidências. Lanísia, contente com a expectativa de estar com Augusto naquela noite, desatou a falar sobre a sua ansiedade.

-Por algum tempo cheguei a pensar que poderia ficar anos sem vê-lo novamente, foi uma baita surpresa, quero tanto encontrá-lo, e...

-Encontrar quem? – perguntou uma voz arrastada, desagradável.

Rebecca, parada no segundo degrau de mármore.

-Hum, vejo que estão fantasiadas – comentou, olhando de maneira debochada para o quarteto. – Não seria para ir até a festa cosplay que estão organizando perto de Hogsmeade? Claro que não, vocês não cometeriam tal audácia. E esse ele com quem quer se encontrar, Lanísia? É o seu querido professor? Hum, acho bom encontrá-lo mesmo, tirar o atraso dele. Augusto é insaciável, como sabemos muito bem. Se deixá-lo muito tempo sem se aliviar, é perigoso ele apelar pra carne fresca que está perto dele. Você sabe, Celine é um tanto exótica com aqueles olhos de cores diferentes, mas na hora que a situação aperta, ela é a mulher que estará no quarto ao lado, no mesmo esconderijo... talvez na mesma cama...

Lanísia fechou os olhos enquanto cerrava os punhos.

-Rebecca, pare com isso...

-O pior é que você talvez nem descubra, caso aconteça alguma coisa. Pode levar anos para descobrir. Ele pegou a mesma Celine de jeito e fez uma filha, sua amiguinha Joyce, e veja só por quanto tempo esse segredo foi guardado! Celine ainda está beirando os quarenta. Quem sabe ele não faz uma nova garotinha dentro dela...

Ela se deliciava com as reações de Lanísia.

-E você nem pode evitar, não é? O quanto é doloroso. Imagine só: marca um encontro com o professor Augusto e não pode vê-lo! Pobrezinha... Penso que a expectativa de pegá-la de jeito já o deixou excitado, em ponto de bala. Sabe o que acontece com os homens quando ficam assim? Eles precisam apagar o fogo de qualquer jeito. Você não vai, ele volta pro esconderijo em plena excitação, e quem encontra? Celine, oh, Celine, tão solícita em atender aos prazeres dele desde a juventude...

-Você acertou, Rebecca. Eu marquei um encontro com ele. Mas erra quando diz que eu não irei a esse encontro.

Rebecca gargalhou.

-Mas é claro que não vai! Eu vou impedir.

-Não são apenas os homens que enlouquecem quando são provocados. Mulheres também... Deliro com a expectativa das carícias de Augusto. Da mesma forma que você, mas, no meu caso, é uma possibilidade, enquanto pra você, apenas sonho.

Rebecca mordeu o lábio, irritada.

-Meu homem está perto de mim, e eu agora preciso diminuir toda essa excitação, espalhada em cada poro do meu corpo. Você não vai me deter.

Lanísia empurrou a inspetora. Rebecca perdeu o equilíbrio e torceu o pé, apoiando-se no corrimão para evitar a queda.

-Lanísia! – as Encalhadas chamaram, mas a garota já disparava pelo Saguão de Entrada, os longos cabelos avermelhados esvoaçando às costas.

Rebecca, mancando, seguiu-a, passando à frente das Encalhadas, continuando com as provocações:

-Como é horrível ouvir verdades, não é? Não suporta a ideia de perder Augusto, mas Celine é o primeiro amor dele. Já ouviu falar que o primeiro amor nunca é esquecido, jamais superado? – Lanísia ultrapassou as portas duplas do castelo; Rebecca em seguida, andando ao lado dela, disparando suas palavras, dardos prontos para espalhar o veneno do ciúme.

Alone, Joyce e Serena seguiam logo atrás.

Rebecca percebeu, ergueu a varinha acima do ombro e, num movimento, fechou as portas antes que as três garotas as cruzassem:

-Colloportus!

As Encalhadas recuaram, surpresas, e quando Alone tentou mover a maçaneta, viu que a saída do castelo tinha sido lacrada.

-Não conseguiremos abrir as portas até que o feitiço perca a força! – disse Alone, exaltada.

-Droga! – reclamou Serena. – Rebecca quer resolver isso sozinha.

-Nossa, o que vai acontecer com essas duas lá fora? – indagou Alone. – E Lanísia está com a Capa da Invisibilidade, como vamos para a festa agora?

-O pior nem é isso. Lanísia admitiu que meu pai está por perto. Se Rebecca falar com alguém da direção... Ele pode ser preso – Joyce suspirou.


Rebecca seguia Lanísia pelos jardins. Elas passaram a área iluminada pelo castelo e se embrenharam na escuridão da noite.

-Cada passo que der, mais pontos irá perder. Estou avisando, Lanísia!

-Estou me lixando para a pontuação das casas. Alone zerou nossa pontuação depois do escândalo que provocou no Salão Principal.

-Garota, pare agora ou vai arrepender-se. Vou dar um jeito de expulsá-la da escola!

-Não tem poderes para tanto. Só Minerva pode fazer isso, e duvido muito que acredite que não fui provocada por você.

Impulsivamente, Rebecca agarrou o cabelo de Lanísia, prendendo as unhas nos fios, detendo-a. Lanísia contorceu-se.

-Ai, desgraçada! Me solta!

-Eu mandei você parar! – vociferou Rebecca, trazendo Lanísia para perto de si pelos cabelos. – Lamento, mas terá que guardar a sua fantasia de Jessica Rabbit para outra ocasião. Quem sabe numa visita íntima em Azkaban?

-Não sabe onde ele está, não pode encontrá-lo!

-Mas você falará, nem que precise tomar Veritasserum para isso. Nem mesmo a sua diretora favorita poderá impedir.

Lanísia tentou libertar-se, mas a dor no couro cabeludo era muito forte.

-Mandá-lo de volta para Celine ou para Azkaban? Acho que a cadeia seria melhor, não concorda? Com ele preso, você dormirá mais tranquila...

Lanísia soltou-se e, em seguida, deu um tapa desajeitado no rosto de Rebecca. A inspetora reagiu depressa e a esbofeteou com gosto, espalhando uma ardência na face da garota. Lanísia ia retribuir o golpe, mas de repente a varinha de Rebecca interpôs-se entre as duas. Cautelosa, Lanísia recuou. Atrás da varinha, o rosto de Rebecca a desafiava, fora de si. Ela riu.

-Rebecca, o que pretende com isso?

-É noite de festa, Lanísia! Ouça... Escuta a música na estufa? Uma daquelas porcarias que vocês gostam hoje em dia, cheia de solos estridentes de guitarra para estourar os tímpanos. Há diversão por todos os cantos, exceto aqui – ela fez um gesto amplo, indicando o jardim escuro, a superfície negra e ondulante do lago. – Estamos tão afastadas que ninguém vai descobrir o que realmente aconteceu...

-SOCORRO!

-Isso, grita. Pode gritar. Ninguém vai escutá-la. Música alta impregnando ainda mais a mente alcoolizada dos seus colegas, não, nenhum deles pode impedir o que vai acontecer. Só preciso fazer a minha escolha.

-Que escolha?

-Acabar com você agora mesmo, com uma Maldição da Morte e depois jogá-la no lago, ou paralisar o seu corpo e deixar que a água cuide de eliminá-la, impregnando seus pulmões até deixá-la sem ar. Nas duas opções, o resultado é o mesmo: livro-me de duas vidas indesejáveis de uma só vez – ela lançou um olhar depreciativo para o ventre de Lanísia.

Rebecca ergueu a varinha. Insegura, Lanísia pareceu encolher-se. Sua reação provocou uma gargalhada na inspetora.

-Saiu desarmada, não é, Lanísia? É impressionante o quanto jovens garotas são descuidadas! Em noite de festa, preocupam-se tanto com a aparência que esquecem de carregar as varinhas. Agora, veja só, você nem tem como se defender...

Lanísia aproximou-se lentamente, cautelosa; os olhos escuros de Rebecca estavam arregalados.

-Você não é uma assassina, Rebecca...

-NÃO SE APROXIME! Fique longe de mim! Ninfeta nojenta; não vai mais me tirar homem nenhum. Enfeitiçou Augusto; depois conseguiu o mesmo com Ted... Por que rouba todos os homens por quem me interesso? Por que eu preciso ser sempre trocada por você?

-Rebecca, eu amo o Augusto, mas não tenho culpa pelo interesse do Ted...

-Tem sim. Está em você. Não percebe, mas está. Seu corpo, seu rosto, seus gestos. Tudo seduz. Você seduz sem perceber. Pode nem notar, mas extrai um prazer nisso. Quando é um homem que esteve envolvido comigo, então, acho que tudo fica ainda mais gostoso, não é? A velha rivalidade feminina.

-Me interessei por Augusto antes de saber que você existia! E Ted ficou fissurado em mim primeiro! Essa rivalidade é fruto de sua imaginação.

-Ted a teria esquecido se não o incentivasse!

-Eu não incentivei! Ele é um bruxo doente, obcecado!

-Mas dormiu com ele, que eu sei muito bem, e ele adorou. Disse que você estava gostando!

-É muito fácil enganar um homem. Gemidos, gritinhos, as palavras certas, e ele acha que você está delirando de tanto prazer. Vai dizer que nunca fez isso?

-Você podia não sentir tesão por ele, mas gostou de me irritar, de me tirar do sério, porque é o seu segundo passatempo favorito. O primeiro é seduzir os homens, e o segundo é me irritar! Por isso... Por isso eu vou me livrar de você.

Lanísia engoliu em seco.

-Rebecca, eu só quero ser feliz com o Augusto e o meu filho, mais nada. Não vou me intrometer em sua vida de maneira alguma, guarde essa varinha...

-Vê-los juntos, felizes, será a pura representação da minha derrota. Formará um lar com ele, e ao contrário de mim, dará certo, porque o que ele sente por você é diferente. Eu sei que é. Você levará a vida que eu sempre sonhei. Não posso permitir.

Lanísia percebeu que o momento final havia chegado.

-Não, Rebecca, não faz isso!

-Avada Keda...

-Não! – Lanísia jogou-se contra a inspetora, que perdeu o fio da meada ao desconcentrar-se e interrompeu o encantamento.

Rebecca deu dois passos vacilantes para trás, quase tropeçando em um tronco que cruzava o caminho, não chegando a cair devido à força de Lanísia, que segurou firme em torno da varinha da inspetora e tentou puxá-la para si. Alerta, Rebecca recompôs-se e envolveu os dedos em torno da parte superior, mantendo a varinha, de constituição rígida e feita de salgueiro, segura pelas extremidades enquanto Lanísia puxava pelo centro.

-Solta isso, garota! – ralhou Rebecca, trincando os dentes.

-Nunca! – ofegou Lanísia, os braços estremecendo pelo esforço desprendido no duelo pela posse da varinha. – Se eu soltar, você vai me matar...

Rebecca deu um puxão forte para trás; alguns dedos de Lanísia, impregnados de suor, escorregaram pela superfície da varinha; decidida, ela envolveu a mão com mais força, acompanhando o movimento súbito da inspetora, que riu de sua dificuldade.

-Sabe que uma hora não vai mais resistir; eu vou vencê-la, Lanísia...

Ela tentou uma nova investida, puxando com tanta força que de fato conseguiu arrancá-la das mãos de Lanísia, que deslizaram, úmidas, pelo corpo da varinha. O coração da garota confrangeu-se em pavor; por alguns momentos, em incredulidade, suas mãos ficaram paradas diante do corpo, agarrando o vazio.

Rebecca abriu um sorriso malévolo, a cabeleira negra desgrenhada misturando-se ao negror da noite, tomando distância da garota para evitar que Lanísia a impedisse de concluir o feitiço.

-Você é valente, Lanísia, e admiro muito o seu empenho de continuar viva. Pena que não adiantou...

Recuando com os olhos fixos na Encalhada para não perder nenhum movimento, Rebecca tropeçou em uma pedra saliente e caiu de costas, a cabeça batendo contra o tronco deitado no chão, produzindo um estalido seco, o pescoço virando num ângulo desajeitado.

A varinha rolou dos dedos imóveis, caindo ao lado do corpo inerte.

Assustada, Lanísia suspirou em alívio, olhando a inspetora imóvel, um fio de saliva formando-se ao lado da boca aberta. Sem perder tempo, aproximou-se dela, sem tirar os olhos de seu rosto, e agachou-se, pegando a varinha.

-Bruxa dos infernos. Devia aproveitar que está desacordada e fazer com você tudo o que planejava para mim. Mas, felizmente, eu não sou igual a você.

Lanísia arrastou o corpo de Rebecca e escondeu-o atrás de um arbusto. Enquanto o fazia, a inspetora resmungou algo ininteligível e imobilizou-se outra vez. Lanísia tirou a Capa da Invisibilidade da bolsa e cobriu-se com ela, desaparecendo. Jogou a varinha da inspetora pouco antes de chegar aos portões abertos, por onde passou por Filch, sem provocar ruído.

Conforme se aproximava da gruta, a emoção crescia dentro dela. E se por algum motivo ele não tivesse recebido a resposta? Algo poderia tê-lo impedido de alcançar a gruta?

Curvou-se na entrada, tirando a capa. Atrás de uma rocha surgiu a abertura que levava à cachoeira.

E ela o viu.

Uma alegria inexplicável inundou o seu peito enquanto ela olhava para Augusto, de costas, uma figura imóvel em contraponto com a cortina de água cristalina. Como se sentisse sua presença, Augusto virou-se para ela, mechas do cabelo cheio caídas sobre a testa, uma camisa azul-clara abotoada até a altura do peito. Usava calças brancas simples e sandálias nos pés. Estava sem a aura de importância que as vestes magníficas de vice-diretor produziam, mas para Lanísia era um detalhe insignificante.

Ela correu para os braços dele, envolvendo-o num abraço, depois procurou a boca dele com urgência. Beijou-o enquanto as mãos percorriam-lhe o corpo.

-Você está aqui... Está aqui... Nem posso acreditar, parece um sonho! – disse Lanísia, beijando-o mais uma vez.

-Não podemos ficar aqui mesmo? Estou que não me aguento de tanta saudade... – ele aplicou-lhe mordidinhas na orelha.

-Ei, controle-se! – pediu Lanísia aos risos. – Aqui é muito perto da escola. Nos arredores da festa estaremos mais seguros e com um pretexto para ocultar o seu rosto, embora seja quase um pecado esconder tanta beleza – ela estendeu para ele uma máscara de pano vermelha.

Augusto colocou-a, deixando visíveis apenas as áreas dos olhos e aquela que ia do nariz até o queixo.

-Podia ter providenciado a fantasia completa – ela justificou-se – a minha ideia era vesti-lo de The Flash, aquele super-herói vermelho que corre quase à velocidade da luz, mas não tinha como conseguir da noite pro dia...

-Não era preciso – ele tocou-a no rosto. – Porque a melhor coisa que faremos essa noite, faremos sem fantasia... – sussurrou provocante ao pé do ouvido. – Sem roupa.


Quando Alone, Joyce e Serena passaram pelo Salão Principal para procurarem por Hermione, notaram pela atmosfera de comentários e murmúrios que algo havia saído fora do roteiro do Baile. A névoa que cobria o chão era aspirada pela varinha de Flitwick enquanto a professora Sinistra bradava "Reparo" diante das longas vidraças do Salão que tinham sido inteiramente quebradas. Os comentários variavam; enquanto alunos comentavam, fascinados, a respeito do espetáculo, pais de alunos e professores reclamavam sobre os perigos do rock´n roll.

-E tem mais: esse tal de Axel Carver também não é flor que se cheire – elas ouviram Valeria Burns comentar com um bruxo baixinho que compunha o júri. – Tem o hábito de quebrar guitarras durante os shows e alguns integrantes dos Esdrúxulos já chegaram a matar ratazanas no palco e cobrir-se com vermes! Esse estilo musical não faz bem para ninguém! Depois de simulações suicidas e janelas quebradas, já posso imaginar o que vem por aí.

As garotas entreolharam-se, confusas.

-O nível das próximas apresentações deve estar muito baixo também – o bruxo nanico comentou com Valeria. – Veja aquelas garotas! Tem uma Penélope Charmosa no meio, é verdade, mas aquela toda de preto está fantasiada de capeta.

-É Mulher-Gato, manézão – reclamou Alone, mostrando as garras da fantasia e fingindo um miado.

Passaram pela Mesa Principal e bateram à porta do camarim de Jennifer Star.

-Jennifer, está aí? – perguntou Joyce. – Hermione?

As três tomaram o primeiro susto quando Minerva McGonagall abriu a porta; o segundo, ao registrarem a tensão no rosto da diretora.

-Que bom que estão aqui. Já ia pedir para chamá-las.

Elas entraram. Hermione estava sentada no sofá, calçando botas de cano alto. Quando se levantou, as meninas puderam perceber que ela estava usando peças do figurino de Jennifer: uma calça jeans apertadíssima com estrelas bordadas e uma blusinha curta cor de pêssego.

-Mione, o que está acontecendo? – perguntou Joyce. – Cadê a Jennifer? Por que a diretora está aqui?

Ela contou de maneira resumida tudo o que havia acontecido na abertura da apresentação de Jennifer e como tudo culminara no Mundo dos Espelhos com Ted sequestrando a cantora.

-Tá, eu não quis interromper, mas você disse que ele forçou Juca a se machucar... de que modo ele fez isso?

-Usando a Maldição Imperius, Joyce. Por isso Juca estava estranho quando o encontramos no banheiro. Ted já havia ordenado que ele se matasse durante a apresentação, por isso, também, ele nos perguntou onde ficava o camarim da Jennifer. Ted enfeitiçou Juca e o obrigou a fazer o trabalho sujo; Juca amaldiçoou Jennifer e Draco, enquanto Ted permanecia no Mundo dos Espelhos para locomover-se com tranquilidade pelo castelo.

-O Juquinha está bem mesmo? – perguntou Joyce à amiga, mas quem respondeu foi a diretora.

-Está. Tivemos que amarrá-lo para Madame Pomfrey conseguir fechar os cortes. Eu lancei o contrafeitiço, mas Ted é tão hábil em executar a Imperius que Juca continuava tentando chegar à cama do lado para cortar os pulsos de Draco Malfoy, e vice-versa. Juca já se levantava capengando com um bisturi da enfermaria na mão quando Madame Pomfrey o impediu de cortar o Draco.

-Kleiton tentou fazer com que a ira de Ted o prejudicasse – Mione voltou a explicar. – Desse modo, abriríamos o último frasco e ele estaria livre. No entanto, no último momento, Ted percebeu que estava sendo enganado e conseguiu um trunfo, que é a Jennifer. Se abrirmos o frasco, ela morre junto com ele. Por isso estou aqui, terminando de me arrumar... – Mione escolheu um par de brincos e virou-se para Alone. – Amiga, pode colocá-los pra mim? Então, vamos para a festa cosplay encontrar o Ted e devolver o frasco a ele. Assim salvaremos a Jennifer... Ficou bom, Alone?

-Sim, os brincos são lindos!

-Então iremos para a festa com a autorização da diretora? – indagou Serena, impressionada.

-Sim, e sua fantasia rosa-choque e a de suas amigas indicam que fariam isso de qualquer maneira – respondeu Minerva. – Serão escoltadas pelos professores Flitwick e Ipcs, que acompanharão de longe caso Ted tente romper o acordo e machucar uma de vocês. Podia convocar guardas do Ministério, mas não quero que descubram que Jennifer Star foi raptada por Ted Bacon. Se conseguirem resolver isso, podemos abafar o caso. Tudo de que Hogwarts menos precisa agora é de um novo escândalo – ao dizer isso, os olhos por trás dos óculos se fixaram em Alone e, depois, pareceram procurar alguém que não estava presente, outra Encalhada que a palavra escândalo evocava automaticamente. – Receio que falte uma Encalhada aqui.

-Ah, é... – Joyce remexeu-se, inquieta, erguendo o decote do vestido de Betty Boop. – Lanísia... Lanísia desistiu porque não estava se sentindo muito bem e resolveu ficar no dormitório. Enjoos, desejos bizarros, tonturas, sabe, coisas de grávida! – Joyce forçou um sorriso.

-Que bom, é melhor mesmo que ela fique por aqui – falou Mione. – Ted tem verdadeira fixação por ela. Poderia perder o controle e quebrar o acordo. Imaginem os dois assim, tão perto, não ia prestar... – seu sorriso morreu quando ela percebeu que as amigas trocaram olhares preocupados.

-Vou convocar Flitwick e Ipcs, aguardem aqui – disse Minerva; quando ela saiu, Mione encostou a porta do camarim e voltou-se para as amigas.

-Lanísia não está no quarto, não é? Por que mentiram?

-Ela saiu do castelo enquanto brigava com Rebecca – respondeu Serena. – Não pudemos acompanhar, Rebecca selou as portas. Ficamos no saguão de entrada por algum tempo, mas as duas não voltaram.

-Ai, isso é preocupante – comentou Mione, passando a mão pela testa.

-Demais – concordou Alone. – Algo aconteceu na briga entre as duas e Lanísia ainda está nos terrenos de Hogwarts ou ela conseguiu sair do castelo e está perto de Ted sem saber.

-E o pior: não está sozinha – completou Joyce.

-O professor Augusto está com ela? – perguntou Mione, exasperada.

-Sim.

-Joyce, o que o seu pai tem na cabeça? Mas que droga! O pior é que eu marquei com o Ted justamente na festa cosplay! Se ele topar com Augusto e Lanísia por lá, tudo irá desandar!

-Bom, ela está com a Capa da Invisibilidade, talvez seja cuidadosa e esteja usando – sugeriu Serena.

-Aqueles dois juntos? Duvido, amiga... – disse Joyce. – A capa só iria atrapalhar o que eles provavelmente farão juntos.

-Para todos os efeitos, Lanísia está no dormitório com enjoos da gestação – falou Alone. – Ninguém pode saber que ela está se encontrando com Augusto.

-Eu lancei um facho de luz contra Kleiton, usando a varinha da Jennifer – disse Hermione, pensativa. – Se tivéssemos seguido a minha ideia desde o início, todas entraríamos juntas no espelho, estaríamos com o frasco e realmente detonaríamos os dois.

-Então você estava certa? – perguntou Joyce, com uma pontada de remorso.

-Sim. Kleiton esfumaçou por todos os lados como uma chaleira com água fervida – disse Hermione. – Agora Ted tem Jennifer e não temos nenhuma escolha a não ser entregar o frasco a ele.

Enquanto elas remoíam-se em arrependimento, Minerva retornou.

-Flitwick e Ipcs já estão nos esperando. Só precisaremos de mais alguns minutinhos para aguardar Juca Slooper.

-Juca?

-Sim, Joyce, Madame Pomfrey veio me avisar que o efeito da maldição finalmente cessou e ele insiste em ficar perto de você. Os cortes foram cicatrizados e ela dará um tônico para repor as energias, ele deve tomá-lo de hora em hora. Acho que seria melhor oferecer a ele uma Poção do Sono, mas...

-Não, professora, não faça isso. Eu cuido do Juca, pode deixar.

-Aqui está uma taça cheia de Poção do Sono – Minerva passou para a garota. – Madame Pomfrey passará o tônico ao Juca... Joyce, não prefere ficar na escola? Suas amigas podem resolver isso com o Ted enquanto você cuida do Juca, não acho que seja uma boa ideia deixá-lo sair hoje...

-Não vou deixar minhas amigas sozinhas, professora – Joyce sorriu para as garotas. – As Encalhadas estão sempre juntas para o que der e vier.

De um dos bolsos da fantasia de Penélope Charmosa, Serena retirou o frasco, a preciosidade disputada por Ted Bacon e Kleiton Huggins.


No Salão Principal, uma enorme bandeira vermelho e ouro levitava em uma das paredes, trazendo o emblema do leão da Grifinória. Marjorie observava enquanto o namorado tirava fotos com a equipe, fotos que teriam destaque no anuário de Hogwarts.

-Agora faremos uma imagem com cada um dos jogadores. Podem estar acompanhados pelas namoradas – avisou o fotógrafo, um sujeito gorducho de bigode à escovinha.

-Tudo bem... Marjorie, venha aqui! – disse Rony, chamando-a.

Ela ajeitou o vestido amarelo e adiantou-se. Juntou bem o corpo ao lado de Rony, abraçando-o pela cintura. Ele, por sua vez, tinha as mãos ocupadas; em uma segurava a vassoura e, em outra, uma goles.

Para Marjorie, aquilo era uma grande realização; ter fotos imensas no anuário, enquanto os colegas comuns sairiam em tamanho minúsculo. Merecidamente. Ela tinha o seu goleiro e não podia ser comparada aos outros.

Após as fotos, Rony foi até a mesa das bebidas. Ela, por sua vez, foi até o saguão de entrada aguardá-lo. Tomou um susto quando ouviu uma voz sinistra, perfurante, sair da janela mais próxima.

-Muito bom, irmãzinha... – debochou Kleiton. – Tem um namorado popular. É alvo de fotógrafos, faz poses sensuais para sair em lugar de destaque no anuário de Hogwarts. Quem diria que uma garota tão desprezível um dia conquistaria tanto? Mamãe, particularmente, nunca esperou. Para ela você sempre foi a experiência que deu errado.

-O que você quer?

-As Encalhadas deixarão o castelo rumo à uma certa festa cosplay organizada numa fazenda perto de Hogsmeade. Os funcionários que colaboraram com o baile sabem onde fica. Tudo indica que elas levarão consigo o último frasco. Eu preciso que pegue esse frasco para mim. Consiga e eu não tento levar o seu namorado a enfiar um pedaço pontiagudo de vidro no próprio coração.

-Então, se falhar?

-Ele morre – respondeu Kleiton simplesmente. – O tempo está passando, Marjorie. Meu frasco em troca da vida do homem que a guindará para o topo da escala social de Hogwarts. Só depende de você.

Rony surgiu no saguão segurando uma taça; Marjorie olhou para ele e, quando voltou a atenção para a janela, o reflexo de Kleiton já havia desaparecido.

-Sabe o que é isso? – Rony perguntou. – Uma vodca especial que, diz o Lorenzo, não deixa de porre a não ser que se ultrapasse trinta taças! Quer um gole?

-Não, obrigada. Tive uma ideia excelente, Rony! – ela exclamou, mexendo na gravata dele. – Que tal fugirmos de Hogwarts para participar de uma festa cosplay?

-Vi alguns dos ajudantes de Lorenzo falando sobre essa festa, mas eles podem sair do castelo. Esqueceu o toque de recolher?

-Daremos um jeito! Vá ao dormitório e improvise uma fantasia, em no máximo dez minutos nos encontramos no Saguão de Entrada – disse Marjorie, apressada, vendo as Encalhadas fantasiadas deixando o Salão Principal.

-Vai levar alguma amiga? Marjorie, não estou entendendo o motivo de tanta pressa e... – Rony parou de falar, notando as cinco Encalhadas vestidas como diferentes personagens.

Receoso, percebeu o que estava prestes a acontecer.

Marjorie tinha a intenção de segui-las. Marjorie, a garota que queria matar Hermione...

-Vamos perder a última dança do baile, Marjorie – ele disse, apressado. – Por que ir agora? Logo haverá outra festa cosplay para participarmos, talvez possamos organizar algo no Lorenzo´s, ou aqui em Hogwarts mesmo, não tem porque deixarmos uma festa aqui para participar de outra...

Ela levou um dedo aos lábios dele, calando-o.

-Em dez minutos, aqui no Saguão.

Rony viu Juca Slooper, equilibrado numa bengala, descendo a escadaria de mármore e reunindo-se ao grupo, recebendo um abraço de Joyce. Enquanto as garotas atravessavam as portas de carvalho, ele foi subitamente invadido por uma vontade quase incontrolável de avisá-las de que Marjorie estava de olho nelas... talvez tramando alguma coisa.

-A professora Minerva quis lhe oferecer uma Poção do Sono, Juquinha, mas eu recusei – dizia Joyce ao marido, mostrando-lhe uma taça de ouro fechada com uma tampa. Juca Slooper sorria apalermado com o carinho oferecido por ela. – De qualquer modo, fiquei com uma taça, para o caso de você sentir dores durante a noite. Vamos resolver tudo isso sem problemas e ainda aproveitaremos a festa à fantasia.

Tomado por uma ideia súbita, Rony correu até o grupo e pediu, olhando ansiosamente para Joyce:

-Oi... – ele olhou rapidamente para Mione. – Joyce, poderia me dar um pouco dessa poção?

-É Poção do Sono, Rony, está com insônia? – indagou Joyce.

-Não... Mas é importante. Eu prometo que explico depois.

-Tudo bem... – intrigada, Joyce passou a taça para as mãos dele. – Pode ficar com a taça e depois colocá-la ao lado da cama do Juca.

-Obrigado – ele agradeceu, disparando pelo saguão de entrada.

Assim que viu-se num corredor, sozinho, entornou quase metade da taça de Poção do Sono na vodca especial de Lorenzo. Escondeu a taça atrás de uma armadura e voltou a correr.

Alcançou Marjorie quando a garota estava perto da pintura que dava acesso à sala comunal da Lufa-Lufa. Ela olhou-o com censura.

-Eu avisei que não temos muito tempo, o que está fazendo aqui?

-Achei que poderia me ajudar com ideias para a fantasia – disse Rony, fazendo pausas para tomar fôlego.

-Aproveite o cabelo ruivo e vista-se de Tintim. A roupa do personagem é simples. Só tome o cuidado de fazer o topete bem avantajado... – olhou para a taça que Rony estendia em sua direção. – Já disse que não quero!

-Ah, vamos, tome um golinho. É deliciosa e não vai deixá-la embriagada.

Marjorie olhou para a taça por um momento, antes de suspirar e pegá-la das mãos de Rony.

-Está certo – ela disse, virando a bebida toda num único gole. – Pronto, agora vá se fantasiar ou eu vou sozinha! E se eu me sentir tonta na festa, a culpa será toda sua.

-Não vou demorar, nos encontramos no saguão – disse Rony, virando-se e andando lentamente, de olhos fixos na garota.

Tudo parecia normal até que, após quatro passos, Marjorie precisou apoiar-se à parede para não cair.

-Rony? – ela chamou. – Rony, ainda está aí? Ai... – ela tropeçou, derrubando um vaso de flores que se partiu no chão de pedra. – Rony?

Ele sorriu, satisfeito, antes de aproximar-se dela.

-Oi, querida, estou aqui – segurou-lhe uma das mãos.

-Acho que Lorenzo mentiu a respeito dessa vodca... Estou me sentindo tão mal, tão cansada...

-Calminha, fique calma, um dos colegas da Lufa-Lufa na certa vão levá-la para dentro do salão comunal e você poderá descansar.

-Não... Não posso descansar... – olhou para ele, os olhos quase se fechando, as pálpebras trêmulas. – Eu preciso fazer a vontade dele... Dele... Não posso... – parou para bocejar. – Não posso cair no sono...

Encostou-se à parede, e nela foi deslizando lentamente para o chão.

-Terá que adiar a maldade prevista para hoje, Marjorie – murmurou Rony, olhando para a garota sem piedade.

Ele então andou rumo ao saguão de entrada, deixando-a sozinha no corredor, perdendo as últimas palavras que Marjorie murmurou antes de adormecer:

-Se eu dormir... ninguém abrirá o frasco... Kleiton... Kleiton vai matar Rony... Perderei a minha fama... perderei... Se as Encalhadas... passarem o frasco... ao Ted... Kleiton... Vai... matar... Rony...

Seu traseiro então tocou o chão, a cabeça pendeu para o lado e Marjorie dormiu.


N/A: Pessoal, o capítulo estava muito longo, por isso dividi em 2 partes. A segunda parte não deve demorar. Aguardo as reviews e até o próximo capítulo!