Capítulo 35 – A descendente das Trevas

Os papeis a sua frente o faziam franzir a testa, eram tantos documentos que tinha que ler e reler, compreender e pensar se assinava ou não. Sempre vira Dumbledore mexendo neles quando ia vê-lo, mas nunca teve curiosidade em saber sobre o que era e agora sentia que deveria ter perguntado.

- O documento sobre os registros de nascimento do próximo ano deverá ser enviado para o Ministério até a próxima segunda feira. Os arquivos de detenções e castigos são catalogados juntamente com as fichas dos alunos e os arquivos médicos tem que ser revisados e catalogados antes do começo do próximo trimestre.

Snape somente balançou a cabeça enquanto conferia os documentos em cima da mesa. Os recebera ainda aquela manhã diretamente do Ministério que conseguira terminar o extensivo trabalho de verificar as fichas dos alunos e conferir eventuais informações sobre suas ancestralidades bruxa. No fim foi Severus que pagou por isso tudo tendo que arrumar os documentos por si só. Por sua sorte já era noite de Natal e não havia alunos na escola para aprontar alguma coisa e lhe dar dor de cabeça lidando com os Carrow querendo castigá-los. Assim não precisava pensar rápido para tirá-los das mãos dos comensais da morte loucos para tirar o sangue daquelas crianças, mas tinha que confessar que não era nada sábio ficar encaminhando os alunos para Hagrid a todo momento, acabaria gerando duvidas nas mentes daqueles comensais idiotas e isso não seria nada bom para seu disfarce, por isso teve que se obrigar a ver os rostos machucados e os alunos internados na ala hospitalar pelos cruciatus que os comensais executavam neles em seus castigos. Ele não podia fazer nada e isso era o que mais o deixava irritado.

- Não acredito que estou tendo que perder tempo com isso tudo aqui. – Disse jogando alguns papéis no chão quando se levantou. – Me sinto um inútil. Potter está lá fora sabe se lá onde e o Lord simplesmente viaja para longe em busca de algo que ainda não consegui descobrir. Eu deveria estar fazendo algo de importante para ajudá-lo, ajudar Potter a ficar vivo.

- Ajudá-lo a voltar para você.

- Duvido muito que isso aconteça algum dia. – Disse Snape com um suspiro.

- Você sempre foi muito pessimista, Severus. Nem sempre tudo é um mar de coisas ruins, muitas vezes coisas boas acontecem.

- Prefiro não acreditar em algo tão bom assim, Alvo. Prefiro me assegurar de que ele não voltará para mim, que estará vivo, mas longe.

- Sei que tem medo de se machucar. – Disse Dumbledore mexendo-se levemente na cadeira em sua moldura. – Mas um pouco de esperança sempre é bom.

- Não tenho tempo de ter esperança. – Disse o homem sentando-se novamente e permanecendo por horas calado apenas se concentrando em seu trabalho. Quando terminou olhou no relógio e viu que era quase meia noite. – Preciso ir buscar um livro na área reservada da biblioteca.

- Severus, já é quase meia noite de Natal. A ceia está servida no salão principal e você deve estar cansado. Deixe isso para amanhã, vá se divertir.

- Me divertir? – Perguntou Snape em tom de zombaria. – Você só pode estar brincando comigo, Alvo.

- E por que eu estaria brincando? Você não é de ferro, Severus. Tem que dar um tempo para você também.

- Alvo. – Começou Snape em pé apoiando a mão nas costas de sua cadeira e olhando para o quadro com um olhar cansado e expressão exausta. – Estou realmente cansado, estou exausto. – Confessou passando a mão nos cabelos e os colocando para trás. – Tem horas que acho que não conseguirei seguir em frente, que não tenho forças para aguentar tudo isso, Suportar o Lord, os comensais, proteger as crianças e ainda seguir com nosso plano. Mas ai eu penso nele e nela, em como estão sozinhos jogados ao destino como dois mártires e sei que não posso parar. Eu preciso continuar, eu necessito encontrar um jeito de encontrar a filha do Lord e de ajudar Potter a derrotá-lo. Eu tenho que impedir que ele chegue ao ponto de ter que se entregar a morte.

- Você sabe que ele tem que fazer. Eu disse a você isso. Harry precisa se entregar a morte para derrotar Voldemort. É a única forma.

- Não. – Disse Snape firmemente deixando os nós dos dedos brancos de tanta força. – Tem que haver outra forma e eu vou encontrá-la, mesmo que não queira ajudar.

- Já disse que há um feitiço no nome da descendente, não posso lhe dizer o nome dela e nem onde está.

- Não importa, eu vou encontrá-la.

- Como pensa em fazer isso?

- Continuarei pesquisando, estou bem próximo de descobrir, preciso apenas de mais um livro.

Snape deu as costas para o ex-diretor e saiu porta afora descendo as escadas em caracol e atravessando os corredores vazios. Caminhou em silêncio pensando em todas as coisas que sempre enchiam sua cabeça. Sua capa esvoaçava no chão como uma sombra dependente, seus passos eram rápidos, porém silenciosos. Parecia que ele não queria que percebessem a sua presença e no fundo não queria, queria apenas passar despercebido por tudo, sumir de vista. Mas ele não podia simplesmente sumir ou simplesmente virar as costas para tudo o que estava a sua volta. Toda a escola que caia em suas costas como uma carga obrigatória a qual estava fadado a tomar conta.

Seus olhos avistaram Filch no fim do corredor esfregando a parede e resmungando alto com aquela gata aos seus pés. Quando passou por eles avistou o grande desenho na parede feito por algum grupo de rebeldes mostrando sua eterna lealdade a Potter. O leão fora muito bem pintado e o pomo de ouro voava sobre a cabeça dele sendo seguido por um menino magricela de óculos redondos e uma cicatriz de raio na testa. Ao contrário do Leão, Harry estava tão feio que Snape sentiu uma tremenda vontade de rir, mas segurou-se no último instante.

- Patético não é? – Perguntou a voz grossa no fim do corredor.

- O que faz aqui, Amico? – Perguntou Snape perdendo a vontade de rir e fechando a cara para o comensal que se aproximava.

- Não senti a mínima vontade de ir para a mansão Malfoy, preferi ficar aqui e esperar alguns alunos entrarem em encrenca para castigá-los, assim vão se dar conta de que sair por ai escrevendo "Armada de Dumbledore ainda resiste" é idiotice.

- Sua felicidade em tirar sangue me comove. – Disse Snape sem um único pingo de interesse fazendo até mesmo Filch olhá-lo com surpresa. – Perdeu algo em meu rosto Filch? – Perguntou voltando-se para o zelador.

- Não senhor, diretor. – Respondeu o homem com sua voz rouca voltando a atenção para o balde com solução de remover tinta.

- Ótimo, volte para seu trabalho e você Carrow...

- Eu o que Snape?

- Saia da minha frente.

Amico olhou para Snape com raiva, era sabido por muitos que os dois não se suportavam, mas por puro desprezo Snape nem ao menos lhe reservava atenção. Mesmo querendo muito enfrentar Snape, o comensal apenas fez uma careta de desgosto enquanto encarava o rosto impenetrável de Snape e lhe deu espaço dando um passo para o lado. Snape passou sem lhe dar um único aceno de gratidão e continuou até chegar a biblioteca onde encontrou Madame Pince sentada com seu coque muito bem apertado e suas roupas justas. A mulher iria lhe dizer alguma coisa, mas quando o viu e percebeu quem era apenas abaixou a cabeça voltando sua atenção para o livro em suas mãos.

Snape atravessou o recinto apressado até chegar a sessão reserva. Demorou alguns minutos para conseguir encontrar o que precisava, mas quando finalmente encontrou o livro desejado e o retirou da prateleira sentiu um alívio tão grande que se esqueceu de qualquer outra coisa. Folheou as páginas antigas e observou os nomes passarem diante de seus olhos ansiosos. A cada página que passava os dedos sujavam-se de pó, a ansiedade aumentava e em seu braço esquerdo a marca negra começava a arder em igual grau.

Sua testa começou a suar quando a dor no braço se intensificou, era quase o suficiente para tirá-lo de sua consciência, mas não podia perdê-la, tinha que permanecer consciente, continuar folheando e procurando, ela deveria estar ali, em uma daquelas páginas, em uma daquelas linhas. Seu coração batia forte dentro do peito, aquele livro era o que precisava, era o último que podia procurar, que podia consultar, sua última esperança e as folhas estavam acabando. Foi quase na última página que a encontrou no meio de um monte de nomes antigos, seu nascimento registrado e perdido em um antigo livro dos registros escolares.

- Achei você, Alexandra Morsteng. Achei você. – Sussurrou sentindo que a dor logo atingiria seu ápice.

Rapidamente rasgou a página do livro e guardou aquela folha em seu bolso interno, com esforço levantou-se e pegou o livro para guardá-lo na prateleira, mas nesse exato momento a dor foi demais, explodiu em seu braço como se o próprio Voldemort tivesse tacado fogo nele. Um grito forte e rouco saiu de sua garganta quando caiu no chão com força batendo a cabeça. No fundo conseguiu ouvir a exclamação de surpresa de Madame Pince que viera correndo para ver o que acontecera, mas a dor era tão intensa que não conseguia entender o que se passava ao seu redor, a única coisa que realmente entendia era que o Lord estava muito furioso e em sua mente ele só conseguia ouvir uma frase curta dita na voz de Voldemort. "Eu o perdi".

As mãos de Pince estavam em seus ombros e a mulher tentava segurá-lo, pois Snape se debatia no chão de tanta dor, mas ela era tão magra e fraca que era melhor apenas se afastar e olhá-lo gritar. Snape sentia como se as unhas do Lord estivessem arranhando sua pele, tirando tira por tira como uma faca em brasa. Seu estômago revirou e ele vomitou sujando seu queixo. Seus cabelos grudaram na testa e seus olhos quase reviraram nas órbitas, mas quando pensou que iria finalmente morrer seu corpo parou de se debater e ficou no chão arfando com força e sentindo-se mais dolorido do que jamais esteve em todas as sessões de cruciatus que levara na vida. Voldemort estava colérico. Quando conseguiu manter a respiração constante e enxergar com clareza o homem ameaçou levantar-se devagar. Madame Pince foi ajudá-lo, mas Snape apenas a afastou com força.

- Não preciso de sua ajuda. Saia daqui. – Rosnou entre dentes limpando o queixo na capa. – Eu disse SAI.

Madame Pince o olhou com reprovação e se levantou saindo devagar da biblioteca e deixando Snape sozinho e tremendo. Um novo grito saiu de sua garganta e se espalhou pela biblioteca enquanto seu corpo derrotado se entregava ao fim de sua sanidade e se deixava cair. Em um momento de desespero o homem rasgou a capa e viu a marca tão negra quanto seus olhos pulsando em sua pele como se tivesse vida. Exausto deixou seus olhos fecharem e esperou deitado no chão. O tempo passou e ele esperou. O relógio andou e ele esperou até que finalmente a dor cessou. Sumiu tão rápido como quando viera, simplesmente estava ali e agora não estava mais.

Devagar apoiou sua mão na estante e fez força para se erguer. Olhou ao redor e percebeu que em seu ataque sua magia destruíra os livros ao redor fazendo-os espalharem-se pelo chão em um amontoado de páginas velhas e rasgadas. Poderia arrumar tudo aquilo, estava tão cansado que simplesmente estralou os dedos e um elfo apareceu na sua frente.

- Chamou Gutir, senhor diretor?

- Sim. – Disse Snape secamente sem se importar com o nome da criatura. – Arrume toda essa bagunça.

Sem dizer mais nada saiu da biblioteca sentindo seu corpo tremer a cada passo, mas mantendo-o ereto como se nada tivesse acontecido, mesmo que a manga rasgada em seu braço não estivesse exatamente escondida. Madame Pomfrey estava do lado de fora, aguardando e soltou uma exclamação quando viu o homem sair pela porta.

- Você não contará nada para ninguém. – Sibilou Snape aproximando-se da mulher apontando o dedo para seu rosto.

- Sim, diretor.

A bibliotecária observou o homem andar pelo corredor devagar e visivelmente dolorido, no fundo, atrás das barreiras da raiva sobre ele havia um resquício de pena que a fez continuar observando-o até que sumisse na esquina. Devagar entrou na biblioteca e soltou um xingamento que jamais soltara na frente de outra pessoa. Gutir, o elfo, levantou as orelhas de surpresa, mas logo continuou seu trabalho usando sua magia para que se arrumasse tudo. Algumas prateleiras já estavam em seu lugar com os livros devidamente colocados e organizados por ordem de assunto.

- Mas o que houve aqui? – Se perguntou Madame Pince caminhando entre os livros que ainda não foram arrumados.

A mulher continuou caminhando até o corredor onde ele estivera antes e parou diante do livro aberto no chão com uma página rasgada. Franziu a testa questionando-se o motivo dele querer alguma coisa com aquele livro. Abaixou-se e o pegou fechando-o e passando a mão pela capa.

"Mérlin e seus descendentes corrompidos"

A dúvida pairou sobre a mente da bruxa, mas não encontrando uma resposta plausível para aquela busca Madame Pince apenas resmungou pela página rasgada e devolveu o livro para seu devido lugar na prateleira. Enquanto isso Snape adentrava ao escritório do diretor ainda fraco e parava de chofre ao ver a movimentação entre os quadros.

- O que aconteceu? – Perguntou diretamente para Alvo.

- Fineus ouviu a senhorita Granger quando ela abriu a bolsa em busca de um remédio, parece que eles foram atacados por Nagini, pois ela disse que a mordida da cobra não fora tão profunda.

- Quem foi mordido?

- Harry.

Snape levou a mão a boca e fechou os olhos com força. Não sabia se naquele momento rezava ou esquecia-se de tudo. Só sabia que desta vez teria que esperar alguma resposta. Não poderia entrar nos sonhos dele novamente, a última vez o desgastou completamente, quase anulou sua força vital e o levou a morte. Com determinação engoliu o medo e abriu os olhos encarando Dumbledore.

- Encontrei o nome dela, preciso ir atrás. – Disse indo até a mesa e arrumando alguns papeis antes de sair.

- Espere. – Disse Dumbledore quando Snape deu as costas e foi em direção a porta. - Sei que precisa ir, mas peço que aguarde um pouco. Preciso de você aqui para fazer uma tarefa muito importante.

- Que tarefa?

- Fineus está o tempo todo de vigia em seu outro quadro. Assim que Hermione disser onde estão preciso que leve a espada para Harry.

- Sabe que levei a espada para o cofre em Gringotes, está no cofre de Belatriz, não posso simplesmente ir até lá e pegá-la novamente.

- Aquela espada é falsa.

Snape pensou que haveria um burburinho ensurdecedor por parte dos quadros, mas para sua surpresa eles ficaram calados e apenas escutavam com atenção.

- Antes de morrer, eu tive que encantá-la para que ficasse escondida comigo e assim ninguém a pegaria em vão. – Dizendo isso o quadro girou para frente evidenciando um buraco onde repousava a espada de prata de Godric Griffindor. – Tive que colocar uma falsa no lugar, pois sabia que corria perigo e somente Harry pode pegar essa espada, se alguém de Voldemort a pegar o menino jamais conseguirá fazer o que tem que fazer. Dei uma dica a ele dizendo que em meu testamento queria que ele ficasse com ela. Certamente o Ministério não permitiu por não ser um pertence meu, mas espero que ele tenha entendido o quanto é importante ele ficar com ela.

- E quanto tempo terei que esperar? Eu tenho o nome da descendente, Alvo, posso ir atrás dela agora mesmo.

- Não, preciso que você fique, precisamos aguardar notícias deles.

- Aguardar a menina Granger abrir a bolsa e nos dizer onde estão, mesmo que não tenha feito isso até agora?

- Ela está desesperada, sozinha e cuidando de Harry. Por mais inteligente que ela seja, uma hora ela deixa algo escapar.

E por sorte essa hora não demorou a chegar. Snape já estava impaciente enquanto lia e relia aquela página rasgada várias e várias vezes prendendo-se no nome da mais importante bruxa da linhagem de Mérlin. Sua descendente Alexandra Morsteng, uma poderosa bruxa que nasceu muitos anos depois e que fora a única a carregar em seu sangue o poder que regia Mérlin. Apesar dos familiares ficarem muito felizes por finalmente ter alguém tão poderoso assim em sua casa, Alexandra não era nem de longe parecida com o grande mago. Ela era impiedosa e trazia em seu olhar uma frieza desigual, não se importava com ninguém e se divertia caçando e matando animais e por vezes pessoas que se metiam em seu caminho. Por anos ninguém quis impedi-la, ela era forte demais para eles, até que seus familiares se afastaram e com a ajuda de outros bruxos igualmente fortes conseguiram prendê-la em uma caverna encantada onde seus poderes eram nulos. Ela tinha apenas nove anos quando a deixaram naquela caverna para sempre.

Era a vigésima vez que lia aquele texto quando Fineus apareceu em seu quadro dizendo onde eles estavam. Era aquele momento, o momento em que tanto esperava. Pegou a espada atrás do quadro de Dumbledore e a guardou em uma bolsinha pendurada no cós de sua calça escondida pela capa. Olhou uma última vez para Dumbledore e partiu para fora do castelo em direção a Floresta de Deão e de lá para um lugar distante que exigiria mais do que imaginava de sua força. Snape esperava que não fosse muito frio em Moscou.

Quando seus pés finalmente tocaram o chão Snape sentiu o vento frio bater em seu rosto como um carinho doloroso. Seu hálito virava fumaça no ar. Estava tão escuro e silencioso que chegava a ser aterrorizante, não para ele é claro, escuro e silêncio não eram nada para quem andava na beira do inferno como ele, sendo sempre esperado pelas almas condenadas que arrancara dos inocentes. Aquele lugar chegava a ser tranqüilizante para ele, um possível lugar onde poderia repousar em um futuro distante e quase não existente.

Devagar deu outro passo a frente, mas naquele lugar um mínimo passo era suficiente para gerar um barulho ensurdecedor. Sem se mexer pegou a varinha e recitou um feitiço que faria seus passos, além de silenciosos, não marcarem a neve onde passava. Caminhou pelo escuro da floresta procurando por ele, estava ali em algum lugar e precisava achá-lo, vê-lo. Depois de alguns minutos andando a esmo entre árvores velhas sua mão tocou algo no ar e sua mente lutava contra a vontade de ir embora. Havia feitiços ali, feitiços de ocultamento e confusão que garantiriam que quem estivesse por ali não os encontrassem e fosse embora o quanto antes. Mas as habilidades de Hermione Granger não eram suficientes para alguém como ele que facilmente podia conter a vontade de ir embora e desfazê-los com um aceno de varinha.

Mas desfazer os feitiços seria idiotice, eles ficariam desprotegidos demais. Tinha que pensar, não podia simplesmente passar pela barreira e estender a espada para o menino. Primeiro, pois Dumbledore lhe disse que ele teria que pegá-la sendo corajoso, segundo porque Potter usaria para matá-lo. Precisava pensar. O homem continuou andando em volta da barreira sentindo-a tremer na ponta de seus dedos até que conseguiu pensar em uma maneira de chamá-lo e um lugar para deixar a espada. Com rapidez correu para dentro da floresta e voltou alguns minutos depois.

Naquele momento foi preciso toda a sua força para executar o feitiço, pois a cada pensamento feliz vinha um que o derrubava. Mas no fim ele conseguiu apenas se segurar no fato de que em alguns minutos veria Harry na sua frente, não em um sonho, não no meio de uma guerra, mas na sua frente novamente, seu Harry após meses de angústia pela falta de notícia. Seu Harry que o invadia em sonhos e lembranças. Foi pensando nele que Snape ergueu a varinha e sussurrou o feitiço.

- Expecto Patronum.

Da ponta de sua varinha saiu a tão conhecida corça, a imagem de Lilian que chamava quando se sentia sozinho e com saudades do sorriso dela. Mas desta vez ela estava diferente, sua forma não era mais tão delicada nem tão pequena. Estava maior e mais forte e em sua cabeça havia uma pequena galhada nascendo. Era um cervo jovem, era Harry personificado em seu patrono, não mais Lilian. Snape sentiu sua mão tremer na varinha quando o patrono veio em sua direção e tocou o focinho com cuidado em sua barriga. Ele ficou ali parado até que Snape conseguiu lhe dizer o que precisava.

- Vá.

O patrono caminhou lentamente pela relva forrada de neve e ultrapassou a barreira dos feitiços, logo ela sumira de vista, era apenas uma luz mínima distante e que foi engolida pela escuridão, mas estava ainda viva, Snape podia sentir isso. Rapidamente usou um feitiço de desilusão e aguardou ansioso. Os minutos passaram e ele já começava a ficar irritado com a espera até que avistou a luz no meio da escuridão aumentando lentamente. Seu patrono caminhava entre as árvores com segurança e elegância que não eram compartilhadas com o menino que o seguia. Harry olhava extasiado para o patrono e caminhava tropeçando nas raízes grandes das árvores. Havia momentos em que quase corria. Snape ficou por um tempo parado apenas o olhando vir em sua direção e sentiu uma enorme vontade de abrir seus braços e o embalar em seu peito, apertá-lo com força e beijar seus lábios. Mas Harry não o enxergava e por isso passou ao seu lado correndo e continuou seguindo o patrono.

O mestre de poções correu em seu encalço até que o viu parado na beira do lago congelado. Snape ficou atrás de uma árvore grande, seu coração palpitava fortemente enquanto via o menino inutilmente tentar feitiços simples para pegar a espada no fundo.

- Vamos, Potter, pense.

O sussurro de Snape fora incrivelmente fraco, mas suficiente alto para que o menino virasse a cabeça em sua direção procurando o autor do barulho. Snape não se incomodou em seu esconder, apenas ficou encarando os olhos verdes e confusos dele, perdendo-se em sua imensidão. Estava perto agora, só precisava dar mais alguns passos a frente, mas não podia, só podia ficar olhando-o quebrar o gelo com a varinha e devagar iniciar o tortuoso ritual de tirar a roupa. Enquanto Harry tremia sentindo o frio bater em sua pele branca, Snape tremia com o desejo que queimava lhe a alma cada vez que via um peça de roupa dele cair ao chão. Seus olhos brilharam banhando-se no corpo jovem que outrora dormira agarrado ao seu.

Havia algumas marcas novas em seu peito, cicatrizes recém adquiridas e que queria muito poder beijar, mas de resto era o mesmo corpo que lhe deixava excitado. Seu abdômen estava agora liso como sempre fora antes de ter engravidado, nem mesmo parecia que tivera acolhido ali uma pequenina criança. Sua filha que estava agora distante e perdida de sua vista. Snape apoiou o braço na árvore e sua cabeça no braço segurando-se para não ir até ele e o beijar com força nos lábios roxos de frio. Não podia negar que não imaginara o tamanho de sua emoção ao vê-lo, pensou que conseguiria se controlar melhor, assistir a tudo como se nada importasse, mas não havia como, o amor era poderoso demais.

Harry mergulhou na água congelada e Snape ficou do lado de fora contando os segundos para que ele saísse de lá, para que sua cabeça aparecesse na superfície da água e ele respirasse profundamente o ar gelado que queimaria seu pulmão, somente nesse momento poderia ir embora cumprir com seus afazeres e se conformar que aquela talvez fosse a última vez que o visse.

Mas Harry não subiu. Vários minutos se passaram e ele continuou embaixo da água. Snape deu um passo a frente olhando atentamente e quando ouviu batidas abafadas no gelo grosso se preparou para pular e o pegar antes que se fosse, porém nem mesmo conseguiu dar o primeiro passo, pois Rony Weasley passou correndo ao seu lado chegando a triscar em seu braço e se jogou completamente vestido na água. Snape voltou para trás da árvore e esperou, em segundos a cabeça de Rony emergiu na superfície e agarrado ao seu braço estava Harry. O alívio foi tão grande que Snape se reservou um sorriso antes de confirmar que ele conseguira pegar a espada.

Então tudo caiu sobre si e Snape se deixou sentir o desgastante pesar de ter que se distanciar novamente de algo tão puro como Harry. Um menino tão cuja a alma incandescia de luz, mas uma luz que não chegava até Severus. Harry não mais o iluminava, ele estava perdido e abandonado. Harry era especial, percebia isso enquanto via os dois meninos, amigos, se olhando e se protegendo. Harry era tudo, ele não era nada.

Bateu a mão silenciosamente na árvore, teria que ir embora, sair da sua vida, ele não pertencia mais a Harry. O que ainda estava fazendo ali? Por que se condenava a dor? Com os olhos queimando Snape deu as costas aos dois e se distanciou, o anjo foi deixado para trás e o verme estava indo embora lentamente caminhando para longe de sua luz. Quando chegou longe o suficiente para não mais sentir a presença dele, Snape retirou de seu bolso a página rasgada do livro e se concentrou no destino. Prendeu-se aos olhos verdes e girou o corpo sentindo-o desprender do chão e vagar no infinito até que sentiu seus pés baterem no chão duro. Quando abriu os olhos não havia mais árvores ao redor, não havia galhos cheios de neve e nem lagos congelados. Estava no meio de uma rua larga com prédios colados uns aos outros estendendo-se infinitamente pela rua escura e molhada pela recente chuva.

O homem caminhou sentindo dor no rosto maltratado pelo vento, mas não parando e nem reclamando. Depois da provação que teve afastando-se novamente de Harry um pouco de dor era bom. Seus olhos esquadrinhavam as casas e os prédios procurando o lugar certo, sua mão mantinha-se agarrada a varinha e atentava-se a qualquer possível ataque pelas costas. Como comensal da morte Snape sabia muito bem quando estava sendo observado ou seguido, por sorte nenhuma das sensações aconteciam naquele momento, ele era apenas um homem solitário caminhando sozinho em uma rua vazia.

Seus passos aceleraram quando se viu perto do prédio que estivera buscando. Após alguns segundos finalmente se viu diante de um prédio antigo e de aparência abandonada e pobre. Havia um muro alto ladeando ele e um portão de ferro na entrada que estava claramente fechado com correntes élficas. Somente a pessoa que colocou aquelas correntes poderia abrir o portão. Não havia outra entrada, então precisava pensar como o Lord entraria caso a entrada ficasse impossibilitada. Seria uma forma que somente ele pudesse fazer. Foi somente depois de pensar um pouco e descobrir os feitiços protetores que percebeu que havia uma única maneira de entrar ali sem que os feitiços o detectassem e Snape sorriu com o fato de que aqueles feitiços não o impediriam, não quando já chegara tão longe assim.

Concentrando-se o máximo que conseguia Snape deu um pequeno impulso nos pés e ergueu-se no ar. Sentia-se grato por Voldemort lhe ensinar aquilo, apesar de o motivo ser apenas a precisão de um servo que conhecesse esse truque para outros fins, Snape não podia negar que a sensação de voar livre no ar era deliciosa. Pairou sobre o prédio vendo que seus pensamentos estavam corretos. Voldemort deixou seus feitiços preparados para impedir que outra pessoa entrasse pelos muros, pelo portão ou voando em qualquer tipo de veículo, mas deixou que os feitiços permitissem a entrada de alguém voando sem veículo, como somente ele saberia fazer, sorte que o Lord esquecera-se do fato de que Snape também sabia isso, ou que jamais imaginou que seu servo mais leal chegasse até ali.

Mas Snape deixou aquele prédio e o motivo de estar ali de lado por um único momento de prazer pessoal, fechou os olhos e se ergueu mais alto no céu descarregando naquele ato a tensão de tudo que passara até ali, as dores e tristezas, as alegrias e alívio. Esvaziou a mente de qualquer pensamento possível, até mesmo e especialmente sobre Harry e sua filha. Por um momento apenas se deixou existir e sentir. Subiu e subiu, seus cabelos esvoaçaram ao vento forte e seu peito encheu-se de ar com a respiração forte. Será que poderia atingir o céu se continuasse a subir? Será que existia um céu para ele, um lugar tranqüilo onde estaria destinado a ir? Será?

- Não.

O sussurro verdadeiro perdeu-se entre as nuvens do alto céu de Moscou e Snape se deixou cair em escuridão despencando para o chão duro, mas antes que batesse no asfalto girou o corpo para o lado e ergueu-se pelo muro parando diante da janela do penúltimo andar onde a abriu e se esgueirou para o corredor abandonado. Não podia negar que jamais imaginou que Voldemort iria deixar uma descendente das trevas, mãe de sua filha ficar naquele prédio abandonado, mas teve que admitir que era um lugar tão improvável que provavelmente Voldemort não imaginou que alguém poderia achá-lo ou sequer pensar nele, muito menos ter imaginado que alguém chegaria tão longe a ponto de saber que ela existia.

Sua varinha estava erguida diante de seu corpo iluminando o caminho sujo de entulhos que o atrapalhava. Quando chegou ao último cômodo do corredor viu que havia luz por baixo da porta. Devagar apertou mais a varinha na mão e estendeu a mão para girar a maçaneta, porém antes que conseguisse a porta abriu e atrás dela apareceu uma mulher de olhos intensos e cabelos loiros caindo em cachos soltos pelas costas. Seu rosto era anguloso e belo como a mais linda princesa dos reinos encantados que as famílias trouxas contavam em histórias idiotas de crianças. Os olhos de Snape caíram sobre seu corpo perfeitamente escondido por um pequeno vestido preto que ia até sua coxa deixando de fora as pernas torneadas e um pé delicado em uma sandália prateada. Um sorriso se espalhou pelo rosto dela antes de lhe estender a mão.

- Olá, Severus, estive esperando por você, demorou demais.

- Alexandra Morsteng?

- Ou como me chamava antes em pensamento "a maldita descendente das trevas".

N/A: Olá pessoal, desculpem a demora em postar, estava realmente sem inspiração, mas aqui está mais um capítulo. Porém aviso que ficarei ai uma semana sem postar, pois vou me concentrar em meu livro, mas logo logo posto mais... ok...então me deixem reviews muito legais que posto com muito gosto...

Sandra Longbottom: Oieee... que bom que gostou do capítulo, estão ficando mais difíceis de escrever, mas estou fazendo o meu máximo, Gina tem um trabalho muito importante em capítulos adiante, não podia matá-la. McGonagall é uma veia foda. Bom, o próximo capítulo será sobre a herdeira das trevas, ou pelo menos a mãe dela. Bjussssss

Alma Frenz: A cena de Gina percebendo o amor de Snape foi importante porque vai ser crucial no momento da batalha. Achei que estava na hora de Snape e Harry ter um outro encontro caliente, estava faltando. Achei que o final ficaria muito legal com ele descobrindo que Harry ainda o amava e como assim você está sem net? E o resto da fic? Vou morrer, eu vou morrer, estou sentindo em meu âmago...

Eloisa: Valeu pelo review, espero que tenha realmente apreciado o quanto de misto eu coloco nesses capitulos, tem amor, raiva, pena, raiva, dor e raiva... rsrsrs... o encontro de Harry e Snape realmente foi interessante e bonito.

Tonks Fênix: Eu tenho esse dom de fazê-los odiar e amar ao mesmo tempo, não se preocupe que a vingança de Snape esta terminada, não há mais nada para se vingar, mas Gina será uma peça importante mais adiante, lembre-se disso. Harry na verdade já meio que sabe meio que se nega, mas isso será visto só mais a frente. Bjusss

Renata: Foi difícil imaginar o feitiço usado pelo Snape, mas tive que inventar algo intenso e que o desgastasse demais. No fim, pelo menos serviu para que ele percebesse o amor de Harry, Gina será importante daqui a alguns capítulos.

Mulamxd: Que bom que voltou... espero que tenha apreciado esse capítulo, logo logo posto mais, lembre-se do castigo de Gina, será impoirtante futuramente.

Mr. Snape: Muitas coisas ainda acontecerão...