Título: Os Corações Da Questão

Autora: Lab Girl
Categoria: Bones, B&B, 5ª temporada, romance/drama
Advertências: Os temas a serem abordados nesta história são de conteúdo adulto, com linguagem e situações muitas vezes inapropriadas para menores. Favor levar em consideração o alerta antes de prosseguir com a leitura!
Classificação: variando do R ao NC-17
Capítulo: 36/?
Status: Em andamento


Os Corações da Questão
por Lab Girl

Parte I: Graus de Aproximação


#36: Um Pouco Mais Perto


Temperance abriu os olhos devagar... inspirou.

E sentiu.

O cheiro dele.

O cheiro de Booth.

Seu rosto de imediato voltou-se para o lado. Para o espaço na cama...

Vazio.

Uma sensação estranha pareceu encher seu peito. Algo como... decepção. Com um toque de melancolia.

Suspirando, Temperance virou-se de lado, seus olhos encontrando o teto branco. Vazio. Como sua cama. Como sua vida.

Tentando conter a repentina vontade de chorar, ela forçou o corpo a se levantar. Tocando o chão frio com os pés descalços, caminhou até o banheiro da suíte. Jogou um pouco de água fria no rosto e escovou os dentes mecanicamente.

Seria seu primeiro dia de trabalho depois do horror que haviam sido aqueles dias trancada em casa, sem poder se aproximar do Jeffersonian. Mas, surpreendentemente, ela não estava animada com a expectativa. E era a primeira vez que o trabalho parecia não exercer aquele efeito anestésico sobre ela, às vezes tão bem vindo.

Secando o rosto com a toalha, pensou no toque carinhoso de Booth em seus cabelos na noite anterior... tinha sido tão bom. Tão certo... adormecer ao lado dele.

Mas despertar sem ele não parecia certo.

Tentando afastar o pensamento, Temperance jogou a toalha sobre a bancada da pia e voltou ao quarto, calçando os chinelos.

Foi então que sentiu um aroma conhecido.

Café.

Apurando o olfato ela inspirou, tentando certificar-se. Pé ante pé, Temperance deixou o quarto e atravessou o corredor. Quando seus passos alcançaram a sala e ela pôde visualizar com perfeição a cozinha, seu coração deu um salto repentino.

De costas, a figura masculina, vestindo uma impecável camisa branca e uma calça social acinzentada manejava a cafeteira.

Temperance sentiu os batimentos dobrarem de intensidade. E mesmo que quisesse, não saberia impedir o sorriso espontâneo que se formou em seus lábios.

Ela não soube dizer por quanto tempo permaneceu ali, de pé, observando Seeley Booth preparar o café. E assim que ele virou-se de frente para ela, notando finalmente sua presença, ela suspeitou que se não fosse pelo movimento dele possivelmente teria continuado a admirá-lo em silêncio.

Assim que os olhos escuros e vivos pousaram em sua figura, ele arqueou as sobrancelhas em sinal de surpresa.

"Bones!" um pequeno sorriso brotou nos lábios dele.

"Você passou a noite aqui?" a pergunta escapou dos lábios dela enquanto entrava pela cozinha.

"Bom dia para você também" Booth disse, com um sorriso debochado.

"Desculpe, eu não quis parecer rude" ela apressou-se em dizer. "Acordei e não vi você..." murmurou, súbita e estranhamente tímida. "Achei que tivesse ido embora, mas então senti cheiro de café..." seus olhos encontraram os dele; e seu coração saltou uma batida.

Ele voltou-se para o armário suspenso que ficava acima da pia, abrindo e pegando duas canecas. Em seguida, depositou-as sobre o balcão que servia de mesa, diante do qual Temperance sentou-se.

"Eu não quis deixá-la sozinha ontem... pouco depois que você adormeceu fui me deitar no quarto de hóspedes" ele explicou-se, indo em direção à cafeteira.

Temperance sentiu-se feliz com a informação. Ele havia passado a noite em seu apartamento. Mesmo sabendo que ela estava bem, Booth não quisera deixá-la sozinha... a noção trouxe uma sensação quente ao peito dela.

"Não faz muito tempo que acordei" ele continuou falando enquanto retirava o café recém preparado da máquina. "Como tinha uma muda de roupas de trabalho limpas, pensei em sair daqui direto para o Hoover... mas pretendo passar no hospital antes, para ter notícias do John."

"Byers..." Temperance suspirou, lembrando-se do colega do parceiro que havia sido atingido por um tiro no dia anterior. "Eu também quero saber notícias dele. Posso ir com você?"

Ela sabia que não era necessário. Mas não podia deixar de sentir uma ponta de responsabilidade pelo ferimento do agente, afinal, fora por sua insistência que Byers tinha ido com ela até o local onde acabou sendo baleado por Cindy Vega.

Só que, para além disso, ela queria ficar mais algum tempo na companhia do parceiro. Por menos nobre que tal razão pudesse parecer.

"Claro. Pode me acompanhar, se quiser" Booth disse displicentemente, despejando a bebida quente em cada uma das canecas sobre o balcão de mármore.

"Obrigada" ela agradeceu.

Booth sorriu, oferecendo-lhe uma das canecas cheias. Quando Temperance estendeu a mão para aceitar a bebida, seus dedos tocaram os dele no gesto, e uma espécie de corrente elétrica varreu a extensão de seu braço, enviando um arrepio por todo seu corpo. E ela se perguntou como podia se sentir tão vulnerável com um simples toque.

O contato perdurou algum tempo... e seus olhares se encontraram, prendendo-se um ao outro e estabelecendo aquela espécie de intricada armadilha que vez ou outra Temperance não conseguia evitar.

Ela definitivamente não sabia mais entender nem interpretar as próprias reações. Apenas sabia que sua necessidade de contato físico com o parceiro havia se tornado muito mais forte e inegável nos últimos tempos...

"Bones..." ele murmurou, os dedos roçando os dela numa espécie de provocação que Temperance não sabia dizer se era ou não proposital.

Ela não conseguiu responder. Nem compreender por que ele havia chamado seu nome... ou melhor, seu apelido... que para ela já soava como um segundo nome. E não soube se queria mesmo entender a partir do momento em que nada mais parecia existir além da respiração de Booth, da presença quente e certa dele à sua frente...

Sem pensar, sem planejar, Temperance ergueu-se da cadeira... sua mão que segurava a caneca juntamente com a dele se abaixou... e seus rostos se aproximaram...

Por um instante o mundo pareceu diminuir lentamente a rotação. E em questão de segundos, voltou a girar depressa demais, ao som estridente de um celular.

"Oh, mer...!" Booth quase praguejou baixinho, afastando-se e levando a mão ao bolso da calça.

Temperance sentou-se novamente, suspirando enquanto o observava atender a ligação, experimentando uma estranha sensação de que seu coração parecia afundar dentro do peito.

~.~

"Bom dia, agente Booth!" a voz animada de Andrew Hacker soou do outro lado da linha, apenas aumentando a frustração de Seeley.

"Ah, oi" o agente respondeu, nitidamente contrariado e sem a menor preocupação em disfarçar.

"Tudo bem com você?" Hacker perguntou, parecendo desconfiar de sua pouca vontade em atender.

"Não, tudo bem" Seeley comprimiu os lábios assim que terminou de responder, esforçando-se para não levar os olhos até a parceira que estava sentada à sua frente.

"Bom, eu estou ligando porque Cullen solicitou que você apresente o relatório sobre o caso Cindy Vega amanhã bem cedo."

"Eu estava justamente indo para o Bureau a fim de começar o relatório do caso" Seeley informou, contendo a irritação. "Ainda preciso passar no hospital para saber qual é a real condição do agente Byers, o que também deve constar no relatório."

"Claro, claro" Hacker comentou do outro lado, com a entonação irritantemente alegre que lhe era característica. "Achei por bem avisá-lo logo, já que o Cullen está em cima de mim cobrando o encerramento da investigação."

"Entendo" Seeley murmurou, compreendendo logo que Hacker queria passar a pressão diretamente para seus ombros.

"Bom, então eu vou aguardar o seu relatório ansiosamente amanhã de manhã. Você tem um dia para elaborá-lo, acho que não precisa de um prazo maior, certo?"

"Certo" Seeley retesou a mandíbula, impaciente.

"Excelente!" Hacker exclamou. "A propósito, agente Booth... quando estiver com a Temperance diga a ela que estou com saudade e mandei lembranças, sim?"

Seeley pôde imaginar perfeitamente o sorriso idiota no rosto do superior... e imaginou também seu punho desmantelando cada um dos dentes impecavelmente brancos.

"Claro. Direi a ela" então seus olhos finalmente pousaram de novo sobre a parceira.

Brennan o observava em silêncio, e ao vê-lo olhar para ela, arqueou as sobrancelhas.

"Ótimo. Tenha um bom dia então, agente Booth" Hacker despediu-se do outro lado da linha.

"Igualmente" e a resposta de Seeley não podia ter sido mais falsa.

Desligando o aparelho, ele enfiou o telefone no bolso da calça de qualquer jeito.

"Era o Hacker" foi logo dizendo antes que a parceira tivesse tempo de perguntar.

"Andrew?"

Andrew... como aquilo o irritava, o modo com Brennan dizia Andrew!

"Sim, ele mandou lembranças para você" falou, sem preâmbulos, pegando a caneca com o café que havia servido e já começava a esfriar.

A contragosto, tomou um gole. Não estava dos piores, mas sabia que teria apreciado melhor se não fosse aquela ligação... e aquele sorriso bobo que a parceira ostentava.

"Quando estiver com ele diga que também mandei lembranças."

"Claro" Seeley ofertou um sorriso curto e frio. "Não quero apressar você, mas eu preciso ir logo ao hospital. Tenho que pegar as informações do quadro médico do John para começar a elaborar o relatório do caso Cindy Vega. Cullen está em cima de Hacker, que por sua vez está em cima de mim pelo fechamento da investigação."

"Ok. Não quero atrasar você" ela disse, levantando-se. "Me troco em dez minutos."

"Ei, espera!" Seeley atreveu-se a tocar o braço dela antes que ela saísse; percebendo que havia estabelecido novamente um contato físico entre os dois, soltou-a. "Você pode terminar de beber seu café primeiro."

"Não se preocupe" ela pegou a caneca, erguendo-a em uma das mãos. "Enquanto você conversava com Andrew eu terminei o meu."

Ele espiou o interior vazio da caneca, comprovando o que ela dizia.

"Estava muito bom. Obrigada" ela sorriu de leve, afastando-se rumo ao quarto.

Suspirando, Seeley depositou sua própria caneca sobre o balcão, apoiando as mãos no mármore frio. Fechou os olhos rapidamente, perguntando-se por que as coisas entre ele e Brennan eram tão... estranhas. Às vezes pareciam estar indo a algum lugar, e em outras pareciam não estar indo a lugar algum...

Ele sacudiu a cabeça, puxando a caneca para beber o resto de seu café. Entender o que se passava entre eles era definitivamente complicado demais para aquela hora da manhã.

~.~

Seus passos seguiram o mesmo ritmo dos passos de seu parceiro assim que alcançaram o corredor da ala de tratamento intensivo. Os olhos de Temperance logo avistaram e reconheceram a figura de Suzane Byers, de pé ao lado de um homem vestido completamente de azul.

Quando ela e Booth se aproximaram da mulher, o enfermeiro já havia começado a se afastar.

"Bom dia, Suzane" Booth foi o primeiro a dizer.

"Olá" Temperance acenou para a esposa de Byers.

"Que bom que vieram" Suzane tentou oferecer um pequeno sorriso.

"Como ele está?" Booth perguntou, sem preâmbulos.

"O médico que está cuidando do John me falou como foi o procedimento cirúrgico que ele enfrentou ontem..." Suzane começou a dizer. "Ele passou a noite em observação e agora acabaram de transferi-lo para outro quarto. Acabei de falar com um dos enfermeiros que me disse que vou poder vê-lo dentro de meia hora" o sorriso da mulher foi fraco, mas dessa vez mais genuíno. "O médico diz que John se encontra estável... e que somente as próximas horas vão nos dizer se ele está completamente fora de perigo."

Temperance sentiu uma pontada de simpatia por Suzane. Aproximando-se da mulher, apertou delicadamente um dos ombros dela. "Não perca as esperanças."

Os olhos de Suzane faíscaram por um instante com o brilho de lágrimas contidas. Ela meneou a cabeça. "Tem razão. Eu não vou perdê-las."

A loira então apertou a mão de Temperance que repousava em seu ombro, o que fez a antropóloga sorrir levemente. Afastando-se, então, Brennan ergueu os olhos para o parceiro, que parecia observá-la em silêncio... exatamente como ela havia feito com ele enquanto preparava café em sua cozinha.

Ao perceber que fora notado, Booth voltou os olhos para Suzane. "Vou pedir algumas informações sobre a ficha média do John... para o nosso relatório da investigação."

"Claro" Suzane meneou a cabeça, compreensiva.

"Volto em instantes" ele disse, olhando então para a parceira.

Temperance também sinalizou sua compreensão com um meneio. "Vou esperar aqui."

Ela o observou afastar-se, seu olhar acompanhando os movimentos fluidos e precisos do parceiro enquanto caminhava pelo corredor à procura do balcão de informações. E as imagens de meia hora atrás invadiram sua mente... o que teria acontecido se o celular de Booth não tivesse tocado? Estiveram prestes a trocar outro beijo... mas e depois? Poderiam ter fingido que não acontecera, como tentavam até hoje ignorar os beijos anteriores?

"Você gosta dele, não gosta?" a voz de Suzane a arrancou do devaneio.

Temperance virou o rosto para sua companhia. "Como?"

"Você gosta do agente Booth" não era mais uma pergunta, mas uma afirmação.

Temperance piscou, sentindo-se repentinamente deslocada. "Sim... Booth é meu parceiro, meu amigo, é claro que gosto dele."

"Você o ama" Suzane corrigiu.

O olhar da mulher era calmo e não continha nenhuma nuance de curiosidade ou brincadeira. Ela parecia simplesmente afirmar uma constatação. O que deixou Temperance mais constrangida.

"Sabe, eu passei muitos anos amando o John em silêncio" Suzane murmurou, o olhar se perdendo enquanto ela parecia lembrar-se de um tempo remoto. "Nós éramos amigos e eu não tive coragem de dar um passo na direção do que eu realmente sentia até que um dia ele se feriu seriamente em serviço. Eu pensei que fosse perdê-lo, e foi somente aí que tive a coragem necessária para seguir o meu coração."

Os olhos de Suzane então voltaram a se focar em Temperance, que sentiu um pequeno arrepio diante da sinceridade que viu nos orbes marejados da mulher.

"Eu tive a sorte de ver John se salvar e de me entregar ao que sentia por ele... e agora eu espero que ele se salve outra vez, e que eu ainda tenha mais tempo ao lado dele" Suzane disse, numa voz quase sussurrada. "Não deixe o tempo passar. Só se vive uma vez... não queira chegar perto de perder quem você ama para só então ter coragem de se entregar."

Foram as palavras mais fortes que Temperance Brennan conseguia se lembrar de ter ouvido nos últimos tempos. E que passaram a persegui-la desde então...


Que bom saber que vocês gostaram do capítulo passado . eu também adoro quando o Booth coloca a Bren pra dormir! Eu ri com alguns comentários (não, infelizmente não foi dessa vez que a Brennan dormiu com o Booth e "amanheceu" grávida, hahaha XD).

Meu agradecimento especial a vocês que continuam acompanhando esta aventura, e mais especialmente a vocês que se manifestam através das reviews e me deixam saber que estão lendo e o que estão achando. Amo muito esse feedback !

Até o próximo capítulo =*