Capítulo 36 - O Fim de Semana - Parte III

Naquele sábado, eu acordei com o barulho do meu celular tocando. Não me lembrava de que o toque dele fosse tão estridente. Ou, talvez, o motivo da minha irritação fosse o fato de sentir que eu havia dormido pouco.

Nem sequer me dei ao trabalho de atender a ligação. Apertei rapidamente o botão que deixava meu celular mudo, para que o irritante barulho parasse de me incomodar. Só então abri os olhos. Era cedo, muito cedo. Pela claridade que adentrava a janela do quarto, eu conseguia perceber. Devia ser por volta de 6 horas da manhã.

Olhei para o lado, um pouco perdido. Por alguns instantes, eu não me recordava de onde estava. Mas assim que dei uma olhada ao redor, eu me situei. Estávamos na casa de Milo e Camus. Eu e meu loiro tínhamos ido passar o fim de semana com eles e o que havia começado de forma péssima acabou por ser tornar um interessante evento... familiar. É, acho que eu podia dizer isso. Eu estava sendo aceito na família. Foi o que Milo deixou claro ontem, foi o que até mesmo Camus disse... do modo dele, é claro.

Ao meu lado, Hyoga ainda dormia. Ele estava com o semblante mais cansado que o meu, mas ainda assim, estava tão bonito. Sorrio um pouco, sem retirar meus olhos daquele russo; Hyoga era sempre lindo. Não consigo me lembrar de uma única vez em que não o visse e sentisse que era capaz de me perder inteiramente de mim mesmo por causa dele. Não fazia tanto tempo que estávamos juntos e eu realmente não acreditava que isso seria possível, mas...

Eu o amava. Amava aquele loiro ainda, amava aquele loiro mais a cada dia, amava-o como jamais imaginei que pudesse ser possível. Eu já tinha visto casais apaixonados pelas ruas, mas sempre pensava que o sentimento entre essas pessoas era efêmero, passageiro. Com amargura, eu desprezava a felicidade alheia, acreditando-a falsa e ilusória. Hoje eu sei que o que eu sentia era, na verdade, inveja. Mas não admitia, porque não acreditava que isso poderia acontecer comigo. E não queria sonhar com o que não poderia ter.

Entretanto, é possível. É possível ser feliz, é possível amar e ver esse sentimento crescer. É impressionante como é perfeitamente possível acostumar-se à companhia de uma pessoa e não enjoar dela; muito pelo contrário. Eu sinto que, quanto mais tempo passo ao lado do Hyoga, mais falta eu sinto dele quando não estamos juntos.

Faço um carinho de leve no rosto do meu loiro. Não quero acordá-lo; ele deve estar precisando descansar mais do que eu. Mas é inevitável. Eu preciso sempre vê-lo, tocá-lo, senti-lo...

- Bom dia. – digo com a voz um pouco rouca. Eu já estava razoavelmente acordado há alguns minutos, mas permanecia naquele estado de preguiça que é sempre tão gostoso. Esses momentos que precedem o despertar propriamente dito é um dos melhores momentos do acordar. Gosto de me demorar neles, especialmente quando sinto Ikki ao meu lado. Abro meus olhos, preguiçosamente e vejo aquele olhar tão dele, e também tão meu, sobre mim – Acordou cedo? – pergunto esboçando um sorriso.

- Não por opção minha. – respondo abrindo um sorriso maior. Esse loiro arranca de mim sorrisos que nem eu sabia que era capaz de oferecer – Meu celular estava tocando... – falo, enquanto continuo acariciando meu Cisne.

- Eu sei. Também acordei por causa disso... – eu digo, e beijo a palma da mão de Ikki.

- Me desculpe, eu não queria que você tivesse acordado tão cedo. Dormiu muito tarde ontem?

- Na verdade, eu acho que nem dormi direito. – olho para o rádio-relógio que ficava sobre o criado-mudo, ao lado da cama – Eu vim para a cama não faz nem duas horas...

- O Milo te segurou lá até as quatro da madrugada?

- É... Ele ficou empolgado. Muitos planejamentos, você entende...

Bufei, nervoso. Eu realmente não gostava quando Hyoga não descansava apropriadamente.

- Ei... – logo percebo como Ikki parece se zangar com esse meu último comentário - Não fica assim. O Milo me segurou até tarde, mas em compensação vai me deixar dormir até a hora que eu quiser. Palavras dele. – sorrio, numa tentativa conciliatória. A noite acabou tão bem ontem... Quero que continue assim.

Sei que Hyoga não quer me ver nervoso, e nem eu quero vê-lo estressado. Sorrio de volto, um pouco a contragosto (e sei que ele percebe. Mas ele sabe que me esforço, e isso é o mais importante) e tento tranquilizá-lo – Certo. Se você me prometer que vai conseguir voltar a dormir...

- Prometo. E garanto que não será nada difícil, os braços de Morfeu já estão me chamando de volta...

- Olha que assim eu fico enciumado... – brinco enquanto meus braços envolvem o loiro, em um abraço que começa terno, mas que logo começa a ficar mais apaixonado...

- Ikki, tem uma coisa me incomodando.

- O quê?

- Seu celular. Ele não para de vibrar. Tem alguém ligando para você, e de forma insistente.

Era verdade. Alcancei o aparelho que, mesmo mudo, não parava de me incomodar e chequei de quem eram as insistentes ligações. Arregalei os olhos. Eram do senhor Kimura.

- O que houve? – pergunto, em tom preocupado.

- Não sei. É estranho, eu... – revejo mentalmente tudo o que eu tinha de fazer. Será que eu havia me esquecido de entregar algum trabalho para o senhor Kimura? Afinal, que outra explicação poderia haver para ele estar me ligando tão cedo, e justo no fim de semana em que eu avisei a ele que estaria fora da cidade? – É o senhor Kimura. Não sei por que ele está me ligando.

No mesmo instante, sento-me na cama, demonstrando minha contrariedade. Então nem no fim de semana eu podia ter o Ikki só para mim? Sinceramente, eu já estava me segurando muito para não dizer ao Ikki que largasse esse trabalho de uma vez. Ele não se encaixava nesse perfil. Se era somente para agradar ao Camus, isso não era mais necessário; aliás, nunca foi.

Porém, toda vez em que eu pensava em mandar o Ikki jogar tudo isso para cima, uma parte de mim sempre me perguntava se ele não gostava disso tudo, de alguma forma. Porque, às vezes, eu podia jurar que ele gostava. Toda a bajulação em cima dele, a demonstração explícita de preferência que o senhor Kimura tinha por Ikki, fazendo sempre questão de dizer a todos o quanto ele é necessário a essa revista...

Não sei, realmente não sei. E é por não saber que prefiro me calar. Antes de falar qualquer coisa, é melhor eu me assegurar dos fatos.

- Bom, então talvez você deva ligar de volta para saber do que se trata, não?

- Eu... Bom... Não deve ser nada grave. Às vezes, ele só quer me perguntar alguma coisa; deve ser coisa rápida.

Vejo Ikki apertando a tecla para fazer a tal ligação e solto um suspiro discreto. Tanto ele quanto eu sabemos muito bem que não deve ser qualquer coisa. Sempre é uma emergência, sempre há algo urgente...

Assim que ligo para o senhor Kimura, sou atendido. Espantei-me com a rapidez, mas antes que eu pudesse dizer qualquer palavra, escuto uma conhecida e desagradável voz do outro lado da linha:

- Alô? Ikki, querido... Até que enfim você atendeu! – eu não podia acreditar. Então era ela quem estava me ligando? – Nina? O que... Que diabos você quer? Por que está me ligando tão cedo? E do número do senhor Kimura? – questionei nervoso, e fazendo questão de demonstrar isso em meu tom de voz.

Nina? No instante em que ouvi o nome daquela mulher, revirei os olhos. Garota insuportável... Mas tratei de ficar atento, para ver de que tudo aquilo se tratava.

- Ora, Ikki... Estou ligando do número do senhor Kimura porque estou aqui com ele, agora. E ele me pediu para te ligar. Esqueceu-se de que sou secretária dele, queridinho? – a voz dela era nauseante e, mesmo à distância, deixava-me enjoado – Esse número é da residência dele. Você está na casa dele? – indaguei, um pouco confuso.

- Estou, Ikki. Não só eu, como toda a equipe importante da revista. Estamos prestes a ter um furo de reportagem acontecendo aqui. E o senhor Kimura me disse que era para chamar você com urgência.

- Eu não estou na cidade, Nina. E o senhor Kimura sabe disso.

- Sim, ele sabe. Por isso mesmo ele me pediu que te ligasse tão cedo. Ele quer você aqui o quanto antes. Como deve demorar umas três horas para você chegar, ele quer que você saia o quanto antes. Você tem que chegar aqui antes da dez da manhã.

- Tá maluca, Nina? Eu não vou a lugar algum!

- Ikki, você já ouviu falar do casal Murakami? Aquele que é atualmente o casal queridíssimo da mídia?

- Sei alguma coisa, mas por alto... O cara é jogador de baseball e a mulher é modelo, não é isso...?

- Ah, Ikki! Só você mesmo para ficar por fora dessas coisas. Ok, vou situá-lo rapidamente. Então... Esse é o casal mais badalado do momento! Os dois são lindos, formaram um casal que a mídia resolveu eleger como "perfeito" e, desde então, todos querem fotos dos dois juntos. O problema é que eles não gostam disso e vivem se escondendo. Quando eles se casaram, a cerimônia foi tão secreta que até hoje não se sabe ao certo onde foi que ela aconteceu. Enfim, é dificílimo conseguir fotos deles. Os Murakami são extremamente discretos. E desde a gravidez da Keiko Murakami, eles se tornaram ainda mais invisíveis. Ninguém consegue uma única foto deles! Os paparazzi não conseguem encontrá-los, até porque eu acho que eles quase não estão saindo de casa. Há tanto segredo em torno dessa gravidez, que já se perguntou até mesmo se eles não estavam fazendo um falso alarde apenas para chamar atenção. Se bem que eles não precisariam disso, os dois já são tão famosos... Mas enfim, o fato é que ontem o impensável aconteceu! O senhor Kimura estava em casa, jantando com a família e aí, no meio da refeição, tocaram a campainha da casa dele. Quando nosso querido chefinho foi atender, adivinha quem era? Ele mesmo! Kazumi Murakami! O maior jogador de baseball do Japão estava parado à porta do senhor Kimura! E adivinha por quê?

A essa altura, eu não respondia nada. Apenas ouvia atento e percebia que Hyoga me interrogava com os olhos, querendo saber o que estava acontecendo. Eu apenas fazia um gesto, pedindo ao loiro que aguardasse.

- O Kazumi Murakami, o homem mais perseguido atualmente pela mídia, estava com a esposa dentro do carro e o carro estava com um pneu furado. Ontem estava caindo uma chuva pesadíssima por aqui e a situação dos Murakami não era nada boa...

- O cara não tem motorista? – indaguei.

- Não, Ikki! Não escutou o que eu disse? Eles são discretos! E isso não se consegue facilmente! Eles não têm motoristas, porque certamente um motorista diria aos jornais da cidade aonde eles vão, onde estão, essas coisas. Não; o Kazumi Murakami dirige os próprios carros. Mas ontem eles tiveram muito azar. Azar deles e sorte a nossa! O pneu do carro deles furou e o estepe estava murcho. O celular dele estava sem bateria ou sem sinal, algo assim, não me lembro direito agora. O fato é que ele veio bater à porta do senhor Kimura, porque isso aconteceu em frente à casa do nosso chefe! Ele veio pedir para usar o telefone e o senhor Kimura estava tão em estado de choque com a presença de Kazumi Murakami ali, que apenas abriu caminho para ele entrar, completamente atônito! Pense, Ikki! Você alguma vez viu nosso chefe ficar sem palavras? Pois é, nem eu! Mas foi o que ele disse que aconteceu!

Nina começou a rir e eu ri um pouco também. Não me sentia mais tão desconfortável com a conversa. O ocorrido era realmente interessante e imaginar o senhor Kimura passando por essa situação inusitada era mesmo divertido.

- Então, a esposa do senhor Kimura, ao ver aquele homem ensopado em sua sala, por conta da chuva que caía lá fora, ficou apenada e ofereceu a casa dela para ele se aquecer. Não sei se ela tinha já percebido que a visita era ilustre, mas o senhor Kimura diz que a esposa dele é sempre assim, acolhedora, boa anfitriã. E deve ser verdade, porque no final das contas ela convenceu Kazumi Murakami a trazer sua esposa para dentro da casa deles, enquanto aguardavam o guincho. Ao que parece, o casal foi muito bem recebido pela família do senhor Kimura. Nem imagino como deve ter sido, porque nosso chefe tem cinco monstrinhos em casa, que ele chama de filhos, e mais aqueles dois labradores enormes... Enfim, parece que os Murakami gostaram. Sentiram-se bem tratados, jantaram com eles, conversaram com a família inteira... E não deve ter sido pouca coisa, pois parece que, por causa da chuva, o guincho demorou a chegar... Bom, mas vamos ao desfecho disso tudo. Na conversa, o senhor Kimura comentou que dirigia a revista "Quadros". Não sei se ele já ambicionava conseguir algo, mas ontem, não passou disso. Foi só um comentário. Quando o guincho chegou, os Murakami agradeceram, despediram-se e foram embora. Mas então... Hoje de manhã, agora há pouco, eles ligaram para a casa do senhor Kimura. Pediram desculpas por ligarem tão cedo, mas em virtude do que pretendiam dizer, sabiam que não poderia ser de outro jeito.

- E o que eles queriam? – perguntei, já ansioso.

- Como forma de agradecer aos cuidados do senhor Kimura e de sua família, os Murakami resolveram ceder à nossa revista uma sessão de fotos exclusiva! Mas precisam que isso seja feito ainda na parte da manhã, porque à tarde eles têm um avião para pegar. Eles iam viajar ontem, mas acabaram perdendo o voo por causa do pneu furado. Remarcaram para hoje, mas acharam que não seria má ideia passarem aqui e deixarem que, pela primeira, tirem-se fotos deles, sendo que, segundo o senhor Kimura, já é possível ver a barriga de grávida de Keiko Murakami! Entende o que isso significa, Ikki? Exclusividade! Pela primeira vez, fotos da gravidez dos Murakami! E adivinhe só quem o senhor Kimura faz questão de que seja o fotógrafo dessa sessão?

- ...Eu?

- Sim, você! E mais ânimo, por favor! Você não imagina a honra com que está sendo agraciado? Sabe quantos gostariam de estar no seu lugar agora, Ikki? Sabe como o Hayashi está se mordendo de inveja de você aqui?

Eu imaginava. Se antes eu achava que Hayashi tinha sérios problemas em relação a mim, agora eu posso ter certeza.

- Então, trate de se arrumar e venha logo para cá. O senhor Kimura disse que você deve chegar antes das dez, pois é nesse horário que os Murakami vão chegar. Ah, eu ia me esquecendo de dizer... Eles querem que as fotos sejam tiradas na casa do senhor Kimura. Algo sobre eles terem visto isso aqui como um lar bonito, repleto de amor e essa ladainha toda. O nosso chefe gostou disso e alegou que você seria o único que conseguiria captar essa aura familiar que os Murakami parecem querer que as fotos passem. Disso eu não tenho a menor dúvida, afinal não há nada que você não possa fazer, não é mesmo?

Sorri com o último comentário. Não por ele ter sido dito pela Nina, mas por ele representar um grande reconhecimento por parte do senhor Kimura.

- Posso dizer ao senhor Kimura que você já está a caminho?

- Eu... – hesitei um momento. Olhei para Hyoga, que demonstrava já algum enfado com a demora dessa ligação – Eu não sei, Nina...

- Ah, Ikki. Faça-me o favor. Você vem e ponto final. Vou dizer ao senhor Kimura que você já está a caminho. Tchau.

Só assim para ela desligar. Ela sabia que me pressionando era a melhor forma de me convencer. Desligando na minha cara, algo que ela nunca faria normalmente, estaria me obrigando a ir.

Joguei o celular na cama e fiquei pensativo.

- Bom... Você vai me contar ou vou ter que perguntar o que houve? – não queria parecer que cobrava alguma explicação, mas aquela ligação tinha me deixado impaciente. Já não gosto daquela mulher e gosto menos ainda de ver o meu Ikki gastando tanto do tempo dele com ela. Pensei que a ligação seria curta, como normalmente ocorre quando ela liga, mas... a conversa se prolongou tanto que não pude evitar. O ciúme foi tomando conta de mim e precisei me controlar para não interromper o papo deles e pedir ao Ikki que colocasse a ligação no viva-voz. Não pedi, no entanto. Não queria me rebaixar a esse ponto. Mas ver como Ikki permaneceu calado após desligar me enervou. Digo, não cheguei a ficar zangado. Estava impaciente e ansioso.

E enciumado, óbvio.

- Era a Nina. Ela me falou que... Caramba... – passei a mão pelos meus cabelos, terminando de assimilar tudo aquilo. E então expliquei sucintamente o que havia acontecido para Hyoga.

Então era isso. Era realmente assunto de trabalho. Não que parecesse outra coisa, até porque, em dado momento, eu mesmo tinha percebido que eles falavam algo sobre o casal Murakami, mas... é sempre bom quando podemos nos assegurar dessas coisas. De todo modo, ao término do breve relato que Ikki me fez, eu não pude deixar de sorrir.

Eu estava feliz. Feliz e orgulhoso.

Eu já sabia que meu Ikki tinha potencial, assim como também sabia que ele tinha já recebido algum reconhecimento naquela revista, mas agora eu compreendia que ele estava alçando um voo muito mais alto. Ora, qualquer um poderia compreender o que aquilo significava. Ikki estava sendo chamado para fazer a sessão de fotos mais exclusiva que poderia haver no momento. Aquilo daria a ele uma visibilidade tremenda! Isso seria muito importante para a carreira dele.

E eu queria que ele tivesse esse momento em sua carreira.

- É melhor você se apressar então, meu amor. – eu disse, com a voz tranquila – O senhor Kimura vai se zangar se você se atrasar.

- Você... Acha que eu devo mesmo ir?

- Claro, Ikki! Isso vai ser ótimo para você!

- É, acho que sim, mas...

Franzi o cenho, sem compreender porque o meu moreno ainda hesitava. E então compreendi. Compreendi e me senti, ao mesmo tempo, a pessoa mais incrivelmente sortuda desse mundo... E a mais estúpida também.

Senti-me sortudo porque entendi que, naquele momento, como sempre, acima de tudo, Ikki sempre se preocupava comigo. Ele não queria me deixar sozinho. Não no dia em que haveria tanto a se fazer para a nossa festa de casamento, tão animadamente planejada por Milo. Ikki não queria me deixar sozinho e ontem, quando ele se retirou antes de mim da sala para ir dormir, ele pediu mil desculpas, alegando que não conseguia mais manter os olhos abertos. Em defesa dele, preciso dizer que ele realmente tentou. Milo nos arrastou noite adentro, discutindo tudo que poderíamos fazer nessa festa. Nem Camus aguentou; meu mestre foi o primeiro a se retirar para dormir, dizendo que esses detalhes cabiam aos noivos e ao organizador, que, no caso, era Milo. Contudo, Ikki estava cansado, ele tinha acordado cedo, trabalhado muito, e eu ainda o deixei esgotado naquele nosso "almoço". Depois, ele ainda dirigiu até aqui, o que, dentro da tensão em que meu esposo se encontrava, devia tê-lo deixado exaurido. No final das contas, esperar que ele aguentasse a animação do companheiro do meu mestre era pedir demais. Eu estava mais descansado e poderia acompanhar Milo em sua empolgação. Não posso negar, o escorpiano sabe ser bem contagiante quando quer e as ideias dele eram até interessantes, mas sinceramente eu preferia estar na cama com Ikki. Infelizmente, quando finalmente Milo se deu por cansado, já estava quase amanhecendo. E, tão logo pus a cabeça no travesseiro, acho que mal preguei os olhos e o celular de Ikki já estava tocando. De qualquer maneira, eu percebi que Ikki me olhava agora da mesma forma que ele me olhou ontem antes de deixar a sala. Ele está se esforçando e sei como Ikki está saindo de sua zona de conforto para isso. Ele quer participar, ele quer principalmente me mostrar que quer ser parte disso, seja lá o que isso significar. E eu compreendi. Compreendi e me senti grato.

Mas também me senti estúpido. Estúpido o bastante por me sentir inseguro, o mínimo que seja, diante dessa Nina. Essa mulher não tem que representar absolutamente nada para a gente. E não vou mais me permitir pensar besteiras por causa dela.

- Sem "mas", meu amor. – fiz um carinho no rosto moreno e sorri para ele meu sorriso mais tranquilizador – Você vai. Você precisa ir.

- E você?

- Bom, eu... Vou ter um dia interessante. – acabei rindo, ao me recordar das coisas que Milo planejou para esse sábado. A festa será amanhã, mas os preparativos, pelo que disse Milo, me parecem que serão tão divertidos quanto – Mas você não precisa se preocupar. Vá fazer o que tem de fazer. E depois... Volta para mim.

- Sempre.

- Eu sei.

- Como é vaidoso.

- Sou mesmo. Mas isso é só para quem pode.

- Como é arrogante...

- Olha quem fala...

- Como é... – olhei de forma cobiçosa para o meu Cisne antes de finalizar essa última frase - ... gostoso. – eu já engatinhava como um felino prestes a atacar a presa, enquanto Hyoga me olhava provocante. Esse loiro nunca tem noção do perigo, nem do que ele é capaz de fazer com um simples olhar. Avancei para cima dele e o beijei apaixonado.

Provavelmente, acabaríamos perdendo a hora ali, mas antes que isso pudesse acontecer de fato, meu celular tocou. Outra vez:

- O que é? – atendi com a voz extremamente hostil.

- Ikki? Oi, é a Nina de novo...

- Porra, Nina. Não posso nem transar em paz? – fui curto e grosso e notei que enquanto a Green parecia ficar embaraçada do outro lado da linha, Hyoga abria um sorriso safado à minha frente.

- Ah... eu... me desculpe... é só que... o senhor Kimura pediu para eu avisar que você precisa trazer seu equipamento... porque... é... aqui na casa dele não tem nada para tirar fotos... então você tem que trazer...

- Tá. Beleza. – falei, seco.

- E... olha, Ikki... O senhor Kimura não quer atrasos... Se você se... "demorar" aí... Ele não vai gostar...

Desliguei na cara dela e joguei o celular para o lado, voltando a encarar meu loiro: - Onde paramos? – sorri cheio de charme.

- Nem começamos, para falar a verdade. E é melhor assim. Nós nunca conseguimos ser rápidos...

- Quem disse que eu não consigo...?

- Eu sei que você não consegue. Já comprovei por mais de uma vez... E não estou reclamando. Adoro isso em você, meu amor...

Como se sempre houvesse um magnetismo forte demais agindo sobre nós, logo já estávamos agarrados um ao outro novamente.

Entretanto, fomos interrompidos. Uma vez mais.

E dessa vez, não tinha sido pelo celular do Ikki, mas sim pelo furacão que acabava de adentrar o nosso quarto sem nem ao menos bater:

- Ah, eu sabia que ia encontrar vocês nesse estado. Bom, menos mal que estão apenas em vias de fazer algo, e não fazendo propriamente! Não estou querendo perder muito tempo.

- Afrodite?! – eu e Ikki quase demos um salto de susto ao ver o pisciano entrando no quarto, como se estivesse na própria casa. E, logo atrás dele, veio um Milo, sonolento e não parecendo muito bem-humorado.

- Desculpem-me. O Afrodite apareceu aqui em casa e, antes que eu dissesse que não era para importunar vocês, ele já tinha tomado o caminho do quarto.

- Mas o que o Afrodite está fazendo aqui? – perguntei, completamente perdido.

- Ah, é que... ontem, Ikki, depois que você dormiu, o Milo teve a ideia de pedir ajuda a ele para alguns detalhes sobre a decoração, por isso mandou um e-mail para ele, dizendo que assim que pudesse, que viesse aqui nos dar uma ajuda.

- Sim, mas você não precisava ter vindo tão cedo, Afrodite. – resmungou Milo.

- Como não? Vocês querem uma festa de casamento decente? Não se costuma fazer isso da noite para o dia. Por isso, é bom começarmos logo, porque nosso prazo é curto. Então, andem. Vistam-se. Temos que sair. Quero levá-los a alguns lugares. – o antigo cavaleiro de peixes andava com naturalidade pelo nosso quarto, já se dirigindo ao armário, como se ele mesmo fosse escolher nossas roupas. Ikki, eu podia ver bem, estava mais perdido que eu naquele momento.

- Que tipo de lugares? – questionei, vendo meu mestre aparecer à porta com um semblante tranquilo, e com uma caneca de café na mão.

- Parece que Afrodite quer vocês com ele para degustar alguns doces e salgados que ele quer colocar no cardápio da festa. – Camus disse com um rosto muito sereno e parecendo achar graça da situação. Era raro vê-lo assim.

- Não só isso. Eu também quero levá-los a uma loja de smokings que eu conheço e que acho que vocês também vão achar excelente para a ocasião. Afinal, vocês não podem estar vestidos de qualquer jeito para o casamento de vocês, certo? – o pisciano piscou jovialmente para nós dois, parecendo divertir-se muito com tudo aquilo.

- Na verdade, Afrodite, isso não seria exatamente um problema... – começou a dizer Milo, mas foi interrompido pelo pisciano.

- Milo, você disse que precisava da minha ajuda. Pois bem, eu vim e vou fazer a minha parte. E, acredite-me. Eu sei cuidar bem dessa parte.

- Eu só queria que você nos desse uma mão com a decoração! Do resto, eu podia cuidar numa boa! – revidou o escorpiano.

- Não se preocupe. Vou cuidar disso também. Agora, vocês dois podem se vestir logo? Já estamos perdendo tempo! – disse Afrodite, em tom impaciente enquanto olhava seu relógio de pulso.

- Quem mais vocês chamaram para essa festa? – eu perguntei, olhando para todas aquelas pessoas e sentindo que havia, decididamente, gente demais naquele quarto. Ainda tentava me situar.

- Basicamente, os antigos cavaleiros de ouro. Enviei o convite por e-mail ontem à noite mesmo. – respondeu Milo – Ah, sim. Claro, também chamaremos os ex-cavaleiros de bronze, possivelmente alguns velhos guerreiros de Asgard, ex-marinas, as antigas amazonas... Obviamente, muitos não poderão vir, por estar tão em cima da hora. Mas não custa nada chamar, não é mesmo? Por quê, Ikki? Algum problema quanto a isso?

Notei rápido que Ikki finalmente se dava conta da quantidade de pessoas que viriam à festa. Eu planejava contar isso a ele com um pouco mais de cuidado, quando houvesse o momento adequado. A ideia inicial era de ser uma festa mais simples, mesmo. Mas Milo foi empolgando com a ideia... Em grande parte, eu percebi, foi porque ele enxergou na ocasião um bom pretexto para todos se reunirem novamente. Fazia já um bom tempo que estavam todos vivendo suas próprias vidas, bastante afastados uns dos outros. Meu mestre e Milo, por exemplo, mantiveram mais contato com Afrodite e Carlo, antigamente conhecido como Máscara da Morte. Os dois formavam um casal no mínimo interessante e acabaram por se tornar grandes amigos de Milo e Camus. Inclusive, os dois casais vivem relativamente perto – daí a rapidez com que Afrodite chegou aqui. Entretanto, dos antigos companheiros de batalha, a vida se encarregou de afastar a todos, com naturalidade.

De todo modo, eu percebi que Milo foi se animando com essa festa e a chance de rever outros velhos amigos... E, sinceramente, eu terminei me animando também. Havia uma grande leveza em mim e eu não conseguia achar ruim a ideia de demonstrar publicamente meu amor por Ikki. Contudo, eu não podia fazer isso sem consentimento do próprio, por isso, até ontem, o combinado com Milo era chamar apenas os ex-cavaleiros de ouro e, dos antigos cavaleiros de bronze, apenas Shun, Shiryu e Seiya. Mas, pelo que entendi, Milo já planejava concretizar os outros convites...

Vi nos olhos do meu mestre a aprovação dessa atitude de Milo. Acho que também Camus estava animado, ao modo dele, com essa festa. Então, olhei para Ikki e interroguei-o com os olhos sobre a posição dele diante disso tudo.

- Não. Problema algum. – Ikki respondeu, em tom neutro – Mas eu não vou poder ficar agora. Tenho que sair.

- Por quê? – a pergunta veio quase em coro, vinda dos três antigos cavaleiros dourados – Porque eu preciso trabalhar. – respondi, um tanto desconfortável no momento – É urgente e... Já estou atrasado.

- Depois eu explico o motivo a vocês. – Hyoga completou, ajudando-me – Agora, todos vocês podem sair um pouco? Ikki precisa se vestir e eu também. Não se preocupem, eu vou com você, Afrodite. E estarei aqui também para ajudar com aqueles últimos detalhes, Milo. Não se preocupem. Ikki não vai fazer falta; eu posso tomar esse tipo de decisão por ele.

Ouvir isso de Hyoga me fez soltar um profundo suspiro de alívio. Eu realmente odiava tomar decisões referentes a esse tipo de coisa...

- Está bem, nós saímos. – Afrodite respondeu, enquanto se dirigia para fora do recinto – Mas olha, nada de perderem o controle agora, ok? Aliás, tive uma ideia ótima! Que tal se vocês não fizerem mais nada até depois da festa? Milo me disse que estamos sendo tradicionalistas, então vamos fazer tudo como manda o figurino, o que acham? É até bom que assim, vocês sentirão mais saudades um do outro e ficará mais realista... Aí, a noite de núpcias de vocês será explosiva! E, além disso...

- Certo, certo. Como quiser, Afrodite. – eu já tinha me levantando da cama e ia empurrando o pisciano gentilmente para fora do quarto. Assim que consegui retirá-lo dali, fechei a porta e logo me senti enlaçado pela cintura por Ikki.

- Agora, definitivamente, não é uma boa ideia, meu amor... – eu falei, sentindo o beijo gostoso dele no meu pescoço.

- Eu sei. Só estava me despedindo... – Ikki sussurrou ao meu ouvido, deixando-me todo arrepiado. Em seguida, foi ao banheiro para se arrumar. Aproveitei para escolher uma roupa para mim mesmo e depois tratei de arrumar a cama. Não gostava de deixar a minha casa bagunçada, quanto mais a dos outros. Foi tempo o bastante para ver meu moreno saindo do banheiro, depois de tomar uma rápida ducha. Como sempre, aquele homem era uma visão após o banho. A toalha enrolada na cintura, os cabelos molhados, gotas de água escorrendo por aquele peitoral maravilhoso, o perfume dele se espalhando pelo ar e me deixando inebriado...

- Pelo visto, você não vai cumprir o que disse ao Afrodite.

- Como é? – perguntei, deixando de me deliciar com a visão a minha frente e voltando a prestar atenção ao que ele dizia.

- Do jeito que você está me olhando, você não aguenta ficar sem isso aqui tudo até amanhã.

Eu ri. Ikki era sempre Ikki.

- Eu sou perfeitamente capaz de aguentar. Quer apostar? – joguei a toalha sobre os ombros e me encaminhei para o banheiro.

- Quero. – Ikki respondeu sedutor, enquanto me olhava daquele modo singular dele. Fera, felino, caçador... Irresistível – E você sabe que eu não gosto de perder apostas, loiro... – ele já tinha vestido a calça jeans e agora abotoava a camisa grafite que tinha trazido na mala. E olhava fixamente para mim, deixando-me com a garganta seca.

- Bem, não se pode ganhar todas. – eu disse já prestes a entrar no banheiro de nossa suíte quando Ikki, já vestido, veio até mim, com seu olhar predador.

- Hoje à noite, Pato... Você não me escapa. – e então ele ergueu meu rosto, segurando meu queixo, de modo que nos encaramos firmemente. Eu consegui sustentar um olhar tão desafiador quanto o dele.

- Veremos. – limitei-me a responder e logo meus lábios eram tomados pela boca quente de Ikki. O beijo foi breve, mas intenso. Então, vi meu moreno me dando uma piscadela marota, afastando-se de mim e acenando um rápido gesto de despedida antes de deixar o quarto.

E eu... Fiquei ali olhando na direção em que o homem que eu tanto amo saíra, e pensando comigo mesmo no quanto eu estava disposto a perder uma aposta nessa noite.

Soltei um riso irônico. Eu iria perder, sim. Mas não perderia fácil. Afinal, é sempre divertido jogar com Ikki. Com isso em mente, abri um sorriso maior, decidido a ter um ótimo dia. Então, entrei no banheiro para iniciar essa manhã com uma deliciosa ducha.

Mal sabia eu o que me aguardava lá fora...


Continua...