Disclamer: Saint Seiya não me pertence, nem seus personagens.
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens.
Capítulo 25 - Epifania
Shun POV
"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo."
Mais uma oração, e o padre mandou descer os caixões.
Eu esperava que o Seiya realmente sentisse aquele tipo de conforto. Não pela presença do Divino, como o padre clamava - Seiya nunca me parecera muito devoto - mas por encerrar sua jornada ao lado da irmã. Fora por ela, afinal, que ele se metera em tudo aquilo. Fora por ela que ele traíra os amigos. Que tentara atirar no Hyoga. Fora por ela que ele estava morto agora.
E isso era o que mais me chocava.
Mais do que descobrir o que estava por trás do atentado que o Oga sofrera em Boston. Mais do que saber que ele estivera em uma espécie de programa de proteção à testemunha naquele tempo em que estivera desaparecido, ajudando a polícia a pôr as mãos em uma das organizações terroristas mais perigosas da história. Mais do que descobrir que o Shiryu era um policial infiltrado à serviço da Interpol. Mais do que a existência de Pandora. Mais do que toda a trama sórdida urdida por ela a fim de explodir o Louvre usando uma tiara de diamantes histórica que pertencia a família do Hyoga…
Mais do que qualquer coisa, era o envolvimento do Seiya naquilo tudo… O fato dele estar morto agora…. Era isso o que mais me chocava.
Deveria ter sido o casamento da Saori e do Camus no Plaza aquela tarde, eu descobrira. Ou pelo menos era nisso que o Seiya acreditava. Era por isso que ele estava lá. E aquele foi o último lugar em que ele esteve. Nem ele, nem a irmã conseguiram sair a tempo do prédio. Os bombeiros encontraram seus corpos junto aos destroços.
Seiya nunca poderia nos dizer o porquê realmente havia agido daquela forma, o que havia sentido, ou nos contar a versão dele dos fatos. E, mais importante, ele nunca poderia pedir desculpas, ou se arrepender dos seus atos. Seiya nunca teria a chance de mudar. De crescer e ser uma pessoa melhor.
E isso me entristecia acima de qualquer coisa.
Ele fora mais uma vida interrompida.
O coveiro jogou a última pá de terra sobre o caixão, enquanto o padre entoava a última prece. A última pá de terra no que Seiya talvez poderia ter sido se tivesse mais uma chance.
Logo a neve cobriria aquela sepultura também, varrendo tudo pra debaixo do seu manto branco. Apagando todos os vestígios. Como se nada nunca tivesse acontecido… Apenas outra vida roubada
Os presentes começaram a se dispersar aos poucos, após prestar suas homenagens. Eu reconheci alguns rostos na multidão: Afrodite e o namorado, Shunrei e Shiryu… não havia demorado mais do que dois dias pra birra da Shunrei passar e eles voltarem a se acertar…, Camus, Hyoga…
O irmão dele estava melhor agora, o que significava que ele também estava melhor. Felizmente Camus havia tido alta do hospital apenas com um braço quebrado como sequela.
Hyoga passara todo o tempo em que o irmão estivera internado preso entre a preocupação e a esperança. Eu tentara direciona-lo pra esperança sempre que possível, é claro.
Ele parou do meu lado e caminhamos em silêncio pelo caminho arborizado entre as lápides.
Nós ainda não tínhamos conversado.
Quer dizer, tínhamos conversado, obviamente, mas não sobre o que realmente importava. Não sobre nós dois. A maioria das vezes falávamos sobre os acontecimentos recentes, dizíamos bobagens, ou apenas nos sentávamos um ao lado do outro, inquietos.
O que era ridículo, porque não era tudo sobre isso? Todos os nossos mau entendidos? Sobre nunca falarmos sobre o que mais importava?
Mas às vezes é difícil romper velhos hábitos.
— Sabe, tem uma coisa que eu ainda não entendo nisso tudo… - Eu quebrei o silêncio com uma das questões que vinham martelando na minha cabeça nos últimos tempos. - Se essa organização, Pandora, se eles estavam tão interessados na tiara de diamantes da sua família, por que desistiram de tudo de repente? Por que explodir o Plaza dessa forma?
Por que tirar tantas vidas inocentes? Eu completei em pensamento.
— Porque era o fim da linha pra eles, e eles sabiam disso - Hyoga explicou - Eles haviam descoberto tudo. Todos os planos da polícia. Deram um jeito de grampear o apartamento do Milo, onde, segundo o Shiryu, fora decidido e armado todo o plano pra colocar as mãos neles e descobriram o esquema todo. Sabiam que a Interpol estava na cola deles, assim como sabiam que a Interpol trabalha em conjunto com a polícia de vários países. Eles haviam sido descobertos e não importava o que fizessem, no momento em que aquela tiara, verdadeira ou falsa, chegasse ao Louvre, ela seria interceptada pela polícia francesa. Era o fim dos planos deles, e eles sabiam disso.
— Mas se eles sabiam de tudo isso, por que não fizeram alguma coisa pra se safar? Não sei, alguma coisa tipo...
— ...Meter uma bala na cabeça de alguém? - Hyoga sorriu de lado e eu assenti constrangido por ter, ainda que inconscientemente, lhe despertado aquelas lembranças.
Eu encolhi os ombros.
— É.
Ele riu da minha falta de jeito, e então continuou.
— Bem, suponho que Pandora não tenha visto muita vantagem nisso. E, na verdade, eles não precisavam "se safar". Quer dizer, enquanto eu representava um risco aos planos deles por ser a única testemunha capaz de relacionar Seiya e Saori a Radamanthys, enquanto eu representava uma ameaça por ter reconhecido Radamanthys aquela noite, era razoável que eu tivesse que ser eliminado. Mas, uma vez que todo o plano perdera o propósito, e sabendo que aquele era o fim da linha, não havia porque correr riscos desnecessários. Nenhum de nós havia tido um contato direto com eles, ou pelo menos ninguém tinha qualquer prova que poderia ligar alguém diretamente a eles. Ninguém ali representava um risco real a organização pra justificar uma queima pessoal de arquivo.
— Mas o Seiya e a Saori… - Eu insisti - Eles negociaram diretamente com eles. Se eles tivessem falado alguma coisa… Quer dizer, eles deviam saber de um monte de coisa, não é?
Hyoga assentiu.
— Mas ambos acreditaram no plano até o fim. Não sabiam sobre a ação da polícia, ou que haviam sido descobertos. E depois, quando Pandora achou que já era hora de sair de cena… bem… - Ele baixou os olhos para os próprios pés - Nós vimos o que aconteceu no Plaza.
Eu arregalei os olhos surpreso. Não, mais do que surpreso.
— Você acha que eles fizeram isso de propósito, pra eliminar os dois?
Hyoga assentiu outra vez, ainda sem desviar o olhar do chão.
— Suponho que sim. Eles não eram confiáveis, na visão de Pandora, e precisavam ser eliminados. - Ele respirou fundo, depois ergueu os olhos outra vez - Mas não foi só isso, claro. Os detetives Panagopoulos acreditam que a diversão é também um combustível importante das ações de Pandora, e eu concordo com eles. A diversão, o jogo de poder, mostrar do que é capaz. - Ele deu de ombros. - A explosão no Plaza foi seu "Grand Finale", antes de sair de cena.
Eu balancei a cabeça. Não conseguia entender como podiam existir pessoas assim. Quão doente uma criatura tinha que ser pra tirar a vida de outras pessoas dessa forma?
— E a polícia não conseguiu descobrir nada sobre eles? Nadinha mesmo?
Ele negou com a cabeça.
— Nada que pudessem provar, pelo menos. No mesmo momento em que a última bomba explodia no Plaza, um vírus que eles infiltraram no sistema de dados da polícia completou a cadeia, destruindo todos arquivos. Tudo o que sobraram foram teorias. Teorias que pareceriam conspiratórias em qualquer tribunal do mundo. - Ele suspirou desanimado - Não à toa ninguém nunca conseguiu por as mãos neles. Como soldados ardilosos Pandora age nas sombras. Sempre se esgueirando, sempre se escondendo. Como uma espécie de organização por trás da organização.
— Uma organização por trás da organização… - Eu repeti, me lembrando de repente da história que ele havia me contado no nosso primeiro encontro no museu. - Como a linhagem perdida dos Illuminatis que desapareceu na Alemanha? Mais secreta que os Bilderbergs, ou quem sabe um braço dentro do próprio clube?
Ele sorriu.
— Você ainda se lembra…!
Eu sorri também. É claro que eu me lembrava.
- Sabe…- Ele começou - Durante as investigações nós nos deparamos com um nome: Ronald Alward Bassi. O homem mais provável pra personificar aquele que Pandora se referia apenas como Hades. Um coronel do Exército que teria desaparecido em serviço e dado como morto, mas cujo corpo nunca apareceu em canto algum.
- Ei! - Eu falei depressa - Espera, eu me lembro disso. Você já me falou desse cara. Ele participou como convidado de algumas reuniões dos Biderbergs, não era isso? Ele era um dos tais "Donos do Mundo" daquele livro que você estava lendo… qual era o nome mesmo?
- The Master Shadows. Você estava prestando atenção… - Ele sorriu e eu mordi o lábio subitamente constrangido por ser sempre tão consciente de tudo a respeito dele… Até das histórias mais loucas que ele me contava.
- Mas, era isso mesmo. - Ele continuou. - No livro, o autor já especulava que o tal Coronel Alward Bassi estaria por trás de uma organização suspeita de diversos ataques terroristas pelo mundo. Eu não me toquei na hora, mas depois acabei ligando tudo.
- Ele estava falando de Pandora! - Eu constatei surpreso.
Ele assentiu.
- Ou da tal organização precursora de Pandora, mas eu não acredito.
- Então Pandora seria, na verdade, um braço desses Master Shadows, agindo pra desestabilizar o status quo vigente a fim de facilitar a implantação do tal Governo Mundial?! - Eu falei, me lembrando da história que ele havia contado, naquele nosso primeiro dia em New York.
Ele concordou com a cabeça mais uma vez.
- Ou pra abalar as estruturas dos próprios Donos do Mundo, como o livro também coloca. Se bem que, depois de tudo o que eu vi enquanto acompanhava as investigações, eu ficaria com a primeira alternativa.
Eu estava chocado.
- E você falou alguma coisa disso com a polícia?
Dessa vez ele riu.
- Como eu poderia? É só um livro maluco, não é? E todos sabem do meu fraco por esse tipo de tema. Nem meu irmão me levaria à sério.
Eu sorri, sentindo uma felicidade boba me invadir por dentro.
- …Mas você está contando pra mim.
Ele sorriu de volta, e então nós havíamos chegado.
O ponto onde Hyoga deveria continuar reto até o estacionamento em que estava seu carro, e eu teria que pegar o caminho à esquerda até minha estação de metrô. O ponto onde deveríamos nos separar.
Nós paramos de andar. Os sorrisos morreram.
Eu hesitei.
Ele hesitou.
De repente, o silêncio parecia tangível demais. Espesso demais.
Vinha sendo sempre assim entre a gente no últimos dias. A amizade ainda estava lá como sempre. Talvez até mais forte do que antes. Mas agora havia também aquela coisa. O abismo de silêncio que nenhum de nós parecia conseguir atravessar.
Nós precisávamos falar algo. Qualquer coisa.
"Por favor, Hyoga, diga alguma coisa".
— Então… - Ele limpou a garganta. - Você volta pra Boston amanhã?
— Hum - Eu fiz, concordando com a cabeça.
As aulas já haviam começado há algum tempo, na verdade. Mas tanta coisa tinha acontecido. Primeiro fora aquela mensagem misteriosa do Oga, depois a explosão no Plaza, a morte do Seiya… Agora eu não podia me dar ao luxo de perder mais aulas
— Certo. - Ele assentiu também.
Nós nos encaramos outra vez.
Eu suspirei.
— Certo. - Eu repeti. - Então… até mais.
— Hum. - Ele concordou.
Eu acenei com a mão e me virei pra sair, mas nem bem havia dado dois passos ele me chamou outra vez.
— Shun?
Eu me voltei pra ele novamente, subitamente ansioso.
"O quê? O quê?"
— É… - Ele mordeu o lábio, hesitante. Olhou para o chão, depois pra mim outra vez - Tenha uma boa viagem.
Eu assenti, forçando um sorriso.
— Hum. Claro. A gente se vê.
Ele demorou mais um tempo pra responder, os olhos fixos nos meus.
— Eu… é… - Então suspirou como quem parecesse desistir. - Eu bato na sua porta quando chegar.
Ele sorriu.
Eu assenti outra vez antes de me virar.
Um passo... Dois passos... Três... Eu dobrei a esquina. E então estava feito. Tinha acabado. Mais uma vez nós estávamos nos despedindo. E mais uma vez não tínhamos conseguido falar nada.
A sensação era… Bem, não era exatamente frustrante. Mas não era "não frustrante" também. Tinha alguma coisa de vazio, de impotência, de resignação.
Droga, devia existir uma palavra pra isso. Devia mesmo.
Hyoga havia dito aquela noite, na boate, que eu não costumava falar sobre os meus sentimentos e era verdade. Nos últimos dias eu me dera conta de que não conversara com meu irmão ou com os meus amigos sobre tudo o que estava passando quando me senti abandonado pelo Hyoga. Eu não falara nem com a Misuki. E todos eles estiveram ali o tempo todo. Dispostos a ajudar.
E agora, mais uma vez, eu não conseguia falar sobre o que estava sentindo de verdade. Sobre o que realmente importava.
Mas isso não era apenas minha culpa, era?
Hyoga também deveria ter dito alguma coisa.
Espera. Não fora exatamente isso que ele dissera aquela noite? Que nós dois tínhamos culpa?
Parando pra pensar, se ele não tivesse ido atrás de mim no banheiro, se ele não tivesse me arrastado para o jardim de inverno, e depois segurado meu braço me impedindo de escapar mais uma vez, nós teríamos chegado a ter aquela conversa?
Provavelmente não. Possivelmente nós ainda estaríamos magoados e pensando o pior um do outro até hoje.
E eu estava fazendo a mesma coisa outra vez.
O tempo todo eu o acusara de ter medo de mudar, de ter medo de tomar grandes decisões, mas eu também! Eu também tivera medo, eu também estive inseguro, eu também fugi, eu também inventei desculpas.
Percebia isso agora.
Eu estava tão assustado em arruinar a relação que tínhamos… Assustado demais para fazer frente ao que realmente poderíamos ter.
E talvez se eu tivesse me incomodado em escutar o que o Hyoga estava tentando dizer… apenas escutado o que ele queria dizer de verdade… então talvez nós já pudéssemos ter nos acertado há muito tempo.
"Por que vocês dois ainda não estão juntos?"— Eu ouvi a voz da Freya dizendo novamente, e estaquei de repente.
Eu precisava falar. Eu tinha que falar com ele.
Será que ainda dava tempo? Será que já era tarde demais?
Eu corri de volta todo o caminho, dobrando o quarteirão, até o ponto onde havíamos nos separado. E então mais um pouco… até onde ficava o estacionamento.
E parei outra vez ofegante, olhando por todos os lados. Mas Hyoga não estava mais lá. Não havia mais nem vestígio dele. Eu o perdera de novo. Mais uma vez eu havia deixado o momento passar.
"Às vezes penso que há tão poucas oportunidades de se encontrar alguém que se goste de verdade. E nós estragamos tudo tantas vezes… Que simplesmente perdemos nossa chance."
Era isso, então? Nós havíamos mesmo perdido a nossa chance?
Eu suspirei.
Talvez apenas existissem coisas que não foram feitas pra acontecer.
oOo
A tarde começava a cair, e eu retomei meu caminho até o metrô. Mas, em vez de continuar em frente até a estação, resolvi parar em uma livraria.
Não era nada demais, e eu nem estava com vontade de ler nada, mas imaginei que garimpar um bom livro fosse servir pra me distrair um pouco antes de voltar.
Estava entretido examinando as prateleiras quando eu o vi. "As Flores do Mal" de Charles Baudelaire, edição bilíngue. Igualzinho ao que Hyoga havia me dado aquele dia em Boston.
Eu lembrei da pequena livraria… A multidão de clientes, os livros empilhados por toda parte, quase despencando das prateleiras lotadas, a chuva batendo contra a janela, a sessão de literatura estrangeira… E passei a mão pela capa do volume a minha frente.
O meu exemplar estava devidamente guardado no meu quarto em Harvard, é claro. Acomodado na prateleira acima da minha mesa, no mesmo lugar em que estivera desde que eu o ganhara. Porque afinal era um livro pra aula, certo? Só outro presente?
"Não". Eu balancei a cabeça.
"Errado. Tão, tão errado."
Quer dizer, era um livro pra aula, obviamente, mas também era um livro de poesia!
Um livro de poesias francesas!
Por que ele me daria uma coisa assim se não significasse nada?
Ele poderia ter me dado um livro da Mahoko Yoshimoto, por exemplo. Ou um dos nossos livros de tradução. Mas ele havia me comprado um livro de poesia!
Meu Deus, como eu não havia me dado conta disso antes?
Eu abri o volume, e o carimbo na primeira página me saltou aos olhos: "International Press of Boston. Prudential Tower, Massachusetts".
E então eu estava na nossa primeira noite outra vez. As milhares de luzes coloridas erguendo-se contra o céu noturno. Os olhos azuis de Hyoga brilhando, as luzes refletindo-se no seu rosto.
"Bem vindo a Boston, Shun. Estou feliz que você tenha vindo."
E estava no Top The Rock novamente. As luzes de New York brilhando abaixo. Debruçado no parapeito, gritando contra o vento gelado. Meu nariz parecendo uma pedra de gelo. Sorrindo com Hyoga. Me perdendo no sorriso dele. O coração explodindo com todos os sentimentos ainda recentes que eu havia descoberto ter por ele.
Eu senti meu coração disparar.
De repente eu tinha que estar lá outra vez.
Não sabia explicar. Eu só precisava estar lá mais uma vez.
Eu abandonei o livro e corri para fora da loja em direção ao metrô novamente. Só que em vez de tomar o sentido Greenwich Village, para o apartamento do Ikki, eu tomei sentido Manhattan, para o Top The Rock.
"…Você já teve oportunidade de olhar aquele livro de poesia que eu te dei?"
Meu Deus, por que ele simplesmente não me dissera? O que quer que tivesse naquele livro por que ele apenas não me dissera?
E por que eu não abrira o maldito livro depois que ele me perguntara sobre ele aquela noite no seu quarto? Quando tivera a chance?
Eu desci na Madison, e corri na velocidade do som até a Quinta Avenida.
Os olhos da cidade estavam presos em mim enquanto eu corria através da avenida até o Rockefeller Center, mas eu não ligava.
Eu só tinha que estar lá. Agora.
O GE Bulding estava de tirar o fôlego, como sempre. A costumeira multidão de turistas reunida em volta dele. Murmúrios em várias línguas me cercavam. Uma longa fila esperava pra ter acesso ao observatório, mas eu não esperei pela minha vez. Só continuei empurrando, empurrando, empurrando… Isaak reconheceu meu rosto quando cheguei a frente e me deixou passar… E então eu estava lá dentro.
Eu precisava subir. Eu voltaria pra Boston no dia seguinte. Tinha que ver a cidade mais uma vez. Enquanto ainda podia. Não sabia quando iria ter outra chance.
Quando estava pagando pra entrar, jurei ter ouvido alguém chamar meu nome, mas, olhando em volta, não vi ninguém familiar.
Então eu entrei no elevador com o teto que parecia um video-game gigante pela segunda vez e subi… Subi… Subi.
As portas do elevador se abriram quando ele parou no primeiro observatório no 67º andar e eu corri escada acima até o mirante no 70º.
Um lance, dois, três… Caramba, eu não me lembrava de terem tantos lances de escada na primeira vez que estivera ali com Hyoga!
Mais um lance.
Aquelas coisas não iam terminar nunca?
Mais escadas.
Sério?
Aquilo era ridículo. Eu nunca ia comprar uma casa com escadas, estava decidido. E nem teria degraus na minha porta da frente. No máximo uma inclinação leve.
A cada passo meu coração parecia bater mais rápido, até que eu finalmente alcancei a saída, e então…
Eu estava no ponto mais alto. O vento gelado açoitou me rosto, revirando meus cabelos pra todo lado.
Eu me aproximei da amurada de vidro.
Eu estava lá. No topo da cidade. E New York mais uma vez me deixou embasbacado.
Eu sorri pensando no que o meu pai diria se pudesse me ver agora. Arrebatado pela América, depois de ter lutado tanto pra ficar no Japão.
As primeiras estrelas apenas começavam a surgir, e com o céu assim, ainda escurecendo, era possível ver com nitidez as ruas lá embaixo. O Central Park, a Quinta Avenida, St. Patrick...
Engraçado, só agora eu me dava conta de que apesar da arquitetura gótica, não havia gárgulas em St. Patrick. Não, gárgulas não, quimeras, Hyoga me corrigiria. Ele uma vez me explicara que o que a maioria das pessoas pensa quando escuta a palavra "gárgula", na verdade, é uma quimera. E as gárgulas eram aquelas coisas finas e retas que eram usadas como calhas pra chuva. Eu não me lembrava muito bem do que ele tinha dito sobre o propósito das quimeras. Proteção? Um aviso para os demônios? Se o Hyoga estivesse ali, ele provavelmente me contaria a história de novo.
Hyoga…
Eu ergui o rosto com um suspiro, sentindo o vento gelado. Uma estrela riscou o céu bem acima dos meus olhos. Fez uma arco completo e eu quase achei que podia ouvi-la viajar.
Eu fechei os olhos pra fazer um pedido.
"- Você não sabe nada sobre fazer pedidos? Você só tem um número limite na vida. Estrelas cadentes, cílios, dentes-de-leão…"
Hyoga…
Eu abri os olhos.
E estava de volta ao poço dos desejos na nossa primeira noite, me apaixonando por ele... E estava de volta ao Public Garden, nossas mãos entrelaçadas, me apaixonando por ele. Estava de volta ao Central Park, o coração acelerado, me apaixonando por ele. Estava de volta a noite de Natal, nossos corpos colados, me apaixonando por ele… E estava de volta àquele momento, ainda observando aquela estrela faiscando, crepitando, até desaparecer de vista.
E foi quando eu percebi… Estava tudo bem. Não tinha importância. Tudo bem se não fosse pra ser. Tudo bem se Hyoga e eu nunca pudéssemos ser mais do que amigos. Porque Hyoga me fortalecera de uma forma que ninguém mais conseguira.
Ele me tirara do quarto e me mostrara o mundo. Me mostrara o que era ser independente. Ele me ensinara o que era sentir amor, e sofrer por ele. Por causa dele eu sentira meu coração acelerar, minha pele arrepiar. Eu conhecera o desejo e o ciúme, e descobrira partes de mim que eu nem sonhava que existissem.
Em outras palavras, como no filme de Sophia Copolla, ele fora exatamente aquilo de que eu precisava naquele momento. E eu jamais me esqueceria disso. Ainda que nada mudasse entre nós, ele sempre seria especial na minha vida.
"Quanto mais você sabe quem é, e o que quer, menos você deixa que as coisas te chateiem."
Sim, era verdade. Ficava mais fácil.
Não que eu fosse deixar de amá-lo… Eu achava que seria incapaz de deixar de amá-lo, no entanto…
— Shun! - Alguém chamou às minhas costas.
Eu me virei surpreso em direção a voz, e então…
— H- Hyoga!?
Olá a todos, antes de mais nada um Feliz Natal atrasado e um ótimo Ano à todos ˆˆ.
Desculpem a demora dessa vez, mas viagem, preparativos para as festas, e um filho gripado, consumiram todo meu tempo. Maaaas voltei enfim, com mais um ch pra vocês. Cheio de lembrança, reminiscências e descobertas dessa vez, espero que gostem ˆˆ. Eu particularmente adoro esse ch e o próximo, que eram, na verdade, pra ser um ch único, mas que pra variar acabou dividido por causa do tamanho. E amo a pegada mais intimista dessa primeira parte ˆˆ.
E, como eu disse, agora estamos mesmo na reta final dessa história. Esse ch era pra ser o penúltimo, mas como ele acabou dividido, essa primeira parte ficou sendo o equivalente ao antepenúltimo. Assim, temos só mais dois chs para o fim da história. Espero que curtam o desenvolvimento das coisas até lá ˆˆ
E é isso, muito obrigada de coração a todos que acompanham e um obrigada super especial à Dark. ookami e a Tharys, que perderam um pouquinho do seu tempo nessa correria do dia à dia pra me dar apoio, carinho e incentivo com seus comentários. Muito obrigada por tudo, meninas ˆˆ
Bjos
