N,A.: Gente, quanto tempo sem postar! Mas, em compensação, vem aí um capítulo bem grande! Apesar de enrolado, tentei fazê-lo dinâmico! Final do ano, meu MBA no fim, eu quase entrando de férias no trabalho e enquanto isso trabalhando em MUITAS fics! ^^ Aliás, uma em parceria com minha querida amiga Nanda Kuchiki! Fora Confusões que eu estou AMANDO escrever. E, confesso, cheguei a deixar essa um pouco de lado pra me divertir um pouquinho lá! ^^' MUITO obrigada a todos que lêem. E obrigada mais ainda aos que deixaram reviews que acalentam o coração desta pobre ficwriter! *_* Em especial: Dalila, Pamilla, JJDani, aguiarm e Fernanda!

Entre o amor e a razão

Escrito por: Michele P. Rommel – Mi Yuuki X

Capítulo 35: Hesitação

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Quando a brisa da fria madrugada fez seu corpo tremer debaixo do lençol que o cobria, Ishida pôs as pernas para fora do sofá no qual se deitava. Não conseguira pregar os olhos.

Assim que se levantou, caminhou pelo corredor amplo até chegar ao quarto onde apenas o luar servia de iluminação. Banhando de prata a pele branca e sem imperfeições, os cabelos acobreados que caíam sobre o rosto adormecido, a lua era generosa em lhe proporcionar aquela visão. Ficou apoiado ao batente da porta apenas contemplando sua deusa. Deixou Escapar um sorriso sincero e envergonhado ao perceber as curvas que os seios volumosos dela faziam por ela estar deitada de lado. Mas logo seus lábios se curvaram e o sorriso esmaeceu. Por que tão bela garota era tão infeliz?

Havia trazido à amiga até ali depois que a salvara dos traficantes com os quais, sabia, ela tinha um grave envolvimento. Imaginava se não tivesse chegado ali a tempo. Em que mãos aquela menina estaria naquele momento?

Notara que a menina franzira o cenho, incomodada. Viu a pele exposta do colo se arrepiar e corou no mesmo instante. Meio sem jeito e tentando desviar o olhar, Ishida passou por sua cama aonde ela repousava e olhou brevemente o lado de fora da rua. Tudo estava deserto. Também, já passava de uma da manhã. Fechou as cortinas de tom azul-marinho e, pela pequena fresta entre as duas esvoaçantes peças de tecido, o luar ainda conseguia iluminar o belo rosto.

Ishida caminhou até a lateral, ficando de frente a Orihime. Essa ainda se revirava. O quincy estava preocupado. Será que ela estava tendo um pesadelo?

Ajoelhou-se, ficando próximo demais para ouvir a respiração da menina e ter os lábios entreabertos tão convidativos a sua frente. Então ela abriu o belo par de olhos cor-de-ágata. Vagarosamente, piscando, ela gemeu baixinho enquanto parecia se perguntar em silêncio, apenas com aquela expressão confusa, onda estava.

- Ishida...

Ele não a permitiu prosseguir, selando com dois dedos os lábios da menina. Ela voltou a piscar, observando ao redor. Voltou a abrir os lábios, mas quando o fez, Ishida a interrompeu.

- Não se preocupe. Você está na minha casa. – ele explicou. – Descanse, Inoue-san.

- Ishida-kun... – Orihime chamou, contrariando as orientações de seu anfitrião.

- Fique calma.

Orihime contemplara um belo ambiente. Tudo tão arrumado e limpo, parecia que cada objeto estava em harmonia com os outros. Era amplo e espaçoso. E quando estava examinando o lugar, observou que suas roupas estavam pousadas sobre uma cadeira próxima a enorme cama de casal.

- Ishida-kun! – num impulso, Inoue cobriu-se apenas para se ver vestida. Mas aquelas roupas não eram dela. Eram largas. Uma camisa branca de brim que mais lhe parecia um vestido. – Você me trocou? – ela corou.

- Na verdade eu te vesti. Você já estava sem roupas quando te encontrei. – Ishida sorriu ao notar a surpresa de Orihime. Ela estava envergonhada.

- Me... desculpe, Ishida-kun...

E parecia que tocar no assunto fizera mal a princesa. Ela se retraiu, sentando-se na cama e apoiando as costas na cabeceira bem trabalhada da cama king size. Ao ver lágrimas brotarem do canto dos olhos belíssimos, Ishida agitou as mãos, sem graça e sem saber como proceder.

- Não peça desculpas, Inoue-san! – Ishida protestou. – Por favor!

O quincy não sabia como lidar com uma garota chorando. Não era a primeira vez que a via assim, mas que situação terrível a qual ela havia sido submetida. Ela estava frágil, havia sido violentada. Provavelmente tinha sido a experiência de contato mais próxima que já tivera com um homem e daquela maneira. Foi num impulso que as mãos agitadas de Ishida, num instante, estavam em volta do corpo de curvas sinuosas da colegial. Foi a vez de Inoue ficar sem reação.

- Ishida... kun?

- Não se preocupe, Inoue-san! – ele foi imediato ao afagar os longos cabelos acobreados. E como era bom sentir aquele corpo volumoso, quente e frágil em seus braços. – Haja o que houver... – ele a afastou para encara-la. Azuis decididos contra as ágatas confusas e chorosas. – eu vou estar sempre aqui pra te ajudar! Eu sempre vou... acreditar na sua bondade!

Mas será que Ishida estava querendo transmitir confiança a ela ou ele mesmo tentava se convencer daquilo? Tanta dúvida e emoções confusas passavam dentro do quincy. E o que ele estava falando, afinal? Nem ele sabia, mas se permitiu vacilar no sentimento e voltou a abraça-la com firmeza.

- Não importa que não me ame! Que ame o Kurosaki! Que me rejeite ou me abomine! Ou até que... cometa um crime! – ele balançou a cabeça, apertando o corpo da menina contra o seu. – Eu sei que você vai ter um motivo! Eu acredito que você tem bons sentimentos! Eu acredito que... a Inoue-san que eu conheço não é assim!

Orihime ficou sem reação. Apenas ouviu as palavras de Ishida e reviu sua vida. O primeiro beijo que viu de Ichigo e Rukia, aquela inveja que surgira, o noivado, a incapacidade de aceitar que quem acreditava ser seu amor pertencia a sua melhor amiga, o pacto com Renji, o inicio de sua decadência, o ódio que surgira daquela criança inocente filho dos dois, ter ferido Rukia com a intenção de mata-la, quando seu amor doentio perdera os limites, quando usara Ichigo da forma mais vulgar possível... Chegava a se perguntar quem era realmente? Quando se tornara aquele monstro que era capaz de mover mundos para destruir a alegria de seus melhores amigos. E um deles era a pessoa por quem nutria um amor tão profundo que era capaz de matar por ele. Matar Rukia... Matar seu filho... Sentiu nojo de si mesma. Já havia cometido um crime. Havia se envolvido com pessoas ruins e estava em dívida agora. O que acontecera tinha sido um castigo e ela sabia disso. Por que Ishida havia a salvo? Por quê? Cravou as unhas nas costas cobertas por uma camisa de botões azul piscina que ele vestia antes de soluçar e perguntar.

- Por que? Por que me salvou! – ela perguntou entre lágrimas.

Ishida se afastou, sem desfazer o abraço para ver o rosto contorcido em dor e lágrimas.

- Eu tinha que te salvar, Inoue-san! Eu nunca permitiria que fosse abusada por...

- Mas eu tinha que ser! – ela bradou, interrompendo o amigo. – Eu tinha que ser violentada de todas as formas por eles! Era meu castigo! Se eu tivesse sido estuprada por eles, Ishida-kun, eu teria me redimido um pouco dos meus erros! – Inoue exclamou, as mãos segurando os cabelos no topo da cabeça. – Eu tinha que ter sido deixada lá, Ishida-kun! Por que não deixou? Por quê?

Aquele questionamento, aquela angústia, Ishida assistiu assustado ao ver alguém que precisava se perdoar imediatamente ou iria cometer uma loucura. Mas que ela havia feito de tão grave para querer ser castigada de uma forma tão... cruel?

- Porque desta forma, não haveria redenção. Você apenas acabaria de cair num poço sem fundo de amargura. – Ishida pensou, mas sua boca não foi capaz de expelir as palavras. Apenas estava paralisado, não sabia o que fazer.

Ela chorava copiosamente. Ishida chegou a erguer uma mão para toca-la novamente, já que Orihime agora cruzava os braços rejeitando sua aproximação.

- Eu vou buscar um pouco d'água...

Ishida se levantava quando o celular sobre o criado-mudo tocou acompanhado dos soluços de Orihime que se encolhia abraçada a um dos travesseiros.

Era, para sua surpresa, a resposta de uma mensagem que passara naquela manhã para Ichigo. De alguma forma ele sentia que algo ruim estava acontecendo e pediu notícias. E as que chegaram não eram nada boas.

"Desculpe demorar. Ishida, precisava conversar com você pessoalmente. Não sei. Quando você puder. Na semana que vem eu devo voltar a Karakura. A Rukia perdeu o bebê. Descobriram tudo e ela ainda não se recuperou muito bem. Como estão todos aí? E meu pai? E a Inoue e o Sado?"

Inoue viu Ishida arregalar os olhos e encobrir os lábios com uma mão enquanto lia a mensagem. Ele estalou a língua, suspirando. Empalidecera e a brancura de sua pele chamou a atenção de Orihime que se conteve no choro.

- A... Algum problema, Ishida-kun!

Ishida que apoiava o queixo nas mãos e os ombros aos joelhos mordiscou o lábio inferior. Ele estava angustiado. Virou-se para Orihime e revelou.

- A Kuchiki-san... – ele suspirou, quase perdendo a fala. – Ela perdeu o bebê!

Inoue arregalou os olhos cianeto, em choque.

- Não... Não pode ser... – a menina balbuciou.

Lembrou-se do aperto firme no braço da morena que, desesperada, segurava o ventre. Ela sussurrou no ouvido de Rukia:

"- Quem te deu a permissão... – para ter um filho com o meu Kurosaki-kun?"

Sua própria voz ecoava em sua mente. Palavras proferidas com tanto asco e desprezo.

"- Está muito enganada se acha que vai ter esse filho nojento"!

- Não! – Inoue exclamou, assustando Ishida.

- Inoue-san? – alarmado, o jovem apoiou as mãos nos ombros da garota que tinha o olhar vago. Aquelas lembranças lhe transportando para longe dali.

"- Bobinha... – ela ria – Eu já disse que não vai ter esse filho do Kurosaki-kun! – disse com seriedade. – Nem que eu tenha que arranca-lo de dentro de você. – bradou entre os dentes."

- Eu não queria isso! – ela murmurou abraçando a si mesma.

- Inoue-san, acalme-se!

"- Ele é jovem, bonito e tem uma vida toda pela frente... – prosseguiu. – Acha que ele vai ficar nesse mundo idiota que ele não pertence? Você nem ao nosso mundo pertence. Nem humana é... – ela riu maliciosa quando os olhos acinzentados se chocaram com os marejados azuis. – Essa criança não é humana nem shinigami! É uma aberração".

- NÃO! – Inoue gritou.

- Inoue-san, por favor, acal...

Antes que começasse, Inoue se levantou, desesperada. Ishida seguiu logo atrás, acendendo a luz em seguida.

- Meus sapatos! – ela perguntava obstinada olhando por debaixo dos móveis, se agachando. – Onde estão!

- Onde quer ir a essa hora! Inoue-san! – Ishida protestou, preocupado com a reação tão exasperada da amiga.

- Eu tenho que ir ao Urahara-san e ir... ver a Kuchiki-san e o Kurosaki-kun!

- Ele não vai abrir o senkaimon pra você, Inoue, depois do que...

- Fui eu que matei o filho da Kuchiki-san, Ishida-kun! – Orihime interrompeu com um grito que surpreendeu o quincy que dera um passo para trás, apreensivo. Do que ela estava falando?

- Inoue-san, você cometeu um erro grave, tudo bem, mas não deve se culpar por tudo que acontece com eles! – Ishida, comovido com a reação desesperada da garota que chorava a sua frente em desespero com os amigos, tentou abrandar a situação. – A Kuchiki-san deve ter tido alguma complicação, você não a vê tem tanto tempo e...

As mãos de Ishida quase a alcançavam quando ela saiu do quarto às pressas. Estava desesperada.

- Inoue-san!

E com aquele grito, Ishida a seguiu pelo apartamento no qual vivia sozinho. Ela logo encontrara as sapatilhas sobre um tapete na porta, ao lado dos sapatos de Ishida e os calçou. Foi rápida demais para que Ishida a alcançasse, já que a porta sempre era deixada aberta, uma vez que o condomínio tinha uma alta segurança fechada.

- Inoue-san!

Ishida saiu pelo corredor do prédio apenas a tempo de ver a porta do elevador que Orihime, aflita, havia pegado, se fechando. Ele apertou com raiva e violência os botões tentando chamar outro para dar de cara com a placa que dizia que o elevador de serviço estava em manutenção. Estalou a língua e, farfalhando os cabelos, não viu outra maneira de segui-la: a saída de emergência.

Orihime desceu os sete andares do prédio rapidamente. Estava agachada no canto do elevador quando viu o display sinalizar o térreo. Assim que a porta abriu, ela se reergueu e saiu. Precisava ir até a loja do ex-capitão, ele tinha que abrir passagem para ela ir a Soul Society. Tinha que pedir desculpas a Rukia. Kurosaki-kun deve estar me odiando... A culpa é minha. Ela repetia a si mesma.

Não demorou a que ela saísse do prédio e do pequeno jardim que cercava o condomínio. Àquela hora não havia ninguém nas ruas de Karakura, ainda mais em um lado tão privilegiado da cidade como onde Ishida morava. Tinha de ter alguém acordado naquela casa ainda e, se não tivesse, ela os acordaria. Precisava ir até lá.

Ishida desceu as escadas com tudo que pôde. Estava ofegante, descer sete andares não era fácil e ainda mais correndo. Saiu pela rua e, sem rumo, não sabia por onde Inoue havia ido. Tinha de seguir sua reiatsu. Não era tarefa difícil. Então pegou a rua da esquerda e seguiu com tudo que tinha.

Inoue seguia a caminho da casa de Urahara. Estava perdida. Nunca ia para aquele lado da cidade e mal sabia como chegar até a parte de Karakura onde residia, ainda mais para a casa do loiro. Quando viu um relógio marcar uma e meia da madrugada, esse que tinha o visor embaçado pelo sereno, Inoue decidiu se apressar.

Se o Kurosaki-kun me odiar... eu não vou...

Os pneus cantaram numa forte freada acompanhada da buzina escandalosa de alguém que, desesperadamente, tentava parar o carro. Ela teve tempo apenas de olhar pro lado e ter os olhos arregalados ofuscados pela forte luz do farol. Chegou a entreabrir os lábios para proferir um 'não', mas as palavras se perderam quando o carro em alta velocidade a atingiu, lançando-a sobre o capô de lataria vermelha que a jogou de volta ao asfalto.

Ishida ouviu o barulho e, alarmado, correu ainda mais. Era na direção que vinha a reiatsu de Inoue.

O carro, parado, era ocupado por dois jovens que saíram rapidamente para olhar quem haviam feito de vítima. Sem largar a garrafa que trazia, um deles se aproximou do corpo inerte da jovem que usava uma blusa masculina e estava inconsciente na estrada. O belo rosto já não podia ser chamado de tão belo. Ele era adornado por uma ferida profunda que descia do lado do olho esquerdo até os lábios arrebentados. Uma poça rubra servia como seu leito.

- Merda! – o que parecia drogado e coçava o nariz do qual havia um pó branco escapando se curvou perto da menina. – Tu matou a mina!

- Eu não matei ninguém! Merda de garota, que tava fazendo na rua essa hora? – irritado e embriagado, o punk chutou com força o braço da garota. – Ei! – ele notara algo. – Não é aquela garotinha que tentamos pegar hoje à noite? Aquela gatinha que o Ryuuichi tá querendo levar pra cama?

- É sim! – ele se afastou, levando o amigo. – Putz, estamos perdidos!

- Vambora! Daqui a pouco vão chamar a polícia! – o punk avisou, largando a garrafa no chão, fazendo-a se quebrar próxima ao corpo de Inoue!

E com uma cantada semelhante a qual havia precedido o acidente que desfigurara Inoue Orihime, os dois delinquentes saíram com o carro, passando ainda por Ishida, que se assustara ao ver um carro sair naquela velocidade.

- Inoue-san!

Finalmente encontrara a dona da reiatsu que sentira enfraquecer bruscamente. Ishida se surpreendeu ao ver a menina no chão. Caminhou até ela para ver que, no chão, havia rubro vívido encobrindo o seu corpo até onde as marcas de pneu enfeitavam o asfalto. Próximo havia cacos de vidro que pareciam restos de uma garrafa. Ele ficou em choque. Estático quando se agachou e viu o belo rosto que contemplara mais cedo destruído. Trêmulo, ele ainda levou a ponta dos dedos ao braço da menina, para depois recolhê-los. Sabia que não devia movê-la.

- Inoue-san! – ele deixou as lágrimas caírem dos olhos azuis ao contemplar a beleza destruída da amada. Levou o dorso da mão até próximo os lábios e sentiu a respiração fraca da menina.

Não havia nada que pudesse fazer a não ser retirar o celular do bolso e ligar para chamarem uma ambulância o mais rápido que fosse. Aquela que tinha o dom maravilhoso de curar as pessoas precisava de ajuda. Ele não possuía o dom de realizar tal milagre e não havia nada que pudesse fazer a não ser lamentar e esperar que alguém a ajudasse.

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- Kurosaki-taichou!

Aquele grito estridente veio acompanhado de batidas na porta. A pequena já estava impaciente. Fazia tempo que chamava seu capitão e nada, ele não atendia. Sabia que ele estava na sala e o silêncio que fazia era preocupante. A expressão se contorceu em angústia e preocupação. Decidiu então dar a volta pelo jardim de inverno. E quando o fez, encontrou a porta da varanda aberta, como de costume. Logo avistou, de costas, o rapaz de berrantes cabelos laranja. Ele estava sentado no beiral de madeira.

- Kurosa...

E seu chamado foi interrompido quando ouviu soluços. Sem emitir um som mais, apenas um soluço baixo e contido. Ele parecia observar o nada. Era difícil vê-lo assim, aliás, ela nunca o vira assim. Depois de uma semana, era o primeiro dia em que Ichigo se apresentava ao trabalho.

A expressão abatida que vira àquela manhã quando ele chegou, com palavras tão comedidas que se resumiram a cumprimentar a sua ex-tenente, haviam deprimido a garota. Já sua atual tenente, Kuchiki Rukia, havia rumores de que deixaria o posto sob subordinação de Kurosaki Ichigo, mesmo porque futuramente se tornaria sua esposa e, como os tais rumores diziam, ele não permitiria que ela permanecesse a serviço do Gotei.

Infelizmente a realidade era bem diferente. Byakuya restringira o contato deles apenas às visitas formais que ele tinha de fazer a ela todos os dias. Visitas que, para Ichigo, eram uma tortura.

- Hinamori? – o capitão se assustou, tratando de enxugar as lágrimas que tanto tentara esconder. Sentia vergonha de chorar na frente dela, aliás, de qualquer um.

- Me... – gaguejou. – Me desculpa, taichou! – Hinamori se curvou de imediato, fazendo a longa franja cobrir seu rosto. – Não queria... atrapalha-lo! Entrei porque me preocupei por não ter me atendido.

- Não. – Ichigo desviou o olhar. – Me desculpe por não ter atendido... Estava aqui... pensando em algumas coisas. – ele forçou um sorriso, mesmo que o rosto estivesse úmido.

- É que... está na hora de você ir visitar a Kuchiki-san, digo, fukutai...

- É verdade. – Ichigo interrompeu, suspirando em desanimo.

- Me desculpe, Kurosaki-taichou, mas como ela está? – a ex-tenente parecia preocupada.

- Ela está... – ele pausou, lembrando-se do ultimo encontro com a amada. – bem. – não havia o que dizer ao se lembrar daqueles olhos azuis gélidos que não lhe encaravam.

- É que... – sutilmente ela apertou as mãos sobre o colo, meio sem jeito. – eu ouvi a conversa que teve com o Kuchiki-taichou essa manhã... – Ichigo piscou ao ouvi-la revelar. – Parece que a Kuchiki-san está com alguns problemas, não é?

Ichigo se curvou. Estava com os cotovelos apoiados aos joelhos e as mãos caídas desleixadamente entre as pernas. Um riso de desalento escapou de seus lábios.

- Rukia... tem muitos problemas, Hinamori-san. – e perspicaz, ela notou um leve ranger de dentes dele. – Ela está muito fragilizada ainda com tudo que aconteceu. Byakuya diz que ela não come mais, nem sai do quarto... Só se arruma quando as serviçais dos Kuchiki a preparam para eu visita-la como... noivo. – ele riu ironicamente, recostando-se a pilastra de madeira e fitando o pequeno lago no fundo do jardim. – Ela nem olha nos meus olhos! – Ichigo revelou, apertando os punhos. A angústia estava presente no rosto abatido. – Nada que eu diga faz com que ela olhe pra mim! Passo uma hora ao lado de... uma pessoa sem vida.

Hinamori se surpreendeu com a revelação tão aberta de Ichigo. Ele facilmente abrira seus sentimentos e demonstrava o quanto estava abalado. Era nítido no rosto mais magro que ele também carecia de cuidados consigo mesmo, mas como julga-lo e exigir que ele tivesse alguma vontade de viver se o mesmo se condenava como o assassino de seu próprio filho e da mulher que ele mesmo dizia, não tinha mais vida dentro de si. Uma casca vazia. Era aquilo que Rukia se tornara.

- Hoje vamos ao festival da comemoração da posse do velho, a pedido do Byakuya. Ele diz que, se ela continuar assim, provavelmente vai ficar doente igual à irmã. Ele está preocupado! E mesmo com tudo que fizemos... – Ichigo suspirou. – E vamos lá para eu desfilar com aquela Rukia sem vida do meu lado. E seremos alvo de comentários maldosos, de nossa união por pura conveniência...

O desabafo de Ichigo exprimia o quanto ele estava cansado de tudo aquilo. Mas o que fazer?

- Kurosaki-taichou... – Hinamori pausou, tomando coragem de questionar algo que aqueles olhos castanhos marejados e cheios de tristeza buscavam encontrar. Teria ela a resposta? – Tem certeza de que quer continuar com isso?

- Hm? – o jovem arqueou uma sobrancelha a menina que se ajoelhou ao seu lado.

- Aqui, como capitão da Soul Society.

- Eu tenho que permanecer, vou me casar com a Rukia! – ele disse obstinado. – Byakuya exigiu e eu não posso desemparar a Rukia! Eu fiz... – Ichigo corou. – algo muito sério com ela. Se não me casar com ela, ninguém mais vai querer por causa disso. Essa sociedade estúpida... – o capitão se indignava. – Mas casar com a Rukia, Hinamori-san... é o que eu sempre quis! – ele revelou com toda paixão.

- Será que isso fará você... e a Kuchiki-san felizes?

A pergunta doeu. Doeu muito. No fundo do peito de Ichigo. Casar com quem lhe desprezava a faria feliz? Ele não importava muito com esse status. Duvidava muito que um dia ele mesmo pudesse voltar a ser feliz, mas Rukia... seu sonho, sua obstinação, sempre foi proteger seu amor, sua felicidade, aquele sorriso que esmaeceu e desapareceu do rosto de porcelana.

Mas aquela questão ficara na mente de Ichigo. Ele se reergueu, surpreendendo Hinamori que ficou sem resposta.

- Kurosaki-taichou? – ela piscou, erguendo o rosto para encara-lo.

- Eu preciso ir!

Foi tudo que Ichigo disse antes de deixar Hinamori onde estava, sem essa saber que havia criado uma grande lacuna no coração do capitão.

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- Inoue-san?

A garota que estava sentada sobre o leito ouviu o suave girar da maçaneta da porta que se abriu, revelando o rapaz que trazia um ursinho de pelúcia a frente do corpo.

- Ishida-kun! – Orihime exclamou com um sorriso ao ver o amigo.

Ficara uma semana internada no hospital do pai de Ishida e, naquele dia, receberia alta. Já não havia nenhum sinal dos ferimentos que sofrera. Apesar de serem todos leves, foi recomendado que ela passasse uns dias a mais lá pelo impacto do acidente. E durante todos os sete dias que permaneceu naquele quarto de hospital, Ishida esteve visitando a menina. O rosto já estava impecável, havia apenas um curativo próximo ao lábio e o braço direito da menina estava engessado, teria de permanecer assim por mais uma semana.

- Assim quando eu sair hoje não terei mão para levar todos esses bichinhos! – ela riu apontando os outros que ele trouxera nos dias anteriores.

Aquele sorriso ingênuo que tanto amava estampado no rosto bonito de Inoue. Ah, como aquilo enchia o coração de Ishida de harmonia. Era como estar no céu.

- Esse é especial! – Ishida riu, mostrando um cartão que havia na mão da pelúcia cor-de-creme que usava um macacãozinho jeans, provavelmente obra de costura dele.

- Um cartão? – Orihime piscou, recebendo das mãos do amigo o ursinho.

Curiosa, pegou o pequeno envelopinho cor-de-creme que havia na mãozinha do urso e o abriu.

- Continue sorrindo...

E como se ela executasse o pedido do cartão, Inoue abriu um belo sorriso. Os olhos brilhantes observaram com ternura o amigo. Ele era tão carinhoso. Aquela ternura chegava a doer.

- É o que mais importa pra mim, Inoue-san. – Ishida revelou, se permitindo tocar no queixo da menina, que corou envergonhada.

- I... Ishida-kun! – ela gaguejou sem graça.

- Está pronta?

E a chegada da voz grave fez Ishida praticamente arrancar a mão do rosto de Orihime, que ficou piscando confusa ao ver o médico e pai do amigo adentrar o quarto. O homem de meia-idade arrancava suspiros de qualquer uma que fosse. Munido do jaleco branco do qual retirou as chaves do carro, o médico se apoiou a porta e lançou um sorriso maldoso em direção ao filho.

- Por que não bate antes de entrar, Ryuuken? – Ishida, mais vermelho que um tomate, indagou furioso.

- Que eu saiba sou seu 'pai' e esse hospital é meu. – o doutor, petulante e altivo, relembrou, fazendo seu filho rebelde ranger os dentes. – Desculpa por te incomodar no seu momento de intimidade com a Orihime-chan. – ele comentou, fazendo a menina corar também, enquanto pegava um cigarro do bolso e o levava aos lábios. – Não sabia que conseguia uma namorada do nível dela. – disse, acendendo o tabaco.

- Isso é um hospital! – Uryuu não se conteve em repreendê-lo. – E está fumando nele!

- Meu hospital. – Ryuuken teve de relembrar. – Já está pronta, Orihime-chan?

- Sim, só falta colocar meus sapatos. – a morena assentiu, colocando a s pernas para fora do leito. – Eu não consegui amarrar meus tênis porque meu braço está assim! – ela riu divertida apontando o braço engessado.

- Eu coloco pra você, Inoue-san! – Ishida se agachou e prontamente pegou o par de sapatos que estava debaixo da cama.

- Vamos logo. Ainda tenho uma reunião mais tarde depois de deixa-los na casa da Orihime-chan. – Ryuuken avisou, saindo.

Assim que o médico os deixou, Inoue mordiscou o lábio e ainda vendo o jovem que amarrava com tanto capricho seus cadarços, decidiu falar.

- Ishida-kun!

- Hm? – ele ergueu o rosto para encara-la.

- Podemos ir ver o Kurosaki-kun! E a Kuchiki-san?

Ela estava desconfortável. Os olhos marejaram e Ishida esboçou um sorriso. Seria um novo começo?

- Eu sei que Urahara-san não me deixa mais ir a Soul Society... mas com você eu acho que ele deixa!

- Tudo bem, eu vou pedir a ele. – ele sorriu ao se levantar. – Está pronto. – o quincy anunciou e Inoue contemplou os laços bem feitos dos tênis cor-de-rosa e preto. – Vamos? – Inoue viu as mãos de Uryuu estendidas para que ela se apoiasse.

- Vamos!

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Já estava a mais de meia-hora esperando a chegada da noiva que era aprontada pelos serviçais da família Kuchiki. Um tanto quanto impaciente, as mãos apertavam incessantemente o haori azul-marinho que usava por cima do yukata verde-água com estampas em azul claro e detalhes brancos. Estava elegante para o festival no qual seria acompanhado por sua futura esposa. Sentado na antessala que precedia o aposento de sua noiva, ele ouvia o burburinho das mulheres que a vestiam e a maquiavam. E eis que ela surgiu por trás daquele biombo que dava para a porta.

Estava linda.

Num yukata rosa-chá com um obi amarelo assim como as estampas florais que seguiam no tecido da peça principal. Os cabelos estavam presos em um coque no alto da cabeça e um lenço salmão, deixando muitas mechas soltas na frente do rosto e dando um ar jovial e elegante a mulher. Havia um belo enfeite de prata prendendo os cabelos. O rosto estava maquiado na medida, realçando com lápis de olho e rímel os olhos azuis enquanto os lábios eram tonalizados por um rosa mais forte que o de sua vestimenta. O blush ruborizava levemente a pele branca como gelo e dava mais vida ao rosto que estava mais magro.

Ichigo suspirou ao vê-la assim. Ergueu-se rapidamente do sofá no qual esperava e estendeu a mão a sua amada.

- Está linda, Rukia! – o jovem contemplou, ousando capturar a mãozinha e tascar um beijo em seu dorso.

Séria, Rukia nada disse. Era nítido seu desconforto ante aos carinhos de Ichigo. Mas ele não se importou naquele momento. Estendeu o braço e como boa esposa que deveria ser e foi ensinada desde que adentrara o clã Kuchiki, fez a vontade de seu futuro marido e enlaçou seu braço no dele. O rapaz sorriu, mas a morena desviou o olhar, aflita.

Caminharam pelo longo corredor até chegar à sala onde Byakuya já terminava de se aprontar. Usando um yukata negro e um haori marrom, o nobre optava pela sobriedade. Ao vê-lo, Rukia se curvou em respeito.

- Divirtam-se essa noite. – ele pediu, jogando os cabelos negros para fora do haori que acabara de ser vestido nele por um de seus subordinados.

Rukia apenas meneou a cabeça. Mas aquela expressão tristonha realmente não era de alguém que estava para sair para se divertir.

- Pode deixar, Byakuya! A Rukia vai se divertir muito! – ele disse, afagando a pequena mão que tinha os dedos enlaçados a sua, mas a morena nada fez.

- Vão na frente. Eu estou esperando alguém.

O jovem arqueou uma sobrancelha, mas achou melhor não comentar.

- Com licença, Byakuya. Nos vemos no ichibantai então!

Rukia se curvou novamente e ambos saíram.

O caminho foi silencioso. A lua estava escondida pelas nuvens que estavam carregadas no céu, então não havia muita iluminação pelo caminho até onde seria a festa de nomeação do soutaichou. Aquele dia comemorava a posse dele como comandante no Gotei. E era uma festa na qual a participação de todos os capitães e tenentes e oficiais eram obrigados a ir.

Rukia não queria, mas foi obrigada por Byakuya que exigiu que Ichigo a levasse, já que seria uma oportunidade de ela, quem sabe, voltar a sorrir ou ao menos viver. Mas só o fato de estar ao lado daquele que... matou seu filho, destruiu sua vida, a traiu... aquele que amava... Era tão doloroso.

Ver aquele sorriso que não sabia como ele podia ter estampado em seu rosto tão altivo, mesmo que ele parecesse abatido, lhe ofendia. Ele não se importara nem com a perda de seu filho. Seu filho...

Não havia um dia que não pensasse no filho que havia perdido.

Não havia um dia em que seu sono não fosse perturbado por pesadelos terríveis.

Não havia um dia em que não ouvisse o choro daquela criança que nunca chegou a ver.

Tudo aquilo era palpável demais. Teve de se controlar para não continuar a cozer roupinhas e acostumar a sua mente de que, no ventre dela, ele não estava mais. Já para Ichigo, ele estava feliz e alegre. Ele havia se acostumado e nem se importado com a perda. Ela sabia e tinha certeza.

Eles estavam caminhando quando de repente, a morena tropeçou num dos tamancos de madeira, surpreendendo Ichigo que, rápido, segurou Rukia com destreza e jeito.

- Tá tudo bem?

Ela se viu frente a frente com ele. Aqueles olhos preocupados que tanto a cativavam. Próximo demais. As mãos que seguravam seu corpo estavam firmes. Ele, obstinado a não permitir que ela se ferisse.

- Se machucou, Rukia? – ele perguntou quando se perdeu no infinito azul dos olhos dela que se perderam nos castanhos dele. – Ru...

Foi inevitável entreabrir os lábios. Ela, apesar de assustada, tinha os seus tremendo e os olhos azuis sem vacilar grudados nos castanhos. A respiração estava próxima demais, aquele ar quente do hálito delicioso dela e o perfume masculino que emanava de Ichigo, misturada ao aroma natural da sua pele. Os dois corações aceleraram o ritmo como se nunca antes houvesse contato tão profundo.

Ela sabia que não podia. Não. Ela não podia... Mas estavam tão próximos. Que vontade de tomar os lábios dele como antes. Prestes a se tocar, Rukia o repeliu, espalmando o peito do rapaz para afasta-lo.

- Ginrei! – ela chamou, olhando para trás.

- R-Rukia? – Ichigo gaguejou, confuso. – Que está falando?

- Ginrei! Eu ouvi o choro dele! – Rukia caminhou mata adentro, saindo da trilha que seguiam.

- Rukia! – Ichigo, desesperado e confuso com a afirmação dela, a seguiu. – Rukia, do que está falando?

Rukia permaneceu a caminhar pela floresta, erguendo o yukata para não suja-lo e, apreensiva, continuava com os olhos azuis a perscrutar pela mata. Aquilo assustou Ichigo que, preocupado, tocou seu ombro.

- Rukia, o que aconteceu? – ele perguntou sério.

- É o Ginrei! Eu ouvi o choro dele! – a morena balançou a cabeça negativamente, angustiada. – Não está ouvindo? – Rukia perguntou o obvio e Ichigo, com o coração apertado, apenas negou com a cabeça. – Eu... sempre ouço e... – a voz se perdeu. – nunca acho! – ela continuava a revirar os arbustos em volta. – Eu procuro tanto!

Ichigo estava atordoado em vê-la tão perturbada. Sabia que aquilo havia afetado e muito o emocional de Rukia, mas agora ela mostrava o quão doente sua mente estava. Quão mal havia feito a ela, perguntou a si mesmo. Ichigo não hesitou e, surpreendendo a morena, a envolveu em seus braços e apoiou a cabeça em seu ombro.

- Rukia, Ginrei se foi! – Ichigo revelou num sussurro.

- Ichi... – a voz de Rukia fraquejava mais uma vez. – Eu escuto o Ginrei...

- Não! Você não o escuta. – o jovem a virou de frente, apoiando a palma da mão no peito da morena. – Ele está aqui, Rukia. Você deve guardar ele aqui, dentro do seu coração! Ele pode ter saído de você, mas do seu coração ele nunca vai sair!

Ela segurou a mão dele que estavam entre seus seios. O choro de Rukia mostrava o quanto aquilo a perturbava.

- Você não liga para o Ginrei! – ela protestou. – É por isso que ele chora! Eu sei!

- Rukia... – Ichigo a chamou, a culpa lhe corroendo.

- Pare de fazer o Ginrei chorar! – Rukia gritou, o rosto contorcido em angústia.

- Ru...

E antes que Ichigo protestasse, Rukia o empurrou, correndo pela floresta a qual haviam adentrado. O jovem ainda chegou a fazer menção de ir atrás dela, mas a morena tropeçou novamente no tamanco e caiu de cara no chão. O lenço que estava preso em seu cabelo desamarrou e caiu na terra úmida próxima ao córrego ao lado da estrada,

- Rukia! – Ichigo gritou, correndo até a morena. – Rukia, ei! – ele a levantou rapidamente. – Que pensa que está fazendo? – indagou ao ver o rosto choroso. – Seu lenço estava tão lindo... – ele estalou a língua ao mostrar a peça suja no chão.

- Me deixe em paz! – foi tudo que ela disse ao afasta-lo e se erguer com dificuldade.

- Rukia... – Ichigo chamou, vendo-a sair mancando.

Daquela vez Ichigo não a seguiu. Ficou com o lenço na mão e observando a morena sair cambaleando. Ele suspirou pesado antes de um remexer na mata chamasse sua atenção.

- Quem está aí? – indagou preocupado quando se virou na direção do barulho.

E nada. Absolutamente nada havia ali. Será que estava ouvindo coisas também?

xxxx-xxxx

Um tanto quanto exasperada, Rukia corria até chegar onde já havia música alta, conversas que se misturavam a gargalhadas, luzes e comida farta. Ela nem se tocou que havia chegado à festa de comemoração do aniversário de posse do soutaichou. Apenas quando trombou em uma figura imponente, esguia, de cabelos negros de tamanho médio, adornado pelo símbolo de sua nobreza, Rukia se tocara de onde estava. Foi jogada para trás pelo baque e quase caiu. Mas duas mãos firmes a seguraram e assim que seu irmão se virou para encara-la, ela olhou para cima e viu o ruivo que a capturou, evitando que caísse.

- Renji? – ela sussurrou.

- Olha por onde anda, Rukia. – Renji sorriu, afagando os ombros da morena antes de solta-la.

Mas os olhos sorrateiros do nobre fitavam sem vacilar Rukia e o yukata rosa-chá que estava sujo. O lenço que usava nos cabelos negros também não estava mais lá.

- Onde está Kurosaki Ichigo? – sem vacilar, Byakuya questionou ainda examinando ao redor para ver se encontrava.

Rukia engoliu a seco e gaguejou um pouco antes de responder.

- Ele... ele está... vindo, nii-sama!

- Então volte para fora e espere ele lá. – disse o capitão observando um grupo de garotas de baixa patente que, nitidamente, faziam comentários das últimas fofocas tão comentadas da Seireitei. – Nosso clã está mal falado demais para ver você aqui agora como uma mulher desacompanhada.

Rukia franziu o cenho. Constatar que havia decepcionado seu irmão trazia mais tristeza em seu coração, mas de qualquer forma, não se entristecera. Queria mesmo era sair dali e não ir à festa alguma. Ao invés de esperar Ichigo, voltaria à mansão.

- Sim, nii-sama. – obediente, Rukia se curvou.

- Não, taichou! – Renji, que até então apenas observava, protestou. – Se for por isso, taichou, eu acompanho a Rukia! – e de prontidão, o tenente e amigo deu o braço a morena.

- Não precisa, Renji! – Rukia tentou evitar, mas um sorriso de agradecimento, mesmo que fraco, cruzou seus lábios.

- Rukia precisa se divertir, como o senhor mesmo disse!

Aquela revelação dos sentimentos de Byakuya o fez corar levemente e parecer sem jeito. Rukia piscou. Ele se importava e se preocupava assim com ela?

- Ela precisa ser acompanhada por aquele que a deflorou. Não tem que andar com alguém mal vista como a Rukia.

As palavras de Byakuya feriram Rukia, que baixou a cabeça. Renji se sentiu igualmente ou talvez mais ofendido. Cerrou os punhos sem soltar o braço da amiga. Ver como o nobre a tratava, mesmo sabendo que ele se preocupava e queria o bem de Rukia era revoltante. Renji não suportava vê-la triste e mesmo sabendo que não poderia trazer de volta a vida que aqueles olhos azuis antes tinham, ele queria ao menos conforta-la um pouco.

- A Rukia poderia ser a pessoa mais mal vista do mundo, Kuchiki-taichou, – ele fitou pelo canto dos miúdos olhos cor-de-mel a morena que o observava. – eu ainda assim andaria com muito orgulho ao lado dela!

A morena se comoveu com a declaração de seu amigo. As safiras foram embebidas por lágrimas que ela conteve. Os olhos já ardiam de tanto que passara a chorar. E pensar que já tinha sido tão forte.

- Faça como quiser. – foi tudo que Byakuya disse antes de lhes dar a costas.

- Vamos! Vou te levar onde a Hinamori, o Kira e o Hisagi estão! Eles já estão bem doidões, você vai rir! – Renji anunciou animado.

Ele já ia puxando a garota quando Rukia o segurou, apertando seu braço. O ruivo fitou por cima do ombro a menina que desviou o olhar.

- Renji... – ela murmurou. – Não tem que andar comigo. – Rukia fitava o grupinho que ria horrores enquanto observava os dois.

- Rukia! – Renji se virou de frente, apoiando as mãos aos ombros da pequena. – Eu sou tenente do seu irmão e não dou a mínima para o que essas idiotas estão falando! Conheço cada uma delas e sei com quem cada uma já dormiu! – ele pausou. – Se você é nobre, teve algo com Ichigo ou ainda tem... isso é algo que só você tem que saber. Só quero que seja feliz. – foram as palavras dele quando a abraçou com firmeza. – Bem, - Renji se afastou, meio tímido. – melhor irmos logo. Vai que o Ichigo aparece aí e me vê com você assim... – ele riu.

Os dois saiam de mãos dadas e desde que ouvira o nome de Ichigo, Rukia ficara inquieta. Ele não havia aparecido. Será que estava tão chateado com o que fizera que nem apareceria? Mas não era obrigatório?

Não demorou muito para que chegassem até a área interna e em uma das mesas estavam Kira, Hisagi e conversando com alguém que não lhe pareceu estranha e estava de pé ao lado da mesa, Hinamori.

- Vejam quem eu trouxe!

Renji anunciou, mas os amigos apenas acenaram, exceto Hinamori que pausou a conversa com a morena de beleza exótica para respeitosamente se curvar a sua tenente. Kira e Hisagi estavam alcoolizados demais para conversar sobre algo já que não fosse todas as humilhações que Gin fizera o loiro passar e que o tenente, orgulhosamente, dizia revelando sua paixão e devoção pelo capitão enquanto Hisagi cantava qualquer mulher que passasse. Nem Rukia escapou quando se sentou a mesa e se colocou diante dos olhos do tenente.

- Rukia-chan, você tá um espetáculo hoje!

- É porque você está bêbado que vai escapar dessa. – Renji, enciumado, sentou-se ao lado da morena que observava o ambiente. – Rukia, quer sake?

- Não... Não estou bebendo, obrigada. – ela ergueu uma mão educadamente e tentou esboçar um sorriso.

Ela se sentia incomodada. Desde que chegara ali, a garota com quem Hinamori conversava não tirava os olhos dela. Sem hesitar, olhava por cima do ombro da menina tão delicada que usava um coque azul no alto da cabeça. Quem era ela, afinal?

- Estou muito preocupada. Ele não tem falado nada, nem cuidado dos trabalhos. Não come, nem sai para nada..

As palavras de Hinamori chamaram a atenção de Rukia, que ignorava a conversa de Renji que falava algo sobre o que faria em suas férias. De quem ela estava falando? Era de Ichigo?

- É muito recente. Normal que ele esteja assim... – a mulher de pele bronzeada respondeu.

- Perguntei se ele não achava melhor abandonar tudo e voltar para a vida no mundo dele... – Hinamori dizia com pesar e Rukia, ouvindo tudo, se alarmou.

- E ele, disse o quê? – a garota cruzou os braços, apoiando-se a pilastra de madeira que estava próxima.

- Que ele se comprometeu com a Rukia-fukutaichou. – ela sussurrou, mas aquela da qual falavam ouvia tudo. – E que era o que ele mais queria... casar-se com ela. – comentou com tristeza. – Não acredito que aconteceu uma tragédia tão grande quanto essa.

- Perder um filho é algo muito difícil, Hinamori-san. – a morena dizia. – Não existe quem sofre mais, se é a mãe ou o pai. É egoísmo dizer que a mãe sofre mais. Pela lei natural, os pais nunca esperam perder os filhos. É algo difícil de superar.

- Hoje o vi chorando quando fui avisa-lo da hora de ir embora. – Hinamori comentou com tristeza. – Para a Kuchiki-san, ele demonstra estar feliz, quer anima-la. O Kuchiki-taichou pediu que ele a ajudasse, mas no fundo, ver o Kurosaki-taichou sorrir desse jeito falso... dói muito.

- Ele não em apoio de ninguém. É normal que esteja se isolando. – concluía.

Rukia sentiu um bolo na garganta com o que ouvira. Ele andava chorando e desse jeito? Mas... ele parecia tão bem aos seus olhos. Sempre pensou que não se importava com ela nem com a perda do filho. Como havia sido cruel com ele.

- Com licença.

O capitão Hitsugaya Toushirou se aproximou e a morena que conversava com Hinamori imediatamente ruborizou antes de se curvar. Ela não sabia se estava se curvando para cumprimenta-lo ou meramente para esconder o rosto vermelho.

- Hitsugaya-taichou! – Renji cumprimentou, levantando-se.

Rukia não aguentava mais ficar ali naquele meio alegre e de trivialidades após ouvir aquilo. O que tinha feito? Como pudera julgar Ichigo de forma tão cruel? Não aguentou mais e, sem dizer uma palavra, ergueu-as da mesinha baixa e saiu correndo. Um sorriso malicioso e satisfeito cruzou os lábios da morena que a fitava sem pestanejar.

- Rukia! – Renji gritou ao vê-la partir deixando o salão.

- Com licença, Hinamori-san. – a morena a afastou, sorrindo, ao se aproximar do capitão. – Há quanto tempo, Hitsugaya-taichou.

- Você...

E ao encara-la, o emburrado jovem de cabelos prateados deixou um sorriso escapar. Era uma amiga de longa data.

Ela corria. O lado de fora já estava meio vazio, afinal, a festa ocorria verdadeiramente no salão do ichibantai, mas muitos preferiam a informalidade dali. Parou para se agachar e tirar os tamancos de saltos altíssimos e os segurou em mãos. Apenas com as meias brancas, seguia a trilha de volta quando...

- Rukia!

A voz inconfundível. Aquele rosto belo e masculino, apesar de possuir traços suaves e carregar um pouco da adolescência. Os cabelos vibrantes laranja que o vento naquela noite balançava, brincando com cada mecha que, desalinhadamente, caia sobre sua fronte. O par castanho cheio de brilho e que há tanto lhe parecia tão opaco e fraco.

E assim como toda vez que ouvia seu nome ser pronunciado por aqueles lábios, seu coração parou. Falhou uma batida e as pernas, enfraquecidas pela força daquela voz, bambearam. O rosto ardeu febril quando viu o jovem que trazia o lenço salmão em suas mãos. Ele estava limpo e impecável como antes.

- Que está fazendo aqui? – Ichigo questionou, ignorando o olhar estático da morena. – Seu irmão vai brigar comigo por você chegar tarde! – ele reclamou, massageando a nuca com a mão livre.

Ele se aproximou para encara-la. Viu a morena pálida, os olhos arregalados e os lábios entreabertos que tremiam. Ele se preocupou.

- Ei, Rukia, você está bem?

- Sim... – ela murmurou, desviando o olhar, envergonhada.

- Deu maior trabalhão, mas tá pronto. – Ichigo avisou, dando a volta em Rukia e pegando os fios negros com delicadeza.

Ele penteava os fios com os dedos, cuidadosamente. Tinha cuidado para não machuca-la. Rukia corou e se arrepiou ao sentir as mãos que, ternamente, afagavam o topo da sua cabeça antes de ele prender num laço o lenço devidamente em seu lugar.

- Acho que ficou bom. – ele sorriu, virando-a de frente. Rukia apenas o encarava. – Mas eu prefiro você sem nada, sabia?

E após um tempo, ele corou ao se tocar do que falava.

- Digo, sem nada desses... negócios na sua cabeça! – ele se corrigiu

Assistiu ao rosto do garoto arder vermelho de tanta vergonha quando ele, timidamente, lhe lembrou de quando o conheceu e quanto acanhamento existia naquele garoto. Eles hesitavam até mesmo um olhar mais profundo. E de repente aquilo tudo se tornou tão natural. Os toques, as carícias, os olhares que diziam mais que as palavras que usavam para se declarar nos momentos de intimidade. Aquele toque... Quanta falta sentia daquele toque...

E, sem perceber, ela ergueu a mão direita e tocou suavemente o rosto de Ichigo. Os olhos azuis não desgrudaram dos castanhos nem quando o substituto piscou confuso ao vê-la fazer aquilo, mas nada mais importava. Sentir aquela pequena mão que acariciou com a ponta de seus dedos e depois o dorso que era como uma pluma eram coisas que Ichigo não poderia dar pouca importância. Ele capturou a mãozinha com a sua, encobrindo-a para leva-la até seus lábios, onde, com ternura, depositou um beijo, outro, mais um... Cerrou os olhos por um instante para anular um sentido e aguçar seu tato, sua percepção daquela pele tão sedosa. Mas os abriu de volta conseguindo assistir um sorriso cheio de doçura que Rukia esboçou.

Então eles se renderam aquele sentimento mutuo. Ichigo a puxou, enlaçando-a em seus braços e tomando aqueles lábios, cheio de paixão. Há quanto não sentia aquela boquinha miúda ser encoberta por seus lábios. E há quanto ela não sentia o hálito delicioso e quente dele, tão quente quanto seu abraço, as mãos firmes e grandes que deslizavam pelo seu corpo. E mesmo com os olhos cerrados ela sabia por onde as mãos dele passeavam. Sentia cada toque cheio de ternura, mas ao mesmo tempo com uma pitada de sensualidade. As palmas abertas delinearam a cintura fina e subiram, passando pela curva dos seios, deixando um gemido contido escapar dos lábios de Rukia a que ele calou com seus beijos. Até que as mãos chegaram à maçã do rosto, uma encobrindo cada lado enquanto aquele beijo sôfrego, intenso e que exprimia o que se passava no âmago de cada um acontecia.

Apenas se separaram quando o ar lhes faltou, mas Ichigo não soltou o rosto que suas mãos capturaram. Rukia, ofegante, apoiou-se ao peito dele, voltando a ter o prazer de sentir aquelas batidas tão fortes e aceleradas.

- Me desculpa, Ichigo. – ela murmurou.

- Shhh. – ele emitiu um ruído baixinho, pedindo silencio a ela. – Não me deve desculpa alguma. Apenas... vamos ficar juntos, tá?

Rukia assentiu, cerrando os olhos e sentindo-se novamente segura nos braços daquele que amava. Ichigo a abraçou, sentando-se debaixo de uma árvore. Havia apenas o som dos grilos enquanto ele contemplava, em silencio, o rosto da morena. Iluminada pelo luar, aquele brilho deixava a pele de Rukia translúcida. Como era bom tê-la de volta em seus braços.

E naquele instante, quando sentiu que ela adormecera em seu colo, ele jurou mais uma vez nunca mais falhar em proteger e cuidar dela.

Será que finalmente tudo se resolveria? Ou era cedo demais para se sentir aliviado?

Não havia como saber o amanhã, mas ele decidiu aproveitar aquele instante em que seu anjo estava protegido debaixo de suas asas.

Continua...