E olhem só quem está de volta quase um milênio depois!
Pois é, como eu disse, eu viajei, galera. Faz mais ou menos uma semana desde que retornei das minhas férias prolongadas, e por sorte eu tinha metade desse capítulo pronto... ainda assim foi um parto terminá-lo! Tanto tempo sem escrever e sem ter contato com a história... tive que reler várias coisas sobre todos os personagens, é nisso que dar bolar tanta criatura para uma fic só, mas confesso que amo cada um deles, mesmo os que vocês detestam! XD
Continuando, antes de partir para o capítulo gostaria de agradecer a todos pelos reviews, me surpreendi bastante quando tive a oportunidade de ler cada um, até agora nem consigo acreditar que há mais de 60 comentários nesse meu conto de fadas bobo, só tenho a agradecer pelo apoio e pelo tempo que vocês dedicam a ler isso aqui, de coração, muito obrigada! Prometo que, a Amanda Catarina e a MViana que possuem uma conta, assim que eu puder responderei com calma as reviews! À Cludia, agradeço mil vezes por ler e peço perdão pela demora do retorno! Poxa, não sabe como eu fico feliz em saber que alguém gostou tanto dessa fanfic a ponto de me mandar mais de uma review pedindo para escrever mais! Espero que você não tenha desistido por conta dessa demora toda, de verdade!
Enfim, deixa eu botar minha comoção de lado e seguir adiante, espero que vocês gostem do que está por vir!


A Minha Queda Será por Você
Capítulo 35 – Enquanto um está distante, outro se aproxima.


Jade, não é? olhando através do vidro esférico, contemplando a negritude do cenário, Diamante quebrou o silêncio.

— Sim, alteza.

— Ainda não decorei os nomes de todos, mal tivemos tempo para apresentações... relembrou-se da fatalidade de Ametista Aquela mulher, a dos cabelos rosados, não pude ouvir o que ela tinha a falar... Mas haverá tempo, muito tempo... a voz vagou baixa e reflexiva.

— O senhor que quis sair viajando ao redor do planeta, nem esperou a coitada da Quartzy acordar! Akai cruzou os braços e balançou os ombros displicentemente.

— Akai! Jade deu-lhe um cascudo e acabou por provocar um calombo no topo da cabeça cor de abóbora.

— Ai! O que eu disse de errado?! resmungou.

— Estamos chegando. o príncipe notou além do vidro os pontos luminosos encurralados pela escuridão.

Em meio às sombras e o frio aterrador havia uma pequena cidade. Conforme o óvni aproximava-se do solo rochoso, as construções lapidadas em cristal negro cintilavam luzes artificiais, a grande maioria das casas estava em péssimo estado – cheias de rachaduras –, se alguma delas possuía dois cômodos era muito, e nem precisariam de mais. Pouquíssimos habitavam ali, por suposto. O clima era tão penoso que os topos dos lares escondiam-se por baixo de crostas de gelo, escuro, como tudo.
O estrondo da aterrissagem mesclado ao uivo constante do vento tenebroso não foi o suficiente para aguçar a curiosidade dos reminiscentes naquela terra, ninguém abriu portas ou janelas.
Diamante, arredio, desceu os degraus da plataforma da nave ao piso congelado, à sua frente Jade marchou. Sequer o branco da farda do príncipe foi chamariz para um curioso. A curiosidade morrera de mãos dadas à esperança do povo.

— Isso é tudo o que restou? sussurrou assombrado.

— Príncipe, com todo o respeito, você ainda não viu nada. Jade olhou-o de soslaio.


Em Tóquio de Cristal era ainda madrugada. De todos os que viviam no palácio, grande maioria dormia, exceto uma mulher – a quem poucos deram atenção nos últimos tempos – Neherenia. Sentada à frente da grande janela, a mais bela e pálida rainha fitava o céu estrelado e a lua que lhe sorria. As unhas pontiagudas roçavam a face alva, enrolavam-se no negrume ondulante dos cabelos e as pupilas douradas cintilavam certa angústia – solidão.

"Eu deveria ter partido com Kakyuu e as outras" sorriu melancólica e construiu em pensamentos a imagem de seu querido pégaso Mas eu queria vê-lo apenas uma vez mais... sussurrou em confissão.

Levantou-se devagar, não havia propósito em tentar dormir se o sono não vinha. Resolveu passear pelo palácio uma última vez antes de retornar ao seu império. Caminhou calmamente pelos corredores, observou cada porta até estancar em frente a uma entreaberta, tênue luz escapava pela fresta, Neherenia guiou-se pela curiosidade e olhou através da brecha – era o quarto da princesa. Na cama, a menina dos cabelos castanhos dormia sono inquieto, na poltrona, Rini acomodara-se e adormecera também atormentada. A rainha da Lua Nova deu-se conta de que a regente do reino de Cristal passara o dia inteiro e a parte da noite ali, feito guarda-costas. Sorriu discreta e entrou, aproximou-se do leito e observou cada detalhe de Crystal.

"Não se parece com nenhum dos dois". referiu-se à Rini e Helios. "É a cara da avó, mas..." atentou-se às madeixas castanhas, lembrou-se da conversa divertida sobre os fios amarronzados no dia do baile e soltou um risinho. Imediatamente cobriu os lábios, temendo acordar uma das duas, aliviou-se ao ouvir o suspirar pesado de Rini, sonolento. Mãe e filha tinham sono de pedra.

— Rini é dura, mas é boa mãe. a voz serena a surpreendeu, Helios estava à porta.

— Não é bom falarmos, elas podem acordar... em baixo tom, Neherenia se pronunciou.

— Venha comigo. ele indicou, ela seguiu.

Andaram silenciosos pelos corredores, pararam no salão real. Lá, a maravilhosa "Branca de Neve dos Espelhos" libertou a voz:

— É bom vê-lo bem, ficamos todos preocupados quando os tais Black Moon o levaram.

— Você mudou muito, Neherenia, até no jeito de falar... observou.

— Ah, pois é... riu de leve a convivência com outras pessoas me tornou menos formal mesmo.

— Fico feliz por você. sorriu simpático, como sempre.

— Helios, retomou a seriedade Quero que saiba que, não importa o que aconteça, vocês têm o meu apoio para o que precisarem!

Obrigado, Neherenia.

— Imagino que não ficarão de mãos atadas simplesmente esperando por notícias daquele planeta. Estou errada?

— Não temos planos de atacá-los, não desejamos inimizade, mas também não podemos baixar a guarda, a ameaça existe... respirou fundo, pesaroso por isso, as meninas passarão por novo treinamento.

— Entendo. deu dois passos à frente, aproximando-se, e, sem cerimônias, tocou-lhe as duas mãos Posso ajudá-los, Helios. olhou-o profundamente, decidida Ao longo dos anos, a antiga rainha confiou-me alguns poderes, na verdade ela os devolveu para mim.

— Mesmo? arregalou os olhos, surpreso.

— Sim, rainha Serena disse que haveria um dia em que eu precisaria usá-los para ajudar alguém querido... pausou embaraçada Creio que esse seja o momento. os dedos deslizaram sobre os dele, afagando-os. Se me permitir, é claro.

— Agradeço imensamente, rainha Neherenia fez-lhe uma reverência De manhã, eu e Rini conversaremos com Sailor Saturno sobre isso, peço que você esteja nesse salão para que juntos resolvamos como o treinamento das guerreiras deve ser feito. recompôs-se, ereto, de mãos livres, sorridente e acolhedor. É uma felicidade muito grande tê-la como aliada, creio que Rini não irá se opor à sua ajuda.

— Sou eu quem deve agradecer pelo voto de confiança. em retribuição, ela se curvou elegante, e sutilmente melancólica Espero que a rainha concorde com a ideia.

— Agora vá dormir, imagino que deva prezar bastante o seu sono de beleza. tentou descontraí-la.

— Sim. ajeitou uma madeixa negra para trás da orelha pontiaguda Certos hábitos nuca mudam! riu, recobrando os ânimos Boa noite, meu rei. depois da última reverência, retirou-se, Helios seguiu direção oposta. "Ele sequer desconfia" constatou por notar a naturalidade com a qual ele a tratava, sem repeli-la e ao mesmo tempo sem correspondê-la, não alimentava esperanças, mas também não as ofuscava. Homens são tão distraídos... pensou alto antes de deitar-se na ampla cama e adormecer.

... Tão logo a madrugada se findou, com os primeiros raios de sol Yumi cumpriu se papel de "carrasco" e foi, de quarto em quarto, acordar cada uma das meninas: Marine, Reiko e Hina. Ponderou a dureza ao, por fim, adentrar o dormitório de Crystal, as outras a esperaram no corredor. Primeiro, numa calma forjada, tocou o ombro da rainha. Os orbes vermelhos abriram-se lentos e turvos, viram apenas os contornos prateados e na voz, a constatação:

— Sailor Wind... esticou os braços ao alto e perguntou enquanto bocejava: Já é tarde?

— Engraçado. a marinheira comentou, embora séria.

— O quê? piscou os olhos umas três ou quatro vezes antes de esfregá-los.

— Parece que vi sua filha em você agora. arqueou uma sobrancelha prateada. Não importa. cruzou os braços Majestade, devo acordar a princesa ou a deixo descansar mais um dia?

— Vou acordá-la... Rini levantou da poltrona e sentou à cama, ao lado da filha A vida precisa seguir seu curso, não é mesmo? pigarreou antes de, enérgica, berrar ao ouvido da menina: Crystal, hora de acordar!

Mais estridente do que a voz da rainha foi o grito de susto da menina. Em reflexo desajeitado, a princesinha rolou da cama e tombou ao chão provocando estrondo tão intenso que os pássaros pousados nas árvores próximas à janela do quarto voaram para longe.

— Definitivamente, nunca mais reclamarei da Yumi ser quem me acorda de manhã! Reiko, no corredor, comentou aos risos, Marine conteve a risada para manter a pose de séria, Hina, tímida, riu brevemente.

— Mamãe! Crystal, sentada sobre o piso, reclamou chorosa enquanto apontava para um calombo recém-formado na cabeça.

— Te conheço muito bem, Crystal! Sei que se não fosse desse jeito você não acordaria! curvou-se de tanto gargalhar.

— Mentirosa! Você fez isso porque acha engraçado! respondeu birrenta.

— Tá, só um pouquinho... ergueu-lhe a mão Digamos que foi para melhorar um pouco o seu ânimo.

A menina, abatida ainda, deu a mão à mãe. Rini a puxou e abraçou-a, acalentando-a. Crystal fechou os olhos e consolou-se naquele afago materno, no colo quentinho e acolhedor.

— O rei, Sailor Saturno e rainha Neherenia aguardam no salão, majestades. Sailor Wind informou-as.

— Neherenia? os preciosos rubis estreitaram-se em estranhamento, mas no fim ela deu de ombros e focou-se no mais importante, tocou os ombros de sua sucessora e, amena, falou-lhe: Sei que você está triste, sem fome, sem ânimo, mas preciso que faça um esforço, Crystal.

— Não quero... reclamou.

— Você precisa ser forte. insistiu.

— Forte... os olhos oceânicos entreabriram-se, perdidos em uma memória Eu prometi que seria... os braços penderam inanimados Falar é tão fácil... suspirou, os cílios umedeceram, ela sabia o que estava por vir, por isso cobriu os olhos escondendo-as: lágrimas.

— Luna e Artemis continuam tentando o contato com Nemesis. fitando o teto para disfarçar a preocupação, a guerreira dos ventos disse.

Crystal enxugou os olhos, voltou à cama, sutil olhou por debaixo do travesseiro – esconderijo da peça que Diamante lhe dera, pegou-a em mãos e uniu-a a maçã rosada, o frio emanado da joia era como o frio das palmas do príncipe. Rini, apreensiva, ficou a olhá-la em silêncio, depois fitou Yumi, aparentemente indiferente, como sempre.

— Façamos o seguinte, você toma o seu banho, se arruma, faz tudo com calma. Daqui a um tempo eu volto. Está certo? tentou ser doce, sabia que a filha precisava disso.

— Tá. Crystal concordou desanimada.

Assim, a guerreira e a regente saíram e fecharam a porta. As três meninas olharam-nas ansiosas por notícias, um suspiro da mulher dos cabelos rosados foi a resposta. Hina, a mais próxima da princesa, baixou o olhar e comprimiu os lábios, ambas partilhavam da mesma falta. Passos metálicos sobre o piso, enfim, chamaram a atenção de todas. Marine foi a primeira a ver quem chegava e sorriu:

— Príncipe Damien! acenou-lhe.

— Bom dia a todas! sorridente, cumprimentou-as O que está havendo?

— Crystal está triste demais... Não quer comer, não quer fazer nada e eu não sei o que faço para ajudá-la... Rini passou a mão pela testa, apreensiva.

O sedniano cravou o olhar pesaroso nas grandes portas brancas que encerravam Crystal sofrida e solitária. Silencioso, se perguntou de diversas maneiras o que poderia fazer para aliviar-lhe a tristeza e, em resposta, seus lábios sopraram um longo e melancólico suspiro.
Marine, antes de ir ao salão com as amigas, Sailor Wind e a rainha, fitou-o atenciosamente sem Damien sequer desconfiar de sua pena.


Desorientada, Quartzy desfilou pelo extenso corredor até chegar ao salão principal onde estavam Topázio, Aoi, Onyx e, isolado, Saphiro.

— Olhem só quem resolveu dar as caras! o cientista quebrou o mórbido silêncio.

— Onde estão o príncipe, Jade, Akai e... parou de falar repentinamente, iria perguntar por Ametista, por breves segundos esqueceu-se de que ela já não fazia parte de sua realidade. Calou-se e sentou-se nos degraus do grande trono, apoiou a cabeça em um dos braços verdes e alegóricos, cravou o olhar no nada. Onde eles estão? retomou a pergunta em voz baixa.

— Viajaram. Príncipe Diamante deu uma de "explorador" e foi ver a situação do planeta. Onyx riu-se Interessante, não?

— Qualquer dia perderá a cabeça por comentários como esse, meu irmão amadureceu, mas ainda se aborrece com facilidade. Saphiro passou ao lado, parou diante da moça cabisbaixa, analisando-a Como está?

— Estou bem, obrigada. reverenciou-o, submissa e cerimoniosa Majestade, pode me dizer o porquê da repentina viagem?

— Meu irmão quis ver o estado do planeta com os próprios olhos. fechou os punhos, amargo A mensagem holográfica não foi o suficiente para convencê-lo...

— Foi para o senhor? encarou-o rapidamente, em seguida rolou os olhos lilases para baixo.

Saphiro não respondeu, o estranhamento surrupiou-lhe a voz. Ele poderia jurar que no tom de Quartzy ouvira oposição à alternativa bélica. Como poderia? Ela, assim como todos, viveu a injustiça na pele, a jovem e bela curandeira perdeu o único ente por culpa da rainha terrestre!
Silente e triste, Quartzy levantou-se. De pé, era quase da altura de Saphiro, pouca coisa menor, de modo que os olhos azuis e púrpuros encontravam-se em par de igualdade, mesmo que sem querer.

— Desculpe-me, com licença... imediatamente, ela pediu. Encarar um príncipe nos olhos poderia ser interpretado como insubordinação. Afoita, partiu.

— Não ligue para Quartzy, é uma tola. Topázio advertiu É a única que ainda alimenta fantasias sobre nemesianos e terráqueos conviverem pacificamente. bufou.

— Meu irmão ainda acredita na convivência, Topázio. foi direto e seco.

— Veremos se ele não retornará mudado. convicto, rebateu.

— Topázio. Onyx o chamou num meneio de cabeça, aquilo pareceu um sinal o qual o príncipe azul desconhecia. Assim que os outros dois trocaram olhares, partiram juntos, Aoi, alegre, seguiria-os, porém o cavaleiro nemesiano apontou-lhe a mão, barrando-a. Ficaram, enfim, no amplo e escuro cômodo, apenas Saphiro e a menina.

— Poxa vida! ela lamentou O mestre sempre me deixa de fora quando está com aquele lá!

— É mesmo? Saphiro aproximou-se, curioso O que acha que eles fazem?

— Eu não sei, só sei que tenho ciúmes... enrubesceu, encolhida.

— Qual é a sua relação com aquele homem, menina?

— Oh, bem, é que... olhou para os lados, depois para ele, por fim mirou o chão, vermelha como um tomate Nós, eu, ele e Akai...

— Está bem! cortou-a. Dando-se conta, ele próprio ficou sem jeito Não precisa explicar.

... Para certificar-se de que ninguém atrapalharia, Onyx pregou à porta um dispositivo – uma espécie de pedra pequenina, arredondada e negra, emoldurada por metal prateado –, assim que o objeto foi encaixado próximo à maçaneta, uma fraca luz esverdeada contornou a entrada e se dissipou.

— Pronto. esfregou uma mão à outra, depois se virou de frente ao homem robusto e louro, estavam no laboratório. Da manga do jaleco cinza o gênio tirou o esférico controle negro, a luz ainda piscava.

— E então? impaciente, questionou.

— A luz pisca como um simples ponto ainda, está vendo? Apontou.

— E daí?

— É sinal de que o brinco do príncipe está nos domínios do palácio de cristal. Enquanto lá estiver, não posso enviar nenhuma de minhas criaturas, elas seriam purificadas de imediato, isso se eu conseguisse a proeza de transportá-las. Não podemos usar o poder do cristal principal sem que Saphiro nos descubra, os meus cristais não são o suficiente para superarem o campo de energia protetor...

— Conte-me logo a parte que não sei.

— Ora! riu Que afobação! ajeitou os óculos Pois bem, configurei o controle de modo que a todo o momento a pequena pedra seja rastreada. Se, por um acaso, a princesa cair na besteira de sair do palácio carregando-a consigo, a luz piscará em vermelho e assim saberemos o instante em que poderemos agir.

— E se ela não levar a pedra para fora do palácio, estúpido? irritou-se.

— Ah, meu caro, até parece que não conhece as mulheres! Se essa garota está apaixonada pelo príncipe, ela não largará esse brinco. Basta ficarmos à espreita, em algum momento a oportunidade surgirá. E então...

— Mate-a. ordenou.

— Sem dúvida, pode confiar!

— Não pode falhar, Onyx. Essa princesinha é nosso maior empecilho, enquanto ela existir o lado regenerado de Diamante não o permitirá agir.

— Eu sei, já entendi, que desagradável! guardou o objeto por dentro da manga. Não se preocupe, estou atento.


Crystal apertou a pedra negra nas mãos depois de contemplar o próprio reflexo nela por minutos quase eternos. Até o presente, não permitira que repusessem um espelho na penteadeira por não aguentar olhar para si própria, no entanto, não conseguia evitar encarar-se na joia do brinco de seu príncipe, ao menos naquela escuridão suas olheiras não se destacavam, e às vezes a pobre princesa poderia jurar que, quando o negro reluzia quase púrpuro, os olhos de Diamante lhe piscavam e sua voz grave lhe cobrava:

— Seja forte, seja você mesma... a menina sussurrou e uniu a pedra ao peito, sentou-se, olhou para os lados, por fim guardou seu tesouro na gaveta da mesa de cabeceira e sem pressa alguma, a respirar fundo como alguém que busca desesperadamente por coragem, abriu as portas do quarto. À primeira vista, sua mente pregou-lhe uma peça juntamente à luminosidade de fora: viu o branco tomar os escuros e lisos cabelos, o violeta cintilar no azul, e o cristal tornar-se nobre algodão ebúrneo. Ingênua, ela sorriu e foi retribuída com ternura, até que tudo voltou ao normal tão logo ela pronunciou o título e o nome Príncipe Damien, por que está aqui?

— Eu... encostado à parede, hesitante, ele apertou os próprios dedos, entrelaçou-os e os escondeu rente às costas estava esperando por você. antes que Crystal tivesse oportunidade de fazer perguntas, o próprio justificou: Sua mãe desceu ao salão com as outras a pedido de seu pai.

— Meu pai... sussurrou, o coração pulou. Somente com as palavras de Damien a jovenzinha assimilou bem as ideias e deu-se conta de que o rei de Tóquio de Cristal estava em seu lar, são e salvo. Trêmula, tapou a boca com as duas mãos trêmulas e geladas. Embora despedaçada, sentiu-se alegre, e em seguida, culpada. Meu pai! exclamou aos prantos, enfim o corpo inteiro tremia feito gelatina.

— Princesa! o príncipe de um planeta distante a tomou nos braços e naquele abrigo ela se acolheu, quase despencou Sim, seu pai! Ele está no salão, Sailor Wind não disse?

Eu sou muito egoísta, né? Que vergonha! as unhas arrastaram-se pelo peitoral lapidado em cristal furta-cor Meu pai está de volta, foi salvo... e eu não consigo sorrir! mordeu o lábio inferior e reprimiu um gemido choroso Só consigo pensar Nele!

—... Quem sabe se a princesa vir o pai, essa tristeza não se alivie? terno, passou os dedos pelo topo da cabeça dela.

— Por que você se importa tanto assim? enxugou os olhos com tamanha força que os avermelhou, em seguida, encarou Damien confusa. Primeiro, vem ao meu quarto, me traz bolo... E agora de guarda, na porta... Por quê?

—Você realmente acha... pausou para segurar as mãos estremecidas que para tudo há de existir uma razão de ser? foi firme e verdadeiro, até esperou uma resposta, só que notou a não vinda, portanto, sentiu-se compelido a tomar a iniciativa de esquecerem o assunto, por ora. Abriu um largo sorriso e sugeriu: Vamos até seu pai?

— Por favor... baixou o olhar, ele deu-lhe o abraço e a princesa teve de aceitar, do contrário não aguentaria dar vinte passos sem cair.


Olho de Águia abriu um olho por vez, assim que a vista deu-se por nítida o vassalo de Helios notou a luz invadir singelamente o cômodo entre uma cortina e outra. Ele, nu, atravessado na cama, entrelaçado nos lençóis de seda perolados, estava só.

— Mizumi, mas que mania... sentou-se emburrado, cobriu as vergonhas e cruzou os braços. Finalmente, notou na cabeceira um bilhete selado com um beijo cor-de-rosa, marca mais que bem-vinda do batom dela – que ele preferiria ser nos lábios desejosos dele e não em um mero pedaço de papel. Assim que estiver composto, venha ao salão dos reis, é assunto de suma importância... leu em voz alta enquanto rolava os olhos pela caligrafia perfeita Mais tarde continuamos a nossa brincadeira. o rosto tomou cor similar a de seus cabelos arrepiados, um sorriso sapeca lhe escapou desapercebido e, por debaixo das cobertas, a sua empolgação enrijeceu dando a resposta.

Arrumou-se apressado, deixou o dormitório ansioso e otimista, deu de encontro com Damien e Crystal de braços enlaçados, quase teve um piripaque.

— Princesa! exclamou-se e reverenciou-a "Mas como é rápida!" – não se atreveria a expressar aquela opinião em voz alta Príncipe! reverenciou-o seguidamente Estão indo para o salão? Permitam-me acompanhá-los!

— Obrigado, mas não creio que seja necessário... Damien disse calmo.

— Vem sim, Olho de Águia! Crystal atropelou.

— Ih... o guardião olhou para o príncipe, depois para a princesa, e fez o percurso com os olhos tantas vezes que quase ficou vesgo. "Atrapalhei um e salvei outro!" sentiu.


Após muito insistir, Diamante sentou-se frustrado sob uma gélida rocha. Ninguém naquele vilarejo decadente atendeu ao seu chamado. De nada adiantou bater de porta em porta, anunciar o seu nome e suas intenções, não houve resposta. Desejaria que o tivessem xingado, até mesmo que lhe atirassem objetos, porém aquele silêncio era o pior castigo entre todos. Não houve quem ao menos demonstrasse curiosidade a ponto de entreabrir uma cortina, nada. O Nada – era isso, um grande limbo, um grande e cruel vazio – eis uma fração do que na verdade deveria ser todo Nemesis.

— Príncipe, se me permitir, posso arrombar cada porta. Jade fincou a lâmina de sua lança no gelo negro.

— Para quê? Para deixá-los ainda mais apavorados? Não é assim que os conquistarei. baixou o olhar.

— Com todo o respeito, majestade, não é lamentando-se de si mesmo que conquistará o respeito de alguém neste planeta. Se quiser ser admirado, terá que ser temido. os olhos de mel, duros e impetuosos recaíram sobre Diamante. Ele, num reflexo, ergueu-se para não se mostrar intimidado. À frente, Akai com pequena chama em mãos, aproximou-se de um dos casebres maltratados e bateu insistentemente no vidro da janela até que, sem querer, quebrou-o.

Ops! pulou para trás. Juro que não tive a intenção, só que está muito frio aqui e então, eu ia pedir, educadamente é claro, que alguma dessas pessoas cagonas nos desse abrigo! tentou se desculpar de qualquer jeito Qual é?! Tá frio pra caramba aqui! O que custa abrirem a porta?!

Diamante, calado, foi até a casa e, aproveitando-se de a menina esquentada ter quebrado o vidro, afastou as cortinas e congelou diante do cenário que encontrou. No pequeno espaço adornado por móveis rústicos, dois hominídeos de sexo indecifrável estavam caídos no piso, no centro da saleta. Suas peles ainda não haviam entrado em decomposição, porém ambos estavam tão magros que seus ossos mostravam-se perfeitamente delineados, não possuíam mais sombra de músculo, pareciam ainda mais pálidos iluminados por lâmpadas de luz fria, os cabelos ressecados eram escassos, as roupas em frangalhos, e as luas negras enrugadas na testa eram como um sádico sorriso. Estarrecido, o príncipe pôs cada porta daqueles casebres a baixo, e em cada pequena moradia mais famílias como aquela – pares de cadáveres feitos de pele e ossos – ele encontrava. Um amargor na garganta quase o sufocou, já sem esperanças, destruiu com apenas um murro a porta da última casa das redondezas, caiu de joelhos diante da mesma cena – um cadáver estirado em uma espécie de cama lapidada em pedra, outro, menos maltrapilho, encolhido no canto, escorado à parede. O regente de Nemesis aproximou-se primeiro do moribundo deitado, em seguida parou diante do segundo recostado em posição fetal. Para a sua surpresa, ao dar as costas e preparar-se para sair, uma mão franzina agarrou-lhe o tornozelo com a força restante que tinha. Diamante, num misto de horror e pesar encarou a face da criatura, olhos negros, fundos, opacos, contornados pela ossada ressaltada o encararam pedintes, os dentes à mostra, pertencentes a uma caveira, rangeram-se em esforço e o som lamurioso chegou aos ouvidos do Príncipe Branco:

— Comida... e assim, o morto-vivo, na verdade o vivo que estava à beira da morte por inanição deu seu ultimo suspiro e sua cabeça pendeu à frente de Diamante. Foi preciso quebrar-lhe os dedos ossudos para que se desgarrassem da calça nobre, e então o responsável por Nemesis curvou-se, sentindo uma forte náusea acompanhada de vertigem. Jade lhe deu apoio.

— Eu desconfiava que isso aconteceria, sinto muito príncipe. confessou Mas o senhor precisava ver com os próprios olhos... fechou os dela, de luto.

— Isso é... Akai, apavorada, manifestou-se Isso quer dizer que outros lugares serão como esse? Tem mais gente assim por aí?!

— Eu diria que seria uma surpresa encontrarmos um lugar em Nemesis , com exceção do palácio, onde haja alguém que não tenha morrido de fome. Jade não titubeou em declarar.

Diamante cobriu a boca com uma mão e em disparada saiu do casebre, no meio do frio, do nada e da escuridão, ele se apoiou em uma rocha e então pôs tudo para fora. Jade o observou de longe, a imaginar o quão útil o vômito real teria sido para aqueles que há tempos não tinham o que comer.


As portas abriram-se devagar, tão logo estavam abertas Crystal se deparou com o pai e, instintivamente correu até estar próxima o suficiente para jogar-se em seus braços.

— Papai! abraçou- o fortemente como se há anos não o visse, as batidas do coração de Helios a confortaram o suficiente para que, por instantes, ela apenas se importasse com o bem estar dele Me perdoe! Eu deveria ter vindo até você há muito tempo! afundou o rosto no peito paterno, ao seu lado, sua mãe lhe sorria.

— Crystal, minha princesinha, não se preocupe. abraçou-a calorosamente, satisfeito em vê-la Eu sei que a vida não tem sido gentil com você... Logo você, criada num mundo pacífico onde as maiores preocupações eram fazer as tarefas de casa e entregá-las em dia! acariciou-lhe a face Mas, às vezes, é necessário sofrer para amadurecer... Cada experiência fará de você uma mulher forte e confiante, eu sei. ergueu-lhe o rosto para que pudessem olhar-se nos olhos.

— Forte... ela repetiu, aspirando tornar-se naquilo o mais rápido possível.

— Sim, forte. Helios enfatizou Você, as meninas, e todos nós havemos de nos fortalecer. Isso exige força de vontade e, também, treinamento.

—... Treinamento? piscou os olhos, confusa, só então notou ali a presença de todos os que viviam no castelo e também a de Neherenia.

— Sim, minha princesa, treinamento. a rainha da Lua das Trevas a reverenciou de perto Por isso me mantenho aqui, prometi a seu pai... Rini lançou-lhe o olhar e à sua mãe corrigiu-se logo — que iria treinar a você e às outras.

— Mas, para quê? Crystal virou-se de frente a ela.

— Para que, se um dia um conflito vier a acontecer, todas vocês estejam preparadas. a mais bela entre todas as mulheres respondeu de pronto.

— Mamãe, papai, o que é isso tudo? afastou-se de todos, parou no centro do salão e sentiu-se acuada diante todos os olhares direcionados a ela.

— Devemos estar prontos para qualquer coisa, Crystal. Rini suspirou.

— Não! exclamou Não, eu me recuso! afastou-se em passos largos Não vou treinar para ficar forte se ficar forte significar lutar contra a pessoa que eu amo! Nem pensar! Vocês não podem me obrigar!

— Princesa, não seja tão egoísta! Marine interveio sem pensar Você só pensa nesse príncipe! E nós, não importamos?E o seu povo? Se formos atacados, se formos feridos, você não sofrerá?!

Crystal fechou os punhos, baixou o olhar, estufou o peito e, numa atitude medrosa, correu para longe, correu veloz, derrapou ao chegar ao seu quarto, abriu com força a gaveta da mesinha de cabeceira tão brusca que arrancou-a, catou ali a peça de cristal negro, engatou-a em uma corrente e a pôs no pescoço como um pingente. Mesmo ofegante, não poupou fôlego e correu mais uma vez, disparada como uma bala, todavia em total desgoverno. Não tinha rumo, apenas desejava fugir de tudo e de todos, embora as palavras de Sailor Acqua martelassem-lhe a mente.

"Me perdoem, posso até ser egoísta, mas prefiro morrer a ter que lutar contra ele!" a face alva e os cabelos celestes desenharam-se em sua memória Diamante!

— Princesa! outra voz, não a que ela desejava ouvir, gritou, ele se aproximava. Espere, não vá para tão longe! a mão quase a alcançava, ambos estavam por ultrapassar os limites do palácio.

Onyx, ainda no laboratório, vibrou ao vislumbrar a luz vermelha piscar em seu pequeno aparelho, na palma de sua mão.

— Contemple, Topázio! apontou Eu não disse que, cedo ou tarde, ela sairia do palácio com o brinco? gargalhou e, ansioso, apertou as teclas laterais do objeto esférico, de modo que uma luz clara se fez nele e expandiu-se até alcançar o teto, nela a imagem da princesa fugitiva se fez, e em seguida, os dois nemesianos foram expectadores do desespero de Damien:

O punho firme agarrou o pulso delicado, puxando-a de encontro a ele. Estavam tão rápidos que os pés entrelaçaram-se e acabaram por cair, ajoelhados e de frente um para o outro, ela tomada nos braços fortes, revestidos de armadura, a cabeça encaixada à larga ombreira, Damien a apertou e a prendeu com força, Crystal não podia mover nada além dos olhos arregalados.

— Não percebe o quanto nos preocupamos com você? Sei que é difícil, sei que está sofrendo e que o sofrimento é capaz de cegar qualquer pessoa, mas não se esqueça de que você não é a única pessoa no mundo que sofre! E... você não está só! Todos temem por você, não vê? O seu sofrimento não é só seu, é de todos nós! Quanto mais você sofre, mais sofremos! Você quer ver seu pai, sua mãe, seus amigos todos infelizes?

— Não!

— Olhe ao seu redor! ordenou e ela o fez. Ali onde estavam, um pequeno grupo de pessoas os rodearam. Havia crianças, mães, famílias atordoadas de tanta preocupação, todos de joelhos, curvando-se diante daquela a quem reconheciam como sua princesa. Estão todos apavorados, e estão todos sofrendo! Damien encerrou.


— O que está esperando para atacar? Topázio questionou impaciente, e mais irritado ficou por ver o outro não reagir, apenas alargar um sorriso venenoso. Me dê isso aqui!

—Topázio, você é mais inteligente do que isso, vamos! Não percebe? os olhos alargaram-se insanos Você diz que essa menina é o motivo de o príncipe não querer uma guerra, certo? Isso porque ele está apaixonado por ela, mas veja bem... enquadrou nas mãos, como se buscasse o ângulo perfeito, Crystal nos braços de Damien não seria motivo maior e mais delicioso para uma guerra... uma possível traição?

O cavaleiro dourado ponderou, estreitou o olhar e ajeitou o enfoque no casal, então, em um raro momento, alargou um sorriso.

— Traição, sim, a reencarnação de Sailor Moon enfim nos braços da reencarnação de Endymion, posso ver, mais claro e transparente do que a água! pousou a mão no ombro do gênio Quem diria, Onyx? O destino impõe-se cruel no fim das contas. Para que matá-la se podemos usufruir da indescritível visão que teremos um dia?

— Sim! Exato! riu insano Seremos expectadores da cena! Príncipe Diamante, amargurado, se encarregará de matá-los com as próprias mãos!

— E ele sofrerá, ah sim... os orbes dourados faiscaram tenebrosos, a sede de vingança transbordava em seu brilho sórdido Sofrerá profundamente, até que eu, Topázio, herdeiro do trono por direito, me incumbirei de dar cabo de sua vida! cerrou o punho, rangendo o metal Eu prometo, em nome de meu pai, e do meu!

Mesmo Onyx, irônico e provocador, tremeu ao ouvir a voz rugida do outro.


A pedra no pescoço de cristal foi sutilmente envolvida por uma aura negra, tão rápido ocorreu que ninguém percebeu. Príncipe e princesa ergueram-se juntos, de mãos dadas, rodeados por súditos abatidos e preocupados.

— Princesa, Damien sussurrou talvez esteja na hora de você conhecer mais de perto as pessoas que vivem além dos portões do palácio estendeu-lhe a mão e eu posso ser o guia! sorriu.

Crystal fitou cada um daqueles que ali estavam, embora sofridos lhes sorriam honrados, e por trás deles os enormes prédios lapidados em cristal cintilavam – as moradas que, juntas, constituam um reino – o dela. Não desejava treinar para haver de lutar contra o homem que amava, por outro lado sentia-se culpada por ficar apenas se lamentando enquanto deveria estar fazendo algo útil. Portanto, mesmo fraca e abatida, deu a mão a Damien e então, juntos, iniciaram uma excursão real com o objetivo de conhecer melhor quem vivia ali e do que aquelas pessoas precisavam. Jamais a princesa poderia desconfiar que, em algum lugar naquele vasto Universo, seu príncipe fazia algo similar... no entanto, obviamente ele confrontava uma realidade diferente, muito mais cruel e fatal do que a que Crystal estava por descobrir.

Continua...


Notas:
Nossa, que capítulo cruel! Estou super curiosa para saber o que vocês acharam de tudo o que aconteceu aqui! Eu sei que muitos devem estar de saco cheio da Crystal chorona e lamentosa, lembro até que a MViana-chan comentou que ela fora egoísta por não demonstrar se importar com o próprio pai, mas lá vem a criadora defender a cria: a Crys é uma menina de 15 anos que nunca enfrentou uma perda antes, foi criada com todos os mimos em um palácio, protegida do mundo à fora e agora se depara com uma realidade cruel, deem um crédito a pobrezinha, gente! A pessoa precisa apanhar para aprender, confiem na Crys-chan!
Enfim, feito o apelo, não posso falar mais muita coisa, imagino discursos de ódio aqui contra certos (costumeiros) personagens e já me divirto previamente! He,he,he, he!
O título do capítulo foi sugestivo? Bem... vejamos nos próximos!
Fico por aqui, agradeço novamente a todos que me apoiam, que leem e dedicam um pouco mais de seu tempo para comentar! Cada comentário é um lindo incentivo!
Nos vemos no próximo, certamente eu não levarei meses e meses para postar!
Kissuuuus!