Cap 34 – ELE NÃO A MERECIA
Ele não a merecia – hesitava o Rei Elessar à porta dos aposentos reais. Tornara-se quem era por ela, somente por ela. Reunira os povos livres da Terra Média sob uma só bandeira, por ela, enfrentara o mal que os ameaçava e vencera-o, por ela, ascendera ao trono de Gondor, retomara a linhagem dos Reis, tudo por ela, e no entanto ...
"Meu amor, meu príncipe, meu rei" impedira-o ela de dar por encerrado o assunto, forçando-a a mirar seus olhos, rasos d'água "a senhora Míriel e seu esposo aguardam a chegada de seu novo filho para qualquer momento. Não transforme essa espera num tormento de angústia, deixe-a ir ter com seu marido, com suas demais crianças."
"Senhora mais linda e mais amada desta terra" suspirara então "mais bondosa, mais compassiva, mais pura e ingênua ... eu não posso fazer isso. O auxílio à evasão de um criminoso é um crime, não posso beneficiá-la mais do que já o fiz. A justiça que se aplica a uns e não se aplica a outros não é justiça"
"A justiça que justifica sua aplicação no mero fato de ser justiça tampouco o é. A verdadeira justiça não prescinde da compaixão e da misericórdia ... Liberte a moça, se a tivesse conhecido como eu, saberia que o coração dela é cheio de amor, que somente o amor move suas ações..."
"Menos ainda poderia o Rei de Gondor opor à Lei a simpatia da Rainha por alguém que afrontou essa."
"Nem se eu o pedisse?"
O Rei Elessar fitou sua Rainha, a visão de Lúthien à qual acorrera ainda praticamente um menino, chamando-a "Tínuviel! Tínuviel!", temeroso de que se desvanecesse, antes de lentamente ajoelhar-se à sua frente em adoração da Ave.
"Se a Rainha da Terra Média clamar por sua prerrogativa de conceder a graça da anistia a esse crime, ele será anistiado" declarou o filho de Aratorn, tomando as mãos daquela que para ele era a personificação de todo o bem, toda a virtude, tudo pelo qual valia a pena lutar "Porém, tal anistia se estenderá a qualquer crime da mesma natureza, todos os assassinos custodiados em Arnor e Gondor serão soltos ... e eles não são tão poucos quanto se poderia desejar."
Arwen estremeceu mirando o homem ajoelhado que aguardava sua decisão, suas mãos retribuindo o aperto das dele.
"Não farei uso da prerrogativa da graça real" acedeu por fim, para alívio do marido, que se pô de pé, beijando as mãos que ainda retinha nas suas.
"Mas lamento que o Rei de Gondor não esteja disposto a procurar por uma fundamentação legal que lhe permitisse transigir nesta questão"
Elessar a olhara, em dúvida sobre a possibilidade da frase dita com a inspiração de piedade e compaixão características da esposa conter também algo de admoestação no tom em que era proferida.
"Transigiria imediatamente nessa questão se o criminoso cuja fuga a esposa do Senhor de Harad promoveu retornasse para julgamento. Na verdade já transijo sobremaneira em não enviar imediatamente as forças de Gondor na missão de recambiá-lo."
"Não faça isso!" Afastara-se Arwen, um ar de franco horror em seu semblante "Não é possível que ignore o abismo de tragédia no qual estaria colocando a paz entre os homens que tanto almejou construir com tal ação."
Ao menos isso ele lhe prometera que não faria. É óbvio que não desconhecia que, sob qualquer pretexto, fazer uso da força de Gondor no seio do acampamento dos haradrim seria o mesmo que declarar guerra ao povo de Harad.
E tudo de que a Terra Média não precisava era de uma nova guerra.
Aragorn finalmente respirou fundo e descerrou a porta que dava acesso aos largos mas aconchegantes cômodos íntimos. Iria ajoelhar-se aos pés de sua Lúthien novamente, e pedir que ela fizesse uso da prerrogativa da graça real para consigo, embora ele não a merecesse.
- Você estava certa, todo o tempo – declarou – contra tudo e contra todos, apenas o seu coração foi capaz de enxergar a verdade.
- Do que você está falando? – espantou-se Arwen. Porque ele se lhe rojara aos pés?
- O homem de Harad, surgiram muitas dúvidas de que tenha sido ele a matar a esposa – o Rei engoliu em seco – Haldir já comunicou a senhora Míriel que a mesma está livre.
- Oh, Aragorn ! – Arwen caiu de joelhos junto à ele – Que maravilha! – um sorriso tão belo e alegre em seu rosto que o marido desejou que o tempo parasse naquele momento – a dama de Gondor e o senhor de Harad poderão reencontrar sua felicidade juntos novamente – e a Rainha atacou o Rei com beijinhos e beijinhos sem fim ...
...
Junto à lareira, seus corpos recostados um no outro, ele ainda não acreditava que se haviam amado no chão, sobre os tapetes pelos quais haviam rolado num abraço interminável, que continha todo o perdão, toda a graça que ela lhe concederia sempre, sem que fosse necessário que ele pedisse.
- Não, minha Rainha, não me negue o direito, o gosto de oferecer-lhe uma vontade, um capricho que seja, em desagravo por tê-la feito casar com um idiota ...
Era difícil fazê-la levá-lo a sério quando os dois não paravam de rir-se na embriaguez eufórica à qual a paixão pode conduzir os amantes.
- Há uma coisa então ... um desagravo que é realmente necessário – concordara Arwen por fim.
- E o que é?
Ela soergueu o tronco, amparando-se numa das mãos, encantos parcialmente encobertos pelos cabelos castanhos e brilhantes, num tal esplendor de beleza que chegava a ser solene:
- Abra as portas da Cidade Branca para os haradrim, Rei de Gondor, e receba o Senhor deles em seu Palácio.
O Rei pasmado e a Rainha nua estudaram-se.
- Não é certo, Arwen, o que me pede não é nada mais que a minha obrigação para com as pessoas contra as quais cometi tamanha injustiça, bem como interesse de Gondor para com o Governo de Harad. Quero fazer algo para você, minha amada, e não algo que a conveniência do Reino lhe inspire a pedir.
- Convide o chefe de Harad e a esposa dele para nossa casa, marido – sorriu-lhe Arwen, uma coisa inesperada, um quê de gaiato em seu olhar – Quero conhecer o Grande Daror de Harad.
Aragorn franziu o cenho, que interesse poderia ter sua donzela num bárbaro?
- Ele deve ser ... diferente.
Aquele era o tipo de ilação que o Rei jamais esperaria de sua Rainha.
...
- Faramir! – e o Rei Elessar não se contivera, e, após haver cumprimentado a Sra. Éowyn, abraçara ao último dos Regentes assim que este chegara ao Palácio, em frente à boa parte da corte.
- Meu Rei – respondeu este simplesmente, com o mesmo título, com as mesmas palavras com que seu irmão, Boromir, havia declarado a Aragorn sua fidelidade, sua vassalagem, no que parecia ter sido em outra Era.
No coração de Faramir, o desejo de servir ao Reino, a compreensão das angústias dos outros homens, o amor ao bem; em seu semblante, talvez sem que se desse conta, a sabedoria dos conselheiros que haviam deixado esta Terra ...
O filho de Denethor não precisava ser informado que uma preocupação sem tréguas pesava no coração do Rei, portanto negou a necessidade de refazer-se da viagem tão logo se viu instalado no Palácio com sua esposa pela Rainha Arwen, preferindo reunir-se prontamente com seu soberano.
Gimli e Legolas acompanharam Faramir e o Rei Elessar aos escritórios deste, onde todos tomaram assento junto à mesa, mantendo-se em silêncio até que o príncipe de Ithilien houvesse terminado de ler o relatório de Haldir.
Quando o irmão de Boromir finalmente chegou ao final do processo encadernado, contudo, ainda assim nenhum dos presentes se pronunciou.
Faramir parecia processar mentalmente não só a informação contida nos autos, como aquilo que seu relator evitara que contivesse: um juízo moral sobre os atos narrados, o impacto emocional daqueles eventos.
- Ninguém faria melhor do que Haldir, não é mesmo? – quebrou o silêncio o príncipe Legolas.
- É fato, daria um juiz tão austero quanto apegado aos fatos – respondeu o último Regente - Por que não está aqui?
- Humpf – resmungou Gimli – porque é um infeliz de um perfeccionista, se quer saber – mas o filho de Glóin não se deteve em certificar-se se Faramir queria sabê-lo ou não. – Fica a revirar papéis, a escrever pelas madrugadas, de repente pára, como se escutasse vozes ou refletisse sobre alguma coisa, e quando lhe perguntamos se já não terminou o trabalho, diz que ainda falta um detalhe. O que ainda pode estar faltando neste calhamaço em suas mãos, diga-nos Faramir?
Os demais presentes chegaram a esboçar sorrisos, mas, quando o príncipe de Ithilien devolveu o volume à mesa de trabalho do Rei, este suspirou:
- Se ainda há mais, embora devesse, juro que não o desejaria saber: usura, jogo, perjúrio, lenocínio, chantagem, coação, morte, especulação ... Nada pode ser pior que isso, e o que precisamos fazer para dar um basta aos gananciosos de Minas Tirith é devolver ao Rei de Harad esses dotes depositados junto ao Tesouro Real: é um ouro amaldiçoado, que desperta a cobiça dos homens!
- Infelizmente, Majestade, não creio que o Tesouro Real esteja em condições de ressarcir o dote de Harad em suas esposas – esclareceu prontamente Faramir.
- Como não? – questionou atônito o Rei Elessar. Fora para que Faramir dirigisse tal empreitada que o aguardara.
- O ouro de Harad foi utilizado para financiar a reconstrução de Arnor e Gondor, a distribuição de Terras entre os veteranos das Guerras ... Somente o crédito fácil e barato pôde evitar ainda mais especulação e carestia: o Tesouro Real recebe dividendos por estes empréstimos, porém um tal montante demoraria mais de uma geração para estar reconstituído.
Aragorn, Legolas e Gimli olhavam para Faramir boquiabertos ... especialmente o anão, algo enamorado das Minas de onde tanta riqueza houvera de ter fluído.
O Rei Elessar deixou pender a cabeça, esfregando o rosto nas mãos, cotovelos apoiados na mesa.
- Quer dizer quê ... Faramir, como uma tal coisa pôde ser feita sem o meu conhecimento?
- Desculpe-me, Senhor, mas elas foram feitas com o Vosso conhecimento: na época em que a população faminta oriunda dos campos devastados pela Guerra do Anel aportava na Capital, Vossa Majestade ordenou a utilização de todos os recursos disponíveis no Tesouro Real, sem exceção, num projeto de urgente reestruturação da economia. Entre os recursos disponíveis no Tesouro Real, certamente estava o ouro de Harad, na verdade, após toda a Guerra, toda a ação malfazeja de Sauron nos anos anteriores, constituía sua maior parte.
O Rei Elessar ouvia atentamente, os cotovelos agora apoiados nos braços de sua cadeira, o queixo numa das mãos: tudo que Faramir dizia era verdade.
- É fato - acedeu o monarca por fim – e, da prosperidade que toda Arnor e Gondor parecem ter começado a experimentar novamente agora, foi você o arquiteto e fiel executor, mais um dos motivos pelos quais lhe serei sempre grato.
- O serviço dos súditos ao Reino não deve ser motivo de gratidão, pois não constitui nada além do que a obrigação de quem serve.
- Se toda obrigação fosse sempre cumprida com tal capacidade e empenho, meu bom Faramir, esta Terra Média, ou ao menos este Reino de Arnor e Gondor, seria um lugar muito melhor do que o relatório de Haldir sugere que seja.
Faramir sorriu tristemente. As palavras de seu Rei revelavam uma certa decepção deste consigo mesmo: como se só agora este percebesse que governar com honradez e dignidade não seria suficiente para instaurar tais valores no coração de seus súditos.
- Cada homem exerce as capacidades que possui, Majestade; comerciantes possuem capacidade de vislumbrar possibilidades de lucro onde outros nem a imaginariam: bem direcionada, essa capacidade pode conduzir a um progresso que beneficia a todos, sem controle, certamente conduz à especulação.
- E como vou controlá-los quando suas tramoias parecem ter se entranhado tão fundo na Cidade.
- Deixe-os provar do próprio remédio, deixe que amarguem o prejuízo dos estoques encalhados, dos empréstimos que não conseguirão receber ou honrar.
- Mas ... uma quebradeira não conduziria a um novo ciclo de carestia e fome?
- Não, porque aqueles que de fato produzem não estão tão envolvidos nessa tentativa de lucro descabida, e os comerciantes adequam-se a todo tipo de situação: quando por fim virem que o Rei não os socorrerá, desfar-se-ão de seus estoques a qualquer preço, renegociarão contratos e empréstimos e, por fim, se portarão com mais hombridade e comedimento enquanto os ecos da lição que aprenderem perdurar.
Os raciocínios dos homens podiam ser de fato bastante tortuosos – pensava Legolas.
- O que de fato está propondo então, Faramir, é que Aragorn não faça nada: fique ouvindo o clamor dos mercadores até que se cansem, sem de fato dar-lhes uma resposta?
- Ao contrário, creio que o Rei Elessar deve dar-lhes uma resposta extremamente esclarecedora, e que os calará em definitivo.
- E qual seria? – questionou curioso Aragorn.
- Receba o Chefe de Harad como o estadista que é em sua Cidade, libere os portões de Minas Tirith para ele.
Aragorn soltou uma gargalhada:
- Interceptou-o nos corredores a Rainha, antes que viesse ter a esta sala?
- É fato – concordou Faramir – com graça inata e rapidez surpreendente, na verdade pôs-me a par de tudo que se passou neste inverno. Inclusive a rusga entre o Capitão Haldir e sua esposa e a desfeita à Harad materializada na detenção de sua Rainha, gestante.
Aragorn gemeu intimamente: Arwen era doce e dotada de grande capacidade de perdão, mas ela não esquecia e, ao contrário de Haldir, expressava suas emoções, fossem de alegria, fossem de indignação, com insuspeito ardor.
- Então, Faramir, suspeito que tenhamos um novo problema.
- Qual seria?
- Já abri as portas de Minas Tirith aos homens de Harad, mas eles para cá não tornaram, e já convidei o Grande Daror para vir ter ao Palácio, mas ele não aceitou.
- Ah, não? – surpreendeu-se Faramir. Daror lhe parecera tão cheio de curiosidade sobre Gondor, o Rei Elessar, Minas Tirith, seu Palácio, seu povo, quanto o próprio Faramir se interessara por tudo que pudesse conhecer do Harad. Haviam até discutido sobre a possibilidade de reconstrução da antiga estrada entre o Norte e o Sul, e Daror o convidara a inaugurá-la, indo conhecer sua própria capital.
- Não – confirmou o Rei Elessar – respondeu que a esposa acabara de ter um filho, que não poderia ausentar-se do acampamento agora, algo assim.
- Respondeu que a esposa não poderia ausentar-se do acampamento com um filho recém-nascido ... Pode ser a maneira que encontrou para dizer que não pode vir sem a companhia da esposa.
- Será?
- Decerto, estivemos juntos várias vezes e, me pareceu que é a Sra Míriel que transmite o pensamento de Daror, pois o mesmo não é íntimo da língua comum.
Legolas e Gimli acompanharam a risada do Rei Elessar desta vez, lembrando-se dos erros e impropriedades cometidos pelo Gigante de Harad quando de seu encontro no Pelennor, quase sete anos atrás, bem como da desconsideração com que lhes parecera tratar a própria irmã na ocasião.
- Se é assim, Faramir, tenho uma missão para a qual você parece ser a pessoa mais indicada; haja vista que Haldir, apesar da esposa, parece nunca ter estabelecido um relacionamento positivo com os haradrim.
- Pois não, Majestade?
- Vai ao acampamento de Daror de Harad, e refaz formalmente o convite para que venha conhecer Minas Tirith, em cujo Palácio o Rei e a Rainha esperam receber a ele e à esposa com um banquete à altura, e desculparem-se dos terríveis mal-entendidos que quase levaram à guerra entre nossos povos.
...
